No Surprises Seguir história

chrisstern_ Chris Stern

Uma despedida pequena e íntima em forma de oneshot, baseada na música No Surprises.


Fanfiction Bandas/Cantores Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#música #radiohead #thom-yorke
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Capítulo Único


Para Emily N.

Com todo meu amor, espero que um dia você possa me perdoar. E também me entender.



O trânsito não estava tão ruim como eu sempre fazia parecer, mas admito que a passagem pelo túnel durar menos que 40 minutos me deixou com uma parcela ínfima de animação.

A quinta-feira estava chuvosa, pelo menos aqui estava. As pessoas estavam devidamente agasalhadas na rua, os cães se abrigavam embaixo de toldos, os guarda-chuvas compunham quase que 90% de todo o cenário, perdendo apenas para o mar de carros no qual eu estava no meio. Ao sinal vermelho, praticava meu hábito imutável de fechar os olhos e imaginar essas estradas vazias, as quais eu pudesse acelerar e fugir, fugir e apenas ver o céu por quilômetros e quilômetros, mesmo que fosse este céu mórbido e cinza.

As gotas de chuva caíam de forma melancólica no parabrisa, e como não tinha qualquer sinal de que a Thompson Boulevard magicamente ficaria vazia, encostei a cabeça levemente de lado, esperando um milagre com gosto de frustração. Pois sei que milagres não acontecem, principalmente com alguém como eu.

A rádio parecia acompanhar a previsão do tempo, e por mais que a música fosse por anos a minha única rota de fuga, hoje a velha amiga não seria suficiente. Mas resolvi tentar.

Não fiquei surpreso, até ri com a pequena ousadia indireta por parte da rádio pois nesse momento tocava a "Made of Stone" do Stone Roses. Era como se a graciosa locutora Karen soubesse bem o que se passava naquele momento. Mas acredito que mesmo se soubesse, não poderia fazer nada. Ninguém nunca fez, ou faria.

Há muito tempo deixei de me questionar por que as pessoas não viam em mim alguém que pudessem compartilhar a vida. Eu não poderia ser assim tão ruim. Talvez o meu olho esquisito assuste de primeira. Mas Joann viu mais que isso, não sei como, mas ela viu.

Pensei em Joann. Minha querida Joann. Um mês atrás ela me arrastava para uma praia, e agora estamos uma semana divorciados. Queria ter lhe dado uma justificativa melhor.

O que seria meu futuro e novo apartamento é pequeno. Escolhi justamente por essa característica especial, pois temos isso em comum. Tirei o pequeno pacote, comprado na mercearia próxima ao prédio onde trabalho, e o coloquei sob a mesa. Não pude engolir o suspiro pesado do mais puro cansaço e esgotamento mental, afundei as costas na poltrona e sem qualquer cerimônia já senti a minha pele do rosto úmida e gelada.

Estava chorando.

Tentei por alguns segundos massagear as têmporas enquanto inspirava e expirava exaustivamente o ar a minha volta, e ao sentir as mãos começarem a tremer, me dei conta de que estava com medo. Assustado. Não era a primeira vez, mas era a primeira vez que eu estava consciente do ato.

Mas eu não podia voltar atrás. Ou talvez pudesse, por Emily. Porém que mal eu a faria, como eu me prestaria a esse papel de ser medíocre por anos, desfalecendo, denfinhando dia após dia, sendo comido vivo enquanto as vozes da minha cabeça me davam tais obscuros pensamentos como a única coisa que eu pudesse ter com que conversar.

Não seria justo com ela. Seria um karma. Para mim e para ela. As mãos trêmulas ainda tinham força, e foi uma força suficiente para que eu quebrasse o pequeno acessório de mesa, desabando ao chão, e o utilizando para cortar verticalmente a pele do meu antebraço, um risco seguro e doloroso até os pulsos.

Mas não seria assim. Eu não iria agonizante. Eu não iria sentindo tanta dor. Tranquei todas as portas e janelas, e cambaleando, segui até a cozinha e abri o pacote, despejando seu conteúdo na frigideira, o fogo alto o bastante.

"Emily". Ela merecia saber o porquê. E ainda desnorteado, voltei até a sala e como uma tragédia poética, me armei de lápis e papel.


"18 de Julho de 1998.

Os dias não vem sendo fáceis. A cada manhã sinto-me mais fraco, meu estômago embrulha ao acordar e meu corpo dói já que as poucas horas de sono se tornam cada vez mais escassas.

Recordo-me de quando percebi enfim sobre a ânsia de vômito que me invade sempre ao estar sozinho. O que não é raro de acontecer, estou sempre sozinho.

Meu coração e alma estão cheios, mas não cheios de coisas boas.

Estão cheios de uma montanha de lixo, os que juntei durante todos esses anos, e não apenas o meu lixo, Emily. Mas o de tantas pessoas também. Eu os peguei para mim e agora me sinto como um aterro sanitário de sentimentos. Estou cheio desse lixo sentimental.

Talvez a culpa seja minha. As pessoas sempre diziam que eu era sentimental demais, isso irritava elas eu acho. Como no trabalho, não importa o quanto eu me esforçasse, nunca seria o bastante. Não importa se eu levantava às cinco horas da manhã e voltava para casa depois das sete da noite, não parecia o bastante. Fui excedendo os limites por lá, tentando provar para todos e para mim mesmo que conseguiria o topo do mundo!

Mas foi em vão. Eu fui me matando pouco a pouco, eu estava assistindo e corroborando com a minha própria falência mental em troca de míseras pratas mensais. Eu sacrifiquei tudo em nome de algo que se tornou uma morte lenta, é, era isso. Eu sempre estive vivo para ter a chance de morrer lentamente.

Eu olho para meus pulsos, Emily. Há tanta cicatrizes nele. Se eu pudesse ver o meu coração, eu veria as cicatrizes dele também. E diferente das que tenho sob a pele, essas nunca irão sarar. Não há faixa, gaze ou qualquer "tempo" que cure o que me machucou aqui dentro.

Estou cansado. Todos esses anos eles nos dizem "Vá! Mude o mundo!", "Seja você mesmo", "Se ame!".

Mas o que acontece quando fazemos isso? Eles nos cortam as asas. A sociedade nos corta as asas. Não cometa os mesmos que eu, minha querida. Não vá se definhar aos poucos por essa sociedade e seus governantes. Eles jamais poderão falar por você.

Me desculpe por toda essa sujeira carmesim que provavelmente a assusta nesse momento. Eu não queria incomodar, nunca quis. Eu apenas errei.

Eu errei várias vezes, Emily. Errei com você, errei com meus amigos, com a família. Eu errei tanto, e errei ainda mais por continuar a viver para errar mais.

Me perdoe essa sujeira. Eu nunca quis preocupar você.

Mas estou cansado. Estou cansado de me sentir sozinho, estou cansado de me sentir perdido. Cansado de desperdiçar o meu respirar em troca de continuar tão sozinho. O papel pode manchar nesse trecho, me perdoe admitir que estou chorando. Eu jamais faria isso em lugar que pudesse acordar você. Eu estou tentando ir da forma mais quieta possível, como a paz que desejo agora para mim.

No fogo aceso com os pequenos blocos negros dou um olá. Nunca estive com eles antes, mas agora pude dar esse aperto de mão. Tudo está calmo por aqui, não há barulho algum nem cheiro ruim.

Minha cabeça e meus dedos doem um pouco, a caneta está ficando mais pesada. A ansiedade revira a comida de dois dias atrás em meu estômago, assim a barriga também dói com todo esse enjôo.

Mas eu sei que não durará muito tempo. Essa será a última vez.

Precisei deitar agora. A dificuldade em escrever está aumentando. Sabe Emily, não perca a oportunidade de fazer um jardim em casa. Você irá gostar. Eu sempre sonhei com uma casa bonita cheia de flores, um belo jardim. Gostaria de ter tido a chance de fazer isso por nós.

Eu preciso ir. Vou largar a caneta, o papel, e tudo que restar aqui.

Eu amo você, me desculpe por não conseguir me amar e poder ficar para poder te amar por mais tempo.

Eu estive toda a minha vida sozinho, e agora me vou sozinho. Não será necessário sirenes, ou fazer qualquer tipo de alarde.

Vou de forma tranquila, fecharei meus olhos em breve, sem lhes perturbar. E se puderem olhar além da ótica de costume nesses casos, verão que nada de interessante ou importante aconteceu aqui hoje. O mundo continuará o mesmo, tudo ficará bem.

Me vou. Sem alarmes e sem surpresas.

Com amor, seu pai, Thom."

...

18 de Julho de 2019 às 10:34 0 Denunciar Insira 1
Fim

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