DOUTOR HALF VÊ COISAS RUINS Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Ver algo ruim, por sí só, já seria desagradável. Mas o doutor Clayton Halfmman vê isso desde a infância. E o que ele vê traz consequências inimagináveis.


Horror Literatura monstro Todo o público.
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DOUTOR HALF VÊ COISAS RUINS


Ele usava um jaleco branco e tinha um crachá com uma foto da qual não gostava nem um pouco estampada, pendurada na lapela, próximo ao bolso.

Nesta foto ele deveria ter uns vinte e dois anos — época onde começou a exercer a função num pequeno posto de saúde, ao norte da cidade — e ainda não usava óculos.

Hoje, Clayton Halfmman usa um óculos de aros redondos e ainda vive no mesmo apartamento alugado dos dias de faculdade. Não casou-se ainda ( a vez que juntou os trapos com Sarah Veiga não conta ) e Half suspeita que este pode demorar um pouco para chegar.

Ele ainda gosta de miojo, acorda as cinco da manhã e não toma café, apenas um copo de suco de abacaxi. Esta é uma mudança pequena - porém relevante - nas manhãs do doutor e suas manias. Calçar sempre o pé direito primeiro no sapato, não passar debaixo de escadas e pedir a Deus para não cruzar por um gato preto, coisas assim. Não que ele desperdice o seu precioso tempo dando atenção para tais coisas... Mas elas estão lá e ele não consegue evitá-las.



Quando dobrou a esquerda do corredor, sentiu aquele cheiro de desinfetante que a grande maioria dos hospitais possui e seus olhos caíram na porta de número trinta e cinco.

Ele se aproximou, deu duas batidinhas com o nó dos dedos na porta e em seguida à abriu. Procurou entrar com um sorriso no rosto, mas só o que conseguiu foi mostrar os lábios um pouco repuxados.

— Bom dia, Jane - Ele disse, recebendo o brilho dos olhos da paciente como resposta.

— Olá, Half! Sempre bom vê-lo por aqui.

— Gostaria de dizer o mesmo, mas seria uma piada de mal gosto de minha parte.

Jane sorriu. Suas bochechas se esticaram para cima e as rugas de seu rosto ficaram com a aparência de um muro de concreto rachado. Estava internada no hospital das graças a cerca de dois dias, após as dores em seu estômago aumentarem e fazê-la quase pedir a Deus para que cessassem de uma maneira ou de outra. Ela se endireitou na cama, recostou as costas nos três travesseiros e Half pôde ver que as unhas de seus dedos estavam pintadas de vermelho.

— Se embelezando, então?

Jane não entendeu. Então Half apontou com a cabeça para as mãos dela.

— Oh, — resmungou a senhora, fechando os olhos e sacudindo a cabeça. — É só uma maneira de tentar esquecer que estou neste quarto.

— Entendo. Para quando foi marcada a cirurgia?

— Para início de Maio.— Ela fez uma pausa, olhou para a janela e viu o sol se esconder por trás de uma nuvem passageira. Depois tornou a olhar para o doutor. —Não pode mesmo ser você a fazer isso?

— Lamento, Jane. É uma ética que procuro seguir. Não faço operações em amigos ou parentes.

A senhora estalou os beiços, revirou os olhos e mexeu nos cabelos grisalhos. Ela conhece o doutor Half desde que ele brincava de polícia e ladrão pelas ruas do bairro, usando bermudas rasgadas e correndo feito um condenado com os pés descalços. Além do mais, até onde Jane sabe o doutor Half era o único amigo que seu filho teve.

— Sabe quem vai fazer? - perguntou Jane. Ela não gostava de um doutor que usava um bigode ridículo, tinha uma barriga avantajada e não precisava de cinta nas calças. Nunca lembrava o nome dele, mas sempre o reconhecia assim que o escutava.

— Olha, isso eu não sei lhe dizer. Mas posso descobrir para você.

— Faça isso, sim? Já que não será você, preciso saber com quem estarei lhe dando.

Desta vez foi Half quem sorriu. Não com o entusiasmo de costume, mas ainda assim era algo positivo para a manhã terrível que estava sendo a de hoje. Não foi nada fácil levantar hoje cedo e se olhar no espelho.

— Ouça, Jane. Eu posso lhe contar uma coisa? — e aquela de forma alguma pareceu à Jane Marques uma pergunta. Lhe pareceu mais um desabafo.

— Querido, já sou velha demais para ser pedida em casamento.

Os dois sorriram. Jane muito mais que Half. O doutor apenas exibiu rapidamente os dentes.

— É tentador, mas não é sobre isso que quero falar. É sobre... — aquela pequena pausa serviu para Half pensar em como contaria aquilo. Sabia que não seria um passeio no parque revelar o que queria revelar, e até existia o risco de ser visto com outros olhos por Jane, mas estava disposto a enfrentar as consequências. — É sobre o Fred. Bem, ele e outras coisas, na verdade.

O sorriso de Jane foi morrendo aos poucos. Eles nunca falaram sobre o Fred desde que ele se foi — mesmo após Half continuar frequentando a sua casa nos meses e anos que se passaram— e Jane preferia que continuasse assim. Contudo, Half parecia preocupado. Ele não estava sorridente e seus olhos estavam distantes.

— Que tem o meu menino?

— O Fred foi o primeiro, Jane. Vou lhe explicar tudo, desde o princípio. Vou lhe contar sobre as moscas. Sobre elas e todo o resto.

— Half, que está havendo? — havia uma preocupação na voz de Jane. Ela não lembrava de ver o seu velho amigo Half agindo daquela maneira antes ; fazendo perguntas sem parecer ter algum sentido ou simplesmente tocar no nome de Fred. Aquilo sim lhe parecia preocupante.

O doutor olhou para cima, pareceu respirar fundo, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Jane. Por um momento, aquilo lhe remeteu ao passado. Ele sentado no carpete, Fred na cama, o tubo de oxigênio repousando ao lado dele como um guarda de trânsito, sempre vigilante e tentando evitar o pior.

Half cruzou as pernas, o sapato reluziu por conta da lâmpada fluorescente que estava acesa, quando uma enfermeira negra entrou no quarto segurando uma bandeja com três frascos de comprimidos e um copo de água sobre ela. Ela tinha o nome FERNANDA escrito em seu crachá, abaixo de uma foto que não lhe fazia justiça. Half percorreu seus olhos por aquelas letras garrafais e pôs uma de suas mãos no pulso da enfermeira.

— Eu mesmo darei os comprimidos à ela, Fernanda. Pode deixá-los sobre a banqueta, por favor.

Fernanda exibiu dentes enormes e brancos e fez que sim com a cabeça.

— Obrigada mocinha, - disse Jane. A enfermeira repetiu o gesto anterior e deixou o quarto com passadas largas. Pelo horário, Half supôs que ela havia atravessado o plantão noturno e estava disposta a sair logo do hospital. Por isso e pelo enxume de seus olhos.

— Que horas precisa tomar os comprimidos, Jane?

— Às oito, se minha cuca não está enganada.

Half olhou para o relógio em seu pulso e viu que eram sete e quinze. Depois o cruzou sobre o outro que já estava repousando sobre sua cintura.

— Temos um tempo ainda. Lembra de quantos anos tínhamos naquela época em que visitava sua casa todo santo dia?

— Se lembro, — falou Jane, exibindo aquele sorriso que Half adorava ver. Ele lembrava o mesmo que sua avó Elisa costumava dar nos dias em que a visitava no interior. — Vocês faziam as tardes um do outro mais felizes, você sabe. Meu Fred tinha dez anos. Você, onze. Mas, pelo que me lembro, dizia que tinha nove para fazer meu menino se sentir como seu irmão mais velho.

Half sorriu um tanto emocionado.

— Então ele sabia?


— O que Fred Marques não sabia, Half?


Que iria morrer, pensou o doutor. Mas o que disse foi :

— Verdade. Ele era um garoto esperto demais. Mas Jane, preciso lhe contar sobre o que sei. E isso quer dizer muito mais do que imagina.

— Ponha para fora. Vejo daqui que está diferente. Parece engasgado com alguma coisa.

— Você sabe demais para uma paciente internada, sabia?

— Talvez, — Ela responde e aquele sorriso continua em seu rosto. — Mas conheço você, Half. Algo está lhe atormentando e de mim, a mãe do menino mais esperto do bairro, você não consegue esconder.

Half sorriu, um tanto sem jeito, um tanto preocupado, depois começou a falar como se não ligasse mais para o que ele fosse parecer depois que terminasse de contar. De repente, isso não importava tanto quanto parecia. Afinal, pesos tinham de ser retirado das costas às vezes, não é mesmo?



— Foi naquela época que eu vi pela primeira vez, — disse Half sentindo o coração pulsar mais forte.— Quando ainda era um menino correndo descalço pelas ruas, visitando você e o Fred. Entenda que assim que eu vi, não sabia do que se tratava. Acho que até hoje ainda não sei. Mas compreendo que não é algo bom. Nunca foi. — Seus olhos apontaram diretamente para Jane. — Acredita em bençãos e maldições, Jane?

— Acredito no bem e no mal.— Ela respondeu, e depois de refletir por alguns segundos,concluiu. — Acho que é a mesma coisa, no fim das contas.

Half concordou. Por cinco segundos ele baixou o olhar e viu seus braços debruçados sobre as pernas. Depois ele fechou os olhos, tentou apagar o presente da memória — algo nada fácil, no fim das contas — e finalmente achou que era hora de prosseguir.

Olhou para Jane.

— Eu vi em Fred, primeiro. Foi em uma de minhas visitas, mas aquela foi diferente. Naquela vez não era meu amigo quem estava deitado na cama. Não o garoto que eu conhecia. Aquilo era podre. E as moscas só confirmavam isso.

— Half, não consigo enten...

O doutor ergueu a mão direita.

— Já vai entender, Jane. Ao menos espero que sim.


Mas Jane, com seus cabelos grisalhos caídos pelos ombros, os olhos claros um tanto arregalados de surpresa, não parecia estar entendendo. Ao menos ainda não. Half sabia que seria assim ( achava até que havia a possibilidade dela nunca de fato lhe entender ) mas precisava contar aquilo. Precisava mesmo. Estava com a coisa toda atravessada na garganta como uma espinha de peixe e ele literalmente sentia o ar indo embora aos poucos.

Então Jane demonstrou que estava procurando lhe entender. Não pôde negar que aquilo lhe causou um certo conforto.

— O que é este "enxame", querido? — ela perguntou de repente, fazendo o sinal de aspas com os indicadores erguidos.

Half respirou fundo.

— É um sinal, Jane. Sinal que uma coisa horrível vai acontecer. Compreenda que para mim ainda é difícil aceitar. Embora já consiga compreender aonde a coisa toda vai me levar. Quando fui até a sua casa naquele sábado de verão, por volta de 1979, sabia que haveriam duas coisas: biscoitos com leite e altas doses de bom papo com o pequeno Fred. Lembro de sair correndo pela rua, descalço, o asfalto queimando os meus pés. Aquilo era diversão pura. Os outros garotos jogavam futebol usando os chinelos como traves, gritavam uns com os outros e me perguntavam onde diabos eu estava indo. Dizia que iria até a casa de Fred, eles zombavam de mim e eu apenas dava de ombros. Eu nunca dei atenção para aqueles garotos. Para mim o Fred era como um irmão. Para eles, — com o perdão da palavra,— o Fred era apenas um menino doente que nunca seria como eles. No fundo eu sabia que eles estavam certos. Mas, bolas, o que isso importava? Eu só queria estar com o meu amigo. Foi sempre isso que quis. Mas, naquela tarde, se eu soubesse o que iria ter visto, jamais teria ido até a sua casa Jane.


Jane se lembrava apenas de ver o pequeno Clayton Halfmman sair correndo do quarto do filho, com os braços abanando no ar e o rosto mais pálido que ela já havia visto. Nunca teve a oportunidade de lhe perguntar o que houve ; para falar a verdade, ela nem lembrou de fazer isso nos dias seguintes. Não com tudo que aconteceu pouco tempo depois.

— E o que você viu, Half, afinal? Eu nunca tive como saber.

— Assim que entrei no quarto do Fred, — prosseguiu o doutor Half, sentindo o ar ficar pesado, um pouco mais denso, como se voltasse no tempo e revivesse aquela tarde. — Eu fiz o que já estava habituado a fazer ; sabia que ele estaria na cama, então lhe dei um olá assim que fechei a porta. Recebi a sua resposta, como sempre, e me aproximei com um sorriso no rosto. Só que antes de chegar diante dele, eu já estava vendo, Jane. As moscas. Aquelas malditas moscas! Elas estavam sobrevoando acima do corpo dele, não centenas, mas milhares delas, fazendo aquele zunido ensurdecedor. Elas eram tantas que quase não podia ver o Fred. Lembro de correr até ele, chamando pelo seu nome, depois começando a abanar feito um doido para espantá-las. Nisso o Fred me perguntou o que diabos eu estava fazendo. E então eu consegui ver o rosto dele, Jane. E não foi nada bom. Ele estava apodrecido. Se decompondo. Haviam larvas caindo de seu pescoço e se rastejando pelo seu peito. Eu gritei. Gritei o mais alto que pude gritar. E o Fred apenas me perguntava o que estava havendo. E eu berrava para ele e o coitadinho não entendia nada. Eu ainda tinha um pouquinho de consciência que me fazia pensar : mas como ele não está vendo essas moscas zunindo em volta dele? E como, em nome de Jesus, ele não consegue ver que está podre como um cão atropelado na rua? Como ele consegue falar, pra final de conversa? Foi então, com aquela mesma consciência sadia, que consegui entender ao menos um pouquinho. O Fred não estava vendo nada daquilo. Só eu podia ver aquelas moscas e a pele dele apodrecendo. E o resto, você bem sabe, Jane. Eu fugi de lá como um maratonista.

— E Fred morreu dois dias depois,— acrescentou Jane, parecendo pensativa. — Pode ter sido uma grande coincidência, é claro. O Fred tinha um problema respiratório muito grave e aquele tubo de oxigênio era praticamente parte do corpinho dele. Isso não pode ter sido uma enorme coincidência, Half?

O doutor fez que não com a cabeça.

— Na época eu talvez tenha achado que sim. Não lembro pois tinha apenas oito anos de idade. Mas então aconteceu outra vez. E depois outra. E isso nunca mais parou.

Jane Marques pareceu suspirar. Half não sabia se ela já estava acreditando nele ou não, mas aquele olhar dela dizia que estava disposta a tentar.

E aquilo era bom.



— O fato é que vejo essas coisas desde então — continuava Clayton Halfmman. A senhora a sua frente o observava com estranha curiosidade. — Depois de ver em Fred, voltei à ver apenas na adolescência. Confesso que cheguei a pensar que nunca mais veria algo como aquilo. E Deus sabe como rezei para isso acontecer. Só que ele tinha outros planos. E eu tive de lidar com eles no dia da minha formatura, veja você. Estávamos em um bom número de pessoas naquela tarde de dezembro. Em boa parte eram alunos, obviamente, mas também haviam os familiares de todos nós, tão felizes quanto. Eu havia encontrado um novo melhor amigo. Ele se chamava Herbert Noé, tinha o dobro da minha altura e um sorriso que ganhava todo mundo. Dá para imaginar o sucesso que ele fazia com as garotas. E isso ele procurava deixar bem claro, mas não me obrigue à lhe dar estes detalhes, Jane.

Jane não pretendia fazê-lo. Apenas sorriu desconcertada e fez um gesto como se pedisse para o doutor apenas continuar com a sua história.

O doutor entendeu e continuou :

— Eu pude acompanhar quase toda a entrega dos canudos naquela tarde. Quase todas. Eu vi Adriana Moraes pegar o dela e apontar para os pais, sorrindo. Eles apontaram de volta e também sorriram. Bruno Santana não deixou de fazer as suas gracinhas nem naquele dia. Ergueu o canudo como uma espada e fingiu cortar o diretor Emanuel alguma coisa, não me lembro o sobrenome dele. Todos nós gargalhamos. Eu subi naquele palco improvisado e agarrei meu diploma com força, como se dissesse : você é meu, finalmente meu, não vai à lugar algum agora.

E então finalmente foi a vez de Herbert subir lá em cima. Eu ouvi o diretor Emanuel chamar o nome dele com o microfone, ele me deu um tapinha no ombro e eu sorri em resposta. Ele partiu para o palco enquanto eu mostrava orgulhoso o diploma para os meus pais. A minha mãe disse alguma coisa sobre como eu estava bonito ( coisas de mãe orgulhosa, é claro ) e nisso eu olhei para Herbert que já estava subindo as escadas. Meu diploma quase caiu no chão. Em torno dele haviam todas aquelas moscas. Ele parecia usar uma capa delas. Elas sobrevoavam ao redor dele, como uma nuvem escura e barulhenta, enquanto ele estendia uma mão apodrecida para o diretor Emanuel cumprimentá-lo. Duvido que o faria se estivesse vendo o que eu via. Meus pais perguntaram se estava tudo bem comigo ; certamente viram a expressão de espanto em meu rosto. Eu disse que estava tudo bem. Nem por um decreto eu diria o contrário. Quem me levaria à sério se eu contasse que o rapaz que estava sorridente recebendo o seu diploma não estava sorridente para mim, porque não era assim que eu o via, eu o via como um cadáver que nem sequer sabia que já estava morto?

Preferi guardar aquela visão medonha só para mim. Ele queria ser veterinário, Jane. Morreu um mês depois da formatura. Se envolveu em um acidente de trânsito enquanto voltava de uma partida de futebol. Acharam a cabeça dele do outro lado da rodovia.

— Meu Deus, Half... isso é um horror! E é sempre assim? Quer dizer, você vê essas moscas e as pessoas morrem, não há o que fazer?


Half concordou num gesto desanimado. Parecia cansado, mesmo após retirar uma parte daquele peso das costas.

Ainda assim, conseguia sentir um certo alívio por Jane tê-lo escutado. Sabia que ela não faria o contrário, era uma velha amiga que considerava como sua mãe, mas quando se conta algo do tipo para alguém... nunca se sabe. A pessoa pode simplesmente concordar com a cabeça e em seguida procurar o número do hospício na internet assim que você der as costas.

O doutor agora estava com os braços cruzados.

— Se houvesse o que fazer, eu o faria — disse com pesar. — Vai ver foi por isso que me tornei médico. Acho que é uma maneira de tentar fazer alguma coisa. Mas mudar o que vai acontecer, isso eu não posso. Ninguém pode, na verdade. Faria tudo para evitar ter essa sensação. É como olhar o final de tudo, sabe. O pior foi ver isso com a senhora Maria Conceição.

Os olhos de Jane se arregalaram.

— A sua mãe?

— Sim, — concordou o doutor. — Ela estava estendendo as roupas no varal quando eu à vi. Eu estava sentado na varanda, conversando com o meu pai. Ele tinha uma lata de cerveja numa das mãos e eu apenas um copo de suco de laranja. Não me recordo sobre o que falávamos, mas lembro muito bem de vê-lo chamar o nome de minha mãe e dizer que ela estava uma gracinha. Eu olhei para ela e o mundo perdeu a cor. Essa é exatamente a sensação. Escurecer tudo. Ela abanou para nós com uma mão que estava devorada até os ossos. E com a mesma mão ela jogou os cabelos para trás, mas não eram cabelos. Não para mim. Os dedos ossudos passaram pela lateral de sua cabeça e larvas caíram dali como a caspa mais horrorosa que já havia visto. Ela sorriu e as moscas entraram e saíram dali aos montes. Meu pai assobiou para aquilo. Provavelmente transou com aquele corpo em putrefação sem ao menos imaginar aquilo tudo, e como poderia? Ela morreu cinco meses depois. Infarto fulminante. Aos trinta e nove anos, acredita?

Jane não disse nada, mas Half esperava sinceramente que ela acreditasse. Mas havia algo na expressão dela além de espanto. E o doutor sabia exatamente o que ela pretendia fazer assim que houvesse uma oportunidade. Decidiu que talvez ela o fizesse assim que ele se despedisse e então se levantou com um suspiro bastante longo.

— Half? — ela começou, devagar como o doutor achava que ela faria.

— Sim, Jane.

— Já viu essas coisas com os seus pacientes? — e em seguida, a pergunta que queria de fato fazer e que o doutor não ficou nada surpreso em ouvir. — Está vendo isso em mim?

Half colocou sua mão sobre uma das mãos dela.

— Já vi num bocado deles, — respondeu. — Mas como disse, eu não tenho como fazer nada. E respondendo a sua outra pergunta, a resposta é não, Jane. Eu não estou vendo isso em você.

— Palavra?

Half sorriu.

— Palavra.

Observou o alívio ir surgindo aos poucos no rosto de Jane Marques e se despediu. Colocou as mãos podres dentro do jaleco e saiu pelo corredor vazio, seguro de que apenas ele estava ciente daquela quantidade de moscas que o acompanhavam.

17 de Julho de 2019 às 19:16 1 Denunciar Insira 3
Fim

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Tiago Lírias Tiago Lírias
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