Jardim trancado Seguir história

dcsales Danieli Sales

Duas irmãs são levadas às pressas a estação de trem para fugir do mesmo infortúnio dos pais. Ao chegarem a casa da avó que nunca haviam ouvido falar, Lívia e Leda se perguntam se haveria destino pior do que viver naquela mansão. As meninas descobrem-se prisioneiras de segredos e mentiras; e ao encontrarem um jardim trancado nas dependências da mansão, percebem que encontrar a chave para jardim representava mais do que simplesmente ver o que há do outro lado. Livro único.


Drama Todo o público.

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Capítulo 1

O trem anunciava a iminente partida. A chuva escorria pelo vidro, embaçando-o e ofuscando nossos pais despedirem-se silenciosamente e nos observarem pela janela do trem. Do lado de dentro outra tempestade desabava, essa, vinda de meus olhos e por mais que eu os limpasse, a certeza que nunca mais os veria me fazia chorar ainda mais. Prometeu nosso pai que seriam apenas alguns dias, contudo em nossa mala estavam todos os nossos pertences. Para onde íamos ainda era um grande mistério.

—Vocês estarão a salvo! — Foi tudo o que mamãe nos revelou naquela manhã enquanto nos levava às pressas para a estação de trem.

Pouco antes do trem partir, vimos dois homens se aproximarem de nossos pais na estação. Leda e eu saímos de nosso assento e começamos a acompanhar pelas outras janelas do trem, eles estavam sendo levados a força por aqueles homens. Atravessamos os vagões e no último, vimos nossos pais desaparecerem em meio as pessoas que ainda estavam na estação.

Leda e eu tínhamos doze anos naquela época, porém, ela parecia ser infinitamente mais velha do que eu. Creio que a ela faziam sentido aquelas palavras que ouvíamos nossos pais dizerem quando eles pensavam que estávamos dormindo. É possível que entendesse que nosso pai não era apenas um professor de música, como nos levaram a acreditar.

Naquela manhã eu olhava Leda entre as lágrimas, e ainda que ela tanto se parecesse comigo, eu acreditava que a aparência era uma mera coincidência. Pregávamos peças em papai, dizendo que eu era Leda e ela era Lívia, muitas vezes papai caía em nossas brincadeiras, no entanto, mamãe nunca caiu, nem sequer uma vez. Tínhamos um velho piano no qual nossos pais tentaram nos ensinar algumas músicas. Leda não tinha muito gosto pela música e não conseguiu aprender nem sequer uma nota musical, quanto a mim, revelei ter o mesmo dom de mamãe que quando se sentava ao piano, mergulhava em um universo paralelo onde a música era o único som existente.

No final da tarde quando despertei, chegávamos à estação final. Um homem nos aguardava. Mamãe não havia dito quem nos buscaria na estação, então, quando o homem disse que nossos pais haviam pedido para que ele nos levasse, eu lhe dei a mão, porém, Leda não fez o mesmo e saiu correndo. Eu pedia que ela não fugisse, porém, ela parecia não querer me ouvir. Outro homem apareceu e agarrou-a a força. As pessoas que a observavam gritando, nada fizeram, como se não a estivessem escutando. O uniforme os tornava invisíveis e camuflava nossos gritos, isso era a ditadura.

Não entendia porque papai e mamãe foram levados, e nós teríamos um destino talvez pior que o deles? Quando já estávamos no carro sentadas no banco de trás, apareceu uma mulher trajada em um elegante casaco de pele e um belo colar de pérolas que lembrava a mamãe, vi quando ela começou a conversar com os dois homens. Não conseguíamos ouvir o que eles conversavam, todavia um daqueles homens abriu a porta do carro onde estávamos e obrigando-nos a sair do carro com a mesma brutalidade que nos obrigou a entrar. Leda se calou quando nós duas fomos jogadas dentro do carro daquela senhora.

Ao entrar no carro a mulher ordenou que o jovem motorista partisse, não sabia para onde. Ela não nos olhava nos olhos nem sequer um momento, no entanto, podia me ouvir e como eu não parava de chorar, ela berrou:

—Se não parar de chorar, voltamos e te coloco de volta naquele carro. É isso o que você quer?

Os gritos calaram minhas lágrimas por todo o caminho. Devo reconhecer, um belo caminho. Entre as colinas as árvores dividiam espaço com as belas casas no campo. Minha doce inocência desejava imaginar se a casa para onde iriamos era tão bela quanto aquelas da estrada. Houve uma que ainda mais me chamou a atenção. Nisso Leda e eu fomos unânimes, apesar de permanecermos em silêncio, nossos olhares eram capazes de se comunicar.

Nada se comparava a cidade que vivíamos Leda e eu. Uma cachoeira passava no alto da estrada e ao seu lado uma bela casa chamava mais a atenção do que qualquer outra. Apenas não imaginávamos que é justamente para lá que iríamos.

A senhora bem vestida saiu do carro sem ao menos virar-se para trás. Leda e eu nos entreolhávamos. Eu via escrito dúvida nos olhos de Leda, mas ela nada via além dos meus olhos arregalados. A porta do carro se abriu para o nosso destino. Na dúvida do que fazer nós duas permanecemos imóveis diante da entrada.

A porta da mansão se abriu. Dessa vez revelaram uma jovem de cabelos claros como os de mamãe. Era impossível não reparar na magreza daquela jovem e seus olhos fundos, talvez afundados pelas lágrimas. Com seriedade, ela pediu que nós a acompanhássemos. Eu me convencia que o futuro nos aguardava não poderia ser pior se aqueles homens tivessem levado Leda e eu.

Vista de dentro, a casa era ainda maior do que podíamos imaginar. Somente aquela sala resumiria toda a nossa casa que vivíamos na capital. O tapete persa e a luminária de cristal eram apenas uma amostra de todo o luxo que habitava aquele lugar. Uma beleza um tanto sombria. Eu via tristeza em meio à mobília antiga, que singularmente escondia gerações que já habitaram aquela mansão. As fotos da família estavam sobre um mobiliário de madeira escura e contavam histórias, não obstante, a jovem de olhos fundos que nos acompanhava não nos permitiu reler as memórias daquela casa e pediu para irmos direto para o lugar onde seria o nosso quarto.

As portas de madeira maciça se abriram para revelar o quarto todo branco incluindo a cama de madeira, a penteadeira e os criados mudos. O pequeno retrato na mesa de cabeceira chamou minha atenção. Eu me aproximei e o segurei com as duas mãos, nele, uma menina tocava piano. Ela deveria ter mais ou menos a nossa idade quando a foto foi tirada, e seu rosto me era familiar. A moça magra que nos levara até ali, revelou-nos:

—Esse era o quarto da mãe de vocês.

Glaucia contou ser nossa prima e desabou em pranto e abraçou-nos, primeiro a Leda e depois a mim. Seus suspiros não nos deixavam entender o que ela tentava nos dizer. Se sentou na cama forrada pelo lençol branco amarelado e começou a nos contar parte da história que mamãe e papai haviam escondido durante todas nossas vidas. Leda se virou para a prima e questionou:

—Mamãe nunca nos falou que tínhamos parentes vivos. Porque ela esconderia isso de nós?

Ouvimos passos aproximarem-se, Glaucia visivelmente perturbada com olhos assustados encostou-se na parede e com uma voz trêmula nos alertou:

— Por favor! — Ignorando completamente o que Leda havia perguntado — Obedeçam à mamãe, ela não hesitaria em usar contra vocês duas...

A porta rangeu bruscamente, a elegante mulher parecida com mamãe que agora acreditávamos que fosse nossa tia, entrou no quarto acompanhada da governanta. A empregada trouxe uma chaleira de água fervendo, sem novamente nos encarar nos olhos a tia entrou na suíte revelando o banheiro de louça cara e ouvimos a água sendo despejada na banheira. Ela ordenou que nos despíssemos e entrássemos na água. Quando nos demoramos, a tia corpulenta que tinha muita força nos pegou pelos cabelos e levou-nos até o banheiro, e ordenou-nos novamente. Nossa prima tentou fazê-la parar, porém, foi empurrada e caiu machucando a boca na banheira. Viramo-nos para acudir nossa prima, mas a tia mostrou o chicote sobre o qual Glaucia tentara nos alertar.

Fomos obrigadas a despir-nos e entrar naquela água quente. Felizmente a água já havia esfriado um pouco ao ponto de não causar queimaduras, contudo a água em contato com a pele nua causava-nos uma dor aguda.

Tia Verônica, esse era o nome da mulher que nos torturava. Ela ordenou que Glaucia esfregasse o sabão com a escova de lavar roupas para tirar o cheiro, segundo ela, agarrado a nós duas. Mandou que nossa prima esfregasse com força, pois se quando saíssemos da banheira ainda tivéssemos o cheiro do nosso pai, ela esfregaria ainda mais. Aquela foi uma das poucas vezes que vi Leda aterrorizada.

Ao terminar o doloroso banho, Tia Verônica disse que o tal cheiro ainda estava em nós, não importasse quantos banhos tomássemos continuaríamos com o cheiro do nosso pai. Tia Verônica pediu a empregada pegar nossas roupas e queimá-las para que o odor não se espalhasse pela casa. Ordenou também que Glaucia nos trouxesse roupas limpas. Antes de sair ela ordenou:

— Não falem comigo ao menos que eu lhes dirija a palavra. Não andem pela casa durante a noite. Não tentem abrir portas trancadas — falou com ênfase — e principalmente jamais tentem sair da mansão.

A tia saiu do nosso quarto com o barulho do salto grosso, rangendo o piso antigo. Quando ouviu os passos de sua mãe distante, Glaucia tentou defender a mãe:

—Mamãe não é uma pessoa má.

Para impaciência de Leda que resmungou com um sorriso irônico:

—Imagina se fosse.

—Acredite em mim, é verdade! — respondeu Glaucia — Vocês precisam apenas conquistar a confiança dela e verão como ela gostará de vocês.

Não parecia ser verdade o que a prima estava tentando nos fazer acreditar. Talvez fosse à ilusão gritando por defesa, ou a tia realmente tinha um lado que ainda desconhecíamos. O certo é que toda aquela violência tinha alguma justificativa, pelo menos na cabeça de tia Verônica.

—O que nossos pais fizeram para que ela nos trate desse jeito? — eu perguntei.

Ainda que as palavras estivessem em sua boca, Glaucia suspirou e se limitou a responder:

—Mamãe nos proibiu tocar no assunto. — Abaixando os olhos e ergue-os subitamente tentando nos aconselhar — Vocês devem realmente ouvi-la. Ou ela não hesitará em usar aquele maldito chicote contra vocês. Acreditem! Se tentarem fugir, será muito pior, eles virão atrás de vocês.

Éramos apenas crianças e sermos perseguidas não fazia sentido algum.

—Quem são aqueles homens que tentaram nos levar? — eu perguntei.

Glaucia parecia saber de muita coisa que ocorria fora da mansão. Dessa vez ela não usou de meias palavras, talvez porque a mãe não a havia proibido de falar sobre o assunto e respondeu:

—Eles são da polícia política.

Eu sabia o que era a polícia e também o que era a política. O governo militar havia transformado dois em um. Não que um dia eles tenham sido totalmente separados, mas unindo suas forças eles investigavam tudo o que ia contra essas organizações, porém, éramos apenas crianças e nada havíamos feito contra o governo. Meu corpo arrepiou-se e senti um calafrio desejado que mamãe me abrasasse como nas noites geladas já que tínhamos pouco com o que nos aquecer.

—Tudo o que quero é ver papai e mamãe novamente — eu choraminguei.

Minha irmã parecia compreender o que estava sendo dito e irritou-se com tamanha ingenuidade.

—Você não entende mesmo não é Lívia! — Leda estava impaciente — Nunca mais veremos nossos pais.

16 de Julho de 2019 às 15:35 0 Denunciar Insira 1
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