Virginia Seguir história

psiu_psycho Billy Who

Ela estava morta, mas agora renascia em mim enquanto eu vestia sua pele, mas será que nem mesmo após a morte, a vida não deixaria que eu a tivesse para mim? Logo aquela pele iria se desfazer e assim, teria que dar adeus à Virginia.


Conto Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#assassinato #suspense #terror-psicológico
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Bonecas de papel se quebram.



Somos tão frágeis...

Nós, os humanos.

Somos tão frágeis...

Caixinhas de carne revestidas com peles que em breve se tornarão partículas desidratadas de vida, totalmente expostos ao tempo, tornando-se poeira e se fundindo com a terra, servindo de comida para espécies inferiores, servindo de adubo para as plantas.

Todos nós, cada um de nós estamos morrendo, a vida tem nos matado desde o segundo da concepção divina em nossos úteros artificiais de nossas mães.

A vida está nos matando, Virginia.

A vida tem nos matado desde as cavernas, a vida tem nos matado durante a Peste e posso dizer que a vida é uma ceifadora muito mais eficaz que a doença, a guerra, a fome.

A vida está nos matando.

Dia após dia, segundo após segundo, envenenados pelo relógio, caminhando com a caravana rumo ao abraço da morte e, caralho, eu preferiria abrir meu coração e arrancar meu coração com as próprias mãos antes de precisar deixar que a vida me mate num leito onde sequer a força para sentir o sangue jorrando eu teria.

Não é definitivamente assim que quero deixar este mundo; encolhido, tal como um recém nascido débil e fraco, dependendo de uma dose de piedade entrando rasgando em minhas veias por mãos clínicas... Não, isso não é pra mim. Algumas pessoas podem desejar morrer na paz e na tranquilidade de suas covardias, assim como viveram a vida toda sem riscos, sem dor, mas eu não.

A sorte que tive foi conhecer uma garota que compartilhou comigo o mesmo desejo, ela não queria definhar, ela sabia que se definhasse morreria de forma tão patética que a sua mãe.

Não me importa o seu nome real e a você muito menos, de forma que o que podemos fazer é acostumar com a alcunha que se auto-chamou pela vida toda que esteve consciente de quem ela mesma era; Virginia.

Havia escolhido esse nome por causa de Virginia Woolf, sua poetisa favorita e em sua região lombar que tanto acariciei com meus dedos, havia uma das frases favoritas dela tatuado ali como um lembrete.

A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata”.

Ah, Virginia.

Era o tipo de garota que no primeiro olhar faz que você saiba que nenhuma outra droga é seria tão potente quanto seus cabelos balançando ao vento, nem a forma belicosa que seus lábios sorriam, ou os olhos negros e sonolentos por baixo da maquiagem vulgar poderiam ser intensos.

Virginia, a agridoce Virginia...

Nos conhecemos em um dos tantos festivais ao ar livre que tive o prazer de frequentar para encontrar rostos superficiais, mas quando vi Virginia, foi tão prazeroso quanto uma faca percorrendo a extensão da minha coluna, mãos arrancando minha coluna, meu interior sendo exposto...É claro que nos tornamos um.

O grande problema era que a vida estava a matando mais rápido que qualquer outra pessoa que eu conhecia, ela tinha uma espécie de monstro dentro dela mesma que comia parte de sua racionalidade, dava-lhe dores de cabeça constantes, por vezes perdia parte da visão. Havia um monstro no cérebro de Virginia.

Ela iria morrer, mas iria morrer gritando e implorando sedativos ou na hipótese mais patética e covarde, com os pulsos abertos dentro de uma banheira.

Virginia disse que seria uma boa ideia imitar sua poetiza favorita; encher os bolsos de pedra e afundar no mar, mas ela sempre teve horror a água, pois sabia que os peixes iriam comer sua carne e minha garota era egoísta de mais para dar sua preciosa carne á animais. Era grotesco.

Se alguém houvesse de comer sua carne jovem, não seriam animais e sim a própria família, os amigos, ela me disse, mas certamente eles não aceitariam a honra.

As pessoas são estranhas, não?

Alguns meses depois entre uma farra e outra, Virginia sugeriu que começasse o treinamento, dizia que queria tudo impecável para quando eu pudesse ver as coisas pelos olhos dela. Eu estava apaixonado, eu queria ver as coisas pelos olhos dela já que Virginia seria minha primeira, era minha favorita.

Algumas moças sem compreenderem a razão de acabar sempre dentro daquele porão sujo onde dividíamos com os ratos, choravam e pediam clemencia como se a vida já não as estivessem matando.

Não era eu, não era o sorriso sarcástico de Virginia, não era a corda impiedosa que as matava, era a vida.

Treinamos com meninas aleatórias, mas quando chegou à hora, Virginia estava excitada, ela queria que eu a matasse da forma que muitas vezes antes ensaiamos com as manequins humanas.

— Aperta com toda a força, Johnny-boy. — dizia a voz rouca entre os lábios vermelhos, os olhos escuros de luxuria, os cabelos louros rodeando um rosto de boneca. — Aperta com toda a força que puder e não solta por nada.

Eu a observava com a corda no pescoço enquanto estava sorrindo sobre minhas pernas, a saia de vinil preta e as botinas que chegavam ás coxas envoltas em meia arrastão me faziam compreender por que eu estava ali segurando aquela corda.

— Eu quero ver o mundo pelos seus olhos. — resmunguei a encarando fixamente.

Os lábios sorriram, ou talvez fosse um fisgar muscular automático, mas bastava para que eu a beijasse com amor e olhasse pela última vez em seus olhos com a chama da vida que me entristecia saber que se não fosse feito daquela forma, seria deturpada pela velhice, pelo tempo, pela doença; a vida é um tumor com data de validade para explodir, é o que Virginia dizia, mas agora eu vejo pelos olhos dela então também vejo.

— Aperta com toda a força. — ela gemia enquanto fechava os olhos e eu a deitava na cama como um ato inocente, paternal de colocar uma criança para dormir.

— Eu levarei suas memórias comigo. — disse baixinho antes de acrescentar com um timbre sarcástico, envolto no sotaque daquele gueto decadente que fui criado. — Amor.

Quando ela fechou os olhos, os longos cílios de boneca se projetaram para baixo, ela iria dormir para sempre, sem envelhecer, sem sofrer mais um dia sequer.

Virginia se tornaria um sonho que meu fardo era levar comigo até quando eu pudesse.

Ela resistiu, os longos dedos com unhas vermelhas arranharam meus braços, as pernas bonitas se debateram, mesmo que amarradas por sugestão da própria. Demorou mais do que eu esperava, mas por fim, por fim, Virginia estava em um plano superior onde nenhum Deus poderia julgá-la suicida.

Eu havia sido o algoz dela, muito embora em minha defesa pudesse atestar que a vida era o verdadeiro assassino.

Aquela noite precisei acostumar com o fato de no meio da noite seu corpo estar tão gelado e rijo entre os meus braços, mas assim que a rigidez passou, ela se tornou tão fácil de manusear quanto a mais macia das bonecas.

Eu a limpei, vesti, arrumei suas unhas quebradas devido aos arranhões e levava comigo pela casa, ela estava tão quieta e relaxada que parecia um anjo.

Mas a vida não se contenta em levar embora a alma de Virginia, ela queria corroer até o ultimo pedaço que eu possuía dela, queria a tirar de mim com violência.

A vida não sabia que Virginia era minha, era minha favorita, que eu tinha autoridade para separar seus pedaços, remontar e fazer o que bem quisesse.

A vida queria deteriorar aquele belo corpo, mas minha promessa ainda estava de pé; eu veria as coisas pelos olhos de Virginia.

Foi fácil separar a pele do corpo sangrento depois de ter feito aquilo tantas vezes nos corpos alheios, mas quando fui vestir aquela roupa de peles, sinto que não pareceu servir tão bem em mim como eu imaginava, meu corpo era maior que a roupa de peles dela, de forma que um pequeno bisturi nas localidades certas foram o suficiente para arrancar fora os restos de corpo que insistiam em não caber dentro de meu novo eu.

Agora, eu sou Virginia, eu vejo pelos olhos dela, eu falo pelos lábios dela, Virginia está viva outra vez.

É incômodo o quanto a dor de sua ausência me faz questionar a minha vida, como se agora estivéssemos tão fundidos que eu também sentisse as dores que ela deixou para trás...

Enquanto me olho no espelho, vejo os olhos escuros por trás das pálpebras mortas de Virginia, que agora, veem aquilo que eu vejo.

Ela estava morta, embora agora renascia em mim enquanto eu vestia sua pele.

Mas será que, nem mesmo após a morte a vida não deixaria que eu a tivesse para mim? Logo aquela pele iria se desfazer e assim teria que dar adeus a Virginia.

Os lábios tão bonitos e cheios passaram a necrosar, eu acho que se perderam em algum lugar entre aqueles sedativos que tomei e a insanidade, de modo que por trás do buraco do tecido de pele dela, há os meus lábios com um sorriso burlesco com o mesmo batom que ela usava.

Os sapatos de salto incomodam um pouco, mas foi fácil acostumar depois que Virginia me ensinou a calça-los.

A saia de vinil fica naturalmente apertada, mas devido ao fato da dor nos locais que fiz uma pequena cirurgia caseira latejarem e eu não comer há bons dias, agora tudo está ajustado perfeitamente.

Até mesmo os vermes que se procriaram na carcaça morta que visto se fundiram com a minha carne viva dos ferimentos, como simbiontes.

Os cabelos louros eu não pude manter, mas a peruca é tão eficaz quanto, de forma que olhando nesse espelho com bordas oxidadas onde uma luz florescente zumbi, onde as moscas do banheiro rodeiam o corpo sem pele, em decomposição do que um dia foi Virginia, eu me olho sorrindo, levo um cigarro aos lábios maquiados e lanço um olhar sedutor com os olhos contornados por cílios postiços tal qual ela usava, com a maquiagem escura, os brincos de argolas, a febre presente, a dor compartilhada.

— Agora somos um, Johnny-boy. — diz a Virginia do reflexo que assim como o primeiro dia que colocou os olhos em mim, ainda me domina naquele segundo.

— Agora somos um, Virginia.

15 de Julho de 2019 às 03:07 3 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Billy Who Escritora de originais independentes pelo Clube dos autores, editora BolsiLivros e antologia Carcoma, dividindo o teclado com um alterego viciado em escrever. Leitora e usuária de stand. Escrever é humano, editar é divino, eu sou um troll.

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Karimy Karimy
Olá! Escrevo-lhe por causa do Sistema de Verificação do Inkspired. Caso ainda não conheça, o Sistema de Verificação existe para ajudar os leitores a encontrarem boas histórias no quesito ortografia e gramática; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores com relação a isso. A Verificação não é necessária caso não tenha interesse em obtê-la, então, se não quiser modificar sua história, pode ignorar esta mensagem. E se tiver interesse em verificar outra história sua, pode contratar o serviço através do Serviços de Autopublicação. Sua história foi colocada em revisão pelos seguintes apontamentos retirados dela: 1)Acentuação: "clinicas" em vez de "clínicas"; "memorias" em vez de "memórias"; "julga-la" em vez de "julgá-la"; "ultima" em vez de "última"; "quando chegou à hora" em vez de "quando chegou a hora"; "É incomodo" em vez de "É incômodo". 2)Pontuação: crie novos parágrafos sempre que mudar o argumento, ponto de vista ou enfoque da ideia central. Exemplo: "Ela estava morta, mas agora renascia em mim enquanto eu vestia sua pele, mas será que nem mesmo" em vez de "Ela estava morta, mas agora renascia em mim enquanto eu vestia sua pele. (novo parágrafo) Mas será mesmo" — observe que a primeira frase faz uma constatação — ela estava morte, mas renascia — e a segunda introduz uma questão com foco diferente da primeira. Aconselho, também, que use sinônimos para diminuir as palavras repetidas; o segundo "mas", por exemplo, pode ser trocado por "entretanto" ou outra variante. "mas será que nem mesmo após a morte, a vida não deixaria que a tivesse para mim?" em vez de "mas será que, nem mesmo após a morte, a vida não deixaria que a tivesse para mim?" — "nem mesmo após a morte" é um advérbio de tempo deslocado: quando? "nem mesmo após a morte", por isso deve vir entre vírgulas. "Logo aquela pele iria se desfazer e assim, teria que dar adeus" — a vírgula depois de "assim" separa a adição que deveria ocorrer: o "assim" pode ficar entre vírgulas ou então a frase pode ficar sem vírgula alguma — facultativo. "Todos nós, cada um de nós está morrendo" em vez de "Todos nós, cada um de nós, estamos morrendo" (pode usar travessão em vez de vírgula caso prefira); "caminhando com a caravana rumo ao abraço da morte e caralho, eu preferiria abrir meu coração" em vez de "caminhando com a caravana rumo ao abraço da morte e, caralho, eu preferiria abrir meu coração" — como estava, a frase diz que estamos caminhando rumo à morte e ao caralho. "assim como viveram a vida toda, sem riscos,, sem dor, mas eu não" em vez de "assim como viveram a vida toda sem riscos, sem dor, mas eu não". 3)Concordância: "Caixinhas de carne revestidos com peles que em breve se tornarão partículas desidratadas de vida, totalmente expostos ao tempo" em vez de "(somos) Caixinhas de carne revestidas com peles que em breve se tornarão desidratadas de vida, totalmente expostas ao tempo". 4)"deixar esse mundo" em vez de "deixar este mundo" — "esse" é usado para apontar algo que está longe; "este" para algo que está perto. "vermos" em vez de "vermes"; "não pude mantes" em vez de "não pude manter" 5)Verbo: uso de dois tempos verbais na narrativa, como em "me olho no espelho", "eu sou", "eu vejo", "me faz questionar" — no presente — e "estava morta", "ela usava", "disse"; "era" — no pretérito. É importante escolher apenas um tempo verbal e se manter nele. Obs.: os apontamentos acima são exemplos, há mais o que ser revisado na história além deles. Aconselho que procure um beta reader; é sempre bom ter alguém para ler nosso trabalho e apontar o que acertamos e o que podemos melhorar, e os betas do Inkspired, quando contratados, fazem uma análise detalhada da sua história e a enviam através de um comentário. Caso se interesse, esse recurso também é disponibilizado pelo Inkspired através do Serviços de Autopublicação. Além disso, também temos o blog Tecendo Histórias, que dá dicas sobre construção narrativa e poética, e o blog Esquadrão da Revisão, que dá dicas de português. Confira! Bom... Basta responder esta mensagem quando tiver revisado a história, então farei uma nova verificação.
23 de Julho de 2019 às 07:36

  • Billy Who Billy Who
    Oi! Tudo bem? Muito obrigado por me ajudar com isto, pois essa é uma história beeeem antiga e eu tenho um defit bizarro em editar o que escrevo, normalmente não leio depois, portanto quando não publico fica bem complicado, agradeço imensamente pela ajuda. Está feito nos erros apontados, mas caso possa me responder uma dúvida, quanto ao tempo, onde há frases no passado, era no caso o personagem principal falando a respeito do passado e no final, ele justamente diz "agora" e muda a narração para o tempo presente. 23 de Julho de 2019 às 20:07
  • Karimy Karimy
    Olá! Entendo bem: a correção pode ser a parte mais cruel da escrita. No entanto recomendo que a faça antes da publicação, para sanar algumas coisas antes de seus leitores terem acesso aos seus textos. Compreendo a questão do verbo narrativo. Peço, então, que desconsidere, por favor. Ainda encontrei alguns erros relacionados aos que foram citados no meu primeiro comentário; como disse nele, os apontamentos feitos eram apenas exemplos. Deixarei mais alguns aqui, porém também se tratam de exemplos tirados da história, ainda existem coisas a serem vistas além deles: "de forma tão patética que a sua mãe" acredito que queria dizer: "de forma tão patética, como a sua mãe"; "nenhuma outra droga é seria tão potente" em vez de "nenhuma outra droga seria tão potente"; "á animais" em vez de "a animais"; "mas quando chegou à hora" em vez de "mas quando chegou a hora". Obrigada. 24 de Julho de 2019 às 06:35
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