Deixe seu recado após o bipe Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Edu Lopes precisa fazer a última ligação de sua vida. Prestes a saltar de um penhasco, ele decide telefonar para sua ex-esposa para se despedir. Tudo começa a mudar quando do outro lado da linha, uma voz muito familiar é quem atende a ligação.


Conto Todo o público.

#suicidio
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DEIXE SEU RECADO APÓS O BIPE


Havia uma ventania vinda do Sul, um pouco gelada, algo que varria as flores secas que o outono derrubara durante quase todo o mês de maio e imediatamente Edu Lopes soube que iria chover. Ele estava com o seu Corsa vermelho estacionado na margem da rodovia I 423, no quilômetro vinte e cinco, um dos lugares menos movimentados nos fins de semana. Nestas ocasiões, as pessoas preferiam a I 726, com tráfego intenso mas com ajuda sempre à mão em caso do carro enguiçar.

Só que Edu não estava ligando para isso. Não hoje. Ele abriu a porta do Corsa e desceu - o vento gelado tocou o seu rosto, fez o seu cabelo ser jogado para trás - e seus olhos se cerraram um pouco. Ele enfiou as mãos nos bolsos de sua jaqueta e caminhou devagar, vez olhando para o chão, vez admirando a paisagem.

Algumas folhas secas cruzavam pelos seus pés, sopradas por um vento ainda forte, um vento que certamente traria chuva nas próximas horas. Prova disto era que o sol já nem existia. Era uma tarde nublada aquela, do tipo que Edu costumava chamar de " tarde preguiçosa ", daquelas que homens com tempo livre adoravam se espichar no sofá e deixar a natureza agir a vontade lá fora. E mulheres também, certamente.

Os passos lentos de Edu o levaram até a beirada de um penhasco rochoso, com algumas plantas que ele nem fazia ideia de quais seriam encrustadas em algumas pedras. A vista dali era bonita. Dava para ver uma boa quantia de verde colina abaixo, uma outra montanha mais a frente e quilômetros de um céu cinzento que deixava tudo ainda mais compacto. Era assim que Edu conseguia definir a situação. Tudo se resumia a compactação. Uma claustrofobia que subia pelos calcanhares e chegava até o pescoço com mãos fortes e imponentes. Não sabia quando aquela sensação chegara de fato, mas ela existia e era ruim. Do tipo que faz a gente enfiar a cabeça entre as pernas na esperança de que ela vá embora. Só que ela não foi. E Edu estava ciente da coisa toda.



Diante do penhasco rochoso, Edu continuava com as mãos escondidas nos bolsos. Seu cabelo voava para trás, e seu rosto já começava a ficar um pouco dormente. Deveria estar uns nove graus, mas Edu chutava sete em sua cabeça. E ele era bom em chutes. Não tanto quanto era em história ( dava aulas de meio período na escola estadual da cidade de Camargo, três turmas de adolescentes ousados e de língua afiada ) mas dava para o gasto.

Deu uma olhada minuciosa em volta - viu galhos de árvores em sua maioria, pedras do tamanho de sua casa amontoadas nos beirais - e pensou em voltar para dentro do Corsa. Chegou até a virar a cabeça e olhar para ele. Depois desistiu e permaneceu de pé alí fora, naquela ventania incômoda e diante do penhasco onde iria se matar. Curvou um pouco o corpo para a frente, quase encostando o peito no guard rail e espiou o máximo que pôde para o fundo daquele poço verde e escuro.

Não havia muito ali para ver. Mas aquilo era algo que corroía por dentro. A curiosidade sobre como aconteceria, ou sobre como seria a sensação na hora exata da coisa. E Edu era um sujeito curioso. Ele sabia que no final das contas, nada daquilo importava de fato. Se sentiria alguma dor ou não era irrelevante. Não haveria o que fazer depois que um de seus pés impulsionasse o seu corpo para além da beirada. Seria apenas um mar esverdeado diante dos olhos, galhos se espatifando contra o seu corpo e talvez, com alguma sorte, morresse antes mesmo da verdadeira dor começar.

Tirou as mãos dos bolsos e às colocou diante dos lábios em forma de concha. Soprou alí e em seguida esfregou uma contra a outra, trazendo uma sensação agradável. Depois elas voltaram para os bolsos e a sensação que lhe pareceu boa já havia pulado penhasco abaixo. De repente se pegou pensando em Ana. Nela e em Poliana. E em como toda essa merda afetaria as duas. Se é que afetaria.

- É claro que vai afetar, - disse para o vento. - Não banque o egoísta agora, bonitão.

E ele não iria bancar. Ao menos desta vez - pela última vez, para ser mais objetivo - Edu Lopes não tentaria seguir adiante pensando no próprio rabo. Mesmo que isso significasse compartilhar o seu suicídio com a ex-esposa, lhe trazendo um trauma tão grande quanto o seu próprio egoísmo.

- Mas eu não vou contar nada - ele resmufatoou ainda para o vento. - Eu quero apenas ouvir a voz dela outra vez. Uma última vez.

Dito isso, ele recomeça sua caminhada de volta para o Corsa, caminhando com passos um pouco mais largos e com uma excitação que ele próprio não conseguia entender. Era como se Ana Coimbra fosse atender o seu telefonema e lhe dissesse que estava disposta a tentar mais uma vez. Pela segunda vez, para dizer a verdade.

- E nem isso me faria mudar de ideia, - ele desabafou, enquanto uma de suas mãos abria a porta do Corsa.

Após pegar o celular que estava jogado sobre o painel próximo ao volante, Edu pareceu relutar com a ideia. Escorou a cabeça no banco, fechou os olhos por quase dois minutos e então o sorriso da pequena Poliana entrou em sua cabeça como uma bala. Ela havia dado um sorriso como aquele da última vez em que Edu foi visitá-la, cerca de duas semanas atrás, em Blumenau. Estava tão frio quanto aquela tarde e ela usava uma touquinha de lã cor-de-rosa. Edu ficou de joelhos, abriu os braços e ela correu para ele com um sorriso amoroso, gritando papai! Papai!!

E Ana estava logo atrás. Os braços cruzados, os cabelos loiros delicadamente sobre os ombros. Ela também sorria. Aquele sorriso doce que sempre teve, emocionada com a reação da filha. E isso havia sido a apenas duas semanas. Edu suspeitava que a coisa toda já estava nascendo em sua mente naquela época. Talvez não estivesse tão clara, mas com certeza já deveria estar borbulhando como água em sua cabeça quente.

Seus olhos se abriram no exato momento em que estava prestes a chorar e olhou para a tela do seu celular. Foi até CONTATOS e clicou sobre o ícone. O nome de Ana era o primeiro de sua lista, e entre parênteses ele havia acrescentado a palavra DOCINHO. Era o apelido carinhoso que ele dera para ela após um mês de namoro, em 2003, seja lá de que mês. Não era tão bom assim com datas e lembrar do ano em que aconteceu já estava de bom tamanho para Edu.

Clicou sobre o nome e o número dela apareceu. Suspirou fundo e quase desistiu de vez mas então já estava feito. Havia pressionado o dedo sobre a palavra CHAMAR sem ao menos se dar conta. Levou o celular até a orelha enquanto olhava para o paredão rochoso um pouco adiante. Era lindo e assustador, como Edu achava que os filmes de terror deveriam ser. Os bons, é claro. Em seu ouvido já dava para escutar a segunda chamada para o telefone de Ana.



Ele já sabia exatamente como seria isso tudo. Conhecia a casa onde viveu seus melhores anos com a ex-esposa e, se pouca coisa houvesse mudado por lá, o telefone deveria estar sobre uma banqueta na sala-de-estar. Era lá que Edu havia sugerido que ele ficasse. E Ana havia concordado com a ideia e lhe dado um beijo logo depois. Bons tempos.

Após a quarta chamada, Edu se mexeu inquieto no banco do Corsa e viu um caminhão tanque passar à toda pela rodovia pelo retrovisor. Deveria ser o primeiro sinal de vida que vira por alí a pelo menos meia hora. E vida era algo que Edu não estava muito afim de ter ultimamente.

O telefone fez a sua última chamada e a voz tranquila de Ana Coimbra surgiu do outro lado da linha fazendo o coração de Edu disparar. Ele já estava prestes a dizer olá quando percebeu que aquela era apenas uma voz gravada do seu docinho.

Aquilo até que não foi uma má notícia. Significava que não havia um novo senhor Coimbra na jogada. Algum sujeito vestindo apenas um roupão, deitado no sofá e assistindo aos filmes da tarde enquanto Ana preparava o jantar na cozinha, também usando um roupão e com os cabelos recém lavados. A não ser que ambos estivessem no parque ou fazendo compras. Daí a coisa seria um pouco mais dramática.

- Aqui é Ana Coimbra e você ligou para a mulher mais doidinha do planeta, - disse a voz dela em um tom bem humorado. - Se você está ouvindo isso significa que nao estou em casa ou que simplesmente não quero ser importunada. Então vamos logo ao que importa. Deixe seu recado após o bipe.

E então aquele ruído agudo foi ouvido e Edu pareceu não perceber. Estava oupado demais com as lembranças. Era engraçado como a coisa acontecia, de um modo geral. Pouco tempo atrás ouvir a voz de Ana dava nos nervos, tanto que só após um bom copo de uísque era que dava para aturar aquele sarcasmo barato da esposa. E aquilo era uma coisa que ele sabia que ela sabia. Dava para notar o olhar furioso dela, olhos castanhos claros que mais pareciam uma espingarda de dois canos. Ainda assim ouvir aquela mesma voz naquela tarde nublada e fria, era algo reconfortante. Não havia uma explicação para aquilo ( embora Edu gostasse de acreditar que deveria ser uma espécie de sentimento puro ). O tipo de coisa que só acontecia quando você estava à minutos de deixar o mundo de cá e embarcar para o de lá.

- Alô Ana, aqui é o Edu, - começou a dizer e a tranquilidade em sua voz acabou lhe surpreendendo. - Eu liguei apenas para saber como vão as coisas. Sabe, a escolinha da Poli, você e aquele emprego que não estava gostando tanto. Comigo está tudo indo, sabe? Bem, você me conhece e sabe que costumo me virar. Hoje não acordei muito bem, mas acho que foi alguma coisa que comi na noite passada. Meu estômago está chutando como a barriga de uma gestante. Mas não esquenta comigo. Eu vou ficar bem.

- Vai mesmo? - uma voz perguntou do outro lado da linha e Edu acabou levando um susto daqueles. Por muito pouco não deixou o celular cair.

Seu coração acelerou um pouco ( primeiro por achar que poderia ser sua ex-esposa lhe pregando uma peça ) e depois por imaginar que poderia ser algo muito pior : poderia ser sua filha. E tudo que não precisava naquele momento era ouvir a voz de Poliana. Aquela voz suave e docinha de sua menininha de quatro anos. Seria desastroso se isso ocorresse. Achava que não seria capaz de continuar se ouvisse a pequena Poli. E isto seria péssimo. O que estava decidido estava decidido e ponto final. Mas então uma coisa ainda pior ( se é que poderia haver uma ) fez com que Edu recuperasse os pensamentos ; aquela voz não tinha como ser de nenhuma delas. Aquela era uma voz masculina. E a ideia de partir sabendo que havia um outro sujeito caminhando de cuecas em sua antiga casa não lhe agradava nenhum pouco. Sabia que Ana havia seguido em frente após o divórcio, ele mesmo havia feito isso após namorar por quase um ano com Keila Ramos, mas a ideia de ter a sua última conversa com um completo estranho era o que de fato incomodava. Isto era o que parecia errado,de certa maneira.

- Você me deu um susto dos diabos, cara - falou. - Mas esqueça isso, sim. Se a Ana estiver porai, chame ela para mim, por favor. Diga que é o...

- Eu sei quem você é, parceiro - a voz interrompeu. Ela parecia estranhamente ... familiar. - E digo mais: vai fazer uma grande cagada se continuar com o que pretende continuar.

- Mas que merda está dizendo? - e aquela pergunta soou tão ridícula que o próprio Edu não sentiu firmeza ao fazê-la. E ainda havia a voz do outro lado da linha. Era uma coisa absurda, mas Edu tinha um palpite sobre a origem dela e Deus sabe que ele é bom nos malditos chutes.

- Não banque o tolo, parceiro. Sabe muito bem o porquê de estar aí na beira deste penhasco. Não foi até aí para admirar a natureza. Não faz o seu estilo. - Houve uma pequena pausa. Silêncio nos dois lados da linha. Os galhos das árvores dançavam com a ventania do lado de fora do Corsa e os olhos de Edu acompanhavam como se estivesse sob algum tipo de transe. Só que na verdade não estava acompanhando de fato. Estava tentando entender como aquilo era possível. Como que...

- Está aí ainda, parceiro? - a voz perguntou e Edu agora teve certeza. - Sei que está. Então chega de rodeios e vamos colocar tudo em seu devido lugar.

- É. Vamos, sim.

E aquilo foi para lá de estranho. O vento lá fora pareceu aumentar assim como o incômodo dentro do Corsa e na cabeça de Edu. Mas ele estava pronto para começar aquele papo mesmo assim. Mesmo que soubesse a loucura que seria conversar com sua própria voz.



Não foi o sotaque que o fez perceber. Achava que havia sido muito mais por conta do tom de voz. Aquela coisa meio estúpida, que dá para imaginar claramente um rosto de testa franzida sentado em uma poltrona com um telefone encostado na orelha. Talvez tenha sido por isso. Mas não dava para saber com certeza. Era uma completa maluquice, no final das contas. Algum tipo de paranóia pré-suicídio, se é que existia algo assim. Edu esperava que existisse.

- Só me diga como é possível. Diga isso e eu me convenço de que não estou dormindo na minha cama em minha quitinete.

- Não vou lhe convencer de porra nenhuma, está bem?

Nossa, tipicamente Edu Lopes. Grosseiro mas ainda assim perspicaz. Não havia dúvidas de que aquela era sim a sua voz.

- Que seja, então. O que está fazendo aí, na casa da Ana? - e aquela pergunta lhe fez parecer um sujeito ciumento. Um sujeito com ciúmes da própria voz, ora, vejam só.

- Se fará você se sentir um pouco melhor, - começou a falar o segundo Edu. - Eu não estou na casa do nosso docinho. Não estou em parte alguma, aliás.

Só em minha cabeça, talvez, pensou Edu.

- Nisso você deve estar provavelmente certo, - concordou o segundo Edu, para surpresa do Edu número um. - Encare isso como uma reflexão. Um puxão de orelha. Uma porra de uma terapia, se preferir. E caso esteja interessado, lhe digo que sim. O telefone ainda está sobre a banqueta, como você bem sugeriu.

Um pequeno porém sincero sorriso surgiu no rosto de Edu. Não era grande coisa, mas aquilo significava que Ana ainda matinha o hábito. Talvez a forma que ela usava para manter as lembranças. Isso o fez se sentir importante, de certa maneira.

- Não há ninguém em casa? - quis saber o Edu número um, sabendo qual seria a resposta.

- Não. As duas estão naquela pracinha que fica próxima do centro. Aquela que você só foi uma única vez e porque a Poli lhe encheu a paciência. Mas você sabe que valeu a porra do tempo. Sentado nesse carro velho você bem que sabe agora.

O Edu número dois tinha razão. Tinha sido uma ótima tarde de verão aquela. Os três se divertiram um bocado e Poli acabou sujando o seu vestidinho vermelho quando uma gota do sorvete de chocolate escorregou pelo seu queixo quase em câmera lenta.

O Edu do Corsa passou a mão livre no rosto - a vontade de chorar outra vez espreitando como um lobo - e mencionou que naquele tempo as coisas eram ótimas e ele nem sequer se dava conta disso. Banal, mas verdadeiramente espantoso.

- Tudo sempre vai bem até que começa a ir mal, - disse o outro Edu. Dava para imaginar o dono daquela voz sentado com as pernas abertas e um cigarro pendendo no canto da boca. Mesmo que Edu nunca houvesse fumado. - Você sabe que não pode fazer o que pretende fazer, não sabe?

- Mas eu preciso fazer! E não pense que é por causa da Ana. Eu aceitei a porra do divórcio na época e aceito ele até hoje. E você bem sabe que ainda arrasto uma asinha para ela. Sempre com aquela hipótese do " vai que ela tope ", sabe? Mas sei que ela não vai topar e até é bom que seja assim. Ela vai indo muito bem sem mim, obrigado. O problema é que eu cansei, parceiro. Não vejo mais sentido na coisa. Consegue entender aonde quero chegar?

- Sim. E você vai conseguir chegar lá. Daqui pouco mais de cinco minutos. Sabe, pular dessa porra de penhasco vai ser dureza. Quer mesmo fazer isto? Ou melhor, está preparado para fazer?

Cinco minutos atrás o Edu número um certamente diria que sim. Afinal ele viera até aquele ponto da rodovia, não viera? Sim, mas quantos suicidas desistiam após colocar o cano do revólver dentro da boca e sentir o gostinho do metal e da morte? Edu não saberia dizer. Essa coisa era complicada demais. A vida em sí é demasiada complicada. Tanto que quando você mesmo quer acabar com ela, nem mesmo sabe ao certo o porque. Então você apenas olha para o chão e diz que não vê mais sentido nela.

O Edu suicida respirou fundo e olhou para o paredão rochoso à sua frente.

- Eu espero estar, parceiro. Já imaginou se arrepender depois que pular? - uma risadinha desconcertada saiu de sua boca mas não houve a mesma reação do outro lado da linha. - Ouça, eu só queria me despedir das garotas. Não diretamente. Mas de um jeito tranquilo. Como morrer dormindo.

- Eu sei dessa merda toda. Tudo que você disser eu já saberei antes mesmo dessa boquinha abrir. Afinal, eu sou você, não é mesmo? Mas, o que você não sabe, é o que eu irei dizer. Não é ironicamente contraditório essa bosta? Enfim, olhe para a tela do seu celular.

Edu obedeceu. No início não sabia o que o Edu número dois estava querendo lhe mostrar, então logo que olhou para a tela do celular tudo ficou muito claro. A sua bateria estava tão próxima do fim quanto ele. Ela marcava oito por cento no canto superior esquerdo da tela.

- E o quanto isso é ruim, parceiro?

- De um modo bem prático, - começou a explicar o Edu número dois. - Essa merda toda irá levar você para o ponto de partida. Se sua bateria acabar, você não terá como falar com as garotas assim que elas chegarem dentro de dois minutos. Embora eu creia que este tempo seja suficiente para que você possa fazer isso. Ou você pode simplesmente jogar o celular para o lado e voltar para a beirada daquele penhasco. Ou até pular segurando ele, como uma forma carinhosa de partir. O fato é que você está sem tempo, parceiro. Literalmente. Então, creio que seja melhor você desligar essa coisa se pretende usá-lo mais uma única vez. E eu sei o que você vai fazer. Mas a porra da ironia não lhe permite saber como eu.

Um silêncio sufocador tomou conta do Corsa vermelho. Edu desligou a ligação, olhou fixo para o paredão rochoso acinzentado e depois tornou a olhar para o celular em sua mão. Dois minutos, o outro Edu havia lhe dito. Em dois minutos Ana e Poli entrariam pela porta de casa, sorrindo. Poli segurando a sua boneca favorita enquanto Ana traria uma sacola de compras com uma das mãos. Nisso o telefone tocaria ( ou não ) e Edu lhes daria uma boa tarde com uma voz tristonha, mas sempre procurando evitar que ela fosse perceptível, de modo que inventaria um milhão de desculpas na tentativa de fazê-lo.

E agora faltava apenas um minuto.


Edu desconfiava que, por alguma razão, a sua própria voz havia surgido do outro lado da linha não para fazê-lo mudar de ideia, mas sim para atrasá-lo e impedi-lo de cometer o que os cristãos chamam de uma loucura. E aquilo pareceu funcionar.

Não sabia explicar como, mas havia dado certo. Não que o desejo de pular daquele penhasco houvesse magicamente desaparecido. Ele ainda estava ali, rondando como um guarda noturno à espera apenas de uma oportunidade para realizar o seu serviço.

Só que parecia estar mais fraco. Muito mais fraco. De repente pular daquela altura parecia tenebroso demais.

Não apenas isso. Viver parecia ter um significado outra vez. E ele soube disso assim que rediscou para o número da casa de Ana e ela lhe atendeu com aquele alô simplesmente maravilhoso.

- Oi, Ana - ele disse e uma lágrima teimosa escorreu pelo seu rosto. - Eu só queria ouvir a sua voz um pouquinho. E a da Poli, é claro.

- Oh, claro que sim Edu. Sabe que estamos sempre poraqui, não sabe?

- Eu sei.

- A propósito, acabamos de chegar. Estávamos naquela pracinha próxima do centro. Aquela que você...

- Não curtia muito, é eu sei - e os dois sorriram. - Sei que estava lá com a pequena.

- Sabe?

Edu fechou os olhos e sorriu mais uma vez.

- Eu imaginei, Ana. Foi isso que quis dizer.

- Ah, bom. Na verdade nós não iríamos voltar agora. Apesar do frio, está um dia ensolarado aqui em Blumenau. Está lindo pra burro. Eu e algumas outras mães estávamos sentadas e colocando a fofoca em dia, sempre de olho nos fedelhos. E então a Poli veio correndo até mim aos gritos. Sabe o que ela berrava, Edu?

- Não faço a menor ideia.

- Que tínhamos que vir para casa, pois o papai estava esperando no telefone. Não é a coisa mais maluca que você já ouviu?

- Se é, - concordou Edu, sorrindo um pouco. Então falou ainda sorrindo. - Passe para a Poli, querida. Não vamos deixá-la na expectativa.


Ana concordou e também sorria do outro lado da linha. No para-brisa do Corsa alguns pingos de chuva começavam a escorrer. Enquanto aguardava o beijinho da filha, Edu desceu o celular e olhou rapidamente para a tela. A bateria estava em oitenta por cento. Ele apenas sacudiu a cabeça e sorriu de maneira quase entorpecida. Eram maluquices demais para uma tarde de quarta-feira.




" o conto em sí foi inspirado em um grande amigo.

Não, ele não cometeu suicídio. Mas a ideia bateu no ombro

dele. Eu fui o único para quem ele contou e a sensação é

de total impotência. Nós nos conhecemos desde crianças

e eu simplesmente fiquei chocado. Assim como o

protagonista deste conto, creio que o desejo em sí não tenha deixado

de fato a mente dele. E, se for o caso, espero sinceramente que

alguma voz lhe atrase o suficiente. Às vezes nós só

precisamos de uma maluquice dessas."

14 de Julho de 2019 às 05:29 1 Denunciar Insira 1
Fim

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Karimy Karimy
Olá, autor! Tudo certo? Vim parabenizá-lo pela Verificação de seu conto e deixar um comentário. Caramba, nem sei direito como começar, mas lá vou eu! Adorei o conto do início ao fim, principalmente da forma que resolveu desenvolvê-lo: sempre jogando algumas informações pequenas para desenvolvê-las mais para frente, aos poucos. Acho isso muito importante quando se quer construir um certo tipo de clímax para uma "explosão" realmente parecer grande, mas ao mesmo tempo suave. E você faz isso maravilhosamente bem. Além disso, a estrutura do conto é muito boa. A forma como intercalou as digressões, pensamentos, cenário e cenas ficaram ótimas e muito ajudaram a impactar quando algo era revelado, como quando descobri de quem era aquela voz falando com o Edu. Genial! O mais interessante de tudo, no entanto, foi o desenvolvimento dos personagens. Gosto muito de ver um personagem desenvolvendo outros, o que aconteceu no seu conto: o Edu desenvolveu a Poliana e a Ana, e fez isso de um jeito suave e ao mesmo tempo intenso, usando as memórias e sentimentos dele para com elas para isso. No fim das contas, quando elas realmente apareceram, a sensação que tive era de já conhecê-las bastante bem, assim como o Edu as conhece ao menos. A sua escrita também é muito boa e fluida: como deslizar pelas palavras! Entretanto, deixarei algumas dicas abaixo para você. Espero que não se incomode. Em suas histórias (no plural porque vi isso nos seus outros contos também) é normal encontrar a conjunção adversativa "mais" sem a vírgula que deveria precedê-la — inclusive depois do uso de travessão como formula de virgulação ou parênteses: lembre-se que esses itens não anulam o uso da vírgula quando ela se faz necessária. Aconselho que reconsidere isso. Para exemplificar, tirei do seu conto esta frase: "com trafego intenso mas com ajuda sempre à mão" em vez de "com tráfego intenso, mas com ajuda sempre à mão". Existem outras coisinhas pequenas também, como: "a vontade lá de fora" em vez de "à vontade lá de fora" ("à vontade" é uma locução adverbial que significa "confortável", "sem restrições"); "às colocou" em vez de "as colocou"; "à toda" em vez de "a toda"; "à minutos" em vez de "a minutos". Como já disse em outro comentário, em outro conto seu, deve-se usar o verbo "haver" quando se quer denotar tempo transcorrido. Exemplo do seu conto: "primeiro sinal de vida que vira por ali a pelo menos meia hora" em vez de "primeiro sinal de vida que vira por ali há pelo menos meia hora". Devo dizer que não são coisas recorrentes e que podem até passar por despercebidas, mas resolvi deixar aqui para contribuir com seu crescimento como autor. Bom, é isso! Realmente estou adorando ler seus contos. Abraços!
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