Rui e suas coisinhas Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Leia e descubra o que são as " coisinhas " de Rui neste conto incomum.


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#conto-terror
Conto
2
601 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Rui e suas coisinhas

O homem à minha frente era a coisa mais gorda que já havia visto. Não dava para vê-lo muito bem ,pois a única luz do quarto era transmitida através de um abajur. Ainda assim ,não era difícil de se imaginar o tamanho daquele sujeito. Eu conseguia ver apenas o rosto redondo dele ,como uma lua cheia no céu mais escuro e sem estrelas que se podia imaginar. A luz fraca do abajur deixava o rosto dele num tom alaranjado ,o que me fazia lembrar - ironicamente - de uma enorme abóbora para ser usada em uma festa de Halloween. Já o cheiro ,era de embrulhar as tripas. Eu apostaria o meu emprego na revista Orestes que aquele lugar não recebia uma faxina a no mínimo um mês. Praticamente tive de abrir caminho como um explorador para entrar naquele quarto. Assim que consegui me sentar na poltrona próxima a cama ,me apresentei como repórter de uma revista local ( a Orestes entretenimento ,o equivalente ao The New York Times na cidade de Nova York ; certo ,exagerei um pouquinho ) e estendi minha mão para cumprimentá-lo. O sujeito apenas olhou para ela e não deu importância.

- Eu me chamo Luis Feldman - concluí as apresentações ,trazendo minha mão de volta para junto da perna. - Não é nada fácil achá-lo ,senhor Rui.

- Essa é a ideia. Para que mais um homem se enfia num fim de mundo como este ,senão para não ser importunado?

Aceitei a indireta sem mais problemas. Como repórter ,sei muito bem o que as outras pessoas pensam de homens como eu ; os urubus da humanidade ,criadores de caso , papas-defunto de plantão e por aí vai. No meu caso ,acho que estes estereótipos não se aplicam - ou pelo menos eu acho que não. Minha função na revista Orestes - além de editor - é ir atrás do que ninguém mais vai. Na edição ,sou chamado pelos colegas de " obsessivo repulsivo ". Não dá para negar que o apelido faz um certo sentido...mas eu prefiro pensar que apenas gosto de assuntos extravagantes ,como da vez em que entrevistei o sujeito com o maior nariz da cidade. Nada convencional ,tampouco satisfatório para alguns leitores de plantão. Concordei com o sujeito esparramado na cama e lhe perguntei se não poderia acender a luz.

- NÃOOO! - ele retrucou. Não foi um grito ,mas sua voz ecoou naquele quartinho repugnante. Pelo estado do lugar ,creio que se um simples mosquito zunisse por ali ,teria o mesmo efeito.

- Ótimo ,sem problemas . Mas...poderia me dizer o por que de se manter no escuro , senhor Rui?

- Eles preferem assim.

E essa foi a primeira coisa esquisita que ele me disse naquele fim de tarde. Eu já sabia do histórico daquele homem. Por isso eu estava ali ,naquele breu ,sentado numa poltrona dura pra cacete e com as narinas irritadas por aquele cheiro que com certeza era de mijo. Certo ,e de merda também. Sem falar do mofo que certamente brotava naquelas paredes como erva daninha. Mas se isso tudo fosse render uma boa matéria no final ,que se ferrasse todo o resto. E além do mais ,Rui Fernandes era um sujeito conhecido na cidade. Nem tanto quanto deveria , é verdade ,mas ainda assim ele ainda era lembrado pelas mídias vez que outra. E por ser um total maluco ,teria acrescentado Pedro Antunes ,meu chefe de editorial. E isto também tinha um Q de verdade. Cruzei uma perna sobre a outra e lhe indaguei sobre quem seriam " eles ".

- Sabe quem eu sou,senhor Feldman? Sabe quem o senhor veio entrevistar ,moço?

Eu disse que sabia quem ele era. E o porquê de ter ido até ali ,quase sessenta quilômetros ao sul de Paschoal ,sete horas e meia com a bunda atrás do volante em uma estradinha de terra com mata dos dois lados ,onde de vinte em vinte minutos eu procurava por um sinal na barra do celular e nada aparecia. Obviamente não disse com essas palavras a segunda parte ,mas Rui não era um sujeito tolo e certamente sabia onde diabos tinha se enfiado de dois anos para cá.

- Eles não gostam da claridade - continuou ele. Toda vez que falava , dava para notar a sua papada movendo-se como uma gelatina sacudindo num pote. - No início pensei que nada os importunava. Mas então ,quando a noite chegava ,eles me pediam para apagar a luz. Na verdade ,eles não pediam de fato. Mas eu sabia ,de qualquer forma.

- Certo. E como você sabia disso?

- Assim como você sabe quando precisa mijar - disparou Rui. Não creio que ele tenha visto ( afinal ,do ângulo em que estava ,não podia ver o meu rosto com clareza naquela penumbra ) mas acabei sorrindo um pouco. Concordei com ele mais uma vez e perguntei , do modo mais apropriado possível ,se ele sempre tivera aquele peso.

- Oh Deus ,claro que não. Nunca me viu na televisão?

Eu tive de ser honesto com aquele homem. Até onde sabia ,Rui Fernandes era apenas um matuto colhedor de tomates que um dia virou notícia . E mesmo eu sendo um repórter que vivia atrás de coisas incomuns ,nunca havia dado importância para a história dele. E para ser franco , só estava ali porque a pauta da semana estava um fiasco. Era aquilo ou ir atrás da vovó que jurava falar com as galinhas. Respondi para ele que não o havia visto nos noticiários ,mas que sabia da história dele - e aquilo também era uma verdade.

- Eu pesava cerca de noventa quilos dois anos atrás - disse ele ,parecendo frustrado . - Um peso bom para um sujeito da minha altura. Um e oitenta ,caso queira saber.

Eu sinceramente não queria. Não disse nada e deixei que ele continuasse.

- Nunca fiz exercício algum nessa droga de vida. Não achava que precisasse. Eu era um homem do campo ,um fazendeiro. Um matuto ,como vocês da cidade costumam chamar. O serviço braçal sempre serviu como ginástica para mim e isso não posso negar. Hoje em dia estou preso nesta cama e confesso que é o melhor para todo mundo. Só não imaginava que fosse engordar tanto. Mesmo sabendo que... Bem ,que estou sempre acompanhado.

- Sabe quanto está pesando atualmente?

Rui não soube responder. Ele apenas fez um gesto negativo com a cabeça ,devagar ,os olhos turvos apontados na minha direção mas sem exatamente conseguir me enxergar. Suspeitava que ele via apenas as minhas pernas cruzadas ,as minhas calças jeans azuis e desbotadas nos joelhos. Era incômodo ver um homem no estado em que Rui Fernandes se encontrava. Não dava para olhar para aquela cabeça careca e gorda ,apenas ela para fora ,o restante do corpo coberto até o pescoço por um edredom esverdeado ,sem imaginar o quanto aquilo deveria ser deprimente para ele. Talvez estivesse com uma vergonha dos diabos de ter de me receber daquela maneira . Eu tive de chamar por ele da varanda ,bater umas palminhas e escutar aquela voz rabugenta perguntar quem estava invadindo a sua propriedade . Não era uma invasão de fato ... Por alguma razão as casas do interior não costumam ter portões trancados. E aquelas cancelas são fáceis de abrir. Enfim ,invasão ou não ,eu estava enfiado naquele quarto com um sujeito que dois anos atrás garantiu para boa parte da cidade que havia sido abduzido por seres de outro planeta. Até a imprensa da capital deu um pulinho por aqui ,com suas vans cinza com parabólicas em cima. Foi bom para a economia da cidade na época ( o turismo bateu recordes aquele ano ,aumentando a renda de boa parte dos comércios ) e na internet muita gente fez de tudo aquilo uma grande piada como já era de se esperar. Outros simplesmente acusaram Rui de ser um mentiroso. O que também era de se esperar. Gente matuta sendo abduzida ou vendo luzes no céu costumam receber essa fama por encomenda . É um prato cheio para humoristas de plantão. E então Rui Fernandes decidiu se isolar ainda mais ,mudando de residência não uma mas duas vezes pelo que sabia e isso também gerou novas piadinhas. Gente perguntando aonde diabos ele havia se enfiado e sugerindo que provavelmente tinha se mudado para Marte com seus novos amiguinhos verdes. Até que meu editor chefe fuçou porai até descobrir onde ele havia se metido. E me fazer ir até lá após dizer não para a vovó das galinhas.

Eu pensei em rabiscar no meu bloquinho de notas o que ele ia me dizendo ,mas ,naquele breu ,isso seria impossível. Por sorte eu estava com o meu gravador no bolso esquerdo do jeans. E o havia ligado no momento em que havia depositado a minha bunda magra naquela poltrona sem almofadas.Perguntei se ele poderia me falar sobre o dia em que foi abduzido e o rosto dele pareceu tremer. Tenho quase certeza que o corpo inteiro dele agiu da mesma forma.

- Eu estava no campo colhendo milho naquela tarde de fevereiro - ele começou a dizer ,olhando na direção dos próprios pés abaixo daquele edredom. - Estava quante pra burro. O sol fritava a minha cabeça e eu suava por baixo do macacão jeans. Não estava usando o meu chapéu de palha naquele dia. Não sei nem onde havia deixado ele ,embora fosse bem provável que estivesse no galpão dos fundos. Eu usava galochas que cobriam até as canelas ,pois as cobras se escondem aos montes nestes brejos. Acho que estava a cerca de três horas abaixo daquele sol ,com uma sede infernal e uma dor cruciante nas costas e nos braços. - De repente ,foi como se Rui estivesse revivendo aquela tarde bem diante dos olhos. Ele olhava para cima ,não mais para os pés. Olhava como se fosse para aquele céu azul de fevereiro ,um céu que ele já estava acostumado a enxergar. Quilômetros de azul que ele jurava conhecer cada centímetro. Sua fala ficou mais mansa a partir dali. - Lembro de ver o milharal se agitar ,moço. Não forte ,mas como se uma leve brisa soprasse do Norte. Na hora não dei importância para aquilo. Vento é apenas vento por essas bandas. Mas a questão é que não era apenas o vento.

- E o que mais havia?

Os olhos dele apontaram certinho para onde estavam os meus ( algo certamente impossível naquele quarto escuro ,eu sei ,mas apontaram! ) E eu senti o meu estômago ficar do tamanho de uma laranja.

- O cheiro - ele disse. Havia um sorriso do qual não gostei naquele rosto rechonchudo. - Parecia com algum gás . Metano ,talvez. Porra ,sei lá. Não sou a porra de um cientista. Mas aquilo fedia ,moço. O que quer que estivesse viajando pelo vento não era algo saudável. Lembra que lhe falei sobre não estar usando o chapéu de palha?

Eu disse que lembrava.

- Pois se eu estivesse com ele ,não teria visto. Sabe ,ele cobriria a minha visão do céu de alguma maneira.

- Foi então que você viu a nave ou... Algo do tipo?

- Nave? - uma pausa. Parecia querer que eu lhe confirmasse e então ,antes que eu pudesse fazer isso ,Rui Fernandes soltou uma gargalhada realmente verdadeira. Seus olhos se fecharam ,apertados ,e sua boca se abriu tanto que até pude ver a segunda coisa esquisita naquela tarde : os dentes do sujeito tinham um tom esverdeado . Não reparei naquilo antes ( muito por estar tão escuro ) mas no momento em que a boca dele se arreganhou daquela forma ,pude ver com total clareza. Eram de um verde escuro ,como se musgo estivesse brotando de suas gengivas.

- Nave ,essa foi boa , moço - ele disse ,parando aos poucos de sorrir. Eu tentei lhe acompanhar no que pareceu à ele uma piada de minha parte ,mas não consegui. Ver aqueles dentes verdes me deram náuseas.

Tentei então uma outra abordagem. Perguntei : se não havia visto uma nave ,o que ele havia visto?

- Passarinhos . Muitos deles. Voando para o Sul. Mas não estavam fugindo de algo que estava no céu ,logo atrás deles ,ou acima deles. Era só aquele fedor de pântano. Um cheiro que... - Rui fez uma careta ,como uma criança que acabou de experimentar espinafre pela primeira vez. Depois balançou a cabeça ,como se aquilo jogasse o cheiro para longe. - Essas coisas de naves e luzes guarde para os filmes ,moço. O que me levou naquela tarde foi algo real. - Então os olhos dele se arregalaram não muito ,mas o suficiente para que eu percebesse que sim ,ele ainda tinha medo do que havia acontecido. Se é que algo havia acontecido.

- E eu não fui para o alto - ele disse. - Eu fui tragado para debaixo da terra. O cheiro era muito pior lá ,pode apostar seu rabo que era. Consigo lembrar de um puxão apenas. Como se a terra se erguesse ,ou sei lá. Depois eu fui sendo puxado para baixo ,gritando como uma garotinha. Meus braços chacoalhando no ar ,o céu azul ficando cada vez mais distante até finalmente ficar preto. A terra entrava na minha boca ,dava para sentir o gosto. E o cheiro me pegou de jeito. Impregnou no meu macacão. E até na minha pele. Só que o macacão eu me livrei. Assim que acordei do lado de cá , exatamente no mesmo lugar em que havia sido engulido. Foi como ser cagado pela mãe terra ,não é romântico?

Eu não disse nada. Apenas suspirei bem de leve . E ainda assim ,mesmo no escuro e sem poder ver o desânimo no meu rosto ,Rui Fernandes parecia saber o que eu estava pensando naquele instante . Talvez ele já estivesse acostumado com aquele tipo de reação desde a época em que o mundo veio até ele para ouvir sua história. Ele contava cada detalhe para um babaca de terno simplesmente balançar a cabeça e suspirar de impaciência. Era mais ou menos o que eu estava sentindo naquele instante . Só que sem o terno e um pouco menos babaca. Eu vi o edredom se mexer um pouco e dali debaixo saiu uma mão extremamente gorda ,parecendo inchada. Ele à levou até a sua testa e coçou ela um pouco. Me pareceu estar arrependido de ceder a entrevista. Ou estava apenas cansado. Um homem que deveria pesar quase trezentos quilos se cansaria só de mexer a cabeça. Foi então que eu ouvi um ruído. Saiu baixo ,abafado. Ainda assim soube na hora do que se tratava. Era a típica barriga roncando de fome. E uma barriga daquela magnitude fazia um fiasco dos diabos quando sentia vontade de se nutrir. Aquelas tripas deveriam ter a grossura de um braço. Rui soltou uma risadinha marota ,quase tímida ,fazendo o edredom saltitar na altura de seu abdômen.

- Acho que estão com fome - ele me falou. E então ,antes que eu fizesse a pergunta de um milhão de dólares ,ele desviou para outro lado. - Sabe o que eu fiz com o meu macacão , moço?

- Não. O que você fez com ele ,Rui?

Outro resmungo das tripas.

- Eu queimei. O cheiro era tão forte que não saiu após oito lavagens com sabão em pó e tudo. Então joguei ele em um tonel ,abri o galão de gasolina que usava para abastecer o trator e derramei um pouco lá dentro. Depois só risquei o palito de fósforo e fiquei olhando o sol se pôr atrás do milharal enquanto o fogo fazia o serviço. Eu estava pelado e com o cigarro pendendo no canto da boca. Foi o melhor a ser feito. A única coisa a ser feita.

Concordei com ele ( mais para demonstrar interesse do que por qualquer outra coisa ) e retomei o meu objetivo como repórter do fundo do poço. Não poderia fazer aquela viagem cansativa e sem interesse público até o cu do mundo para depois retornar sem muito à dizer. Não era assim que Luis Feldman trabalhava. Não era ( acima de tudo ) assim que a revista Orestes esperava montar a sua edição de final do mês. Eu havia explicado para o homem imóvel sobre aquela cama ,logo que adentrei naquele mundinho escuro e fedorento ,que estava ali unicamente para saber como ião as coisas após sua visitinha ao outro planeta. Que o país ( certo ,tive de dar a já conhecida forçada de barra que ,convenhamos ,acompanha se não toda ,boa parte dos repórteres ) queria saber o que havia ocorrido com ele dois anos depois da assim chamada abdução. E depois de ouvir suas tripas roncarem pela terceira vez ,tentei deixar os meus pontos um pouco mais claros.

- Eu agradeço por me permitir entrar em sua casa ,senhor Rui. Palavra. Sabe bem o motivo da minha visita . Adorei ouvir a sua declaração pessoalmente ,algo que infelizmente não pude acompanhar com mais afinco na época. Agora ,preciso saber do depois. Do que houve após a sua volta do...

Não sabia como chamar. Planeta terra visto de dentro ,viagem ao fundo da terra ,ou algo que remetesse ao que ele havia me contado. Por fim ,falei o que meio veio a mente como um raio.

- Do mundo subterrâneo. Sabe ,me conte o que mudou na sua vida. Hábitos ,se trouxe algum efeito colateral lá debaixo. Tudo. Se quiser , é claro.

E ele quis. Não creio que pensou em fazer o contrário. Eu não deveria parecer uma ameaça para ele ,tampouco um sujeito do tipo que faria piadas com isso em algum canal do YouTube. Se é que ele tinha ideia do que seria o YouTube. O maxilar dele se moveu para cima e para baixo ,como se mastigasse alguma coisa ( a ideia de ser a própria língua me arrepia até hoje ) e depois de se mover um pouco na cama ele me disse :

- Eu acho que desci até os confins do inferno , moço. Não posso dizer como é lá embaixo pois acabei apagando. Não creio que alguém conseguiria permanecer acordado. Duvido muito. Mas sei que não voltei de lá sozinho. Ah ,isso eu bem que sei. Nos primeiros dias eu mal conseguia andar. Me apoiava em tudo quanto é canto para ir até o banheiro ou simplesmente para andar pela casa. Meus calcanhares doíam como se alicerces de trinta quilos estiveseem presos à eles. Meus dedos dos pés coçavam irritantemente ,e quando eu os coçava a coisa só piorava. Chegava ao ponto de deixar em carne viva. Certa noite ,após não conseguir dormir e não conseguir parar de coçar as solas e os dedos dos pés ,me levantei com um certo esforço e fui até a cozinha para beber um copo de leite. Caminhar era torturante. Era como se o soalho da minha casa fosse feito de brasa. Ainda assim ,consegui chegar até a geladeira. E foi quando à abri que eu escutei aquelas coisinhas. De início pensei que vinha da própria geladeira ,algum cabo do motor solto ,talvez . Lembro de procurar enfiando a cara um pouco mais para dentro ,sentindo o ar gelado envolver o meu rosto. Tentei afastar os pensamentos ,e já estava bem perto disso ,quando eu escutei outra vez . Só que agora eu havia prestado a atenção. Não era nenhum cabo solto. Era dentro de mim. Milhares de gritinhos. Faziam um chiado na minha cabeça. Eu tapei os ouvidos e só pareceu aumentar. E só depois que a geladeira foi fechada é que eles pararam. Daí que comecei a encucar com o lance da luz. Se ela for fraca ,eu não ouço nada. Agora ,se for forte...no sol ,talvez .... Daí eles são capazes de...

De algo ruim ,concluí por ele. Rui assentiu com a cabeça e me deu uma piscadela desconfortável com um dos olhos.

- Mais que ruim ,até. Péssimo. Mortal. Me levariam de volta lá para baixo eu acho - e um sorriso nervoso veio logo em seguida. - Mas eu estou razoavelmente bem. Desde que não haja luz , evidentemente.

Confesso que estava um pouquinho mais intrigado. Procurei - da forma mais natural possível - descobrir um pouco mais sobre a vida pós visita ao fundo da terra de Rui Fernandes. Quis ,acima de tudo ,não fazê-lo concluir que eu o achava um doido varrido. Embora naquela altura aquilo me parecesse tarde demais. Estava ciente de que havia um maluco de trezentos quilos deitado na minha frente. Só não sabia até aonde ele poderia ir para provar aquilo. Logo eu iria descobrir. Descruzei as pernas e debrucei meu corpo na direção do rosto de Rui. O cheiro ali perto era bem pior. Muito pior. Como algo podre ,assim como o cheiro que ele disse ter sentido um pouco antes de ser tragado pela terra. Não vou negar que algo bem próximo do medo tocou no meu ombro naquele momento.

- É fascinante o que acaba de me contar , senhor Rui. Não consigo imaginar o quão difícil deva ser para você ,bem ,conviver com isso. Ou vai me dizer que acabou acostumando ?

- As pessoas se acostumam fácil , moço. Tem gente que perde um braço ,uma perna e até convive com aquele tal de câncer dentro de sí. É quase a mesma coisa ,no fim das contas. Um parasita num casulo de carne.

- Falando nisso... - Este era o gancho que eu precisava e ,como um bom repórter , agarrei nele com unhas e dentes. - Você me disse que trouxe alguma coisa com você lá debaixo ,certo?

Rui Fernandes concordou com a cabeça. Eu continuei :

- O que seriam essas coisas , exatamente ,e quantos imagina que sejam?

Ele pareceu refletir. Parecia ser o tipo de sujeito que fazia cálculos com a ajuda dos dedos ,mas achei que não era isto que ele estava fazendo. Na verdade ,ele não sabia como dizer aquilo. Talvez por finalmente ser desmascarado após anos de uma mentira em que ele próprio já estava acreditando ,uma história em que muitos riram dele e o chamaram de doido. Algo que o fez mudar de casa mais de uma vez num período curto de dois anos ,que o fez engordar desgraçadamente num ritmo inacreditável e clinicamente anormal. Era comum ver aquele tipo de atitude na expressão de um mentiroso. Era quase como derrubar as cortinas e revelar os truques de um mágico. Nisso ele olhou para mim tão depressa que quase recuei com o susto.

- Eu os chamo de coisinhas ,moço. E não ,eu não estava pensando em alguma desculpa. Só estava ouvindo eles falarem. Gosto de fazer isso as vezes. Me deixa tranquilo. Porque eu sei o poder deles ,moço. Essas criaturinhas de meio milímetro são capazes de muita coisa. Muita coisa ruim ,quero dizer. Não vê o que fizeram comigo? Comeram todo meu cabelo. Puxaram ele para dentro assim como me puxaram para debaixo da terra. Você não imagina a dor de sentir fio por fio sendo sugado para dentro da cabeça sabe-se lá pelo que e para que. Ninho ,talvez. Eu sei lá. Cancei de tentar entender isso tudo. E meu peso? Duzentos quilos ganhos , provavelmente. E como poderia ser diferente? Tendo que levar bilhões de moradores nos meus intestinos , para cima e para baixo ,como aquele velho tal de câncer que mencionei. Nada bom ,moço. Nada bom mesmo.

E eu também não achava nada daquilo bom. Era uma história e tanto criada por um matuto. Mas era apenas isso. Uma história. Não sabia se ela serviria para a revista. Para um programa sensacionalista , talvez. Este era os sentimento que borbulhava dentro de mim ,como se eu fosse o caldeirão de uma bruxa má dos desenhos da MGM. Ainda estava com uma frustração do cacete ,para aumentar a minha soma de fracassos do mês de novembro da revista Orestes. E para piorar ,eu finalmente estava ficando puto. E nao pretendia esconder aquele sentimento por muito tempo. Nem que Rui Fernandes o percebesse e me achasse um escroto. Embora na época eu estivesse pouco me lixando. Só queria levantar a minha bunda já dolorida daquela poltrona barata ,apertar a mão do homem gordo ( se ele retribuisse ,é claro ) e dar no pé. Quando chegasse na edição da Orestes diria qualquer coisa ; o homem não estava muito afim de papo parecia ser a desculpa perfeita. Talvez eu usasse aquela ,afinal.

Assim que fiz um gesto positivo com a cabeça - não com muita veemência ,apenas um abaixar lento e conformado , que dizia muito sobre meu estado de espírito naquele momento - uma dor desconfortante atingiu o meu pulso esquerdo. Por um instante fiquei surpreso ,tentei imaginar o que estava acontecendo e só então que me dei conta que aquilo só poderia significar uma única coisa : que Rui Fernandes havia capturado o meu braço com sua mãozona roliça. E era exatamente isso que havia acontecido. Tentei me soltar com um único puxão e o resultado foi ridículo. A mão enorme do gordo careca nem se moveu.

- Certo ,o que está fazendo Rui? - tentei não demonstrar nervosismo ,mas tenho certeza que a minha voz mostrou o contrário.

Rui apenas olhou para mim com aqueles olhos negros e distantes. Era como se olhasse além de mim ,não exatamente para mim.

- Você não acredita em mim ,não é moço?

Eu disse que acreditava e aquilo soou terrivelmente equivocado para os ouvidos de Rui. E para os meus também.

- Sei que está mentindo e estou pouco ligando para isso. Você não é o primeiro. Mas certamente será o último. Não vou abrir o bico outra vez. E existem dois motivos para isto. O primeiro é que sei que não há ninguém interessado no que um caipira tem a dizer . E o segundo é que não haverá tempo para falar mais nada em breve. Sei que estou morrendo em cima desta cama. Pra dizer a verdade ,nem sei como aguentei tanto tempo. O fato é que eles acabaram comigo. Mentalmente. E fisicamente nem preciso falar. Eu tinha de comer tudo que via pela frente ,moço. TUDO! Até perceber que a comida não funcionava para fazer a dor sessar. Então sabe o que eu descobri?

Perguntei o que ele havia descoberto ,enquanto a mãozona dele espremia o meu pulso com um pouco mais de pressão. Eu já estava mordendo os lábios ,sentindo uma gota de suor brotar e escorrer pela testa ,depois pela bochecha.

- Que eles adoram grama. Amam ,na verdade. Então passei a abocanhar o meu quintal , pastando como um garanhão ao ar livre. Por sorte não tenho vizinhos. Caso contrário eu seria visto apenas de cueca ,com a bunda para cima e o rosto enfiado no chão ,mastigando o jardim como se ele fosse uma salada de alface gigante. E eu não me importo com essa merda ,desde que a dor pare. E ela para , pode crer. Vê? - ele me exibia os dentes mais verdes que já havia visto ,ainda com fiapos de capim enfiados no meio dos caninos. Provavelmente da sua última refeição. Dá última vez que empinou o traseiro no quintal dos fundos e mandou ver. Quando teria sido? A noite ,certamente ,já que " eles " não suportam a luz. Tanto faz. O fato é que só de pensar naquilo meu estômago apertava como se estivesse no meio de uma bigorna. Se houve um momento em que o terror tomou conta dos meus nervos ,aquele foi o momento. E eu não tinha problemas em demonstrar aquilo. Não havia o porquê. Foi quando finalmente Rui Fernandes decidiu soltar o meu pulso. Havia uma marca dos dedões dele que circulava toda a circunferência logo acima da minha mão. Puxei o meu braço de volta para entre as pernas ,onde ele parecia estar seguro. O sorriso verde já não estava mais no rosto dele. Estranhamente ,ele lembrava um menininho que acabara de fazer uma travessura e olhava para mim com um ar de perdão . Talvez por perceber que havia apertado o meu pulso com demasiada força.

- Acho que acabamos por aqui - falei ,me pondo de pé.

- Certamente que sim ,moço. E só para constar ...- Rui ergueu um pouco o travesseiro e eu pude ver que haviam tufos de grama debaixo dele. - Não consigo ir até lá fora ultimamente. E a fome deles está cada vez maior. Logo isso vai acabar ,sei que vai. Mas também sei que os bilhões que estão dentro de mim são apenas uma quantia mínima. O solo da terra está repleto dessas coisinhas. Dá terra inteira ,creio eu. Mas quem sou eu para saber , não é mesmo?

Eu preferi o silêncio. Nem sequer estiquei a mão para cumprimentá-lo uma última vez . Não queria correr o risco ,como dizem os investidores na bolsa de valores . Desejei à ele uma boa tarde ,e dei graças a Deus quando deixei aquele quarto enfadonho para trás. Quando saí na varanda que dava para a rua ,já estava escurecendo. O ar puro alí fora fez um bem danado para os meus pulmões. Adorei a sensação de sentir minhas narinas com aspecto limpo outra vez. Assim que cruzei o quintal rumo ao meu Logan que estava estacionado diante da cancela ,reparei nos tufos de grama que estavam faltando por ali. Havia um bocado de terra circulando boa parte da varanda. Sem dúvida que o gorducho havia pastado por aquelas bandas. Senti que os pêlos dos meus braços se arrepiaram.

- Hora de cair fora , senhor Feldman. Repórteres extravagantes primeiro. Gordos malucos podem ficar ,por gentileza.

Dois dias depois na redação da Orestes ,eu disse ao meu redator chefe ,o senhor Pedro Antunes ,que naquele dia usava um terno azul que o fazia parecer um apresentador de programas de vendas , que Rui Fernandes não estava muito afim de papo. Levei em conta aquela decisão que havia sido tomada enquanto ainda estava sentado naquele quarto imundo com aquele sujeito biruta. Era o melhor a ser feito. Sem dúvida que era ,moço ,teria dito o homem gordo. Notei o claro desapontamento no rosto do meu chefe ,o típico resultado de uma jogada que deu errada ,uma aposta que não valeu a pena.

- Como vamos preencher a coluna de curiosidades agora , Feldman? A revista sai em pouco mais de duas semanas. Se tem alguma ideia ,ponha pra fora.

- Que tal a vovó das galinhas?

O redator pareceu refletir. Depois abriu a gaveta a sua frente e começou a revirar lá dentro.

- Acho que o endereço dela está aqui em algum lugar.

E de fato estava. Fiz a entrevista com a senhora Neiva Padilha ( ou ,a famosa vovó das galinhas ) cerca de três dias depois. A edição da revista teve um trabalho danado para dar conta de deixar tudo nos trilhos até a data de lançamento marcada para o dia vinte e oito daquele mês. E tudo saiu de um modo geral bem. As vendagens seguiram o padrão Orestes - nem lá ,nem cá ,como costumamos brincar lá na redação - e isso foi à oito meses atrás. Nunca mais fiquei sabendo de Rui Fernandes e suas coisinhas . Provavelmente ele já deva ter morrido naquele quartinho. E agora o seu corpo enorme já não passa de uma lembrança bizarra. Dias atrás perguntei à Pedro Antunes se ele lembrava de como era o senhor Rui Fernandes na época em que ele havia saído em diversos jornais. Pedro me confirmou que ele era um sujeito magro ,talvez uns oitenta quilos ,em forma. O corpo de um trabalhador do campo. Aquilo me deixou um tanto nervoso. Chocado ,acho que é a melhor descrição. Ainda prefiro acreditar que o homem não batia bem. Às vezes é melhor assim. Não esquentar com algumas coisas. E eu sou bom em fazer isso. Eu apenas deixo rolar. Assim como venho fazendo ultimamente. Começou a cerca de um mês ,eu acho. Um fedor horrível que brota no meu quintal dos fundos toda vez que me sento lá com as pernas para cima e uma lata de Bud nas mãos.

14 de Julho de 2019 às 04:23 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~