Álvorada da Legião Seguir história

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Rafael Mello


Há muito tempo atrás, no mundo ancestral de Cahaam, as tribos razíris vivam em relativa paz com seus vizinhos, os misteriosos yxari. Mas a chegada de um estranho desencadeia uma série de eventos que mudaria para sempre o destino de ambas as raças, dando início a ascensão da Legião Demoníaca e do conflito que mudaria para sempre a história de diversos mundos.


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fantasia
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PRÓLOGO

O poder daquele estranho emanava em diferentes tons e vibrações, fluindo como uma capa atrás dele, circulando sua cabeça como uma coroa. Podiam ouvir sua voz tanto em seus ouvidos quanto em suas mentes, que os dava a sensação de uma doce canção esquecida há tempos e agora relembrada, correndo em suas veias.

O que ele oferecia era tentador, empolgante, e fazia o coração doer de antecipação. Mas ainda assim havia algo. Quando ele havia partido, os líderes dos yxari formaram um círculo e conversaram, as palavras destinadas somente às suas mentes.

“É pouco o que ele pede em troca do que nos oferece”, disse o primeiro. Ele era o maior dos três, seu rosto com traços fortes pairava quase três palmos acima dos outros dois, e sua pele era a mais escura dos três, de um vermelho intenso.

“Tanto poder”, murmurou o segundo, perdido em pensamentos. Ele era o elegante, o belo, sua essência era gloriosa e radiante e sua voz doce. Seu rosto tinha traços finos e sua pele era clara, quase rosada. ‘E ele fala a verdade. O que ele nos mostrou irá acontecer. Ninguém tem a capacidade de mentir de tal maneira e forjar tais imagens do futuro.’

O terceiro estava silencioso. De braços cruzados, e encarando o vazio, sua calda dançava lentamente atrás de si, parecendo acompanhar seus pensamentos. O que o segundo havia dito era verdade. A magia usada por essa entidade poderosa para demonstrar o que ele poderia oferecer não podia ser falsificada, eles todos sabiam disso. Ainda assim, essa entidade, esse... Valdari... havia algo sobre ele que Ubus não gostava.

Os companheiros líderes dos yxari também eram amigos de Ubus. Ele era particularmente próximo de Vol’thar, o mais poderoso e decisivo dos três. Eles haviam sido amigos por anos que haviam passados despercebidos para criaturas imortais além do alcance do tempo. O fato de Vol’thar estar inclinado a aceitar a oferta carregava mais peso para Ubus do que a opinião de Azam, que apesar de geralmente prudente, ocasionalmente poderia ser manipulado pelos apelos à sua vaidade.

Ubus pensou novamente na imagem mostrada a eles por Valdari. Mundos para eles conquistarem, e mais importante, para explorarem e investigarem; porque acima de tudo, os yxari eram curiosos. Para seres tão poderosos, conhecimento era como bebida e comida para seres inferiores, e Valdari ofereceu um vislumbre tentador do que poderia ser deles caso eles apenas jurassem lealdade a ele.

Somente jurassem por seu povo.

“Como sempre, nosso Ubus é o cauteloso,” disse Azam. As palavras poderiam ter sido um elogio; ao invés, elas chegaram a Ubus como condescendes. Ubus sabia que o outro via sua hesitação somente como um obstáculo para o que ele, Azam, ansiava no momento. Ubus sorriu.

“Sim, eu sou o cauteloso, e algumas vezes minha cautela nos salvou tanto quanto sua determinação, Vol’thar, e sua instintividade impetuosa, Azam.”

Os três riram, e por um momento Ubus sentiu-se aquecido pela afeição deles. Então eles aquietaram-se, e ele sentiu que os outros, finalmente, haviam tomado uma decisão. Ubus sentiu seu coração afundar no peito enquanto observava seus amigos partirem, e esperou em seu coração que fizessem a coisa certa.

Os três sempre trabalharam bem juntos, suas personalidades diversas servindo como equilíbrio uma para a outra. O resultado era harmonia e paz para seu povo. Ele sabia que Vol’thar e Azam queriam o melhor não somente para eles, mas também para aqueles que lideravam. Ele compartilhava daquele sentimento e eles sempre chegavam a um acordo em tais assuntos. Ubus franziu a testa. Porque o confiante, atraente Valdari o deixava tão desconfortável? Os outros estavam obviamente inclinamos a aceitar a oferta. Valdari disse a eles que os yxari eram exatamente o que ele estivera procurando. Um povo forte, apaixonado e orgulhoso, que serviria a ele e avançariam a causa que uniria todos os mundos. Ele os aprimoraria, disse. Ele iria mudá-los, torná-los melhores, dar-lhes dons que ninguém no universo jamais havia visto antes. De fato, o universo nunca antes reuniu os poderes que Valdari lhes mostrou e a singularidade que eram os yxari.

E o que Valdari mostrou a eles de fato aconteceria.

E ainda assim a dúvida não deixou sua mente.

Ubus foi ao templo, onde ele frequentemente ia quando estava inquieto. Ele estava sozinho ali esta noite. O templo era um jardim, onde uma alta abóboda sustentada por grandes arcos foi construída. Ubus caminhou em direção ao centro do templo e parou a poucos passos do suporte onde repousava o orbe Noníati. O artefato era antigo, tão antigo que ninguém entre os yxari conseguia lembrar sua origem, não mais do conseguiam lembrar de sua própria. A lenda dizia que ele havia sido dado de presente a eles há muito tempo atrás. O orbe permitia que eles expandissem ambas suas habilidades mentais e seu conhecimento dos mistérios do universo. Ele havia sido usado no passado para curas, invocações, e, como Ubus esperava essa noite, para visões. Respeitosamente, ele foi avançou e tocou o orbe. O calor dele, como um pequeno animal aninhado em suas mãos, o acalmou. Ele respirou profundamente, deixando o poder conhecido penetrá-lo, então pousou-o em suas mãos, recuou e sentou-se em uma pedra próxima.

Ubus fechou seus olhos. Ele abriu seu corpo, mente e intuição mágica. Inicialmente, o que ele viu parecia confirmar o que Valdari havia prometido. Ele viu-se em pé ao lado de Vol’thar e Azam, senhores não só de seu povo nobre e orgulhoso, mas de incontáveis mundos. Poder reluzia ao redor deles, poder que Ubus soube que seria mais embriagante que qualquer licor que pudesse experimentar. Cidades reluzentes pertenciam a eles, assim como seus habitantes, que se colocavam diante deles em louvores de lealdade e adoração. Tecnologias com as quais Ubus jamais havia sonhado esperavam para serem exploradas. Livros escritos em línguas estranhas eram traduzidos para ele, revelando magias dais quais ele nunca imaginou ou ouvir falar.

Era glorioso, e seu coração se encheu.

Ele olhou para Vol’thar, e seu velho amigo sorriu. Azam colocou a mão uma mão amiga em seu ombro.

Então Ubus olhou para baixo, para si mesmo.

E gritou em horror.

Seu corpo agora era gigantesco, mas distorcido. Sua pele suave e vermelha agora era marrom, preta e nodosa, como uma antiga árvore nobre desfigurada por uma doença. Luz emanava dele, mas não uma a luz pura, poderosa e benevolente, mas uma luz pálida adoentada. Freneticamente ele se virou para observar seus amigos, seus companheiros líderes do yxari. Eles também, haviam sido transformados. Deles, também, não restara nada do que eram antes, mas agora eram –

Draeros.

A palavra no idioma yxari para alguma coisa horrivelmente errada. Algo distorcido, antinatural e corrompido atingiu sua mente com a força de uma espada afiada. Ele gritou novamente e seus joelhos dobraram-se. Ubus desviou seu olhar de seu corpo atormentado, procurando pela paz e prosperidade que Valdari tinha lhes prometido. Ele viu apenas atrocidades. Onde antes ele viu uma multidão de adoradores, agora ele via somente corpos mutilados, ou corpos que, como dele, foram transformados em monstruosidades. Ubus viu entre os corpos e seres distorcidos criaturas que ele nunca havia visto. Felinos estranhos com tentáculos brotando de suas costas. Pequenas, distorcidas criaturas que dançavam e saltitavam e gargalhavam entre a carnificina. Criaturas enganosamente belas, com asas estendidas em suas costas, que observavam o que tinha acontecido com deleite e orgulho. Onde seus cascos pousavam, a terra morria. Não só a vegetação, mas o próprio solo; tudo que provia vida era obliterado, esgotado.

Isso, então, era o que Valdari havia planejado para os yxari. Esse era o “aprimoramento” do qual ele havia falado com tanto entusiasmo. Se o povo de Ubus se aliassem com Valdari, eles se tornariam essas coisas monstruosas... esses draeros. E de alguma forma Ubus entendeu que o que ele havia testemunhado não foi um incidente isolado. Não era apenas um mundo que iria cair. Não eram apenas uma dúzia, ou uma centena, ou um milhar.

Se ele desse seu suporte a Valdari, tudo seria destruído. Essa legião de draeros continuaria seguindo em frente, ajudados por Vol’thar, Azam e Ubus. Eles não parariam até que toda a existência fosse desolada e enegrecida como aquele pedaço de solo que Ubus havia visto através de sua visão embaçada. Valdari era louco? Ou pior, ele entendia e ainda assim almejada aquilo? Sangue e fogo líquido derramavam-se sobre todas as coisas, choviam sobre ele, salpicando-o e queimando-o até que ele caiu no chão e chorou.

A visão misericordiosamente foi desaparecendo, e Ubus piscou, tremendo. Ele continuava sozinho no templo, e o orbe brilhava com sua luz reconfortante. Ele estava grato pelo alívio que ele proporcionava.

Aquilo não havia acontecido. Ainda não.

O que Valdari disse a eles era verdade. Os yxari seriam transformados, e a seus três líderes seria oferecido poder, conhecimento e soberania quase divinos.

E eles perderiam tudo o que lhes era querido – trairiam aqueles que juraram proteger – para consegui-lo.

Ubus passou a mão pelo seu rosto, aliviado em encontra-lo somente encharcado de suor e não com o fogo e sangue da sua visão. Ainda não, de qualquer maneira. Ele devolveu o orbe a seu lugar de repouso. Era possível parar, ou mitigar a destruição que essa legião traria de alguma forma?

A resposta flutuou de volta para ele em sua mente, tão revigorante e doce como um gole de água no deserto: Sim.

Ubus convocou seus companheiros. Respondendo a emoção em seu apelo mental, eles vieram imediatamente. Foi uma questão de minutos para pincelar suas mentes a visão que tivera, para verem o que ele havia visto, sentir o que ele havia sentido. Por um breve instante, ele sabia que eles compartilhavam seus sentimentos, e esperança cresceu dentro dele. Havia ainda uma chance – Azam franziu o cenho, “Esse não é um vislumbre do futuro que nós podemos verificar. É somente seu pressentimento.”

Ubus encarou seu antigo amigo, então virou seus olhos para Vol’thar. Vol’thar não era preso a seu orgulho como Azam. Ele era decisivo e sábio...

“Azam está certo,” Vol’thar disse calmamente. “Não há veracidade aqui, somente uma imagem na sua própria mente.”

Ubus olhou para ele, sentindo a angústia crescendo dentro de si. Gentilmente e melancolicamente, separou seus pensamentos dos deles.

Agora, o que estava em seu coração e em sua mente permaneciam lá, não mais compartilhado com seus amigos. A partir daquele momento, ele sabia que nunca mais compartilharia seus pensamentos e sentimentos com aqueles que antes haviam sido uma extensão da sua própria alma, e isso o encheu de tristeza. Mas ele precisava começar a agir imediatamente.

Vol’thar entendeu o desligamento de seus pensamentos como uma rendição, que foi como Ubus pretendia, e sorriu conforme colocou uma mão no ombro de Ubus.

“Eu não quero desistir do que eu sei ser positivo, bom e verdadeiro para nós e nosso povo, pelo o que eu temo possa ser desagradável.” Ele disse. “Nem penso que você queira.”

Ubus não poderia arriscar uma mentira. Ele meramente olhou para baixo e suspirou. Antes, Vol’thar e Azam teriam enxergado através dessa mera fachada. Mas agora, eles não prestavam tanta atenção nele. Eles estavam pensando sobre os poderes ilimitados prometidos que estavam prestes a serem concedidos a eles. Era tarde demais para persuadi-los. Estes dois antes grandiosos seres, eram agora brinquedos de Valdari; eles estavam a caminho de se tornarem draeros. Ubus sabia com uma certeza aterrorizadora que se eles adivinhassem que ele não estava do lado deles, eles iriam se voltar contra ele com consequências mortais. Ele tinha que sobreviver, nem que fosse para fazer qualquer coisa, por menor que fosse, para salvar seu povo da condenação e destruição.

Então ele acenou que sim com o cabeça, e ficou decido que os três líderes dos yxari iriam aliar-se ao grande Valdari. Vol’thar e Azam partiram rapidamente para fazer os preparativos para receber seu novo senhor.

Ubus ficou para trás, observando as luzes das luas brilhando através dos entalhes no teto do templo, e entristeceu-se sobre sua impotência. Ele queria salvar todo seu povo, como ele havia jurado, mas ele sabia que era impossível. A maioria confiaria em Vol’thar e Azam, e os seguiriam para sua condenação. Mas haviam alguns que pensavam como ele, que iriam abandonar tudo quando lhes pedissem. Eles precisariam fazê-lo; seu mundo natal, Cahaam, logo seria destruído, devorado pela loucura da legião demoníaca. Aqueles que sobreviverem precisariam fugir.

Mas fugir para onde?

Ubus encarou o orbe noníate, desespero invadindo-o. Valdari estava chegando. Não havia nenhum lugar nesse mundo para se esconder de tal ser. Como, então, ele escaparia?

Lágrimas embaçaram sua visão, enquanto encarava o orbe. Com certeza eram suas lágrimas que fizeram o orbe parecer brilhar e pulsar. Ubus piscou. Não... não era nenhum truque de luz visto através de suas lágrimas. O orbe estava brilhando, e diante de seu olhar chocado, ele ascendeu de seu pedestal e flutuou até estar diretamente a sua frente.

Toque-o, uma voz em sua mente disse suavemente. Tremendo, espantado, Ubus levantou sua forte mão vermelha, esperando sentir o calor familiar do artefato yxari.

Energia correu através de seu corpo e ele sobressaltou-se. Em intensidade, era quase tão poderosa quando a energia maléfica que ele havia sentido na visão. Mas essa era tão pura quanto aquela havia sido maléfica, tão clara quanto aquela havia sido escura, e Ubus repentinamente sentiu esperança e força brotarem dentro de si.

Um campo estranho e brilhante cresceu ao redor do orbe noníate, e esticou-se para cima, assumindo forma. Ubus piscou, e quase cego pela luz, mas não querendo desviar o olhar.

Você não está sozinho, Ubus dos yxari, a voz sussurrou para ele. Era tranquilizante e doce, como o som de água corrente e o sopro de um vento de verão. O brilho diminuiu levemente, e pairando diante de Ubus estava um ser diferente de qualquer um que ele conhecia. Parecia ser feito de luz viva. Seu centro era um matiz suave e branca, e seu raio externo de um brilho suavemente azul. Formas estranhas que não lembravam nada a Ubus surgiam e desapareciam do centro, calmantes e hipnóticas, em uma variação de tons. Continuou falando com ele dentro de sua mente, um som que para Ubus parecia como se a própria luz tivesse se dado voz.

Nós também vimos os horrores prestes a cair sobre este e outros mundos. Nós lutamos para manter o equilíbrio, e o que Valdari está planejando irá destruir toda a existência. Puro caos e ruína irão cair sobre todas as coisas boas, verdadeiras e puras, que se perderão para nunca serem recuperadas.

Quem... O que... Ubus não conseguia nem formar uma pergunta em sua mente, tão desconcertado estava pela glória deste ser.

Nós somos os Saari, a entidade radiante disse. Podes me chamar Iros.

Os lábios de Ubus lentamente murmuraram “Saari... Iros...,” ele sentia a doçura nas palavras, como se falando seus nomes garantisse a ele um pouco de sua essência.

Isso é onde tudo começa, Iros continuou. Nós não podemos impedir, pois seus amigos têm livre arbítrio. Mas você nos alcançou com um coração angustiado para salvar o que pudesse. E, portanto, nós faremos o que pudermos para ajudá-lo. Nós iremos salvar aqueles de você cujos corações rejeitarem os horrores que Valdari oferece.

O que eu faço? Novamente lágrimas enchiam os olhos de Ubus, lágrimas de alívio e alegria desta vez.

Junte aqueles que ouvirão à sua sabedoria. Vá para a montanha mais alta nesta terra no dia mais longo do ano. Leve o orbe noníate com você. Há muito, muito tempo atrás, nós o demos para vocês; é como nós os encontraremos novamente. Nós viremos e os levaremos embora.

Por um momento, uma centelha de dúvida, como uma chama sombria, queimou no coração de Ubus. Ele nunca havia falar de tais seres de luz como os Saari, e agora essa entidade estava pedindo que ele roubasse seu artefato mais sagrado. Eles ainda clamavam que eles que o deram aos yxari. Talvez Vol’thar e Azam estivessem certos. Talvez a visão de Ubus não fosse nada mais que seu medo se manifestando.

Mas mesmo conforme esses pensamentos tortuosos corriam em sua mente, ele sabia que eles nada mais eram que os últimos vestígios de seu coração partido, ansiando que tudo voltasse a ser como antes, antes das coisas mudarem tão horrivelmente. Antes de Valdari.

Ele sabia o que tinha que fazer, e ele curvou-se levemente diante do glorioso ser de luz.

O primeiro e mais confiável aliado que Ubus convocou foi Lyandrel, um antigo amigo e um que o havia ajudado no passado. Tudo pesava sobre esse amigo, que poderia andar sem ser notado onde Ubus não poderia. Lyandrel foi cético no começo, mas quando Ubus uniu suas mentes e mostrou as visões sombrias que ele tivera, Lyandrel rapidamente concordou. Ubus não disse nada sobre os Saari e da oferta de ajuda, porque mesmo ele não sabia em que forma a ajuda viria. Ele apenas garantiu a Lyandrel que havia um jeito de escapar daquele destino, se confiasse nele.

O dia mais longo do ano estava próximo. Com toda a descrição que ele poderia reunir, enquanto Vol’thar e Azam estavam obcecados sobre Valdari, Ubus enviou suas gavinhas de pensamentos para aqueles que ele confiava. Outros foram reunidos por Lyandrel, vindo para o lado de Ubus em defesa própria e de seu povo. Ubus então voltou sua atenção para tecer a mais sútil das teias mágicas sobre os dois traidores que antes ele considerava amigos queridos, para que a atenção deles não se voltassem para a atividade frenética ocorrendo furtivamente fora de suas vistas.

Com alarmante velocidade a ainda assim com lentidão agonizantes, uma teia intrincada foi criada. Quando o último dia chegou, e os yxari que haviam escolhido seguir Ubus reuniram-se no topo da montanha mais alta de seu mundo ancestral. Ubus viu que seus números eram assustadoramente pequenos. Eles eram apenas centenas, os únicos em que Ubus realmente confiava. Ele não ousou arriscar tudo, contando com aqueles que pudessem traí-lo.

Somente antes de partir Ubus tinha retirado o orbe noníate de seu lugar. Ele tinha passados os últimos dias fabricando um falso, para que nenhum alarme fosse soado quando fosse descoberto que ele havia sumido. Ele havia o forjado de um simples cristal de pedra, com o maior cuidado, lançando um encantamento sobre ele para que brilhasse. Mas ele permanecia impassível ao toque. Se alguém tocasse o orbe falso com os dedos, o furto seria revelado.

Ele segurava o verdadeiro orbe noníate perto de seu coração agora, conforme observava seu povo subir a montanha com passos firmes, encontrando facilmente o caminho ao topo.

Muitos já haviam chegado e olhavam para ele com expectativa, a pergunta clara em seus olhos senão em seus lábios. Como, se perguntavam, eles iriam escapar?

Como, Ubus pensou. Por um momento ele se desesperou, mas então lembrou-se do ser radiante que tinha ligado seus pensamentos aos dele. Eles viriam. Ele sabia. Enquanto isso, cada momento que passava significava que eles estavam mais perto de serem descobertos. E muitos não estavam aqui ainda, nem mesmo Lyandrel.

Urzin, outro velho e confiável amigo, sorriu para Ubus. “Lyandrel e os outros logo estarão aqui,” ele disse, tranquilizadoramente.

Ubus concordou com a cabeça. Urzin estava certo. Não havia nenhum sinal que seus antigos parceiros e agora inimigos, Vol’thar e Azam, tivessem sido alertados desse plano escandalosamente ousado. Eles já haviam sido consumidos pela antecipação de seus futuros poderes.

E ainda assim Ubus não conseguia evitar a ansiedade crescente.

O mesmo instinto profundo que tinha avisado ele para desconfiar de Valdari começava a disparar em sua mente. Algo não estava certo. Ele percebeu que estava andando de um lado para o outro.

E lá estavam eles.

Lyandrel e vários outros apareceram na abertura de uma clareira, sorrindo e acenando, e Ubus exalou em alívio. Ele começou a descer em direção a eles quanto o orbe que ele segurava enviou uma poderosa onda de energia por seu corpo. Seus dedos vermelhos apertaram-se firmemente ao redor do artefato conforme sua mente abria-se a seu aviso. Os joelhos de Ubus cederam conforme um cheiro pútrido penetrou sua mente.

Valdari já havia começado. Ele já havia começado a criar sua legião hedionda, capturando os yxari que tinham sido tolos que confiaram o suficiente em ouvir Vol’thar e Azam, distorcendo-os e transformando-os nos draeros que Ubus viu em sua visão. Haviam milhares de draeros de todas as descrições físicas e habilidades, no limiar de sua visão e sentidos. Eles estavam camuflados de alguma maneira. Se ele não estivesse segurando o orbe noníate, ele nunca teria sentido a presença deles até que fosse tarde demais.

Talvez já fosse tarde demais.

Ele virou seu olhar chocado para Lyandrel, repentinamente ciente que a corrupção estava emanando tanto de seu antigo amigo quanto da multidão – da Legião – de monstros que espreitava além de sua visão. Uma prece, arrancada das profundezas de sua alma desesperada, estremeceu de sua mente:

Iros! Salve-nos!

Os draeros estavam forçando seu caminho montanha acima agora, sentindo que eles haviam sido detectados e se aproximando como predadores famintos, ansiando para matar. Mas Ubus sabia que a morte seria preferível ao que aqueles yxari distorcidos iriam fazer a ele e aqueles que o seguiam. Quando seu juízo o deixara, Ubus agarrou o orbe e o ergueu em direção ao céu.

Como se o próprio céu estivesse rachando-se, um radiante feixe de luz branca apareceu. Sua glória brilhou diretamente sobre o orbe cristalino, e diante do olhar atônito de Ubus, dividiu-se em sete raios distintos de tons variados. Dor perfurou Ubus conforme o orbe em sua mão rachava. As arestas afiadas cortaram seus dedos. Ele arquejou e instintivamente soltou o orbe fraturado, assistindo arrebatado enquanto os pedaços pairavam no ar, cada um transformando-se em um cristal, a assumindo os setes tons da luz que antes haviam sido um único, perfeito feixe de puro esplendor branco. Os sete cristais – vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e violeta – dispararam para cima, então aceleraram-se para formar uma barreira de luz ao redor das formas apavoradas dos yxari ali reunidos.

Nesse preciso momento, Lyandrel correu em sua direção, repugnância nua em seu olhar. Ele jogou-se contra o círculo de luzes multicoloridas como se fosse uma parede de pedra e capotou para traz. Ubus virou-se e viu os draeros batendo, rosnando, babando, arranhando com suas garras a parede de luz que ainda protegia Ubus e seu povo.

Um som profundo e vibrante correu pelos nervos de Ubus, mais sentido que ouvido. Ele olhou para cima e viu algo que superava até o milagre dos sete cristais de luz. Ele observou o que parecia incialmente uma estrela descendo na direção deles, tão brilhante que ele quase não suportou olhar. Conforme se aproximava, ele viu algo que não era algo tão elusivo como uma estrela no céu noturno, mas uma estrutura sólida, seu centro tão brando e redondo como o orbe noníate havia sido, adornado com formas cristalinas e salientes. Ubus chorou abertamente quando sentiu um toque em sua mente:

Eu estou aqui, como prometi que estaria. Prepare-se para abandonar este mundo, Profeta Ubus.

Ubus estendeu seus braços para cima, quase como uma criança implorando para ser pego no colo terno de seus pais.

O orbe acima dele pulsou, e então Ubus sentiu-se ser levantado gentilmente no ar. Ele flutuou para cima, e viu que os outros estavam ascendendo também em direção àquela... embarcação? Ubus não sabia como, mas entendia que ela também vibrava com uma essência viva que ele ainda não compreendia. No meio de sua alegria silenciosa, Ubus ouviu os guinchos, gritos e bufadas dos draeros enquanto suas presas escapavam. A base da embarcação abriu, e poucos segundos depois Ubus e o resto do seu povo estavam em pé em algo sólido. Ele ajoelhou-se no chão transparente, se é que podia chamar de chão, e assistiu o resto de seu povo flutuando em direção a segurança. Quando o último chegou, Ubus esperou que a porta fechasse e que essa embarcação – essa embarcação feita de metal que não era metal, carne que não era carne, e que Ubus suspeitava ser a própria essência de Iros – partisse.

Ao invés disso, ele sentiu um murmúrio em sua mente: Os cristais – onde havia um, há sete. Recupere-os, pois você precisará deles.

Ubus inclinou-se sobre a abertura e estendeu suas mãos. Com uma velocidade surpreendente, os sete cristais subiram em sua direção, atingindo as palmas da sua mão com tanta força que ele arquejou. Ele juntou-os perto de si, ignorando o calor incrível que eles emanavam, e jogou-se para trás. De imediato a abertura desapareceu como se nunca tivesse existido e o chão tornou-se opaco. Abraçando os sete cristais noníate, sua mente estendeu-se tão distante que ele sentiu que estava roçando os limites da loucura. Ubus ficou suspenso por um instante interminável entre esperança e desespero.

Eles conseguiram? Eles escaparam?

De sua posição na liderança do exército, Vol’thar tinha uma vista clara da montanha e estava cercado por seus escravos. Por um momento glorioso ele havia sentido o gosto da vitória, quase tão doce quanto a fome que Valdari plantou em sua mente. Lyandrel tinha feito seu trabalho bem. Tinha sido apenas pura sorte que Ubus estivesse segurando o orbe no momento do massacre; caso não tivesse, seu corpo estaria jogado no chão, despedaçado.

Mas Ubus estava segurando o orbe noníate, e ele havia sido avisado. Alguma coisa havia acontecido – algumas luzes estranhas haviam surgido e protegido o traidor, e algo havia vindo para salvá-los. Agora, enquanto Vol’thar observava, a embarcação peculiar cintilava e desaparecia.

Ele havia escapado! Maldito seja, Ubus havia escapado!

Os draeros, que haviam enchido Vol’thar de deleite segundos atrás, agora estavam perdidos e desapontados. Ele tocou a mente de todos, mas nenhum deles sabia de nada. O que era essa coisa que tinha vindo para arrebatar Ubus do alcance de Vol’thar? Medo agora corria através de Vol’thar. Seu novo mestre não ficaria contente ao saber desse acontecimento.

“E agora?” perguntou Azam. Vol’thar virou-se para olhar para seu aliado.

“Nós os encontraremos.” Rosnou Vol’thar. “Nós vamos encontra-los e destruí-los. Nem que leve mil anos.”

8 de Julho de 2019 às 16:14 0 Denunciar Insira 0
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