Rota da Morte Seguir história

guilhermerubido Guilherme Rubido

Douglas descobre que está sendo traindo. Com sua vã escolar, ele resolve acertar as contas com o homem que está se encontrando com a sua mulher. Tudo parecia estar indo bem. Entretanto, no dia seguinte, quando levava as crianças para a escola, ele escuta um grito vindo do banco de trás. Nesse momento, percebe que havia se esquecido de algo.


Conto Para maiores de 18 apenas.

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Rota da Morte


Quando escorreguei para fora da cama naquela noite coberta por névoa, eu não esperava que as coisas fossem acabar...bem, não esperava que as coisas fossem ficar tão ruins. Minha mulher dormia ao lado esquerdo da cama. Roncava como um trator, assim como fizera todas as noites durante nossos 15 anos. Ainda assim, eu a amava muito. Ah, sim, mas eu tinha pendências a resolver com um certo alguém. Tive de deixá-la li sozinha por algum tempo. Eu voltaria antes que ela pudesse acordar.

Quando tirei minha velha e querida Jimbei Topic da garagem e ouvi seu motor ronronar intenso sob o capô, rezei para que os vizinhos não acordassem. Eu teria uma boa desculpa para dar, mas felizmente minha Topic jamais me deixou na mão. Ali não seria diferente.

Deixei minha casa para trás em silêncio absoluto. Os faróis desligados e o motor de 102 cavalos roncando suavemente enquanto as rodas deslizavam lisas sobre o asfalto esburacado da cidade. A neblina deve ter descido por volta das uma da manhã e, àquela hora em que eu dirigia, ela bloqueava praticamente toda a visão. Bem, aquilo foi um feliz acaso. Pois, por vontade de Deus ou não, seria difícil enxergar qualquer coisa. Nessas horas a experiência conta, e meus anos dirigindo a vã foram de grande ajuda. Desbravei as ruas como ninguém, deslizando como um fantasma por locais familiares em que eu seria capaz de dirigir de olhos vendados. Ninguém poderia me ver, eu sabia disso.

Não me entendam mal. Há dez anos sou motorista de uma vã escolar para transporte de crianças pequenas. Nunca tive nenhum problema. Os pais eram só elogios. Fiz meu trabalho com alegria durante todos esses anos. As crianças que transporto sempre me adoraram. Podia ver os sorrisos se formarem em seus rostos tristonhos pela manhã quando avistavam a vã com as faixas amarelas nas laterais e com números e letras pretas escritas na traseira. Em um dos lados do veículo, estava escrito: “Perua do Tio Douglas. Se quiser meu número, olhe para o meu traseiro. Elas adoravam essa frase. Riam sem parar. Todo dia era igual. Eu dirigia e elas me chamam eufóricas por trás dos bancos, gritando com vozes entusiasmadas e sinceras que só a infância possui: “Tio Douglas, posso sentar no banco da frente?!”, “Tio Douglas, o Artur tá passando meleca no banco de novo!”, “Tio Douglas, acho que a Laís tá passando mal”. Eu sempre as respondi com o maior carinho e atenção.

Mas, naquela noite, a tarefa que eu iria executar era horrível. Terrível. Não me envergonho do que fiz. De vez em quando um homem tem de fazer o que deve ser feito. E precisa fazer com cabeça erguida, era o que papai sempre dizia, pois, se não tem coragem de olhar nos olhos dos outros depois do que fez, então não deveria nem ter feito. Mas eu tinha coragem. Pois um homem que sabe o que tem que fazer não precisa de mais nada. E eu fiz.

Dirigi cerca de 10 minutos sob a neblina, passando pelas ruas desertas sem que visse nenhum outro carro. Quando cheguei no meu destino, parei a vã e, escutando o motor ainda ronronando fumegante, observei a casa com seriedade. Era uma residência humilde e isolada. Ora, pudera, o que mais eu poderia esperar de um maconheiro dos infernos? Não, não, trabalho duro não era a língua que esses tipinhos falavam. Esses só queriam saber de curtir, fumar e foder a mulher dos outros. E eu sabia que esse daí andara fo-den-do a minha. Ela tinha culpa também, é claro. Resolvi isso rápido com ela. Nada que umas palmadas não resolvessem. Mas eu a compreendia e amava. Ela havia cedido a tentações, sabem, e eu a perdoei. Mas com ele a história era outra.

Desliguei o motor e sai para a noite fria. Estava encapuzado, mas acho que nem precisaria daquilo, porque a névoa já me protegia o bastante. Santo Deus, o quanto devo à essa névoa divina nem posso imaginar. Deus ajuda quem cedo madruga. É isso o que eu acho, se querem saber. E Ele me ajudou mesmo. Tirei o cutelo afiado que a Janice usava pra cortar as batatas do bolso e escalei a pequena mureta da frente que cercava a casa. Havia um cachorro grande e preto dormindo no fundo do quintal. Eu já sabia dele, afinal, sou um homem preparado. Me preparei bem praquilo. Quando quero fazer alguma coisa, faço bem-feito. Tirei um pedaço de carne do bolso e, quando o cachorro ameaçou começar a latir demais e atacar, lancei em sua frente o naco sangrento. A carne estava temperada com uma excessiva quantia de um forte sonífero. Eu ri aliviado com a minha malandragem inteligente. Quando se nasce em um bairro pobre, você tem que aprender a se virar de todos os jeitos. É claro que aquilo só faria o cachorro dormir. Não queria fazer mal ao pobrezinho. Ele não tinha nada a ver com a história. Deus me ensinou a ser justo com os justos. E assim fui.

Ignorado pelo cão, andei até os fundos da casa procurando uma janela aberta. A maioria estava trancada, mas, procurando direitinho, encontrei uma que não estava. Tive de me segurar para não soltar uma gargalhada alta que quebraria meu silêncio. O idiota era no fim das contas um descuidado. Me senti até mais leve com as traições de Janice. Se aquilo era o suficiente para ela, talvez ela não me merecesse no fim. Eu jamais teria deixado nossa casa desprotegida dessa forma; não, eu teria me certificado de que as janelas estavam fechadas. Sempre faço isso, pelo menos três vezes na noite. Também aproveito para ver se o trinco da porta está fechado, sabe, por precaução. E, se a tranca da minha janela estivesse quebrada, eu teria dado um jeito de consertá-la. Nunca se sabe quando um drogado maluco pode querer invadir a sua casa à noite.

Passei as pernas com cuidado pela abertura da janela e entrei na cozinha da casa. O lugar era uma bagunça. Aquele chão parecia não ver uma vassoura fazia meses. E os móveis um pano. Não que eu esperasse algo muito diferente, sabe.

Na ponta dos pés, caminhei até o quarto do homem que mais parecia um chiqueiro. Fedia a bitucas de cigarro velho e bebida barata. Quando cheguei à porta, seus olhos se abriram surpresos ao me ver. Gostei da forma como seu rosto se contorceu de medo. Percebendo o perigo, saltei por cima dele como um gato, a faca brilhando em minhas mãos enquanto eu tentava acertá-lo. Ele gemia de baixo de mim feito um animal horroroso. Que maldito aquele homem! Até mesmo tentou me morder. Se não fosse meu casaco, o idiota teria me arrancado um pedaço da pele! Mas é assim que são os drogadinhos, quando você menos espera, eles podem te atacar como selvagens. Ele gemeu uma vez ou outra me perguntando quem eu era e o que estava acontecendo. O maldito se fingiu de desentendido até o final. Crias do diabo, é isso o que são. Sempre tentando te passar a perna. Mas eu respondi na lata. Disse que ele sabia o que estava acontecendo. Cê andou mexendo nos peitos da Janice, meu camarada, falei pra ele enquanto ele se debatia quando a primeira facada o acertou, e ninguém além de mim faz uma coisa dessas. Nesse momento ele soltou um berro de gelar o corpo. Mas eu agi mais rápido. Puxei o travesseiro fedido de detrás da cabeça dele e o esmaguei na cara do desgraçado. Agora os urros de dor eram apenas gritinhos abafados.

Não precisei de muitos golpes para que ele parasse de se mexer. Com o tempo ele parou completamente, os braços parando como patinhas de uma barata morta. O que veio depois daquilo tudo foi o mais difícil, mas, novamente, a santa neblina me ajudou.

Destranquei a porta da frente da casa com uma chave que encontrei jogada pela mesa da sala e comecei a transportar as coisas para dentro da vã. Primeiro enrolei o colchão da cama que estava empapado de sangue e o joguei no fundo da vã. Depois embrulhei o corpo mole do maldito com o cobertor da cama e os lençóis e os levei lá para dentro como o papai-noel de um filme de terror. A única coisa que restou foi o travesseiro que, alguns minutos depois, já estava lá trás com o resto das coisas.

Dirigi mais uns 15 minutos até um aterro que estava abandonado fazia quase um ano. Abri os portões de ferro -que eu sabia que ficavam destrancados. Ser um motorista te ajuda a conhecer os segredos da cidade- e entrei com a vã. Os cascalhos estalando debaixo dos pesados pneus. Tudo isso sobre a cobertura da névoa cinza. Lá dentro, iniciei meu trabalho.

Estendi um tapete grosso no chão da vã e, com meu facão, comecei a decepar o corpo com extremo cuidado, tampando rapidamente com uma toalha as partes abertas pra estancar o sangue antes que ele jorrasse por todos os lados. Foi difícil fazer aquilo no escuro, mas era necessário. Não queria enterrar o corpo inteiro, iria despedaça-lo e espalhar em diferentes buracos fundos pelo terreno, pro caso de algum bisbilhoteiro intrometido querer encontrar o corpo. Embrulhei todas as partes novamente no lençol e desci do veículo para começar a enterrá-las. Porém, quando ia começar a escavar as pequenas covas, escutei a sirene de uma viatura vindo do fundo da rua. Me desesperei no mesmo momento. Não sabia o que fazer. O que eles fariam se me encontrassem segurando aquele saco sangrento? Meu corpo tremia como vara seca. Desesperado, corri para dentro da vã com o saco nas mãos. Senti as partes do corpo do homem balançarem lá dentro como brinquedos dentro de uma caixa de papelão. Confesso que nesse momento estremeci de medo. Entrei correndo e fechei as portas lentamente. Minha única esperança era que eles passassem direto pela frente do portão.

E eles passaram. Passaram tão rápidos quanto vieram. Tive sorte ali. Muita sorte. Meu azar veio de outro lugar, pois tive de me esconder muito rápido e, quando entrei desajeitado na vã, acabei derrubando o saco no chão. Tive vontade de gritar naquele momento. Mas não fiz isso. Vi as partes do corpo se espalharem pelo chão como aranhas. O braço direito rolou até a traseira da vã e eu vi uma das mãos pingar para de baixo de um banco à direita na última fileira. Recolhi tudo o mais rápido que pude. Mas a tarefa ainda foi difícil. Eu temia que aquela viatura voltasse para dar uma última olhada. Vocês sabem, como aquela última olhada para ter certeza de que o fogão está realmente desligado. Recolhi tudo sentindo uma pressão enorme em cima de mim. Quando terminei, enterrei tudo em diferentes locais. Algumas das partes enroladas em lençóis sujos de sangue, outras menores dentro da fronha do travesseiro. Já o colchão e o cobertor eu tive de queimar. Não precisava me preocupar com a fumaça ou com os restos. Pela manhã, quando alguém viesse ver o que estava acontecendo, aquilo já teria virado uma montanha preta. A pessoa simplesmente encararia como mais uma das recorrentes fogueiras de um morador de rua qualquer.

Sai o mais rápido que pude, tendo certeza de que não estava me esquecendo de nada. Encarei o fogão uma última vez, acreditando realmente que não me esquecia de nada. Mas eu esqueci. Ah, Deus, eu esqueci.

***

Acordei no dia seguinte pronto para a rota costumeira que eu fazia com a vã escolar. Hoje ela não transportaria pedaços de corpo, apenas crianças alegres. Não dormi muito naquela noite, não tive tempo. Quando voltei para casa de madrugada já eram 4h30 da manhã. Despertei às seis, escovei os dentes, tomei um café preto e sai de casa.

Às 6 horas eu estava saindo com a velha Topic da garagem. A neblina já tinha sumido, deixando pra trás vidros molhados. Eu faria o trajeto rotineiro: primeiro buscaria as crianças das casas mais próximas -primeiro o Lucas. Garoto inteligente. Sete anos de idade, morava na rua de trás em uma casinha verde de telhado marrom; depois Artur, esse um pouco menos inteligente. Morava duas casas ao lado da casa de Lucas. E por aí em diante. Depois seguiria até a avenida conselheiro nébias para buscar e levar crianças de outras escolas que tinham a abertura dos portões em um horário um pouco mais tarde do que as das outras.

Às 6h04 eu dei bom dia para a sra. Leila -não muito bonita, mas simpática- enquanto Lucas entrava sonolento na vã com um “bom dia, tio Douglas” sussurrado.

Às 6h07 Artur já fazia companhia para Lucas nos bancos de trás e, dois minutos depois, a sonolência dos dois deu lugar a uma conversa entusiasmada sobre um jogo de vídeo-game idiota. Tudo estava correndo bem. Eu não deixara nada escapar, deixara? Nessa hora a dúvida me corroía como se uma arma estivesse apontada para a minha cabeça. Mas eu não falei nada, eu buscaria as outras crianças, as levaria até a escola e depois pararia para dar uma última conferida por dentro da vã para ver se eu não tinha esquecido nada, a última checada. Como o fogão aceso.

Às 6h27 a vã estava com 13 de seus 16 assentos lotados e eu estava suando frio, desesperando porque achava que tinha esquecido alguma porra de coisa que não conseguia me lembrar. Vitor acordara doente e sua mãe disse que ele não iria a aula hoje: “me desculpe, sr. Douglas, e obrigado pela compreensão”. A mãe de Marta me ligara alguns dias antes dizendo que eles iriam viajar até semana que vem, então eu nem me preocupei com ela.

Por detrás de mim, as crianças pulavam e corriam nos bancos de trás parecendo macaquinhos alucinados. Gritavam por todos os lados, gritos agudos e irritantes. Eu sempre os amei, tratava-os como filhos, mas, porra!, como eu os odiei naquele momento. Meus dedos suavam escorregadios, deslizando pelo volante sem parar. Será que esqueci o fogo ligado? Será que esqueci? O pensamento socava minha cabeça sem parar. Eu sabia que tinha me esquecido de algo, mas o quê, deus, o quê?!

Com as mãos deslizando sobre o volante, eu os vigiava pelo espelhinho retangular. Vi Daniel encarar com curiosidade os pés de metal de uns dos bancos. Caralho!, Caralho!, pensei querendo arrancar minhas unhas de tanto morder. Quase me levantei para chutar o garoto, mas consegui manter o controle. Então ele me chamou, experimentando alguma coisa que tocara com o dedo: “Tio Douglas...Eca!...Que coisa vermelha é essa aqui?! Tem um gosto horrível!” Meu deus! Senti vontade de gritar naquele momento. Garotinho enxerido! Quase virei a vã naquele momento sem perceber o cruzamento à minha frente. Então gritei estabanado: “Não é nada, meu filho! Não é nada! É que o tio estava experimentando algumas tintas novas para nossa vã. Pra deixar ela mais bonita, sabe?”.

A resposta pareceu satisfazer o garoto. Eu estremeci com a facilidade incrível com que inventei aquela história. A facilidade com que menti. Meu deus, eu nem mesmo sentia meus braços mais! Pareciam cordas moles de elástico esticadas sobre o volante. Se eu precisasse fazer alguma manobra brusca, não conseguiria. Não conseguiria mesmo. Meus pés tamborilavam em espasmos o acelerador e o chão da vã.

Viramos a esquina. Agora era só esperar. O colégio estava logo ali na frente, a alguns metros de distância. Ainda assim, não consegui suspirar aliviado. Meu corpo ainda estava duro feito poste. A tensão me consumia como uma droga lenta, pois eu sabia que havia esquecido algo. Eu sabia! Mas o que, diabos?! O que, por deus, eu havia esquecido, desgraça?!

Então o grito de horror às minhas costas respondeu a minha pergunta infernal. Meus olhos arregalados se desviaram rapidamente para o espelhinho e eu pude ver: ao fundo da vã, Lucas erguia algo como um totem descoberto. Seus olhos estavam assustados com nojo. Acima de todos, uma mão decepada e pálida se ergueu, os tons azuis e cinzas da morte brincavam por cima da pele inchada.

Era a mão! Meu deus, eu tinha me esquecido daquela maldita mão!

29 de Junho de 2019 às 12:46 2 Denunciar Insira 4
Fim

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nawta   nawta
O seu jeito de escrever é muito cativante! Me pego fácil imaginando o cenário e me arrepio a cada parágrafo. É uma ótima obra, parabéns.
10 de Julho de 2019 às 23:02

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Agradeço pelos elogios! É sempre bom descobrir que consegui fazer um bom trabalho e que alguém gostou do resultado. É o que nos motiva a continuar escrevendo. Volte sempre! 11 de Julho de 2019 às 09:24
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