Portador da Morte Seguir história

slowqueen SlowQueen

Eu podia vê-lo. Sentado nos cantos do quarto. Perambulando pela casa escura. Eu podia senti-lo. Sentir o arrepio na pele quando ele se aproximava. Sentir o cheiro quando atravessava os cômodos. Eu podia ouvi-lo. Ouvir sua voz sussurrando que me arrastaria para os confins do inferno. Ouvir suas lamúrias por estar preso a mim. Ele não estava ali, não era real... E ao mesmo tempo era Eu cheguei perto de mais da morte.. E agora podia vê-la. Tinha lindos olhos negros.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

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Portador da Morte

O sol queimava minhas retinas, o vento gélido lambia minha pele e fazia meus cabelos longos voarem, respirei fundo e senti o cheiro da água salgada entrar por minhas narinas, qualquer um em meu lugar acharia aquela vista linda, o sol se ponto com aquele lindo tom avermelhado atrás das montanhas longínquas, o mar dançando furioso, as arvores que cobriam toda a visão periférica, aquele era o perfeito fim de tarde, não estava nem calor nem frio, uma brisa leve corria pelas ruas da cidade, as flores caíam das arvores enfeitando as ruas... Ouvi alguém pedir para eu voltar, mas era tarde agora, eu já havia pulado a barreira de segurança, já havia me enchido de coragem, sentia a brisa doce balançando meu vestido e as vezes, mais feroz, ela fazia meu corpo balançar e quando eu olhava para baixo e via o mar agitado, eu não pensava que nunca aprendi a nadar, eu só pensava que as ondas me chamavam... Pessoas começavam a se acumular atrás de mim agora, mas ninguém ousava se aproximar, virei o rosto devagar e vi algumas mulheres chorando, os homens em sua grande maioria estavam incrédulos, pedindo para que eu voltasse, as crianças me olhavam curiosa e por elas eu quase voltei, não queria deixar aquela memoria em suas mentes inocentes... Mas como eu disse, era tarde agora, voltei a olhar para frente, para o gigante sol a minha frente, o gigante mar a minha frente, qual deles me engoliria primeiro era o que eu me perguntava... A mecha do meu cabelo cor de rosa entrou na frente da minha visão, e por um segundo eu pensei em ouvir o que gritavam atrás de mim, mas bastou eu colocar os olhos novamente na água agitada para as vozes sumirem... Eu não tinha uma vida ruim, aliás, muitos me diziam que minha vida era muito boa, meus pais eram gentis e carinhosos comigo, eu tinha um bom trabalho, minhas amizades eram alegres e risonhas, e meu noivo apaixonado por mim... E mesmo assim tudo que eu sentia era vazio, era nada... Meu corpo estava vivo, mas eu não me sentia assim. Eu não sentia nada. Nem alegria nem tristeza, nenhum extremo cabia em mim... Eu não sentia o cheiro das flores, nem o calor da pele, eu não sentia saudade, nem vontade, a comida tinha gosto de cinzas para mim... Eu me sentia vazia. Eu me sentia nada.

Pulei

O som do vento lutando contra o tecido do meu vestido era alto, o tom avermelhado do sol refletia sobre as ondas agitadas que se aproximavam cada vez mais e mais, meu corpo girou no ar, e o céu alaranjado estava agora a minha frente, as arvores giravam ao meu redor, eu pude ver o mar chegando mais perto de mim, meu corpo dançava no céu, o vestido branco gritava na paisagem junto aos longos cabelos cor de rosa, o céu alaranjado novamente, eu sempre gostei daquele tom de fim de tarde, e agora seria a ultima coisa que meus olhos verdes veriam, pensei... Mas então meus olhos se chocaram contra ele...


Ele estava parado sobre a água me esperando, a pele pálida como leite, e olhos tão negros que poderiam esconder um universo inteiro, as roupas e os cabelos igualmente pretos... Ele estava me esperando... A morte veio me buscar...

Bati contra a água...


Abri meus olhos devagar, meu corpo inteiro gritava de dor, eu mal conseguia encher meus pulmões de ar, tossi, e isso foi o suficiente para despertar a atenção dos que estavam no quarto junto a mim, meu pai e minha mãe pularam sobre a cama me abraçando, aos prantos de choro, e apesar da dor, não tive coragem de dizer para eles me soltarem, apenas fiquei calada sentindo as lágrimas de minha mãe esquentarem meus ombros... A mulher loira parou aos pés da cama, os olhos azuis e geralmente brilhantes e alegre estavam agora manchados de vermelho, o rosto dela entregava as horas sem fim chorando por mim...


— Sakura, por que fez isso? Por que tentou se matar?


Era uma pergunta que eu não sabia responder com palavras, era claro na minha mente, mas verbalizar aquilo seria impossível para mim, ninguém conseguiria por em palavras o que era aquele vazio em mim...


— Não importa o que você esteja passando minha filha, não importa o quão difícil seja, nós vamos superar isso juntos, somos uma família e vamos vencer qualquer coisa se ficarmos juntos... — Meu pai sempre sabia o que dizer...

— Nós não abandonaremos você Sakura. Nós ficaremos ao seu lado...


A voz de Ino foi cortada pelo barulho da porta batendo forte, os olhos se viraram para o homem parado nesta, com os grandes olhos arregalados e as olheiras ao redor destes, o cabelo vermelho era comum para mim, mas deixava os olhos verdes dele ainda mais destacados... Correu em minha direção e minha mãe, bondosa como nenhuma outra, afastou-se para ele me abraçar... Os braços dele me embrulharam e as palavras quase não saiam por sua garganta...


— Sakura... Minha Sakura... Se você morrer, eu morro junto. Se tirar a sua vida, vai estar tirando a minha também.


O vazio que crescia em mim deu espaço para a culpa, ver aquelas pessoas sofrendo por mim, chorando por mim... Aquilo me fez sentir... E não importava o que era, se era tristeza, culpa, arrependimento, não importava, eu estava sentindo algo, e isso já era um começo...


— Gaara, mãe, pai, Ino. Eu peço perdão pelo meu ato... Não vou mais fazer algo tão imprudente, eu prometo...


Eu jamais saberei se aquelas palavras foram o suficiente para eles, se aquilo realmente os convenceu, mas o que importava naquele momento era acalmar seus ânimos, era lhes dar segurança de que eu estava bem, e que eu iria melhorar... O médico que me atendeu fez alguns exames básicos depois de eu acordar, quando cai na água um barco de pescadores que estava perto me resgatou quase imediatamente, eram eles quem haviam salvado minha vida, era a eles que minha mãe agradeceu de joelhos no hospital, o médico que me atendeu mandou eu descansar, sabia que eu precisava de algum tempo para pensar no que havia acontecido, retirou todos do quarto e tudo que me sobrou da minha tentativa... foi a sensação... A sensação de estar viva, de sentir o frio no estomago, de voar pelo céu... Tudo que me sobrou da minha tentativa foi a sensação daqueles olhos negros me observando, aqueles mesmos olhos negros que me observavam agora do canto do quarto...


— Quem é você?


Perguntei, sentada na cama, com as mãos sobre as pernas enquanto olhava fixamente a parede branca a minha frente, ele se moveu, minha visão periférica pôde ver... Suspirei fundo e engoli minha própria saliva, virei o rosto devagar e pela primeira vez coloquei meus olhos nele, mas eu sabia desde o momento em que acordei que ele estava ali, e eu não estava errada... Ele estava abaixado no canto do quarto, os cotovelos sobre os joelhos e as mãos caídas para frente, a calça e a camisa eram pretas, e os pés descalços estavam sujos com algo negro e viscoso, mas que curiosamente não sujava o chão em que ele pisava, os cabelos eram negros como eu me lembrava, bagunçados e rebeldes, e a pele pálida contrastava com toda aquela escuridão, um sorriso maldoso apareceu nos lábios secos dele, e antes que virasse seus olhos para mim ele riu pelo nariz...


— Então chegou perto o suficiente da morte para me ver...


A voz dele era rouca e grossa, e o tom extremamente provocativo...


— Eu vi você antes de cair na água... Você estava lá, mas algo me diz que não é o motivo de eu estar viva...

— Com certeza não...

— Então... Quem é você?


Ele me engoliu com aqueles olhos negros, aqueles grandes olhos negros, cheios de ódio, dor e desespero, eu pude reconhecer o que havia por trás daqueles olhos, eu conhecia aquele vazio... Ele levantou-se e caminhou rápido até mim, aproximou-se o suficiente para obrigar a me recostar na cama, as mãos se apoiaram ao lado do meu corpo e o rosto dele a um palmo de distância do meu, um cheiro a queimado emanava dele, e eu sabia que aquele cheiro me perseguiria daquele dia em diante...


— Eu sou seu portador da morte. Eu vim, enviado do inferno, para buscar a sua alma, oh Sakura, doce Sakura...


A voz dele soava maliciosa e sarcástica, ele queria ver o desespero em meus olhos, queria ver o pavor em minha face, e eu dei o que aquele homem queria...


— Inferno...? — A voz quase não passou por minha garganta...

— Você é uma suicida. Achou que iria para onde?


A enfermeira abriu a porta do quarto e entrou, o homem vestido de preto saiu de cima de mim e caminhou calmo até o canto do quarto, abaixando-se novamente... Os dias naquele hospital passavam devagar, e salvo raros momentos, eu jamais ficava sozinha, meus pais, Ino ou meu noivo, Gaara sempre estavam comigo... Um psicólogo e um psiquiatra me visitavam durante os dias, e apesar de eu entender a preocupação e o zelo de todos, eu sabia que não iria mais tentar me matar... Não enquanto aquele homem ainda estivesse ali, em silêncio, observando todos entrarem e saírem, me cobrindo com aqueles olhos vazios...


Voltar para a casa de meus pais foi estranho, mas Gaara tinha que voltar ao trabalho, e ninguém queria me deixar sozinha por muito tempo, talvez um medo que ainda fosse durar por algum tempo, e não posso culpa-los, o quarto de adolescente deveria me dar nostalgia, mas tudo que fiz ao abrir a porta foi suspirar fundo, vi o homem de preto passar por mim em silêncio, observando o quarto e todos os acessórios pendurados, as paredes riscadas, pôsteres de bandas de rock, fotos com amigos, um violão no canto, o espelho quebrado, não era um quarto feminino, e eu nunca liguei para isso, ele levou as mãos até atrás da cabeça e ouvi, depois de dias em silêncio, a voz rouca novamente...


— Como seus pais não perceberam que você viraria uma suicida? Me surpreende você ter durado tanto.


Bufei, ele conseguiu me deixar brava, entrei no quarto e bati a porta atrás de mim, e lembranças daquela cena durante minha adolescência passaram por minha mente, larguei a mala com minhas roupas sobre a cama e procurei por algo, eu apenas queria um banho e dormir, era o que eu precisava, separei algumas roupas e peguei uma toalha do armário, tirei a blusa que vestia, fedia a hospital, e então voltei meus olhos para o homem vestido de preto no canto do quarto, observando a rua pela janela...


— Você não vai embora?

— E para onde eu iria sem você?

— Não sei se você percebeu, mas eu sobrevivi.

— Infelizmente... — Ele virou-se e me olhou... — Eu fui enviado a terra para levar sua alma comigo... E só vou poder voltar quando cumprir o dever que me foi dado.

— Eu não pretendo morrer...

— Mas você vai.


As palavras dele me cortaram como uma faca, e o tom de voz fez com que todos os pelos do meu corpo se arrepiassem... Suspirei fundo, baixei os olhos, eventualmente todos morrem, todos sabem, mas saber para onde se vai ir depois da vida, saber que o inferno lhe aguarda era novo para mim, eu que nunca fui totalmente crente em nada divino, eu que não pensei nas consequências dos meus atos, agora pagava o preço... Cocei a garganta e tentei parecer calma...


— Vai mesmo ficar aí me assombrando? — Perguntei tentando despista-lo do horror que crescia em mim, e a resposta dele foi sentar-se no chão embaixo da janela, escorando as costas na parede e os braços nos joelhos... — Pode pelo menos não ficar me encarando enquanto tiro a roupa?


Ele baixou levemente a cabeça, os cabelos negros caíram ao lado do rosto pálido, mas os olhos não descolaram de mim por um segundo e um ar sacana se formou em seu rosto, quase como se estivesse me desafiando a continuar, não me dei por vencida, tirei a calça ficando só com as peças intimas e o olhei novamente... Um sorrisinho nasceu no canto de sua boca, e por um segundo eu pensei no quão sedutor ele conseguia ser sentado no chão do quarto me observando em silêncio... Tirei o sutiã e joguei no chão e não demorei muito mais ao fazer o mesmo com a calcinha, balancei a cabeça e dei as costas a ele, queria sair vitoriosa, e quando vi a sobrancelha negra se arquear fiquei satisfeita. Tomei um longo banho, quente o suficiente para fazer minha pele arder, vesti apenas uma camisa larga de Gaara e voltei ao quarto, vendo o homem de preto ainda sentado embaixo da janela, minha mãe me trouxe algo para comer, e em seguida peguei no sono...


Quando acordei já era de madrugada, o relógio na parede dizia que eram quatro da manhã, meus olhos o procuraram instantaneamente, e eu logo o achei, ele estava sentado quase no meio do quarto agora, virado em direção a janela, olhando encantado a lua no céu, não era a primeira vez que eu acordava de madrugada e o encontrava olhando a lua, ele sempre observava a rua pela janela do hospital, me questionei se de onde ele vinha era possível vê-la...


— Você é real? — Minha voz não pareceu surpreendê-lo...

— Real o suficiente para você conversar comigo durante a madrugada... — Ele não tirou os olhos da lua ao me responder...

— Você é um demônio?

— Não.

— Qual seu nome?

— ... Sasuke.


Minha mãe preparou um verdadeiro café colonial para mim naquela manhã, meu pai cuidava do negócio da família, uma carpintaria conhecida na cidade, Gaara trabalhava como editor em um jornal regional, e apesar do dia lotado fez questão de vir tomar café da manhã comigo, eu trabalhava como restauradora de arte em uma galeria, mas por causa da minha tentativa de suicídio, eu estava afastada para me recuperar por completo, se é que isso é possível, minha mãe me paparicou a manhã inteira, fez todos os meus caprichos e muito mais, eu queria ter ficado contente com sua dedicação, mas tudo o que senti foi um senso de agradecimento... Creio que ainda iria levar um tempo para eu voltar a ter uma vida normal... novamente, se é que isso é possível, afinal, eu não conhecia muitas pessoas que andavam com um portador da morte a tiracolo...


Ele perambulava pela sala, sempre na beira das janelas, com os olhos quase curiosos olhando para fora... Ah, eu acho que aquilo faria bem para mim também, aproveitei que minha mãe desgrudou de mim por um minuto e saí de casa em silêncio, apenas uma volta na quadra seria o suficiente, respirar um pouco, esticar as pernas, e apesar de Sasuke não falar ou sequer mudar a expressão, os olhos curiosos o entregavam, eu até arriscaria dizer que ele gostou da ideia de sair um pouco... Ver a rua, os pássaros, crianças voltando da escola, não fui longe, sabia que preocuparia minha mãe se o fizesse, e não queria isso, meia hora depois voltei para casa, e os olhos marejados dela me contaram o medo que ela sentiu ao não me encontrar na sala, abracei-a e tentei acalmá-la, jamais quis magoá-la... Para ser honesta, jamais pensei em como meu ato a atingiria... fui egoísta... errei... e por isso eu pedia perdão agora.


Uma semana já havia se passado, e Gaara começou a falar sobre eu voltar para casa, morávamos juntos a pouco tempo, e como meu trabalho ficava mais perto de onde ele vivia, aos poucos fui me mudando sem perceber, quando dei por mim eu pagava aluguel de um apartamento onde não ia há vinte dias, Gaara ficou contente com a mudança oficial, e agora dizia que chegar em casa à noite e não me encontrar o deixava triste... Eu estava deitada sobre o peito dele, enquanto sentia os dedos acariciarem minha pele, eu nunca tive certeza se o amava ou não, eu nunca tive certeza de muitos sentimentos aliás, mas eu certamente gostava de estar ao lado dele, a respiração dele me acalmava, o cheiro dele me fazia sentir protegida...


— Foi por minha causa?


A voz de Gaara me despertou, abri os olhos e a primeira coisa que vi foi Sasuke sentado no chão do quarto embaixo da janela, mas ele estava com a cabeça escorada na parede e os olhos fechados, não parecia ter interesse algum em nós...


— Não. — Respondi... — Eu sou a única responsável.

— Me deixe saber... Me deixe saber quando você estiver triste, ou quando quiser fugir da cidade, eu vou com você para qualquer lugar, e se sentir vontade de fazer algo como aquilo novamente... Venha correndo até mim, eu te abraçarei e te amarei até isso passar. Eu prometo...


Gaara certamente me amava, eu podia sentir o amor dele por mim, jurei que se pensasse em me machucar novamente correria até ele, e pude vê-lo suspirar aliviado com minha promessa... A madrugada ficou mais fria, Gaara havia partido logo depois do jantar, e a cama estava vazia, levantei a cabeça e vi Sasuke sentado, mas naquela noite ele não admirava a lua como nas outras, ele tinha as mãos na cabeça, segurando-a forte, como se lutasse contra seus próprios pensamentos... Não o interrompi, era assim que vivíamos nas ultimas semanas, eu tinha minhas crises de choro durante a noite e ele não expressava nada, apenas ficava em silêncio de cabeça baixa, e agora era minha vez de me manter nula, peguei outra coberta e voltei a deitar, mas confesso que o sono fugiu completamente...


Naquela manhã eu comecei a arrumar minha mala, coloquei minhas roupas e algumas outras coisas nesta e vi quando o homem de preto se aproximou curioso...


— Onde vamos?

— Você não ouviu o que Gaara disse ontem? — Eu retruquei sem olhar para ele...

— Não é como se eu me interessasse com o que aquele ruivo fala. — Era um tom turrão que ele usava agora.

— Bem, vamos para minha casa. Está na hora de eu tentar voltar ao meu dia-a-dia, e lá tem as minhas coisas e terei Gaara durante a noite.

— Para que você precisa do Gaara? Já tem a mim durante a noite.


A frase saiu mais espontânea do que eu esperava, quase ri. Voltar para minha casa foi revigorante de fato, Gaara manteve tudo impecavelmente limpo na minha ausência, então tudo que eu tinha a fazer era aproveitar meu lar. Sasuke caminhou por toda a casa, explorando cada cômodo, e quando voltou ao quarto me encontrou tirando a roupa para entrar para o banho, fiquei usando apenas as roupas intimas, mas ele não pareceu se abalar com minha semi nudez...


— Achei ter ouvido que vocês não eram casados.

— E não somos. Apenas moramos juntos.

— Isso parece casamento para mim.


Ele me seguiu até o banheiro, e eu já estava começando a me acostumar com a presença constante do homem de preto, abri a torneira da banheira e esperei-a encher enquanto arrumava minhas coisas de volta ao armário, tirei as ultimas duas peças de roupa do corpo e mergulhei na água morna... Ficamos em silêncio por mais um bom tempo, cada um com seus pensamentos, até eu me escorar na beira da banheira para olhá-lo...


— Você é humano?

— Sou um Portador da Morte. — Respondeu...

— Eu já sei disso... mas, já foi humano um dia?

— Sim. Eu já vivi na terra...

— E como é... lá embaixo? — A pergunta vinha me torturando há dias...

— Se você acha que aqui é difícil, espere até ver o que te aguarda.

— Nossa... — Bufei, e voltei a colocar os braços para dentro da água. — Você podia pelo menos mentir...

— E de que adiantaria? Um suicida tem que pagar por tirar uma vida que não pertence a ele.

— Minha própria vida pertence a mim.

— Não. Sua alma é a única coisa que te pertence, e é com ela que vai pagar por seu ato.

— Por que você não volta para sua casa, e quando eu estiver prestes a morrer vem me buscar?

— Não é assim que funciona as coisas. Eu só posso voltar quando coletar a sua alma. Você bem que podia se afogar nessa banheira e me poupar anos aqui na terra...


Mergulhei, soltei o ar de minhas bochechas e abri os olhos, pude vê-lo se aproximar da beirada da banheira e abaixar-se, colocando os braços sobre ela enquanto me olhava, o ar começou a faltar agora e voltei a superfície da água... O homem me olhava de perto agora, com aqueles grandes olhos negros...


— É... não vai acontecer.


Sasuke arqueou uma sobrancelha e levantou-se, deixando o lugar em silêncio novamente, ele sentou-se no chão do banheiro, e eu não me importei com sua presença, lavei o corpo todo e vez ou outra voltava os olhos para ele, parecia alheio a minha nudez. Quando a noite caiu e Gaara voltou para casa foi quando eu realmente senti que aquele era meu lar, Gaara me abraçou forte, me levantou no ar e me beijou com carinho, e ali, naquele momento, foi o primeiro sorriso sincero que dei em dias... Gaara sempre gostou de cozinhar comigo, era um momento agradável, e apesar de eu não sentir vontade alguma de comer me esforcei para agradá-lo. Quando troquei de roupa e deitei sobre a cama me deparei com uma situação estranha, de um lado do quarto estava meu noivo, com os cabelos vermelhos e os olhos verdes, vestindo uma calça de moletom e nada mais, e do lado oposto estava o homem de preto, com seus cabelos negros e seus olhos que refletiam o submundo, Gaara aproximou-se e me beijou, mas os olhos de Sasuke em mim me impediram de retribuir... Apenas dormi ao lado de Gaara aquela noite...


O sol se escondeu atrás das nuvens cinzas naquela manhã, Gaara saiu para trabalhar e assim que ele fechou a porta eu me virei para o homem parado atrás de mim, quase brava...


— Você não precisa ficar no quarto com a gente. — Ele me ignorou completamente. — Somos um casal, temos intimidades juntos. — Ele quase bocejou durante meu protesto... — Não me ignore.


Furiosa eu peguei a almofada que estava sobre o sofá ao meu lado e atirei contra ele... Ela o atravessou completamente, como se ele não estivesse ali... E foi quando eu percebi, que por dias, falei com o vazio... Balancei a cabeça e caminhei rápido em direção a escada, subindo quase que correndo e fechando a porta do quarto ao entrar, o quarto estava vazio, apenas eu estava ali, caminhei até a cama e me joguei nesta, me agarrando ao travesseiro e pensando em todos os momentos em que abri meus olhos e o vi, em como sua voz fazia os pelos do meu corpo se arrepiar, em como o cheiro a queimado que vinha dele invadia minhas narinas, em como eu era a única a vê-lo...


— Está com medo, doce Sakura?

— Você não é real. — Respondi a mim mesma...

— Eu sou o que então? Um fruto da sua imaginação suicida e perturbada?

— Sim. — A voz dele se aproximava, mas eu não tive coragem de olhar... — Vá embora.


Eu senti a cama ceder, eu pude senti-lo engatinhando por cima do colchão, virei o corpo para cima, ainda com os olhos fechados e abraçada ao travesseiro, eu sentia o cheiro dele, era quente, e a respiração batia contra meu rosto agora, aquela sensação era real, meu corpo tremia como se fosse real, minha espinha se arrepiou como se fosse real... Abri os olhos finalmente, e pude vê-lo... Sasuke estava sobre mim, com suas mãos apoiadas ao lado do meu rosto, os cabelos negros caídos em minha direção, os joelhos ao redor do meu quadril, e apesar de eu não senti-lo fisicamente ali, algo em mim o sentia... Os olhos negros quase se tornaram vermelhos, sangue correu por eles e pingou no meu rosto, aquilo era assustador, tão assustador que eu se quer conseguia me mover, a ponte da qual eu havia me jogado não me assustava tanto quanto aqueles olhos... As luzes do quarto começaram a piscar, ficar mais fortes e mais fracas, e enquanto ele mantinha aqueles olhos vidrados em mim todas elas estouraram, uma por uma... Tudo era escuro agora, as luzes foram embora e me deixaram no vazio... E a voz dele soou como um ruído na escuridão...


— Eu sou real. E eu não vou embora, eu nunca mais vou embora... Eu vou assombrar você até o dia em que eu vá arrastar sua alma para o inferno junto comigo...


Gaara entrou na casa de noite e a primeira coisa que fez foi tentar acender as luzes, ele pegou o celular e chamou por meu nome, usando a tela ligada como lanterna, e no escuro ele me encontrou, sentada no ultimo degrau da escada, aproximou-se de mim assustado, tocando meu corpo a procura de algum machucado e quando conferiu que eu estava bem levantou-se tentando acender a luz do corredor...


— As luzes queimaram... — Avisei... — Todas elas...


O que Gaara não via era o homem vestido de preto sentado a meu lado, com os enormes olhos negros colados em mim...

Tentei ignorar a presença dele o máximo possível, tentei não olhar diretamente para ele, e não falar com ele, tentei não pensar que estava ali e tentei não me assustar com seu vulto no escuro, eu tentei por um mês inteiro... por dois meses... eu tentei... Mas Sasuke sempre estava presente, Sasuke sempre estava sentado no chão do meu quarto, sempre estava caminhando atrás de mim na cozinha, sempre estava observando a lua pela janela... Eu tinha medo de dizer ao psicólogo que eu frequentava sobre a presença dele, tinha medo de realmente estar ficando louca... Mas eu tinha tanta certeza de que não, eu tinha tanta certeza que ele era real... Os cães latiam nele quando passávamos, e os gatos corriam assustados, as crianças pequenas o observavam curiosas... Ele trancava Gaara nos cômodos por pura diversão, apagava as luzes quando estava trabalhando apenas para desconcentra-lo, fazia ruídos de madrugada no andar de baixo para Gaara acordar assustado e levantar, no outro dia sorria durante o café da manhã vendo meu noivo ir cansado para o trabalho...


Eu empurrava o carrinho com minhas compras dentro pelos corredores do supermercado, Sasuke tinha as mãos atrás da cabeça e caminhava em silêncio atrás, passei as compras e carreguei as sacolas até o carro... Eu pude sentir a mão segurar meu braço e quando virei o rosto vi os grandes olhos azuis...


— Me desculpe. — Ele falou, e se afastou um pouco, vestia preto e o colarinho branco, os cabelos loiros e os olhos azuis se destacavam nele... — Eu sou Naruto, e queria muito convidá-la para se juntar a nós na casa do pai...

— Oh, me desculpe padre... — Era estranho chamar alguém tão novo de padre... — Mas eu não sou cristã.

— A religião nunca foi mais importante do que a fé minha filha... E você precisa de fé...

— Eu... com licença...


Algo mudou no ar, as luzes dos postes começaram a oscilar, e a respiração de Sasuke ficou pesada, eu podia sentir, aquilo me deixou nervosa, terminei de colocar as sacolas no porta malas e entrei no carro rápido, mas o homem loiro me seguiu, parou diante de minha janela enquanto eu ligava o carro e os olhos azuis me imploraram...


— Tem um homem com você minha filha. Um homem cheio de dor e angustia. Alguém que não pertence mais a esse mundo...


Meus olhos deslizaram para o retrovisor do carro, e eu pude ver Sasuke sentado no bando de trás, os olhos negros me cobrindo como sempre, mas o loiro em minha janela chamou minha atenção mais uma vez, me entregando um pedaço de papel com um endereço nele...


— Você será bem-vinda na casa de Deus a qualquer hora que precisar minha filha... Lá sempre será um refúgio para você.


Eu liguei o carro e parti.

Naquela noite eu não consegui dormir, fui eu quem o observou por horas, sentado no chão do quarto olhando pela janela...


— Você não vai embora? — Sussurrei...

— Eu não vou. — Ele respondeu...


Naquele ponto da minha vida eu pensei que os antidepressivos me fariam parar de ter alucinações com um homem perambulando por minha casa, mas passados alguns meses eu percebi que aquilo não saía da minha cabeça, e aos poucos, muito aos poucos, eu fui me acostumando com a presença do Portador da Morte ao meu lado. Sasuke era silencioso na maioria do tempo, ele sempre rondava as janelas, mirando o céu do lado de fora, e a chuva parecia fasciná-lo, geralmente respondia minhas perguntas de forma curta, e só ria quando fazia alguma pegadinha que atrapalhava a vida de Gaara, certo dia um gato preto entrou pela janela e não teve medo dele como os outros animais, agora eu o alimentava toda manhã, e enquanto Sasuke me perseguia, o gato o perseguia pela casa, as vezes o homem de preto brincava com o bichano, ele ficava bravo com perguntas complexas, e principalmente se essas perguntas envolviam a vida dele na terra, ficava emburrado quando eu ia ao psicólogo, e vez ou outra perguntava o motivo de eu não tentar me matar novamente, assim ele poderia voltar para o lugar aonde pertencia, mas ele nunca o fazia durante uma crise, nos dias ruins, nos dias em que o vazio tomava conta de mim ele apenas sentava ao meu lado em silêncio e não falava coisas maldosas, ficava evidentemente aliviado quando Gaara chegava, e talvez, só talvez ele não quisesse realmente minha morte...


— Quem é Sasuke?


A voz de Gaara soou no quarto, e meus olhos correram para o homem parado ao meu lado no banheiro, respirei fundo e com a expressão em meu rosto me fiz de desentendida...


— Você chama por esse nome enquanto dorme... Sasuke... — Ele levantou-se da cama e se aproximou de mim... — Você tem outro Sakura?

— Não. — Respondi. E “Sim”, foi a resposta de Sasuke atrás de mim... tentei ignorá-lo por completo... — Eu não estou te traindo Gaara.

— Eu sei que você está passando por um momento difícil Sakura, eu tento ser paciente e compassivo... Mas... — Gaara suspirou... — As vezes eu fico no carro lá fora, pensando se quando eu entrar você ainda vai estar aqui... Se vai estar com outra pessoa... Se eu vou poder te tocar durante a noite...

— Gaara... eu sinto muito por estar estragando a sua vida.


A culpa me consumia, e eu sabia o motivo, eu não era exatamente uma companheira para ele nos últimos meses, não agíamos mais como um casal, não transávamos desde que voltei para casa, não saíamos quase nunca, não conversávamos sobre nós e nosso futuro... E eu sabia o quanto isso o deixava triste... Gaara aproximou-se mais, tocando meus braços e beijando minha testa...


— Você nunca vai estragar minha vida Sakura... Você é minha vida.


Ele me beijou, e eu tentei me deixar levar... Gaara era carinhoso comigo, sempre me tocava de forma leve, as mãos dele deslizavam por meu corpo, e eu fechei os olhos... Meu noivo me carregou até a cama e beijou minha pele, minha boca, meus seios, e era bom, sentir que alguém amava aquele corpo era bom, mas ainda assim... Eu não conseguia tirar meus olhos do homem de preto parado no canto do quarto... Senti as mãos de Gaara segurarem minha cintura, Sasuke suspirou. Gaara beijou meu pescoço com desejo, Sasuke deu um passo em direção a cama, sem tirar os olhos de mim. Gaara levou a mão até meu ventre, abrindo caminho com seus dedos quentes, eu gemi e Sasuke engoliu a própria saliva com a expressão de meu rosto. Gaara penetrou meu corpo, se uniu a mim e eu agarrei os lençóis da cama, gemendo baixo em seu ouvido, mas meus olhos estavam colados no outro, meus olhos estavam no homem dos olhos negros, olhos que me possuíam de uma forma igualmente intima agora, igualmente poderosa, ou, ouso dizer, até mais profunda que só o corpo. Gaara se lambuzava em meu íntimo, Sasuke me lambia com os olhos, me mostrava o que era o verdadeiro prazer. Gaara acariciava minhas curvas com suas mãos grandes, Sasuke embalava meus gemidos com sua respiração forte... Aquela noite foi a primeira vez que aconteceu... Naquela noite, Gaara fez amor com meu corpo, e Sasuke com minha alma.


Gaara saiu animado naquela manhã, me ter em seus braços novamente o fez pensar que tudo voltaria ao normal, não importava se iria demorar ou não, apenas voltaria ao normal em algum momento... Ele jamais soube o quão errado estava. Eu tentei fingir que nada aconteceu, olhava o homem de preto, sentado no chão brincando com o rabo do gato, enquanto tomava meu café. Balancei minha cabeça e tentei afastar os pensamentos que a povoavam, levantei e fui lavar as xícaras do café, e foi quando meu corpo inteiro se arrepiou, a voz grossa dele soou tão perto do meu ouvido que pude sentir a respiração bater em meu pescoço...


— Oh Sakura, doce Sakura... Lutando contra os próprios desejos carnais...


Virei-me rápido e saí a passos, entrei no carro e pelo espelho pude ver os olhos negros no banco de trás, ele nunca iria embora, então eu teria que mandá-lo, foi o que pensei, procurei no porta luvas o papel, e quando li o endereço girei a chave... A igreja gótica se destacava na paisagem urbana da cidade, suspirei fundo e olhei pelo espelho, Sasuke observava com os olhos grandes o lugar, desci do carro e pude sentir sua voz em meu pescoço...


— Eu não gosto de igrejas, Sakura.


Essa era a intenção, caminhei em direção a entrada, e apesar de ele dizer mais uma vez que não gostava daquele lugar, me seguiu de perto... Os vitrais que cercavam o altar eram coloridos e grandiosos, caminhei entre o longo corredor silencioso e cheio de velas, e pude ver Sasuke levar a mão até o pescoço mais de uma vez, como se algo o incomodasse, vi de longe, perto do altar, o padre loiro que havia me dado o endereço do lugar, ele caminhava lentamente ao lado de uma senhora vestida de preto que chorava e limpava o rosto em um lenço, estavam longe, e não havia ninguém por perto para interferir em minha prece, eu sabia que ninguém ali me entenderia, sabia que não poderia contar sobre o homem de preto atrás de mim, não para alguém vivo... Cocei a garganta, eu nunca fui uma mulher religiosa, me sentia estranha ao fazer tal coisa, ainda assim continuei firme, ajoelhei-me diante de um dos enormes bancos, fechei os olhos e juntei as mãos...


— Me perdoe pai, pois eu pequei.

— Qual é o seu pecado, Sakura? — Eu podia sentir a presença dele atrás de mim... Abri os olhos e mirei o altar.

— Me perdoe pai, por favor, pois eu pequei...

— Me diga Sakura... Doce Sakura... — Sasuke colocou as mãos ao meu redor, eu podia vê-lo agarrando o banco a nossa frente, podia sentir a respiração dele em minha nuca... — Qual foi seu pecado?

— Pai, por favor me perdoe...

— Ele não está te ouvindo Sakura, tem coisas mais importantes a fazer... — A malicia tomava conta da voz dele... — Me diga... Qual foi o seu pecado, Sakura?

— Eu desejei a morte... — Confessei... — Eu desejei a morte de todas as formas que posso imaginar...

— Você desejou morrer?

— Sim...

— Você ainda deseja morrer?

— Não.

— E o que você deseja agora Sakura?

— Você.

— Você deseja o Portador da Morte? Aquele que tem por missão arrastá-la para uma eternidade de desespero?


Eu queria poder responder que não, mas meu corpo inteiro gritava o contrário, eu entendi naquele momento o que seria de mim... O homem parou ao meu lado, e os cabelos loiros sacudiram quando ele sorriu largo, era um homem tão jovem, se quer parecia pertencer a aquele lugar. Eu levantei, e olhei para o padre parado a minha frente...


— Minha filha, fico feliz em encontrá-la na casa do Senhor. — Sorri, e essa foi minha única resposta... — Você tem uma batalha difícil a vencer, mas creio que... — Eu o cortei...

— Não padre... Eu não vou lutar contra ele... Eu vou aceitá-lo e vou acolhê-lo, e quando chegar a hora, e nem um minuto antes, eu vou partir com ele...

— Você não pode desistir minha filha.

— Eu não estou desistindo padre. Eu atentei contra minha própria vida, e isso o trouxe até mim... Eu aceito o preço a ser pago pelo meu pecado, e vou segui-lo por uma eternidade de desespero...


Aquela noite foi diferente para nós dois... Gaara chegaria tarde, eu me alimentei, apenas por obrigação e não por vontade, e fui para o quarto... Minha cama parecia fria como sempre, me encolhi sobre ela, Sasuke escorou-se a beira da minha cama, e em silêncio permanecemos por horas, submersos em pensamentos e magoas...


— Eu não quero que você me siga... — Eu permaneci em silêncio... A voz dele nunca soou tão suave antes... — Na igreja você disse que me seguiria por uma eternidade de desespero... Eu não quero que você passe pelo que eu passei... Não quero que sofra como eu sofri.

— É esse o seu dever aqui... Levar minha alma, não é...?

— Sakura... Você não conhece o desespero, o pavor, o medo... Imagine sua mente vagando pela escuridão do tempo, toda a dor do mundo, toda a angustia, todo o mal... Você não merece o que a aguarda depois desta vida... Eu não quero... que você vá para o inferno... — Ele confessou...

— O que você quer então Sasuke?

— O que eu quero... O que eu queria, era não ter perdido minha alma, para dá-la a você...


Daquele dia em diante, ele parou de perguntar quando eu iria finalmente me matar, ele parou de falar coisas desagradáveis para mim e parou de dizer que queria voltar logo para o inferno, pois ele sabia que quando isso acontecesse, eu estaria a seu lado... Sasuke ficou muitos dias em silêncio depois daquela noite, como se tivesse sido difícil para ele admitir tal coisa, mas aos poucos as coisas foram voltando ao normal entre nós...


Acordei pela manhã e respirei fundo, Gaara tinha preparado em especial café da manhã para mim, e antes de sair para o trabalho me desejou boa sorte, e eu iria precisar, me arrumei e parti em direção ao meu trabalho. No museu onde eu trabalhava todos pararam o que estavam fazendo quando me viram entrar, e uma de minhas amigas se aproximou, dizendo que estava feliz com meu retorno, e que se eu precisasse de algo todos eles estariam disponíveis... Era estranho, porém, reconfortante saber disso... Desci as escadas e liguei as luzes fortes... Ah, eu senti saudade daquele lugar, os quadros antigos esperavam por mim. Era eu que devolvia a vida a aqueles quadros, era graças a mim que eles poderiam voltar a ser admirados, irônico não... Soltei minhas coisas e perambulei um pouco pelo lugar claro, eu nem sabia por onde começar, preparei meus materiais e decidi olhar a lista de pedidos do coordenador, seria bom fazer o que ele havia pedido depois de meses afastada. Me sentei na frente da tela, havia uma bela jovem com um enorme vestido azul posando para o artista, tudo que eu tinha que fazer era limpá-la e preencher os lugares onde a tinta a óleo havia rachado, sentei diante do quadro e fiquei ouvindo os passos leves de Sasuke caminhando para lá e para cá, observando as pinturas, andando entre as estantes, mas não demorou muito até tudo ficar em completo silêncio, e logo depois a respiração dele ficou pesada, pesada o suficiente para despertar a minha curiosidade... Virei-me para olhá-lo e o vi parado diante da minha mesa, nesta haviam tintas, pinceis, solventes, livros e também algumas maquiagens, panos sujos de tintas, algumas xicaras vazias, que já deveriam ter sido lavadas... O homem de preto estava parado, com os olhos negros colados em um dos vários livros abertos, ele tentou falar, mas algo o impediu, e então ele simplesmente apontou para o livro a sua frente, levantei e caminhei até a mesa, o livro estava aberto nas páginas finais, onde havia uma fotografia da casa do autor...


— É um livro do século passado... — Falei pegando o livro antigo e foleando rapidamente...

— Sakura... a casa na foto... — Os olhos dele me pediam por mais...

— É de um filósofo que fala sobre a morte... o suicídio principalmente... Neste livro ele conta como a morte tocou ele.

— ... Como ela o tocou? — Sasuke estava estranho, nervoso, levou a mão até o pescoço...

— Bem... é um livro muito forte, muito íntimo... Neste livro ele conta como o irmão mais velho dele se suicidou na sua frente... Ele nunca diz o nome do irmão durante o livro inteiro, mas diz que era dez anos mais velho que o autor. Eles vinham de uma família muito pobre, as coisas naquela época não eram fáceis para ninguém, a mãe dos dois morreu de uma doença, e o pai não conseguia se quer lhes dar o que comer, o irmão mais velho trabalhava para qualquer um na rua, pedia esmolas, as vezes ele trabalhava ajudando o peixeiro da cidade, e estes eram os melhores dias, os mais fartos, fazia tudo para conseguir arrumar algo para que continuassem vivos, mas as coisas estavam ficando cada vez mais difíceis e nada do que ele fazia parecia o suficiente. Então as coisas pioraram, o pai deles adoeceu, e desesperado tentou vender o mais novo para uma família como escravo... O mais velho não permitiu, e em uma briga contra o pai bêbado e doente ele acabou o matando... Agora eles estavam sozinhos e as coisas pioraram ainda mais, todos culpavam o irmão mais velho sem saber do motivo que o fizera matar o próprio pai... O irmão mais velho então achou que se ele morresse as coisas seriam melhores para seu irmão, ele provavelmente iria conseguir um lar, já que ainda era pequeno, tinha no máximo onze anos de idade na época, e ninguém o olharia na rua como o irmão mais novo de um assassino... Numa noite estava acontecendo uma festa na cidade, o autor convidou seu irmão para ir olhar, mas ele recusou, disse que era para o autor ir e se divertir, que ele dormiria, pois amanha sabia que seria um dia melhor... O autor saiu da casa e foi ver a festa que acontecia na cidade, mas percebeu que não era tão bom se seu irmão não estivesse com ele, por isso ele voltou mais cedo... Quando ele voltou para casa... Ele viu seu irmão mais velho pulando... Ele se enforcou... Quando viu que seu irmão mais novo havia voltado ele tentou se desvencilhar da corda, tentou se soltar, se debateu... Mas não conseguiu... Itachi, o irmão mais novo, ficou agarrado as pernas do irmão enforcado durante dias, pequeno como era não tinha força para levantá-lo ou tirá-lo dali... No livro ele conta como a cena de seu irmão mais velho tirando a própria vida nunca saiu de sua mente, em como a imagem de seu irmão morto ficou fixada em sua retina... É um relato muito forte...

— Ele... O irmão mais novo... — Sasuke virou-se de costas para mim... — Ele se suicidou também?

— Não. Depois que o irmão mais velho morreu ele foi acolhido por uma família. O peixeiro para qual o irmão trabalhava as vezes o acolheu e o criou. Depois que cresceu um pouco ele começou a estudar e logo a escrever seus livros... A vida dele foi toda marcada pela morte do irmão... Mas ele morreu aos quarenta e poucos anos por causa de uma doença...


Sasuke ficou parado em silêncio de costas para mim... Mas era um silêncio diferente agora, era mórbido e pesado... E quando as luzes do lugar começaram a oscilar eu sabia que havia algo errado, contornei-o e parei a sua frente, e quando o fiz, quase deixei o livro em minhas mãos cair... Aqueles poderosos olhos negros estavam em lágrimas, o rosto vermelho, e a lembrança de seu ato agora era visível na pele de seu pescoço... a marca da corda... O remorso borbulhou pela garganta dele...


— Itachi não era para ter voltado... Não era para ele ter visto... Eu nunca quis que ele visse...


Ah, como eu queria abraçá-lo naquele momento, como eu queria poder tocá-lo e confortá-lo... Mas eu não podia... Tudo o que pude fazer foi deixar meus olhos se encherem de lágrimas também, ao entender a situação... Ele era um suicida... O Portador da Morte havia ceifado a própria vida outrora... Sasuke havia se suicidado, por que foi o único jeito que encontrou de dar uma vida digna a seu irmão...


— Itachi entendeu... — Continuei... — Ele entendeu que o irmão o amava o suficiente para tirar a própria vida pensando em seu futuro... E ele sempre, em todos os livros que escreveu, falou com profundo amor e carinho de seu irmão mais velho. Ele o amou pelo resto de seus dias.


Saber que Sasuke era um suicida me assustava, saber que ele havia passado pelo que eu quase passei e agora estava ali me fazia questionar onde eu chegaria um dia, destinada a sentir a dor eterna do meu pecado como Sasuke? Observar os outros caindo no mesmo caminho sem volta sem conseguir fazer nada? Era assustador pensar que o vazio tinha uma ordem... E mais assustador ainda era pensar que eu estava conformada com esse destino...


O Portador da Morte levou alguns bons dias para se recuperar, eu o pegava sentado olhando para o livro sem poder tocá-lo, ele ficava em silêncio escorado no canto do quarto sem admirar a lua de que tanto gostava, os olhos eram profundos, e eu sabia que seus pensamentos estavam longe... Os dias passaram, as semanas, os meses... Agora fazia dois anos que eu tinha tentado me suicidar, e esse medo já não nos rondava... Em uma noite fria Sasuke estava sentado no chão enquanto o gato ronronava ao seu redor, eu terminava de ler um artigo sobre uma obra de arte encontrada quando Gaara entrou pela porta, carregando um enorme buque de rosas brancas... Naquela noite eu fui pedida em casamento, e aceitei... Todos ficaram felizes com a novidade, nossos familiares, nossos amigos e colegas de trabalho, muitos pensavam que depois de muitas dificuldades e dias difíceis finalmente as coisas estavam dando certo em nossas vidas, e de fato estavam, as pessoas já não me olhavam com pena, ou tinham medo de me deixar sozinha por longos períodos, e isso era bom para mim... O único que não pareceu animado com tudo aquilo foi o homem de preto, que mais do que nunca infernizava a vida de Gaara, fazendo-o perder as chaves do carro, espalhando seus papeis pela casa com fortes rajadas de vento das janelas que se abriam sem explicação, fazendo a água do banho ficar gelada sem motivo, e não deixando-o dormir a noite enquanto perambulava pelo quarto, ouso dizer que ele até mesmo treinou o gato preto para unhar meu noivo, já que Gaara estava constantemente com os braços lanhados das unhas afiadas do bichano...


O casamento chegou, aconteceria no dia seguinte e Gaara foi ficar na casa de um amigo, me deixando sozinha para eu poder dormir tranquila, me acordar calma e passar o dia me arrumando para a cerimônia, não seria nada grande, mas ele queria que fosse da maneira que eu desejasse, ele sempre fazia o possível, e o impossível, para me agradar... Tomei um banho quente e voltei para o quarto, o felino preto estava deitado sobre a poltrona de Gaara, soltando pelo por suas roupas, coloquei uma camisola branca e leve, era inverno, mas dentro de casa estava quente, penteei meus cabelos e me aproximei da cama e foi quando eu dei falta do homem de preto no quarto... Desci as escadas e pude vê-lo parado diante das janelas da frente, as persianas estavam abertas e os vidros mostravam a neve que caía fina lá fora, me aproximei devagar enquanto passava os dedos pelos cabelos ainda úmidos e sentei no sofá...


— Sasuke... aconteceu alguma coisa?

— ... Sim. — Ele respondeu...

— Posso saber o que?

— Você vai se casar com o ruivo amanhã.

— Nós já conversamos sobre isso, eu sei que você o odeia, mas... — Ele me cortou, e não foi preciso palavras, apenas virou-se e me encarou com aqueles grandes olhos negros e eu me calei... E só depois ele começou a se aproximar devagar...

— Gaara será um bom marido para você. — Eu nunca tinha ouvido Sasuke pronunciar o nome de Gaara antes... — Ele é bom e gentil, protege e ama você. Ele aguenta tudo que faço com ele sem abrir a boca e sem reclamar... As vezes ele se tranca no escritório e desaba, ele sabe que algo estranho rodeia você, mas ele respira fundo, abre a porta e sorri. Tudo isso por que ele quer, acima de tudo, ver você feliz... Ele será um bom marido para você...

— ... Mas? — Perguntei quando ele se ajoelhou a minha frente e aproximou-se de mim... E aqueles olhos me hipnotizaram e me puxaram para dentro daquela escuridão...

— Mas eu também seria... Se eu tivesse a chance, eu faria tudo isso por você também. Eu faria você sorrir, eu cuidaria de você, eu a protegeria, eu tocaria você com amor...

— Você já o faz Sasuke... Você preencheu meus vazios e eu me apaixonei pela forma que me toca sem usar as mãos.


Ele avançou em mim, e por um segundo, eu quase pensei que poderia senti-lo fisicamente, a respiração quente dele bateu contra meus lábios, e as mãos grandes pairaram sob minha pele... A voz dele agora era banhada em luxúria...


— Eu queria Sakura, só por uma vez... Tocá-la... Beijá-la... Amá-la... — Ele aproximou a boca de meu ouvido, e a respiração bateu em meu pescoço, fazendo eu me escorar no sofá e arfar... — Eu queria colocar minhas mãos em você e beijar seu corpo, eu queria lamber sua pele e acariciar seus cabelos... — Gemi... Ele beijava minha alma naquele momento... — Eu queria, só por uma vez, fazer amor com você, me afogar em luxúria ao seu lado e fazê-la gemer meu nome...


Ele conseguiu... O nome dele escapou por minha garganta durante toda aquela noite...

Eu me casei com Gaara, e o amei, e fui, carnalmente, fiel a ele... E de alguma forma estranha, eu também me casei com meu portador da morte, e o amei, e entreguei minha alma a ele... E vivemos nós três...


Pouco mais de um ano depois de estarmos casados, eu fiquei grávida, e Gaara foi a loucura de alegria, mas Sasuke... Ele se isolou, andava de cabeça baixa pela casa, perambulando pelas sombras, e por algum tempo eu pensei que era pelo fato de ele nunca ter tido essa oportunidade em vida... Gerar uma vida... Mas eu estava enganada, estupidamente enganada... Uma noite eu acordei com a voz dele, o homem de preto não estava no quarto, desci as escadas em silêncio e pude vê-lo de joelhos diante das grandes janelas da sala, os olhos estavam inchados, e ele olhava para a lua brilhante, as mãos caídas no chão ao lado do corpo, e ele repetia e implorava incansavelmente a frase...


— ... Por favor, deixe-a viver... Por favor, deixe-a viver... Por favor, deixe-a viver...


Eu só compreendi o pedido dele uma semana depois... Quando eu perdi meu bebê. Sasuke soube, desde o primeiro momento, que aquela criança jamais nasceria... E ele soube, que quando eu a perdesse, eu cairia em angustia e desespero novamente... E foi isso que aconteceu... Mas ele me apoiou, e fiel permaneceu ao meu lado, e me entendeu como ninguém vivo na terra conseguiria... Eu passei meses deitada, em silêncio, sem conseguir sorrir, sem ter vontade de comer, e Gaara se esforçou para ser forte por nós dois, ele trabalhou duro ao meu lado, me preenchendo de carinho e vida, e quando era necessário que ele se afastasse, era a vez de Sasuke, e de uma maneira diferente ele também se esforçou... Ele sentava no chão ao lado da cama, e me cobria com aqueles olhos mansos, e me confortava com sua presença... E toda vez que eu pensei em tirar minha própria vida novamente... Eles me puxaram de volta da escuridão.


Eu estava prestes a completar trinta anos agora, e as coisas iam bem em nosso lar, juntos nós superamos mais uma crise, e ficamos mais fortes para a próxima... Gaara me ouvia conversando pelos cantos sozinha, respondendo perguntas que o ar tinha feito, e sorria quando eu dizia para o vento “— Pare de atormentá-lo” e as chaves do carro magicamente apareciam, o nome de Sasuke era ouvido cada vez com mais frequência naquela casa, com o passar dos anos eu fui sendo menos cuidadosa, e apesar de Gaara nunca ter se pronunciado, ele também não o renegava, e também nunca se posicionou quanto a isso antes daquela manhã... Eu deixei a jarra cair, e as dezenas de cacos de vidro se espalharam pelo chão junto ao suco amarelo... Gaara desceu as escadas correndo e me encontrou paralisada na cozinha...


— O que aconteceu Sakura? — Ele perguntou...

— Sasuke disse que eu estou grávida de novo...


Eu não pensei antes de responder... Eu apenas olhava para o homem de preto parado a minha frente com um singelo sorriso em seu rosto... Aquele sorriso, eu sabia que ele falava a verdade...


— Mande Sasuke parar de mentir. — Gaara respondeu em um tom incrédulo.

— Eu não estou mentindo Sakura... — O homem de preto respondeu... — Eu posso ver a alma da sua criança ao seu redor... — Ele confessou... — Da primeira vez, eu via uma sombra a seus pés, e eu soube que aquela criança jamais viria ao mundo... Mas dessa vez... — Uma lágrima escorreu o lado do rosto de Sasuke, e o sorriso aumentou gradativamente... — Ela brilha, e dança ao seu redor com alegria... Uma alma inocente e pura vai nascer de você.


Quando o médico confirmou o que Sasuke havia anunciado Gaara não soube como reagir, ele estava inegavelmente feliz, e ao mesmo tempo assustado... A gravidez não seria fácil, e meses de repouso me aguardavam... Mas Sasuke e Gaara se fizeram presentes em cada momento em que precisei, era um casamento estranho esse meu... E quando eu senti que chegou a hora, eu via um de cada lado da cama... Gaara andava nervoso de um lado para o outro no quarto, pegando água e mastigando algo que não engolia nunca, Sasuke ficou parado em um canto sombrio, respirando pesado... A dor só aumentava e o médico dizia “— Ainda não está na hora.” Enfermeiras começavam a se acumular ao meu redor, e a dor parecia que iria me rasgar ao meio, Sasuke se aproximou devagar, e disse que tudo ficaria bem...


Ela nasceu.

Era tão pequena, e linda, e forte... Um ser tão pequeno e que conseguiu encher aquele quarto de alegria ao abrir os olhos... Os primeiros meses foram difíceis, eu tinha uma gravidez complicada, Gaara teve que voltar a trabalhar pouco tempo depois e minha mãe teve que passar os dias comigo... Sasuke permanecia sentado ao meu lado no chão do quarto, e quando o bebê chorava ele ficava evidentemente nervoso... Os meses pareciam correr, era madrugada quando ela chorou, e eu vi quando o homem de preto levantou rápido e saiu do quarto, enquanto eu atravessava o corredor ouvi a voz baixa dele cantarolar, Sasuke estava parado ao lado do berço dela, com a mão esticada em sua direção, movendo os dedos devagar, e ela, tão pequena, esticava os bracinhos de volta e ria...


Aquela criança deu um novo sentido a minha vida, tudo que me importava envolvia ela, ela sempre vinha em primeiro lugar, era ela quem mais me fazia sorrir, e era por ela que eu chorava agora... Eu estava sentada a mesa tomando café quando ouvi a voz curiosa de minha filha...


— Sasuke, o que quer dizer Maiko?

— Quer dizer criança que dança. — Ele respondeu... Estavam sentados no chão, a frente das janelas que ele tanto gostava, enquanto ela desenhava em vários papéis... Não se deu por satisfeita...

— Por que meu nome é criança que dança?

— Antes de você nascer, quando você ainda estava na barriga de sua mãe, eu assistia você dançar ao redor de Sakura todas as manhãs, trazendo alegria para a vida da sua mãe...

— Eu sou a alegria de mamãe?

— Você é a alegria de todos nesta casa, Maiko.

Sorri...


Gaara entrou apressado e arfou, estava frio o suficiente lá fora para o nariz dele estar vermelho, tirou as roupas pesadas e se aproximou de mim, beijando-me carinhosamente e se apressou para ir em direção a pequena criança entre os vários papéis e lápis coloridos...


— Que lindos desenhos Maiko, você será uma artista como sua mãe.


Ele a incentivou, enquanto sentava-se no chão, e Maiko levantou-se eufórica mostrando os novos desenhos que havia feito durante a tarde, ela adorava desenhar o gato preto e preguiçoso que dormia em qualquer lugar da casa, as flores vinham em segundo lugar, sempre coloridas e vibrantes, e então Gaara achou um desenho diferente do habitual...


— O que é isso Maiko?

— É a nossa família papai.


O ruivo olhou o papel novamente, havia uma casinha no canto, e uma manchinha preta, que ele sabia que era o gato, e maior do que todos os outros estava a mulher de vestido, com os cabelos cor de rosa, e ele soube que era Sakura... O que o perturbou foram as outras três figuras na folha... Ela era a menor, com os dois braços levantados, de um lado ela dava a mão a um homem de cabelos vermelhos, e Gaara julgou ser ele próprio, mas do outro lado ela segurava a mão de outro homem, todo vestido de preto e cabelos igualmente escuros...


— Quem são estes? — Gaara sorriu e perguntou...

— Esta é mamãe. — Ela começou, apontou para o de cabelos vermelhos... — Este é o papai, esta sou eu, e este é Sasuke. — A pequena finalizou apontando para a figura de preto na folha...

— Sasuke? Você vê o Sasuke? — Ele engoliu a seco ao perguntar...

— Sim papai, Sasuke está sempre comigo e com a mamãe.

— E o que Sasuke fala com você Maiko?

— Hoje ele mandou eu não falar com aquele homem estranho na fila do mercado, e correu um cachorro que latiu para mim na volta, e de manhã nós escondemos a chave do seu carro, eu não alcançava, mas Sasuke colocou encima do guarda-roupa.


Gaara sorriu para a pequena... Um sorriso que eu sabia que era falso, ele levantou-se e sem alterar o tom de voz pediu para falar comigo no quarto, subimos as escadas em silêncio, e quando chegamos ao quarto ele me mostrou o desenho...


— Você a está influenciando.

— Eu não estou.

— Ela está vendo pessoas que não existem. — “Sasuke existe” foi o que pensei em responder, mas preferi não entrar no mérito...

— Crianças são sensíveis a essas coisas...

— Isso não é normal, Sakura. Nunca foi.

— É normal crianças terem amigos imaginários.

— Não amigos imaginários que a mãe também cisma em dizer que vê. Ela deve ver você falando sozinha pela casa e agora a está imitando.

— Eu não falo sozinha, não sou louca.

— Eu não estou dizendo que você é louca querida, mas... — Ele suspirou, e esfregou as têmporas... — Eu não quero mais esse... Sasuke aqui em casa. Então, mande ele embora.

— Sasuke não vai a lugar nenhum.

— Eu não quero um espirito assombrando minha filha.


A voz dele saiu firme... As luzes do quarto oscilaram, o vaso de flores que havia perto da cômoda estourou em mil pedaços, as janelas se abriram com força e o vento forte da rua entrou... Gaara sentiu a respiração pesada de um homem em suas costas, ele conseguia sentir a fúria que emanava dele... Congelou...


— Sasuke não vai a lugar nenhum.


Repeti, e sem esperar por uma resposta sai do quarto, o vento cedeu, as janelas pararam de bater, e as luzes voltaram ao normal, e Gaara permaneceu no quarto tentando compreender o que aconteceu...


As coisas ficaram tensas dentro de casa nas semanas seguintes, Gaara ficava atento a qualquer coisa estranha ou pronuncia ao nome do homem de preto. Não que ele não soubesse antes que algo estranho estava dentro da nossa casa, mas agora era diferente, eu não era a única, Maiko, e até mesmo o gato coexistiam com o Portador da Morte... Depois de algum tempo ele cedeu, talvez por perceber que nada poderia ser feito, ou pelo fato de que com o passar do tempo Maiko foi deixando de ver Sasuke, a alma inocente da minha criança foi tomando cor, e aos poucos ela foi perdendo as lembranças do homem de preto... Bem, pelo menos o consciente dela sim. Maiko cresceu, meu casamento com Gaara se tornou estável, e minha relação com Sasuke ainda mais, a pequena já não era mais tão pequena, passou pelo colegial e entrou para a escola de artes...


Gaara e eu saímos apressados de casa, não queríamos perder a exposição que continha as pinturas de nossa filha, a faculdade havia dado todo o suporte para aquilo acontecer, e eu não poderia estar mais feliz... Os quadros dos outros alunos eram belíssimos, mas talvez eu fosse uma mãe coruja, pois para mim e para Gaara os de Maiko eram os melhores... E os mais diferentes também, as pinturas dela sempre tinham cores escuras, sombras que corriam pela tela, nuances de escuridão, e em muitos deles... Um homem vestido de preto com os pés descalços, nunca como protagonista da pintura, sempre sutil em um canto ou ao fundo... Com exceção de um. O quadro era escuro, sombras avermelhadas ao fundo, e a única coisa sobre a tela era ele, os olhos negros e grandes, e os cabelos bagunçados, a pele pálida como leite... Maiko o pintou com perfeição, os olhos expressivos me fizeram lembrar da primeira vez que eu o vi, debaixo da ponte esperando por mim...


— Quem é esse minha filha? — Gaara sabia a resposta, ainda assim perguntou...

— Eu acho que esse é meu anjo da guarda pai. Eu sempre o vejo em meus sonhos, quando estou triste ele vem e me acalma, me acolhe e sussurra que tudo vai ficar bem...


Maiko respondeu enquanto olhava a tela junto de nós... Eu virei meus olhos para ela... Minha jovem mulher... Sasuke estava parado diante dela, com as mãos atrás do corpo, e nos lábios finos e secos um sorriso singelo...


Ver nossa pequena filha se formar foi um sonho... E em um piscar de olhos ela se casou com um homem que a amava, e nem Sasuke nem Gaara jamais o aceitaram completamente, uma ponta de ciúmes sempre se fez presente...

Agora eu tinha sessenta anos de idade e Gaara sempre dizia que nunca tinha visto uma mulher chegar aos sessenta com tanta beleza, ele sempre sorria e dizia o quão feliz era por ter dividido sua vida comigo, ele sempre dizia o quanto me amava, e o quanto eu o tinha feito feliz, ele sempre chegava com flores em casa e dizia “flores para uma flor” só para ter o prazer de me ver sorrir, ele sempre acordava pela manhã e passava alguns minutos me olhando dormir antes de levantar, ele sempre fazia o jantar e lavava a louça quando me via cansada, ele sempre inventava algo diferente aos finais de semana para fazermos... Ele sempre me amou nas sutilezas do dia-a-dia... E eu sempre o amei de volta... Eu o amei todos os dias, desde o dia em que disse sim no altar... E quando eu atendi aquele telefonema numa noite de outono, uma parte de mim morreu com ele... Sasuke estava parado aos pés da minha cama me olhando chorar baixinho, sabendo que ele não poderia fazer nada por mim além de permanecer a meu lado, quando algo chamou sua atenção no corredor da casa... Caminhou com os pés descalços até o topo da escada, e lá parou, olhando o ruivo, no auge de seus vinte e poucos anos o olhando do primeiro andar, Gaara sorriu para Sasuke...


— Maldito, então você realmente sempre esteve aqui... — Disse vencido em um tom suave...

— Foi divertido assombrar você, ruivo.

— Cuide delas por mim, Sasuke.


O Portador da Morte apenas assentiu com a cabeça, e a luz forte e clara o obrigou a fechar os olhos... E quando os abriu novamente Gaara havia partido...


E Sasuke cuidou...

Sasuke cuidou de mim quando a depressão voltou com a partida de Gaara, e cuidou de mim quando eu adoeci, e permaneceu ao meu lado até o dia em que eu melhorei, e ele seguiu cuidando de mim. E ele, de um jeito só dele, me amou por todos os dias... Ele foi meu companheiro em todos os momentos, e todas as madrugadas quando abri meus olhos eu o encontrei, sentado no chão olhando a lua... Os anos se passaram, e ele permaneceu ao meu lado. Quando minha filha teve uma filha, ele estava lá, sorrindo... E ele seguiu ao meu lado quando minha pele já estava enrugada e meus cabelos perderam o tom cor de rosa e se tornaram brancos... Ele me amou todos os dias da minha vida... E eu, intensamente, verdadeiramente o amei de volta...


— Falta pouco agora... — A voz dele era suave... — Você deveria ligar para Maiko...

— Não... Eu não quero que ela me veja partindo... — Eu respondi e ele aceitou... E depois de um longo silêncio confessei... — Estou com medo Sasuke...

— Não sinta. Você foi uma pessoa boa Sakura, teve uma linda vida... Você vai para um lugar bom agora...

— Nenhum lugar será bom sem você...


Eu pude ver a tristeza consumir o olhar dele, e ainda assim ele sorriu...


— Você certamente esquecerá de mim logo, logo...

— Eu nunca vou esquecer você... Minha alma sempre me puxará para perto da sua Sasuke...

— Oh Sakura... Doce Sakura... — Ele repetiu ao sorrir... — Eu sou um suicida... E você não. Nós vamos nos separar agora... E você vai para onde merece ir... E só de saber que você não estará lá embaixo comigo, eu já sou feliz...


Ele pôde ver o exato momento em que minha alma partiu daquele corpo... Sasuke chorou...


A casa que vivemos por todos aqueles anos estava submersa nas trevas, as luzes apagadas, em silêncio... Sasuke desceu as escadas e caminhou até as grandes janelas da sala... Ele baixou a cabeça, e as lágrimas grossas rolaram seu rosto pálido, pôde ver a escuridão em seus pés crescendo... Puxando-o... Engolindo-o... Minha alma não pertencia mais a terra, seu trabalho estava feito... O Inferno o chamava de volta...


A grama verde e úmida fazia carinho em meus pés... As flores coloriam o chão em camadas, e o céu tinha um lindo tom alaranjado misturando-se com o azul celeste... Eu era jovem de novo, jovem como no auge de minha vida, no auge de minha alegria... Respirei fundo, sentindo o cheiro doce preencher meus pulmões... Aquele era o paraíso afinal... Balancei meus cabelos cor de rosa e me virei...

Sasuke estava parado adiante, ele olhava para as próprias mãos, sem entender, usava roupas claras agora, cinzas, seus pés não estavam mais sujos e o cheiro que exalava de seu corpo não era mais de queimado... Ele levantou a cabeça, e os olhos negros se destacaram entre todas aquelas cores... Eu sorri, e me aproximei dele...


— Você não foi capaz de salvar sua própria alma... Mas salvou a minha... Seu pecado foi pago, Sasuke.


Os olhos dele entregavam o quão surpreso ele estava, mal podia acreditar naquilo, mal podia acreditar que era real... Mas não levou muito tempo pensando nisso, não levou tempo algum aliás, ele se apressou em minha direção, antes que acordasse de algum sonho que não fosse real, correu até mim e me tocou... E enfim me beijou... Meu corpo se derreteu em suas mãos, e eu jamais conseguirei descrever a sensação de seus lábios tocando os meus... Não precisávamos mais ter pressa agora, tínhamos a eternidade, Sasuke me abraçou forte e sorrimos...

Um homem se aproximou de nós devagar, os longos cabelos pretos e olhos que eram iguais aos de Sasuke, ele sorriu, e a voz saiu de sua garganta de forma suave...


— Bem-vindo meu irmão... Eu estive esperando por um longo tempo...


25 de Junho de 2019 às 12:06 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

SlowQueen Sempre que alguém inicia uma frase com "há quem diga", me questiono que rosto tem esse quem. como se parece? tem cheiro? de que cor são seus olhos? mas acima de tudo, esse quem acredita no que diz? não importa... Há quem diga que uma vida é uma insignificante letra perdida em um livro de letras insignificantes. sozinhas são isentas de significado, e quando agrupadas perdem o peso de sua individualidade... E é assim, perdida em um mar de letras indistintas que rebusco minha letra estilhaçada.

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