S02#23 - O MINOTAURO Seguir história

lara-one Lara One

Nossos agentes investigam uma estranha criatura aprisionada em um labirinto subterrâneo. Mas eles encontrarão a saída? Enquanto investigam, pra variar, aproveitam o tempo pra conversar coisas que nunca conversam. Isso sempre acaba em surpresas.


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S02#23 - O MINOTAURO

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Canteiro de obras da nova Rodovia 57 – Chicago – 5:11 P.M.

[Som: The Housemartins - Build]

Movimento de homens, vestidos com capacetes, trabalhando na reforma de esgotos. Silva gesticula para Alvarez, o homem que manuseia o guincho, guiando-o para descer um enorme pedaço de cano de concreto pra dentro de uma vala. Há uma retroescavadeira parada, e o homem que a guia, de apelido Pingo, está comendo um sanduíche sentado ao lado.

SILVA: - Mais um pouco, Alvarez... Mais! ... Desce mais um pouco!

Quatro homens, dentro da vala, guiam o cano com as mãos até seu lugar.

SILVA: - Isso aí! Tá certo, Alvarez! Feito!

Alvarez desliga o guincho. Dois dos homens que estão na vala, desamarram o cano. Silva olha pra Pingo, na retroescavadeira.

SILVA: - (DEBOCHADO) Ô, brasileiro preguiçoso! Vai ficar comendo o dia todo? Veio pra comer ou pra ganhar dinheiro?

PINGO: - Vim pra ganhar garotas.

Silva ri. Pingo sobe na retroescavadeira. Continua a cavar a vala. Silva dispensa alguns homens.

SILVA: - É isso aí, gente. Amanhã tem mais.

Silva vira-se pra retroescavadeira e observa o trabalho. Pingo desliga a máquina.

SILVA: - (CURIOSO) O que foi?

PINGO: - (SURPRESO) Não sei, peguei alguma coisa aqui!

Silva caminha até um engradado de garrafas, improvisado como banco. Pega uma planta e abre. Observa o papel com atenção.

SILVA: - Não tem nada aí, Pingo!

Pingo desce da retroescavadeira e pula dentro da vala.

SILVA: - Pingo, anda logo, cara! Só falta mais um pouco e podemos ir tomar nossa cerveja!

PINGO: - Silva, tem alguma coisa aqui.

Silva vai até Pingo. Pula pra dentro da vala. Os dois observam um pedaço de estrutura de pedra enterrada ali.

SILVA: - Mas que diabos é isso?

Silva agacha-se e cava com as mãos, revelando que é uma parede de pedras.

SILVA: - O que é isso, cara?

PINGO: - Tô pra te dizer, mano, que é uma rede de esgotos antiga.

Silva levanta-se.

SILVA: - (GRITA) Alvarez! Traga uns dois homens com pás e picaretas! Achamos um esgoto que não está no mapa.

Alvarez vem com uma marreta. Dois homens pulam na vala e começam a cavar.

ALVAREZ: - Vamos levar a noite toda fazendo isso.

SILVA: - Só mais um pouco. Então quebramos e vamos olhar.

Eles cavam um quarto da altura da parede. Pingo agacha-se. Pega a marreta e começa a quebrar a parede, abrindo um buraco. Tenta olhar pra dentro.

PINGO: - Tá escuro. Algum quer buscar uma lanterna?

Um dos homens sai. Volta com uma lanterna de camping. Pingo enfia a cabeça pra dentro do buraco, segurando a lanterna.

O lugar ilumina-se. É uma galeria antiga. Água verte das paredes, limo... É mais baixa que a superfície que eles cavaram.

PINGO: - Cara, acho que fiz uma descoberta arqueológica! Isso deve ser tão velho que os gringos nem sabem que existe! ... Parece mais uma sala. Acho que tem um corredor lá no fundo, mas não dá pra ver direito... É, pode ser uma rede de esgotos.

SILVA: - Hermanos, algum candidato a entrar por esse buraco?

ALVAREZ: - Tá brincando! Mas por que diabos fizeram isso daí? O que é? Uma tumba? O que queriam lacrar aí dentro? Uma múmia?

Os homens se olham. Sérios. Depois riem.

ALVAREZ: - Manito, acho que teremos mais dias de trabalho por aqui... Isso não estava nos planos.

SILVA: - Puta que pariu, que merda é essa?

PINGO: - Quer descobrir?

SILVA: - Hoje não, já terminou o expediente.

Silva vira-se pra Alvarez.

SILVA: - Vou deixá-lo aqui, até o vigia chegar. Não sabemos o que é, e não quero nenhum vagabundo entrando aí dentro.

Alvarez deixa a lanterna acesa na entrada do buraco. Todos saem dali.

[Som: Photek – Minotaur]

Corta para o buraco.

A luz da lanterna projeta-se para dentro, iluminado uma parede. Uma sombra projeta-se na parede da galeria.

Foco na sombra, subindo aos poucos, revelando o corpo de um homem. Pernas, cintura e braços. E uma cabeça de boi com dois chifres longos.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA


BLOCO 1:

FBI – Gabinete do diretor assistente McKenna – 8:09 A.M.

[Som: Mikis Theodorakis – Ena to Helidoni]

Mulder e Scully sentados na recepção. Ambos se entreolham em silêncio de apreensão e curiosidade.

A secretária, Lisa Ryan, uma loira, alta, magrela e peituda, disfarça que está lendo alguns papéis, mas fica dando olhadinhas pra Mulder. Mulder percebe. Dá um sorriso pra ela.

Scully, disfarçadamente, belisca Mulder, que recua o braço, olhando incrédulo pra Scully. A porta do gabinete abre-se. Os dois levantam-se rapidamente.

[corte da música]

Um velho de óculos, sério, gordo, baixinho, cabelos grisalhos, de terno e gravata sai do gabinete. É parecido com J. Edgar Hoover.

McKENNA: - Agentes Mulder e Scully?

Os dois agentes se entreolham.

McKENNA: - Sou Phillip McKenna. A partir de hoje, estão sob minhas ordens. Lamento muito pela morte do senhor Skinner, mas o trabalho deve prosseguir.

McKenna entra no gabinete. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - (COCHICHA) Não confie em ninguém que não seja careca e não tenha nariz de batata...

Scully olha pra Mulder, o censurando e entra no gabinete. Mulder a segue, piscando pra secretária, que lhe retribui um sorriso.

Corta para dentro da sala. Mulder fecha a porta. McKenna senta-se.

McKENNA: - Sentem-se por favor.

Os dois sentam-se, desconfiados, analisando-o com os olhos. McKenna abre uma gaveta e tira um spray para ambientes. Perfuma o lugar. Mulder olha pra Scully. Aproxima-se e cochicha.

MULDER: - Está disfarçando o cheiro de cigarro?

SCULLY: - (SEGURANDO O RISO) Pára!

Mulder fica quieto. McKenna guarda o spray. Cruza os dedos das mãos uns nos outros sobre a mesa. Olha pra eles.

McKENNA: - Primeiramente vou dizer que não admito indisciplina da parte de meus agentes subordinados. Coisas como suspensão das atividades, se acontecerem por mais de duas vezes, eu tomo providências pra não acontecerem mais. Certo?

Scully abaixa a cabeça, suspirando. Mulder nem está aí.

McKENNA: - Fui bem claro?

SCULLY: - Sim, senhor.

Mulder fica quieto. Cruza as pernas, enlaça os dedos das mãos sobre os joelhos e olha debochadamente pra McKenna.

McKENNA: - E o senhor, agente Mulder... O diretor assistente Kersh comentou sobre sua indisciplina. Aprecio muito sua inteligência e dedicação, mas não vou tolerar suas ironias e sua arrogância aqui dentro. Nem qualquer tipo de desacato à minha autoridade. Não gosto de piadas, entendeu?

Scully faz um beiço de quem quer rir, mas segura-se. Mulder dirige sua atenção pra um enorme quadro com a foto de J. E. Hoover, na sala.

McKENNA: - Entendeu, agente Mulder?

MULDER: - (DEBOCHADO) Perfeitamente, senhor.

McKENNA: - Piadas e ironias tem hora e lugar certo. Último aviso: Quero respeito aqui dentro. Exijo que me tratem por Senhor Diretor Assistente McKenna. E quero que se tratem por agente Mulder e agente Scully. Não quero que eliminem a palavra agente quando conversarem. Isso é importante para manter a imagem séria do FBI.

Mulder segura o riso, naquele seu deboche tradicional.

MULDER: - Sim, senhor. Mais algum aviso de suma importância?

McKENNA: - Sim, agente Mulder. Nunca questione nada. Aqui quem faz as perguntas sou eu. E não sou o senhor Skinner. Lembrem-se disso.

Scully ergue as sobrancelhas, fazendo um beiço discreto de deboche.

McKENNA: - Fui bem claro?

MULDER: - (CÍNICO) Claríssimo.

SCULLY: - Sim, senhor.

McKENNA: - Ótimo.

McKenna entrega uma pasta pra eles.

McKENNA: - Vão agora para Chicago. Quero que investiguem o desaparecimento de 3 bombeiros e 5 policiais, e o assassinato de um operário, encontrado parcialmente devorado. Ajudem a polícia local. E não saiam de sua jurisdição. Não quero que a polícia reclame que estão se intrometendo onde não devem. O respeito entre as forças policiais deste país, é a força e a moral que deve refletir nos nossos cidadãos. Somos policiais e devemos manter nossa imagem.

Os dois levantam-se e caminham até a porta. Mulder morde o beiço, debochado. Scully abre a porta.

McKENNA: - Ah, senhor Mulder.

MULDER: - (VIRA-SE PRA ELE) Sim?

McKENNA: - Arrume sua gravata. Não parece um agente sério com essas roupas que está vestindo. Compre ternos novos. De boa qualidade.

Mulder abre a boca. Scully se intromete.

SCULLY: - Sim, senhor diretor assistente McKenna.

Scully empurra Mulder porta à fora. A secretária estende a mão, segurando duas passagens.

LISA RYAN: - Agente Mulder, as passagens.

Mulder dá um sorriso debochado e pega as passagens. Scully sai da sala, fazendo beiço, enciumada.


Arquivos X – 8:18 A.M.

Scully entra, segurando a pasta. Mulder entra atrás dela e bate a porta, furioso. Scully escora-se na parede e observa o parceiro.

MULDER: - Você ouviu o que ele disse? Literalmente me chamou de mendigo!

Scully segura o riso. Mulder está fora de si. Chuta a lixeira, chuta a mesa, esmurra a mesa. Scully recua contra a parede, olhando-o perplexa.

SCULLY: - (SERENA) Mulder...

MULDER: - Estamos fodidos, Scully!

Scully ergue as sobrancelhas, estranhando o palavreado.

MULDER: - (INDIGNADO) É, estamos literalmente fodidos e não tem outra palavra pra designar a situação! Esse clone do Hoover está me dando nos nervos!

Mulder chuta a cadeira, furioso.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Agente Mulder...

Mulder atira-se na cadeira. Abre a gaveta. Pega alguns lápis, reclina a cadeira e mira um deles no teto. Está enfurecido, doido pra matar um.

SCULLY: - Mulder, não o provoque. Sabe que não teremos mais um Skinner daqui por diante.

MULDER: - ... Tô tentando me acalmar.

SCULLY: - Pelo menos ele é bonzinho. Nos dá passagens de avião... O Skinner só dava vale pra gasolina...

MULDER: - Em compensação reclama das minhas roupas! Vou falar pra ele o que penso a respeito do meu salário.

SCULLY: - Mulder... Por mim, tá? Não arranje encrencas. Segure-se. Eu sei que é difícil, mas tente controlar suas ironias quando estiver diante dele.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ah, sim, ‘agente Scully’... Olha que coisa mais bonitinha ficarmos nos chamando de agente. É tão meigo, tão delicado, tão educado...

SCULLY: - Só na frente dele. (IMPLORANDO COM OS OLHOS) Por favor? Dá pra fazer isso por mim?

MULDER: - ... (BEIÇO)

SCULLY: - (ERGUENDO AS SOBRANCELHAS, PEDINDO RESPOSTA) Sim?

MULDER: - ... Tá. Mas não prometo nada... Vamos pra Chicago, Scully. Preciso trabalhar. Estou com meus neurônios coçando, pedindo por um bom enigma.

SCULLY: - Hum, isso é bom. Quem sabe fique mais calminho...

MULDER: - Sabe o que me deixa mais calminho, Scully...

Mulder levanta-se, pega as passagens. Entrega pra Scully, com um sorriso maquiavélico.

MULDER: - Verifique o horário do voo.

Scully pega as passagens, inocentemente. Um bilhete cai de dentro da passagem de Mulder. Mulder disfarça, segurando o riso. Scully olha pro chão. Agacha-se e pega o bilhete. Levanta-se lendo-o.

SCULLY: - Não, eu não acredito!

Mulder dá um sorriso debochado. Scully olha pra Mulder, irritada.

SCULLY: - (ENCIUMADA) Parece que a secretária não concorda com seu chefe. Achou você bem interessante... Deu até o número do telefone!

MULDER: - ...

SCULLY: - E parece que você adorou a ideia!

Mulder pega o bilhete das mãos de Scully e guarda-o no bolso, provocando. Scully olha pra ele, incrédula.

MULDER: - Por via das dúvidas, Scully, se você desistir, já tenho uma reserva...

SCULLY: - (SÉRIA) Mulder, bateria em você até vê-lo sangrar. Mas como estamos aqui, farei isso em Chicago!

MULDER: - (DEBOCHADO) Ohhh!

SCULLY: - (AMEAÇADORA/ ENCIUMADA) Aviso, Mulder: Não tente. Você não me conhece. Se fizer, faça bem feito. Porque se eu descobrir, você será um homem aleijado pro resto da vida. Eu sei muito bem usar um bisturi!!!

Mulder faz cara de pânico. Scully sai, batendo a porta.

MULDER: - Adoro te provocar, Scully... Nem sabe o quanto adoro te provocar... Me sinto importante quando você age desse jeito.


Departamento de Polícia – Chicago – 2:22 P.M.

O delegado Hugley, um negro alto e esquivo, mostra as fotos de Alvarez, colocando-as sobre sua mesa. Mulder olha pras fotos entusiasmado. Scully com ar de questionamento.

HUGLEY: - José Alvarez, Porto Riquenho. Trabalhava no canteiro de obras, onde descobriram aquele buraco. Tinha 26 anos e dois filhos. Casado com uma americana.

MULDER: - É, isso facilita um Green Card...

HUGLEY: - O corpo está aí, no nosso necrotério. O legista está de férias e o substituto parece que desistiu. Se quiser dar uma olhada, agente Scully, e me explicar porquê ou o quê devorou esse homem, adoraria ouvir uma resposta.

SCULLY: - O que há nesse buraco?

HUGLEY: - Parece se tratar de uma antiga rede de esgotos. A prefeitura não tem nenhum registro da existência. Mandei um grupo de quatro homens descerem e verificarem as dimensões da estrutura. Não voltaram. Há dois dias mandei mais quatro homens, três eram do corpo de bombeiros.

MULDER: - ... Supostamente ainda não voltaram.

HUGLEY: - Preciso que nos ajudem. Não quero mandar mais ninguém lá embaixo enquanto não souber com o quê ou quem estamos lidando. Talvez seja algum esconderijo de gangues. Talvez tenham acesso por outro lado da estrutura, que desconhecemos.

MULDER: - Nunca saberá se não entrar lá.

HUGLEY: - Acha que vai entrar naquele buraco?

MULDER: - Acha que não vou entrar?

HUGLEY: - Agente Mulder, uma pergunta: Sua mãe lhe deu o nome de Fox por que sempre foi xereta?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não. Porque sempre fui esperto.

Mulder sai da sala. Scully segura um beiço debochado.

HUGLEY: - Trabalha há muito tempo com ele?

SCULLY: - O bastante pra garantir que ele vai entrar naquele buraco. Não tenha dúvidas.

HUGLEY: - O que faz “naquele lugar”?

SCULLY: - ???

HUGLEY: - (IRRITADO) Eu sei que mandaram este caso pra “aquele lugar”! E confesso, estou mais assustado com isso do que com o desaparecimento de meus homens.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Delegado Hugley, não se preocupe. Quando mandam casos “pra aquele lugar”, se não lhe dermos uma resposta, por mais estranha que possa parecer, pode nos mandar “pra aquele lugar”.

Scully sai da sala, segurando o riso. Hugley abaixa a cabeça, suspirando.

HUGLEY: - (INDIGNADO) FBI... Quando se pede ajuda aos profissionais nos mandam a reserva dos reservas.


Canteiro de obras da nova Rodovia 57 – 3:29 P.M.

[Som: Mikis Theodorakis – Ena to Helidoni]

Mulder tira o paletó e entrega pra Silva. Pingo olha pra arma de Mulder no coldre. Olha pra Silva, arregalando os olhos.

PINGO: - Automática...

Mulder olha pra vala, lamacenta. Arregaça as mangas da camisa. Desce até a vala, enlameando os pés. Silva olha pra Pingo e os dois seguram o riso.

MULDER: - Isso é que chamo de trabalho sujo.

SILVA: - Ainda não viu nada.

Mulder olha pro barro, olha pro buraco. Não tem alternativa. Precisa ajoelhar-se no chão pra ver lá dentro. Ajoelha-se.

MULDER: - Droga!

Atolado na lama, Mulder espia pra dentro do buraco. Puxa a lanterna e ilumina lá dentro. Silva e Pingo o observam.

SILVA: - Agente do FBI, o que descobriu sobre a morte do Alvarez? Já tem um suspeito?

Mulder tira a cabeça de dentro do buraco. Levanta-se. As calças estão molhadas e sujas de lama. Pingo estende a mão, ajudando Mulder a sair do buraco. Mulder pega o paletó e veste-o. Guarda a lanterna no bolso. Sacode as calças, mas desiste. O barro não vai sair.

MULDER: - ... Infelizmente nada. Podem me dizer o que aconteceu?

SILVA: - Quer tomar um café? Eu lhe explico a situação.

Os três caminham em direção à um escritório pré-montado. Entram. Silva serve cafés. Mulder observa o lugar, percebendo um mapa na parede. Silva lhe entrega o café.

SILVA: - Agente... Qual seu nome mesmo?

MULDER: - Mulder.

SILVA: - Agente Mulder, há uns... (VIRA-SE PRA PINGO) Seis ou sete dias, Pingo?

PINGO: - Sete dias.

SILVA: - Bem, estávamos cavando a vala pra puxar um esgoto novo, paralelo a rodovia. Os engenheiros não querem estruturas muito complexas por aqui... Bem, então o Pingo achou aquele lugar.

PINGO: - É. Parede de pedras... Parecia que queriam lacrar o local. Até o Alvarez fez uma piada sobre múmias...

SILVA: - Pedi aos homens para abrirem, não havia nenhuma descrição na planta ou no mapa de que tal lugar existisse.

PINGO: - Estava como o senhor viu. O Silva pediu pro Alvarez ficar até o vigia chegar. Quando o vigia chegou, Alvarez estava com metade do corpo pra fora do buraco. Alguma coisa o puxou pra dentro.

MULDER: - Quem era o vigia?

SILVA: - O Juan. Daqui à pouco ele está aí, então poderá falar com ele.

PINGO: - Foi horrível. Quando Juan puxou Alvarez do buraco, ele havia sido devorado do peito pra baixo.

SILVA: - Parece bruxaria...

Mulder levanta-se. Larga a caneca sobre a mesa. Olha pro mapa na parede.

MULDER: - Só imigrantes trabalham aqui?

SILVA: - A maior parte. Porto Riquenhos, Brasileiros, Mexicanos... Mas todos legalmente com vistos.

PINGO: - ... Na minha terra isso seria um caso envolvendo chupacabras...

MULDER: - Ninguém mais ficou no canteiro de obras com o Alvarez?

SILVA: - Não. O dia tinha sido duro, os homens estavam malucos pra ir embora.

Mulder aponta um círculo vermelho numa área próxima da obra, desenhado sobre o mapa.

MULDER: - O que significa o círculo vermelho?

Silva aproxima-se.

SILVA: - Significa área de estrutura frágil... O solo aqui é meio traiçoeiro...

MULDER: - Não entendo nada de obras, mas algum de vocês, tem idéia de que tamanho seja aquela estrutura lá embaixo?

SILVA: - Acredito que não deve ser muito grande. Parece mais uma sala, talvez uma espécie de casamata... Sei lá.

Mulder caminha até a porta. Vira-se pra eles.

MULDER: - Quero que parem tudo o que estão fazendo. Vou isolar a área.

SILVA: - O quê? Temos um prazo, agente Mulder.

MULDER: - Prazos podem mudar. Não quero colocar a vida de mais ninguém em risco.

Mulder sai. Silva e Pingo se olham.

SILVA: - É, vai dar merda, cara. O FBI tá aqui.

PINGO: - Nunca tinha visto um agente do FBI de perto... São como nos filmes... Sérios e esquisitos.


BLOCO 2:

Motel Alameda 24 – 7:17 P.M.

Scully abre a porta de seu quarto. Mulder entra, todo sujo de lama.

SCULLY: - O que aconteceu?

MULDER: - Nada. O que descobriu?

SCULLY: - Sente-se no sofá, Mulder.

MULDER: - Tão sério assim?

Mulder atira-se na cama. Scully olha-o com censura.

SCULLY: - O convidei pra sentar no sofá, não pra se deitar na minha cama, Mulder! Você está sujo! Como pode ser tão desleixado? Sua mãe nunca te ensinou a ter boas maneiras? Será que tenho de fazer tudo por você? Até educá-lo?

Mulder senta-se na cama. Olha debochado pra Scully. Scully abre o frigobar e tira um refrigerante.

SCULLY: - O senhor José Pablo Alvarez morreu devido a um traumatismo craniano. Teve sua cabeça batida contra algum objeto sólido. E com muita força. O crânio apresentava rachaduras.

MULDER: - Poderiam ter batido a cabeça dele como uma noz contra uma parede de pedra?

SCULLY: - Hum, talvez. O que não faz sentido são as marcas das mordidas... Você vai gostar disso, Mulder.

Scully senta-se ao lado dele. Mulder pega o refrigerante das mãos dela. Começa a beber. Scully suspira.

SCULLY: - A arcada dentária revelou tratar-se de algum tipo de canídeo desconhecido. Apresenta presas e dentes trituradores.

MULDER: - Trituradores?

SCULLY: - Como nas hienas, Mulder. A carne e a pele foram arrancadas e parte dos ossos triturados.

MULDER: - Ele foi comido? (DEBOCHADO) Literalmente...

SCULLY: - Exatamente. Talvez um animal selvagem. O que não faz sentido, Mulder. Que animal sobreviveria num esgoto lacrado sem oxigênio? A menos que haja uma saída, dutos de ventilação...

MULDER: - Por que disse que se trata de um canídeo desconhecido?

SCULLY: - O número de marcas de dentes indica que tenha uma arcada dentária maior do que um canídeo comum.

MULDER: - Hum... Um cachorro grandão, Scully? Uma hiena gigante? Ou uma raposa pré-histórica?

SCULLY: - (INDIGNADA) Mulder, isso sugere que a boca do animal, apesar de pequena, possui uma protuberância... Digamos, como as vacas.

MULDER: - (INCRÉDULO) Vacas?

SCULLY: - Sim, vacas têm boca pequena, mas...

MULDER: - (DEBOCHADO) Acha que uma vaca carnívora está matando gente, Scully? Eu ouvi isso de você? Da minha cientista Dana Scully?

SCULLY: - (CENSURANDO-O) Mulder...

MULDER: - (DEBOCHADO) Uau! Que história: Vaca assassina vinga-se dos hambúrgueres devorando cidadãos de Chicago, que tem a carne temperada com cerveja e...

SCULLY: - (IRRITADA) Mulder, pára com isso! Não estou sugerindo nada! Estou fazendo comparações! Vacas não são carnívoras. Estou dizendo que o animal pode ser semelhante a uma vaca. Pode ser algum animal desconhecido dos anais da ciência e...

MULDER: - (PROVOCANDO) Seria então um touro?

SCULLY: - (IRRITADA) Não, Mulder. A besta chifruda atacou novamente!

Scully puxa o refrigerante das mãos dele. Entorna a lata. Desiste.

SCULLY: - Não acredito! Você bebeu todo o meu refrigerante, sua besta chifruda!

Mulder deita-se na cama. Scully levanta-se e joga a lata no lixo.

MULDER: - É... É muito bom saber que além de besta, sou chifrudo. Lembre que tenho de me abaixar quando passar por aquela porta.

SCULLY: - ...

MULDER: - Ele é melhor do que eu?

SCULLY: - Bem melhor.

MULDER: - O que ele tem que eu não tenho?

SCULLY: - Um carro. Uma casa. Uma caderneta de poupança. Seguro de vida.

Mulder senta-se na cama.

MULDER: - Interesseira! Espero que se lembre de mim quando colocar estricnina no champanhe dele.

Scully faz charme.

SCULLY: - Então, vai buscar um jantar pra nós ou eu tenho de fazer todo o serviço por aqui?

MULDER: - Enquanto você ficava lá, examinando o morto, eu estava enterrado na lama!

SCULLY: - Como se não gostasse de chafurdar na lama, Mulder, meu porquinho travesso...

MULDER: - Tô cansado. Pede pro outro buscar.

SCULLY: - Ah, tá cansado? Então vá dormir no seu quarto.

MULDER: - Pensando melhor, Scully, acho que vou trazer seu jantar. O que quer?

SCULLY: - Nada que envolva filé com fritas. Nem hambúrguer!

MULDER: - Carne de soja?

SCULLY: - Hum... Isso é bom.

MULDER: - Argh!

Mulder levanta-se da cama.

MULDER: - Vou buscar, só pra mostrar que sou um cavalheiro.

Mulder abre a porta e sai. Scully mexe o pescoço, tentando espreguiçar-se. Desabotoa a blusa. Mulder entra.

MULDER: - Ah, não faça isso antes que eu volte!

SCULLY: - Vou tomar um banho, Mulder. Não vou esperar você.

MULDER: - Então não busco seu jantar.

Scully sorri, cansada.

SCULLY: - Tá certo, Mulder. Vou preparar um banho. Você tá precisando mais do que eu.

Mulder sai. Scully entra no banheiro.


11:37 P.M.

Os dois agentes deitados na cama. Scully grudada em Mulder. Mulder olhando pra TV desligada.

SCULLY: - No que está pensando?

MULDER: - Na vaca assassina.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Eu sabia que você ainda pensava na Diana Fowley.

Mulder olha pra Scully, incrédulo com a piada.

MULDER: - Scully??? O que está acontecendo com você? Você não era debochada desse jeito e nem tão violenta!

SCULLY: - A convivência ensina, Mulder. E depois, as pessoas acham que conhecem Dana Scully... Mas elas nunca a conhecem por inteiro... Ela guarda segredinhos sujos sobre sua personalidade dupla.

Mulder vira-se por cima dela.

MULDER: - Estou gostando dessa nova Scully, mais temperamental, mais irritada, mais doidona...

SCULLY: - Não estava pensando na vaca?

MULDER: - Que vaca?

SCULLY: - Mulder, concentre-se no caso. Não no nosso caso.

MULDER: - Ah, eu não quero pensar em vacas... Quero pensar em você.

SCULLY: - Hum, depois eu é que estou mudando!

MULDER: - A convivência ensina, Scully.

Os dois trocam um beijo. Mulder sai de cima dela.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - (PÂNICO) Estou pensando na vaca. Me desculpe.

SCULLY: - Mulder, eu te conheço muito bem. Eu já sei o que vai fazer. Sei o que está pensando em fazer. Adiantaria pedir que não o fizesse?

Mulder sorri enigmático. Scully senta-se na cama, frustrada.

SCULLY: - Vamos, Mulder. Vamos nos vestir e entrar naquela droga de buraco. Por que se não, você não vai dormir sossegado. Crianças! Sempre temos que fazer a vontade delas!

Mulder dá um pulo da cama.

MULDER: - (EMPOLGADO) Essa é a minha Scully... Ela me conhece só pelo olhar...

SCULLY: - É. E esse é o traste de amante que eu arranjei.

MULDER: - Scully, mata minha curiosidade primeiro e depois eu faço tudo o que você quiser.

SCULLY: - Lembre-se dessa promessa, Mulder. Vou cobrar.


Canteiro de obras - 12:41 A.M.

Mulder, dentro da galeria, vestido de jeans e uma jaqueta de lã, ajuda Scully a descer pelo buraco, segurando-a pelo bumbum. Scully está de calças e uma camisa.

SCULLY: - Precisava ficar agarrando o meu bumbum?

MULDER: - Não é sempre que a oportunidade surge, parceira.

Os dois acendem as lanternas. Observam o lugar.

MULDER: - (SORRINDO) O que acha disso, Scully? Não parece o porão de um castelo mal assombrado?

SCULLY: - Mulder, se tiver fantasmas por aqui você é um homem morto.

MULDER: - (DEBOCHADO) Relaxe, Scully. Estamos procurando sua vaca assassina.

Scully ilumina o chão com a lanterna.

SCULLY: - Não é um esgoto, Mulder. Não há canais de água por aqui.

MULDER: - Veja, há um corredor.

Mulder segue caminhando. Scully atrás dele.

SCULLY: - Mulder... Que cheiro é esse?

MULDER: - Sabe quando você esquece de colocar o lixo pra fora e vai viajar?

Scully mira a lanterna pelas paredes.

SCULLY: - Isso é assustador e frio!

MULDER: - Quer meu casaco?

SCULLY: - (OBSERVANDO O LIMO NAS PAREDES) Não.

Eles caminham até o fundo do corredor. Há um corredor transversal.

MULDER: - Você vai por ali e eu por aqui.

SCULLY: - Nada disso, Mulder.

MULDER: - (SORRINDO) Está com medo?

SCULLY: - Estou. Com medo de você se meter em encrenca. Vamos juntos.

MULDER: - Direita ou esquerda?

SCULLY: - Direita, pra não me acusar de comunista.

Eles seguem.

MULDER: - Nossa, o cheiro tá ficando insuportável.

SCULLY: - Não acredito!

Os dois param. Há uma parede à frente deles. Um novo corredor ao lado.

MULDER: - Scully, isso daqui parece mais um labirinto.

SCULLY: - Acredito que os homens estejam perdidos, Mulder. Talvez não encontraram o caminho de volta.

Scully coloca a mão no bolso da calça. Retira um batom. Mulder olha pra ela, incrédulo.

MULDER: - O que é isso?

SCULLY: - Um batom.

MULDER: - (INCRÉDULO) Precisa de batom num lugar desses?

Scully risca uma seta na parede. Olha pra Mulder, debochada.

SCULLY: - Preciso. E como!

MULDER: - ...

SCULLY: - Assim saberemos por onde entramos.

MULDER: - E se existirem aqueles duendezinhos do filme do David Bowie que viravam as pedras?

SCULLY: - Mulder, não há duendezinhos por aqui. Que imaginação fértil você tem!

Eles continuam caminhando.

SCULLY: - Você gosta do David Bowie?

MULDER: - Gosto.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Pra mim, todos os “Davids” são loucos e têm tendência a serem andróginos.

MULDER: - Juro que vou tentar não levar isso pro lado pessoal, colega.

O único barulho que se escuta, são os passos deles.

MULDER: - Por que alguém construiria um labirinto subterrâneo?

SCULLY: - Pra torturar pessoas?

MULDER: - Isso daqui é muito antigo, Scully. Acho que nem sua tataravó tinha nascido quando o engenheiro desse lugar desenhou a planta.

SCULLY: - Os índios não tinham essas técnicas de construção. Talvez os espanhóis. Os ingleses...

MULDER: - Tire Cristóvão Colombo dessa história.

SCULLY: - Alguma teoria?

MULDER: - Não. Estou pensando só em sexo no último mês e de repente, fiquei sem teorias.

Os dois continuam caminhando e conversando. Scully marcando os corredores com setas.

SCULLY: - Sabe, Mulder, estou perdendo meu medo.

MULDER: - Medo? Você sentia medo? Medo de quê?

SCULLY: - De você.

MULDER: - (DEBOCHADO) Você tinha medo de mim? Ora, Scully, isso é patético! Sei que sou estranho, mas até que sou bonitinho demais pra assustar os outros!

SCULLY: - ... (SÉRIA) Eu achava que você não ia levar nosso relacionamento tão a sério.

MULDER: - Surpresa?

SCULLY: - Muito.

MULDER: - Scully, eu sou um cara sério. Embora não pareça... Scully, tem alguma coisa ali na frente.

[Som: Photek – Minotaur]

Os dois param. Miram as lanternas. Um vulto passa por um corredor à frente e desaparece.

MULDER: - Viu aquilo?

SCULLY: - Talvez seja um dos homens do xerife.

Os dois correm. Entram no corredor, mas não encontram nada.

MULDER: - Droga! Eu vi, estava aqui!

SCULLY: - Talvez tenha sido sugestionado a ver algo, Mulder.

MULDER: - Já sei o que vai dizer, Scully. Que o lugar é propício a alucinações... Mas não era alucinação!

SCULLY: - Então por onde saiu? Este corredor termina numa parede, Mulder!

Mulder começa a bater nas paredes com as mãos.

SCULLY: - O que está procurando?

MULDER: - Alguma passagem secreta.

SCULLY: - Mulder, acho que viu filmes demais de Agatha Christie.

[corte]

Eles voltam pelo corredor e tomam outra direção. Scully continua marcando as paredes.

MULDER: - Qual foi o primeiro livro que leu na vida?

SCULLY: - Meu pai me deu O Pequeno Príncipe. E você?

MULDER: - Vinte Mil Léguas Submarinas.

SCULLY: - Hum, gostava do Capitão Nemo?

MULDER: - Não. Adorava a ideia de ter um Nautillius só pra mim. Coisas de menino, Scully. Não entenderia.

SCULLY: - Você era um menino bem engraçadinho. Aposto que aprontava.

MULDER: - Eu era tímido... Mas gostava de colocar fogo no quintal do vizinho.

SCULLY: - Eu fumava escondido. Roubava os cigarros da mamãe.

MULDER: - E o que mais fazia às escondidas?

SCULLY: - Nada de tão sério.

MULDER: - ... Scully... Quem é Douglas?

SCULLY: - ...

MULDER: - (ENCIUMADO) Scully... Não temos segredos um com o outro. Quer dizer, achava que não tínhamos.

SCULLY: - Coisas de adolescente, Mulder. Nunca aconteceu com você? Nunca nenhuma garota disse que estava preocupada, que poderia estar grávida e...

MULDER: - (CORTANTE) Não.

SCULLY: - Mulder, não minta! Adolescentes fazem besteiras por impulso!

MULDER: - (FICANDO MAIS SÉRIO) Scully, sempre fui cuidadoso com essas coisas. Sabe o meu ponto de vista a respeito de crianças. Eu não era um irresponsável. (ENCIUMADO) Como o ‘Douglas’.

SCULLY: - ...

MULDER: - Aposto que na época foi um susto. Mas agora, gostaria que tivesse acontecido. Aposto que esse tal Douglas aí deve ter sido muito importante.

SCULLY: - Não.

MULDER: - (PROVOCANDO) Mas se tivesse acontecido, você hoje teria um filho bem grandinho. (IRRITADO) E com o ‘Douglas’.

SCULLY: - Não. Há hora pra tudo, Mulder. Talvez minha vida não tivesse seguido esse rumo.

MULDER: - (INSTIGANDO) O que não seria má idéia...

SCULLY: - (IRRITADA) Mulder, pára de me provocar! Não vai ouvir o que quer.

MULDER: - ...

SCULLY: - Foi passado. Não me culpe pelo passado! E você? Acha que vou ficar jogando seu passado na sua cara?

MULDER: - Não estou jogando nada na sua cara.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - Me desculpe.

MULDER: - ...


BLOCO 3:

1:37 A.M.

[Som: The Housemartins - Build]

Os dois agentes continuam caminhando. Em silêncio. Scully procura briga. Mulder cai na jogada.

SCULLY: - Já se arrependeu amargamente de ter transado com uma pessoa?

MULDER: - Muitas vezes. Principalmente quando ouvia pelos cantos: Ele é bonitinho, mas só presta no escuro e de boca fechada.

SCULLY: - (SORRI) Tão ruim assim?

MULDER: - Scully, as piores transas que você tem são com as namoradas, sabia disso?

Scully pára. Mira a lanterna na cara de Mulder, fazendo um beiço de indignação. Ele põe o braço na frente dos olhos.

SCULLY: - Está me dizendo que casos são mais interessantes?

MULDER: - De certo modo.

SCULLY: - (FRANZE A TESTA) E eu?

MULDER: - Não misture as coisas, Scully. Estou falando das minhas namoradas.

Mulder continua caminhando. Scully aperta o passo pra caminhar ao lado dele, já o fulminando com os olhos.

SCULLY: - (IRRITADA) Eu sou sua namorada!

MULDER: - Nunca foi.

SCULLY: - (IRRITADA/ INCRÉDULA) Como assim ‘nunca fui’? Acha que sou apenas um caso? É assim que me vê? Como sexo de graça?

MULDER: - Claro que não, Scully. Como vou explicar isso sem te deixar mais irritada?

SCULLY: - (IRRITADA) Tente.

MULDER: - As namoradas que tive só pensavam em sexo. Nunca conversavam. Então eu era usado. Os casos que tive já eram mais sinceros, porque eram sexo mesmo e eu já sabia disso.

SCULLY: - (SOLTANDO O AR COM FORÇA PELO NARIZ) E eu?

MULDER: - Você nunca foi minha namorada. Nem nunca foi um caso. Você sempre foi uma esposa.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Esposa?

MULDER: - Sempre do meu lado. Sempre cuidando de mim. Sempre sincera. Começamos sendo sinceros. Começamos por amor. O sexo veio depois.

SCULLY: - (BEIÇO) ...

MULDER: - Magoei você?

SCULLY: - ...

MULDER: - Scully, estou sendo sincero! Não vejo razão pra ficar furiosa com o que eu disse. Você é mais pra mim, sempre foi mais do que qualquer namorada!

Scully aperta o passo e sai na frente dele, ignorando-o. Mulder suspira.

MULDER: - Ah, deixa assim, Scully. Talvez, eu esteja errado, elas nunca foram namoradas de verdade e você tenha sido a única namorada que conheci... e eu acho melhor calar a minha boca, porque já falei besteira e não sei como sair dessa agora...

SCULLY: - ...

MULDER: - Pronto. O silêncio me diz que ficou magoada.

SCULLY: - ...

MULDER: - É, eu só presto de boca fechada mesmo.

Scully diminui o passo e espera por Mulder. Caminham lado a lado.

SCULLY: - (IRRITADA) E eu? Pensa isso de mim? Aliás, Mulder, o que pensa a meu respeito?

MULDER: - (NA DEFENSIVA) Por que essa pergunta?

SCULLY: - (CORTANTE) Perguntei primeiro.

Scully marca outra seta na parede. Continuam caminhando.

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, lhe fiz uma pergunta.

MULDER: - Não entendi onde quer chegar com isso.

SCULLY: - Quero saber o que pensa de mim! Acha que só presto de boca calada?

MULDER: - (PÂNICO) Quem disse isso?

SCULLY: - ...

MULDER: - Scully, você só consegue me irritar profundamente quando acha que tem a razão enquanto eu sei que estou certo. E isso geralmente só acontece no trabalho, porque na nossa vida íntima, a experiência me diz que não tenho experiência alguma então tenho mais é que aprender com você.

SCULLY: - (FURIOSA) E no trabalho, sou eu que tenho de aprender com você?

MULDER: - (SUSPIRA) Deus! Acho que comecei uma briga.

SCULLY: - (FURIOSA, AUMENTANDO A VOZ) Não estamos brigando!

MULDER: - Então por que de repente você está com um beiço enorme e gritando comigo?

SCULLY: - ...

MULDER: - Não estou dizendo que você tem que aprender comigo! Eu tenho que aprender com você. Você é quem é humana por aqui. Estou tentando aprender a ser normal.

SCULLY: - Desista, Mulder. Você não é normal! E diarreia mental não tem cura!

MULDER: - ... É isso o que pensa de mim?

SCULLY: - Não. Penso que você é um monstro insuportável!

MULDER: - Tem certeza de que isso não é uma briga?

SCULLY: - ...

MULDER: - Tá legal, Scully. Vou ficar quieto.

Os dois caminham em silêncio. Scully entrega o batom pra Mulder.

SCULLY: - (IRRITADA) E marque você essas paredes! Afinal, você é o esperto por aqui, eu sou a burra!

MULDER: - Scully, me desculpa se te ofendi. Eu só falei o que pensava, eu sou assim, gosto de ser sincero...

SCULLY: - Engula sua sinceridade com sua ironia, Mulder. Elas fazem um par perfeito!


2:13 A.M.

Os dois continuam caminhando em silêncio. Scully pára.

SCULLY: - Mulder, tem alguma coisa ali na frente.

Eles miram as lanternas. Close de três corpos no chão. Eles apertam o passo. Scully agacha-se e vira um deles. O rosto está desfigurado. Parte do corpo foi arrancada. Mulder olha com repulsa.

MULDER: - Ah, Deus!

Scully examina os outros corpos.

SCULLY: - Todos iguais, Mulder.

MULDER: - Scully, acho melhor ficarmos atentos. Não sei com o que estamos lidando, mas eu não quero ser um dos pratos principais.

SCULLY: - Mulder, nenhum animal se alimenta desse jeito, comendo compulsivamente.

MULDER: - Talvez esteja há anos sem comer alguma coisa.

SCULLY: - Tem certeza de que não tem uma teoria?

MULDER: - (DEVOLVENDO O TROCO) Não. Mas isso não significa que aceite sua teoria da vaca assassina.

Barulhos.

[Som: Photek – Minotaur]

Mulder puxa a arma. Scully mira a lanterna por todos os lados.

MULDER: - (NERVOSO) Ouvi alguma coisa.

SCULLY: - (NERVOSA) Também ouvi.

MULDER: - Scully, fique bem perto de mim. Precisamos ficar juntos.

Scully procura com a luz da lanterna. Mulder acompanha a luz mirando a arma.

MULDER: - Scully, vamos sair daqui. Não estou com um bom pressentimento... De repente senti um frio na espinha.

SCULLY: - ...

MULDER: - Vá na minha frente.

Scully segue o labirinto. Mulder dá alguns passos, caminhando de costas pra Scully, procurando algo. Vira-se pra Scully e a segue.


2:22 A.M.

Mulder caminha ao lado de Scully. Os dois em silêncio. Mulder nervoso com o desconhecido e mais nervoso com o silêncio. Scully ainda com um beiço.

MULDER: - (TENTANDO PUXAR ASSUNTO) Quer marcar as paredes?

SCULLY: - Não. Dei o batom de presente pra você. Sabe o que fazer com ele.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ai, que violência! Acha que esse batonzinho aqui vai me consolar?

Scully começa a rir. Mulder sorri.

MULDER: - Tá, tá melhorando, já tô ouvindo aquele sorriso inconfundível... Aquele sorriso lindo que só você sabe dar...

SCULLY: - ... (SÉRIA)

MULDER: - (DESESPERADO) Scully, o lugar é lúgubre, frio e sinistro. Pelo amor de Deus, se conversarmos eu acho que essa investigação poderá se tornar mais fácil, não acha?

SCULLY: - ... Tô com frio.

Mulder pára. Scully pára, olha pra Mulder. Ele tira o casaco.

MULDER: - Posso?

Scully vira-se de costas e Mulder a ajuda a vestir o casaco. Seguem caminhando. Mulder olha pro relógio.

MULDER: - Estamos caminhando há mais de duas horas... Scully, acho que estou com medo.

SCULLY: - ...

MULDER: - Preciso falar, Scully! Esse silêncio tá me deixando nervoso.

SCULLY: - ...

MULDER: - ... Conhece a piada do espermatozoide que estava passando por uma crise existencial?

Scully ri. Abaixa a cabeça.

SCULLY: - Mulder, você não tem jeito mesmo!

MULDER: - ...

SCULLY: - Não vai contar a piada? Fiquei curiosa.

MULDER: - ... Tá, o espermatozoide estava passando por uma séria crise existencial. Ele queria saber qual era o objetivo de sua existência. Então foi ao psicólogo, pra resolver de vez essa questão.

SCULLY: - (RINDO)

MULDER: - Chegando lá o psicólogo falou pra ele: Você é um espermatozoide! Não pode ficar assim desse jeito, desorientado. O objetivo de sua existência? Eu vou te falar... Um dia vai soar uma alarme e você tem que correr mais depressa do que os outros. Depois de um tempo, você encontrará o óvulo e precisa ser rápido. Bata na porta e peça correndo para entrar. Você pode gerar uma vida, é por isso que existe.

SCULLY: - ...

MULDER: - Então ele ficou feliz. Um dia soou o alarme.

SCULLY: - (RINDO)

MULDER: - Ele saiu correndo, depressa, passando à frente dos outros, como um desesperado, pra atingir seu objetivo. Quando chegou lá na frente viu aquela esfera. Começou a bater desesperado e gritando: Óvulo, óvulo, me deixa entrar! Ao que ouviu da esfera: Óvulo? Que óvulo? Eu sou um pedaço de catarro!

Scully pára e abaixa a cabeça rindo.

SCULLY: - Mulder, isso foi muito... mas muito cruel!

MULDER: - Piada de psicólogo, Scully.

Mulder segue caminhando. Scully vai atrás dele, rindo.

SCULLY: - Quer ouvir uma piada de médico?

MULDER: - Adoraria.

SCULLY: - ... É suja.

MULDER: - E daí? Adoro ouvir sujeiras da sua boca...


2:49 A.M.

Scully pára. Mulder também.

SCULLY: - Não consigo mais, Mulder. Meus pés estão me matando!

Mulder senta-se no chão. Scully senta-se também, encostada na parede, de frente pra Mulder.

SCULLY: - Ai! O que estamos fazendo aqui? Isso não tem fim! Mais um pouco e estaremos no México!

MULDER: - Comendo guacamole...

SCULLY: - (DEBOCHADA, SEGURANDO O RISO) Não gosto de nada que seja mole, Mulder.

Mulder olha debochado pra Scully.

MULDER: - Scully, como você está atiradinha!

SCULLY: - Estou. Atiradinha no chão. Cansada, exausta, fatigada.

Mulder estende o braço pra cima e faz uma seta na parede com o batom. Encosta-se na parede.

MULDER: - Queria dormir. Daria tudo por uma cama macia e quentinha...

SCULLY: - ... Eu queria isso tudo e mais o seu pé quentinho debaixo do cobertor.

MULDER: - Scully, posso dar meus conhecimentos de psicólogo?

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Acho que você tem sérios distúrbios sexuais.

SCULLY: - Ahn???

MULDER: - Por exemplo, você se excita nos lugares mais estranhos que possam existir. Daqui à pouco, vai querer fazer sexo em cabines de roupas em lojas de shopping center.

Scully levanta-se.

SCULLY: - (ENIGMÁTICA) Não. São muito apertadas.

Scully sai caminhando. Mulder olha pra ela, assustado.

MULDER: - (PÂNICO) Scully, que história é essa?

Scully continua caminhando e rindo. Mulder levanta-se e vai atrás dela. Ela está bem à frente. Ele segue gritando.

MULDER: - (CURIOSO) Scully! Eu quero saber!

SCULLY: - (RINDO)

MULDER: - (IMPLORANDO) Scully, isso não é justo!

2:58 A.M.

Os dois agentes continuam caminhando.

SCULLY: - Sabe o que mais me assusta? É que quando chegarmos no final disso, teremos que voltar!

MULDER: - Se chegarmos ao final disso. Quer marcar as paredes?

SCULLY: - Não. Dei esse batom pra você.

MULDER: - ... (SUSPIRA) Quando tenho que dormir não consigo. Quando preciso ficar acordado, fico com sono.

SCULLY: - Quer cochilar? Faço o primeiro turno.

MULDER: - Tá doida? Eu não vou pregar o olho com essa coisa que nem sei o que é a solta por aí.

Scully mira a lanterna nas paredes. Mulder senta-se no chão.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Tem fogo?

MULDER: - (MALICIOSO) O que está sugerindo, ‘Dana Danadinha’?

SCULLY: - Fósforos, Mulder.

MULDER: - (INDIGNADO) Ah, Scully! Não acredito que vá fumar!

Scully olha pra Mulder, indignada.

SCULLY: - Mulder, acima da sua cabeça.

Mulder olha pra cima. Vê uma tocha.

MULDER: - Não acredito! Estamos usando lanternas e essas drogas estão espalhadas por aí!

SCULLY: - Tem fogo?

MULDER: - Não.

SCULLY: - (SUSPIRA) Esqueça as tochas então.

Scully segue caminhando.

SCULLY: - Vamos, Mulder!

MULDER: - Scully, por favor! Só uns 5 minutos.

Scully sai andando.

[Som: Photek – Minotaur]

A agente não percebe que alguma coisa aproxima-se dela, vinda por outro corredor. Ao fundo, percebe-se Mulder sentado no chão. Scully sente um braço agarrando-a e a mão tapando-lhe os lábios. Ela arregala os olhos. Sente uma respiração ofegante em seu pescoço. Olha pro braço que a segura e percebe um bracelete de ouro, bem grosso. Ela tenta se desvencilhar, mas ao ver a fisionomia do agressor, ela desmaia de susto. O Minotauro a puxa pra dentro de uma passagem secreta e a porta fecha-se.

Corta pra Mulder. O agente suspira. Levanta-se.

MULDER: - Tá bem. Tá bem. Quanto mais rápidos, mais cedo chegaremos.

Silêncio.

MULDER: - Não concorda?

Silêncio.

MULDER: - (ASSUSTADO) Scully?

Mulder aperta o passo. Procura com a lanterna. Não vê a parceira. Mulder fecha os olhos, desesperado.


BLOCO 4:

3:13 A.M.

[Som: Photek – Minotaur]

Scully acorda-se deitada no chão. Levanta-se. Tenta se localizar naquela sala de pedra, cheia de tochas acesas pela parede. Pressente alguma coisa atrás dela. Vira-se.

SCULLY: - Oh, meu Deus!

Scully arregala os olhos, sem acreditar no que vê. O Minotauro olha pra ela, estudando-a. Scully olha pra ele, estudando-o também.

SCULLY: - Isso é... Impossível!

O Minotauro aproxima-se. Scully grita. Ele pára. Aproxima-se bem devagar. Scully recua contra a parede. Ele passa a mão no rosto dela. Inclina a cabeça de um lado para outro, olhando pra agente. Scully está tensa. A criatura pega seus cabelos, admirando-os. Começa a cheirá-la. Scully fecha os olhos. Desliza sua mão pela cintura, procurando a arma. Mas não a encontra.

O Minotauro cheira o casaco que ela veste. A puxa violentamente. Scully está prestes a desmaiar. Ele tira o casaco que ela veste com força. Ergue a cabeça pra cima e solta um urro.

Corta pra Mulder que pára ao ouvir o urro. Mulder procura com a lanterna e não vê nada.

MULDER: - (GRITA) Scully!!!

Mulder marca a parede com o batom. Continua caminhando. A pilha da lanterna está enfraquecendo. Termina. Mulder fica no escuro.

MULDER: - Ótimo! Isso é ótimo!

Mulder tateia pelas paredes. Tropeça em alguma coisa. Fica em pânico.

MULDER: - Isso não está acontecendo...

Mulder agacha-se e toca num corpo. Passa as mãos, procurando os cabelos.

MULDER: - (SUSPIRA ALIVIADO) Não é a Scully.

Mulder pula por cima e continua caminhando. As tochas acendem-se nas paredes. Mulder arregala os olhos. Há mais cinco corpos e várias ossadas espalhadas pelo lugar. Mulder vê o vulto do Minotauro conta a parede, aproximando-se dele por trás. Olha incrédulo. Puxa a arma, vira-se e atira. O Minotauro afasta-se, entrando por uma passagem secreta. Mulder fica parado, catatônico.

MULDER: - Acho que... encontrei sua vaca, Scully...

Mulder aproxima-se da parede. Começa a empurrar. Tenta encontrar a passagem secreta. Acha-a. Mulder entra. É uma sala.

MULDER: - (GRITA) Scully!!!

Mulder grita por ela várias vezes. Olha pro chão e vê seu casaco. Mulder pega o casaco e veste-o. Começa a empurrar as pedras da parede. Acha outra porta secreta. Mulder sai num corredor.

MULDER: - E essa agora?

Mulder olha pelas paredes, procurando por alguma seta desenhada. Não encontra. Mulder marca uma seta na parede.

MULDER: - ‘Ariadne Scully’, se isto é o que estou pensando, caminhamos tanto que chegamos na Grécia antiga. Ainda bem que me deu um batom e não um novelo de lã. Acho que ele não cai mais nessa.


3: 44 A.M.

Mulder, caminha, já se arrastando. Olha pro batom, que já está se acabando. Olha pra parede. Vê duas setas marcadas.

MULDER: - Ai, não!!! Já passei por aqui! Estou andando em círculos!

Um vento forte passa por ele. As tochas se apagam. Mulder fica paralisado.

MULDER: - Ai, ai, ai, ai, ai...

Mulder começa a caminhar na direção do vento. Entra em outro corredor. Vai guiando-se pelas paredes.

MULDER: - ... Não... Acho que tropecei em alguma coisa... Não acredito!

Luz.

Vemos Mulder segurar uma lanterna nas mãos.

MULDER: - Bem, Scully achei sua lanterna, mas onde está você?

Mulder segue pelo corredor.

MULDER: - Bem, se tem vento, é porque estou próximo de alguma saída...

Mulder sente o tapa em sua mão. A lanterna cai no chão. Percebe-se pela sombra na parede que Mulder luta contra o Minotauro, que tenta desesperadamente matá-lo e é muito mais forte. Mulder leva uma pancada na cabeça e cai no chão.

Close dos pés da criatura que usam sandálias. O Minotauro arrasta Mulder pelas pernas. Mulder está inconsciente.


4:17 A.M.

Mulder acorda-se, colocando a mão sobre a cabeça. Senta-se no chão, olha pra sua mão. Está com sangue. Passa as mãos nos cabelos e percebe que está sangrando. Mulder levanta-se, meio tonto. Recebe outra pancada de surpresa e cai no chão.

Corta para Scully, que está do outro lado da sala, deitada e inconsciente.

O Minotauro ajoelha-se ao lado de Mulder, revelando que usa uma roupa grega, antiga. Inclina sua cabeça por sobre Mulder. Cheira-o. Ergue a cabeça e urra. Levanta as mãos sobre o corpo de Mulder. Junta suas mãos e mira sobre o peito dele. Scully acorda-se.

SCULLY: - (GRITA) Não!!!

O Minotauro vacila. Scully encosta-se contra a parede, chorando. O Minotauro olha pra Mulder. Levanta-se. Scully está assustada, ainda não acreditando que aquilo esteja acontecendo. O Minotauro pára na sua frente. Olha pra Scully.

SCULLY: - Sei que pode me entender... Nos deixe sair daqui, por favor, não vamos machucá-lo!

O Minotauro inclina a cabeça como se a escutasse e tentasse entender o que diz.

SCULLY: - Por favor!

O Minotauro olha pra Mulder. Aproxima-se dele. Ergue-o nos braços. Scully levanta-se e avança nele. A criatura consegue se desvencilhar dela, fazendo-a bater contra a parede. Scully desmaia. O Minotauro atravessa a passagem secreta carregando Mulder nos ombros.


6:57 A.M.

Mulder acorda-se sentindo a mão fria em sua testa. Dá um pulo. Silva olha pra ele.

SILVA: - Agente Mulder?

Mulder olha pros lados. Percebe que está no canteiro de obras. Levanta-se.

MULDER: - (INCRÉDULO) Como? Mas como?

SILVA: - Acho melhor ir ao médico. Bateu com a cabeça... Sabe há quanto tempo está aí?

MULDER: - Onde está minha parceira? Você a viu?

SILVA: - Não.

Mulder olha pra vala.

MULDER: - Preciso de uma lanterna!

Silva fica olhando pra ele, sem entender.

MULDER: - (GRITA) Uma lanterna! E pilhas!

Silva sai correndo. Mulder põe a mão na cabeça. Geme.

Silva volta com a lanterna. Mulder caminha, meio tonto até a vala.

SILVA: - Agente Mulder, o que houve?

MULDER: - Peça reforços ao xerife! Tem uma coisa lá dentro e está com a minha parceira!

SILVA: - Coisa?

MULDER: - Não tenho tempo! Chame o xerife!

Silva sai correndo. Mulder pula pra dentro da galeria. Puxa a arma.

MULDER: - Ok, sua vaca cretina... Vou fazer hambúrguer de você pra aprender a não se meter com a mulher dos outros.

Mulder entra no corredor onde começa o labirinto. Vai seguindo a direção das setas.

MULDER: - (GRITA) Scully!!! Se puder me ouvir, responda!


9:12 A.M.

Mulder, visivelmente cansado, continua perdido dentro do labirinto. Agora, nem setas há nas paredes. Mulder senta-se no chão, nervoso, aflito.

MULDER: - Estou perdido! Completamente perdido nessa droga de lugar!

Mulder levanta-se. Respira fundo, tomando coragem.

MULDER: - Se Mulder não consegue ir até o Minotauro, o Minotauro vai até Mulder...

Mulder começa a fazer barulho. A gritar.

MULDER: - Vem seu desgraçado, eu estou aqui!

Silêncio.

MULDER: - Sei que pode me ouvir, seu chifrudo de saias!

Silêncio.

Mulder segue caminhando, gritando, fazendo estardalhaço pra chamar a atenção.

MULDER: - Scully!!! Está me ouvindo?

Silêncio.

MULDER: - ... Daedalus, era um esperto artesão. Ele foi o primeiro escultor a fazer estátuas com olhos abertos e braços afastados do corpo... Quando Daedalus fugiu pra Creta, durante o governo do rei Minos, o rei solicitou à ele que construísse um labirinto para enclausurar o Minotauro...

Silêncio.

MULDER: - Daedalus mais tarde ofendeu o rei Minos e foi aprisionado no labirinto, juntamente com seu filho Ícaro. Ele ajudou Ícaro a construir asas coladas com cera para escapar daquele lugar.

Silêncio.

MULDER: - Sabe o que aconteceu com Ícaro, não é? Ele chegou tão perto do sol que derreteu a cera das asas...

Silêncio.

MULDER: - O rei Minos era filho de Zeus e Europa, e era pai de Ariadne. Ela se apaixonou por um jovem recém chegado em Atenas.

Silêncio.

MULDER: - Theseus era filho de Aegeus, o rei de Atenas. Ele se criou numa ilha distante. Seu pai colocou uma espada e um par de sandálias debaixo de uma pedra, para quando seu filho estivesse apto, pudesse erguer essa pedra. Depois de muitas aventuras, Theseus voltou para Atenas, que estava dominada por Minos. Anualmente ele sacrificava sete virgens e sete jovens para serem devorados pelo Minotauro....

Silêncio.

MULDER: - Theseus ofereceu-se em sacrifício, porque achava estar apto a matar o monstro. Ariadne caiu de amor por ele. Ela lhe entregou a espada e um novelo de lã para que matasse o Minotauro e encontrasse a saída do labirinto...

Silêncio.

MULDER: - E ele venceu, tá me escutando? Ele venceu!

[Som: Photek – Minotaur]

Mulder sente a pancada em suas costas. Cai pra frente. O Minotauro avança sobre ele. Mulder sai se arrastando de costas no chão, puxando a arma da cintura. Dispara um cartucho inteiro contra a criatura. O Minotauro urra, caindo no chão. Mulder deita a cabeça no chão. Respira tenso.

MULDER: - (OFEGANTE/ CANSADO) Mas eu não tenho espada... Nem novelo de lã. Tudo o que tenho é aquela ruivinha... E não vou admitir que ninguém a tire de mim.

Mulder escuta barulhos. Ergue a cabeça. O Minotauro está ajoelhado ao lado dele, encarando-o. Está sangrando muito. Ele bufa e baba como um touro. Mulder fica em pânico. O Minotauro abre a boca e crava as unhas na barriga de Mulder, pronto para estilhaçá-lo e devorá-lo. Mulder grita.

Tiros. O Minotauro cai sobre Mulder. Mulder afasta-o de cima de seu corpo, com dificuldades. Consegue ver Scully, em pé, segurando a arma com as duas mãos. Ela está desatinada, incrédula.

SCULLY: - Mulder, sei por onde Ícaro fugiu. Mas não temos asas.


11:27 A.M.

Barulhos de sirenes da polícia. Viaturas chegando, carros de resgate. Um bombeiro ajuda Mulder e Scully a sair de um buraco, perto de uma rodovia.


FBI – Gabinete do diretor assistente McKenna – 4:38 P.M.

McKenna lê o relatório. Está sério e sisudo, compenetrado. Mulder e Scully ficam se olhando, apreensivos. McKenna, enquanto lê, abre a gaveta e joga spray pela sala. Larga o spray na gaveta sem desgrudar os olhos do papel. Desce os óculos por cima do nariz e olha pra eles por sobre as lentes.

McKENNA: - (SÉRIO) É isso?

SCULLY: - (BEIÇO) Senhor, sei que parece incrível, mas...

McKENNA: - Incrível? Vocês dois têm um talento natural pra escrever contos sobre o fantástico! Acho até que vou dar uma cópia disso por meu neto de 12 anos. Ele vai querer um autógrafo!

Scully segura o riso. Mulder fica sério.

MULDER: - Parece loucura a história de um Minotauro num labirinto subterrâneo em Chicago?

McKENNA: - (SÉRIO) Está prestando atenção no que está falando, agente Mulder?

Scully olha séria pra McKenna.

SCULLY: - Senhor, como cientista, não posso explicar. Não tenho conhecimentos sobre a natureza de um fenômeno como esse. A ciência nunca acreditou em mutações tão bizarras e se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, também não acreditaria. Um homem com cabeça de animal. Uma pena que não conseguimos realizar estudos sobre a criatura.

McKENNA: - ... (SUSPIRA) Bem que me avisaram pra não aceitar os Arquivos X... Estou me aposentando, não precisava ter isso no meu currículo profissional...

Mulder levanta-se.

MULDER: - Se não tem mais nada a dizer, gostaria de sair daqui.

McKENNA: - Só quero saber o que aconteceu com o tal Minotauro.

SCULLY: - A polícia mandou um grupo de resgate e não acharam o corpo da criatura. O labirinto é muito extenso, senhor. Por medida de precaução, lacraram as duas entradas com cimento. Nada mais escapará de lá.

McKENNA: - ... Saiam daqui. Vocês são loucos!

McKenna pega o spray novamente.

McKENNA: - E estão cheirando a estábulo!

Scully levanta-se. Os dois agentes saem da sala.

A secretária pisca pra Mulder. Mulder pisca pra ela. Scully pára. Encara a secretária. A secretária olha pra ela. Mulder puxa Scully pra fora da sala. Os dois saem caminhando pelo corredor.

MULDER: - (DEBOCHADO) Você parecia uma vaca bufando pra ela daquele jeito.

SCULLY: - (CIUMENTA) Mulder, você não me viu bufar ainda!

MULDER: - Scully, tem certeza de que vimos o que achamos que vimos?

SCULLY: - ...

MULDER: - O que um Minotauro, que se pensava ser personagem da mitologia grega, fazia num labirinto subterrâneo em Chicago?

SCULLY: - Mulder, se tivéssemos explicações pra tudo, não existiria Arquivos X.

MULDER: - Tá, mas... Alguma teoria?

SCULLY: - ...

MULDER: - Por mais maluca que seja?

[Som: Mikis Theodorakis – Ena to Helidoni]

Os dois ficam de frente um pro outro, parados no corredor. Mulder tira sementes de girassol do bolso e começa a comer, olhando pra Scully, com o olhar curioso de quem espera por uma resposta.

MULDER: - E então?

SCULLY: - Sinceramente, Mulder... Talvez nunca tenho sido uma lenda. Talvez os ingleses e espanhóis não foram o primeiros a chegarem aqui. Os Gregos tinham tecnologia pra isso. Talvez o rei Minos, tenha existido. E talvez Ícaro, tenha voado até o sol.

MULDER: - (RINDO) Besteira!

SCULLY: - Você me perguntou.

Os dois caminham até o elevador.

MULDER: - (CURIOSO) Scully, poderia me contar sobre aquela história da cabine de roupas?

Scully disfarça, fazendo um beiço e olhando pro painel do elevador, numa fisionomia séria.

MULDER: - (INSISTINDO) Poderia?

O elevador chega. Scully entra, séria. Mulder a segue.

MULDER: - Scully... Por favor. Eu sou curioso!

Scully começa a assoviar. O elevador fecha-se.


Canteiro de obras da nova Rodovia 57 – Chicago – 6:17 P.M.

[Som: The Housemartins - Build]

Os homens vão embora, carregando seus capacetes e marmitas. Silva caminha ao lado de Pingo.

PINGO: - Vamos tomar uma cerveja?

SILVA: - Acho que hoje não. Estou cansado.

PINGO: - Nos vemos amanhã.

Silva vai embora. Pingo fica parado ali. Vê um bombeiro se aproximando, segurando uma espécie de par de asas nas mãos.

PINGO: - (CURIOSO) Ei, cara, o que é isso?

BOMBEIRO: - Sei lá. Achamos lá embaixo, antes de lacrarmos o labirinto.

PINGO: - Parece um par de asas não terminado.

BOMBEIRO: - Estranho... Muito estranho.

Fade out.

X


06/05/2000

18 de Junho de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X.

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