S02#21 - BOTHROPS SOGRUM Seguir história

lara-one Lara One

Sem comentários. Só lendo pra crer... Uma ficção estilo Fellini. Você gosta da sua sogra? Você gosta de reunião de família? Você acha que sua família é complicada, que só a sua família é louca? Tem certeza?


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S02#21 - BOTHROPS SOGRUM

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Estrada 21 – Oeste de Greeley – Colorado – 11:09 P.M.

Estrada deserta. Muito escura e sem sinalização. Apenas campos nas margens. A câmera focaliza de frente, dois faróis se aproximando.

Foco no carro de Mulder que passa na estrada em frente à câmera.

Mulder dirige o carro, com a cabeça quase pendendo pra frente, de tanto sono. Scully dorme no banco ao lado. Mulder cochila, mas acorda-se. Tenta prestar atenção na estrada, mas mal consegue manter os olhos abertos. Vê luzes de uma casa, na beira da estrada. Mulder continua sonolento.

Uma senhora de idade avançada, sai correndo para o meio da estrada e sinaliza pra Mulder parar. Mulder, fecha os olhos. Mas abre-os, freando num susto tremendo. Quase atropela a velha. Scully acorda-se assustada.

SCULLY: - Mulder, o quê...

A velha aproxima-se do carro.

HELGA: - Precisam me ajudar! Ele vai matá-la! Precisam me ajudar!

Mulder e Scully descem do carro. Mulder puxa a arma. Scully tenta acalmar a velha.

SCULLY: - Calma, senhora, que vai matar quem?

HELGA: - Meu genro! Ele vai matar minha filha! Está dentro de casa!

Mulder corre até a casa. Scully puxa a arma e corre atrás dele.

[Som: Ernie K Doe – Mother-in-law ]

Corta para o interior da casa. Mulder abre a porta com um chute. Segura a arma com as duas mãos e aponta. Scully aponta a arma também.

Corta para o pobre do genro, que segura uma faca nas mãos, enquanto olha pra esposa.

MULDER: - FBI! Solte essa faca ou atiro em você!

O genro vira-se, soltando a faca assustado. A esposa olha assustada pra eles.

PETE: - O que está acontecendo?

Scully pega a faca. Mulder algema Pete.

PETE: - Eu não fiz nada! Me solte!

Scully aproxima-se da mulher, que está assustada.

SCULLY: - Ele a machucou?

SANDRA: - ... ???

SCULLY: - Senhora, ele a machucou?

SANDRA: - Do que está falando?

Mulder vira-se pro balcão. Há várias laranjas partidas. Scully percebe gomos de laranja na faca. Mulder e Scully se entreolham.

SANDRA: - (INDIGNADA) Desde quando se pode prender alguém por fazer suco?

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA PORQUE SUA SOGRA NÃO A DEIXA ENTRAR...


BLOCO 1:

Residência dos Berger – 11:29 P.M.

Scully, encostada na parede da sala, de braços cruzados, com aquela cara de constrangimento, observa Mulder, que está sentado no sofá.

MULDER: - Deixa ver se entendi. Vocês dois estavam preparando suco?

PETE: - Tem alguma lei contra isso?

MULDER: - Senhor Berger, sua sogra nos parou na estrada para pedir ajuda. Disse que você estava tentando matar sua esposa.

Sandra abaixa a cabeça. Suspira. Pete olha pra ela.

PETE: - Tá vendo? Depois eu não tenho um pingo de razão!

Mulder observa o casal discutir, sem entender nada.

PETE: - Agente Mulder, estou casado com essa mulher maravilhosa há dois anos. Desde então, minha sogra acha que eu não sou o genro dos seus sonhos e faz de tudo pra atrapalhar meu casamento. Veio com uma mala há duas semanas pra ‘passar uns dias’ e agora está aí, se alojou no quarto de hóspedes e não vai mais embora!

Scully fica olhando pra Mulder. Mulder com ar de deboche.

MULDER: - Tá, então sua sogra tentou armar uma pra você?

PETE: - Ela faria qualquer coisa pra me ver preso. Semana passada chegou a colocar uma arma dentro da minha pasta. Eu trabalho numa fábrica de componentes eletrônicos, há alarmes até no teto! Não preciso dizer que foi constrangedor ser levado pelos seguranças!

Mulder levanta-se.

MULDER: - Vamos, Scully. Alarme falso.

Pete levanta-se.

PETE: - (IMPLORANDO COM AS MÃOS EM PRECE) Agente Mulder, prenda a minha sogra, por favor!

MULDER: - Eu não posso fazer isso!

SANDRA: - Pete! Sei que mamãe é terrível, mas você não tem o direito de expurgá-la da nossa casa!

Sandra sai da sala e vai para o quarto. Bate a porta. Scully ergue as sobrancelhas, olhando pra Mulder.

PETE: - Por favor, agente Mulder. Não pode alegar ‘perturbação da paz’?

MULDER: - Sinto, amigo. Sinceramente sinto. Mas não posso fazer nada.

PETE: - Vou perder minha esposa desse jeito! Essa velha só quer me destruir pra ficar com minha pensão!

Pete senta-se no sofá. Põe as mãos no rosto.

PETE: - Estou acabado! Não dá pra viver assim... Vou enlouquecer.

Scully olha pra porta. Helga vem chegando. Scully vira-se pra ela.

SCULLY: - Senhora, por que nos mentiu?

HELGA: - Eu não menti. Achei que ele fosse atacá-la, esse vagabundo imprestável!

Mulder olha pra Pete com piedade.

SCULLY: - Vamos, Mulder. Vamos embora.

Mulder caminha até a porta.

PETE: - Agente Mulder, pelo menos poderia me indicar um bom psicólogo? Estou precisando.

MULDER: - Posso te dar uma sugestão.

Mulder aproxima-se dele. Pete levanta-se. Mulder cochicha.

MULDER: - Se ela morrer, enterre com o corpo virado pra baixo.

PETE: - Por quê?

MULDER: - Porque se por algum milagre divino, ela não estiver morta, vai cavar cada vez mais fundo.

PETE: - Ah!

MULDER: - Outra coisa.

Mulder faz um ar de especialista no assunto. Pete olha pra ele, prestando atenção, como um aprendiz. Scully, curiosa, inclina a cabeça pra ouvir. Mulder afasta-se mais um pouco, puxando Pete pelo braço. Olha pra Scully. Vira o rosto e olha pra Pete.

MULDER: - Invente uma reforma no telhado da casa, começando pelo quarto de hóspedes. Finja que caiu, que levou uma torção e vá pra cama. Mas tem de ser rápido, antes que ela faça ninho na sua cama ao lado da sua mulher. Não tendo onde ‘acampar’, ela dá o fora.

PETE: - E se ela dormir no sofá?

MULDER: - Compre um cachorro. Bem grande e pulguento. Mulheres não resistem a cães. Sua esposa vai ficar com pena de deixar o bichinho na rua. E cães e sogras não combinam. Principalmente se tem de dividir o sofá.

PETE: - E se não funcionar?

MULDER: - No seu aniversário, apague a ‘velhinha’.

Mulder pega Scully pelo braço e saem.

[Corte]

[Som: Ernie K Doe – Mother-in-law ]

Mulder e Scully vão caminhando lentamente até o carro. Mulder tira sementes de girassol do bolso. Come calmamente.

SCULLY: - (CURIOSA) O que estava falando com ele? Conselhos?

MULDER: - Quem sou eu pra dar conselhos, Scully. Só pedi pra entender a pobre da Helga... Será que essa Helga é a esposa do Hagar, o Horrível?

Scully faz uma fisionomia de quem não está acreditando.

MULDER: - (DEBOCHADO) O que achou, Scully?

SCULLY: - Do quê?

MULDER: - Do bicho?

SCULLY: - (CURIOSA) Bicho? Mulder, que bicho?

MULDER: - Um legítimo exemplar da espécie “bothrops sogrum”. Réptil ofídio da família dos “escrotalídeos”, peçonhento, que vê novela e faz tricô, vulgarmente conhecido como ‘sogra venenosa’.

Scully pára. Olha séria pra Mulder.

SCULLY: - Mulder, o que está dizendo?

MULDER: - Essa aí é a legítima casa da sogra. E ao contrário do que se pensa, Scully, a casa da sogra não é um lugar onde você faz tudo o que quer. Isso é a maior das mentiras!

Scully põe as mãos na cintura, olhando atenta pra Mulder, com um deboche nos lábios.

SCULLY: - Continue. Quero ouvir essa teoria.

MULDER: - A casa da sogra é um lugar lúgubre com cadeado na geladeira e paninhos sobre os móveis. As sogras dividem-se em venenosas, como a sogra-coral e não venenosas, como a sogra d’água. Tem as que matam por sufocamento, como as sogras sucuri.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Ah... E o que mais sabe sobre sogras, Mulder?

MULDER: - Em geral elas vivem nos banhados, pois são animais de sangue frio e não tem muito o que fazer, já que vivem de pensão. Quando não estão nos banhados você pode encontrá-las em casa, na reunião da igreja, chás de caridade, biribas e outros ninhos de sogras.

SCULLY: - (DEBOCHADA) E como sei se uma sogra é ou não venenosa?

MULDER: - Os livros de biologia dizem que as sogras venenosas têm cabeça chata. Não acredite. Toda a sogra é chata, mesmo não sendo venenosa.

SCULLY: - ... (SEGURANDO O RISO)

MULDER: - Sério. Uma sogra venenosa tem verruga peluda e cabelo nas ventas. A sogra em geral bufa, funga e fala muito.

Scully solta uma gargalhada de Gillian. Mulder olha sério pra ela.

MULDER: - (SEGURANDO O RISO) Scully, não ria. Isso é sério! Como cientista deveria saber. Quando domesticada, a sogra pode ser útil, tomando conta das crianças, fazendo faxina, indo na feira... Mas não é fácil domesticar a bichinha não. Tricô e crochê funcionam. Uma sogra bem cuidada pode durar anos, tal como uma tartaruga. Você morre e a sogra continua lá, firme, com a diferença que agora tem mais uma pensão pra gastar.

SCULLY: - (COM A MÃO SOBRE OS LÁBIOS, SEGURANDO O RISO)

MULDER: - Sabe o que elas comem? Tudo. Principalmente o que você esconde no fundo da geladeira. Aquela cerveja pra depois do jogo, o resto do mousse de maracujá... Aquele bombom que você estava guardando pro intervalo do jogo...

Mulder abre a porta do carro pra Scully.

MULDER: - Vamos, Scully. Vamos dar o fora daqui antes que sejamos picados por uma sogra.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Sua mãe era uma sogra-venenosa. Na primeira conversa que tivemos, ela destilou veneno pelo canto da boca.

Scully entra no carro, com um sorriso debochado. Mulder fica sério. Fecha a porta.


Motel Denver – 1:34 A.M.

Mulder e Scully sentados sobre a cama, um apoiando as costas no outro. Ela de robe, ele ainda vestido de terno. Os dois pensativos.

MULDER: - No que está pensando, Scully?

SCULLY: - No por quê, de repente, você resolveu sair daquela cabana no Maine.

MULDER: - Já estava enjoado da natureza.

SCULLY: - E também estou pensando que faltam seis dias pra voltar ao trabalho. (SUSPIRA)

MULDER: - Não tá com saudades?

SCULLY: - Hum... Tô. Mas tá tão bom ficar assim sem ter o que fazer... Com você...

MULDER: - Como se nunca ficássemos juntos.

SCULLY: - Mas é diferente. Podemos ficar juntos, sair juntos, como duas pessoas, não como dois agentes do FBI.

MULDER: - ... (SUSPIRA) Vou tentar me consolar pensando que temos as noites e os finais de semana pra fazer isso.

Scully levanta-se. Mulder cai deitado de costas na cama. Scully vai pro banheiro. Mulder levanta-se e vai atrás dela. Scully está escovando os dentes. Mulder escora-se na parede e a observa.

MULDER: - Melhor filme?

SCULLY: - ... Hum... Algum gênero em especial?

MULDER: - Seu gênero preferido?

SCULLY: - (ESCOVANDO OS DENTES) Romance. (SORRI)

MULDER: - Tá, qual o melhor romance que você já assistiu?

SCULLY: - Dr. Jivago. E o seu melhor romance?

MULDER: - ...

Scully pára de escovar os dentes. Olha pra Mulder pelo espelho.

SCULLY: - Que pergunta cretina a minha! Você só conhece filmes de ficção científica!

Scully começa a escovar os dentes novamente.

MULDER: - ... Ghost. Ghost é legal.

Scully o encara pelo espelho.

SCULLY: - Sempre dá um jeito de encaixar a paranormalidade nas coisas, não é Mulder?

MULDER: - Melhor filme de ficção científica então.

SCULLY: - 2.001 – Uma Odisseia no Espaço. E o seu?

MULDER: - Star Trek 1.

SCULLY: - E Star Wars? Todo maluco por ficção científica é tarado por Star Wars.

MULDER: - Prefiro Jornada nas Estrelas. É mais ‘cabeça’. E a ideia de ouvir o Darth Cancer me dizendo: “I’m your father”, me fez odiar o filme.

Scully continua escovando os dentes. Mulder a admira.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Nada.

Scully escora-se na pia com a mão, olhando Mulder pelo espelho. Aponta a escova pra Mulder.

SCULLY: - Mulder, sabia que é muita indelicadeza ficar olhando as pessoas escovarem os dentes?

MULDER: - Sabia que você fica linda fazendo isso?

SCULLY: - Hum... Vou tentar acreditar nisso.

Mulder retira sementes de girassol do bolso e começa a comer. Scully tira a escova da boca.

SCULLY: - Onde conseguiu comprar isso? Não havia em lugar algum!

MULDER: - Achei na sua bolsa.

Scully ergue as sobrancelhas, inconsolada.

SCULLY: - Mulder, você está comendo as nossas alianças!

MULDER: - (PÂNICO)... Bem que achei estranho você carregar sementes de girassol...

SCULLY: - E quem te deu ordem de mexer na minha bolsa?

Scully pega as sementes da mão dele. Vai pro quarto, volta com a bolsa e coloca as sementes ali dentro. Olha enfurecida pra Mulder. Mulder dá um sorriso, meio encabulado.

SCULLY: - Não respondeu minha pergunta!

MULDER: - (CÍNICO) Que pergunta?

SCULLY: - O que fazia com a minha bolsa, Mulder!

MULDER: - Nada.

SCULLY: - Sua mãe nunca te ensinou que não se deve mexer em bolsas femininas? Você pode encontrar cada objeto estranho...

MULDER: - ... Não encontrou algum?

Scully olha desconfiada. Larga a escova de dentes e pega a bolsa. Revira-a. Olha surpresa. Dá um sorriso. Tira uma abelhinha de pelúcia.

SCULLY: - (SORRINDO) O que é isso, Mulder?

MULDER: - Pra lembrar de como essa coisa toda começou...

SCULLY: - Hum... Ou pra lembrar que gosto de iogurte com pólen?

MULDER: - Scully, eu detesto qualquer coisa relacionada a abelhas... Mas... Essa daí me parece bem inofensiva pra ficar perto de você... Não é uma piada de humor negro não.

SCULLY: - Gosto dela, Mulder. É bonitinha...

Scully dá um beijo carinhoso no rosto de Mulder. Põe a abelha sobre a pia. Pega um creme e começa a passar no rosto.

MULDER: - Acho que foi má ideia, Scully... Uma abelha causou tanta desgraça na sua vida. Quase que te perdi...

SCULLY: - Comprou ela pensando nisso?

MULDER: - Não. Comprei pensando no beijo que eu ia te dar, daqueles avassaladores, mas que a abelha interrompeu...

SCULLY: - Então não é piada de humor negro.

Mulder aproxima-se de Scully e a segura pela cintura. Beija-lhe o ombro.

MULDER: - Desculpe pela sogra.

SCULLY: - Não, tudo bem. Vou contar o que pensa sobre sogras pra Meg. Ela vai correr você com vassouradas.

MULDER: - (DEBOCHADO) A Meg não parece ser uma sogra venenosa...

Scully pega a escova de dentes e bate em Mulder.

SCULLY: - Monstro!

MULDER: - (DENGOSO) Ai! Me machucou.

SCULLY: - Com uma escova de dentes? Como você tá sensível, Fox Mulder...

MULDER: - Scully, precisa ver minha teoria sobre cunhados...

SCULLY: - Mulder... Saia já daqui ou vou atirar creme dental em você!

MULDER: - (DEBOCHADO) Credo! Pra quê tanta violência!

Mulder vai pro quarto. Liga a TV. Atira-se na cama.

SCULLY: - (GRITA) Mulder tire a roupa! E os sapatos!

Mulder, contrariado, tira os sapatos, afrouxa a gravata, mas continua vestido. Assiste um jogo de basquete. Scully ainda no banheiro.

SCULLY: - (CURIOSA) Mulder, o que sabe sobre cunhados?

MULDER: - Cunhados são animais da espécie “cunhalídeos suinus”. Mas ao contrário das sogras, os cunhados preferem o seu sofá. Tem hábitos semelhantes, mas a alimentação consiste da sua cerveja e dos salgadinhos que você escondeu no fundo do armário.

SCULLY: - ...

MULDER: - Os cunhados podem ser nossos amiguinhos. Mas cuidado: são bichos traiçoeiros. Geralmente os cunhados são domesticáveis, mas devido ao seu temperamento, podem atacar você até durante a noite. São vulgarmente conhecidos como porcos.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Porcos, Mulder?

MULDER: - É, Scully. Porcos. Por exemplo, o porco do seu irmão tem o hábito de assistir golfe na TV enquanto fica fuden... Fuçando com a paciência dos outros.

Scully escora-se na porta do banheiro e olha pra Mulder, com deboche.

MULDER: - Cunhados fazem o ninho no seu sofá. Depois que se alojaram no lugar, você não consegue espantá-los mais. Chafurdam sua geladeira, seus discos e ficam de cuecas pela casa, assistindo jogos, esturrados no sofá, emitindo sons estranhos pela região inferior do corpo... E pela boca.

Scully segura o riso.

MULDER: - Os cunhados se acasalam com suas fêmeas, as cunhadas. Geralmente as fêmeas da espécie são mais dóceis e costumam oferecer bolo e chá. Algumas vezes os cunhados desenvolvem doenças, conhecidas como “peste suína cunhadílea”. Isso é quando mais de um cunhado faz ninho no seu sofá. Os cunhados geralmente são rançosos e fingidos. Abandonam as crias em sua casa.

SCULLY: - Mulder, estou sentindo um fundo de crítica nisso?

MULDER: - (CÍNICO) Não, Scully. Absolutamente.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Posso te falar sobre uma espécie em extinção?

MULDER: - (SUSPIRA) ... Shiii... Aí vem bomba!

SCULLY: - Conhecida como “Maridus Otarius”, vulgarmente chamado de o ‘cachorro do meu marido’.

MULDER: - Ah! ... Tá bom, eu pedi, agora vou levar.

SCULLY: - Essa espécie tem hábitos estranhos e complexos. São mais próximos da família dos jumentos, deixam sua carteira por aí, não dão falta do dinheiro, fazem sujeira na sala, só pensam em sexo, mas nunca o fazem, e se vendem por um miserável mousse de maracujá. Sua alimentação é: Não come nem sai de cima, igualzinho a mosca. Algumas vezes, sementes de girassol. As fêmeas da espécie geralmente são mais inteligentes. A única diferença entre eles é que as fêmeas não possuem chifres.

MULDER: - (PÂNICO)

SCULLY: - O acasalamento do “Maridus Otarius” é realmente muito estranho. As fêmeas é que os cortejam, porque senão, não sai nada. São bichos ariscos, que olham pro céu, não prestam nem pra cortar a grama, muito menos pra consertar um vazamento no cano da pia. Eles tem medo de gente.

MULDER: - ...

SCULLY: - São animais inúteis, mas são domesticáveis e mansinhos. Bem ‘mansinhos’. O ninho deles geralmente é no seu colchão, assistindo TV, usando a roupa do trabalho. São muito, mas muito nojentos. Pegajosos. Costumam apertar o tubo de creme dental de qualquer jeito e deixam o assento do vaso levantado. E não lavam a louça.

MULDER: - ...

SCULLY: - O habitat do “Maridus Otarius” só permanece limpo porque a fêmea é organizada. Na real, essa espécie é boa pra fazer companhia pras crianças. Você pode ficar até tarde na rua sem se preocupar, gastando o dinheiro dele, porque o cachorro do seu marido está em casa, lhe esperando, abanando o rabo.

MULDER: - Scully, eu não estou gostando dessa sua aula de biologia.

SCULLY: - Ora, Mulder, o “Maridus Otarius” está em extinção. Temos de proteger a existência do bichinho. Ele baba, late, rola e deita, é só você mandar. E é tão bonitinho quando fica com carinha de cachorrinho pidão... Além do mais, ele é inofensivo.

MULDER: - Confia nisso...

SCULLY: - Por quê? Está dizendo que eu, uma cientista, não conheço os animais?

MULDER: - Não se engane, Scully. “Maridus Otarius” são criaturas lendárias.

SCULLY: - Não são não. Vai, deita, rola e te dou um osso.

MULDER: - ...

SCULLY: - (SEXY) Ah, finge de morto pra mamãe, vai!

MULDER: - Scully, eu tô ficando bem vivo...

SCULLY: - Vai, Mulder... Aposto com você que “Maridus Otarius” ainda existem. Quer ver?

Scully fica de costas pra Mulder. Abre o robe. Deixa-o cair até a cintura. Mulder olha pras costas dela.

MULDER: - (EMPOLGADO) Vem cá, vem.

SCULLY: - (DENGOSA) Não. Só se você buscar um sorvete pra mim.

MULDER: - (INCRÉDULO) Sorvete? Agora?

SCULLY: - (DENGOSA) ... Hum, tô com vontade de comer sorvetinho. Não seja malvadinho comiguinho... Se buscar meu sorvetinho, te dou uma coisinha que você adora...

Mulder levanta-se da cama. Calça os sapatos. Caminha até a porta. Scully arruma o robe.

MULDER: - Sorvete ou gelado de arroz?

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Que é?

SCULLY: - Tá vendo? ... Maridus Otarius.

Mulder olha pra Scully, indignado. Scully olha pra ele, segurando o riso. Mulder corre pra pegá-la, mas ela entra no banheiro rapidamente, trancando a porta. Ri alto. Mulder deita na cama com um beiço quilométrico.

MULDER: - Você me paga, Scully. Não vai ficar aí a noite toda. Quando sair, você vai ver só. Vai ver como o “Maridus Otarius” reage quando é humilhado.

SCULLY: - (GRITA) E como ele reage?

MULDER: - (SACANA) Vem descobrir.


BLOCO 2:

2:39 A.M.

Scully sai do banheiro, vestida numa camisola preta e longa, de rendas. Mulder fica a seguindo com os olhos, quieto, deitado na cama. Scully passa na frente de Mulder, fica olhando pra ele, segurando o riso.

MULDER: - Não adianta. Isso não vai convencer o ‘Maridus Otarius’. Vou fazer greve hoje. Me sinto humilhado. Fui usado como homem!

Mulder continua sério, cruza os braços e a observa. Scully desliga a TV.

MULDER: - Ei, qual é? Estou assistindo o jogo!

Scully caminha até a cama. Levanta o lençol e deita-se. Mulder continua olhando pra TV desligada, fingindo que Scully não está ali. Scully apaga a luz do abajur e cobre-se com o lençol.

SCULLY: - Precisamos dormir. Desligue seu abajur.

MULDER: - Não preciso dormir. (DEBOCHADO) “Maridus Otarius” são bichos noturnos. Eles caçam à noite.

SCULLY: - (EMPOLGADA) Hum, sério? E o que eles caçam?

MULDER: - (DEBOCHADO) Canais pornôs na TV a cabo.

Scully acende a luz e olha pra Mulder, indignada.

SCULLY: - Claro! Só gostam de ver, nunca fazem mesmo!

Mulder morde os lábios pra não rir.

SCULLY: - Mulder, você me irrita! Suas ironias, seu deboche, seu... Seu monstro! Foi você quem começou com essa história de animais!

Scully deita-se e apaga o abajur. Mulder apaga o abajur ao seu lado. O quarto fica na penumbra. Mulder abraça Scully por trás.

SCULLY: - (SEM REAGIR) Me larga! Sai daqui!

MULDER: - Tá bom...

Mulder a solta, fica deitado de costas, olhando pro teto.

MULDER: - Ô, Scully...

SCULLY: - Tô dormindo.

MULDER: - Ô Scully, ‘que tá dormindo’, você tá com sono?

SCULLY: - Hoje não, Mulder. Tô com dor de cabeça.

Silêncio de segundos.

Mulder não resiste. Agarra-se nela de surpresa e Scully começa a gritar.

SCULLY: - Pára, me larga! Monstro asqueroso!

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder!

MULDER: - Pode gritar, Scully. Somos os únicos hospedados nesse lugar.

SCULLY: - (SEM REAGIR) Mulder, me solta! Eu vou ficar violenta! Estou furiosa.

Mulder sai de cima dela.

MULDER: - Desculpe.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - Pra quê ficar me atordoando desse jeito?

MULDER: - ...

SCULLY: - Pra depois dormir a noite toda?

Mulder levanta-se no escuro. Tira a roupa. Se enfia debaixo do lençol.

MULDER: - Vem cá, vem, vou tirar esse diabo do teu corpo...

SCULLY: - (RINDO) Mulder... Não!

MULDER: - Você vai ver quem é que dorme a noite toda. De uma em uma hora eu vou te acordar.

SCULLY: - Deixa de blefar, Mulder. Você não é tudo isso não.

MULDER: - Aposta quanto?

SCULLY: - Os mesmo 30 dólares que ganhei de você. Puxa, se continuar apostando assim, vou ficar rica!

MULDER: - ... Não acredite, Scully...

SCULLY: - ... Vem cá, vem... Vem me exorcizar, seu monstro malvado!

MULDER: - ...

SCULLY: - Hum, Mulder... Adoro quando fica quieto e compenetrado...

O celular dela toca.

SCULLY: - Droga! Esqueci o celular ligado... Espera aí, Mulder.

Scully acende a luz. Pega o celular. Olha pro visor. Atende, enquanto Mulder beija o pescoço dela.

SCULLY: - Alô? (RI) Mãe?

[Som: Ernie K Doe – Mother-in-law]

Mulder ergue a cabeça, em pânico.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Que coincidência! Estava falando de você com um amigo... Como assim ‘está doente’?

Mulder senta-se na cama. Fica atento.

SCULLY: - (PREOCUPADA) Mãe, já foi ao médico? ... O que está sentindo?... Tá, mãe, estou no Colorado, mas estarei amanhã aí... Depois das seis? Por que só depois das seis? ... Ah, o médico é à tarde... Não, estou sozinha...

Mulder olha pra Scully, debochado.

SCULLY: - Sozinha, mãe. Não entende quando falo? Não sei onde está o Fox... Como assim quer vê-lo antes de morrer? Quem disse que está morrendo?........ Mãe, não faz drama. Tá, estarei aí amanhã, levarei o ‘Fox’ pra ver você. Se cuida, tá? Tem alguém aí? Ah, o Charles. Tá, nos vemos amanhã, e me ligue se sentir-se mal.

Scully desliga.

MULDER: - O que a Meg tem?

SCULLY: - (PREOCUPADA) Disse que está com dores estranhas no peito.

MULDER: - Quer ir pra lá agora?

SCULLY: - Não adiantaria, Mulder. Vamos amanhã.

MULDER: - ... O que falei sobre sogras não se aplica a sua mãe.

SCULLY: - Por que me diz isso?

MULDER: - Porque eu gosto da Meg.

SCULLY: - Mulder, acredite, ela vai conseguir te irritar um dia. Principalmente porque sabe sobre nós.

MULDER: - ... Preciso vê-la, Scully. Pedir desculpas, porque menti pra ela.

SCULLY: - ... Também menti.

MULDER: - Mas é diferente. Sou um estranho, ela tem muita consideração por mim e você me fez mentir pra ela. Não sei de onde tirou que sua mãe iria fazer a maior algazarra se soubesse que estávamos juntos.

SCULLY: - Mulder, não conhece a minha mãe...

MULDER: - Conheço, Scully. A Meg é ponderada. Você é quem não a conhece. Ela jamais me faria passar por algum constrangimento.

SCULLY: - Tá, vou apagar a luz e vamos continuar de onde estávamos.

MULDER: - Tem certeza?

SCULLY: - Por que não? Com medo de perder a aposta?

MULDER: - Eu estou com meus hormônios a mil.

SCULLY: - Hum, que fato mais raro!

MULDER: - Scully, não blasfeme...

Scully apaga a luz.


Residência de Margaret Scully – 6:19 P.M.

Mulder estaciona o carro na frente da casa. A abelhinha está sobre o painel do carro.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - ...

Scully abre a bolsa e entrega 30 dólares pra ele. Mulder dá um sorriso convencido.

MULDER: - Otária!

SCULLY: - (ENIGMÁTICA) Tem certeza? Será que eu, em prol do meu prazer, não desafiei você para consegui-lo?

Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Maridus Otarius?

SCULLY: - Exatamente. E 30 dólares foram mais do que você valeu. Até devia me dar troco...

MULDER: - (PÂNICO) ... Mulheres... (SUSPIRA) Desisto! Vocês realmente são umas falsas!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Falsas não, somos espertas. Depois, a ciência comprovou que o cérebro do homem é maior que o da mulher, Mulder. O que não adianta muito. Veja bem, cinqüenta por cento do espaço do cérebro masculino serve pra pensar em mulheres, 40 por cento em esportes que envolvam esferas e 10 por cento pra inteligência.

MULDER: - Vou te dar uma resposta bem desaforada, Scully. Se você acha que saiu ganhando, eu ganhei mais. Além de 30 dólares, jantei você.

SCULLY: - Uh! Me ‘jantou’?

MULDER: - Pra não usar o termo mais pejorativo.

SCULLY: - Pois o use. Vocês homens adoram dizer que “comeram alguma mulher”. Mulder, eu que ‘comi’ você.

MULDER: - Não mesmo.

SCULLY: - Mulder, quer apostar esses 30 dólares de novo? Aposto que provo pra você, cientificamente, que eu é quem jantei você.

MULDER: - Apostado.

SCULLY: - Mulder, isso não é científico. Vamos ser racionais: Por acaso, fazendo uma analogia, para comparação científica e prova da intrínseca verdade, você já viu um alimento comer a boca?

MULDER: - (ARREGALA OS OLHOS) ...

SCULLY: - Não. A boca é quem come os alimentos. (FAZENDO GESTOS, EXPLICANDO A TEORIA) Tudo o que... Engloba alguma coisa, é o que come. Entendeu, né? Portanto, um pepino nunca ‘come’ a boca. Então, eu ‘jantei’ você.

Mulder abaixa a cabeça, indignado. Devolve os 30 dólares pra Scully, que fica sorrindo.

SCULLY: - Ou tem alguma teoria paranormal pra isso?

MULDER: - Vou calar minha boca. Já fui humilhado demais!

Os dois descem do carro. As luzes da casa estão apagadas. Scully olha pra casa.

SCULLY: - Estranho... Será que ela ainda não chegou?

Os dois caminham em direção a casa. Param na porta. A porta está entreaberta.

SCULLY: - Mulder, tem alguma coisa estranha por aqui...

Mulder puxa a arma. Scully puxa sua arma também. Mulder empurra a porta lentamente. As luzes se acendem.

CÔRO: - Surpresa!

[Som: Ernie K Doe – Mother-in-law]

Close de Meg, segurando um bolo com um casal de noivos em cima. Há uma faixa na parede escrito: Parabéns aos noivos.

Presentes ali: Bill (irritado, em roupas de golfe), Tara, Charles (vestindo uma roupa budista), Frohike, Byers e Langly (rindo da cara de Mulder) e o Padre McCue.

Mulder olha pra Scully, apavorado. Scully dá um sorriso. Mulder fica em pânico.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Não falei, Mulder? Agora acredita em mim? Bothrops sogrum. Completamente venenosa. E mata por asfixia!


6:31 P.M.

Mulder, com cara de quem tá louco pra dar o fora dali. Meg abraça Scully.

MARGARET: - Ô filha, estamos tão felizes por você!

Mulder está catatônico. Meg o abraça.

MARGARET: - Fox... Espero que goste da surpresa.

MULDER: - ... (CATATÔNICO)

SCULLY: - (DEBOCHADA) Ele deve estar ‘adorando’, mãe. Mulder adora festas e cerimônias sociais!!! Está tão emocionado que nem consegue falar...

Mulder olha pra Scully, irritado.

MARGARET: - Achei que mereciam uma comemoração. Então fiz uma festa surpresa. Convidei alguns amigos... Convidei amigos seus também, Fox.

Meg pega Scully pelo braço e afasta-se. Frohike aproxima-se. Olha debochado pra Mulder.

FROHIKE: - Virando família, não é mesmo?

MULDER: - Se falar mais uma palavra, enfio sua cara naquele bolo... Como descobriram vocês?

FROHIKE: - Pergunte à sua sogra... Parece que o Skinner foi consultado por ela...

Charles aproxima-se de Mulder.

CHARLES: - Parabéns, Mulder. Fico muito feliz por vocês.

Bill passa por Mulder, com uma boina e segurando um taco de golfe.

BILL: - Depois a gente conversa, Lunático.

MULDER: - ...

BILL: - Te pego na saída. Sorte sua que ela é estéril. Mataria você se algo acontecesse.

Bill afasta-se. Frohike olha pra Mulder, debochado.

FROHIKE: - Que recepção!

MULDER: - Esse cara me odeia. Só tenho dois inimigos no mundo: ele e o Fumacinha.

Langly, segurando um copo, aproxima-se ao lado de Byers. Está vestindo aquelas camisetas que parecem um smoking.

LANGLY: - (DEBOCHADO) Festa legal essa. Gostei da casa, sua sogra é gente fina... Só falta um som do Ramones...

MULDER: - Vão rindo. Hoje vocês podem rir à vontade. Conseguiram me humilhar. Estão presenciando a ‘última ceia’ de Fox Mulder.

Byers olha pra sala.

BYERS: - Queria ter uma festa assim com a Suzanne...

Mulder olha pra Byers, incrédulo.

MULDER: - Byers, você é assim mesmo ou bebeu água do parto?

BYERS: - ???

MULDER: - Deixa pra lá!

BYERS: - (RESSENTIDO) Por que não nos disse que ia ficar noivo?

MULDER: - (IRRITADO) Byers, eu não vou ficar noivo!

LANGLY: - (DEBOCHADO) Ah, não? Não acredite nisso! Pois sua sogra comprou as alianças. Acho que está louca pra casar a filha antes que você desista. E parece que seu cunhado tem um rifle atrás do sofá, para o caso de você dizer não.

Mulder fica em pânico.

FROHIKE: - (DEBOCHADO) Se ele disser não, eu tomo o lugar dele e continuamos a festa.

MULDER: - Mantenha-se longe do meu círculo de amizades, baixinho. Sei das suas intenções. É areia demais pro teu caminhãozinho.

FROHIKE: - Mulder, faria cem viagens se preciso fosse.

MULDER: - (CÍNICO) Acredite, ela é frígida! A mulher é um gelo! Sabe por que me desfiz do colchão d’água?

FROHIKE: - Por quê?

MULDER: - Depois da nossa primeira noite, ele amanheceu congelado! Em compensação, a champanhe ficou na temperatura ideal quando encostei a garrafa nela.

Frohike olha pra Mulder, debochado. Byers arregala os olhos, perplexo. Langly segura o riso.

MULDER: - Ela mesma me confessou que o mais próximo que chegou de um orgasmo foi durante um ataque de asma, enquanto a pedicure desencravava a unha do seu dedão. Ela não é quente!

FROHIKE: - (OLHANDO DESCONFIADO)

MULDER: - Pra dizer a verdade, certa vez propus joguinhos eróticos. Ela deitou na cama com um tabuleiro de xadrez! Ela toma menos iniciativa que uma mulher inflável! O sonho erótico mais ousado dela é transar com o Drew Carey dentro de uma caixa de papelão! Ela é capaz de fazer amor e costurar uma meia ao mesmo tempo!

Byers fica olhando, triste, acreditando em tudo. Langly vira o rosto e ri.

BYERS: - (RESSENTIDO) Mulder, não deveria falar assim dela. Pobrezinha, talvez ela tenha algum trauma. Pode estar precisando de ajuda. Que tipo de psicólogo é você que age dessa maneira?

Langly desata a rir. Byers fica olhando sem entender. Frohike balança a cabeça.

BYERS: - (IRRITADO) Já pensou que talvez o problema não seja ela? Talvez não tenha um homem que a desperte... Talvez você seja um insensível! E acredito que esse seja o problema mesmo! Seu insensível!

Byers sai dali irritado com Mulder. Mulder começa a rir. Frohike segura o riso.

FROHIKE: - Não se preocupe, Mulder. Poupe suas besteiras. Ela é ‘alta’ demais pra mim. E depois, até que enfim você conseguiu uma mulher! Não vou roubar a única que conseguiu. Eu consigo mulheres quando quero. Vou deixar a Scully pra você, é um favor de amigo.

MULDER: - Amigo urso, não? Tenho uma teoria sobre a espécie ‘amigus ursus’. Outra hora te explico.

FROHIKE: - Tenho uma teoria sobre ‘casar ou acasalar’. Acredite, vai ver que tenho razão.

MULDER: - (ANGUSTIADO) Estou passando mal! Precisam me tirar daqui. Vou ter um enfarto!

FROHIKE: - Nada feito, Mulder. Não é todo o dia que podemos ver você se dando mal. Não perderia essa por nada!

LANGLY: - É... Quero ver até onde vai isso... Vou ter assunto pra contar pro resto do ano...

MULDER: - Quando isso acabar, vão pra casa e tranquem as portas. Vou colocar fogo naquele lugar!

Mulder afasta-se deles. Charles se aproxima, tomando chá num copo.

CHARLES: - Mulder, quer uma bebida?

MULDER: - Tô precisando.

CHARLES: - Relaxe. Sei que não está gostando da idéia. Também odiei quando Meg fez isso comigo...

Margaret aproxima-se, trazendo Scully pelo braço.

MARGARET: - Ah, eu ainda penso que é um sonho, ver vocês dois juntos...

MULDER: - Meg, deveria ter consultado a gente antes de...

MARGARET: - Ora, Fox, deixe de ser bicho do mato. Tenho uma surpresa pra vocês.

Meg afasta-se. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Por que tenho a sensação de que a surpresa pode me matar?

SCULLY: - ...

Meg aproxima-se, trazendo o Padre McCue.

MARGARET: - O Padre McCue está tão feliz porque vai casar vocês...

Mulder fecha os olhos.

MULDER: - (MURMURA) Deus! Me salve! Tenha piedade de mim, nunca mais vou cuspir na cruz e colar chicletes nos bancos da igreja!

Scully olha pra Meg. Bill aproxima-se, segurando um copo de uísque.

SCULLY: - Mãe, não leve tudo tão a sério. Casamento é coisa séria e não sabemos se vamos ficar juntos pra pensar nisso.

MARGARET: - Mas já estão juntos há um ano!

SCULLY: - Não significa nada. E depois, o Mulder é judeu.

BILL: - Claro que é. Basta olhar pro nariz dele pra saber que é judeu!

MARGARET: - Bill! ... Isso não é problema, Dana. Depois vocês se casam numa cerimônia judia.

PADRE McCUE: - Dana, fico tão feliz por você. Encontrou sua vida de novo.

SCULLY: - Não padre. Acho que a vida me encontrou.

Scully abraça-se em Mulder, que continua assustado. Meg e o padre se afastam. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Sei que tá adorando isso, sua traidora... Vou dizer pra ela que já casamos.

SCULLY: - Se falar isso, Mulder, eu mato você.

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - Porque daí ela vai transformar isso num casamento oficial. Mamãe sempre disse que qualquer casamento só vale com a cerimônia religiosa. Quer que ela faça o padre McCue nos casar aqui?

MULDER: - Ah, Deus! Scully, vou dizer que tenho de trabalhar e dar o fora. Esqueci a geladeira aberta e o ferro de passar ligado.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Vai me deixar sozinha?

MULDER: - Scully, pelo amor de Deus, eu estou apavorado! Sabe o que penso de festas. Sabe o que penso de reuniões familiares. E sabe o que penso de noivados! Estou constrangido, perdido aqui e o seu irmão ‘Pitbill” não tira os olhos de mim!

SCULLY: - Eu disse, Mulder. Você não sabe do que a mamãe é capaz.

MULDER: - Tá, Scully, você estava certa. De novo! Vamos dar o fora daqui, por favor... Isso tá me deixando mal!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Não quer comer o bolo dos noivinhos?

MULDER: - Scully, sem piadas por favor. Estou nervoso.

SCULLY: - (EMPOLGADA) Nervoso? Oba!

MULDER: - Não, Scully. Nervoso no sentido correto da palavra. Não no nosso código particular.

SCULLY: - Vai desapontar minha mãe? Ela disse que fez tudo pra gente, queria ver você feliz...

MULDER: - Diga pra ela que eu estou feliz, já tenho a filha dela e não preciso de festas!

SCULLY: - Mulder, relaxe. A noite é longa.

Scully afasta-se.

MULDER: - Scully, por favor, não me deixa aqui sozinho...

Scully vai pra cozinha. Mulder senta-se no sofá. Suspira, desanimado. Bill sentado na poltrona, encara Mulder, enquanto bate com o taco de golfe na mão, num sorriso desafiador. Mulder disfarça, virando o rosto pro outro lado e assoviando.


BLOCO 3:

7:21 P.M.

Mulder implora pra Frohike que está na porta. Langly olha sério pra ele. Byers também.

MULDER: - Eu faço tudo o que quiserem, mas não vão embora.

FROHIKE: - Sinto, Mulder. Temos compromissos.

MULDER: - (DESESPERADO) Por favor, estou implorando...

Os três saem. Mulder fecha a porta.

MULDER: - Vocês me pagam... Vou me vingar!

Mulder senta-se no sofá. Bill está conversando com Charles. O padre McCue aproxima-se e senta-se ao lado de Mulder.

PADRE McCUE: - Então você é judeu?

Mulder olha pro padre.

MULDER: - Literalmente.

PADRE McCUE: - Não pratica sua religião?

MULDER: - Padre, ficaria espantado com o que penso de religiões.

PADRE McCUE: - Entendo sua revolta. Não achou respostas no judaísmo. Aposto que se fosse católico as encontraria.

MULDER: - ...

PADRE McCUE: - Não concorda?

MULDER: - ... (IRRITADO) Padre, Deus é um alienígena, a reencarnação é fato e Jesus Cristo era ateu! E não acredito que não tenha dormido com Maria Madalena. Dizem que ela era quente!

O Padre levanta-se do sofá e afasta-se assustado. Mulder suspira.

MULDER: - Eu mereço... Eu mereço! Hoje é dia de pagar os pecados, Mulder... Quem mandou você colocar fogo no Talmud? Quem mandou ficar na gandaia durante o Pessach? Quem mandou gostar dessa baixinha? De brinde, levou a família dela. Maridus Otarius... Novamente.

Tara senta-se ao lado dele.

TARA: - Mulder, não fica assim tão tristonho. O que você tem?

MULDER: - Estou deslocado. Não me sinto bem com isso tudo.

TARA: - Acostume-se, Mulder. Ainda não viu nada. Precisa ver quando a Meg embesta de fazer reunião de família.

MULDER: - (PÂNICO)

TARA: - Eu não viria se soubesse disso. Não por vocês, mas porque é constrangedor. Mas a Meg nos chamou dizendo que estava doente... Conforme-se. A Dana é igual ao Bill.

MULDER: - Me envolvi com a irmã errada...

TARA: - Ora, pense assim: Você gosta dela, então cede aos seus caprichos. Faço isso com o Bill. Mas se ele não ceder quando eu quiser, aí vem briga.

MULDER: - Se minha mãe estivesse viva, deixaria ela com a Scully por uma semana! Isso seria a vingança perfeita!

TARA: - Sogras sempre serão sogras. Acredite.

MULDER: - Como está o Matthew?

TARA: - Está lá em cima, dormindo. O Will está com ele, jogando videogame.

MULDER: - O Gafanhoto está aqui?

TARA: - Gafanhoto?

MULDER: - Ah, deixa pra lá.

Mulder levanta-se.

TARA: - Onde vai?

MULDER: - Jogar videogame com o Gafanhoto.


8:03 P.M.

Scully abre a porta do quarto. Matthew brinca com um ursinho. Está sentado no tapete, ao lado de Mulder e Will que estão jogando, na frente da TV. Mulder vai dando dicas pra Will.

MULDER: - Tá. Agora você entra na caverna...

WILL: - Tem que pegar a medalha?

MULDER: - Tem. Depois que pegar a medalha, você passa de fase.

Scully sorri. Entra no quarto.

SCULLY: - Mulder.

Mulder vira-se pra ela.

SCULLY: - Sei que criança sente-se melhor com crianças, mas... Por mim, tá?

MULDER: - Já vou descer.

Scully sai do quarto. Will olha pra Mulder.

WILL: - Te pegaram, né Pinóquio?

MULDER: - Gafanhoto, quando crescer, case-se com uma mulher que não tenha mãe.

WILL: - Falou, cara. E sobrinhos?

MULDER: - ... Sobrinhos passa.

Mulder levanta-se. Matthew olha pra ele, sorrindo.

MULDER: - Gafanhoto, cuide do seu primo.

WILL: - Sem stress, Pinóquio. Daqui um pouco eu desço e peço pra você vir me dar mais dicas.

MULDER: - Faria isso por mim?

WILL: - Sem problemas. Parceiros ainda?

MULDER: - Claro.

WILL: - Mas me deve a credencial e a arma.

MULDER: - Tá legal.

Mulder sai do quarto. Will olha pra Matthew.

WILL: - Ele é legal, Matt. Só um pouco doido, sabe? Mas vai gostar dele quando você parar de babar e morder esse urso velho...


9:29 P.M.

A família Scully sentada à mesa. Mulder entre eles, ainda em pânico. O Padre McCue o observa. Will brinca com o bolo no seu prato. Olha disfarçado pra todos e atira glacê com a colher em Mulder. Mulder sorri pra ele, com a fisionomia de ‘te pego depois’. Limpa a roupa. Scully, ao lado dele, segura o riso. Meg levanta-se.

MARGARET: - Um brinde aos noivos.

Mulder abaixa a cabeça. Suspira. Todos brindam. Meg senta-se. Tira uma caixinha do bolso do casaco. Entrega pra Mulder.

MARGARET: - Comprei as alianças porque vocês não sabiam da festa.

MULDER: - (INCRÉDULO) Alianças?

MARGARET: - Ora, Fox! Acha que vai ficar com a minha filha sem pelo menos estar noivo?

SCULLY: - (IRRITADA) Mãe, se você esqueceu, somos agentes do FBI e trabalhamos juntos. Não podemos usar alianças! Ninguém pode descobrir nosso envolvimento ou um de nós será transferido!

Bill olha com um sorriso maligno e abre a boca para falar. Tara o cutuca.

TARA: - (COCHICHA/ AMEAÇADORA) Nem pense. Ou vou fazer greve de sexo.

Bill fecha a boca, emburrado. Meg olha pra Scully.

MARGARET: - Filha, quando forem trabalhar, vocês dois tiram as alianças. É simples.

MULDER: - Meg, não podemos aceitar isso...

MARGARET: - Fox, impressão minha ou está apenas se divertindo com a minha filha?

SCULLY: - Mãe!

MULDER: - Meg, sabe que sou louco por sua filha. Já que estamos aqui, nessa situação, me sinto na obrigação de dizer o que penso.

Todos olham pra Mulder, curiosos.

MULDER: - Meg, não acredito nessa besteira de alianças. Não acredito em noivados e em casamentos! Se quiser me pôr pra fora daqui, tudo bem. Mas eu não quero usar aliança! E isso não significa que não queira viver com a sua filha.

PADRE McCUE: - Filho, precisa justificar seu amor através do Senhor. Precisa da bênção Dele. O sacramento do matrimônio é sagrado. Só será feliz se Deus abençoar essa união.

Mulder abre a boca. Scully segura-o pelo braço. Mulder fica quieto.

SCULLY: - Mãe, ainda achamos que é cedo pra noivar.

MARGARET: - Mas não é cedo.

SCULLY: - (FURIOSA) Mãe, se não parar com isso eu vou contar o seu segredinho sujo aqui na mesa, na frente de toda a família!

Mulder olha pra Scully assustado. Todos se olham. O Padre McCue abaixa a cabeça.

CHARLES: - (CURIOSO) Segredo? Que segredo?

MARGARET: - (FURIOSA) Nada. Dana, você não tinha o direito!

BILL: - (IRRITADO) Ah, é assim? Você me faz vir de San Diego pra bater palmas pra esse Lunático aí e acha que pode ficar escondendo segredos?

Bill olha pra Scully.

BILL: - Dana, fale. Concordo com você. Ainda é cedo pra essa besteira toda e acredito que isso não vai longe.

TARA: - Bill!

BILL: - Esqueça essa droga de aliança, mãe. Minha irmã não vai se casar com esse maluco! Eu não vou permitir uma desgraça dessas! Não vou passar o resto dos natais tendo que aturar essa cara nariguda dele e ouvindo sobre conspirações e alienígenas!!!!

Will olha pra Bill. Olha pra Mulder. Cutuca o padre.

WILL: - (EMPOLGADO) Legal. Hoje vai ter briga. Adoro ver tio brigando...

Will ajeita-se na cadeira e cruza os braços, olhando pra eles. O padre está catatônico.

MARGARET: - (GRITA) Não admito que fale assim do Fox!

BILL: - Que Fox o quê! Não tá vendo que essa raposa astuta só tá abusando dela e depois vai jogá-la fora como os outros?

Mulder, incrédulo, olha pra Scully.

MULDER: - Outros? Que outros?

Scully disfarça. Will arregala os olhos.

SCULLY: - Cale a boca, Bill! Não sabe o que sinto por Mulder e o que ele sente por mim!

BILL: - Esse sujeito é um galinha, aproveitador de mulheres! Conheço bem o tipo. Olha o jeito como se veste, sempre boa pinta. Isso aí é um metido a galã “come todas”!!!!

MARGARET: - Bill, por favor...

MULDER: - Que outros, Scully?

BILL: - Por favor nada! Mãe, pare de alimentar a ilusão da Dana!

CHARLES: - Posso falar?

MARGARET E BILL: - Não!

CHARLES: - Mas eu vou falar.

BILL: - Você é outro que nunca está por aqui quando se precisa. Agora quer dar opinião?

Charles levanta-se. Will olha pra cada um deles, como se assistisse uma partida de tênis.

BILL: - Vou tentar me conter, Bill. Minha espiritualidade avançada não me permite esmurrar você.

Bill levanta-se.

BILL: - Ah, é. Vem, baixinho, vem. Tô doido pra acertar sua cara.

Tara e o Padre seguram Bill. Tara o faz sentar-se. Cochicha algo pra ele. Charles senta-se também.

CHARLES: - Estou respeitando o padre. Apesar de não termos as mesmas concepções religiosas, por educação eu respeito.

MARGARET: - (NERVOSA) Vocês me decepcionam! Se seu pai estivesse vivo...

CHARLES: - (GRITA ENFURECIDO) Mas ele tá morto! Bem mortinho! Já tá em outra dimensão!!!!!

Mulder e o Padre observam tudo, quietinhos. Will fica rindo.

SCULLY: - Charles!

CHARLES: - Ele morreu, mãe! A Melissa morreu também! Nós é que estamos vivos!!! Entendeu? Eu não vou ficar aqui chorando pelo passado, por entes queridos que se foram desta para o Nirvana!!!

BILL: - (IRRITADO) Ainda bem que sabe que eles morreram, já que não veio nem no enterro! (OLHA PRA TARA) Nirvana não é uma banda de rock? Não acompanhei o raciocínio dele...

Tara põe as mãos no rosto, suspirando.

CHARLES: - Ah, é crítica? É assim? Tá vendo, Mulder? Tá vendo em que família vai se meter?

BILL: - Estou cansado de ver minha mãe por aí perguntando ‘onde está o Charles’. Portanto, você é estranho e deve ficar fora desse assunto.

CHARLES: - Não vou ficar fora de nada! Vocês são doentes! Não vêem que a decisão é dos dois? Não percebem que Mulder está constrangido com isso? Só faltam mirar uma espingarda de dois canos pra fazer ele se casar com a Dana. Ou estão chamando minha irmã de encalhada, por isso essa pressa toda?

BILL: - Sua irmã? Ela não é sua irmã! Esteve com câncer, quase morreu e você nem deu bola! Por que acha que sabe alguma coisa da vida dela?

CHARLES: - Panaca, sabe se eu não estava rezando por ela? Acho mais útil rezar e pedir por ela do que ficar num hospital acusando o Mulder de assassino! Minha presença ali iria evitar alguma coisa? Eu tenho uma espiritualidade, otário. Aprendi que se deve orar, e que as forças divinas sempre sabem o que estão fazendo. É inútil lutar contra elas.

BILL: - Você é doente, Charles! Me dá nojo!

MARGARET: - Calem-se! Estão me deixando tonta!

Os três filhos continuam discutindo. Meg levanta-se. A discussão continua.

MARGARET: - (GRITA) Eu me casei grávida!!!!!!!

Silêncio geral. Todos olham pra Meg. Scully abaixa a cabeça.

MARGARET: - Antes que a Dana diga isso, eu vou dizer. Me casei grávida. Estava esperando o Bill.

Will começa a rir. Charles olha pro filho, com censura.

CHARLES: - Cai fora, Gafanhoto. Assunto de adulto.

WILL: - Droga. Logo no segundo round?

Will levanta-se da mesa. Sobe as escadas, emburrado. Meg respira fundo.

MARGARET: - ... Seu pai e eu prometemos nunca falar sobre isso à vocês. Mas quando a Dana começou a suspeitar que estivesse grávida do Douglas... Resolvi alertá-la pra não fazer o que eu fiz.

Mulder arregala os olhos e encara Scully.

MULDER: - (ENCIUMADO) Douglas? Quem é Douglas?

Scully disfarça, olhando pra Meg. Silêncio constrangedor.

MARGARET: - Felizmente seu pai assumiu. E nos casamos.

BILL: - Mãe, por que tá dizendo isso?

MARGARET: - Porque eu entendo a Dana. Mas eu queria que ela fosse diferente de mim. Queria que fosse certinha. Criei minha filha pra ser uma boa moça. Eu não era.

Scully arregala os olhos. O padre, disfarçadamente sai da mesa. Mulder fica boquiaberto. Cochicha pra Scully.

MULDER: - (DEBOCHADO) É... Dizem que a fruta nunca cai longe do pé, Scully. Tá explicado...

SCULLY: - Mulder!

MULDER: - (ENCIUMADO) Quem é Douglas?

MARGARET: - E parece que a cada dia vejo o quanto a Dana se parece comigo... Filha, por favor, aceite essas alianças. São como água pra limpar minhas culpas. Você é a única filha que tenho, e queria ver você fazer tudo certinho. É meu sonho de mãe. Já que eu joguei fora a chance de fazer isso da maneira correta. Já que não tive esse momento.

MULDER: - (INVOCADO) Scully, quem é esse Douglas?

Scully suspira.

SCULLY: - Mãe, eu não posso... Tenho uma coisa pra dizer.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Eu e Mulder nos casamos há poucas semanas atrás.

Silêncio geral.


BLOCO 4:

Mulder abaixa a cabeça. Bill afunda a cabeça no prato de torta, desanimado.

BILL: - Tarde demais... A merda está feita... Mas ainda resta o divórcio...

SCULLY: - Não queremos noivado nem casamento religioso. Não faz parte de nós dois. Talvez até eu quisesse há algum tempo atrás. Mas não mais, mãe.

Silêncio geral.

SCULLY: - Nos casamos sozinhos. Não quero ter o sobrenome dele, eu sou uma Scully e sempre serei. E ele sempre será um Mulder. E é essa diferença entre nós que nos mantém unidos.

Meg olha pra Scully, derrubando lágrimas emocionadas.

SCULLY: - Portanto, peço desculpas pra minha família se escondi certas coisas. Foi por medo de perder vocês. Talvez nunca aceitem meu modo de viver. Mas eu ainda os amo.

Silêncio. Charles olha pra Scully ternamente. Scully segura as lágrimas. Mulder continua de cabeça baixa.

SCULLY: - E eu amo esse homem aqui do meu lado. E... E isso basta, não acham? Pouco importa a forma como nos ligamos um ao outro. Eu estou feliz, e papai sempre me ensinou que isso é tudo.

Scully sai da mesa.

SCULLY: - Eu... Eu só queria que entendessem que nossas vidas precisam do Bureau. Se esse fato se tornar público, perderemos tudo o que construímos. E isso não seria justo. Entregaríamos nossas cabeças ao inimigo. Portanto, nunca poderemos oficializar nossa união. E gostaria que entendessem a nossa escolha... Se vocês não aceitarem, eu compreenderei. Mas não vou deixar do Mulder por vocês. Sinto muito. Se não aceitam o Mulder, não me aceitam também.

Mulder fica constrangido. Levanta-se.

MULDER: - Eu... Eu vou embora. Acho que estou estragando o relacionamento de vocês.

Mulder caminha até a porta. Scully o segue.

MARGARET: - Dana.

Scully vira-se. Meg guarda as alianças no bolso.

MARGARET: - Essa é a sua família, Dana. Aceitamos você do jeito que é. E aceitamos o Fox.

Scully sorri. Meg vai até ela. As duas abraçam-se, segurando as lágrimas.

MARGARET: - Afinal, que moral eu tenho pra criticar você? Você é a mais parecida comigo... Sempre foi.

Bill levanta-se, esmurrando a mesa. Cabelos sujos de glacê de bolo.

BILL: - Eu não acredito nisso! O que fez com ela, Lunático? Lavagem cerebral?

Mulder fica quieto, olhando debochado pra Bill.

MARGARET: - Fox, você agora é da família. Dá uma resposta pra esse chato.

MULDER: - Sou?

MARGARET: - É.

Mulder caminha até Bill.

MULDER: - Escuta aqui, Billdog, se não calar a sua boca eu juro que vou fazer você engolir seus dentes!

Bill arregala os olhos.

MULDER: - Agora eu sou um Scully e você vai ter que aturar minha cara pro resto da sua vida miserável. Entendeu?

BILL: - ...

Mulder pega Scully pelo braço.

MULDER: - Vamos embora, Scully.

Bill põe-se na frente de Mulder.

BILL: - Só escute o que eu vou dizer. Pra cada lágrima que a Dana derrubar por você, um osso do seu corpo será quebrado, entendeu? Lunático!!!

MULDER: - Entendi. Pitbill!!!

BILL: - E não pense que eu vim porque estou empolgado. Só descobri essa besteira toda quando cheguei aqui. E continuo não admitindo você na minha família. E nunca vou admitir!

MULDER: - Estamos quites.

BILL: - Tenho pena da sua irmã. Ela é tão boa gente. Não merece o castigo de ter seu sangue.

MULDER: - Tenho pena da sua irmã. Não merece o que faz com ela.

BILL: - Você é um assassino! Matou minha irmã por causa dos seus marcianos! Eu... Eu não acredito que vocês ainda defendem esse sujeito! Ele matou a Melissa!

Bill anda em voltas, atordoado. Olha pra Scully.

BILL: - E hoje, você morreu pra mim, Dana. Porque eu não consigo entender como pode dormir com o cara que matou sua irmã!

SCULLY: - (GRITA) Ele não matou a Melissa!

BILL: - (GRITA) Matou! Foi por causa dele que a desgraça toda aconteceu! E vai continuar acontecendo! Eu não quero o sangue dele misturado com o nosso!

Bill começa a chorar. Tara o conforta.

BILL: - Vocês não entendem... Nunca entendem nada... A Melissa se foi por culpa dele...

Mulder fecha os olhos. Abre a porta e sai desesperado. Scully vai atrás dele.

SCULLY: - Mulder...

Mulder continua caminhando em direção ao carro.

SCULLY: - Mulder, por favor.

Mulder pára. Vira-se e olha pra Scully.

MULDER: - Ele tem razão, Scully. Eu sei o que ele sente, tá bom? Eu sei a raiva que ele tá sentindo e posso entender bem! Odiei quem tirou minha irmã de mim! No entanto, fiz a mesma coisa com ele!

SCULLY: - Mulder, sabe que não é verdade. Não vai adiantar ficar se culpando. Sei que a bala era pra mim. Sei que me queriam fora. E sei que amo você... E me dói te ver assim desse jeito.

Mulder coloca as mãos no bolso. Abaixa a cabeça. Scully aproxima-se dele.

SCULLY: - Vem, Mulder. Vamos entrar. Se não resolvermos isso tudo hoje, teremos de resolver aos pedaços.

MULDER: - Acho melhor ir embora, Scully.

SCULLY: - Eu vou falar com o Bill.

Tara sai da casa.

TARA: - Mulder, o Bill está mais calmo. Entra, por favor.

MULDER: - ...

Scully olha pra Mulder. Volta pra dentro de casa.

TARA: - A Dana vai falar com ele.

MULDER: - Tara, despeça-se deles por mim. Não dá mais pra ficar. Eu não me sinto bem.

TARA: - Por causa do Bill? Mulder, todos nós gostamos de você e o Bill também. Na verdade ele está apenas cansado, frustrado. Sabe que ele tem que bancar o durão sempre, é responsabilidade de filho mais velho. Desde que o pai dele morreu, Bill se tornou o homem da casa, entende? Ele quer zelar pela irmã, pela mãe, e sente-se na obrigação de fazer o melhor que puder pra elas. Bill parece ser uma muralha, Mulder, mas tem o coração de manteiga. Lembra-se quando eu disse que ele era como a Dana? Ele é, é teimoso, mas você sabe, sempre se rende.

Bill sai da casa. Aproxima-se de Mulder.

BILL: - Eu...

MULDER: - Não precisa, Bill. Eu é quem sempre vou dever desculpas.

BILL: - ...

MULDER: - Você salvou minha irmã e eu sou eternamente agradecido por isso. Porque você a encontrou. Eu não fui irmão o suficiente pra isso.

BILL: - Lunático, eu não fui homem o suficiente pra proteger minha irmã. A culpa não é sua. Talvez, a culpa seja minha. Eu sou o mais velho, deveria ter sido mais amigo ao invés de ficar irritando minhas irmãs.

MULDER: - ...

BILL: - ... Mas eu continuo discordando desse relacionamento!

MULDER: - Tudo bem, Bill. Nossos signos não combinam. Que graça teria se concordássemos? Afinal, cunhados sempre brigam, não é mesmo? Não é aí que reside o engraçado da vida?

Bill olha pra Mulder.

BILL: - Entra aí, a festa ainda não acabou. Precisa ficar pro cafezinho.

Mulder sorri.

MULDER: - Mas que seja rápido.

BILL: - O mais rápido possível, pra não ter que aturar essa sua cara!

MULDER: - Idem.


10:39 P.M.

Tara serve café. Scully, sentada com os pés sobre o sofá, grudada no braço de Mulder, deitada com a cabeça no ombro dele.

Charles, sentado no chão, afagando os cabelos de Will que está dormindo.

Meg embala Matthew no colo e Bill está sentado numa poltrona, cabisbaixo.

CHARLES: - Sério? Puxa, aposto que adoraria conhecer a Índia. Iria achar muitos Arquivos X.

MULDER: - Vai voltar pra lá?

CHARLES: - Não sei ainda. Acho que o meu relacionamento com minha esposa está começando a florescer de novo. E eu queria ficar perto deles, da minha família. Parece que quando os deixo, tudo fica de cabeça pra baixo.

BILL: - Ora, Charles, o mundo não gira por você.

CHARLES: - E giraria por você, Bill?

Tara senta-se no braço da poltrona. Abraça-se em Bill.

TARA: - (SÉRIA) Meu mundo gira por ele.

Tara dá um beijo apaixonado no rosto de Bill, que fica corado. Scully olha pra Tara, admirando-a.

CHARLES: - Como pôde se apaixonar por essa coisa?

TARA: - Ora, o Bill parece ser um durão, um ranzinza, mas no fundo eu sei quem ele é.

SCULLY: - Ora se não é o velho e rabugento Bill que está ficando tímido... Realmente, pobre Tara! Aguentar você não é fácil.

BILL: - Não tem moral pra me criticar, Dana. Não sei o que viu nesse Lunático.

Scully olha pra Mulder.

SCULLY: - (DEBOCHADA) O nariz. O nariz dele é sexy.

Tara começa a rir. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Você nunca me falou isso.

BILL: - Tudo começou por um nariz?

SCULLY: - Não. Tudo começou pela verdade. Pela busca da verdade. E acabamos encontrando... outras verdades.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Gente, precisamos ir. Temos muitas coisas pra organizar... Logo voltaremos pro Bureau.

MARGARET: - E o senhor Skinner? Diga que não o perdôo por não estar aqui!

SCULLY: - Mãe, o Skinner tem o hábito terrível de jogar lenha na fogueira e cair fora. Sei bem disso.

MARGARET: - (RESSENTIDA) Ah! Tadinho! Ele foi tão gentil em me dar o endereço dos amigos do Fox... Seus amigos são muito simpáticos. Pena que não ficaram pro jantar...

BILL: - Que diga-se, de passagem, tão estranhos quanto o Mulder. Dana, não eram aqueles três que estavam no cemitério com você?

CHARLES: - Hum... Não sei quem é esse Skinner, mas a velha Meg parece gostar dele!

MARGARET: - Cala a boca, menino! Tenho idade pra ser mãe dele!

CHARLES: - Mulder, sei que sua mãe morreu, mas... Seu pai está vivo? Poderia apresentar ele pra Meg.

Scully olha pra Mulder, disfarçando um sorriso com um beiço. Mulder fica em pânico.

MULDER: - Acredite, não quero o mal da Meg.

MARGARET: - Mas Fox, seu pai não morreu?

MULDER: - Ah, Meg, isso é uma história longa... Deixa pra outro dia.

MARGARET: - ... Ele é bonito? Charmoso?

MULDER: - Ele fuma muito.

MARGARET: - E daí? Eu fumava também.

Mulder olha pra Scully.

MULDER: - (ASSUSTADO) Scully, vamos sair daqui, antes que uma desgraça maior aconteça.


Apartamento de Scully - 2: 33 A.M.

[Som: Ernie K Doe – Mother-in-law ]

Mulder está deitado na cama. Com um pijama do Scooby Doo. Scully entra no quarto, vestindo um pijama igual.

SCULLY: - E então? Assustado com a família Scully?

MULDER: - Já te disse uma vez, Scully: Suas brigas são diferentes. São porque se preocupam uns com os outros.

SCULLY: - Mulder, desculpe aquela loucura toda. Sempre acaba em briga. Você não tinha que estar ali ouvindo aquilo.

MULDER: - Ah, Scully, relaxa! Fiquei surpreso com a Meg. Quem diria!

SCULLY: - Se soubesse como ela conheceu meu pai, entenderia.

Scully senta-se na cama. Mulder senta-se também, de frente pra ela.

MULDER: - E como foi?

SCULLY: - Bem, meu pai era recruta ainda. E estava de serviço. Sabe que quando há alguma agitação do povo, sempre mandam os recrutas fazerem a segurança. Foi onde meu pai conheceu minha mãe.

MULDER: - ...

SCULLY: - (RINDO) Ela estava liderando um movimento radical feminista, queimando sutiãs na praça e pregando palavras de liberdade.

Mulder sorri, empolgado.

SCULLY: - Dali tudo foi acontecendo. Eles saíam juntos... Ela ficou grávida... E o resto você já sabe. Claro que essa é a história oficial, mas ela nunca conta. Acho que mamãe não era muito feminista não. Virou uma dona de casa, mudou suas idéias... Ficou conservadora... Ah, quem pode saber, não é? Ela nunca fala nada mesmo.

MULDER: - Quem diria! A Meg!

SCULLY: - E sua mãe? Como ela conheceu o Bill?

MULDER: - Não sei. Nunca falavam sobre isso. Eram fechados demais.

SCULLY: - O que vamos dizer aos nossos filhos sobre como nos conhecemos?

MULDER: - Vou dizer à eles que uma ruiva tarada invadiu minha sala, minha vida e foi ficando, sem pedir licença...

SCULLY: - Ah, é? Eu vou dizer que um narigudo lunático começou a me contar histórias sobrenaturais e eu, com medo, acabei me agarrando nele e ele se aproveitou disso.

MULDER: - Eu me aproveitei? Scully, como pode?

SCULLY: - Você ia se aproveitar de mim naquela cabana no Himalaia, Mulder. Deixa de ser cínico!

MULDER: - Mas mudei de ideia.

SCULLY: - Teria adorado se tivesse começado selvagem.

MULDER: - Ah, é? E o romantismo, onde fica?

SCULLY: - Mulder, esperava que me conhecesse depois de todos esses anos. Sabe que tenho dias românticos e dias selvagens.

Mulder vai inclinando-se sobre Scully, que vai cedendo.

MULDER: - E que dia é hoje? Hum?

SCULLY: - Selvagem.

MULDER: - Sério?

Scully afirma com a cabeça.

SCULLY: - Completamente selvagem.

MULDER: - Quer apagar a luz?

SCULLY: - Não. Apague você. Vou me segurar na cabeceira da cama...

MULDER: - Scully, sabia que eu te amo?

SCULLY: - Finjo que acredito nisso, Mulder. Agora cale essa boca e aproveite nossas últimas horas de férias...

MULDER: - Scully, e se eu estiver acostumado a ficar de férias com você?

SCULLY: - Mulder, ainda temos as noites e os finais de semana. Você mesmo disse.

MULDER: - ...

SCULLY: - Apague a luz, ‘senhor Scully’.

MULDER: - Sim, senhora Mulder.

Mulder apaga a luz. O quarto fica no escuro.

MULDER: - Scully...

SCULLY: - O que é?

MULDER: - Quem é Douglas?

SCULLY: - ... Cala a boca, Mulder!

Fade out.


X

04/03/2000

17 de Junho de 2019 às 23:22 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X.

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