Clarisse Seguir história

kay-chan kay Chan

Esse é o passado da menina mais meiga que você irá conhecer Com várias pontas soltas, essa história é apenas uma pequena ponta de um gigantesco iceberg


Conto Todo o público.

#criança #contos #passado #androide #menino #menina
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O passado de Clarisse

A menina com os olhos brilhantes e atentos, olhava os doces a sua frente de maneira rápida e precisa, pensando em qual deveria degustar primeiramente, falando em voz alta, aquela voz de criança, mesmo não parecendo pois seu linguajar era mais maduro do que o habitual, as características de cada doce, a cor, a cobertura, os ingredientes... Os clientes da doceria, sem acharem desconfortável, riam baixinho da tarefa da pequena cliente em frente a bancada de doces.
_ Querido... - cochichou a mãe da pequena para o pai - Não acha melhor falar pra ela que ela pode pegar mais de um?
_ É-é uma ótima ideia. Clarisse!
Chamou o pai da pequena. Criança de 7 anos, cabelinhos curtos e lisos que voaram com a virada de rosto para trás olhando o pai que a tinha chamado, com um sorriso lindo e olhos brilhantes, completamente apaixonada pelos lindos doces, Clarisse disse:
_ Hm?! - com aquela vozinha fina, que ainda não sabia se expressar direito pois ainda faltava aprender varias palavras em seu vocabulário.
_ Pode pegar mais de um, lindinha - disse o pai.
Ouvindo isso, a criança arregalou seus olhos, aqueles olhos verdes que Destino havia lhe dado, abriu um sorriso maior do que cabia em seu rosto, balançou sua cauda preta de um lado para o outro, assim como fazem os gatos quando estão felizes, e suas orelhas levantaram em um êxtase tremendo. Uma felicidade enorme ao ouvir a simples noticia que podia pegar mais um doce.
_ Sério?!! - ela gritou
_ Ah, sim... A menos que você não queira - o pai virou o rosto, dizendo aquilo apenas para ver a reação de sua filha
_ Não, não não! Eu quero, eu quero! - ela gritou temendo perder a oportunidade de pegar mais um doce. Seus pais e os clientes riram da situação, a pequena não ligou, não estava interessada nos arredores, estava focada nos doces da prateleira.
_ Sim, sim - disse o pai - só não vá comer todos de uma vez ein!
_ Sim sim sim! - ela disse dando pulinhos e se virando novamente para as prateleiras de doces, as quais ela só conseguia ver uma.
_ Tarefa difícil, não? - cochichou o doceiro para os pais de Clarisse.
_ Sim, e importantíssima! - disse a mãe, eles riram.
Não que a menina não pudesse comer doces, mas aquele dia era uma ocasião especial.
Desde que era bebê, sempre vinham naquela doceria, todas as tardes, para aproveitar o final do dia, quando seu pai já havia saído do serviço, quando a mãe tinha terminado os afazeres de casa, quando Clarisse voltava da escola. O pai pedia o mesmo de sempre, Clarisse tinha pego o mesmo hábito e a mãe gostava de experimentar algo novo.
Porém, todo o aniversário, Clarisse escolhia um doce novo, um doce mais caro, mais saboroso, com cobertura de arco iris e desenho de bichinhos.
O doce.
Ela pegava apenas em seu aniversário, não que ela não pudesse pega-los nas outras vezes, mas a rotina a impedia de fazer isso. Então, sim, aquela era uma escolha extremamente difícil para uma criança.
_ ESSE! - Ela disse apontando freneticamente, batendo no vidro, que estava começando a ficar sujo, fazendo aquele barulho irritante que crianças adoram fazer.
_ Esse, lindinha? - o pai perguntou, segurando a mão da filha para que ela parasse de bater - muito bem, e o outro?
_Hm.... - ela parou e cruzou os braços, como se fosse um adulto resolvendo problemas difíceis. Com certeza havia visto o pai agindo daquela maneira. De repente, ela teve uma ideia, que em sua cabeça era brilhante - posso trocar por uma bala?
_ Bem... - começou o pai surpreso, a mãe e o doceiro se seguraram para não rir - Você até pode, mas acho que outro doce é melhor do que...
_ Eu quero uma bala de morango! - ela disse animada.
_ Muito bem! - disse o pai rindo e pedindo para o doceiro.
Clarisse foi criada de maneira rígida, não era daquelas crianças mimadas e irritantes, pelo contrário, era muito bem instruída e inteligente. Afinal... Seus pais não podiam se dar ao luxo de ter uma criança desobediente, pois a qualquer momento poderiam precisar sair de onde moravam, uma vila afastada de qualquer lugar onde possivelmente poderia ter indícios de humanos. Quanto mais afastado melhor porque... Sua espécie corria perigo.
Híbridos sempre foram vistos como perigosos e selvagens, então viviam em vilas o mais longe possível de humanos, pois se eles descobrissem...
Todos estavam treinados caso alguma coisa acontecesse, mesmo fazendo mais de um século que ninguém descobria, eles não descansavam.
Os suprimentos vinham das plantações, rios e raramente de fora, apenas quando realmente precisavam.
Essa era uma das vilas mais antigas já construídas, parecia uma pequena cidade, com casas simples e bonitas, todos tinham trabalhos referentes a manutenção e cuidado da vila e aqueles que não tinham, ficavam cuidando das crianças, idosos, davam aulas, ou cuidavam da casa e família. Ninguém ficava sem fazer nada, isso era quase um crime.
As crianças tinham aula integral, entravam não muito cedo e saiam não muito tarde, aprendiam sobre tudo e muito mais, os maiores tinham aulas práticas na parte de fora da vila, em áreas seguras, obviamente.
Clarisse sabia da importância de ficar calma e ajudar na hora de uma possível fuga, foi treinada desde sempre para isso e estava acostumada, todos estavam acostumados.
A grande maioria dos dias, depois de passado pela rotina de proteção, eram tranquilos sem muitas novidades, mas não eram chatos, sempre com coisas a fazer, felizmente não muito cansativos.
Um eterno equilíbrio pairava sobre aquele lugar...

***

_ Mas professora! - Ela dizia e levantava a mão perguntando alguma coisa.
Eles não dividiam os dias por semanas, apenas por meses, então todos os dias eram iguais, todos os dias as crianças iam para a escola, nenhum deles reclamavam, pois adoravam descobrir, conhecer e explorar o mundo fora dos muros da vila e a escola era o lugar ideal para isso.
_ Sim, Clarisse?
_ Porque não conversamos com humanos? E fazemos as pazes? E se dermos o doce mais gostoso do mundo, eles vão aceitar!
_Bem, querida - começou a professora, tentando explicar de um jeito fácil algo complexo demais para uma criança - infelizmente adultos não resolvem seus problemas com doces...
_ Os humanos adultos não gostam de doces? - perguntou outro.
_ Oh, sim, claro que gostam, afinal, foram deles que puxamos esse hábito, mas... Eles não aceitariam um doce como um pedido de paz, envolve muitas outras coisas.
_ É verdade que eles não tem cauda?! - perguntou Clarisse.
_ É, eles são um pouco diferentes
_ E nem orelhas?!
_ Eles tem orelhas - a professora riu - mas são diferentes das nossas.
As crianças começaram a cochichar pensando em como seriam esses humanos, dando palpites sem formação nenhuma, chegando a conclusões nada plausíveis.
_ Será que eles flutuam?
_Ah, não seja bobo! É claro que não! Eles devem andar mesmo.
_ Será que são inteligentes?
_ Ouvi dizer que já criaram até robôs!
_ Ah, não seja boba! É claro que robôs não existem!
_ Mas se existem ciborgues...
_ É diferente!
A verdade era que nenhum deles havia visto um humano, nem mesmo a professora, eles viviam completamente isolados do mundo exterior, os poucos que haviam visto já eram anciões, híbridos que viveram a tanto tempo que, na época que viram um humano, eram crianças.
_ E androides?
_ Com certeza não inventaram isso
_ Ah, eu acho que humanos são inteligentes
_ Mas não a ponto de criar uma coisa assim! Essas coisas só existem em filmes
_ De que tamanho será que eles são?
_ Os humanos? Não sei... Deve ser... Uns dez metros!
Naquele um século e pouco de anos se passando, o que os mantinha em paz era um acordo entre dois reinos, um acordo que durou belos anos de alegria não só para aquela vila, mas para dois reinos inteiros.
Até uma crise ocorrer, o mundo parecer caótico e as questões políticas entre dois simples reinos não fazerem mais sentido. Pouco a pouco, os dois reinos se tornaram deturpados pelo mundo que os rodeava e começaram a fazer parte de acordos com reinos distantes e desconhecidos... Até o dia de um deles declarar guerra ao outro.
Foi assim que terminou aqueles anos de paz. De maneira tão simples que fez todos se espantarem, o acordo que durou mais de um século se rompeu num piscar de olhos. Isso afetou a todos e a perseguição, aquela que a vila temia tanto, começou novamente, muito mais forte do que eles esperavam.
E começou numa noite fria, escura sem lua, com apenas os grilos cantando como sempre faziam.
Dez híbridos rodeavam os muros da vila, procurando qualquer movimento suspeito, mas o que eles não sabiam era que, com o passar do tempo, a evolução dos humanos foi mais rápida que a deles, as armas, a tecnologia, o conhecimento e as descobertas... Tudo desfavoreceu aqueles híbridos primitivos quando, numa fria noite, os humanos atacaram surpreendentemente rápido deixando todos perplexos, dando tempo apenas de correr e tentar se esconder.
Quase ninguém conseguiu correr. Quase ninguém conseguiu se esconder. Obviamente as crianças foram as primeiras a serem alertadas, mas os jovens, os adultos, aqueles em maior quantidade não puderam fazer nada a não ser evitar ao máximo que aqueles homens com armas brancas chegassem nas crianças, no futuro daquela espécie.
Clarisse ja sabia o que fazer, para onde correr e, sendo uma das mais prestativas, como ajudar os outros, seus amigos. Então foi uma das primeiras a perceber que havia alguma coisa de errado na parte de fora da sua casa e que seus pais haviam acordado mais cedo do que de costume
_... Mãe? - perguntou ela se dirigindo a sala
_ Clarisse, abaixe! - disse sua mãe e ela assim fez, ainda acordando do sono mal acabado - quietinha entendeu?!
Assim que sua mãe disse isso ela percebeu o que estava acontecendo. Porém, sua curiosidade de criança foi maior do que o medo de ver um humano naquele momento, afinal... Eles não poderiam conversar? Porque queriam matar tanto assim seus amigos e até ela? Mas não, ela tinha que obedecer, para o bem de todos.
_ Vá pelos fundos com ela, coloque perto das outras crianças...
_ Eu sei, eu sei!
Seus pais discutiam baixinho, de maneira quase imperceptível para Clarisse. Quando chegaram a uma conclusão, ouviram tiros perto de sua casa, Clarisse se segurou para não soltar um grito de susto, não de medo, e se abaixou ainda mais encolhendo a cauda e abaixando as orelhas, parecendo um gato encurralado. Ela nunca havia ouvido tiros e estes estavam tão próximos a sua casa... Será que alguem tinha morrido? Foi o que ela pensou.
_ Leve ela, leve! - disse seu pai
A mãe então se levantou rápido, puxou a menina pelo braço e começou a correr para fora de casa
Clarisse tentou acompanhar os passos rápidos da mãe, dando pulos, se segurando firmemente em sua mão, fazendo de tudo para não tropeçar e faze-la parar.
Chegando na parte mais segura da vila, Clarisse respirou fundo e tentou manter a calma, ela não podia se dar ao luxo de se derramar em lagrimas de medo naquele momento, talvez depois no colo de sua mãe, porque ela sabia que seriam poucos os sobreviventes. Ela já sabia disso.
_ Ela esta bem?
_ Não se preocupe, ela vai ficar bem - respondeu sua mãe a uma das mulheres - irei voltar para ver se falta mais alguma criança ou idoso.
_ Os idosos já foram, conseguiram sair.
_ Ah, que bom! - a mãe de Clarisse se aliviou - bem, não me esperem!
Ela saiu sem se despedir da pequena.
Clarisse sabia que não havia tempo para despedidas, além do mais, sua mãe viria daqui a alguns minutos, então começou a cuidar dos menores, mesmo ela sendo uma das menores, ela os abraçava acalmando os corações aflitos em busca de respostas, querendo saber onde estavam seus pais
_ Está tudo bem, tudo bem! - ela dizia - daqui a pouco tudo isso vai acabar...
Os tiros fizeram algumas gritarem de medo, outras se abaixarem no chão e chorarem aflitas, as mulheres e as crianças mais velhas tentavam manter todos em silêncio
_ Temos que sair daqui!
_ Ainda não podemos, tem mais crianças chegando!
_ Se não sairmos agora, nem essas nem as outras irão conseguir sair!
Os adultos discutiam e pensavam numa melhor maneira de sair com todos em segurança. Clarisse ainda pensava num meio de poder ajudar a todos, mas estava confusa, não sabia direito o que estava acontecendo e seus pais ainda não haviam chegado. Uma pontada de preocupação chegou nela, mas ela balançou a cabeça e fez se dissipar esse pensamento. Tudo vai acabar bem, era o que ela pensava. Só precisavam achar um novo lugar pra morar... Onde será que poderiam ficar? Isso ocupou seu pensamento e a fez ficar calma numa situação catastrófica.
_ Vamos dar a volta e...
_ Temos que sair por trás!
_ O plano não era esse!
_ O plano já era, não podemos continuar com...
Eles pararam de discutir assim que viram algo voando na direção deles.
Uma granada.
Nenhum deles havia percebido o quanto os humanos estavam perto daquele local, e já era tarde demais para fazer alguma coisa...
Ate um deles se jogar na frente da explosão, levando o maior número de dano, morrendo na frente de todos, voando pelo ares, sendo o herói todos.
A cena fez todos congelarem de medo e espanto. As crianças não sabiam o que fazer, viram tudo acontecer bem em sua frente, sem seus pais para cobrirem seus olhos, sem aviso prévio, sem...
Os adultos, depois do susto, foram os primeiros a se acalmarem e fazerem alguma coisa.
_ Corram!
Sem mais delongas, todos saíram em direções diferentes, perdidos sem saber para onde ir, apenas querendo sair dali.
Assim a vila foi desfeita, em uma noite fria, escura e triste, de maneira rápida e sem cerimônias. Quantos sobreviveram, não sei ao certo, mas o fato é que foram poucos. Depois que acharam aquela vila, foi fácil descobrir os truques e segredos que a grande maioria das vilas usava para se esconder.
E assim, a raça de híbridos quase foi extinta.
Felizmente a pequena sobreviveu.
Ela se perdeu dos demais, naquela noite, apenas correu para a floresta em busca de algum esconderijo, com vários homens armados correndo atrás dela.
Ela estava assustada, corria o mais rápido que podia, escalava, desviava e quase desaparecia. Mas os tiros perto de seus ouvidos faziam ela gritar de medo.
Ela ainda não entendia porquê eles queriam mata-la, mas sabia que se ficasse com apenas aquele questionamento, com certeza eles conseguiriam.
Ela infelizmente percebeu e descobriu que a realidade era mais triste e horrível do que um simples "vamos fazer as pazes com doces". Foi ali que ela se tornou madura. Da pior maneira possível.
A caçada demorou mais do que eles esperavam, dois dias de perseguição atrás dos sobreviventes. Ali, parecia que tudo estava perdido para aquela raça.
Até que a pequena encontrou alguém.
Quando os homens conseguiram acha-la novamente, ela correu para uma parte da floresta que ela nunca tinha ido... E foi lá que ela encontrou, em meio aos seus prantos, um garoto, andando lentamente para algum lugar, que ela não sabia onde era e nem se importava. O fato de ver outra criança mais velha, a fez sentir uma pontada de esperança, mesmo não sabendo quem ou o que era aquele estranho.
Mas sem pestanejar, ela correu e o abraçou, chorando, aos berros e pedindo:
_ Me ajuda, por favor, me ajuda!
O olhar frio que o garoto lançou a ela, fez ela sentir medo dele, mas não tanto medo quanto daqueles que a perseguiam.
_ Ali!
Ela ouviu e logo viu o bando se aproximando, com armas prontas para mata-la, então agarrou com força o garoto, que apenas observava. Quanto mais os homens se aproximavam mais ela sentia que tinha feito a escolha errada de ter ido atrás desse garoto, mais perdia a esperança... Até ele resolver fazer alguma coisa.
Com um simples toque, o garoto fez Clarisse se soltar dele e cair no chão. Se sentindo mais livre, o garoto se virou para aqueles homens.
_ Saia da frente! - gritou um dos homens a el.
_ E... Espere, chefe - falou outro - esse não é o....
O homem não terminou de falar e o garoto avançou na direção deles. Sem pestanejar, os homens começaram a atirar em direção ao garoto, ele por sua vez, desviava das balas como se aquilo fossem simples pedras sendo arremessadas, sem força alguma. Sua expressão era séria, fria, sem vida, parecia que aquilo que ele estava fazendo era fácil e até chato, cansativo, entediante...
Clarisse ficava admirada de ver o quanto o garoto conseguia desviar facilmente de tudo aquilo e tentava acompanhar os movimentos com os olhos, mas o perdia de vista.
Até que ele contra atacou. O garoto chegou por trás de um daqueles homens, e pegou a arma de sua mão. O homem se assustou e tentou fazer alguma coisa, mas o garoto foi mais rápido e deu o primeiro tiro. Os outros homens vendo aquilo, rapidamente viraram suas armas na direção do garoto, mas antes de pensarem em atirar, o garoto começou a atirar na direção deles. Com apenas um tiro em cada um, matou a todos.
Clarisse ficou surpresa, assustada e fascinada com o que tinha visto, mas ainda sem poder se mexer de medo, apenas balançava a cauda de um lado para o outro.
O garoto então foi ate ela. Parou em sua frente. Com movimentos calculados e breves. Não parecia... Como dizer... Humano.
O silêncio fez seus corações se acalmarem. De ambos, mesmo uma das partes não parecer assustado.
Clarisse pensava, olhava-o, tentava entender... Mesmo com tudo aquilo acontecendo ela só conseguia pensar em uma coisa.
_ .... Aaaaah já sei! - Clarisse gritou para ele e apontou em sua direção - Você é um robô!
O garoto parou e a observou, estático e sem reação, mas no fundo sentiu curiosidade, infelizmente não sabia demonstrar, afinal Clarisse estava quase certa.
_ Não sou um robô, sou um androide - ele disse sério, sem esboçar a mínima reação.
_ Um.... Androide? - Clarisse o olhou de lado com a cabeça caída, ela não sabia o que aquilo significava.
_ De que setor veio? - o androide perguntou, Clarisse não respondeu pois não sabia do que ele estava falando, e ele também não deu tempo da menina responder - Qual seu número? Quem comanda em seu setor? Sabe dizer de que região veio? Qual...
_ Espera espera! O que? Região? Eu vim.... Da minha casa - ela disse tentando entender as perguntas do estranho androide - e você? De onde veio?
_ ... Setor de testes.
Clarisse ficou ainda mais confusa, a casa dele se chamava "setor de testes?"
_ Onde... Onde fica isso?
_ Não sabe? Todos nós deveríamos saber. Espere... - o androide a olhou de cima a baixo, ela se sentiu envergonhada quando ele fez isso - ... Híbrida?
_ Hm? Sim, eu sou uma híbrida - ela sentiu receio quando ele disse isso, será que ele iria mata-la??
_ Então você não veio... - o androide parou a frase no meio - comentei informações sigilosas! Você! Esqueça já o que ouviu!
_ E... Eu não posso simplesmente dizer pra minha cabeça "esqueça o que ouviu"...
_ Se você não se esquecer eu terei que.... - o androide pegou uma das armas que havia no chão e mirou em Clarisse, que se assustou e ficou paralisada pensando no que poderia fazer.
Mas o androide, que já tinha questionamentos sobre si, começou a se perguntar porque deveria mata-la... Sim, suas ordens foram "matem todos que entrarem em seu caminho", mas até agora eram homens maus, com intenções ruins que queriam a todo custo atrapalhar e se livrar dele, fazendo ele sair de seu objetivo principal. E agora essa menina? O que deveria fazer com ela? Mata-la? Ele havia acabado de salva-la! Porque mataria algo que havia acabado de proteger? Aquele androide não conseguia entender.... Estava confuso com a decisão que deveria fazer e isso o deixava de certa forma fascinado. Nunca havia pensado em tomar uma decisão antes, sem precisar que alguém ficasse em seu controle e simplesmente fizesse. Ele não sentiu ninguém dizendo a ele o que fazer...
Por isso ele abaixou a arma e começou a pensar, Clarisse o olhou desconfiada.
_ Você.... Você vai me matar? - ela perguntou
Isso deixou o androide ainda mais confiante a tomar uma decisão, a pergunta da garotinha, que ele ainda não sabia o nome, com aquela voz fina de criança, olhar atento, preocupado e com medo, fez ele pensar muito... Mas depois conseguiu responder, olhando a criança fixamente, fazendo uma promessa que apenas ele entenderia.
_ Não - ele disse com uma voz grossa demais para sua idade e estatura - irei protege-la, custe o que custar. Até completar meu objetivo.
Clarisse ficou fascinada com as palavras daquele androide de pele humana, cabelos lisos escuros e olhos verdes, ele se parecia com ela.
No final ela entendeu que ele estava fazendo uma promessa a ela, então ela resolveu fazer também, mesmo não entendendo direito a importância da promessa que o androide havia feito a ela, porque ela apenas queria imita-lo
_ Então... Então eu vou ser sua irmã!
_... Não posso ter laços emotivos
_ Nossa que triste... Mas porque? Você ja teve?
_ Não, mas não podemos...
_ Então agora você vai ter - Clarisse sorriu para ele
_ ... Terá
_ O que?
_ "Então agora você terá" e não "vai ter"
_ Ah, você pode me ensinar mais português?!
_ Eu...
_ Ah, por favor, maninho! - ela disse aquilo como se o androide fosse alguém muito próximo a ela, e não alguém que havia acabado de conhecer.
Clarisse sabia que todos os seus amigos estavam distantes agora, talvez até no novo mundo... Mas ela não podia chorar, não queria fazer isso, queria seguir em frente, pois foi assim que ela foi criada, ela sabia que um dia aquilo poderia acontecer. E agora, mais do que nunca ela precisava de alguém, um amigo... Um irmão
_ Bem eu... Posso lhe ensinar algo mas..
_ Oba! - ela pulou feliz - onde você mora?
_ Não tenho moradia fixa
_ Vamos fazer uma casinha então!
O androide não teve tempo de dizer qual era o seu objetivo, porque estava ali, para onde deveria ir. Mas ele fez uma promessa aquela pequena e deveria cumprir.
Por isso ele ficou, ajudou ela.
Se tornou o irmão que Clarisse precisava.

15 de Junho de 2019 às 21:38 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

kay Chan Apareceu pra mim uma raposa, ela contou sobre um outro universo, semelhante ao nosso, mas com algumas coisas a mais... Ou a menos. Felizmente ela me deixou narrar alguns acontecimentos e outros ela mesma me deu livros que já tinha escrito sobre tudo aquilo. E agora, cá estou eu, publicando certas coisas sobre esse universo, descobrindo-o junto com ela. Obviamente não conheço apenas ela e sua história, mas, sem dar spoilers, vocês conhecerão junto comigo então... Bem vindo a tudo isso!

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