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crimsonqueen Karina Pontes

I think I'm paranoid and complicated I think I'm paranoid, manipulated


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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A carta

Minha bem-amada, minha amargurada. Você, que perante a lei cortou a pele e os músculos; que prendeu os cabelos para sempre; que pintou os lábios de vermelho; e que desejou viver com o ranger gritante dos ossos. Suas dualidades bígamas com o caos casavam tão bem quanto Diego e Frida.

O nosso próprio abandono resultava no esfarelar do teu esqueleto. Quando se ver olhando no espelho, com pedaços em falta, movimentos lentos e uma infinitude de sangue rubro caindo continuamente no vazio, perceberá seus olhos vidrentos, sua maquiagem bem cuidada, e a adocicada beleza de quem tem, à eternidade, a juventude dos rebeldes sem causa. E gritará cara a cara para o teu não-eu dos campos líricos e pacíficos. Cuspirá renúncias, saudades oscilantes e tremores superados. Suspirará em êxtase pelo agora, e passará os dias aliviada. Então, jamais verá em teu reflexo a vida não viva dos túmulos encarcerados nos céus. Pois da tua esmeralda, o renascimento esperou, como aquela borboleta dos verões quentes que quase se sufocou ao sair dos casulo íngreme.

Te abandonei pelas próprias inseguranças do eu. Voltei para minhas aventuras dentro do quarto azul bagunçado, ao caminho do posto de gasolina, à busca do querer e desejar ser.

Para os dias adolescentes do viver, minha gratidão e sensatez. Às agulhas ígneas e lastimosas das conjugações do dever pelo dever, minhas palavras de baixo calão. Os que a nós querem que quebremos nossa mente e estendam nossos cérebros para esmaga-los com amaciantes de carne férreos.

Impedidos de entender o antagonismo dos interesses no respirar do cárcere, expelindo a reação do veneno benfeitor dos pulmões, e pulverizando a ação do tempo, respirávamos, mas sem sinais de consciência, apenas eliminando os rejetos ardilosos das cargas explosivas do engolir de palavras indignas, no qual corpo habitava a água e apenas a água.

E tentamos. E abandonamos. E choramos. E nos lastimamos. Aprendemos da melancolia a companhia subjetiva. E com a excitação de minhas asas, era impossível esconder os rastros penosos da rua de mão dupla que uma vez dividimos. E voei o mais alto até desdenhar da tua fumaça de perversão e fragilidade. Zombei de teu vazio generalizado até me equiparar ao teu lado e te ver tão específica quanto sempre foi; amando a quem queira e possuindo a quem deseja, com a continua luta de limpeza exterior e interior, afinando o queixo e retirando os pelos fatias insípidos.

Sua mãe sempre me disse que dentre os bobos que tu era, eu era o maior deles.

15 de Junho de 2019 às 01:44 0 Denunciar Insira 0
Fim

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Karina Pontes ♤ lonely in gorgeous ♤

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