Algo na Escuridão Seguir história

hunterprirosen HunterPri Rosen

Quem nunca acordou de um pesadelo e sentiu que não estava sozinho no quarto? Quem nunca sentiu que havia algo na escuridão?


Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Todos os direitos reservados.
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Capítulo Único

Quem nunca checou se a porta de entrada estava mesmo trancada antes de ir dormir? E as janelas? Quem nunca se sentiu angustiado ao fechar os olhos durante o banho, apenas por alguns segundos, e teve a forte sensação de que não estava mais sozinho ali? Quem nunca teve medo de abri-los de novo e descobrir que não era apenas uma sensação? Quem nunca manteve os olhos bem abertos a partir desse dia?

Quem nunca ficou incomodado ao acordar de madrugada e notar que uma porta do guarda-roupa estava entreaberta? E teve a impressão de que algo ou alguém terminaria de abri-la a qualquer momento, rompendo a escuridão do móvel e indo diretamente até você, tão indefeso e sonolento em sua cama?

Quem nunca acordou tão atordoado de um pesadelo, um pesadelo tão real e aflitivo, que precisou, urgentemente, acender a luz às pressas para se certificar de que não havia algo maligno, à sua espreita, em seu próprio quarto? Talvez aos pés de sua cama? Ou... embaixo dela? Algo que, de alguma forma inexplicável ou sobrenatural, poderia ter migrado da dimensão dos sonhos perturbadores para o mundo real? Para o seu mundo?

Rachel tinha todos esses medos. Provavelmente, assim como eu e você. Afinal, todo ser humano, em algum momento da vida, sentiu ou sentirá ao menos algum deles. Acredite. Se você ainda não sentiu, esse dia chegará.

O agravante está no fato de morar sozinho. Não ter a quem recorrer num momento de angústia. Uma presença familiar, um amigo ou até mesmo um animal de estimação que justifique um estranho ruído ouvido no silêncio da madrugada. Ou apenas alguém para te tranquilizar depois de um pesadelo aterrador. Um pesadelo como aquele do qual Rachel havia acabado de despertar.

Sua reação natural seria pular da cama e correr até o interruptor. Entretanto, não pôde fazê-lo desta vez.

Detestava quando isso acontecia, mas infelizmente não podia vencer o peso no peito que mantinha seu corpo imóvel sobre os lençóis molhados de suor, preso à sensação angustiante do pesadelo.

Rachel só tinha controle em relação aos seus olhos — arregalados de pavor —, à sua boca — seca e entreaberta — e à sua respiração — descompassada e ofegante.

Angustiada, puxou o ar com força e fechou os olhos, tentando se acalmar. Geralmente, a paralisia do sono durava menos de um minuto. Infelizmente, eram os segundos mais longos de sua vida.

Rachel respirou fundo mais uma vez e moveu os dedos das mãos ligeiramente. Aliviada pelo efeito da paralisia dar indícios de que estava passando, tornou a abrir os olhos e fitou a escuridão do quarto. Não devia ter feito isso.

Agora, cada sombra e cada canto escuro parecia conter uma ameaça oculta. Uma ameaça que parecia mais evidente toda vez que os relâmpagos provenientes da tempestade que caía lá fora iluminavam o quarto por breves segundos.

Para piorar, o som sequencial e rouco de trovões se misturava com um ruído agudo que Rachel não sabia se estava ouvindo mesmo ou se era fruto de sua imaginação pressionada pelo medo crescente.

Aflita, fechou os olhos e se concentrou no misterioso barulho. Desconfiada da origem do som e percebendo que já conseguia mover o pescoço, olhou para a janela no outro lado do quarto.

Rachel sentiu um profundo alívio ao concluir que, à medida que o vento forte balançava a árvore que ficava no fundo do quintal, um galho riscava o vidro da janela continuamente, causando o ruído incômodo.

Tal alívio só durou até o próximo relâmpago. Foi quando a garota teve a impressão de ver algo pelo canto do olho. No lado oposto ao da janela, fazendo com que ela virasse a cabeça rapidamente para checar o que era.

Rachel fez uma nota mental para mudar aquele enorme e maldito espelho de lugar no dia seguinte. Mas, por ora, não pôde conter o ímpeto de olhar, pelo seu reflexo, a escuridão absoluta embaixo da cama.

Ficou assim pelos instantes que se seguiram. Com a impressão de que algo havia se movido sob o colchão e, na sequência, convencendo a si mesma que só estava assustada e imaginando coisas.

Quando finalmente a paralisia passou por completo, a garota afastou o cobertor com um gesto rápido, levantou num pulo e correu até o interruptor. Desesperadamente, tateou a parede a sua procura e, por um momento, achou que nunca fosse encontrá-lo. Mas lá estava. Rachel finalmente esbarrou no interruptor segundos depois.

Com os dedos trêmulos e o coração disparado, acendeu a luz no exato instante em que ignorava uma onda de pânico e a certeza de que havia alguém ou algo bem atrás dela, aproximando-se.

Enfrentando o próprio medo, a garota virou-se rápido e percorreu todos os ângulos do quarto com o olhar agitado. Aos poucos, a angústia deu lugar ao alívio pois não havia nada nem ninguém ali além de Rachel.

À medida que se acalmava e sua respiração se tornava mais regular, ela passou a se sentir muito idiota por ter ficado tão assustada com um pesadelo sem importância, a ponto de imaginar que havia algo na escuridão daquela madrugada comum. Chuvosa, mas totalmente comum.

Rachel tinha vinte e poucos anos, morava sozinha há cerca de seis meses por conta da faculdade, como ainda podia se comportar feito uma garotinha assustada daquele jeito? Ou como uma adolescente depois de assistir a um filme de terror e ficar impressionada?

“Foi só um pesadelo, sua idiota” resmungou entredentes, obrigando suas pernas a pararem de tremer e acalmando-se por completo.

Ao passar as mãos pelo rosto e notar como estava suada, ela caminhou até o guarda-roupa, abriu uma das portas e retirou de lá um pijama.

Deixou o quarto na sequência, decidida a tomar um demorado banho no toalete anexo ao recinto. Contrariando um resquício de medo, fez questão de fechar os olhos enquanto a água morna percorria seu corpo e dissipava a tensão em seus músculos.

Ignorou, com todas as suas forças, a sensação irracional de que não estava sozinha. A sensação de que algo ou alguém a observava pelo box embaçado pelo vapor.

Por fim, vestiu-se e voltou para o quarto com a sensação de dever cumprido. Havia enfrentado e vencido seus medos primitivos.

Relaxada e exausta, Rachel fechou a porta do guarda-roupa ao passar por ele e despencou de bruços na cama. O barulho de chuva, outrora assustador, agora era quase aconchegante, um convite para voltar a dormir profundamente.

Ela puxou o cobertor quase por instinto e fechou os olhos. Só então percebeu que a luz do quarto permanecia acesa. Praguejou em pensamento por ter se esquecido de apagá-la antes de deitar. Estava tão bom ali. A preguiça e o sono dançando entre si e convidando-a para uma sublime valsa. A cama quentinha e macia. A sensação de segurança e conforto envolvendo-a pouco a pouco.

Por mais que fosse tentador se render e dormir com a luz acesa mesmo, Rachel se convenceu do contrário. Então tomou impulso para levantar novamente.

Foi bem nessa hora que ela ouviu uma espécie de click. E, de repente, se viu mergulhada na mais absoluta escuridão.

Algo ou alguém havia apagado a luz antes dela.

Paralisada por uma nova onda de medo e pavor, Rachel viu o quarto ser iluminado por mais um relâmpago. E então descobriu que, infelizmente, não estava sozinha...


Notas finais: fontes de inspiração para este conto o episódio 8X04 Listen de Doctor Who e o curta de terror Lights out (https://www.youtube.com/watch?v=tYGIug0sYEM

12 de Junho de 2019 às 14:41 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

HunterPri Rosen You know who I am. Oi? Caçula de três irmãs, apaixonada por dogs, lufana. Sou Hunter, Whovian, Grimmster, fã de Friends e de mais uma pá de séries. Adoro filmes de suspense, terror sobrenatural e clássicos de ação. AMO livros e fan(fictions) de vários gêneros.

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