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Achados e Perdidos

"Olá, veja se eu tenho o que você procura"

É o que diz o aviso da grande caixa de metal na estação do metrô, é o que faz Edgard pensar no futuro, e no que vem fazendo até hoje.

Após sua demissão do escritório em que empenhava 9 horas de trabalho exaustivo; após a impotência em proteger Agatha sua irmã e secretária de seu patrão abusada todos os dias pelos verbetes nojentos e propostas imorais, somadas a ameaças daquele asqueroso homem; após o abandono parental que sofreu depois do falecimento de sua mãe, e o sumiço repentino daquele que deveria protegê-lo como pai; após seu vício em cigarro e corriqueiras bebedeiras noturnas em que não havia auto-controle, retornarem com força total; após o oblívio de suas memórias, que o enganavam todos os dias, relembrando apenas o que houve de bom em sua vida, todos os 7 momentos que viveu, em 27 anos de vida; após o drama todo proposto por essa vida revoltante e acostumada que ele vivia; Após Edgard se esquecer totalmente e achar ser apenas mais um derrotado, ele vê a caixa de achados e perdidos, que o faz entrar num diálogo interno esquisito entre ele e um objeto inanimado, que o pergunta:


- Olá, veja se eu tenho o que você procura.

- Olha essa foi uma boa pergunta... (ele diz, em descontentamento)

- E você acha que eu não sei disso? (responde a caixa)

- (Ele ri despretensiosamente) Esse é o ponto máximo da solidão? Uma insanidade que me faz conversar com uma caixa de "Achados e Perdidos"?

- É pior do que isso meu caro, qual a voz que tenho para você?

- Nunca ouvi na vida

- Então nós descobrimos seu grande problema, porquê eu tenho a sua voz

(um relâmpago acende a luz da estação por alguns segundos, tempo suficiente para notar que não há ninguém ao redor de Edgard e a caixa)

- Eu...nunca notei... até que me parece uma bela voz, más conota bastante tristeza você não acha?

- Eu não tenho critério algum meu caro... Como poderia eu, notar o que falta em você, ou que há em você, sendo que nem você existe mais?

- Diga-me então, qual a sua serventia?

- Guardar aquilo que se perdeu, e manter dentro de mim o que se notou estar perdido por algum apressado, que deu a devida importância nos primeiros minutos de desespero, más depois de tanto procurar nos mesmos lugares, desistiu do que se foi, e se contentou com a perda, pois tudo que se tem é ilusório, tudo que se possui é passageiro, tudo que se adquire se desgasta, e pode ser facilmente descartado.

Edgard dá uma boa olhada no interior da caixa, e lá encontra seu nome numa garrafa de vidro com uma estranha fumaça acinzentada, no interior, escrito com tinta preta a palavra "Eu", ele retira a garrafa da caixa, e volta a realidade, onde suas mãos, banhadas em sangue, seguram uma garrafa de vinho quebrada, alguns estilhaços no chão fazem um tapete de agonia a um corpo quase morto, Ele sorri mesmo assim, com esperança que algum dia, voltará a si, pois havia achado seu eu, que há muito se perdeu, e a tudo isso deu um fim.

8 de Junho de 2019 às 20:01 0 Denunciar Insira 0
Fim

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