Super-robôs não te deixam colar na prova Seguir história

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Ainda acha que os executivos rejeitarão o projeto? Como isso é possível? Imagine o quanto o governo vai economizar utilizando professores-robôs. Um só para cada sala, capaz de ministrar todas as matérias... Como assim, a sociedade rejeitará a falta de fator humano? Só há vantagens. Robôs não adoecem. Não faltam. Não fazem greve. Não exigem nenhum tipo de pagamento a não ser os custos de manutenção... Espere até os alunos verem esta belezinha. Ficarão tremendo de medo! Quem não quiser estudar, estudará na marra...


Ficção científica Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#robôs #distopia #cyborg #androide #futuro #professor #escola #Inteligência-Artificial #asimov #robô #robótica #Droid #Educação #Ensino #Máquina
Conto
2
2337 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Capítulo Único

Super-robôs não te deixam colar na prova


Dedicado a Paul Verhoeven e seu "Robocop".


Inspirado no conto "Programação", de Camille Pezzino (Srta Pezzino).


A caixa em que se viu fechado lembrava o mundo cômodo de uma caverna escura, assim como a alegoria de Platão da qual tanto falava em suas aulas. A recordação ativou o biochip em seu cérebro, fazendo uma mensagem piscar no visor digital constituindo agora sua visão:

"Platão". Filósofo grego. 428 a 347 a.C., datas aproximadas. Deseja acessar este conteúdo de Filosofia (S/N)?

Ativou o comando neural para excluir a solicitação. Seu corpo biomecânico emitiu estalos metálicos conforme ensaiou os primeiros passos ainda no escuro. A barra de monitoramento hormonal ao canto do visor indicou perigoso aumento de adrenalina em seu sangue sintético. Por que estava nervoso? Os dados não computavam.

Sons vieram do lado de fora. A caixa estava sendo aberta. A fresta de luz entre as metades da porta logo se transformaram na claridade do dia. As pupilas dos olhos biônicos se contraíram em estimados 45%. Conforme o mundo exterior se tornava nítido, suas pernas de fibra de titânio o levaram finalmente para fora.

Os homens de terno à direita e à esquerda da caixa o receberam com palmas. O software de interação social conteve o impulso da parte orgânica de seu cérebro de bater palmas junto com eles – constituía comportamento constrangedor ovacionar a si mesmo. O banco de dados identificou-os como executivos da companhia. A cabeça se moveu na vertical num leve aceno de referência, o gesto sendo salvo para uso futuro. Interação social incrementada em 1,5%.

A porta da sala estava aberta diante de si, novo portal convidando-o a passar depois de já ter deixado a caixa. Caminhou em linha reta. Um aumento no nível de serotonina foi detectado em seu sistema nervoso pelo pensamento de seus braços metálicos não precisarem mais sofrer com o peso dos livros. O visor piscou com uma mensagem de erro, depurada logo em seguida. Caíra numa contradição lógica: dali em diante, não precisaria mais carregar livro algum.

Adentrou o recinto. Era uma sala de aula padrão. Lousa verde de ardósia, o popular "quadro negro", feita para se escrever com giz. Aparato característico do século XX e tempos anteriores, o que causou uma confusão cronológica em seu banco de dados. A mensagem seguinte indicou que problematizar a questão ia contra seus protocolos. O exame da sala continuou.

Quarenta carteiras dispostas em cinco fileiras. Estas estavam imperfeitas, com os alunos sentados em duplas, trios ou de modo torto. Seus sentidos entraram em alerta, gerando dezenas de relatórios simultâneos. Os níveis de indisciplina daquela escola eram estimados em 85%. Apenas vinte e sete das quarenta carteiras encontravam-se preenchidas. Outra mensagem no visor veio detalhar o fato: os níveis gerais de evasão naquela unidade de ensino estavam em 72% e aumentando.

A barra de adrenalina aos poucos esvaziou. Os níveis do hormônio se normalizaram. O sistema prosseguiu com os relatórios direcionando-os aos alunos. A atenção deles em si estava captada em 99%. Um retículo de mira vermelho percorreu o panorama da turma em busca de ameaças. Um grupo de três estudantes manuseava canivetes ao fundo da sala, interrompendo o que fazia assim que ele adentrou o local. As facas foram guardadas nos bolsos das blusas, a informação salva no banco de dados para posterior relatório à direção. Procurou conservar a atenção da turma centrada em si, ainda que seus sensores denunciassem a causa como um choque emocional: corpos rijos, olhos arregalados e batimentos cardíacos em franca aceleração. O diagnóstico mais plausível era o espanto diante de um ser sintético. Tentou salvar a ação para uso posterior, mas os parâmetros de lógica não deixaram: as chances de aquela impressão ser causada uma segunda vez eram de apenas 23%.

Os homens de terno também entraram na sala, iniciando seu discurso ensaiado sobre a introdução das tecnologias CyberTeaching® nas escolas. Nenhum dos estudantes aparentava ouvir. Os sensores ainda acusavam um nível de choque de 82%.

- Onde está o professor Marcos? – a fala de um aluno foi detectada.

Começou a verificar as informações no banco de dados a partir do mapeamento facial do rapaz. Meireles, Fabio. 17 anos. Aptidões em Matemática e Física. Melhoria significativa do desempenho em Filosofia nos últimos 8 meses. A principal causa atribuída era a afinidade com o professor anterior da matéria.

Subitamente, a barra hormonal começou a encher mais rápido do que antes. Mensagens alertavam para o risco de erro. Uma representação 3D do que restava de seu cérebro orgânico foi projetada no visor, girando conforme diversas áreas se acendiam em vermelho.

Meireles, Fabio. "O único aluno que prestava atenção em minhas aulas". Erro. Conflito de protocolos. Dados não computam.

O acesso à memória orgânica foi cortado, os dados se corrompendo. Resquícios de informação ainda conseguiram burlar a contenção. Gilbert Ryle. Fantasma na máquina. As contradições da linguagem. "Deseja acessar este conteúdo de Filosofia?". Não! Não. Serei eu agora... o fantasma?

- O professor Marcos infelizmente não vai voltar – um dos homens de terno respondeu diplomático. – Mas agora vocês serão os primeiros a ter contato com esta revolucionária tecnologia. Estão tendo um privilégio!

Os níveis de adrenalina voltaram a baixar. O aluno autor da pergunta permanecia em estado de choque. O nível de suor dos executivos havia aumentado em 35%. Incremento muito rápido até mesmo levando em conta os ventiladores quebrados da sala.

A situação pareceu estar normalizada. O nível de adrenalina dos alunos também caiu. Seu sistema operacional iniciou os procedimentos para a aula. Checou a grade de horário. Selecionou a matéria. "Língua Portuguesa". Subdivisão: "Literatura Brasileira". Centenas de imagens cruzaram suas retinas num só instante. O banco de dados foi aberto e o plano de trabalho, acessado. Um aviso em amarelo revelou que o professor anterior deixara o conteúdo atrasado.

Optou por reiniciar o conteúdo pendente. "Modernismo – 1ª Geração". O nível de aprendizagem da turma nos conteúdos anteriores era incerto – não constava nos dados. Uma frágil estimativa informava 16%. Seu lado orgânico cogitou reiniciar a matéria do zero. Uma mensagem de alerta surgiu. Retornar aos conteúdos comprometeria os prazos. Os números, as aprovações. Provas diagnósticas. Cancelou o comando. Os prazos eram prioridade operacional.

Iniciou as sub-rotinas de aula. "Explicação". Calibrou a voz sintética para o perfil da turma: 13% lúdico, 87% autoritário. Configurou a velocidade e peso dos braços para escrever com o giz. Entre estalos e rangidos, iniciou o texto na lousa. "Semana de Arte Moderna de 1922"...

Tendo de dar as costas à turma, iniciou o reconhecimento do ambiente.

O sistema acusou gradual perda do domínio de sala. Os captadores de som mediram 62% de aumento na intensidade do barulho. 75%, 82%... Os diagnósticos classificando o fenômeno como "burburinho" logo foram atualizados para "algazarra". Filtrou algumas das falas simultâneas dos alunos, isolando-as em arquivos de som separados. Examinou um deles. O principal assunto: ele próprio.

Voltou cabeça e corpo para trás. Notou que os homens de terno haviam deixado a sala. Estava agora sozinho com os alunos, o teste final para seu sistema biomecânico. O radar foi ligado para prevenir ações hostis e rastrear movimentos não autorizados no interior da classe. Tornou a virar-se para a lousa. No mesmo instante, um objeto em velocidade crescente foi detectado vindo em sua direção, possuindo medidas de um por cinco centímetros.

O sistema de contenção balística reagiu a tempo. Sem precisar sequer voltar-se, seu punho livre apanhou o projétil ainda no ar – um pedaço de giz – e fechou-se, esmigalhando-o entre uma lufada de poeira. A classe entrou em completo silêncio no tempo de dois segundos e meio. O punho metálico se abriu, deixou voar os resquícios de pó ainda entre os dedos, e então se abaixou.

A outra mão continuou escrevendo na lousa, concluindo um parágrafo introdutório sobre o assunto.

As principais inspirações do movimento modernista foram... – a voz mecânica foi sintetizada alta o bastante para ser ouvida em toda a sala, ecoando pelos corredores da escola feito um pronunciamento via alto-falantes. A cada palavra dita, rompantes de memória interferiam no sistema operacional a ponto de comprometerem o andamento da aula. As lembranças vinham em fragmentos, iguais a um pacote de dados maligno baixado de uma rede não autorizada. Berros para pôr ordem na classe. Explicações feitas junto a uma só carteira lutando contra o barulho ao redor. Rouquidão. Dor. Calo nas cordas vocais.

Não mais?

O pensamento veio alto, inesperadamente reproduzido por seu sistema de som. A explicação acabou cortada na metade, atraindo a atenção até dos alunos que não davam a mínima para a aula. O aviso de erro piscou em seu visor no vermelho mais intenso desde que fora ligado. O software de interação social recomendou a retratação pública como melhor procedimento a ser adotado. 93% de chances de a credibilidade da marca não ser comprometida.

Perdoem-me.

A cintura mecânica rangeu enquanto se voltava mais uma vez para a lousa. Um segundo parágrafo foi iniciado, porém a pressão nos dedos aumentou inesperadamente e o giz quebrou. Um compartimento abriu-se de dentro para fora em seu peito, algo como um armário embutido em seu exoesqueleto – e de dentro dele retirou outro pedaço. Ao mesmo tempo, o sistema de monitoramento orgânico acusou estranho comportamento de seu sistema nervoso parassimpático, com intensa liberação do neurotransmissor acetilcolina.

Sequer precisou acessar os arquivos da matéria Biologia para que o banco de dados informasse ser o mecanismo responsável pelo ato de chorar nos seres humanos.

Os mecanismos de equilíbrio nervoso foram ativados, eliminando os estímulos do neurotransmissor – embora a atividade cerebral se mostrasse inofensiva levando em conta que suas glândulas lacrimais não mais existiam.

Tentando interpretar a anomalia como alguma necessidade do sistema, o mecanismo de lubrificação dos olhos artificiais acabou acionado, um óleo especial liberado sobre as peças internas responsáveis pela rotação dos globos.

Aos olhos dos alunos, o professor-robô continuava impassível.

Todos os indicadores e diagnósticos de erro desapareceram. Sistema operando em 100% de normalidade.

A ideia de organizar a Semana de 1922 foi...


X - X - X


O bater do sinal causou a reação imediata de os alunos deixarem a sala. Conforme se dirigiam à porta, cada um lançava sobre ele algum tipo de olhar – fosse de medo, incompreensão, raiva ou até mesmo pena. Diferente da barulheira que costumava ser, a marcha até o intervalo mais pareceu um cortejo fúnebre em referência a alguém desaparecido de seu convívio. A referência do aluno Meireles ao "Professor Marcos" devia explicar o fenômeno. O sistema detectou crescente aumento de atividade em seu tronco cerebral. Os mecanismos de contenção, já de prontidão devido ao recente problema com a acetilcolina, agiram rápido.

Foi o último a sair da classe, as pernas mecânicas dobrando-se entre estalos. Ganhou o corredor, um rápido acesso à planta 3D da escola em seu visor bastando para traçar a rota até a sala de manutenção – um dos almoxarifados do prédio, adaptado com o equipamento necessário para reparos e a troca de suas células de energia. Virou-se na direção correta e prosseguiu.

Pelo caminho, diversos indivíduos encontravam-se envolvidos em variadas tarefas. Todos eram identificados por seu sistema de reconhecimento facial – algo facilitado pelo fato de não haver quem não se voltasse para ele quando passava. Mirtes, Luíza, faxineira. Bastos, Maria e Cunha, José, alunos do nono ano "B". Fernandes, Ronaldo, agente escolar. Comum a todos eles, o espanto e a curiosidade em relação à sua figura. O tempo estimado para que a escola se habituasse a um funcionário sintético foi estimado em 2 meses, 1 semana e 4 dias. Conforme novos rostos assombrados apareciam, o cálculo era incrementado em dias. Semanas.

Chegou à escada levando do primeiro andar ao térreo. Na subida, fora empurrado no interior de sua caixa, sem precisar enfrentar os degraus; mas agora seu sistema de adaptação ao terreno seria testado. O peso das pernas foi calibrado, tal qual o ângulo máximo das articulações. Estendeu um pé rumo ao vazio do primeiro degrau... e conseguiu pousá-lo sobre a estrutura sem problemas. O segundo pé também desceu num movimento quase idêntico – e o padrão, repetido escada abaixo, logo permitiu que chegasse ao solo. Desempenho da tarefa analisado em 97% contra os 23% dos robôs de pacificação urbana, que não sabiam descer escadas. Um memorando foi arquivado para mais tarde transferir os dados à equipe de desenvolvimento. Eles achariam úteis.

Novo corredor, e a sala de manutenção já estava próxima. Mais pessoas surgiram, saindo dos banheiros ou se dirigindo em grupos até uma das últimas portas do percurso, de madeira surrada contendo alguns impropérios pichados com spray, provavelmente pelos alunos. Passou diante dela, encontrando-a semiaberta. Uma confusão de conversas simultâneas provinha de seu interior, assim como um forte cheiro de cigarro e café. Seus sensores apitaram.

Altos níveis de nicotina e alcatrão detectados no ambiente. Deseja iniciar protocolos de instrução antitabagismo (S/N)?

Seu sistema de interação social bloqueou a medida, fornecendo a justificativa de que o comportamento seria esperado em relação aos estudantes, mas não se tratando dos demais professores da escola; e a planta 3D acusou, simultaneamente, ser aquela a sala em que se reuniam durante os intervalos. A partir dos dados de suas fichas pessoais, os níveis de desconforto e receio em relação a conviverem com um colega sintético eram avaliados em 78% e 82%, respectivamente, o que exigia cautela.

Seguiu seu trajeto, o falatório dos professores ficando para trás, mas não a intensa mistura de odores, principalmente o de café. Os pulmões artificiais começaram a trabalhar para filtrar os incômodos vapores, quando o sistema nervoso voltou a atingir picos de atividade. Adrenalina, acetilcolina. Os procedimentos de contenção tornaram a agir, mas as barras hormonais subiram rápido demais. Novos sinais de alerta. Diante da porta da sala de manutenção, ao término do corredor, seu corpo biomecânico travou – a mão direita e o dedo indicador já erguidos para inserir a senha de acesso no painel de segurança.

Petrificado feito uma estátua de sucata que custara milhões, ele passou a viver intensa luta interna. Os dispositivos de bloqueio continuaram trabalhando, tentando barrar o fluxo de memórias feito uma mão tentando prender água entre os dedos. O líquido que escapava, por sua vez, passou a inundá-lo de flashes, cenas de outra vida, trazidos pelo cheiro de café velho de garrafa térmica. Café. Tomar café. Talvez isso resolvesse os problemas do sistema e acabasse com aquela porcaria de apitar dentro de sua cabeça...

O visor piscou. Chiou. Retorceu-se numa imagem. Uma alta pilha de folhas brancas diante de si, sobre uma mesa. Provas. Numa das mãos, uma caneta vermelha. Apanhar cada folha, ler, rabiscar, atribuir nota. De novo, e de novo. Café. Cansaço. Lesão por esforço repetitivo. Sono. Dormir cinco horas por noite. Mais café. Entregar as notas a tempo. Metade da sala deixou as provas em branco – "Que sorte, pule duas casas!". Exaustão, pálpebras de chumbo. Quinto copo de café até a borda. Dormir?

Pouco tempo de descanso, som irritante do despertador. Cinco horas? Os números na tela do celular não têm clemência. Levantar-se, ducha quente sobre a cabeça que nem teve tempo de esfriar. Trocar de roupa. Mais café. Sair de carro para o trajeto de quarenta e cinco minutos até a escola do outro lado da cidade. Ruas vazias no bairro, depois a avenida perigosa. Motoristas loucos e imprudentes em plenas seis horas da manhã. Esquina em que quase batera várias vezes. Desviar da caminhonete. Lentidão pelo sono, agiu tarde. Muito em cima. Batida frontal.

Mundo girou. Vidro estilhaçando. Corpo esmagado contra o painel, vértebras partidas pelo cinto de segurança. Porta retorcida sobre seu braço esquerdo. Dor lancinante. Olhou para a esquerda. Ombro decepado, centímetros de osso à mostra. Sangue esguichando, tingindo o teto do carro. Adeus, braço esquerdo. A dor alastrou-se pelo corpo. Dormência. Pernas e abdômen prensados. Virilha esquartejada. Adeus, futuros filhos. Cabeça leve feito um balão, vagueando. Visão manchada de vermelho, ficando opaca. Apagou-se.

Despertar num espasmo. Choque elétrico, reanimando cada fibra de seu corpo. Seu... corpo? Não mais seu corpo. Ergueu a cabeça, viu a si próprio sobre a maca. Partes de metal entranhadas na carne. Membros inteiros de titânio. Braço e mão direita mecânicos. Moveu-os, emitindo sons artificiais feito uma garra de robô numa linha de montagem. Olhou para a esquerda. Ombro ainda decepado, mas dele saíam agora fios ao invés de osso. Cabos coloridos. Percorriam uma boa extensão da sala de azulejos brancos até uma mesa mais distante, interligando-o a outro braço de metal, testado por pessoas de jaleco.

Uma picada em sua nuca. Escuridão, de novo.

Nova retomada de consciência, mas sem visão. Dormência. Ouvidos apurados, cada mínimo som gerando eco. Hipersensibilidade. Vozes falando ao redor dele. Como se não estivesse ali.

Ainda acha que os executivos rejeitarão o projeto? Como isso é possível?

Imagine o quanto o governo vai economizar utilizando professores-robôs. Um só para cada sala, capaz de ministrar todas as matérias...

Conseguimos salvar boa parte do cérebro da cobaia intacto. Vamos mesmo utilizá-lo em conjunto com a IA? Não haverá conflito?

Em esquema de rodízio, podemos até utilizar um só para duas, três salas, intercalando com janelas e dias em que os alunos fiquem em casa. Você sabe, as escolas públicas já são bem pouco frequentadas, não é?

Como assim, a sociedade rejeitará a falta de fator humano? Só há vantagens. Robôs não adoecem. Não faltam. Não fazem greve. Não exigem nenhum tipo de pagamento a não ser os custos de manutenção...

Vamos realmente incluir um sistema de contenção balística num robô-professor? A mesma tecnologia de nossos androides de pacificação urbana?

Espere até os alunos verem esta belezinha. Ficarão tremendo de medo! Quem não quiser estudar, estudará na marra...

Cirurgias. Reparos. Soldas. Luz e escuridão. Testes do visor. Maior zoom, menor zoom. Olhos artificiais funcionando OK. Sistema mimético de movimentação humana instalado com sucesso. Bancos de dados atualizados. Professor versado em 185 diferentes áreas do conhecimento. Qual deseja acessar?

E lá estava ele, ainda congelado diante da porta, indicador em riste diante do painel.

- O-oi? Seu Robô?

Seus circuitos voltaram a responder numa sacudida do exoesqueleto, clanques e voints mesclando-se conforme voltava o corpo para trás.

Era Fabio Meireles, o aluno do terceiro colegial.

Examinou-o de alto a baixo. A situação emocional do jovem estava bem mais controlada, embora a contração dos lábios e o olhar fixo no chão ainda demonstrassem receio, talvez vergonha, perante sua figura. O sistema de interação social sugeriu uma breve explicação sobre as Três Leis da Robótica para eliminar todo aquele temor em relação a um sintético. Um julgamento mais profundo, porém, vindo dos confins de sua consciência, negou o procedimento. A questão era outra.

- Fale – ele não precisou calibrar sua voz sintética para que o tom usado fosse de extrema empatia.

O garoto ergueu o olhar.

- Vai nos dar aula de Filosofia também? – sua voz misturava tristeza e um tipo incompreensível de esperança. – Se for, posso te passar algumas dicas. Sabe, o professor de antes estava começando a conquistar a turma. É um pessoal difícil, principalmente aquela galera do fundo, mas vale a pena insistir. E o senhor... sendo do jeito que é, tem mais recursos. Uns truques da hora.

Filosofia. Uma dúzia de mensagens surgiu em sucessão no visor questionando quais procedimentos desejava adotar para a matéria. Ao invés disso, no entanto, acessou o banco de dados e inseriu apenas dois termos: "Sartre" e "Existencialismo". O sistema indagou a razão de pesquisar termos tão distantes do atual conteúdo do terceiro ano. Ignorou quaisquer protocolos.

Lá estava tudo, não na forma dos verbetes arquivados em sua memória artificial, e sim nas lembranças do que lera e tentara aplicar ao máximo em sua vida. "Ser-para-si". Escolhas. "Nós somos as nossas escolhas". Na falta de um sentido maior em relação à nossa existência no mundo, cabe aos próprios mortais, de barro ou titânio, construírem seu próprio sentido.

A barra de medição hormonal, as mensagens de erro e o status do sistema de contenção do sistema nervoso sumariamente desapareceram do visor, restando apenas o quadriculado semitransparente que revestia suas pupilas sintéticas. Encarando o aluno, o software ainda ensaiou um exame das retinas deste para medir seus sentimentos, mas o dispositivo também foi desligado. Contentou-se com o brilho que os olhos dele adquiriram.

- Aproveite o intervalo e depois suba de volta à sua sala, para então conversarmos melhor – disse ao rapaz, colocando uma das mãos em seu ombro. – Avise que quando o sinal bater, o professor Marcos estará subindo.

29 de Maio de 2019 às 00:49 6 Denunciar Insira 124
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

Comentar algo

Publique!
Rafael Reis Rafael Reis
Caraca adorei a história, sem muita enrolação e gostei.muito do final xD, bem aterradora

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Obrigado por ler e compartilhar suas impressões, hehe. Fico feliz que tenha curtido e até se abalado, era a intenção. Abraços! 2 weeks ago
Henrique Simeon Henrique Simeon
Eu to completamente absorto com essa história. Achei muito envolvente, leve e inteligente. Cada palavra, a construção da parte emocional do texto, o dilema, a crítica diante da possibilidade de tal cenário. Muito feliz por tê-la lido, e um pouco triste por ser capítulo único haha.
11 de Julho de 2019 às 15:29

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Huahuahu, muito obrigado por ler e pelo feedback. Gosto muito desse texto e do processo de construção que o envolveu. Não escrevo muito sobre IA ou robôs, mas creio ter sido uma boa incursão no gênero. E a perspectiva é aterradora mesmo. Afinal, professores robôs não se aposentam... A história foi concebida como uma pancada só mesmo, mas fico grato pelo desejo por mais. Fica a sugestão de meu original "Draculea: A Ascensão dos Vampiros", história mais longa e também cheia de nuances, hehe. Abraços. 11 de Julho de 2019 às 15:34
~