Bem no dia da minha morte Seguir história

wonhoutboy Madu Dourado

Matias já não sabia mais o que fazer com seu chefe, o expansivo e elegante Heron, que nunca conseguia fazer uma moralzinha com o General e que - ao menos - executava seu trabalho direito. No final, tudo sempre caía nas costas do subordinado, que resolvia os problemas e mantinha seus pés longe do Inferno (onde tudo é só trabalho assalariado, ternos e gravatas apertadas e reuniões intermináveis). Oh, acho que esqueci de mencionar... os dois estão mortos. E precisam urgentemente de uma nova alma para a sua equipe.


Aventura Todo o público.

#shortstory #fantasia #inferno #mortos #céu #vivos #capítulos-longos
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A primeira morte a gente nunca esquece

Heron olhava pela janela, segurando o cálice dourado preenchido por vinho tinto nas mãos e tendo o rosto marcado pela expressão jovial que nunca o abandonava. Parecia pensativo: talvez tramasse alguma peripécia, pensava Matias, que o encarava fazia tempo. E, como se tivesse previsto o futuro, logo ouviu o mais velho falar:

— É uma bela noite para novas almas, não acha?

— Não — Matias retrucou rapidamente. Um trovão soou, junto de um clarão que fez com que o breu se tornasse dia por alguns segundos. — É um péssimo dia para qualquer coisa. Veja o quanto chove!

Outro clarão. Matias olhou para o céu e, com temor, aguardou o próximo trovão.

— Pare de ser tão infantil, a chuva é um bom presságio.

— Bom presságio para quem?

— Para mim! Significa boas mortes. E boas mortes significam bons soldados!

— Não se morre mais como antigamente, deixe de se iludir. Ah!

Trovoadas ribombavam pelos céus, ceifando a noite, marcando a descida da água. Matias se encolhia cada vez mais a cada batida do relógio, que descansava seus anos de trabalho no alto da parede mais velha daquela mansão abandonada.

— Nem é tão ruim assim — Heron reclamou da cena de seu colega.

— Claro que não é — ironizou o mais novo. — Se esqueceu de como eu morri?!

— Nunquinha! Era uma noite tão bonita quanto essa; na verdade, creio que chovia mais, e caíam mais raios. Lembro bem que ficaram todos sem luz na ocasião.

— Ninguém sequer tinha luz naquela época. E a minha morte foi terrível.

— Foi só um choquezinho.

— Eu fui atingido por um raio!

— Sim, e eu fui devorado por onças! Pare de ficar se encolhendo tanto por causa de luz forte e som alto, você já morreu tudo o que precisava morrer, Matias. Olhe, sinta o cheiro! Alguém morrerá esta noite!

Matias balança a cabeça, farto. Se encosta na parede e assiste enquanto Heron se balança de um lado para o outro, enchendo a pança de vinho e cantando como um passarinho endemoniado. E morto.

— Pessoas morrem todas as noites — Matias corrigiu. — Pare de se entupir de queijo, seu português safado!

— Garoto avarento. Medroso, medroso... me deixe viver com meu vinho e meu queijo, pelo menos ainda sinto o gosto da comida!

— Ao menos isso. E como era mesmo seu nome quando era vivo?

— Não me recordo, nem faço questão. Eu era chato quando era vivo.

— Depois de morto também.

— Cale-se, energúmeno. Só não te envio ao inferno porque você é meu melhor Cavaleiro.

— Sou seu único.

— Que seja.

Heron pousou o cálice sobre a mesa, andou até o canto do cômodo principal, rodopiando como uma bailarina. Quando Matias sentou-se nas escadas, apoiando a mão no corrimão, Heron vestiu sua capa centenária, que tinha desde que vivia.

— Vamos sair — pediu.

— Não — Matias negou com veemência. — Nunca. Não nessa chuva.

— Garoto frouxo! Se te serve de consolo, garanto que hoje você não morre.

Então, abrindo a grande porta de entrada para a Mansão Baldrick apenas com um simples movimento de mãos, Heron deu início a mais uma noite de Caçada.



Hoje, às oito, não esquece

Te espero no cinema

– Téo

Clara sorria mais do que seu rosto poderia suportar. Seria o melhor dia da sua vida, sem dúvida alguma. Seu coração batia num ritmo constante, frenético, e suas mãos suavam como nunca. Tinha medo de que a maquiagem que passara horas para fazer derretesse, tamanha era sua empolgação.

Maria Clara da Silva nunca fora uma menina de sorte. Primeiro, já nascera sem pai, ainda por cima, com uma mãe nem um pouco boa da cabeça. De raízes africanas, cabelo cacheado, volumoso, olhos escuros e pele achocolatada, recebera o nome de Clara sem nenhum consentimento. Às vezes, não gostava daquela palavra, que repousava ao lado de seu primeiro nome e que era constantemente usada por todos quando precisavam chamá-la — mesmo que já estivesse acostumada. De um jeito ou de outro, simbolizava toda a vergonha que a mãe sentia pela própria cor, e ainda a rendia boas sessões de bullying gratuito.

Depois de dezesseis anos de vida, no entanto, as coisas finalmente pareciam dar certo para ela. As notas subiram como foguetes, os amigos se multiplicaram, os momentos bons pareciam nunca acabar, até seu rosto parecia mais bonito! E, óbvio, tinha um namorado. Um doce e simpático namoradinho chamado Téo, que a trazia chocolates e que cantava para ela algumas músicas do Queen nas horas vagas. Clara amava, mais do que tudo, quando Téo pegava sua guitarra ou violão, depois a encarava com aqueles olhos e cantava. Nada, nadica de nada, poderia apagar a sensação deliciosa que era ouvir o som daquela voz.

E, naquele instante, arrumava-se justamente para vê-lo.

— Maria Clara! Já são sete e meia!

— Eu sei, mãe, já tô pronta!

Sem bater nem dar aviso, Dona Fátima escancarou a porta, entrou no quarto e mediu a filha dos pés à cabeça.

— Não se atrase, daqui a pouco vai chover. Se comporte, e por tudo que é mais sagrado, Maria Clara, não morra hoje.

Rindo, a menina deu um beijinho na testa da mãe.

— Que exagerada a senhora é!



Às sete e quarenta, a chuva despencou. Às oito e dez, ela tinha finalmente chegado ao Shopping, mesmo que com os sapatos molhados e o cabelo úmido — ah!, e por Deus, aquele cabelo não poderia molhar de jeito nenhum! Passara a tarde inteira o arrumando para que ficasse perfeito. Sem falhas.

O lugar estava lotado até o teto. Clara se enfiou no meio daquela gente, sem saber exatamente onde estava nem para onde ia. Procurava os óculos na bolsa, sem sucesso algum: os deixara em casa, em cima da mesa da cozinha, olhando para cima pacientemente, esperando a dona voltar para poder usá-los.

— Parabéns, Maria Clara... — Reclamou consigo mesma. — Boa sorte com o filme legendado agora, sua pamonha.

— Falando sozinha?

— AH! Droga, que susto!

O dono da voz misteriosa riu, depois abraçou a namorada com carinho. Téo já tinha os ingressos na mão, e nem notara a falta dos óculos de sua acompanhante.

— Ei, vamos comer alguma coisa? — O garoto sugeriu. — Bem ali tem uma lanchonete nova, abriu semana passada. Ela é bonitinha, e a comida é ótima.

— Pode ser. Só não me assuste assim outra vez.



— Está vendo, Matias?

— Sim, minhas vistas ainda funcionam.

— Não, seu brutamontes! Não com os olhos! Perguntei se vê com a alma.

Matias riu, debochado:

— Já não tenho mais olhos, homem, não seja um velho estúpido. A alma é tudo o que me resta.

Heron fitou o subordinado insolente de maneira incomodada. Deu um peteleco em sua testa, depois, virou-se outra vez para encarar a garota, mas ela sumira.

— Obrigado, imbecil — Heron reclamou pela enésima vez. — Agora a menina já não está mais aqui!

— Ela deve estar dentro do shopping. Viu só, nem vivos gostam da chuva!

Encaravam a vasta multidão de organismos de cima, do teto da grande construção. Naquela altura, os trovões pareciam estar mais próximos de Matias, o que o deixava acanhado e, para sua infelicidade, o obrigava a segurar forte o braço de Heron — encolhido como uma criança.

— Precisamos achá-la.

— Não seja estúpido — relâmpagos. — AI!! Vamos embora logo, Heron, eu não aguento mais esse aguaceiro barulhento.

Heron riu, levantou-se, depois caiu até o firmamento como uma pluma. Matias foi atrás, receoso, hesitante ao seguir o mestre. Fora treinado e guiado por Heron desde que morrera, mas nunca confiara nada de muita importância ao Cavaleiro. Ele costumava ter dedo podre para tudo — desde vinhos até almas. Atrapalhava os próprios planos, algumas vezes até matava pessoas sem querer. Era o cúmulo do indivíduo desajuizado e com mais poder nas mãos do que o recomendado.

Se fosse vivo, Matias nunca confiaria o restante da sua ínfima existência para alguém como Heron.

Com dramaticidade teatral, o antes português costumava andar a passos largos quando estava em amplos salões, mesmo que ninguém além de Matias conseguisse vê-lo. Quando tinha pressa, simplesmente flutuava rapidamente, sem tocar os pés no chão, exatamente como um vampiro. Usando sua capa vermelha de camurça com detalhes em ouro, que ganhara do pai e que levara consigo para o túmulo, então! Era um drácula perfeito, exceto, é claro, pela pose nada assustadora e pela cara de boçal.

— Quero voltar para o Baldrique — reclamou Matias, seguindo o velho espírito pela multidão. Heron não parecia nada elegante naquelas condições, sendo espremido pelos corpos espaçosos de seres que não sabiam enxergá-lo. — Não aguento mais.

— Garoto reclamão!

— Tudo isso por causa de uma alma?

O Cavaleiro mais novo fora ignorado enquanto seu mestre caçava com os olhos a menina de mais cedo. Os dois espíritos, ensopados, vagavam sem nenhum cuidado pelo estabelecimento. Um deles, carrancudo e com os braços cruzados. O outro, o mais atento possível que sua natureza distraída permitia.

— Ali — Heron sussurrou. — Ali está ela.

Sentada de frente para um mortal qualquer, a menina sorria. Tinha os cabelos escuros como a noite, com um falso efeito liso, que a deixava meio artificial. Os lábios pintados e o rosto rebocado, as roupas, todas na moda — nada naquela moça parecia fazê-la digna de entrar para o Exército Sombrio.

— Pelo visto, o General anda te cobrando novos soldados, hein? Está desesperado.

— Garoto desbocado!! — Heron chutou o subordinado, ardendo em raiva. — Eu sou um profissional, sei exatamente o que estou fazendo. Aquela menina será como um de nós, Cavaleiros, e você irá treiná-la!

Matias riu, porque achou graça. Era uma piada deveras engraçada, ao seu ver.

— Você está ficando maluco.

— Maluco fora seu pai, que se casara com a sua mãe. Pareço estar maluco?

O espírito mais novo encarou seu mestre nos olhos: aqueles grandes olhos arregalados e claros (azuis tais qual o céu em Coimbra!, como dizia seu dono, que pelo visto não fora informado de que o céu tem a mesma cor em todo o mundo). Se precisasse responder com seriedade, diria que sim, Heron parecia um doido varrido na maior parte do tempo. Mesmo que não o fosse — mesmo que, na realidade, realmente soubesse o que estava fazendo (coisa que Matias duvidava), ainda parecia um louco.

— Não, senhor — mentiu.

— É porque eu não sou — dissera, por fim, ajustando a capa e se afastando.



Assistiram ao encontro romântico da menina que iria morrer durante um bom tempo. Matias acomodou-se no chão, sentado de qualquer jeito, largado e com pressa de ir embora. Era pisoteado por gente viva vez ou outra, mas quando se está morto, essas coisas meio que perdem a importância.

Mas Heron, com sua mania de grandeza e seu jeito expansivo, sentara-se na mesa com os dois namorados. Literalmente na mesa. E balançava as pernas de um lado para o outro, vendo de perto a interação dos dois humanos. Quando algum deles mexia em algo da mesa e acidentalmente tocava no espírito do português morto, ele ria e dizia sentir cócegas. Matias vomitaria se estivesse vivo.

Pouco tempo depois, a comida chegara. Coisas estranhas e redondas — pareciam salgados, mas nada que despertasse o apetite morto de Matias. Fazia cem anos que não colocava nada na boca, e não sentia falta dos prazeres culinários da vida viva. Afinal, já não precisava mais disso para sobreviver. Afinal, nem ao menos sobreviver ele precisava.

Heron o olhou com expectativa naquele momento. Dizia “é agora” e sorria abertamente — algo que pareceria cruel se não fosse tão corriqueiro. Heron precisava coletar almas mortas, mas quase nunca conseguia. Seu radar era péssimo: quase ninguém que achava que fosse morrer, realmente, morria. E ele e Matias quase sempre fitavam a vivacidade daqueles que quase bateram as botas com vontade de poder morrer de novo, só para não ter que lidar com o fracasso.

Pelo menos daquela vez alguém teria que morrer.

— Olha só, não acha melhor pegarmos outra alma? — Sugeriu o Cavaleiro mais novo, aproximando-se de seu mestre. — Essa menina é jovem demais, inexperiente. Não vai nos servir de nada, quando perceber que morreu não vai parar de chorar e se lamentar.

— Você chorou por três meses e me saiu um ótimo Cavaleiro! — Heron rebateu, fazendo Matias corar de vergonha. — Apenas espere. Assista, e espere.



Clara se sentia estranha. Tinha um brilho peculiarmente nostálgico no olhar, mesmo que nada ali a lembrasse qualquer coisa, ou qualquer pessoa. Seu coração batia vagaroso, pulsava sem impaciência, enquanto fitava os olhos de Téo. O tempo não corria, nem passava, mas dançava em frente aos seus olhos.

E tudo parecia perfeito outra vez. Mesmo que tivesse tomado chuva, que tivesse esquecido os óculos e que certamente não conseguiria entender nem uma parte do filme que veriam, tudo parecia perfeito.

A comida chegou com pouco tempo de atraso — pequenas coisinhas salgadas, que apareciam como “coxinhas gourmet” no cardápio (que também tinha um nome pomposo, menu). Clara sorriu, e sem cuidado algum, voou numa das coxinhas, tamanha era sua fome e sua vontade de comer. Pôs o salgado inteiro na boca, e por uma estupidez impensada, tentou engolir sem mastigar. O arrependimento veio de imediato quando ela se engasgou.

A menina tossia, tossia muito — mas aparentemente, a coxinha era grande demais para sair do lugar. Téo apertava os lábios, segurando o riso, enquanto Clara tentava respirar. Seus olhos já lacrimejavam, e a medida em que o tempo passava, mais grogue ficava. Lhe faltava oxigênio, e não sabia mais por quanto tempo aguentaria. Tinha medo de morrer, apesar de ter tanta gente a sua volta, tentando ajudá-la, dando palpites, pedindo calma — ou simplesmente gravando o vexame que é se engasgar com uma mini coxinha gourmet no meio do shopping.

Em algum momento, Maria Clara desmaiou, ouvindo as palavras da mãe ecoarem em seus ouvidos com a lembrança que soava mais irônica do que nunca: por tudo que é mais sagrado, não morra hoje.



Piscou quando acordou. Pensou ter visto dois vultos quase fantasmagóricos a encarando, mas não tirou conclusões precipitadas antes de esfregar bem os dois olhos. Assim que os abriu novamente, entretanto, teve uma surpresa caricata: um homem vestido como um burguês do século retrasado, usando uma capa vermelho-sangue, de cabelos escuros, lisos e de olhos azuis como nunca antes vira, a mirava com certa curiosidade e alegria. Parecia resplandecer de felicidade, diferentemente do outro homem que a olhava: sisudo, desconfortável e descontente, usava trajes adequados à um mendigo e tinha a pele um pouco mais clara que a dela.

— Parabéns! — Gritara o da capa. — Você acabou de morrer!

Maria Clara congelou. Encarou bem os homens suspeitos, depois franziu a testa em confusão, ainda deitada sobre o chão frio.

— Eu... o quê?

— Você morreu — o sorumbático murmurou. — E agora, sua alma foi capturada por nós, que vamos te treinar até que você se torne um Cavaleiro Sombrio.

Clara riu: gargalhou de verdade, sentou-se e fez que iria levantar, mas algo a parou. Ela olhou para longe, para o outro lado da grande construção, e surpreendeu-se ao notar que podia enxergar cada detalhe das feições dos transeuntes. Ela via! Algo estava definitivamente errado — Maria Clara nunca enxergara tão bem sem seus óculos.

Prendeu a respiração, como fazia quando sentia que as coisas não davam certo, e não sentiu dificuldade alguma. Poderia correr uma maratona, se precisasse, o ar não lhe parecia mais tão necessário. Tanto que, ao olhar para baixo, sua caixa torácica não se mexia, mesmo que não fizesse nada para parar sua respiração.

Alteou-se de uma vez só, espantando as duas figuras exóticas que anteriormente a cercavam. Olhou adiante: nada de diferente, nada de Téo, nada que conhecesse. Então, virou de costas: avistou um burburinho singular, gente amontoada e inclinada num círculo desigual, abelhudos fofoqueiros desejosos de algo insólito que animasse suas vidas pacatas.

Chegou perto, como quem não quer nada, sendo seguida por Heron e Matias. Inclinou-se também, como qualquer um ali, e a visão de seu próprio corpo estirado no chão, apagado, a trouxe náuseas e um desespero crescente.

— SOCORRO! — Gritara, descrente. — SOCORRO, EU MORRI!

— Sim, querida! — Heron sorriu alegremente. — Isso não é o máximo?

— NÃO — choramingou Clara. — Eu morri?! E agora? E a minha vida inteira, o que acontece com ela? EU NÃO POSSO MORRER!

A menina se jogou contra o próprio corpo com nada mais do que lágrimas para despejar. Não se importou em estudar a expressão do namorado que acabara de perder — o fato de ter morrido a assustava mais do que qualquer coisa.

— ME PÕE DE VOLTA! — Berrava. — Eu não posso morrer assim! E a minha mãe?! E os meus estudos?! EU NEM ACABEI O ENSINO MÉDIO!

— Eu nem entrei no Ensino Médio, garota — Matias repreendeu. — Pare de se queixar tanto assim.

Maria Clara encarou o homem morto, depois voltou a fitar a própria imagem, estendida sobre o assoalho empoeirado de uma lanchonete qualquer. Chorou, chorou todas as suas lágrimas até que a ambulância viesse resgatar seu corpo sem vida, levá-lo para outro canto, para que assim pudesse morrer formalmente.

Ela acompanhou a jornada da própria carne. No hospital, assistiu à todas as tentativas de reanimação, sentindo um fio de esperança no fundo do peito que já não pulsava mais. Ouviu o pranto da mãe, e também a promessa que esquecera de cumprir:

— Você me disse que não ia morrer hoje.

Parada no meio de um corredor, tentava consolar a única família que tinha — e que agora havia deixado para trás —, mas nada que fizesse, dissesse ou tentasse, efetivamente, funcionava. Tudo o que queria, era voltar.

— Ei — Heron chamou cuidadosamente. — Ei, menina, não fique assim, um? Todo mundo morre.

Ele a abraçou, delicado como uma pétala de rosa, para que não ferisse os sentimentos da menina morta.

— Escute o conselho de quem já morreu também: não é tão ruim assim.

— É, depois dos três meses de fossa você até que se recupera bem — Matias atrapalhou, e não foi perdoado por seu patrão, que o estapeou no braço.

— Vamos, nós iremos te levar à Mansão Baldrick! — Heron voltara a usar seu tom folgado e prazenteiro. — Lá você se sentirá uma rainha de verdade.

— Espera — Clara voltou um passo. — Para onde querem me levar?

— Mansão Baldrick — repetiu o espírito mais velho. Sustentou o sorriso por mais alguns intermináveis segundos, até que Matias, outra vez, se intrometesse:

— Eu chamo de Baldrique.

— Quieto, garoto inculto!

— Que seja — a menina foi ríspida. — Eu não vou a lugar nenhum com vocês dois. Eu acabei de morrer!

E voltou a lagrimar, afastando-se, indo até o local em que a mãe lamentava sua perda e se ajoelhando — tentando, inutilmente, consertar um fato consumado e irrevogável.

Matias encarou Heron e o cutucou com o indicador. O Cavaleiro mais antigo titubeou para o lado e quase caiu, com capa vampiresca e tudo. No fim das contas, permaneceu de pé, olhando para o subordinado com o mesmo olhar superior de sempre. Bufou.

— Não irei usar as medidas drásticas a que se refere, Matias. Sou um homem morto, mas ainda tenho honra.

— Esta menina não virá conosco por vontade própria, e acho que o senhor, Vossa Imbecilicência, sabe muito bem disso. Honra — zombou. — Foi na defesa dessa honra de meia tigela que você morreu.

— Eu era jovem, tá bom?

— Desculpa fajuta! Não justifica o fato de ter se atirado para cima de um animal selvagem!

— Fui coagido!

— Cometeu suicídio, seu palerma! Por isso não tem nenhuma moral com o General, ao menos tem a capacidade de recrutar mais soldados.

— Cale a boca, Matias! Cale a sua boca e segure a minha capa enquanto eu pego meu livro de cânticos. Vamos levar essa garota daqui!

Num revirar de olhos profundo, Matias fez o que lhe foi solicitado e, como um serviçal, serviu de cabide para a vestimenta secular de seu amigo.

Heron tirou do bolso um livreto, preenchido por páginas e mais páginas de versos que ele deveria saber de cor. Afinal, a imortalidade pós-mortalidade tinha uma função óbvia, que Heron ignorou durante todo o tempo em que estivera, literalmente, fantasmando uma mansão que não era sua. Procurou pela página correta, depois limpou a garganta e encarou Clara.

Concentrou-se na tarefa de recitar o feitiço. Seus olhos mudaram de cor, passando a tremeluzir em escarlate, e sua voz ressoou como tambores ancestrais por todo o espaço Sombrio, sem interferir no Mortal.

Do solo mais fecundo ao céu mais profundo; Da descida ao submundo, a ascensão do moribundo; a Treva Viva, excomungo. Escutai, filho imundo, aquele que este verso cantar segundo: — Parou de ler, levantando os olhos para a menina morta. Seus olhos também brilhavam, vermelhos, e sua aparência era nada mais do que monótona. — Alma simplória, eu te anulo de qualquer decisão. Erga-se, mova-se, siga-me!

Ao fim da declamação poética, Clara andava atrás dos espíritos dos dois mortos, flutuando como nuvem, sem reclamação, seguindo pelo caminho que levava ao Baldrique. Seus olhos ainda tinham a cor estranha, mas, pelo menos, não falava tanto quanto fazia antes.

— Até que são legais, essas rimas esquisitas, não? — O Cavaleiro mais velho perguntou. — Não fazem o mínimo sentido, mas pelo menos são agradáveis aos meus ouvidos.

— Cale-se, Heron. Não aguento mais ouvir esse seu sotaque.



Pararam em frente à Mansão Baldrick depois de muito caminhar — apesar de Matias achar o esforço desnecessário. Estavam mortos, afinal de contas! Não poderiam simplesmente voar ou flutuar ou apertar um botão e se teletransportar para os lugares? Andar é coisa de gente viva.

— Ah! Como cansa! Matias, leve a menina para os aposentos dela, no andar de cima, aquele quartinho que fica bem de frente para o meu.

Heron jogou a capa sobre seu suporte-de-coisas-de-vestir, como Matias chamava, já que não sabia o nome daquilo. Nos seus dias mais solitários, costumava apelidar o grande objeto de madeira de Giuseppe para contar a ele todas as suas aflições, que se resumiam ao fato de ter que conviver com um europeu morto e egocêntrico.

Depois de ajeitar a roupa sobre o corpo, Heron soltou Maria Clara de uma vez só: a luz que a cercava se apagou, largando-a impiedosamente sobre o chão com um barulho alto, seco, e que ecoou várias vezes até finalmente acabar.

— O quarto que está em frente ao seu é o meu — Matias protestou, cruzando os braços e sentando-se nas escadas como de costume. — Além do mais, por que ela precisa de um aposento? Nem vai ter que dormir.

— Oras, mas você também não dorme! O que custa acomodá-la no seu quarto?

— Custa a minha paciência. Por que não põe ela no seu?

— Eu preciso de um pouco de privacidade!

— Para fazer o que, Heron?! Morto não toma banho, não dorme, não troca de roupa (o máximo que pode acontecer é você colocar e tirar aquela sua capa encardida e fedorenta). Entenda de uma vez que as coisas não são mais como antes. Não existe conforto. Aceite que morreu!

O português fez silêncio, ponderando. Acabou por desistir e sentar ao lado de Matias na escada, encarando a grande sala empoeirada e vazia da mansão. A menina morta ainda estava jogada no chão, com a cara amassada contra o piso, num tipo de estado que se assemelhava ao sono dos vivos. Um mísero descanso antes da irritação infinita.

— Precisa pôr a mesa, Matias. Os pães, bolos, uvas, vinho, tudo o que temos.

— Só sobrou uma fatia de queijo. Você comeu tudo.

— Então roube mais!

Matias encarou Heron de soslaio, fitando a expressão descaradamente folgada do português safado que acreditava que seu Cavaleiro era algum tipo de escravo.

— Por que não vai arranjar a comida você mesmo, hein? Eu nem como essas porcarias, e o mercadinho é bem ali, virando a esquina!

— Me faça esse favor, por favor!

— Não, Heron. Roube a sua própria comida.

Num tom teatralmente dramático, o português puxou o sotaque e pegou na mão de Matias, olhando no fundo dos seus olhos de obsidiana:

— Não posso crer que me deixarás morrer de fome...

— Você está morto!

Heron bufou, descontente e contrariado, para depois empurrar Matias da escada e vê-lo rolar para baixo como um grande saco de batatas. O homem despencou feito jaca madura, batendo com a cabeça no assoalho do primeiro piso. Sorte a sua não sentir dor nenhuma, mesmo que soubesse que teria um galo mais tarde.

— Faça o que quiser, não vou roubar nada.

— Garoto mau. Irei acordar a menina, talvez ela seja mais respeitosa e bem agradecida.

— Agradecida pelo que, exatamente?

— Pela possibilidade de ter uma vida após a morte!

— Bela vida essa que ela arrumou, então — Matias se levantou do chão com a mão na testa no momento em que Heron passava por ali, caminhando com o queixo erguido e rodopiando pela sala. Tudo o que ele fazia era como uma dança bem planejada (que quase sempre acabava em desastre, mas vamos frisar apenas seus movimentos delicados e joviais). — Um português irritante e estabanado, um moleque comum, um casarão abandonado e assombrado cheio de poeira e com cheiro de mofo. Oh, mas tem queijo estragado no armário! Claro, os pequenos prazeres da vida-pós-vida...

Heron não deu ouvidos às palavras sarcásticas de seu, tecnicamente, subordinado: puxou Maria Clara pelos ombros e a colocou deitada de costas, o rosto apontando para o teto. O europeu fez uma careta assustada quando viu os olhos entreabertos e o nariz amarrotado, transformando a expressão toda numa bagunça. O cabelo dela ainda grudava nas bochechas cor de chocolate, por causa do suor, tão liso que parecia esquisito. Heron franziu a testa.

— Essa menina está um caco, Matias! Veja, deve estar tão cansada...

— Concordo. Por que não a manda para o céu logo e deixa que ela descanse por lá, hein? Viver aqui, entre os vivos, essa coisa de virar um Cavaleiro... ainda mais com você no comando... é horrível!

— Não seja estúpido! O céu fechou, esqueceu? Há muito trabalho a ser feito no inferno (catalogação de almas, designação de futuros, detecção de eventuais problemas, separação por país, divisão em famílias, um monte de coisa). Só vai para o céu quem servir na área administrativa do inferno por pelo menos vinte anos. Essa legislação está falida!

— E o que as pessoas fazem no céu? Elas não trabalham por lá também?

— Sim, sim, mas lá são cargos maiores, e há férias. Você cuida um pouquinho da reciclagem de almas, confere alguns documentos provenientes do inferno, cataloga algumas coisinhas, faz pedidos ao Purgatório... depois volta para casa e fica dois dias sem fazer nada! Me diga se não é o paraíso!

— Oh, com certeza.

Heron suspirou, ajeitando a sua nova Cavaleira, preparando-se para acordá-la. Quando a colocou na pose de defunto (costas eretas, mãos sobre a barriga, olhos fechados e nariz desachatado), voltou a procurar pelo seu livro de cânticos. Fuçou e fuçou as páginas, a testa enrugando, os dedos e os olhos ágeis passeando pelos parágrafos manuscritos.

— Encontrei! — Gritou de alegria e limpou a garganta, ajustando o tom de voz. Finalmente leu as palavras, esperando encontrar um belo e complexo poema para o despertar sereno de Maria Clara, mas a única coisa que saiu de sua boca foi: — Acorde, entre parênteses nome da alma recolhida? É só isso? Simples assim?

— Pelo visto o Capitão não estava inspirado quando escreveu essa parte. Mas diga logo o nome dela... você pelo menos sabe qual é, não sabe?

Heron negou com a cabeça: — Mas eu tenho quase certeza de que o ouvi! Eu lembro daquele garoto que estava com ela dizer algum nome, seria... Ma... Ma... Maristela! É claro! Acorde, Maristela!

Nada. Maria Clara ainda dormia.

— Parabéns, Heron — Matias ironizou, irritado, arrancando da mão do português o livreto que sempre carregava no bolso. — A primeira alma que recolhe em séculos e você a prende num sono eterno porque não se deu ao trabalho de prestar atenção no nome dela. O General vai nos riscar do Exército, pode ter certeza! E aí, no lugar de guerreiros honrados, seremos só mais dois mortos carimbando papéis no inferno durante vinte anos até poder trabalhar com algo melhor!

As palavras de Matias foram pesadas, mas Heron soube reconhecer que eram verdade. Ele era um Cavaleiro Sombrio e fora agraciado pelo General com a possibilidade de formar uma equipe, colhendo novas almas para integrar o grande Exército Sombrio dos Mortos, lutando para manter tudo em completa ordem, ceifando as almas malignas dos os seres que ameaçavam a existência do universo. Para ele, era um cargo importante — muito mais importante que seus dias de bandeirante, que acabaram terrível e precocemente. Para ele, era toda a sua vida e toda a sua morte.

Mas já era tarde — ele falhou muitas vezes. Teria seu título arrancado e, com sorte, seria enviado ao inferno junto de Matias, que o faria companhia durante as reuniões insuportavelmente chatas da equipe administrativa de Lúcifer — só que, azarado como era, bem mais provável seria que o General desse a sua patente de líder a Matias e o largasse nos escritórios do submundo sozinho, batendo ponto feito um condenado e juntando suas Estrelas de Bonificação Pelo Bom Trabalho (que vinham com uma carinha feliz) para trocar por algumas horas num spa relaxante infernal. Era tortura de mais.

Heron, então, abaixou a cabeça e flutuou até o segundo andar. Deitou-se sobre a cama e se pôs a contar as teias de aranha que encontrava pelos cantos, anotando mentalmente quantas tinham surgido a mais desde que fizera aquilo pela última vez. Teria dormido, se fosse vivo, preso em pesadelos que sempre acabavam com o seu nome cravado num crachá de prata, com o título “Carimbador de Certidões” logo abaixo de seu falso sobrenome britânico pomposo.

Enquanto isso, no primeiro piso, Matias pensava sobre o que faria com a alma perdida no meio do salão do Baldrique.

— Acorde, hm... Marcelina?

Sem respostas.

— ...Margarida!

Nenhuma movimentação. O homem morto se irritou.

— Marieta Esmeraldina dos Anjos.

Desistiu das tentativas e preferiu arrastar a menina para outro canto, um em que pudesse deixá-la fora do seu caminho e das suas vistas. Acabou colocando-a dentro do armário de queijos de Heron, rezando para que ela não matasse nenhum ratinho de susto. Só assim, depois de muito pensar, é que saiu pela porta — jogando-se nas ruas da pequena cidade e caminhando determinadamente.



Quando Matias passou pelo mercadinho da esquina, brecou. Pensou em talvez roubar algumas coisas para Heron, mas descartou a possibilidade — o português não precisava disso, de qualquer forma, e fazê-lo só traria prejuízos para os donos e causaria desconfianças sobre os funcionários. Mesmo morto, Matias ainda ligava para os vivos, ainda que os invejasse de certa maneira.

Às vezes, fantasiava uma pós-vida diferente: uma em que Heron não o tivesse recrutado no exato instante em que um raio atingiu a sua cabeça, seu coração parou e seu corpo caiu sobre a lama da estrada de terra. Como seria trabalhar no inferno, depois subir ao céu e encerrar suas dívidas com o mundo mortal para, finalmente, descansar eternamente? Provavelmente, uma experiência bem mais satisfatória do que a maçante ideia de treinar durante anos para se tornar um Cavaleiro Sombrio apto a realizar grandes feitos, mas castigado a continuar fantasmando o mesmo imóvel decrépito e mal-acabado. Seria ótimo poder seguir em frente, sem depender de ninguém e — principalmente — sem que ninguém dependa de si.

Quando chegou ao hospital, outra vez, perdeu-se no meio dos corredores. Passeava pelas paredes e andava no teto. Cutucava algumas velhinhas para vê-las golpearem o ar sem nenhum efeito significativo, acenava para as crianças e torcia para que alguma conseguisse vê-lo — no entanto, não deu certo. No final da sua caçada, ainda não tinha encontrado o nome da alma da menina azarada.

Voltou ao ponto em que ela morrera, asfixiada por uma coxinha. O estabelecimento estava fechado e não havia ao menos um indivíduo que tivesse estado ali no momento do acidente. Matias não sabia que horas e nem que dia era — o tempo é uma coisa fluida demais quando se está morto. Poderia ser uma hora após do acidente, ou três semanas depois. Nunca saberia com exatidão.

Foi quando, surpreendentemente, encontrou o garoto com quem a nova alma de Heron estivera antes de morrer.

Era alto, de cabelo cacheado volumoso e rosto ossudo, magro. Tinha algumas sardas, usava calças largas e uma jaqueta xadrez, com o cadarço dos tênis encardidos prestes a se desamarrarem. Ele encarava os pés enquanto caminhava, falando ao celular. Matias se apressou para ir até o menino, caminhando ao seu lado e inclinando a cabeça para escutar o que dizia.

Mas aí, algo inesperado aconteceu.

— Ei, ei, quem é você? Está tentando ouvir a minha conversa?

O garoto conseguia vê-lo.



Heron sentou sobre a grande mesa de madeira, ignorando completamente a função primária das cadeiras e as utilizando para escorar os pés quando não os estava balançando no ar para lá e para cá. Desejava ter algum pão para beliscar, algum presunto ou queijo fresco, talvez um pouquinho de vinho. Até suco de uva ele estava aceitando — porém, Matias não iria roubar nada para ele tão cedo. Sendo assim, não tendo escolha senão sair e furtar a própria comida, Heron se levantou de maneira elegante. Sua postura não falhava nunca. Jogou a capa por cima dos ombros e andou até a saída, sem perceber a falta da menina adormecida.

27 de Maio de 2019 às 19:53 2 Denunciar Insira 7
Continua…

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MiRz Rz MiRz Rz
Olá, eu sou a MRz do Sistema de Verificação do Inkspired. O sistema de verificação atua não só para ver a qualidade da história, como também para observar se a história está de acordo com as normas do site. Sua história foi verificada e eu tenho que dizer que é uma história ótima e muito bem escrita, com um humor bem peculiar. Eu realmente amei sua narrativa! Só tem uma coisinha, na frase "[...] pensava Matias, que o encava fazia tempo [...]" eu acredito que a palavra "encava" está errada e o correto seria "encarava". Confesso que procurei no dicionário e só encontrei que "encava" na arquitetura é o nome de uma peça. Se eu estiver errada e houver outro significado, por favor, só ignore essa parte do comentário. :D Se for um erro de digitação mesmo, ele foi muito pequeno, que nem foi necessário pôr a história em revisão e não tirou absolutamente nada da qualidade da história. Parabéns pela obra e pela criatividade de narrar como funciona o inferno. Beijos de megawatts de luz!
28 de Maio de 2019 às 10:58

  • Madu Dourado Madu Dourado
    Olá! Muito obrigada pelo comentário tão bem escrito <3 e obrigada pelo toque também! Realmente, "encava" foi um erro de digitação que passou despercebido pelas minhas mil revisões. Deve estar na hora de aumentar o grau dos óculos kkk 26 de Junho de 2019 às 16:14
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