Diego das estrelas Seguir história

anneliberton Anne Liberton

Desde que se integrou à nova família, muito se especulou sobre as origens de Diego e pouco se explicou a respeito, já que ele próprio não gosta de falar no assunto. Uma das poucas pessoas que conhecem a verdade é Bianca, sua irmã adotiva, mas agora ela quer ouvir os detalhes sobre quando Diego veio de outro planeta.


De Época Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#historical #brasil #tortura #ditadura #theauthorscup #TheHistoricalWriter #Anos70
1
3674 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Parte I

Notas: A história não tem fins lucrativos. Espero ter tratado o tema com respeito. A capa veio de uma imagem que eu encontrei neste site, e o criador autoriza edição e tudo mais.

Boa leitura.

_______________________________________



Tanto mistério rodeava as origens de Diego de Alcântara, que os outros alunos tinham começado a inventar uma série de boatos sobre o menino, um mais fantasioso que o anterior. Falavam que ele viera da selva, como Tarzan, que fora moleque de rua e caíra nas graças de um casal abastado, que sofrera um naufrágio vindo do estrangeiro e perdera tudo que tinha. Ele próprio nunca alimentava os boatos, entrando mudo e saindo calado das aulas, com sua irmã adotiva a tiracolo e uma expressão distante.

— Por que não conta a verdade para eles? — Bianca, a irmã, perguntava baixinho.

— Ninguém acreditaria em mim.

— Eu acredito.

Ela segurava sua mão e lhe abria um sorriso.

Diego devia muito à Bianca. Quase tudo, na verdade. Sem ela, sua adaptação ao novo lar jamais se daria. Provavelmente, teria fugido dos pais adotivos dentro de poucos meses depois de ser acolhido e sumido no mundo, para morrer em algum beco qualquer, de morte “matada”, “morrida”, o toque de recolher do governo... O que viesse primeiro. Não fazia muita diferença nas condições em que se encontrava. Ele tinha nove anos na época, e Bianca apenas seis, mas tanta compaixão e empatia pelos outros que o menino ficou tocado. Teve que continuar ali, ir em frente.

— Boa tarde, meninos... — Júlio, pai dos dois, cumprimentou-os quando chegaram em casa. Um beijo no topo da cabeça de cada um, como de costume. — Já estou terminando com o almoço. Sua mãe não vai poder vir hoje.

— Dá tempo de eu ir na mercearia para comprar uns chicletes, pai? — Bianca perguntou, jogando a mochila no sofá. Quase acertou o rádio, que estava ligado, com algum pronunciamento do presidente Geisel em andamento.

— Acho que não... Vou levar cinco, dez minutos, no máximo.

Resmungando, ela seguiu para o quarto, tirando o sapato e correndo em seguida para o de Diego. Ele estava deitado na cama, distraído, e já previa a visita assim que ela botasse o chinelo. Bianca largou-se do lado oposto, a cabeça na direção de seus pés. Ambos encaravam suas estrelas fluorescentes no teto.

— Tem essas mesmas estrelas de onde você veio? — ela indagou, puxando conversa. Não fazia a menor ideia do nome de cada uma ou das constelações, mas talvez Diego soubesse. Ele sabia de tudo.

— Não tem estrelas lá. É tudo escuro.

— Ué, mas e o sol? Não tem um sol? Ele é uma estrela também.

— Tinha um sol às vezes...

— Como assim “às vezes”?

— É complicado.

— Por quê? Ele piscava? Estrela pisca? Ou ele rodava mais rápido que o nosso? Me explica. — Bianca se erguia nos cotovelos, olhando para ele. — Por favor! Eu acredito em você, Diego. E você é a única pessoa de outro planeta que eu conheço. Não tenho para quem mais perguntar...

Fazia tão pouco tempo que eles haviam ficado amigos... Bianca adorara o irmão mais velho desde o começo, embora ele parecesse triste e não costumasse falar muito. Construíra seu relacionamento com ele pedacinho por pedacinho ao longo dos anos e, agora que ele estava se abrindo para ela, não queria deixar que se fechasse de novo. “Vá devagar”, a mãe aconselhava. “Diego é muito frágil.” Mas nunca explicara o porquê. Bianca entendia que precisava tomar cuidado, porém, mais que isso, ela queria ajudá-lo, entendê-lo.

Diego suspirou.

— Tá bem. Mas vamos com calma. Você pergunta coisa demais.

— Então me fala sobre o seu sol. Com detalhes.

— Detalhes... Tá. — Ele pensou por um momento. — Meu sol era um pouco mais claro que o daqui. Ele não brilhava sempre, mas quando dava na telha. Eu passava muito tempo no escuro por causa disso. Nunca sabia quando ele ia aparecer.

— Você ficava com medo?

— Ficava. — A imagem foi ficando cada vez mais clara em sua mente. O sol, sua luz amarelada doentia, não era redondo, mas oval, como uma lâmpada. Pendia do teto, envolto em uma tela, para que ele não a quebrasse. Menos uma arma. — Ficava, sim...

24 de Maio de 2019 às 03:25 2 Denunciar Insira 3
Leia o próximo capítulo Parte II

Comentar algo

Publique!
Álisson Lima Álisson Lima
Adorei
15 de Setembro de 2019 às 06:09

~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 1 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!