O Presidente Imperador Seguir história

lucas-portilho1552831330 Lucas Portilho

Um poderoso presidente quer tornar-se imperador. Crônica sobre os sistemas de governo.


Histórias da vida Todo o público.
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O PRESIDENTE IMPERADOR


Um presidente cabeça oca, imbuído de soberba petulante, cismou em trocar a sua faixa por uma coroa ornada com rubis. O fiel conselheiro lhe questionou acerca do estranho desejo.

- Presidente, as coroas cabem melhor aos monarcas. Vossa Excelência governa num regime republicano

- Concordo. Mas tens noção de que sou um Presidente Imperador...

- Desculpe-me... É logicamente impossível acumular títulos tão díspares

- A questão não é simbólica, mas de essência

Verdade, media-se a essência daquela nação pela força do líder. O congresso baixava a cabeça, a imprensa endossava os políticos governistas, a oposição se manifestava pouco, plebiscitos com resultados sempre favoráveis ao governo eram convocados a torto e a direito. Tudo decidido via decreto, coisa que o presidente adorava fazer. O povo, anestesiado e repreendido, dava-lhe suporte incondicional. Há quem diga que inexista qualquer meio termo entre democracia e ditadura. Eu penso que, me desculpem os cientistas políticos e filósofos, haja a Democradura, cujos horizontes norteadores nascem do contexto descrito acima.

Nestes nossos anos turbulentos, muitas democraduras surgiram pelo mundo e elas são de todas as cores: azuis, vermelhas, pretas, brancas. Temos numerosos defensores delas espalhados mundo afora. Esses, ironicamente, protestam em favor da democracia moderna, plena, representativa, quando lhes é bastante conveniente. E para acastelarem suas democraduras favoritas, defendem o indefensável. Pobres dos gregos!

Dadas tais condições, o presidente se sentia de fato um imperador, não que fosse similar aos das monarquias hodiernas, veneráveis chefes de estado, sem poder institucional relevante. Usava um quadro do extravagante Rei-Sol no gabinete. A inscrição da porta proclamava: L'État c'est moi. Amava difundir seus fervores religiosos, espalhava pelos cantos do país que Deus lhe escolhera para o cargo. Curiosamente, admirava o gesto napoleônico de tirar coroas das mãos dos bispos.

Os processos burocráticos, porém, ficavam aos cuidados dos ministros, porque a inaptidão presidencial ameaçaria o “estabilíssimo” governo. Mesmo aquele ministério notável tinha loucos beócios, indivíduos que serviam apenas para comprazer a volúpia autoritária do presidente. Tais figuras não merecem nem sequer menção.

Algum reconhecimento pode ser conferido ao Ministro das Finanças, formado nos States, executor das medidas responsáveis pela sustentabilidade orçamentária do Tesouro. Idem ao Ministro da Justiça, magistrado popular, conhecido por prender líderes corruptos que, curiosamente, compunham parcelas dos opositores.

Estes homens representavam o corpo e a alma da gestão. Um detinha a falência econômica, apesar dos indicadores econômicos claudicarem. O outro aplicava a força estatal contra todos aqueles ditos corruptos, exceto os que gravitavam bajulações no entorno da presidência.

Voltando ao diálogo, o presidente explicara, ao nobre conselheiro, a tese apresentada.

- O governante acumula, neste tal sistema presidencialista, duas funções: Chefe de Estado, representante da nação, e Chefe de Governo, regedor das políticas públicas. Há um quê absolutista aí, entretanto, ao contrário dos reis e imperadores que justificavam o poder recebido pela dádiva (o histórico Direito Divino), os presidentes fundamentam a autoridade num direito à lá Vox Populi.

- Sim, também compartilho deste olhar. Agora, considerando essa elucubração, concluiríamos que todos os presidentes são verdadeiros ogros autoritários legitimados pelo voto

- Alto lá, meu querido. Democracia é regime de concessão. Nós, o Estado, concedemos migalhas e eles, o povo, concedem-nos o bolo.

Debate profícuo. Nações com o sistema republicano presidencialista vivem assombradas diante do autoritarismo do Executivo. Só me recordo de uma que está aos trópicos, é a maior da América do Sul, cuja republiqueta fundara-se num golpe militar. Lá muitos presidentes foram considerados pais, mitos e heróis nacionais.

O conselheiro, então, ofereceu ideia temerária, transformadora. Mudança na forma de governo! Dali em diante o país viveria numa Monarquia! Quem iria se opor a esta simpática proposta? Naquele bananal ninguém contesta nada, muito menos aqueles que se diziam insatisfeitos. Toda a tramitação viria a ser acordada no gabinete presidencial. Ter-se-ia um parlamentarismo monárquico em que os reis reinam e os representantes parlamentares governam. Aprontadas as diretrizes da transição, restava combinar alguns módicos detalhes.

- Presidente, já que Vossa Excelência se tornará um monarca, é inevitável haver título e dinastia

- Decerto que corrigiremos essas falhas pequeninas, amadoras, bobas. Eu te encarregarei de tomar providências nesta questão. Pague o mais competente genealogista do país e lhe encomende isto: árvore genealógica, título nobiliárquico e brasão dinástico.

- E a coroação?

- Logo logo marcaremos a data. Traga um bom cerimonialista! O melhor do mundo. Alerte-o quanto a coroa de rubis e deixe-lhe cuidar do resto.

- Excelência...

- Diga...

Penso que haja outro detalhe primário. Falo da questão militar. Existe, nas tradicionais repúblicas presidencialistas, a figura do comandante-chefe das Forças Armadas. Como procederemos quando virarmos Monarquia?

- Juro jamais ter refletido a respeito...

- Pois deveria! Se fôssemos todos destroçados em vilipendiosas campanhas militares? Isabel I falara aos valentes soldados ingleses aquando da iminente invasão da Invencível Armada espanhola. Napoleão Bonaparte comandou seus exércitos na fatídica Batalha de Waterloo. Dom João I esteve em Aljubarrota. Monarcas, a priori, são os maiores valentes das nações que governam.

- Bom...

A face do presidente, intelectualmente inapto, resplandecia vergonhosa covardia. Sua voz titubeava, a boca emitia sons ininteligíveis. Embora tivesse servido ao exército durante longos anos, as habilidades dele no manejo de armas, nas estratégias de batalha, nos conhecimentos militares eram ridículas, quiçá nulas. Diziam que havia sido até expulso da função que ocupava, tamanho foi o seu comportamento vacilante. Tremera, portanto, ante aquela má lembrança. Matutou, matutou, matutou e, dando um soco na mesa, proferiu.

- Basta! Já decidi! Eu voltarei atrás nesta minha infeliz decisão! Decretarei que continuemos eternamente sendo republicanos

Funcionários chamaram-no após algumas horas. Estava pronto o polêmico e fulminante decreto. O presidente assinara rapidamente, os honoráveis congressistas promulgaram aquele pernicioso documento em sessão extraordinária estendida por cinquenta minutos. Terminara ali uma destrambelhada desventura monárquica. Distopia política fracassada, intangível. Fantasia homérica. Apropriando-me do que dissera o hábil palha no nariz, eu vos digo: Não se edificam boas monarquias com velhas repúblicas.

21 de Maio de 2019 às 01:18 0 Denunciar Insira 120
Fim

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