Elisabeth Seguir história

u15541325421554132542 Moisés Calado

Após anos de uma solitária reclusão em seu castelo, Elisabeth percebera que os milhares de tempo acumulando as mais díspares experiências caminhando sobre as vastas planícies da Terra, não lhe fizeram intuir sobre o mais misterioso dos sentimentos: amor. Entre mortes e reflexões ela esclarecera algumas de suas mais perturbadores dúvidas. Perseguida por uma população colérica, Elisabeth inicia uma jornada contra o seu recém-descoberto desejo e a dúvida que lhe atormentava desde o momento em que mantivera enclausurado um dos cidadãos mais ilustres da cidade de Bloodmontain. Ela estaria disposta a dizimar toda uma população para prosseguir com seu intento de inserir o reino das trevas sobre o Mundo, iniciando na modesta cidade na qual vivia.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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ELISABETH

As nuvens dispostas e contornadas retilineamente pelas tênues luzes de Cíntia, cruzando vagarosamente o céu por detrás delas, parcialmente velado por altas colinas de tonalidade cinérea e perfeitas pela neve assentada diariamente sobre seus relevos, mesclavam-se com os sopros álgidos e lancinantes dos alpes, que sibilavam em seus cimos; suas rajadas pontiagudas faziam com que o mais resistente dos mortais eriçasse seus velos ao sentir os ventos passarem por seus corpos. Naquela noite, plainavam sobre o tempo, os olores do ressurgimento.

Uma grande pedra de formato oval, planeada em seu cume, dava sustento a uma silhueta escura, ajoelhada, sentada nas partes traseiras de suas pernas, com as mãos sobrepostas às coxas e observando fixamente o imenso luar transfixando as brumas correntes. Os poucos raios de luz refletidos em seu rosto, expunham sua matiz pálida, parcialmente encoberta por longos e resvaladios cabelos negros. Uma beleza lúbrica e simbólica se exibia somente com o corpo encoberto por um longo vestido roxo-ostro escuro, transparente em suas partes íntimas. Sua expressão soturna, fitando o prateado lunar sob o denso breu da floresta abaixo, exprimia um confuso desalento: os milhares de anos de isolamento e insensibilidade se esvaeciam; seu pensamento de nutrir-se apenas do fluido hemático brotado a cada instante nas artérias dos indivíduos, expondo seu extinto mais primitivo, unia-se a outro anseio. Sua mente asilava um sentimento há muito tempo perdido por entre os caminhos mais obscuros do pensamento.

O que antes desprezei, para que a lástima que esta noite me corrói, tenha domínio sobre mim?, pensa Elisabeth Singger, espelhando o luar com os seus olhos negros. Sim, lembro-me de um dia experimentar este sentimento hodiernamente impreciso para mim; neste corpo perecido. No entanto, os inumeráveis anos que se transcorreram, não mais me asseveram a fidúcia de que este invólucro intransponível ainda não se permita ser invadido por esta emoção. Sim, é isto! Neste instante, por fragmentadas reminiscências, a minha mente e o meu coração sem pulso regressam ao torpor, do que um dia chamei de “amor”. Mas, como isto é possível a uma criatura sem vida? Intuo que por mais anos que tenhamos, nunca alcançaremos à plena sabedoria para que esta interrogação seja retorquida.

Em um impulso, Elisabeth se lança ao ar, acima das maiores árvores da floresta. Suas vestes e seus longos cabelos deslizam com os altivos ventos de sopros gélidos, enquanto à luz prateada do luar dava forma ao seu extasiante corpo plainando sobre a selva. Seus olhos fitavam e refletiam as luzes dos arcos-elétricos da cidade, das lamparinas a gás nas residências e das diminutas tochas que adentravam o breu sob a margem florestal. Barulhos ensurdecedores retiniam aos seus ouvidos, à medida que ela cravava seus olhos em duas figuras à frente de uma multidão colérica.

─ Matem esse ser das trevas! Expurguem à Terra do Demônio! Em nome do Senhor, nós a aniquilaremos, maldita! ─ bradavam os moradores da singela cidade de Bloodmontain.

Elisabeth somente observava duas faces seguindo na dianteira do povo enfurecido. Seus cabelos volitavam largueados, enquanto sua visão termal examinava as palpitações arteriais e cardíacas dos caudilhos. Sua face começara a se retesar de cólera desde o instante que os brados raivosos eram recepcionados pela sua audição acentuada. O cheiro do sangue fluindo pelas veias de suas caças penetravam suas vias aéreas como insopitáveis bálsamos. Seus caninos afiados cresceram celeremente, ao mesmo tempo em que suas unhas se expunham pontiagudas, com os seus braços abertos, aparentando uma leoa ao iniciar um ataque. Os milésimos de segundos que ela levara para se predispor ante e acima da multidão, foram os mesmos que a fizeram sibilar entre o povo, cravando suas garras nos abdomens dos dois indivíduos e os levando em direção ao cerne da floresta, em meio a homens e mulheres rumorosos, por terem apenas escutado os gritos de pânico das criaturas fisgadas e uma forte brisa elevar suas vestes e cabelos ─ a vampira havia transpassado por todos eles em uma velocidade imensurável, impossibilitando que a visão humana a percebesse.

Corram, ela está nos atacando! ─ bradavam, todos atemorizados, espalhando-se pela densa mata e disparando suas pistolas aleatoriamente.

Os bramidos da vampira Elisabeth se assemelhavam aos crocitares das harpias em imergências profundas, quando em busca de suas presas. Sua sombra célere, quase invisível, mudava de um lugar a outro, destroçando as gargantas dos perseguidores e trazendo consigo os esôfagos suspensos em suas mãos. O pânico invadira por completo a densa floresta, à medida que a vampira Singger parava por alguns instantes e encarava seus pretensos captores olho a olho, antes de cada atassalhada mortal. Àquela noite, o ágape perfeito pelo líquido vital à vida estava assegurado, apesar de o ser eterno ter um acervo de sangue admirável, no seu palácio acima das colinas.

─ Isso, seus inermes... fujam! ─ protestava Elisabeth, aos soi-disant algozes em fuga. Seus crocitos atemorizantes faziam com que todos eriçassem os pelos dos corpos no momento em que eles ecoavam. ─ Jamais irão extrair do meu domínio um sentimento que há muito tempo não o experimentara! Agora, todos vocês irão morrer aqui!

Obviamente, a vampira se referia a alguém que fizera com que o amor retornasse ao seu mundo sombrio ─ mesmo que fosse algo aparentemente impossível ─ e à bela imortal os afrontaria a qualquer custo. Mas quem seria suscetível de apropriar-se do sentimento de uma criatura tão ameaçadora e instável? Talvez esta fosse à razão da fúria dos populares.

Os pontos oscilantes e avermelhados começavam a esvaecerem abaixo dos emaranhados de árvores, Elisabeth subia e descia entre as folhas, observando os fugitivos mais longínquos e os trazendo de volta ao cerne da floresta entre um pensamento e outro ─ jamais alguém presenciara algo que se movimentasse com tamanha agilidade. Os gritos de pavor eram reprimidos pelas folhagens espessas e compactas, enquanto os temerosos habitantes se detinham, chocando-se involuntariamente nas costas um do outro: Elisabeth os capturava e os lançava ao meio de um circulo concêntrico, sob folhas e galhos tramados. O desespero das mulheres se manifestava através de estridulosos brados revulsivos. Cabeças e membros dos corpos esquartejados eram arremetidos sob os pés de cada um dos moradores, que naquele instante, permaneciam aos prantos, aprisionados por seus medos e pela presença altiva do impiedoso ser das trevas.

Plainando lentamente em direção ao chão, Singger observava às lamúrias, as pulsações aceleradas, as respirações ofegantes e os olhares aterrorizados dos residentes de Bloodmontain. Suas vestes e velos deslizavam suavemente, à medida que ela se detinha sobre a folhagem úmida da floresta.

─ Descrevam-me como vocês ansiavam meu fenecimento ou captura, seres abjetos! ─ objeta a vampira pujantemente. ─ Vocês presumiam serem capazes de me deterem com essas deploráveis armas, reles mortais?

O silêncio vestira o ambiente, os ventos lancinavam e sibilavam nas árvores, enquanto Elisabeth rodeava, fitando o grupo de pessoas, cabisbaixo e tremeluzente.

─ Eu posso sentir o olor fétido dos seus temores e pensamentos mais profundos, caterva de depravados!... Não, nenhum de vocês sairá vivo deste lugar! Todos vocês foram relapsos e perpetraram um dos seus maiores erros ao adentrarem a floresta na tentativa de me aniquilar!

À medida que Elisabeth flanqueava os fugitivos assustados, reprimidos no centro, um deles se agachava e tentava escapar pelo lado oposto ao da vampira: ele inspira profundamente, prende por alguns segundos e lança o ar dos seus pulmões delicadamente, mirando o intenso breu que o aguardava, antes de chegar à cidade. Os olhos dos seus companheiros denunciavam o iminente risco que ele correria ao tentar uma fuga naquele instante. É uma ameaça que não me dá outras opções: morrer fugindo, ou ficar e servir de alimento a este ser demoníaco, pensa, levantando-se rapidamente e correndo em direção à mata.

Os cidadãos que continuavam retidos no centro sentem um forte sopro em suas fácies, suas vestes e cabelos esvoaçarem, então se observam rapidamente, expressando receio e dúvida quanto ao que acabara de ocorrer.

─ Vocês sentiram? ─ indaga um senhor.

Com a feição e os olhos hiantes, uma senhorita assente com a cabeça:

─ Sim ─ sussurra. ─ Mas... onde ela está?

Um sorriso estriduloso e maquiavélico fora lançado, à medida que sons de engasgos e grunhidos se mesclavam aos pujantes ventos que sacudiam as árvores. Os acuados se olhavam ainda com as cabeças arqueadas e confusos: o que está acontecendo? ─ perguntavam-se.

Elisabeth caminhava lentamente, saindo da sombria floresta. Em suas mãos arqueadas para cima, um corpo dependurado e vibrante dava seus últimos espasmos enquanto expelia grandes quantidades de sangue pela boca, revirando os olhos e decaindo a cabeça sobre os ombros. A vampira havia introduzido suas duas mãos no tórax do fugitivo, logo que ele adentrara em fuga, as sombras das árvores. Sua feição sádica se deleitava com o fugaz esvaecer da vida. Ela retira sua mão esquerda do interior do homem, agarra-o pelo pescoço e rápida e pujantemente, retira sua outra mão do peito dele, trazendo consigo, um tênue palpitar. Elisabeth lança o corpo inerte sobre os pés dos seus prisioneiros e ergue sua mão diante deles, com um coração ainda pulsante.

─ Observem, frágeis criaturas... observem... ─ Os olhos do amontoado de pessoas fitavam o coração do seu amigo lançando seus derradeiros pulsares. ─ Eis a implicação provinda da tolice.

Uma jovem senhorita lança um grito desesperado e os demais começam a ofegar rapidamente. Eles sentiam que à suas frentes estava a morte, despontando o seu sublime cântico de adeus em um corpo voluptuoso e de curvas exuberantes, deixando transparecer toda à sensualidade e malvadez conjuntas.

Elisabeth observava o coração perder suas forças, à medida que deslizava sua língua sobre ele. O órgão perdera completamente o último resíduo de energia e parara de latejar de imediato. Todos observavam com muita atenção o que à face feral da vampira demonstrava, levando-os subitamente a se assustarem com uma abominável abocanhada perfeita por ela. O sangue escorria pelos cantos de sua boca, lambuzando suas burlas e nariz no mesmo instante. Ela lança o coração emurchecido aos pés das suas presas e asseia seus lábios com a língua e uma das mãos, introduzindo seus dedos na boca e sorvendo o líquido hemático lascivamente. A expressão revulsiva dos cidadãos, somente a fazia se comprazer e observá-los fixamente.

─ Perceberam que todos vocês não passam de singelos envoltórios que abrigam estas frágeis febras em seus interiores? Notaram o quão medíocres vocês são e nos servem somente como alentos? ─ Outra vez o terror toma à face de um dos homens, no entanto, ele ergue a cabeça e a afronta.

─ Não, senhorita ─ diz com a voz tênue ─, não somos como você nos descreve; temos muito mais a oferecer. Não somos alimentos e tampouco medíocres. Apesar de cometermos grandes erros, nós também nos compadecemos. Por mais que isto pareça inacreditável, este é um dos belos atributos que compõem o ser humano: a compaixão. Por fim, não seria por esta razão que estamos aqui?

Elisabeth crava seus olhos sobre o insurgente e caminha lentamente em sua direção. O coração dele começara a palpitar acelerado, como os êmbolos dos trens que circundavam ferozmente à cidade das montanhas de sangue ─ eis um nome que se ajustara perfeitamente ao local de sua fundação: Bloodmontain nascera sob intensas guerras entre tribos do norte e do sul. No final, os guerreiros se uniram e edificaram a jovem urbe.

─ Ora, vejam só, observo um intrépido e arguto senhor ─ diz Elisabeth à frente do homem. ─ Tenho uma tênue impressão que o senhor lidera esta gente subserviente e sujeita a determinações. Não me impressiona sua precisa objeção. ─ Ela para por alguns segundos e retorna caminhando lentamente. ─ Verdade! ─ brada. ─ Vocês estão aqui no intuito de resgatar um dos seus. Mas, isto seria compaixão ou à esperança de obter um laurel em favor dos seus egos?... Através da minha longa existência, obtive a oportunidade de analisar essas suas atitudes, e se for para escolher entre as duas opções, a segunda delas é a que mais se adequa a vocês. A impostura é uma das ações mais latentes no ser humano. Afinal, o Senhor tido por vocês como o mais compassivo dos mestres fora crucificado pela misericórdia de vocês, não? ─ Ela gargalha altivamente em tom sarcástico.

─ A senhorita reporta-se a nós como se somente houvesse vaidade e maldade entre os humanos. Engana-se. Podemos nos destruir através de atitudes impensadas, mas há algo que sempre estaremos dispostos a fazer para que o sossego retorne, mesmo que nós mesmos tenhamos causado a desordem. Somos seres indecisos e contraditórios, eu sei. Porém, quando necessitamos um do outro não hesitamos em ajudar. Ainda somos criaturas sensíveis. Ao contrário do que à senhorita demonstra ser ─ retorque o velho senhor.

Elisabeth ergue os braços acima de sua cabeça e curva-se observando o céu negro sobre as árvores.

─ Basta!

Rápidas sovadas de asas e sibilos se ajuntavam ao redor do cume das árvores, os poucos raios de luzes que transfixavam a folhagem iam sendo encobertos, enquanto todo o ambiente se tornava tetro, iluminado somente pelas poucas chamas restantes em algumas tochas. Todos os moradores enclausurados olhavam para cima com expressões de pavor, revirando-se para todos os lados, tentando perceber o que mais sobreviria a eles. Os barulhos hipersônicos se tornaram ensurdecedores, fazendo com que eles levassem as mãos aos ouvidos subitamente. O sorriso apavorante da vampira se misturava a sua expressão diabólica, observando cada rosto atemorizado. Elisabeth salta velozmente e permanece volitando sobre suas vítimas, sorvendo seus gritos de terror, à medida que os braços dela faziam movimentos ondulatórios controlando telepaticamente todos os morcegos que os circundavam. O bando de bichos girava rapidamente, contornando de maneira concêntrica e revoava próximo as cabeças dos indivíduos, enquanto os rasgavam em cada atassalhada acometida sobre os seus rostos, pescoços e orelhas; toda à parte superior do tronco. A expressão de Elisabeth revelava o intenso deleite com os gritos horrorizados de cada um deles. Aos poucos, os intensos berros de dor e desespero, iam-se esvaecendo dentro do redemoinho de morcegos, enquanto as pessoas caíam uma a uma: uns corpos despencavam para frente, outros para o lado e para trás. Cada um deles era mastigado ininterruptamente, à medida que se sacudiam e balançavam seus braços inutilmente, tentando afugentar os bichos sanguinolentos, que os engoliam como os furacões devastando tudo em seu cerne. O redemoinho se avermelhava com os sangues volitando homogeneamente com os céleres animas da noite. A carnificina começara a se evidenciar após Elisabeth iniciar outra vez, os movimentos ondulatórios perfeitos por seus braços e mãos em harmonia com os movimentos dos morcegos, que se ajuntavam e giravam como um funil saindo por entre o cume das árvores.

─ Voem, meus preciosos, voem! Voltem aos seus valiosos e sombrios templos do descanso. Hoje suas orexias foram satisfeitas. Em breve vos encontrarei outra vez, meus filhos! Voem!

Lentamente a sanguinária vampira plainava até o chão, mirando os restos letíficos de cada morador que veio confrontá-la. Elisabeth se curva em direção aos corpos e lança um tênue sorriso pela quina da boca. Seu olhar descrevia à satisfação que seu corpo e mente, sentiam. Naquele momento, desperta dos devaneios que a atormentavam instantes atrás, possuída por um sentimento que se perdera há milhares de anos, ela lança seus longos cabelos para o lado, asseia seus lábios sujos de sangue, contornando-os com a língua e, arqueando o corpo, arranja-se em posição ereta. Uma tênue luz começara a surgir no horizonte, à medida que seu corpo iniciava um desagradável processo instintivo de sobrevivência: O Sol começa a despontar no Leste. Faz-se necessário que eu me vá neste exato minuto, pensa Elisabeth. Do mesmo modo que seu corpo célere chegara ao centro da floresta e devastara seus pretensos carnífices, a vampira se lança aos céus se decompondo em uma fuligem negra e seguindo velozmente ao seu sombrio castelo.

Frágeis gemidos e barulhos de correntes, seguidos por engasgos, ecoavam pelos imensos corredores do ergástulo no subterrâneo do palácio.

Socorro... ─ retiniu uma voz fraca ao perceber que alguém se aproximava. Preciso de ajuda.

Somente o silêncio se mostrava cauto. Leves sopros volitavam os cabelos do acorrentado, fazendo-o sentir uma nebulosa presença.

─ Eu sei que estás aqui... ─ Ele move sua cabeça para os lados. ─ Posso notar sua compleição gélida ao circundar-me. Não a figuro em minha mente, mas sinto que o seu corpo perfaz o mais aromático bálsamo das flores. Ouso a te dizer que são flores inacessíveis; talvez por sua inexistência nos dias hodiernos. Ou melhor: creio que em raríssimos lugares podemos encontrar tão preciosa planta. E, se este ser que aqui jaz esquelético não estiver equivocado, ainda estou nas proximidades da minha morada.

Silêncio.

─ Por que não me respondes? O que tens a me ocultar?

Vagarosamente uma fumaça enegrecida surgia à frente do prisioneiro, enquanto seus olhos atônitos apreciavam a cena. Eis que à bela figura de vestes e perfil voluptuosos emergia de baixo a cima, caminhando em sua direção. O andar faustoso de Elisabeth adormecia àquele que sofria as aflições da debilidade há muito tempo, ceifando sua vida lentamente. A vampira para diante dele e agacha-se, erguendo seu rosto pelo queixo e observando os olhos roxos, com uma quantidade mínima de sangue a circular.

─ É, Conde, só lhe restam alguns minutos de vida; mas se muito insistires, talvez celebre uma hora de existência.

O nobre ergue mais uma vez a sua cabeça, demonstrando que sua energia se esvaía rapidamente.

─ O que fizestes comigo? Quem é você? ─ diz o Conde Sanatas, respirando tenuemente.

Ela o observa fixamente.

─ Não imagino quais das perguntas queres que eu te esclareça inicialmente. No entanto, elucidarei minha alcunha, talvez um tanto corriqueira em algum tempo, ou augusta em outro. ─ Ela caminha até a porta da masmorra e para. ─ Eu me chamo Elisabeth; antes princesa e agora sublime rainha entre todas as nobres.

O Conde não conseguia entender o que ela queria dizer com tais palavras.

─ Rainha? Mas, onde se faz teu reino, senhorita?... E o que está acontecendo comigo? Sinto-me muito fraco e a dádiva da existência, esvaece-se de mim. O vento que circula o interior deste cubículo adormece meu corpo como se eu estivesse sobre a gélida neve que vez ou outra cobre minha cidade. Sinto frio e medo.

Elisabeth se aproxima outra vez dele, agarra-o pelos braços e o encosta em um dos vértices da parede. O seu coração, mantendo seus últimos sinais de energia, tenta pulsar mais forte ao sentir à terrível força advinda sobre ele. Porém, aqueles instantes não mais o permitia que mais medo se sobrepusesse o que já o afligia. O que ela quer de mim?, reflete.

Novamente a vampira se levanta e se afasta dois passos atrás.

─ O Mundo é o meu reino, Conde, e apenas quem eu permito caminha sobre ele ─ responde. ─ Eis o motivo de ainda permaneceres vivo. Dentre milhões, fostes o escolhido para seguir unido a mim; se assim desejares, porquanto, dentro de alguns minutos irás morrer; isto que irá acontecer contigo.

Os olhos dilatados do Conde Sanatas somente confirmavam o que o seu corpo e sua mente sentiam. O fenecimento era inevitável.

─ Mas o que está acontecendo comigo?! ─ exclama assustado.

─ Horas atrás, no dilúculo anterior, eu o segui e o trouxe até o meu castelo. Algo me atraiu até você como jamais ocorrera com qualquer outro. Sentimentos que sentia quando estava viva, renasceram em mim pujantemente. ─ O rosto dele se franziu. ─ És o escolhido.

─ Escolhido?! O queres dizer com “quando estava viva”?!

Elisabeth se aproxima mais uma vez dele.

─ Neste instante não temos tempo para elucidações detalhadas. Sua vida está chegando ao fim, pois suguei o seu sangue, deixando o suficiente para que tivéssemos um último diálogo. Imagino que tenhas somente alguns minutos de vida. Mas eu posso te salvar; se assim desejares.

─ Como poderias evitar minha morte se assim fizesse-me ficar? ─ retruca o Conde.

Aproximando-se.

─ Você governará o Mundo... Apenas beba. ─ Elisabeth expõe os seus caninos afiados e eleva o próprio pulso até a boca. Com uma atassalhada, ela perfura suas veias e leva até a boca do Conde Sanatas. ─ Beba!... Isto irá te ajudar imediatamente! Beba ou irás morrer!

Receoso, o Conde fita o rosto pálido de Elisabeth, à medida que o sangue gélido dela escorria pelo seu pescoço, transcorrendo o seu corpo anêmico.

─ Beba! ─ brada Elisabeth.

Os olhos do nobre começavam a esmorecer e suas mãos decaíam sobre suas pernas e deslizavam para os lados.

Imagino que não conseguirei erguer minhas mãos para isto, pensa.

─ O que ainda esperas?! Isto irá te salvar ─ diz outra vez a vampira, agarrando-o pela cabeça pendida para o lado.

Ele se esforça mais uma vez para abrir os olhos e observa o pulso da vampira aberto à sua frente. Sua debilidade e nojo não o permitiam levar sua boca até à incisão dilatada e fluente. Mesmo diante da iminente morte, o Conde não conseguia fazer o que Elisabeth lhe ordenara.

Sua cabeça começava a pesar cada vez mais sobre uma das mãos da vampira; ela percebera que seus derradeiros suspiros se aproximavam.

─ Estúpido! Soberbo! Prefere a morte a libertar-se dos desígnios dela! ─ diz soltando o corpo inerme dele sobre o chão úmido. ─ Se assim desejas, então morra!

Ela caminha outra vez até à saída e, virando-se em direção a ele, observa-o entregar o último suspiro olhando fixamente para os olhos dela. Seu olhar demonstrava que ele não mais desejava a morte naquele instante. Elisabeth ler à sua face compungida e em um estalar de dedos surge com a cabeça do Conde Sanatas em suas pernas, comprimindo o pulso aberto e vertendo sangue sobre a boca dele. O líquido hemático deslizava por sua língua e garganta, seguindo velozmente até o estômago. Seu corpo, ao ser umedecido interiormente pelo sangue gélido da vampira, reage instantaneamente: seus olhos se dilatam e a sua respiração acelera de forma abrupta. Ele agarra o pulso da vampira e começa a sugar suas energias ininterruptamente ─ semelhante a alguém que ingere prazerosamente um copo d’água quando está com muita sede. Elisabeth aguarda alguns segundos e o afasta de forma pujante, impelindo-o com um dos pés contra a parede.

─ Largue-me! ─ ordena-o ofegante.

O Conde se levanta subitamente revigorado, agitando as correntes e observa Elisabeth levantar e se recompor. Ela o analisa com o corpo intensificado e entrega-lhe um sorriso tênue pela quina da boca.

─ Sente-se melhor? ─ pergunta.

─ Como nunca antes havia me sentido, senhorita! O que corre em tuas veias é o líquido da vida! ─ retruca o Sanatas.

Elisabeth faz ecoar pelos corredores um altivo e sarcástico sorriso, lança seus cabelos para trás e cruza a porta de saída do ergástulo, deixando-a plenamente aberta. Ele a observa intrigado, remexendo as correntes novamente.

─ Ei, aonde vais?! Tu vais me deixar aqui desta forma?!

─ Sim ─ redargui a vampira.

─ Mas por qual razão?

─ Você compreenderá o momento propício e se libertará!

─ Como?! O que irá acontecer agora?!

Elisabeth vira-se outra vez alinhada ao Conde e grita a oito metros de distância:

─ Agora, você irá morrer!

Ela segura suas vestes pelas bordas, gira celeremente e desaparece entre o breu, fragmentando-se em uma fuligem negra.



●●●



O Conde Sanatas começara a sentir náuseas e o seu estômago, involuntariamente, iniciara a sentir intensas dores; sua cabeça pulsava como se fosse explodir e seus pulmões paravam lentamente. O filho sempre volta ao lar, pensa, referindo-se aos instantes atrás, que estava caminhando para a morte. Que ingenuidade a minha em pensar que sobreviveria.

O pavor não mais o atormentava e sua mente começava a aceitar o que o “destino” lhe reservara. As dores lancinantes começavam a diminuir e o seu corpo, novamente jogado ao chão, perecia em um tempo moroso, fazendo-o refletir sobre alguns momentos da sua vida. A umidade ondulava com os últimos suspiros dele, à medida que a água respingava a frente do seu rosto grudado ao chão álgido. Suas pupilas dilataram em um deslize contínuo de tempo e então, escutou-se o derradeiro suspiro.



●●●



Elisabeth observava e ouvia as pessoas da mais alta e nebulosa torre do seu castelo; elas conversavam sobre o ocorrido na noite anterior. A vampira se concentrava em cada murmúrio advindo de quilômetros à frente. Os habitantes de Bloodmontain se questionavam sobre os seus parentes e a razão de ainda não terem retornado as suas casas.

Mas por que até agora ninguém retornou, perguntavam-se todos. Precisamos preparar mais pessoas e enviar um grupo de buscas!

Elisabeth, somente sentia os sopros fortes dos ventos que adentravam o seu palácio negro transfixarem seus velos, fazendo-os volitarem suavemente em meio à escuridão. Algo se aproximava dela cautelosamente entre as fissuras das imensas pedras que erguiam e esteavam o obscuro lar da vampira rainha. A atenção dela apenas se fixava nas palavras dos moradores da cidade, intentando outro ataque. O crepúsculo brotara no horizonte e à noite começara a nascer sobre as tochas e arcos-elétricos da cidade. Outra vez, o vozerio de tochas viandantes seguia em direção ao centro da floresta, com destino ao grande castelo montanhoso. Elisabeth pensara em exterminar todos àqueles que tentassem algo contra ela, no entanto, uma cidade vazia por inteiro não seria viável para sua existência.

Amaldiçoados sejam àqueles que escusam a sua própria fleuma em detrimento da inquietude alheia!... Execrados eles serão por minhas mãos! Neste véu que brota acima, não terá clemência!, pensa Elisabeth, volvendo suas vistas para o lado.

Ela sentira que uma presença estava entre ela, examinando-a há minutos atrás.

─ Eu esperava por ti, meu apetecido! Aqui estou para abdicar do meu poder supremo para que junto a mim reinemos ambos entre essas criaturas vis.

Dentre as sombras, surgia uma silhueta de cabelos alongados e pele morena, vestida com um longo sobretudo por sobre vestes nobres. O Conde Sanatas caminhava lentamente em direção à Elisabeth à medida que ela o observava vigilantemente. A face dele demonstrava ─ antagonicamente ─ uma mescla de ódio e alacridade. Talvez pelo sofrimento e renascença após passar duas vezes pelas prévias agruras da nova vida.

─ O que fizestes comigo?! ─ inquire o Conde confuso com tudo que escutava e observava de forma aguçada. ─ Quem são estas pessoas e de onde vêm suas vozes? Escuto até o rastejar de larozes se alimentando de restos pútridos! Estão me atormentando!

Elisabeth abre os braços em sinal de amparo e o chama:

─ Venha até mim, meu senhor. Não és mais o mesmo e em instantes se adaptarás as suas novas inclinações. Não mais fazes parte do mundo mortal, porém necessitas dele para tua perpetuação.

─ O que fizestes comigo?!

─ Dei-te uma nova vida! Tens a eternidade para prevalecer-se dela... não dilapide-a.

Ele se ajoelha a uns três metros dela, apoia seus cotovelos em suas coxas e põe a mão sobre os ouvidos.

─ Não aguento mais esses barulhos!

Elisabeth se aproxima rapidamente e diz:

─ Tão-somente se concentre e em cada som e separe-os em sua mente; faça-os retornarem os seus seguimentos naturais. Posteriormente escutarás somente o que desejares.

O Conde para por alguns instantes, retira suas mãos dos ouvidos e fixa seu olhar no nada; ficara alheio ao que o circundava. Elisabeth o analisava calmamente, enquanto ouvia os passos e rangeres de dentes da população colérica se aproximando.

Matem-na! Matem-na! ─ diziam eles.

Repentinamente, o Conde empunha a vampira pelo pescoço e a levanta contra a parede. Seus olhos negros e enfurecidos despontavam o quanto sua vida anterior era especial para ele.

─ Eu tenho uma filha, ser desventurado! Por que fizestes isto comigo?!

Em um piscar de olhos, Elisabeth se desfaz em fuligem e aparece por detrás dele, virando-o de costas para a parede, segurando-o pelo sobretudo e elevando-o da mesma forma que ele fizera.

─ Eu salvei a sua vida! ─ retorque à rainha dos vampiros. ─ Todos esses que vêm nos matar, planejavam insurgir-se contra a realeza e enforcar todos os Condes em todas as províncias! E, tem mais uma coisa: sua filha foi assassinada por um deles, Conde Sanatas!

─ Mentira! ─ retruca se sacudindo, comprimido na parede. ─ Largue-me, preciso vê-la!

Por mais forte que ele tivesse se tornado, seu poder não se equiparava ao da rainha de todos os vampiros. Enquanto ele sacudia seu corpo e segurava os braços de Elisabeth, ela apenas o observava desistir aos poucos, largando um braço por vez e deixando o seu corpo inerte. A vampira o larga e ele cai de joelhos aos pés dela, mas não se podiam ver lágrimas vertendo dos seus olhos. Todos os sentimentos que o tornaram humano por trinta e cinco anos, havia se esvaecido. O que ele pensara ser uma dor profunda no instante que soubera que sua filha estava morta, não passara de memórias acentuadas, levando-o a crer que ainda poderia sentir amor. Mas, por que não? Afinal, ele estava naquele castelo possivelmente porque Elisabeth sentira algo por ele, e não tinha como denominar de outra forma.

─ Agora, levante-se e junte-se a mim, Conde... Tu serás o meu rei e eu serei tua rainha! Faz-se necessário que saiamos neste instante ─ diz a vampira, enquanto os machados, madeiras e foices golpeavam o imenso portal do castelo. ─ Vamos, meu precioso Conde! Iniciemos o nosso mais belo ágape!

O Conde Sanatas se levanta restaurado, olha-a nos olhos outra vez, toma-a pelos braços e em um impulso a beija lascivamente. Bastara alguns instantes para Elisabeth perceber que o que havia feito fora a atitude mais correta entre todas as possíveis. Eles se olham ofegosos, correm até a margem da torre negra e saltam em direção a grande luz de Cíntia, parcialmente encoberta pelas nuvens. Seus cabelos volitavam com os densos e altivos ventos à medida que os dois se observavam voluptuosamente.

─ Eis o nosso imenso banquete, meu Conde! ─ diz apontando um amontoado de pessoas a rugirem em frente ao seu palácio. ─ Libertemo-nos desses sáfaros!

Ele observa a escuridão abaixo e instantaneamente sua visão percebe os pulsares das veias avermelhadas fluindo pelos corpos da multidão.

─ Eis-me aqui para te acompanhares, minha rainha! Desfrutemos do que nos foi laureado!

O casal gira e mergulha como uma flecha em direção dos invasores. Seus dentes e garras pontiagudos seguiam abertos à frente de suas cabeças imergidas nos sopros dos ventos que retesavam seus cabelos. Um uníssono brado dos dois vampiros fez com que alguns cidadãos olhassem para cima, em contemplação as suas últimas imagens advindas do céu enegrecido.

Eles nos atacarão por cima! ─ disseram seis deles, à medida que foram levados e atassalhados em segundos.





Para minha filha, Elisabeth.



3 de Maio de 2019 às 01:24 0 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Moisés Calado Moisés Calado escreveu alguns artigos para sites de filosofia, arte e publicou algumas poesias em sítios do gênero. Cursou Direito ─ FDG e os cursos de Psicologia e Filosofia na Universidade de Pernambuco (UPE). É assessor jurídico, trabalhou no controle interno de órgão público e na área licitatória. Em cinco anos escreveu dois livros intitulados: “Exorcismus ─ Sob a influência do mal” e “A Ordem”.

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