A tempo do tempo Seguir história

ksutaguo Louise Alves

"Queria... Queria ter vivido tudo que vivi com minha esposa com... Ela... — Ele limpou o canto dos olhos — Não me entenda mal, amo minha esposa e nossos filhos, mas... — Lee assentiu e Neji continuou — Ter visto seus prêmios, nossos filhos crescendo, até a crise da meia idade que com certeza ela teria... Agora é tarde."


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#drama #naruto #nejiten #Nickelback #desafiofns #Bugdomilenio #FarAway
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Capítulo Único

Neji sentiu-se estranho por estar ali. Tudo estava diferente. Os cheiros, a arquitetura, as pessoas. O ginásio que Lee cismava em treinar a maldita ginástica olímpica estava vazio, havia uma biblioteca onde hoje é um estacionamento e o cheiro de dióxido de carbono é desesperador.


Konoha mudara desde quando ele partiu.


Ele passou os dedos pela madeira do corrimão do ginásio praticamente abandonado quando atravessou a porta feia e um sorriso inevitavelmente brotou entre sua habitual carranca. As cordas e argolas ainda estavam penduradas ali.


Desceu a pequena escada com um pouco de dificuldade, afinal de contas, sua juventude havia sido deixada para trás no tempo e, com o avanço do mesmo, novos problemas físicos foram sendo descobertos pouco a pouco. Uma bela e cômica tragédia Neji Hyuuga, pentacampeão mundial em ginástica acrobática, tinha ossos fracos.


Caminhou a passos curtos pelo ginásio esquecido e vazio, sempre fitando as argolas no topo da construção. Elas causavam um comichão que o homem sequer recordava-se da última vez que sentiu algo parecido.


Neji visualizava a mulher mais forte do Japão pendurada pelos pés, rindo como só ela fazia, balançando de um lado a outro superando-se em suas façanhas esportivas. O Hyuuga desesperava-se toda vez que ela fazia alguma estripulia já prevendo um tombo que nunca chegava.


Encheu os pulmões velhos de ar enquanto acendia as luzes do pequeno vestiário masculino. Sentia as mãos quentes da mesma mulher pelo seu corpo como se ela estivesse bem do seu lado. Ele desistiu de contar quantas vezes ela invadiu seu banho e quanto sexo foi feito ali. Gai-sensei falava sério sobre o fogo da juventude, pois ela era a personificação da brasa juvenil.


— Um passarinho me disse que ia achar um velho cabeludo por aqui. — E lá estava Rock Lee, tão grisalho quanto Neji mas não tão vivaz como antes. A idade chegava para todos afinal de contas.

— Lee...!

— É uma pena que tiveram de fechar isso aqui, tenho tantas boas memórias desse lugar.

— É, eu também...

— Achei que não viria.


Neji nasalou e limpou a testa com a palma da mão. Estar ali era mais difícil do que havia imaginado.


— Eu também pensei isso... Mas Gai ficaria uma fera se eu não viesse. — O velho Lee tossiu concordando. — Lembra daquele basculante?


Lee sorriu como um menino recordando-se da memória tão antiga.


— Ah, eu nunca te agradeci o suficiente por ter me ajudado a passar no meio desse negócio. Se não fosse por você, talvez Tsunade teria me degolado! — Neji permitiu-se rir da lembrança.


Lee não era dotado da beleza mais potente do mundo, mas era uma pessoa extremamente carismática e charmosa, coisa que a filha da delegada Senju havia notado. Por crescer num ambiente rigoroso Sakura via em Lee uma válvula de escape do clima autoritário em casa, todavia o que ninguém — Salvo Neji — sabia era do romance secreto entre eles. Quando a policial descobriu foi logo tirar satisfações com o rapaz — com dois socos ingleses nas mãos. Naquela época os costumes eram tão diferentes...


— Que Deus a tenha em um bom lugar...

— Sim... Ou talvez ela tenha roubado o lugar do capeta...

— Neji!

— Você sabe que é totalmente plausível — O Hyuuga cruzou os braços rindo imaginando perfeitamente o senhor do inferno sendo expulso do submundo a tamancada... — Então, como está a Sakura? — Lee suspirou.

— Morreu há dois anos, o marido dela até hoje não se conforma com isso, mas a filha deles seguiu em frente. Uma moça muito forte, sabe...

— Achei que tinha se casado com ela. — Lee riu e coçou as costas.

— Eu me casei, mas não com ela. Nossas vidas seguiram em frente. — Neji abaixou a cabeça, triste.

— Ela também seguiu?


Lee, que estava na porta do vestiário, assentiu com um sorriso amistoso. O velho então fitou as argolas enferrujadas de forma saudosista, como se tanto ele quanto Neji conseguiam ver e sentir a energia da mulher elétrica que fazia um trio com eles.


Ela era... Única...


Neji saiu do vestiário junto com o amigo e se sentaram no primeiro degrau da arquibancada.


— Sabe, ela ficou uma fera quando você foi embora. — Lee começou, Neji não esperava menos — Ela fez questão de pegar uma vara e quebrar a barra que você ficava — O velho de cabelo de cuia riu da cara do Hyuuga — Gai sensei, que deus o tenha, demorou dias para reparar a estrutura, mas acabou que no final tivemos de comprar outra.

— Jesus Cristo...

— Ora, o que você acha que ela ia fazer quando soube que você partiu para Rússia sem mais nem menos?

— Era a oportunidade da minha vida, não me arrependo de partir, mas... — Suspirou pesadamente — Deixei tudo que eu mais amava, mais até que minha profissão, para trás. Quando percebi isso, já estava tão amarrado àquela terra que seria injusto voltar. Mas você não fazia ideia de como eu queria voltar...


Lee riu, gargalhou. E acabou tossindo e quase expulsou a dentadura da boca. Ah, o destino as vezes era uma piada de mau gosto...


— O que é tão engraçado seu velho caquético? — Neji disse espalmando as costas do antigo companheiro.

— Engraçado... Como o destino... As vezes é uma porcaria... Ah. Estou bem, estou bem! — Lee tossiu um pouco mas recuperou-se rapidamente — Você tem a chance da vida de todo ginasta, casou-se, teve filhos, dinheiro, fama, um estádio com seu nome e ainda sim queria voltar pro fim de mundo do Japão onde estava seu melhor amigo e a mulher da sua vida. Que vida dura, Neji.

— E onde você aprendeu a ser sarcástico? Que eu me lembre, você era um poço de alegria na sua forma mais consistente.

— Ora, você era um jovem rabugento e insensível e olhe só pra você, seu venho sentimental. Sentado no meio de uma arquibancada velha lembrando da vida.


Lee e Neji se encararam e começaram a rir, como dois malucos, os velhos gargalhavam sobre seus velhos ossos que agora estalavam atoa e davam dores.


A vida era realmente surpreendente.


— O que aconteceu com ela? — Neji disse quando acalmou-se. Lee suspirou.

— Você vai saber mais quando chegar lá, mas... Bem, seguiu em frente. Tivemos obstáculos na vida, mais até do que gostaríamos...

— Como assim?

— Teve uma época que ela veio morar comigo. Mas não é nada do que você está pensando! Ela é como uma irmã para mim e você sabe muito bem disso! Mas... Tivemos percalços... Naquele tempo tudo era diferente, né? As pessoas eram bem menos tolerantes — Lee tirou um pingente que abria em uma foto — Especialmente com gente como nós.


Uma foto preto e branco de Lee e um homem. Branco até demais, com um sinal na testa e olhos muito claros. Neji, que tanto entendia de como as pessoas do tempo deles priorizavam as aparências, logo entendeu o motivo da sua tão amada mulher ir morar com seu irmão. As coisas seriam mais “fáceis”.


— Não se preocupe, Gaara ainda não morreu e vai conhecê-lo assim que sair daqui, garanto que irá gostar dele! Ele é um pouco menos rabugento que você, mas ainda assim um grande homem... Ainda temos tempo...

— Lee... Fico feliz por ter encontrado o amor e ser feliz, não vou julga-lo por isso. — Ele sorriu como se fosse jovem e Neji suavizou o rosto — Fico contente por você de verdade, pois pelo menos alguém desse ginásio viveu um grande amor.

— E você não? — Neji suspirou.

— Eu fui idiota.

— Nisso nós temos que concordar... Mas, sabe, você está aqui. Agora. Você era a última pessoa que achei que veria hoje, criou forças de sei lá onde e cá está. Você teria saído da Rússia para vir ao Japão se não tivesse vivido um grande amor?


Neji fitou as argolas, com olhos marejados e arrependidos.


— Queria... Queria ter vivido tudo que vivi com minha esposa com... Ela... — Ele limpou o canto dos olhos — Não me entenda mal, amo minha esposa e nossos filhos, mas... — Lee assentiu e Neji continuou — Ter visto seus prêmios, nossos filhos crescendo, até a crise da meia idade que com certeza ela teria... Agora é tarde.


Lee espalmou as costas do companheiro, nada podia ser dito naquele momento, nem bom e nem ruim. A dor da saudade era tão palpável e afiada como uma lâmina.


— Eu literalmente atravessaria o inferno para vê-la de novo e dizer tudo que eu deveria ter dito, feito tudo que eu deveria ter feito...

— Neji, onde quer que ela esteja agora, eu tenho certeza que ela está feliz, como ela sempre foi... A Tenten...


— Era magnífica.


Uma voz feminina e potente ecoou na porta do velho galpão. A moça trajada de preto caminhava em direção aos idosos. Lee se remexeu nervoso enquanto Neji achava estranho “reconhecer” uma estranha.


— Ela era... Meu pilar... Ela era uma ginasta incrível e definitivamente merecia o mundo... — A mulher se aproximava cada vez mais e Neji se levantou, com um pouco de dificuldade.


A mulher tinha o rosto idêntico a Tenten, mas os olhos...


Neji quase caiu para trás. Lee já chorava silenciosamente.


— Durante toda minha vida, minha mãe me contava histórias de como meu pai era incrível. Me mostrava recortes de jornais, mostrava vídeos de saltos esplêndidos... Dizia que foi trabalhar e que um dia... Voltaria para nós — Ela enxugou as lágrimas — E agora vendo o senhor na minha frente...

— Neji — Lee disse calmamente após enxugar o máximo de lágrimas possível — Essa é Yue...


Mas o Hyuuga nada disse.


Olhar para ela, Yue, era como olhar para Tenten... Como seria Tenten por volta dos quarenta anos... Os cabelos escuros comi ela presos num rabo de cavalo, a postura bonita, elegante como Tenten jamais foi, porém com a alma cativante da mãe.


Neji aproximou-se com alguns passos curtos, tocou-lhe a face úmida de lágrimas, os ombros fortes, os braços, apertou as mãos... Sentia o cheiro dela na sua filha...


E não tinha dúvidas. Yue é a chance que a vida lhe deu de recuperar o tempo. De mesmo tão distante, Tenten ainda o surpreendia. Que o tempo ainda era um privilégio, de estar vivo para testemunhar o amor que criou sua filha mais velha.


Abraço-a forte, agradecendo a Deus por estar vivo.


— Se eu soubesse... Se... Se eu soubesse...

— Não seria justo com tudo que você construiu, papai. Você tinha um legado para cuidar e... bem, esperava a hora certa de aparecer... Só não esperava que seria nessa situação...

— Temos todo tempo do mundo agora, pequena. — Talvez não tão pequena assim, visto que ela estava levemente curvada para falar com o pai. Lee aproximou-se ainda muito emocionado.

— Yue, Neji, infelizmente... Está na hora.


Neji não largou da mão dela.


— O sepultamento está marcado para às 17 horas — Yue confirmou, olhando para o relógio — Faltam 20 minutos, mas o trânsito vai começar a engarrafar...

— Está tudo bem...?

— Eu acabei de ganhar uma filha, como não estaria bem?


Yue sorriu exatamente igual a sua mãe.


E por alguma razão, as argolas mexeram-se antes deles saírem. Não havia vento.


Apenas Tenten sorrindo pela estripulia.



23 de Abril de 2019 às 02:26 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Louise Alves Bióloga de segunda à sexta; Ficwriter, jogadora de videogames e procastinadora profissional aos fins de semana.

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