Imortais - Multiverso 1004 Seguir história

rhucaroline Rhu Caroline

É possível fazer do mundo um lugar melhor sendo uma criatura destinada a viver nas trevas? Essa é a questão de Alice abordada neste conto.


Conto Todo o público.

#bullying #vampiros #imortais
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Alice

Esportes em geral são algo que unem os humanos, e estava eu ali de volta à aquele colégio de ensino médio, tentando regressar a minha vida humana. Nós, a turma, estávamos sentados no chão da quadra de basquete o professor na frente explicando algumas coisas e iniciando um treinamento de cesta.

Um por um os alunos pegavam uma bola, corriam do fundo da quadra até o garrafão e arremessavam para a cesta. Os que acertavam saiam vibrando, os que erravam apenas soltavam um riso mas sem delongas voltavam para o grupo. E então foi a vez dela. Tifanni ou Stefani, algo do tipo, ela ao mesmo tempo que não passava despercebida por seu tamanho era invisível para a maioria do colégio, sendo sempre ignorada. Seus cento e cinquenta quilos provavelmente era um dos motivos que afastavam as pessoas dela, que faziam com que outros a usassem como um brinquedo para fortalecer seus próprios egos. Afinal diminuir alguém para aumentar a si mesmo é uma façanha bem humana, não é mesmo? Bem, quando ela levantou e recolheu uma das bolas do chão, todos a fitaram com olhares pejorativos, eu não precisava ser o que sou para saber que metade ali aguardava ansiosamente que viesse dela alguma ação para deboche. E não tardou muito para acontecer.

Ela picou a bola algumas vezes no chão ainda sem se mover, e então correu, seus pés se trocando pesadamente, respiração pesada. Seu coração palpitava tão forte em seu peito que chegava a me incomodar. Não havia dúvidas para mim, que aqueles poucos metros de corrida para ela era um sofrimento para seu corpo, mas eu via em seus olhos a determinação, ela queria fazer aquilo, provar sua capacidade. Já chegando perto da área do garrafão lhe faltava poucos passos e um arremesso, mas sua perna vacilou. Em um escorregão suas costas atingiram em cheio o chão provocando um ruído abafado enquanto a bola saiu repicando pesadamente pela quadra, como se replicasse o barulho da queda em forma de eco.

Ni envergonhada se colocou de pé o mais rapidamente que conseguiu e correu para a arquibancada onde se encolheu, escondendo seu rosto entre os braços e pernas enquanto uma chuva de risadas preenchia a quadra, rebatendo nas paredes um fundo musical para os vários murmúrios que saiam da boca dos outros estudantes ‘olha a gordinha’ ‘você viu as duas bolas correndo?’ ‘Ela deveria ter arremessado a si mesma na cesta’. Durante esses segundos de alvoroço, Elisa, a auxiliar do professor foi a primeira a ter uma ação e ir de encontro a Ni. Porém o professor continuou sua aula como se nada tivesse acontecido, como se ninguém tivesse sofrido um acidente enquanto ao fundo continuava as risadas contidas dos alunos. Eu esperava dele uma repreensão a estes ruídos, mas não, ele prosseguiu apitando por cima das risadas enviando o resto da turma para o treinamento de arremesso.

Naquele momento meus pulsos travaram sob a minha perna. Eu deveria ficar ali sentada e calada, assistindo como fiz outras vezes desde que voltei ao colégio, a mais um episódio de babacas zombando da pobre Ni? E então, sem que eu me desse conta de meus próprios movimentos eu me levantei e estava ao lado de Ni.

- Não deixe isso te abalar. – Falava a instrutora enquanto Ni continuava de cabeça baixa chorando. Eu a toquei fortemente em seu braço, segurei com bastante firmeza naquela pele macia, sentindo a textura macia de sua pele, o calor da vida escapando pelos poros. Provavelmente meu toque gélido a assustou e levantando o rosto ela me encarou – seus olhos vermelhos cobertos por lágrimas.

- Ei. – eu disse – Ignore eles. Você é uma garota linda. Olhe para seu rosto, sua pele, seus olhos, você é perfeita. Sei que o padrão atual da sociedade coloca seus quilos a mais como uma doença, mas...

- Mas eu sou doente, eu tenho deficiência em ferro. E eu sou feia, gorda e negra!

- Não importa. Isso não muda quem você é por dentro. Ni você precisa enxergar a beleza em si mesma, quando fizer isso entenderá o que eu estou vendo: Uma linda mulher capaz de fazer e ser aquilo que ela quiser. – Eu segurei o rosto de Ni enxugando algumas de suas lágrimas com o meu polegar. – Sabe o que você precisa neste momento? De uma mudança exterior. De roupas decentes, de um visual decente, você precisa deixar florir o que há em seu interior. As roupas de senhora que você usa não te ajudam. Você está acima do peso, mas não é motivo para não andar na moda. Nós vamos fazer compras, lave o seu rosto e após as aulas me encontre no portão, eu irei contigo.

Neste momento eu vi os olhos de Ni se transformarem e seu rosto abriu em um largo e puro sorriso. As lágrimas foram completamente embora e ela se levantou enquanto murmurava algo como um ‘obrigado’.

- Eu não esperava isso vindo de uma aluna. Parece que salvaste uma alma. – Disse a instrutora para mim, enquanto segurava fortemente o crucifixo que ela sempre usava debaixo de sua blusa. De igreja, Elisa costumava ser chata com relação a assuntos divinos e satânicos. E apesar de eu sempre ignorar seus ensinamentos sobre o deus humano, aquela sua última frase de algum modo tocou minha essência.

Poderia eu salvar pessoas, sendo o que eu sou? Poderia eu usar a possibilidade da eternidade que ronda em minha porta para ajudar os humanos a se tornarem algo melhor? Mas isso não deveria ser o papel de um anjo? Porque um demônio sugador de sangue como eu faria isso?

...

Eu achei que encontrar roupas decentes para Ni seria uma tarefa fácil, mas estava enganada. Naquela época só existia uma opção, uma boa costureira. Mas Ni não era de uma família dotada e agora eu entendia porque ela usava aqueles vestidos que mais pareciam ser parte da cortina da sala do que uma roupa. Mas eu não desisti e procurei pelos contatos da agenda de meu pai, e o nome de um estilista famoso estava lá. Cheguei a conclusão que ele também é um servo da noite, não que isso naquele momento ainda me surpreendesse. Já fazia um ano que Christopher, o mordomo, que agora mais que nunca eu considerava como meu verdadeiro pai, me revelara o segredo da família e o motivo pelo qual eu estava sendo criada sozinha em uma mansão por ele e os demais empregados. Já fazia um ano que aquele acidente idiota que eu sofrera despertara a minha metade vampira. Você não consegue acreditar que um escorregão de uma escada pode matar até ser morta por um. Até se levantar e ver uma enorme poça de sangue no chão e sentir sua cabeça latejar enquanto ouve os gritos misturados de seis empregados sem entender como você, segundos antes totalmente inerte, se levantara com olhos vermelhos e um corte profundo pulsante em sangue no crânio. Você não consegue acreditar no que está lhe acontecendo até o mordomo puxar a espada de decoração da parede e num piscar de olhos ver seis corpos e um lago de sangue no hall de entrada de sua casa. Você não consegue acreditar no que ele te diz.

Você é uma dampira e seu pai é o líder dos vampiros. Eu sou um bruxo guerreiro devoto de seu pai, atualmente incumbido de ser seu guardião.

Levei alguns meses para acostumar com essa ideia, para acostumar com as novas funcionalidades do meu corpo. No início eu fiquei trancada em meu quarto, não que isso fosse algo ruim, afinal o que vocês humanos normais conhecem como apartamento era o meu quarto. Eu tinha tudo ali, banheiro amplo com uma banheira similar a uma piscina, mesa de refeições, cama gigante, vários sofás e puffs, o mais moderno televisor a cores da época, incluindo Odyssey 100, o primeiro console de vídeo games criado... Ou seja todo o conforto e comodidade da década de 70 ali ao meu alcance. Mas mesmo que nossa mansão ficasse afastada daquela pequena cidade do estado de Minnesota, os ruídos vindo dos carros e outras coisas da civilização humana era algo que me incomodava. Foram dois meses de treinamento com Christopher até eu conseguir controlar o alcance de minha audição. E havia algo pior, a sede de sangue. Por conta dela, naquele tempo não pudemos contratar novos empregados para a casa, o que não foi de tanto problema, pois assim eu tive oportunidade de aprender a fazer algumas coisas por mim mesma e enquanto eu trabalhava em afazeres domésticos eu não tinha tempo de pensar na sede.

Um vampiro jamais irá consumir outra coisa além de sangue – ele pode até o vir fazer para manter suas aparências entre humanos, mas irá vomitar tudo na primeira oportunidade que tiver – porém eu sendo um dampiro em transição ainda me é permitido comer algumas coisas. Frutas e carnes são o que caem bem ao meu paladar e digestão. Porém o sangue é algo incomparável. Qual o sabor dele? Eu não sei dizer porque vai além de apenas sabor. Enquanto comidas ativam o paladar, o sangue afeta algo mais, é como se todo o meu corpo estremesse a medida que o espesso líquido escorre por minha garganta. É similar a um orgasmo porém mais intenso. E diferente de quando se alimenta de comida, o sangue não para no estômago, você não se sente pesado e lento após a refeição, ao contrário, você se sente forte, vívido, afinal toda a energia de sua vítima fora transferida para ti. E quando o sangue é humano, quando se tem a possibilidade da caçada, tudo fica ainda mais intenso. Mas nessa época eu desconhecia o sabor humano porque no fundo eu sabia que uma vez que o fizesse não haveria mais retorno.

Naquele ano, aprendi o básico sobre o que eu era, sobre a sociedade que se oculta nas sombras, sobre inimigos e aliados. Mas eu decidi voltar para o colégio, a minha parte humana não estava a fim de ceder tão fácil. Eu já tinha, até então, um controle maior sobre quem eu era, apesar que a cada dia eu aprendia novas coisas. Logo descobri minha afinidade com magia, o que fez Christopher criar uma teoria de que em alguma linhagem da família humana de minha mãe ocorrera uma mistura com bruxos. O que não seria tão inusual, afinal a inquisição realizada séculos antes pela igreja católica obrigou muitos bruxos a se misturar entre os humanos.

Mas aquela escapatória de volta ao meu mundo humano, à escola, não mudava o fato que eu tinha uma escolha a fazer. Kyriell, meu pai, já considerava minha aceitação pelo Sangue e contava os dias para o término de minha transição, pois ele ansiava me ter ao seu lado. Essa transição pode ocorrer de duas formas. Na mais comum, o dampiro ingere o sangue de um vampiro mais velho, geralmente de seu progenitor e na incomum, que é a que eu acidentalmente estou traçando, é sofrer o despertar devido a algum acontecimento marcante – no meu caso eu abri a cabeça na escada – e após isso iniciar uma dieta puramente de sangue humano. Essa segunda opção fará com que progressivamente as células do corpo parem de produzir a chamada adenosina trifosfato (ATP), uma molécula gerada a partir da digestão de alimentos comuns e responsável pela liberação de calor. Desta forma o corpo do dampiro se esfriará, começando a se assemelhar a de um vampiro. Suas funções digestivas começarão a atrofiar, não será necessário respirar e restará apenas uma lenta circulação sanguínea com um coração que palpita tão devagar que é impossível de se ouvir.

Independente da forma de transição, o resultado é o mesmo. Uma criatura que a partir daquele ponto não envelhecerá, que herdará completamente as maldições e benevolências de sua linhagem sanguínea e vagará eternamente pela noite em busca de objetivos de vida e sangue.

Com o número em mãos em disquei para aquele estilista, do outro lado da linha seu secretário atendeu e como Marius Khaliebek era um homem ocupado agendei uma visita pessoalmente ao seu ateliê em Nova Iorque. No fim de semana seguinte, Ni e eu embarcamos em um voo sem escala.

Dentro do avião, Ni estava atônita. Tudo parecia ser mágico ou de outro mundo. Ela ficou encantada com as aeromoças e suas roupas super coloridas, algo que ela jamais poderia ser, pois manequim até tamanho 38 era o primeiro requerimento para se tornar uma, mas logo ela esqueceu dessa vontade de ser uma, pois a comida chegara. Seus olhos brilharam ao ver a aquela bandeja com um faisão a sua frente. Ela nunca provara daquela carne, tudo era novidade para a minha mais nova amiga Tiphanny Baker.

A viagem foi extremamente confortável se comparada aos dias de hoje – exceto quando você tem um jato particular - e por isso passou em um estalar de dedos. Logo nos vimos descendo do táxi na porta do ateliê de Marius que funcionava no mesmo prédio onde ele morava. Fomos convidadas para entrar por um de seus funcionários que nos conduziu até o andar onde Marius residia, a um quarto onde pudemos descansar até o cair da noite, quando Marius nos receberia.

Marius entrou na sala vestindo uma camisa preta com estampa florais desabotoada até a metade exibindo seu peito jovial coberto de pelos com um talismã em forma de borboleta reluzente, calça estampada extravagante – até mesmo para o padrão daquela década – e óculos escuros gigantes em sua face. Ele sentou a nossa frente cruzando as pernas, mexendo no seu bigode e perguntando qual seria o assunto que eu queria tratar com ele.

Ele sabia quem eu era – apesar de minha existência ainda estar abafada na sociedade dos vampiros – e por isso todas as suas frases foram proferidas de forma educada e respeitosa, como se eu fosse um membro da realeza – e de fato eu era.

Eu lhe expliquei a situação de Ni, da dificuldade que tivemos para encontrar roupas que se adequassem ao seu manequim. Neste momento Marius se levantou e pediu para Ni ficar de pé. Ele a examinou de alto a baixo, e retirando uma fita métrica do bolso, começou a tirar medidas, algo que visivelmente deixou Ni um pouco constrangida. Logo após se sentou novamente e ficou pensativo por alguns minutos.

- Senhorita Alice, sua visita e de sua amiga acaba de me inspirar a níveis inimagináveis. Nas últimas décadas eu tenho focado tanto na moda atual, nos manequins atuais que me esqueci da época onde a beleza feminina residia na fofura de seus corpos e vivacidade de sua pele. Oh meu velho cérebro agora está em curto com tantas ideias de peças que me veem, mas precisarei de um tempo para executar.

- Não temos pressa Senhor Marius. – Eu respondi.

- Eu enviarei para vocês todas as peças que forem aqui criadas, Tiphanny você será minha primeiro modelo, a primeira a experimentar a nova coleção. Agora se me derem licença eu preciso colocar isso no papel.

Marius saiu da sala quase revelando a velocidade sobrenatural dos vampiros, mas Ni não percebeu, ela estava muito empolgada com tudo aquilo e todas aquelas roupas que ela via nos diversos manequins, nos desenhos e demais conteúdos sobre moda espalhadas por aquela residência. Algo dentro de si estava despertando.

- Eu quero ser igual a ele. – No quarto, enquanto preparávamos para dormir e assim poder viajar de volta no dia seguinte, ela me revelou. Na hora admito que eu travei e pensei que ela falava sobre ele ser vampiro, mas além de mim ela não sabia disso e viu todo aquele papo estranho sobre o passado como um devaneio artístico de Marius.

- Trabalhar com moda? – Eu perguntei já fazendo a associação correta.

- Sim. Isso aqui é incrível. Você viu os desenhos dele nos quadros do corredor? Eu quero ser capaz de fazer isso.

- Então faça! Ni eu já te disse, você pode ser o que você quiser ser.

...

Semanas depois chegaram em minha casa os primeiros pacotes contendo a nova coleção de Marius, que ele denominou de Plus Size. Ni experimentou todas aquelas novas peças e todas ficaram incríveis em seu corpo. Agora só faltava uma coisa para terminamos a transformação de Ni...

- Maquiagem? Eu não sei usar isso. – Ela rebateu pisando duro.

- Então irá aprender. – Eu disse lhe dando um estojo completo – Meu presente para você. E também teremos que dar um jeito nesse seu cabelo, está na hora de cuidar desses cachos.

- Alice... – Ni segurou firmemente o estojo de maquiagem – Obrigada! O que tem feito por mim, como eu posso te pagar?

- Você quer me pagar? – Ni balançou levemente a cabeça – Então abra esse sorriso e foque em estudar para ser aceita na faculdade de moda.

...

O tempo se passou e o interesse por moda de Ni fez com que ela se tornasse uma pessoa sociável. Ela começou a criar e costurar peças únicas que as poucos foram ganhando espaço entre as demais colegiais. Em pouco tempo todas as meninas conheciam Ni, andavam com Ni e vestiam as roupas criadas por Ni. Foi quando eu percebi que ela não precisava mais de mim.

- Você irá sair da escola? Mas a nossa formatura é em poucos meses. – Ni fechou rapidamente seu caderno de rascunhos e me encarou com olhos choramigantes. – Eu estava desenhando nossos vestidos.

- Como sabe meu pai mora na Europa, e eu decidi ir para perto dele. Existem coisas que eu preciso resolver em minha vida Ni... E bem, até onde sei tem uma fila de rapazes esperando para te levar ao baile.

- É, eu preciso escolher um. E entendo seus motivos, eles tem relação com o seu segredo certo? Aquele que eu sei que você carrega e te aflige mas você jamais se abrirá comigo.

- Desculpe. Desde o início do ano você se tornou minha única e melhor companhia. Eu nunca cultivei amizades antes, mas você chegou e ganhou espaço em meu coração. Mas é chegada minha hora, assim como você definiu o seu futuro eu preciso definir o meu.

- Eu vou sentir saudades. – Ni se levantou e me abraçou fortemente. Eu que sempre corri de abraços, principalmente após o despertar. E ela sabia que eu não gostava, mas aconteceu de forma tão imprevisível e rápida que eu não pude esquivar. E então seu pescoço, sua pele, seu cheiro ali naquele momento tão próximos de mim, faziam o meu demônio gritar excitadamente. Morda ela, morda. Prove, prove do verdadeiro sabor. Siga o seu destino. Mas eu respirei profundamente e me segurando lentamente afastei ela de mim.

- Quero que fique com isso. – Eu retirei de minha mochila uma pequena caixinha de plástico contendo um pingente de pedra vermelha em seu interior – Se um dia você precisar de mim, se realmente precisar muito de mim, toque nessa pedra e deseje me ver. Eu estarei contigo.

Ni me olhou sem entender. Eu sabia que em sua mente corria a pergunta, é algum tipo de truque ou zoação? Mas ela aceitou a caixinha e nos despedimos. Foi a última vez que conversamos.

...

- E então foi assim que eu conheci aquela garota de cabelos negros e curtos, pele tão branca como a neve e de toque igualmente frio, mas que de alguma forma esquentou minha alma e me ajudou a alcançar meus sonhos. – Dizia Dona Ni, uma senhora bem vestida de quase setenta anos, sentada ali naquele banco de praça enquanto segurava o braço de dois adolescentes.

Ni agora era Dona de uma marca de roupas especializada em moda Plus Size, neste momento mundialmente famosa, porém Ni não era mais obesa como no passado, tratamentos modernos a ajudaram manter seus hoje oitenta e poucos quilos.

Minutos antes eu havia presenciado ali naquela praça, aquilo que hoje chamam de bullying, aquilo que Ni sofreu durante toda sua infância e adolescência e que mesmo neste século de modernidade, continua a afetar crianças e adolescentes os levando a se tornar adultos problemáticos, isso quando não tiram a própria vida e a de outros.

Mas Ni estava ali, segurando aqueles dois firmemente pelo braço, o que executou o bullying e o que sofreu, e através de nossa história os tentava ajudar. Ela diferente de mim, não queria ajudar apenas o marginalizado mas como também aquele que era a causa do problema. Foi neste momento eu percebi mais uma coisa, talvez algo que eu não perceberia facilmente pelo fato de nunca ver o tempo passar em mim, mas era algo visível nos castanhos olhos de Ni: A sabedoria que ela adquirira com cada ruga que cobria sua face.

E Ni continuou conversando com os garotos, perguntou a eles qual era o sonho de cada um. O valentão disse que queria ser jogador de futebol americano, mas que seu pai era contra o esporte e já havia lhe dado alguns murros quando o pegara jogando escondido com os amigos. Aos poucos o garoto abria seu coração para Ni.

- Mas você pode ser o que você quiser meu filho. Seu pai não pode lhe proibir de fazer o que você ama, eu irei te ajudar nisso. Conheço um treinador, vá a minha loja amanhã e eu irei te levar até ele.

- Mas meu pai....

- Deixe ele comigo.

Os olhos do garoto vibraram, aquele mesmo olhar de esperança que eu havia visto em Ni décadas atrás. Ele então pediu desculpa para o outro garoto e erguendo a mão perguntou se podiam ser amigos. O outro precavido pensou um pouco, mas estendeu também a sua mão e ambos saíram do nosso alcance de visão.

Eu me aproximei de Ni e grunhindo esfreguei em suas pernas. Pode parecer estranho, mas naquele momento eu não era eu. Minha mente estava no corpo de um animal, um gato branco que eu havia salvado da morte logo quando retornei a cidade há cerca de uma semana atrás. Essa era uma das habilidades que ganhei quando perdi a capacidade de andar ao sol por mim mesma, quando aceitei o que diziam ser o meu destino, quando me tornei a princesa vampira.

- Olá lindinho, você está perdido? – Ni me pegou nos braços e quando percebi eu já estava dentro de seu carro a caminho de sua casa.

Quando a porta da casa de abriu, saltou uma mulher super sorridente com idade aproximada a de Ni. Ela lascou um selinho em Ni e ao me ver no colo deu um gritinho.

- Que fofinho! Onde você o arrumou?

- Ele veio até mim quando estava na praça. Acho que está perdido ou não possui dono.

- Vou colocar uma foto dele no Facebook e se não tiver dono podemos ficar com ele. Cleópatra vai adorar uma nova companhia. – A mulher rapidamente tirou uma foto de mim, ou melhor, do gato. E Ni me colocou no chão.

Eu olhei ao redor, a casa tinha um certo requinte. Um cheiro de lavanda e incenso de canela. Agradável. Andei alguns passos explorando o local e tentando me passar realmente por um gato, mas Cleópatra foi a primeira a perceber a fraude. Ela veio em minha direção rosnando e com o pelo todo eriçado. Ni percebeu e rapidamente me pegou novamente me levando para seu quarto e fechando a porta. A propósito a sensação de ter um humano de pegando rapidamente do chão e te erguendo é muito ruim, meu estômago revira toda vez.

Dentro do quarto, Ni começou a trocar de roupa. Eu subi em sua cama e fiquei observando. Seu corpo havia mudado drasticamente, mas seu sorriso e animação ainda eram a mesma de antes. Quando ela tirou a camisa eu vi o pingente que eu havia lhe dado preso a uma corrente de prata envolta de seu pescoço, sinal que ela realmente não esquecia de mim.

Eu miei e ela veio até mim sentando na cama e eu, como um bom gato, me interessei pelo pingente tentando o agarrar. Ela o segurou firmemente.

- Não xaninho. Isso aqui é importante para mim. Eu desejaria que ela pudesse me ver. Alice onde você está? Você conseguiu o que queria de sua vida? Eu realmente nunca precisei de você novamente, mas queria precisar somente para te ver novamente, e te dizer que fostes meu primeiro amor, meu anjo...

Meu coração de gato se partiu neste momento. E pensei por um segundo me revelar, mas debaixo daquele sol seria um problema e o que ela irá dizer ao me ver ainda jovem? Afinal o tempo parou para mim quando eu tinha vinte e três anos. Foi então que eu decidi deixar o corpo do gato. Quando abri meus olhos eu estava deitada na cama da minha velha mansão.

- Princesa Alice, - Christopher estava do meu lado provavelmente esperando eu voltar – recebemos uma mensagem de Kiriell, ele deseja que você embarque imediatamente para São Paulo e auxilie o grupo de Camila em sua missão.

- Entendo. Parece que os outros dampiros não são capazes de lidar com o tal Escolhido sozinhos. Faça os preparativos de minha viagem.


Esse conto é versão alternativa de Imortais, uma série que publico neste site e se você tem acompanhado imortais já descobriu alguns dos muitos segredos que a história abriga, se ainda não, está convidado a ler.

A inspiração para ele veio de um sonho que tive esta noite e ao acordar percebi que seria uma história do mundo de Imortais na década de 70.

Espero que tenha gostado, deixe seu comentário abaixo, quem sabe eu possa escrever mais sobre o que aconteceu durante o tempo que Alice se afastou de Ni nessa linha temporal alternativa de Imortais.


Beijocas vampirescas da Rhu.



11 de Abril de 2019 às 03:29 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Rhu Caroline Olás pessoal! Eu me chamo Caroline, mas sou mais conhecida pelo nick da minha personagem em World of Wacraft: Rhu. Who? Essa sou eu :D Sou da famosa terra do pão de queijo e aqui entre nós, os meus nunca dão certo :/ Então o jeito é escrever! Irei publicar aqui a história de Imortais, que nasceu em 2009, como ela já esta uma crescidinha resolvi a apresentar ao mundo. Espero que gostem de vampiros :[

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