Estrela Cadente Seguir história

yuuic Yuui C. Nowill

Dez mil anos no futuro, a sociedade é um misto entre humanos e androides. Futaba era uma garota amargurada que não conseguia desprender-se das lembranças de sua mãe — tudo por conta de uma fatalidade envolvendo um androide realocado. Durante muito tempo, ela os desprezou. Mas as coisas mudariam quando ela visse uma estrela cadente.


Fanfiction Jogos Para maiores de 18 apenas.

#drama #tragédia #universoalternativo #AmamiyaRen #persona5 #2B #9S #juntaink #NierAutomata #SakuraFutaba #Menções-de-Shukita #Menções-de-2B-9S
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Corpo Celeste

Notas iniciais

História escrita para o desafio de crossover do inkspired. Os universos utilizados foram de NieR:Automata e Persona 5. Se gostam de músicas, essas duas deram compasso à história. Boa leitura!

Eu fiz três comissions para essa fanfic, porque eu achei que ela merece.

A primeira e a segunda foram feitas pela Hayde

A terceira foi feita pela wearepopcandies

Curtam as páginas delas, porque elas são amor!

__________


Nesse mundo, nada era justo.

Nada era certo.

E tudo era...

Entediante.

— O que você está fazendo? — Dei um pequeno pulo na cadeira, os fones voando da minha cabeça no mesmo instante. — Desculpe, não queria te assustar... — Olhei por cima do ombro, respirando aliviada.

— Ah, é só você. — A expressão no rosto de Ren era de complacência, no mínimo. Talvez tristeza, se eu torcesse um pouco. — Já falei pra bater na porta antes de entrar.

— Eu bati, Futaba. Três vezes. — Fiz bico, voltando o olhar para a tela do meu monitor. Pude ouvir o som do colchão ranger, denunciando que ele havia sentado ali. — O pai fez o café.

— Não posso comer agora. Preciso entregar esse trabalho pronto antes.

— Meia hora não vai fazer seu código desaparecer, Futaba.

— Mas vai intervir com o meu raciocínio! — Espanei, recolocando os fones. — Assim como você agora. Saia, por favor.

O colchão rangeu novamente e eu só pude ouvir a porta sendo encostada, Ren não pronunciando mais nada. O quarto estava escuro, salvo pela tela do meu computador que reluzia forte. Ajeitei os óculos no rosto e voltei a programar.

Esse mundo sem lógica...

Só me convida a ficar mais e mais distante.

Um mundo feito de máquinas.

— Por que eu tenho que ficar na loja? — Pestanejei. Ren suspirou, cruzando os braços. — Você sabe que eu não gosto de ficar na loja...

— O pai tem consulta hoje. Eu fiquei encarregado de cuidar da casa. — Fui encolhendo-me, ficando as unhas nas palmas das mãos. — É por... pouco tempo, eu juro. Por favor? — Ren uniu as mãos, curvando-se. Baforei, desistente.

— Tudo bem. Eu faço por você e pelo Sojiro. — Senti quando os dedos de Ren enroscaram-se em meu cabelo, acariciando-os lentamente.

— Obrigado.

Desvinculei-me dele, murmurando qualquer coisa para a sua resposta.

Aquele seria o meu dia — de alguns — onde teria folga. Eu não estava imaginando meu descanso ser cuidar da loja dentre todas as coisas.

Morávamos em um geminado de casas, onde a parte da frente era um comércio de antiguidades — algo que eu considerava inútil. Quem vai querer velharias em um mundo onde você tem até androides?

Torci a face — só a palavra já me trazia desgosto. Eles estavam por todos os lugares — estavam entre nós. Aprendiam conosco. Ocupavam as profissões que eram mais perigosas aos humanos; também estavam em muitas outras. Pareciam, aos poucos, invadir todo o nosso espaço.

Se não fosse por eles, mamãe...

Sacudi a cabeça, virando a placa na frente da porta de vidro para “aberto” e indo para trás do balcão. Tudo aqui remetia à velharia: a madeira envernizada, as diversas estantes, os tons de marrom e bege, mesmo as vidraças — que compunham portas e janelas — era meio antiquado.

Não tínhamos clientes frequentes, mas precisava sempre ter alguém ao balcão de todo modo. Sempre tinha um ou outro para curiar.

Suspirei. Daria qualquer coisa para voltar ao meu quarto e ficar na frente da tela do meu computador — tinha aquele jogo que eu queria voltar a programar e...

O pequeno sino tocou quando a porta foi aberta. Em um estalo coloquei-me de pé, anunciando:

— Bem-vindo!

Quem entrou foi uma moça, vestindo uma bata branca e uma saia florida; naquele momento, eu senti o meu sangue começando a gelar, passando mais lentamente pelas minhas veias.

Essa moça, ela era...

Um androide.

Cabelos brancos como a neve, curtinhos, pele muito clara — sintética — e o principal, inconfundível entre eles: os olhos azuis, tão azuis que era possível perceber o vidro que os cercava.

Engoli em seco, encolhendo-me um pouco. Ela olhava tudo em volta com... curiosidade? Era o que sua expressão aparentava — eu tinha minhas dúvidas do quanto um androide podia entender e copiar de um sentimento, já que isso era algo humano.

Foi caminhando, aproximando-se das estantes, observando os objetos pelas prateleiras. Demorou-se em cada momento, por vezes arrumando a bolsa que levava pendurada no ombro quando essa escorregava. Observava-a atentamente, os músculos duros, a garganta seca.

— E–está procurando... algo? — Minha voz foi sumindo conforme enunciava a frase. Ela parou um momento, olhando-me nos olhos. Comecei a respirar mais rápido, o coração palpitando. — E–eu...

— Não. — Sua voz era suave e baixa. — No momento, só estou de passagem. Alguém me recomendou esse lugar e... eu vim conhecê-lo.

Ela tornou a olhar as estantes. Sentei-me no banquinho que ficava atrás do caixa, um pouco encolhida. Estalei os dedos em um ato vão de tentar me acalmar. A androide passou pela minha frente, olhando as prateleiras que estavam mais próximas de mim. Ajeitou novamente sua bolsa, voltando-se na minha direção:

— Até uma próxima vez. Obrigada por me receber. — Era quase um murmúrio. Em seguida, ela caminhou para a porta, o som do salto ecoando pelo assoalho de madeira.

O sino novamente se fez presente e findou a visita inesperada. Apoiei os braços no balcão e escondi o rosto ali. Foram menos de cinco minutos, mas foram os momentos mais aterrorizantes que eu vivi.

— Da próxima vez, eu vou arrumar a casa, Ren seu idiota. — Murmurei, a voz abafada e embargada. Apertei os dedos nas mãos com força, esfregando mais a cabeça contra meus braços.

Eu me perguntava se nesse mundo torto

Se as coisas fossem diferentes

Se você ainda estivesse aqui

Eu seria capaz de encarar e entender tudo isso?

Um passeio no parque não era a ideia que eu tinha de um “pedido de desculpas” pelo que havia acontecido outro dia. Talvez uma tarde jogando videogames? Eu diria que seria mais apropriado.

Mas não éramos somente eu e Ren — tinha também aquele menino que sempre andava com ele. Eu tinha quase certeza que eles estavam namorando, mas até o momento Ren não comentou nada com Sojiro e nem comigo; ficava só na dúvida.

Apesar da boa intenção dos dois, eu me sentia como mais uma ali. Eles conversavam sobre alguma coisa que eu não conseguia prestar atenção direito — era arte? Não entendia absolutamente nada.

Comecei a olhar em volta, ignorando-os totalmente agora. Não poderia ficar mais distraída de todo modo. O parque em que estávamos era grande, fazendo as pessoas dispersarem pela grama e pela trilha.

Pessoas...

Olhando de relance, diria que eram todos humanos. Mas eu sabia distinguir androides — por mais que inevitavelmente eles parecessem humanos. Mudaram as cores dos cabelos, as atitudes ficaram mais espontâneas, atos em uma vã esperança de ficarem mais parecido conosco.

Talvez nós mesmos estivéssemos fazendo isso.

Arregalei os olhos quando percebi a mesma androide que visitou a loja outro dia — tinha certeza ser ela. Os cabelos brancos curtinhos, a roupa muito parecida com aquela que estava aquele dia — uma bata branca e uma saia florida. Estava sentada em um banco, longe, sozinha.

Fitei por um instante os dois pombinhos. Totalmente entretidos no que quer que estivessem fazendo. Lentamente, esgueirei-me pela grama, correndo em direção ao banco onde a encontrei; a corrida foi relativamente comprida e, quando cheguei à sua frente, estava arfante.

Ela desviou o olhar do céu para me fitar — o intenso azul de suas íris demonstrando curiosidade, indagação, surpresa. Engoli em seco, as mãos meio trêmulas, o ar ainda entrando com dificuldade devido ao esforço recente. Ela parecia esperar por um pronunciamento.

— Ei. — Comecei. Ela piscou, atenta. — O que você faz aqui? Quero dizer, vocês androides tem tanto tempo livre assim?

— Oh... — Ela piscou novamente, parecendo ainda mais surpresa. Minha respiração estava pesada e, a essa altura, eu já sabia que era devido ao nervosismo. — Não... necessariamente.

— Então, por quê...? — Eu sentia minha voz pingar uma mágoa que não parecia ser minha. E que talvez não devesse ser voltada a ela.

Ainda assim, eu...

— Nesse ponto do parque bate uma brisa gostosa. — A androide fechou os olhos, voltando a erguer a cabeça. — E, por alguma razão, o céu parece mais azul quando eu olho para ele.

— Céu? — Olhei para cima, percebendo algumas nuvens cinzas passarem, o Sol pálido fazendo o azul parecer meio morto. Ergui uma sobrancelha. Mas que diabos era isso? — Parece normal. Nada diferente do que eu vejo em outro lugar.

Quando voltei a fitá-la, a androide estava sorrindo: era pequeno, singelo, quase como se não pudesse estar ali. O brilho no azul de seus olhos era tão meigo quanto suas feições — ela tinha uma pequena pinta no queixo, delicada. A tiara em seus cabelos parecia ser outro detalhe que a tornava mais jovial.

— Qual o seu nome? — Ela perguntou. Enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta, chutando o ar, meio emburrada.

— Futaba.

— Hmm... Futaba. — Percebi quando ela levou os dedos delicados até a sua bolsa, abrindo-a e puxando de lá... um par de ingressos? — Você gosta de apresentações? Eu... gostaria que visse essa daqui com alguém que você goste.

— Pra que isso? — Indaguei, a voz aumentando um tom. Percebi que a androide parecia relutante enquanto me erguia os ingressos de... alguma coisa. Fiz bico, recuando um passo. — Quero dizer, pra que um androide vai querer me dar ingressos pra um show ou o quer que seja? Eu nem te conheço!

— Bem... — Ela suspirou. Retesei os ombros quando a percebi se levantar; era alta devido aos saltos agulha que usava. Como conseguia se equilibrar naquilo, eu não sabia. Caminhou até mim e, gentilmente, colocou os dois ingressos nas minhas mãos. — Você veio até mim de alguma forma. Eu acho que... é o que eu posso fazer.

Ela endireitou-se e foi se afastando, ajeitando a bolsa nos ombros. Pisquei uma, duas vezes até a ficha finalmente cair:

— Oe! Pelo menos me diga seu nome!

— 2B. — Ela parou um instante e, novamente, mostrou-me aquele sorriso pequeno e gentil. — É assim que me chamam. — Acenou, tímida e tomou seu caminho.

Continuei piscando, desnorteada. Eu... havia acabado de ter um diálogo longo e pontual com um androide. Não só isso, mas havia também ganho dele um par de ingressos para alguma coisa e...

— AAAAH! — Joguei-me contra o banco, atirando o pescoço para trás do encosto, fitando o céu. Estreitei a vista por trás das lentes dos óculos; eles estavam sujos e as coisas estavam meio embaçadas, mas... — O céu aqui não é mais azul coisa nenhuma.

Trouxe os ingressos para a frente da minha vista. Estava escrito bem grande “Project YorHa” no centro dele em uma fonte caligráfica e enfeitada. O ingresso em si era de um dourado meio apagado — e, abaixo, tinha o título “estrela cadente”. Ergui ambas as sobrancelhas. Era... uma apresentação circense?

— Que porcaria é isso, afinal? — Bati com os ingressos na testa. Qual era o propósito de tudo aquilo?

O mundo era um lugar ilógico

e, na sua contradição, de algum modo

tudo fazia sentido

— Por que você trouxe o Inari com você? — Questionei, emburrada. Percebi quando ele ergueu ambas as sobrancelhas, tão debochado quanto minha fala.

— Eu gostaria, por gentileza, que você me chamasse pelo meu nome. — Mostrei a língua, desviando o rosto. Ouvi o seu suspiro, descrente.

— Deixa, Yusuke. Ela só está de mau humor. — Ren tentou contornar. Fiz bico.

Os ingressos eram para eu usar com uma pessoa que eu gostasse. Eu certamente não me incomodava com Yusuke — meu problema, na real, era que meu irmão certamente iria se perder nos devaneios dele e me ignorar.

Isso... era um pensamento infantil para um sentimento infantil. Baforei, irritada comigo mesma agora.

— Vamos nos aprontar. A apresentação vai começar daqui a pouco. — Yusuke comentou. Pulei do pequeno muro no qual estava sentada, indo à frente deles. — Futaba, nos espere!

— Dá nada, nós estamos sentados próximos mesmo. — Fiz um gesto de dispensa com a mão. — Podem conversar e paquerar à vontade, não me importo. Só não me façam ficar de vela.

Eu podia imaginar que Ren estava corado feito um pimentão, talvez o próprio Yusuke, mas eu não me dei ao luxo de virar e confirmar. Preferi ir direto à grande tenda onde seria a apresentação.

Ela era erguida nos moldes daqueles circos antigos, mas as cores eram menos chamativas — o dourado pálido que estava no ingresso se repetia na lona. Conforme entrávamos e nos alocávamos nas arquibancadas, eu podia perceber que no palco havia pouca coisa, sendo o diferencial um arco grande, metálico, preso por cabos de ferro e, amarrado a ele, um tecido escuro.

Sentei na minha cadeira, Ren e Yusuke ocupando os lugares ao meu lado. Olhava curiosa, imaginando o que poderia ser feito com aquilo. Pouco a pouco, a arquibancada foi se enchendo com diversas pessoas; provavelmente o espetáculo estava lotado.

— O aro se chama lira. O tecido é comumente conhecido como tecido acrobático. — Yusuke comentou, provavelmente para Ren. — Os cabos são para suspenção. Eu imagino quão alto vão erguê-lo...

Naquele instante, as luzes todas se apagaram. Então, um holofote se acendeu sobre uma pessoa — arregalei os olhos quando percebi quem era.

2B.

Vestia um collant azul escuro, quase preto, enfeitado por minúsculos pontinhos brancos. Ao redor, um outro tecido, mais fino, o adornava como uma saia — imitava o collant, azul e com pontos brancos.

Ela caminhou graciosamente até o centro do palco, onde fez uma reverência ao público. Quando se levantou, eu pude perceber que ela havia me encarado — o sorriso que sutilmente surgiu em seus lábios era a prova disso. Não somente isso, mas também o brilho em seu olhar.

Os olhos de androides podiam brilhar dessa maneira?

Uma música serena começou e eu assisti como 2B, lentamente, apoiou-se na ponta do pé, sustentando o corpo — parecia... um cisne? Foi retornando lentamente, abaixando-se até fazer um espacate e um arco com o tronco. Percebi, conforme ela erguia-se outra vez, que a lira levantou um pouco do chão — e, sem demoras, 2B sentou-se sobre ela, como um pequeno pássaro em um poleiro.

A lira foi subindo mais, mais e mais, afastando-se vários metros do chão — na altura que estava, todos da arquibancada podiam vê-la de qualquer lugar. Engoli em seco; ela não tinha medo de cair?

Mas medo era um sentimento humano, não era?

2B foi enrolando o tecido preso à lira sobre uma de suas pernas, a doçura de seus movimentos parecendo uma dança por si só — acompanhavam o ritmo da música sozinhos, como se ela fosse uma com o som.

As luzes, por fim, se apagaram todas. E eu entendi finalmente o motivo dos pontos brancos: eles brilhavam no escuro, como se fossem as próprias estrelas.

Nesse momento, guiada somente pelos pontos brilhantes, percebi como 2B simplesmente jogou-se para fora da lira, parecendo que iria cair; então, retornou a ela, fazendo uma cambalhota no ar — acompanhar seus movimentos era somente a doce ilusão criada pelo brilho dos pontinhos.

Ela foi escorregando pelo tecido, o movimento de seu corpo e de sua saia sendo como um corpo celeste — gracioso, fluído. Ela pintava a via láctea no instante em que se movia.

Voltou à lira, ficando apoiada de ponta cabeça. Depois, segurou-se nela com as mãos, rodando graciosamente junto do arco — o tecido envolto em seus pés acompanhando o movimento como a cauda de um cometa. Quando ela se soltou outra vez, por um instante, achei que fosse realmente cair, mas ela virou de ponta cabeça no tecido, firmemente sustentada pelas pernas.

A cada um desses movimentos, sentia meus olhos se abrirem mais, encherem-se de água — talvez pela música, talvez pela delicadeza; não sabia precisar. Mas era uma sensação boa, serena.

Há muito tempo eu não sentia isso.

Quando as luzes foram acendendo-se, começando na penumbra para depois iluminarem totalmente, 2B já estava ao centro do palco, posta como uma flor delicada. A música foi se encerrando; 2B levantou-se e reverenciou o público que a agraciou com incontáveis palmas — talvez esse fosse o som do universo respondendo ao chamado das estrelas.

Era isso que ela queria me dizer?

As pessoas começaram a sair, falando alto, o clima de serenidade do ambiente dissipando-se rapidamente — como se o momento de contemplação tivesse morrido muito, muito antes. Percebi como 2B, silenciosa, deixava o picadeiro em direção ao seu possível camarim, esquecida pelos outros.

— Futaba? — Pisquei, encarando quando Ren me chamou. Tanto ele quanto Yusuke pareciam preocupados. — Tudo bem?

— Si­–sim... — Murmurei, mordendo o lábio discretamente.

— Vamos embora? — Anui, sentindo quando a mão de Ren veio ao meu pulso, delicada. Deixei-me ser puxada por ele de maneira protetora, como se quisesse me guiar. Como se eu... estivesse desnorteada.

Antes de deixarmos definitivamente a tenda, olhei uma última vez a lira solitária sobre o picadeiro — foi como reviver, em um único instante, tudo o que eu havia sentido naquele momento.

Sentimentos não eram racionais.

Estavam muito além disso;

Eram, no entanto, complexos em existência

E essa complexidade poderia se racionalizar

Sair sozinha sempre foi um dilema depois que... tudo aquilo aconteceu. Porém, na presença de Ren, eu não teria as respostas que eu procurava.

Sentia as mãos tremerem dentro do bolso, apesar da temperatura sempre ser um fator agravador — a Terra havia esfriado mais; era comum os ventos cortantes, às vezes muito fortes, outrora brisas sutis, finas, congelantes.

Não me surpreendi ao encontrá-la sentada no mesmo banco do parque, observando o céu. Estava usando uma meia-calça por baixo da saia dessa vez — ou seria uma sete-oitavos? Não teria como saber de todo modo. Pigarreei, chamando sua atenção. 2B prontamente me fitou, o sorriso sereno retornando miúdo aos seus lábios.

— Obrigada por ter ido à apresentação. — Foi a primeira coisa que ela manifestou. Anui, um movimento singelo com a cabeça.

— Você... me deu aquilo por que era a sua apresentação, não é? Mas... — Ela piscava lentamente, o azul de seus olhos demonstrando atenção, um carinho de certo modo. Meus dedos estavam inquietos. — Tem... mais motivos além disso, não?

— Sim. — Ela respirou fundo, parecendo concentrar-se para me responder: — Eu não sou boa com palavras.

— Oh? — Arregalei os olhos, surpresa. — E você diz isso por...?

— Você me questionou o porquê das minhas ações. O porquê do tempo livre ou eu olhar o céu ou sentir a brisa. — Ela fechou os olhos, as mão sempre apoiadas em seu joelho. Como uma máquina poderia ter mais serenidade que a maioria das pessoas que eu conhecia? — Eu não sei responder. Eu... somente faço, porque isso... me causa algo bom. Assim como estar na lira.

— A–Ah... — Baixei o rosto, fazendo bico, sentindo minhas bochechas esquentarem. Era... vergonha? Constrangimento... pelo quê? Tirei uma das mãos do bolso, enroscando os dedos em uma mecha de cabelo, deixando os fios deslizarem por eles. — E–eu entendi agora, eu acho.

2B riu baixinho — todas as suas ações pareciam ser extremamente calculadas. Como se ela não pudesse demonstrar nada em exagero. Quando a fitei, percebi que havia aberto mais espaço no banco, convidando-me a sentar. Relutante, aceitei, passando a olhar o céu em sua companhia.

— Né... por que o céu aqui é mais azul? — Perguntei, genuinamente curiosa.

— Eu... também não sei explicar. Porém quando eu o olho daqui, ele parece mais azul. — Fitei-a de soslaio, percebendo a serenidade em seu rosto. O meu bico só aumentou... como conseguia? — Talvez porque as nuvens passem mais rápido.

— Ou pode ser um defeito no seu sistema de cores. Vai saber? — Comentei, meio ácida. E aquela foi a primeira vez que eu ouvi a sua risada.

Ela se abaixou e colocou a mão sobre a boca para abafar o som, mas era genuína e muito menos contida do que todas as suas reações até então. 2B encarou-me, o riso parecendo ter alcançado suas íris enquanto ela respondia:

— Não... eu não te vejo em tons de azul, nem nada assim.

— É... erm... faz sentido. Quero dizer, eu só fiz uma suposição. Pode ter sido uma alfinetada, não sei. Mas você está certa. Eu perguntei porque eu não vejo nada demais e– — Eu havia começado a me enrolar. Mordi o lábio inferior, me sentindo constrangida. — E-eu...

Assustei-me quando os dedos delicados pousaram sobre o meu rosto. Fitei 2B novamente, percebendo em seu olhar agora o que seria preocupação — verdadeira, livre de qualquer coisa que pudesse nublar; o sentimento cru e presente. Ela passou os dedos até que a palma da sua mão estivesse aconchegando totalmente a minha bochecha.

Tudo o que eu conseguia perceber, no entanto, era como sua pele era macia e...

— Por que você é tão quente? — Perguntei. Ela acariciou-me com o dedal.

— Não sei. Nos criaram assim: com peles macias e quentinhas. — Respondeu. — Futaba, você... — Eu percebi que ela ameaçou a afastar a mão de mim, como se percebesse a dúvida que pairava no fundo dos meus olhos.

Rapidamente, coloquei meus dedos sobre os seus, pressionando mais sua mão contra meu rosto, praticamente deitando-o ali. Fechei os olhos, querendo aproveitar mais de seu toque — e fugir de seus olhos atentos.

— Fica... assim mais um pouco. — Ela concordou com um som baixinho, retornando com o carinho.

A partir daquele momento, eu me questionei

Se a irracionalidade do mundo

Era um eco insistente das estrelas

E se isso poderia se tornar uma canção

Sentia minha cabeça dar leves e esporádicas pontadas, a luz forte dos monitores refletindo diretamente nos meus óculos. Esfreguei os olhos, uma vaga esperança de que melhorasse — obviamente em vão.

Fazia horas que eu não conseguia resolver aquele bug e a deadline do Sprint estava chegando; se eu pudesse já teria esmurrado o teclado com a testa, esperando que isso resolvesse esse e os outros tantos problemas que aquele código tinha.

Pensamento burro.

Dei um pequeno pulo quando uma mensagem surgiu na tela. Sorri quando percebi de quem era.

2B [2:20]: Ainda acordada? Espero que não esteja muito ocupada.

Sakura Futaba [2:20]: Infelizmente, codificando. Ou em outras palavras: tentando não esmurrar o teclado com a testa >:(

2B [2:21]: Haha. Não faça isso, não vai resolver e você vai se machucar.

2B [2:21]: Se eu fosse um modelo especializado nisso, eu certamente te auxiliaria. Se quiser, eu posso tentar falar com o 9S...

Sakura Futaba: [2:22]: Nah, tudo bem. Hey, falando dele de novo? Você tá caidinha mesmo. Não imaginava que androides tinham esse fraco.

2B [2:22]: ... Não brinque desse jeito comigo, por favor.

Sakura Futaba: [2:23]: Está corada? Aposto que sim. Ei, não fique brava! :P Já pensou no que você quer dar de presente pra ele?

2B [2:23]: Sem ideias. Procurei em vários lugares, mas não encontrei nada...

Sakura Futaba [2:24]: Tá, eu prometo pensar em algo pra você! Me aguarde! Agora vou voltar pros meus códigos, deseje-me sorte :’((

2B [2:25]: Haha! Boa sorte. E não se esforce tanto. Vou entrar no modo de hibernar. Terei outra apresentação amanhã cedo.

Sakura Futaba [2:25]: Força! Faça uma linda apresentação! :DDD

Suspirei, jogando a cabeça contra o encosto da cadeira e observando o teto um momento.

Manter contato com 2B só havia me feito questionar uma... infinidade de coisas. Ela era tão diferente de mim — ao mesmo tempo, algo nela estava muito próximo. Só não entendia o quê.

Vê-la passar por impasses sentimentais como aquele era, no mínimo, curioso. Comecei a me balançar na cadeira, apoiando os pés no estofado, pensativa. O que normalmente você dava para alguém que gostava?

— O Renren vive dando material de arte pro Inari. Às vezes flores... — Fiz um muxoxo. Não parecia ser algo adequado para um androide. Principalmente um que parecia ser estupidamente inteligente. Ou sei lá.

2B era delicada. Suas ações demonstravam isso: o cuidado ao mover os dedos, a forma como olhava para as coisas, como se movimentava... vê-la se apresentar na lira e no tecido era, inegavelmente, a prova mais insistente disso. Um presente... talvez algo que conseguisse representá-la para quem olhasse...

— Já sei! — Quase pulei da cadeira. Fitei o relógio: 2:40 da manhã. Torci a face. — Espero que o Sojiro não encha meus patovaco por conta disso. — Praticamente pulei da cadeira, saindo do quarto em disparada para a loja de antiguidades.

Eu queria poder alcançar o brilho das estrelas

E dançar com elas a música insistente que cantavam

Tcharam! — Exibi o melhor dos meus sorrisos para ela. Os olhos de 2B estavam muito arregalados, o desentendimento estampado no seu rosto como se estivesse escrito em letras garrafais e neon. — Achei o presente perfeito!

— O que... — Percebi que ela estava relutante. — O que é isso no seu nariz? — Ergui uma sobrancelha, colocando a mão sobre o nariz e lembrando do bandaid que havia colocado lá.

— AH! É que eu me desequilibrei e caí. Não foi nada, relaxa! — Fiz um gesto de dispensa com a mão. — Mas aqui, veja isso. — Ergui para ela uma pequena caixinha em formato oval, adornada por pequenos cristais e aros dourados. 2B a pegou de minhas mãos, observando curiosa. — Tem uma pequena manivela do lado. Gire-a e abra a tampa!

Delicada como somente ela conseguia ser, 2B deu corda e abriu a pequena caixinha; surgiu de lá uma bailarina, toda tingida de dourado, enquanto uma pequena música tocava. A bailarina girava vagarosa conforme o compasso da música, até parar totalmente nas últimas notas.

Ela piscou lentamente, absorvendo o que acabou de ver. Conseguia perceber, dentro de suas íris, como ela deveria estar processando tudo isso — era curioso notar que os androides conseguiam ter essa expressividade com o olhar.

— O que achou? — Questionei por fim, ansiosa.

— É... lindo, Futaba. — Ela me fitou, os olhos cheios d’água, um sorriso miúdo bailando por seus lábios. — Obrigada! O 9S vai amar esse presente!

Tehe! — Cocei o nariz, sorrindo de orelha a orelha. — Achei que era perfeito porque lembrava de você! Espero que ele tenha essa mesma sensação quando ver. — Reparei quando o rosto de 2B corou levemente e comecei a gargalhar. — Nossa, você tem um fraco muito grande!

— Hmm... — Ela encolheu-se, mas o sorriso não saía de seus lábios. — Obrigada.

2B ergueu-me os braços, um gesto silencioso para que eu me aproximasse; sem pensar duas vezes, atirei-me contra eles em um abraço caloroso, receptivo e carinhoso — um abraço que eu sentia falta.

O som do universo é intenso

estrondoso como uma supernova

contudo, toda estrela que um dia brilha forte

pode, no instante seguinte, tornar-se um

buraco negro

Naquele dia, por alguma razão, o céu estava muito nublado. Não eram nuvens de chuva; o cinza insistente, criado pelas nuvens, parecia engolir qualquer pequeno azul que despontasse.

Acabei me encontrando com 2B na entrada do parque que comumente nos reuníamos. Caminhávamos lado a lado, um silêncio não incômodo entre nós — era uma característica dela. Momentos onde falava muito, outros que não se pronunciava.

Foi quando, no caminho para o banco, encontramos uma movimentação estranha — um amontoado de pessoas, quase em círculo, em um ponto específico. Eu e 2B nos entreolhamos e resolvemos nos aproximar para conferir o que era.

O burburinho era insistente, mas era impossível identificar o que as pessoas diziam. Quando consegui finalmente um espaço entre o amontoado, meu sangue simplesmente parou de correr nas veias.

No chão, um corpo morto.

Uma pessoa.

Ao lado, um androide, desativado.

Senti minha respiração começar a falhar, os olhos arderem por detrás das lentes dos óculos. Pisquei uma, duas vezes, o coração fora de ritmo, as mãos tremendo.

Essa cena... ela me lembrava...

— Futaba? — Era a voz de 2B. Encarei-a no mesmo instante; e, por alguma razão, eu não conseguia ver a pessoa delicada que eu sempre via ali. Sem dizer uma palavra, virei-me para a multidão e comecei a fazer o caminho de volta, fugindo dela. — Futaba!

Comecei a correr assim que me desvinculei de todos ali, para qualquer lugar — um que fosse muito, muito longe dela. Tudo ao meu redor passava como um borrão e eu sentia a minha cabeça doer, a vista cada vez mais e mais embaçada.

Os lados do meu corpo começaram a doer pelo esforço e fui diminuindo a velocidade, baforando e puxando o ar com muita força pela boca. Nesse instante, uma mão delicada pegou meu pulso e, desesperada, eu sacudi meu braço para me livrar dela.

— ME LARGA! — Berrei. 2B estava a uns dois passos de distância de mim, recuando mais um. — Não encosta em mim.

— Futaba... o quê...?

— É tudo culpa de vocês! — Eu não conseguia segurar meu tom de voz, tentando engolir as lágrimas que subiam insistente aos meus olhos. — Não fosse por vocês, suas máquinas malditas, minha mãe ainda estaria aqui! Mas não! Vocês a mataram! MATARAM! — Sentia a jaqueta escorregar pelos meus ombros, as unhas entrando forte nas minhas palmas.

2B parecia desnorteada — desolada, talvez. Eu não conseguia identificar, porque tudo era um borrão devido às lágrimas. Meus pulmões doíam pela quantidade de ar que eu não conseguia puxar.

— Ela... morreu em uma abordagem de um androide policial. — Solucei, esfregando os olhos com força, tirando os óculos do lugar. — Igual aquele cara! Agora! Igualzinho! Eu vi o corpo dela morto! E o androide junto! Sei lá o que... aquela lata velha estava, talvez morta também, mas o que importava? Eu perdi a minha mãe! Por culpa de vocês! Vocês!

Dentro de mim, alguma parte miúda, muito miúda, gritava desesperada para que eu parasse. Para que eu não a acusasse dessa forma — mas a outra, insistente, urrava para que eu continuasse. Porque eles eram iguais; todos eles. Sem exceções.

Eu estava esperando uma reação de 2B. Percebi a forma como ela deixou as mãos juntas em frente ao corpo, os dedos entrelaçados, olhando para o chão — talvez envergonhada, talvez triste. Eu não sabia dizer. Então, o inesperado aconteceu:

Ela se curvou diante de mim.

Os cabelos branquinhos cobriam todo o seu rosto; ela estava totalmente curvada, reta à minha frente. E, de seus lábios, eu só pude ouvir o murmúrio pesaroso:

— Me perdoe.

Naquele instante, algo dentro de mim explodiu. Meu peito começou a queimar, queimar, queimar, as unhas finalmente rasgando a pele das mãos. E eu berrei, ainda mais irritada:

— Perdão pelo quê?! Por quem?! Você quer se redimir por todos vocês? Como se você pudesse­–!

— Eu– — 2B interrompeu-me e, voltando à posição normal lentamente, me encarou com aquele par de olhos azuis, azuis, tão sérios que eu parecia não reconhecer o sentimento nela. — Eu sou uma androide de combate, Futaba. Assim como todos os androides que estão na polícia hoje.

O mundo ao meu redor começou a diminuir a velocidade — tudo parecia correr em câmera lenta agora. Eu só conseguia focar 2B, sua expressão triste, seu corpo rijo e as palavras que ecoavam pela minha mente. Ela prosseguiu:

— Eu e outros modelos, por não nos encaixarmos na polícia, tivemos de ser realocados para outras atividades. O “Project YorHa”... ele é a nossa última esperança de sermos úteis novamente. Depois que a quinta guerra se encerrou, nós... nos tornamos dispensáveis.

Ela encarava-me insistentemente, a voz não alterando seu tom em momento algum. Eu não sabia como processar a informação — era um turbilhão de sensações simultâneas. Abria e fechava a boca, buscando algo para falar, mas parecia ser em vão.

— Futaba, eu... — Ela tentou se aproximar de mim novamente. Nesse instante, eu espanei.

— Não... não encosta em mim! — Gritei, dando um passo para trás. — Nunca... nunca mais se aproxime de mim. Seu monstro!

Eu vi, naquele instante, como o desespero se apossou das íris de 2B, consumindo-a por inteiro. Não esperei para ver sua reação: dei meia volta e corri, o mais depressa que pude, para longe. Muito, muito longe.

Buracos negros eram estrelas mortas

cuja gravidade puxava para o centro

e esmagava tudo o que ali adentrava

O meu sentimento era igual;

esmagou, com sua força, tudo o que tínhamos

uma estrela sem vida, sugando tudo ao redor.

A tela do meu computador reluzia muito forte no quarto escuro, refletindo nas lentes dos meus óculos. As letras pareciam saltitar nela, fazendo minha cabeça doer e meus olhos piscarem sem necessidade.

Fazia... semanas que eu não falava com 2B. Depois daquele fatídico dia, bloqueei todas as suas mensagens no meu computador e não mais fui ao parque. Ela também não apareceu na loja de antiguidades — ainda assim, eu evitava ao máximo ficar lá.

— Não dá. — Arranquei os óculos e esfreguei os olhos, estressada. — Nada de bom sai daqui. — Levantei-me, vestindo o casaco e saindo do quarto.

Desci as escadas, percebendo que Ren e Sojiro estavam preparando o jantar. Quando me perceberam, arregalaram os olhos, estranhando.

— Vai sair, Futaba? — Ren perguntou. — Porque eu vou comprar algumas coisas. Se não se importar de ir comigo...

— Pode ser. Eu preciso de ar fresco. Minha cabeça parou de funcionar. — Dei de ombros. Ren anuiu, vindo em minha direção enquanto pegava, no caminho, as chaves de casa do apoio na parede.

Saímos, caminhando lado a lado. Olhei para cima de forma automática, tentando espairecer.

Naquele momento, eu percebi que o céu não estava azul. Por alguma razão, algo dentro de mim se apertou — como uma corda que se torce, prestes a arrebentar.

— Ei, vocês viram que aquele circo desmontou? — Foi um comentário que eu ouvi de relance. Parei um momento, observando as meninas que conversavam enquanto o sinaleiro estava fechado.

— Pois é. O que será que aconteceu? Eu gostava das apresentações de lá...

Eu queria perguntar sobre o que exatamente era aquilo, mas aquela corda dentro de mim estava se torcendo mais e mais, fazendo minha respiração falhar.

— Futaba... Ei, Futaba! — Eu ouvi Ren gritar enquanto eu corria, mas eu não queria me dar ao luxo de olhar para trás.

Precisava saber se era o que eu estava pensando. Se aquela corda insistente que queria se romper dentro de mim era por conta disso — essa sensação estranha, esse céu morto; se era tudo por conta disso.

Não prestei atenção em sinaleiros, pessoas e nem nada. Somente corri, puxando todo o ar pela boca mesmo, buscando em mim uma energia que eu não possuía normalmente. Cheguei arfante ao terreno onde a tenda do Project YorHa ficava.

Para não encontrar mais nada. A lona estava totalmente desmontada; vários homens se espalhavam pelo terreno. Aproximei-me a passos lentos, buscando por algo... alguém. Abri a boca, ameaçando perguntar a um deles, quando a cena passou pelos meus olhos.

Era 2B, sobre os ombros de um dos homens. Ele a jogou para outro que, no mesmo instante, arremessou seu corpo inerte na caçamba de um caminhão — junto com uma outra pilha de androides.

E eu assisti como, lentamente, a caixinha de música caiu de suas roupas, rolando desolada pelo chão até estar um pouco à frente de mim.

— Tudo pronto aí?

— Sim, pode fechar o caminhão e ir! Precisamos mandar isso tudo pro ferro velho logo.

Minha garganta estava seca, seca, seca. Levei minhas mãos trêmulas até a caixinha, pegando-a do chão — estava quebrada. Provavelmente se danificou com a queda. Limpei-a, um pouco afoita, segurando-a próxima do peito.

O caminhão deu partida e saiu no instante em que Ren chegou. Ele estava tão arfante quanto eu, provavelmente porque correu até aqui.

— O que aconteceu, Futaba? — Perguntou, preocupado. Mordi os lábios. Eu... não sabia. Eu...

Como um estalo, enfiei a mão nos bolsos, buscando meu celular. Desbloqueá-lo foi um problema; meus dedos estavam agitados demais para acertar a senha. Quando finalmente consegui abrir a tela de home, procurei no mensageiro, desmutando o chat que usava com 2B.

2B [20/02/12100 10:15]: Futaba? Futaba, por favor, me responda. Eu... me perdoe. Eu não deveria ter contado essas coisas. Eu deveria ter pensado mais em você.

2B [20/02/12100 18:10]: Futaba... por favor, me dê uma chance de me retratar. Por favor...

2B [22/02/12100 12:00]: Eu não sei se você está lendo as notícias, mas devido ao acidente que vimos, o governo está repensando sobre a permanência dos modelos de batalha na sociedade. Estou preocupada...

2B [22/02/12100 20:00]: Tenho uma apresentação agora, mas minhas companheiras de camarim estão aflitas. As perspectivas não são boas. Espero conseguir me apresentar...

2B [26/02/12100 10:00]: Futaba? Futaba, por favor, me responda.

2B [26/02/12100 10:02]: O governo decidiu que os androides de batalha realocados devem ser desativados. Todos, sem exceções. Eu... queria falar com você.

2B [26/02/12100 10:05]: Estou com medo.

2B [28/02/12100 20:00]: Hoje vai ser minha última apresentação. Eu... não consegui entregar a caixinha ao 9S. Queria também poder me despedir de você. Espero que esteja tudo bem.

2B [29/02/12100 06:00]: Obrigada por tudo, Futaba. Fique bem.

— Futaba! Futaba! O que aconteceu? — Sentia Ren me sacudir. Eu não conseguia processar. Era mentira... só podia ser mentira.

A minha garganta começou a fechar, um nó estranho no pescoço. A corda dentro do meu peito parecia estar por um fio, os dedos trêmulos, trêmulos — nem as minhas pernas eu sentia direito.

— É... mentira. — Murmurei. — Mentira, mentira, mentira!

Desvinculei-me dos braços do meu irmão e sai em disparada — algo em mim falava que era tudo ilusão; que ela estaria lá, sentada no banco do parque, esperando por mim.

Ainda que o céu não estivesse azul — ele estava escuro, escuro, como se fosse chover. As luzes na rua se acenderam por esse motivo. Mas eu tinha esperança de que naquele lugar, o céu estaria azul.

Porque ali o céu era mais azul.

Talvez porque as nuvens passassem mais rápido.

Esbarrei em alguém, depois em outrem. As palavras de desculpas não conseguiam deixar meus lábios. Eu ouvia um zumbido de fundo — acho que era Ren me chamando. Não tinha certeza.

As pessoas saíam do parque com medo da tempestade; eu estava pelo desespero. Ela estava lá — ela tinha de estar lá. Passei pela grama afoita, tropeçando nos próprios pés, quase derrubando a caixinha de música novamente.

Quase lá, quase lá.

O céu estaria azul.

Porque as nuvens passavam rápido.

Quando finalmente cheguei, tudo o que eu encontrei foi o banco vazio. O vento fazia as árvores atrás balançarem, o farfalhar insistente anunciando a tempestade que estava próxima.

— Futaba... — Era a voz de Ren. Ele estava próximo, talvez logo atrás de mim, talvez um pouco mais longe. Eu não conseguia precisar, porque meus ouvidos pareciam abafados.

— Por... quê? — Murmurei, finalmente retomando o controle dos meus lábios. Eles estavam meio dormentes fazia algum tempo. Dei alguns passos para perto do banco, ansiando por algo... por alguém. — POR QUÊ?! — Berrei.

Naquele instante, a corda dentro de mim se arrebentou.

— Me diga por quê?! Você me disse que a merda do céu era mais azul! — Senti as pernas fraquejarem, caindo de joelhos no chão. — Você me disse que aqui as nuvens passavam rápido! Era tudo mentira, não era? Não tem merda nenhuma mais azul!

— Futaba...

— Não era você quem me dizia para sair mais? Para dar uma chance? Não foi você quem sorriu pra mim quando eu fazia a merda das piadas com circuitos ou o cacete que fosse?! — Os olhos estavam embaçados e eu sentia as lágrimas quentes escorrerem pelas minhas bochechas. Arranquei os óculos, esfregando o rosto descontroladamente. — Não foi você quem matracou sobre gostar daquela outra merda de androide que andava com você, que ele era uma gracinha e não sei o quê?!

A respiração estava em jorros muito curtos. No descontrole, deixei a caixinha de música cair no chão. Ela rolou até o banco e eu, desesperadamente, apoiei minhas mãos na grama buscando por ela; quando estava novamente em meus dedos, trouxe-a para próximo do peito, apertando-a contra ele.

— Não... foi você quem agradeceu pela caixinha? — Solucei. E, do primeiro, vieram vários e vários e vários. — Por ela... lembrar de você? HEIN, 2B?! POR QUÊ?!

Minha garganta raspava de dor. Meu nariz estava trancado e os soluços não paravam. Senti os braços de Ren ao meu redor e ele encostar meu rosto contra o seu peito.

— Futaba... eu sinto muito.

Naquele momento, eu gritei. E de novo, de novo, de novo. A plenos pulmões, até minhas cordas vocais estourarem de tanta dor. Gritei e chorei e me agarrei a ele como se fosse meu único cabo de esperança.

— Ren... A 2B... ela... — Funguei enquanto sentia os seus dedos passarem por meus cabelos em um afago consolador. — Ela... não está mais aqui. — Ele beijou o topo da minha cabeça. — Não está, não está... Ren!

Meu irmão me abraçou com todas as forças que tinha. E tudo o que eu pude fazer foi me agarrar a ele tanto quanto e chorar, e chorar, e chorar; lamentar pelo fatídico; o inevitável.

Estrelas cadentes eram corpos celestes

que vinham em direção à Terra

passando a camada de ozônio em alta velocidade.

essas, porém, desfaziam-se antes de encontrar o chão.

Naquele dia, eu entendi que mamãe

e, inevitavelmente, 2B

eram estrelas cadentes

passaram por nós rápido

e, antes que percebêssemos

desapareceram, deixando para nós somente

a efêmera lembrança de quem foram


Notas finais

Inkspired comeu minha formação de alinhamento e eu tô sem paciência pra ajeitar :))) Parte do feeling dessa história se perdeu por conta disso. Se eu descobrir como arruma, eu tento de novo, mas por hora fica assim. Falem oi pra mim que eu gosto!

24 de Março de 2019 às 18:13 2 Denunciar Insira 5
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(Ok, disfarça que vc vai receber o mesmo comentário que fiz no AO3 aqui, eu fiquei tão emocionada com a fic que esqueci que era pra comentar no Ink lol) Ok, olha... olha... VC NÃO TEM O DIREITO DE DESTRUIR MEU CORAÇÃO DESSE JEITO OK? EU TO CHORANDO MANO WTF! Não, sério, que fic perfeita! E POV DA FUTABA, EU URREI QUANDO PERCEBI ISSO! Gente tem tanta coisa maravilhosa aqui, primeiro que eu amei o quão realista vc foi ao descrever a ansiedade e fobia social da Futaba, talvez não tenha sido tua intenção, mas eu me relacionei demais com cada angustia dela, a hesitação eterna de sair do quarto porque teria que interagir com pessoas, ou pior, androides e deuses isso foi super real pra mim. Outra coisa incrivel foi a construção do universo, eu amei muito como vc ambientou tudo aqui e tmb encaixou um pouco de Nier com a menção à YorHa e da guerra, a 2B tá maginifica e eu fiquei sinceramente sem folego na apresentação dela, e ok, eu sei que não é pra ser um ship, mas eu shippei demais a Futaba e a 2B mesmo tmb adorando as menções de 2B/9S; eu fiquei "ok Futaba, eu te entendo sis, sou gay pela 2B tmb" kkkkkkkkk mas mesmo sem ser um ship, a relação delas foi algo tão tocante, ver a Futaba incoscientemente procurar companhia e a 2B abertamente e com delicadeza aceita-la foi apenas tão fofo, mas claro que vc tinha que destruir meu coração lá pro final, eu fiquei tão frustada quando elas se desentenderam, embora compreenda totalmente a mágoa da Futaba, e depois quando foi apenas tarde demais, quando a Futaba lê as mensagens perdidas da 2B e a sua explosão desolada... sim, as lágrimas escorreram ok? E REN E FUTABA SENDO IRMÃOS É APENAS TÃO PERFEITO! Also eu amei demais que no final, apesar de perdermos a 2B, ela ainda conseguiu dar a caixinha pro 9S, eu tipo soluçei sorrindo nessa parte lol e tmb é bom ver que a Futaba pareceu superar seus sentimentos negativos em relação aos androides. Gente, eu só amei muito isso ok? Mas nada surpreendente, como sempre sua escrita fenomenal rouba corações dos leitores, mesmos os mais preparados kkkkkkk enfim, outra obra de arte, parabéns sweet ♡ P.s: a fic me lembrou Detroit: Become Human, eu amei isso porque agora imagino o Connor e a 2B sendo amigos; P.s 2: adorei os hints de shukita; P.s 3: 2B em um colã é minha morte, obrigada por isso
28 de Março de 2019 às 09:41

  • Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
    (Relaxa que eu vou colar a resposta do Ao3 aqui também hehe <3 OBRIGADA MESMO LINE) Olha... mas olha... INFELIZMENTE FOI A MINHA INTENÇÃO. E MISSÃO CUMPRIDA KKKK A ideia era fazer chorar mesmo. Eu mesma quase chorei enquanto escrevia. Mas fui sem dó. NOSSA O POV DA FUTABA FOI INCRÍVEL DE FAZER, SÉRIO! Eu tava super empolgada de trabalhar personagens que eu não costumeiramente trabalho em Persona (Yusuke, Futaba, Ryuji, etc). Achei genial a ideia ser do POV da Futaba <3 E OH WOW. Eu não sei dizer se era a intenção ou não, porque foi uma forma de catarse minha de novo (como foi a inferno). Eu fico feliz e triste ao mesmo tempo por você se identificar ;w; A identificação é boa por um lado e péssima por outro. Espero que não tenha gatilho de nada (u). MENINI DEIXA EU TE CONTAR QUE eu me apaixonei por esse universo. SÉRIO QUE EU FIQUEI CHATEADA QUE ERAM SOMENTE 10K DE PALAVRAS eu queria poder desenvolver mais esse complexo da Futaba e todo esse universo envolvendo androides realocados na sociedade, nem que fosse um pouquinho. E, nossa, super que a YoRHa ia ser algo dessa forma, sabe? Um local para os exilados, mas que não duraria muito, porque era passageiro (claro, não tão genial quanto o Yoko Taro, mas né). E... essa cena da 2B na lira e o tecido... eu reescrevi ela, ela ficou melhor, mas ainda não é MAGNÍFICA do jeito que essas apresentações são ;w; Mas eu fico MUITO feliz por você ter se emocionado <3 Era a intenção e eu fiquei meio chateada por não ter me emocionado tanto. E NOSSA EU FIQUEI COM ESSA IMPRESSÃO TAMBÉM do ship 2B/Futaba. E nossa, eu sou ASSUMIDAMENTE GAY PELA 2B (na vida eu sou o 9S. Não tem como. QUE MULHER, ESSA MULHER). E ain eu queria fazer mais menções 2B/9S porque eu amo demais esse ship, mas ;w; Todo esse desenrolar do final... nossa eu fiquei à beira das lágrimas, principalmente escrevendo as mensagens da 2B; eu imaginei o desespero dela... Apesar de eu achar levemente OOC, eu entro em conflito - será que a 2B sentiria tudo isso? Será que ela SENTIU tudo isso em Nier? Quanto mais eu penso, mais triste eu fico ;w; E, AAAA, EU QUERIA FAZER TODO MUNDO CHORAR COM ESSA HISTÓRIA <3 Sério. Eu fui cruel de propósito (alguém pediu pra eu ser e eu só joguei a toalha). RENREN ALÉM DE SUPER NAMORADO É TAMBÉM BEST BIG BRO. Não tem como, Ren é o irmão que a Futaba precisa e MANO NÃO SHIPPEM OS DOIS, DEIXEM ELES SEREM IRMÃOS ia ser tão lindo ;w; E... MEU DEUS VOCÊ SOLUÇOU ME PERDOA AODUFHGUADHOGUA Eu faço as coisas pra emocionar, mas eu não imagino o quanto as pessoas absorvem das minhas coisas e depois fico me sentindo mal adfoughaudfg OTL Pelo menos agora o 9S tem uma lembrança da 2B, né? E a Futaba deixou algo dela vivo em alguém, nem que seja uma memória ;w; LINE MUITO OBRIGADA POR TUDO SÉRIO só pelo seu surto eu já fico muito feliz, meu coração fica super quentinho <3 E todos esses elogios, eu fico boba. Obrigada mesmo! EU TAVA SUPER ANSIOSA POR ESSE COMENTÁRIO SÉRIO! E, ah, eu não jogue Detroit, então qualquer relação foi mera coincidência mesmo ;w; Falaram que talvez eu fosse gostar por conta de Nier e tal, mas não sei? E os hints de Shukita é somente meu sal por NÃO TER TERMINADO A ENFLORAR ATÉ AGORA, NOSSA QUE VERGONHA OTL P.S.: NOSSA A 2B EM UM COLLANT AZUL MARINHO E ESTRELADO É A MINHA MORTE, eu tô quase comissionando uma fanart pra essa história porque eu tô achando que ela MERECE VIU. ALGUÉM ME SEGURA AAAAAAAAAAA 28 de Março de 2019 às 14:51
~

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