O Casamento do Infante Seguir história

lucas-portilho1552831330 Lucas Portilho

Curto conto baseado no romance verídico entre o príncipe D. Luís de Portugal, filho do rei D. Manuel I, e Violante Gomes.


Drama Todo o público.
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O CASAMENTO DO INFANTE


Era o dia de realizar-se o casamento do infante, no entanto, inquietação e discórdia assombravam o ambiente tenebroso de Lisboa.

Sua Alteza Real ostentava vários títulos: príncipe, duque e infante de Portugal, segundo filho varão do antigo monarca e irmão do rei. O príncipe era bastante belo, tinha cabelos lisos, silhueta esbelta, inteligência bem aguçada, forte jovialidade, o que lhe conferiu a estima do pai e também grande popularidade entre o povo. Ao alçar a maioridade, recebera outros títulos nobiliárquicos, além de iniciarem-se as primeiras negociações matrimoniais.

Todavia, nenhuma das pretendentes propostas agradavam-no. O infante também era religiosíssimo e ativo na vida militar. Tantas eram suas qualidades que o jovem ganhara a inimizade do rei, pois este invejava a grande aceitação do duque perante a nobreza, a nação e até entre os fidalgos estrangeiros. Decerto temia que a notoriedade pudesse de alguma forma enfraquecê-lo, mas o infante precavia-se das vicissitudes do monarca e com muita perspicácia evitava provocar perigosos embates que comprometessem a relação entre ambos.

El-Rei, dono de má aparência, personalidade sombria e taciturna, alimentara a inveja para com o irmão mais novo, empenhando-se fragorosamente em atrapalhar-lhe todos os planos e colocando-se contra todos os projetos dele. Tais foram as dificuldades e perseguições impostas por sua majestade que o infante já considerava a hipótese de mudar-se de Lisboa e, deste modo, distanciar-se das intrigas do opulento primogênito de D. Manuel, o Venturoso. Assim daria cumprimento as suas atividades enquanto nobre, embora soubesse que qualquer ação decisória resultaria em advertência ou punição por parte da família real. Portanto, permanecera cauteloso, aguardando que a névoa de ânimos fosse dissipada pelo tempo.

Numa noite, o infante deslocou-se do palácio. Ao anoitecer dirigiu-se até a taverna da região. Estivera disfarçado, vestindo trajes negros e a cabeça coberta num capuz marrom. Encontrar-se-ia com uma mulher chamada D. Violante Gomes, cristã-nova, apelidada a "Pelicana", conhecida pela elegância e pelo bom corpo. Sua face fora envolta por cabelos longos, lisos e pretos. Aparentava ter trinta e poucos anos. O infante apaixonara-se perdidamente! Porém... o que estavam a conversar?

- Sabes bem que devemos finalizar os preparativos restantes da cerimônia tão logo seja propício fazê-la

- Sejamos breves para não despertar muita desconfiança.

- Minha amada, admito que quase não a reconheci

- Estou apenas resguardando-me - respondeu.

Continuaram a conversar. Entretanto, D. Violante queria adentrar naqueles detalhes decisivos.

- Quando será?

- Hoje à meia-noite

- Oh! Oh! De que modo entraremos no palácio sem sermos vistos? El-Rei realmente está alheio ao nosso intento?

- Depressa saberás.

Ambos se retiraram para o lado de fora. O infante e sua amada entreolharam-se fixamente, foi quando ele se aproximou dela, soltando algumas poucas e breves frases da boca. Por fim, um beijo auspicioso. Se ausentaram da taverna e partiram. D. Violante profetizou.

- Dará certo!

O principezinho tratou de ir ter prosas fundamentais com um boticário famoso no Terreiro do Paço. Encontrando-o, deu-lhe um longo e forte abraço. A ação do outro foi recíproca. Começaram a discutir sobre o tal casamento secreto. Mergulhado em deleite, contou-lhe das virtudes da noiva. Recebeu dele, no final da visita, um pequenino tubo de ensaio que continha certa substância líquida aparentemente desconhecida.

No palácio, o infante acomodou-se em seus aposentos, localizados a curtos metros da sala do trono. Falava com D. Antônio, o estafeta real, que lhe ajudava a delimitar os planos para a escapada até a catedral. Os cochichos secretos chamaram a atenção de El-Rei, despertando-lhe desconfiança e levando-o a cultivar suspeitas. Subornou um zé ninguém a quem havia recebido favores e ordenou-lhe que seguisse o irmão após este se retirar do Paço da Ribeira. O subordinado confirmou o pressentimento, atestando a natureza dos fatos misteriosos. El-Rei decidiu finalmente interpor o irmão infante e ao avistar-lhe entrando e saindo das instalações reais, disparou questionamentos intencionais.

- Responda-me príncipe! Quais são os motivos destas tuas idas e vindas?

- Explicar-me-ei!

O infante entregou nas mãos do rei certo documento, cujos pormenores diziam respeito aos gastos militares do reino.

- Vossa Majestade sabe que assuntos reais, de estado, devem ser tratados com responsabilidade.

- Tens razão! Contudo, para que tanta confidencialidade?

- Peço-lhe desculpas.

- Retirar-me-ei daqui. Não há mais nada a discutir,

El-Rei sai, percorre os corredores e some. O infante antecipou-se, ciente da suspeita. Retirou-se do quarto, e junto a D. Antônio, nas primeiras horas da noite, enquanto todos dormiam, resolveu iniciar o plano. Eles partiram numa charrete insuspeita. Desembarcados, bateram à porta da catedral, sendo recepcionados pelo Bispo que lhes disse:

- Alteza! Mas ainda não é hora...

- Terá que ser, porque o perigo nos ronda.

Prepararam-se D. Antônio que se colocou a vigiar as entradas do recinto e o Bispo que folheava algumas atas da Sé episcopal. A realização do casório estava próxima. Vossa Alteza mantinha-se concentrado, quaisquer concessões a inquietação produziriam riscos sérios.

Dispensaram-se pompa, grinalda ou vestido. D. Antônio seria padrinho e testemunha do matrimônio. O casal consumaria pelas leis humanas, o que o coração já concretizara quando estas duas almas se cruzaram. As fulgentes estrelas combinavam-se com a ascensão da maravilhosa noite. Enquanto isso, a charrete levando a Pelicana chegava enfim as portas da Catedral.

Recebida pelo Bispo, que lhe permitiu a passagem, ela marchou até o altar. O relato sobre uma possível fuga alcançou os ouvidos do rei. Este prontamente pôs as guarnições militares para percorrerem todos os cantos da capital em busca do fugitivo. Deu-se início aos ritos cerimoniais. Na sala do trono, El-Rei esbanjava toda a sua coléra. Queria achar o irmão custe o que custar.

- Achem-no! - bradava

El-Rei não dispensaria a oportunidade de arruinar a boa reputação do noviço infante. Já acontecendo os protocolos iniciais, D. Antônio ressentiu-se das consequências que um possível fracasso traria. Assinara a próprio punho a ata nupcial e pôs-se como vigia. Pressentindo a perseguição, solicitou pressa nas etapas ritualísticas. O infante permanecia intacto diante do altar tendo a noiva ao seu lado. Finalmente fizeram os votos matrimoniais. A bênção clerical encerrou as formalidades.

O pressentimento preconizava fato deveras ruim, bem perto de se tornar realidade. Ouviram-se passos largos e um grito desesperado...

- Os Guardas do Rei! Os Guardas do Rei! Tranquem as entradas!

Os dois cavalheiros puseram trancas que impediriam a penetração dos soldados. O bispo, sabendo da melindrosa situação na qual o infante e a esposa se submeteram, decidiu mover esforços para ajudá-los e colaborou no resguardamento das entradas.

D. Violante indagou desesperada.

- Querido, talvez seja a hora

- Achas mesmo?

- Pelo mago que tanto te aconselhou a fazer as pazes com Sua Majestade

- É temerário conjecturar algo acerca desses ímpetos personalísticos de El-Rei. Saiba disto: Eu não o odeio

- Apesar do reino todo conhecer a inimizade de El-Rei para contigo...

O infante ficara a pensar alguns instantes com a declaração da nova esposa e lhe diz assertivamente

- Pois que seja! O amor só existe no mundo terreno. No inferno a tristeza e o desespero imperam

Escutam-se as pancadas! Eram os soldados reais! D. Antônio tenta elaborar algum estratagema, nada lhe vinha à mente. Os guardas deram o ultimato.

- Abram em nome de Sua Majestade!

D. Violante e o marido decidem beber um líquido misterioso, ouve-se um pequeno barulho. Os soldados conseguem adentrar na capela. Vê-se o infante e a Pelicana estirados no chão, tanto D. Antônio quanto o Bispo choravam ante aos cadáveres estatelados.

No dia seguinte sepultaram o infante com irrisórias honras no Mosteiro dos Jerónimos. D. Violante foi enterrada em Santarém com ajuda financeira familiar. Posteriormente, o rei ordenou que D. Antônio, o infiel mensageiro, fosse preso e condenado a decapitação. Ao prelado lisboeta, restou ser excomungado por ordem do próprio papado em Roma.

6 de Abril de 2019 às 03:04 1 Denunciar Insira 119
Fim

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MRz Rz MRz Rz
Olá Lucas. Eu sou a MRz do Sistema de Verificação. Primeiramente eu quero elogiar a sua obra. Você escreve muito bem e tem uma temática muito peculiar, achei isso incrível, porque realmente se destaca num mar de clichês por aí. Sua história foi verificada, porém tem um errinho bem pequeno. Em alguns diálogos na história, você colocou o verbo dicendi no próprio parágrafo do diálogo. Isso não está errado, porém nesses casos é necessário colocar o travessão após a fala do personagem e aí sim, seguir com o verbo dicendi, por exemplo, na sua frase “[...]— Achem-no! Bradava [...]”, a forma correta seria “[...]— Achem-no! — bradava. [...]”. Foram poucos os diálogos com esse erro e achei que não havia necessidade de pôr em revisão só por isso, mas acho legal avisar. No mais, a história está realmente incrível, parabéns! :)
28 de Abril de 2019 às 16:07
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