O Que Nos Pertence Seguir história

zephirat Andre Tornado

Um quarto de hotel, um átrio, uma sala, um palco, um corredor, qualquer lugar. Vulnerabilidade, cumplicidade, brincadeira, crença, luta, vácuo. E música. Vozes num colóquio imparável, mesmo nos silêncios. Nem tudo acaba por ser dito, nem tudo acaba por ser esclarecido. Os momentos são criados para serem eternos e efémeros. E corre-se, incansavelmente, contra o tempo.


Fanfiction Bandas/Cantores Para maiores de 18 apenas. © Linkin Park não me pertence. História escrita de fã para fã.

#comédia #Rob #Bastidores #Digressão #Phoenix #Brad #LinkinPark #canções #chester #Joe #mike #banda #dave #amizade #música
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I - Madrugada


Foi subitamente arrancado do sono.


Um peso escapava-lhe das mãos e ele agarrou-se com força àquilo, porque não o podia deixar cair. Acordou, por isso, sobressaltado. Confuso se estava a sonhar ou se era uma sensação verdadeira. A impressão era de que flutuava e que podia manter-se preso à Terra usando as mãos. Depois percebeu que se sentava numa cama, que a coisa que segurava era o computador portátil assente no seu colo e que a máquina quase fora parar ao chão porque tinha adormecido com esta aberta, numa aplicação de samples. Gritou um “Oh!” e recompôs-se do susto, fincando os dedos de modo a evitar o desastre.


Um candeeiro espalhava um halo amarelo a partir da mesa de cabeceira ao seu lado direito. O resto do quarto estava escuro. Seria tudo muito mais do que normal, até que notou a luz ténue, em suaves clarões que vinha do seu lado esquerdo, no meio da escuridão. Ao ver-se acompanhado deu outro salto, deu outro grito.


- Oh!…


O computador ia-se-lhe fugindo das mãos, pela segunda vez.


- Estás aqui?


- Sim, estou – respondeu-lhe o vulto que se sentava na cama, ao seu lado. Mexia no telemóvel junto ao rosto, fazendo sobressair o seu nariz onde se encavalitavam uns óculos, boca crispada numa linha, polegares a movimentarem-se frenéticos sobre a tela. Escrevia alguma coisa no teclado minúsculo.


Arrancou os óculos. Esfregou o rosto, temendo ter afugentado o sono.


Olhou para o teto. Mais um quarto de hotel, outra cidade estrangeira, uma agenda preenchida de manhã à noite para ser cumprida à risca, com pouco espaço para improvisos. Entrevistas, filmagens, testes de som, encontros com os fãs da banda, ensaios, espetáculos. Precisava mesmo de dormir. E dormira, embalado na fadiga deliciosa e imediata que o vencera sem apelo, nem agravo e ele acolhera a derrota serena, na companhia do computador. Na companhia do amigo. Não se lembrava de ele ter entrado no quarto, agora que pensava nisso.


- Quando é que vieste? – perguntou Mike Shinoda.


- Para o teu quarto? – perguntou Chester Bennington, por sua vez, sem levantar os olhos do telemóvel. – Há pouco tempo. Vim com o Joe. Eu fiquei, ele foi-se embora depois de te ter tirado fotografias.


- Fotografias?... – Mike sentiu um calafrio, ficando de costas direitas. Pestanejou, demasiado alerta. – Que fotografias?


- Daquelas bastante embaraçosas.


- Embaraçosas?


- Contigo a dormir de boca aberta, com baba a escorrer pelo queixo. Ele diz que vai fazer chantagem contigo… Essas cenas.


- E tu não o impediste…


- Nope. Ele prometeu-me uma percentagem.


- Uma percentagem de quê?


- Do dinheiro que vai ganhar com a chantagem.


- Não aceitaste menos do que sessenta porcento.


- Aceitei trinta. Acho que foi razoável.


- Não, não foi. O Joe vai enganar-te e só te vai dar dez porcento. No fim acabas mesmo por não ganhar nada, que ele vai inventar um esquema qualquer e ficas com a reputação manchada.


- Que reputação? Eu não tenho reputação…


- Vão saber que foste cúmplice da chantagem e que não fizeste nada para impedi-la. Estou a falar da tua reputação como o meu melhor amigo.


- Ah, pois… Sou o teu melhor amigo? Deixa-me escrever isso… Pode servir de atenuante quando for considerado culpado num tribunal apropriado.


- Escrever o quê? Onde?


- As fotos já foram publicadas…


- O quê?! – Mike deu um salto e voltou-se para Chester. Cobiçou-lhe o telemóvel, até considerou arrancar-lho das mãos, mas depois refreou-se. Estava a ser miseravelmente enganado. Era até possível que não existissem fotografias algumas. Arriscou, desconfiado: – Não estás a falar a sério…


- Estou, sim… Olha, o Joe diz que já não me serve de nada, indicar que sou o teu melhor amigo. Sou culpado e ele não me vai defender. Estou fodido, é o que é.


- São só vocês dois que estão a comentar as fotos?


- É só uma foto, não são fotos, no plural… tirada de um ângulo manhoso… As tuas narinas estão em grande plano. Tens de aparar esses pelos do nariz, meu. Estão nojentos!


- Chaz, onde é que andam a comentar essa foto?


- No nosso grupo privado. Mas daqui até ao mundo é só um passo… Nem sei como o Brad ainda não apareceu.


- O Brad é mais inteligente do que vocês os dois – suspirou Mike, percebendo que o sono se tinha ido, definitivamente, embora. – Está a dormir! É mais inteligente até do que eu que estou aqui à conversa contigo em vez de também estar a dormir… Olha, meu, se essa foto vaza para a net, tu e o Joe são dois homens mortos!


- Vou dizer que me estás a ameaçar… Isso também vai servir num tribunal quando fores condenado por homicídio.


- Não provoques o Joe ou ele vai mesmo colocar essa foto numa das nossas páginas online!


- Relaxa, Spike! Se ele divulgar a foto antes do tempo não te pode chantagear.


- Oh, sinto-me bastante mais tranquilo. – Ironizou: – Obrigado, Chaz! Nem sei o que faria sem ti.


- De nada, meu… Eu cuido bem do meu melhor amigo.


- Sem dúvida.


- Disse ao Joe que ficava a cuidar de ti. Estou a fazer, precisamente, isso.


- Oh, sério? Tu…. A cuidares de mim? Acho que começo a ficar realmente impressionado, senhor Bennington! – Inclinou-se para lhe espreitar a tela do telemóvel. – Posso ver essa foto… por favor?


- Ei! – Chester levantou o telemóvel, indignado. – Está no grupo! Vai ao grupo e vês a foto. Não precisas de a ver no meu telemóvel.


- O que andas a esconder aí?


- Nada. Estou a ver as minhas cenas, meu.


Mike deixou o computador na cama. Rodou o corpo, pousou os pés no chão. Guardou os seus óculos na respetiva caixa, tendo o cuidado de envolver as lentes no pano macio do estojo. Precisava de um banho quente e talvez pudesse, músculos enfim relaxados, descansar pela noite dentro. Desligou o computador, fechou-o, deixou-o na mesa de cabeceira, ao lado do candeeiro, do seu telemóvel e da caixa dos óculos. Conferiu as horas. Duas e dez da manhã. Era tarde. Tinha mesmo de continuar a dormir, esperava-o um dia muito longo. Não apenas para ele, também para os seus companheiros da banda.


Estavam na Europa, lembrou-se de repente. Uma digressão repleta de apresentações dos Linkin Park em várias cidades do Velho Continente. Viagens esgotantes, recompensadoras, intermináveis, dias completos que haveriam de passar num corrupio, num estalar de dedos e dali a nada estariam de regresso a casa. Por vezes o tempo possuía esse capricho de se diluir num abrir e fechar de olhos porque tudo era intenso e exigente.


Massajou a nuca enquanto movimentava o pescoço de um lado para o outro. As suas vértebras estalaram, doridas. Tinha adormecido sentado, numa posição que o torcera à medida que fora resvalando, mole, deslizando pela montanha de travesseiros que acumulara para lhe amortecer as costas. E, entretanto, tiraram-lhe fotografias embaraçosas… Fixou o telemóvel. Devia entrar no grupo e terminar com aquela brincadeira. Mas o seu bom senso indicava-lhe que não devia incomodar-se com um detalhe sem importância. Era só uma fotografia, uma graçola e disso havia aos montes entre eles. Para mais, era só o idiota do Joe com o outro idiota do Chester, nem sequer incluía mais gente da banda ou mesmo do staff.


Tentou recordar-se da primeira obrigação da manhã seguinte. Sabia que tinha de se apresentar no lobby do hotel às dez horas, mas não conseguiu precisar qual a primeira etapa do dia. O seu cérebro recusou-se a pensar e ele achou por bem não o forçar, ou perderia totalmente a hipótese de dormir qualquer coisa no que restava daquela noite. Estava com demasiada preguiça para se importar, naquele estágio, com as suas obrigações.


Espreitou por cima do ombro. Chester vestia um casaco com capuz que puxava para a cabeça, cobria as pernas com os cobertores e tinha a mesma montanha de travesseiros atrás de si. Estava bem instalado na sua cama, notou ele com algum cinismo.


- É muito tarde, sabias? – avisou.


- Sei, estou a ver as horas no meu smart.


- O que estás a fazer? Para além de me teres tramado com o Joe. Não me vou esquecer dessa traição, ouviste-me?


- Oh, para de te queixar, Shinoda! Sempre a lamentar-te… – Chester fingiu suspirar. Continuava fixado na tela do telemóvel. – Estive a falar para casa, com mensagens. Por causa da diferença horária está toda a gente acordada. Não quis fazer o vídeo para não te incomodar. As minhas crianças falam muito alto!


- Hum-hum… Muito atencioso da tua parte. As tuas crianças saem ao pai, com essa voz tão pouco suave…


- Muito obrigado, tenho orgulho da minha criançada. Sem dúvida que saem ao pai! Agora estou a navegar pela net… A ver uns vídeos, a ver notícias. A comentar a tua foto lamentável do nariz peludo. Essas coisas.


- Não estás cansado?...


- Nope.


- Chester, temos de ir descansar. É de madrugada e vamos acordar cedo, por causa de amanhã… – A voz morreu-se-lhe, porque na verdade, não se lembrava, nem queria lembrar-se do que haveria no dia seguinte. Sentia-se demasiado desperto e irritou-se.


- Eu sei – concordou Chester baixando, por fim, o telemóvel, ficando a olhar em frente –, temos de ir àquela estação de televisão de manhã! Se tiver muito sono, bebo um café duplo e pronto, assunto arrumado. Posso ficar com olheiras, mas uso uns óculos de sol e disfarço. Novamente, assunto arrumado. Os óculos de sol vão dar-me estilo, crio uma nova moda, foto a ser partilhada infinitamente pela net… Não me agradeças depois por ter tornado os Linkin Park um nadinha mais populares.


- Ah… É uma estação de televisão – murmurou, confuso.


- Sim, uma entrevista, um jogo qualquer de perguntas, uma coisa dessas. Aquelas tretas que se ligam à promoção do nosso novo disco. Não sabes?


- Sei, acho que sei… Ah, quero dormir, meu! – protestou e pôs-se de pé. Foi até às gavetas da cómoda à procura de um conjunto lavado de roupa interior. Iria tomar um duche a ferver e depois iria dormir. Sem outras distrações. Não queria conversar mais ou acolhia uma insónia desagradável.


- Podes ir para o teu quarto.


- Não quero. Vou ficar aqui.


Chester desligou o telemóvel e espreguiçou-se, esticando os braços para diante. Arqueou as costas, torceu o rosto. Mike observou-o por alguns segundos, sentindo-se subitamente muito cansado. O amigo fez-lhe lembrar um gato a aninhar-se num lugar apetecível.


- Queres dormir aqui?


- Yep.


- Queres dormir… comigo. – Notou que não formulara a pergunta. Deixou como uma afirmação, implicando uma certa ambiguidade, uma pequena beliscadela para espicaçar o outro. – Há muito tempo que não dormes comigo.


Chester puxou o capuz para trás, coçou o alto da cabeça.


- Não me apetece sair desta cama quentinha e confortável.


- Estiveste a beber, Chester?


- Claro que não, porra! Por que será que quando quero fazer algo que vai contra os padrões pensas que andei a beber? Cheirou-te a álcool, por acaso? Tenho estado ao teu lado!


Mike mostrou as mãos, arrependido por ter sido brusco.


- Certo, meu. Desculpa… Sabes que me preocupo contigo. Quero que estejas bem, não gosto de te ver… tu sabes como. Não gosto de te ver desorientado.


Chester aconchegou os cobertores em volta das pernas.


- Então se me gostas de ver bem, neste momento estou bem aqui, Spike… Nesta cama. Não me faças ir para o meu quarto, com uma cama gelada e grande demais. Se sair, vou apanhar frio e resfriar-me, perder a voz, vai ser uma merda para o próximo espetáculo…


- OK, já percebi! És sempre tão egoísta…


- Sempre. Nasci já egoísta. E se estiver sozinho vou até ao minibar…


- Não toques no raio do minibar. As bebidas são demasiado caras, usar o minibar está fora de questão na digressão. Tu estiveste na reunião sobre as regras da digressão! – Gaguejou, a seguir: – E tu não precisas de beber. Se… se tens a minha cama. – Engasgou-se com aquela ousadia. Chester olhava para ele, nas sombras, com uma expressão divertida afivelada no rosto pálido.


Mike dirigiu-se à casa de banho.


- Vou tomar banho. Preciso de dormir, porra! – Levantou um dedo. – Precisamos de dormir.


- Isso vai ser um pouco mais complicado… – murmurou Chester, empurrando os óculos para a cara com um dedo.


Enquadrado pela moldura da porta aberta, depois de acender as luzes do compartimento, Mike voltou-se para o amigo e impôs-lhe:


- E tu também devias tomar banho. Tens um pivete horrível.


- Não sou eu, são das bufas que estive a dar aqui dentro… – Levantou o cobertor com ambas as mãos, abanou-o e franziu-se como se estivesse a sentir um cheiro verdadeiramente nauseabundo.


- Oh, merda… Começo a pensar seriamente que deixar-te dormir comigo vai ser uma má ideia.


- Podes esperar um peido ou outro.


- Chester, cala-te, por favor.


- Não devo retrair-me, faz-me mal aos intestinos.


- Se te peidares na minha cama, dormes no tapete.


- Ajuda a manter-nos aquecidos. Além do mais, os meus peidos cheiram a flores… Só as bufas silenciosas é que cheiram mal. São a minha arma química.


- Oh, claro! Os peidos de Chester Bennington são especiais! – Mike revirou os olhos, tentando não disparar em risadas, porque, no fundo, estava a gostar daquela argumentação de doidos. Insistiu: – Vais tomar um banho. Ajuda-te a adormecer.


Chester reclinou-se, apoiou a cabeça numa mão.


- Estava a pensar lavar-me de manhã.


- Se vais dormir comigo, vais tomar banho já. Estivemos em viagem, não te lavaste? Daí que cheires mal… Merda, como é que aguentas o teu próprio fedor, Chaz?


- Queres que tome banho contigo? Isso é um convite um pouco…


Mike entrou na casa de banho e começou a despir-se. Explicou quase perplexo:


- Claro que não é comigo!


- Um convite inusitado.


- Onde tens a cabeça, porra? Desde quando nós tomamos banho juntos, meu sacana?


- Acho que isso aconteceu em mil e novecentos e…


- Não aconteceu nada!


Mike enfiou-se na cabina do duche, abriu a torneira, desviando-se para o lado para não apanhar com os primeiros borrifos de água fria. Reparou que estava em bicos de pés, arrepiado, com as mãos fechadas junto aos ombros, numa posição, no mínimo, hilariante. Esticou o braço para perceber na palma da mão a alteração da temperatura da água.


Chester disse-lhe, elevando a voz:


- Posso lavar-te as costas e tu lavas as minhas.


Água quente. Ou melhor, água a escaldar, dava para lhe arrancar a pele. Rolos de vapor começaram a nascer dentro da cabina à medida que a água ia encharcando as partes frias do soalho e das paredes. Regulou a torneira, para obter a temperatura ideal.


- Estás demasiado atrevido! – gritou Mike para se fazer ouvir através do chuveiro. Sorria. – Andas a ler outra vez aquelas coisas da net sobre nós?


- Que coisas, meu?


- Aquelas histórias… Como é que se chamam?


- Ah!... Bennoda!


- Isso… Bennoda Mountain… – remoeu, lembrando-se de um título de uma dessas histórias que foi motivo de anedota entre o grupo havia alguns anos. Dave e Brad levaram a azucrinar-lhes o juízo à conta dessa história cujo argumento era, basicamente, uma recriação do filme de Ang Lee ‘Brokeback Mountain’, sendo que os protagonistas eram ele e Chester. Tinha até havido uma entrevista num programa de uma estação de rádio, uma das ouvintes a fazerem-lhes perguntas sobre esse tipo de histórias que proliferavam pela net e que Chester gostava de espreitar, por simples curiosidade mórbida, para ter material para piadas e para irritá-lo.


O duche foi rápido. Suspirou, olhos fechados, sentindo-se francamente melhor, mais dormente, a vazar-se do lastro que o mantinha acordado. Agarrou na toalha e começou a secar os cabelos. Chester disse-lhe:


- Não preciso de ler, também posso ver.


- Do que estás a falar?


- Bennoda. Existem desenhos também.


- Dispenso!


- Queres desenhar-me, Spike… como uma das tuas raparigas francesas?


A evocação da célebre frase do filme ‘Titanic’ na voz em falsete de Chester fez Mike rir-se. Passava a toalha nas costas e recordava essa cena mítica em que Rose pedia a Jack que a desenhasse numa pose sensual, sem qualquer roupa. Um verdadeiro desafio para uma menina da alta sociedade com apenas dezassete anos, na noite do naufrágio do imponente transatlântico…


Nisto, Chester entrou na casa de banho despido. Piscou-lhe o olho e avançou para a cabina do duche. Mike meneou a cabeça.


- Afinal, quero que me esfregues as costas.


- Lamento, mas já não vai dar – desculpou-se Mike, vestindo as suas cuecas. – Já estou seco. Vou vestir o meu pijama e vou enfiar-me na cama.


- Fizeste de propósito. És um menino muito mau. – Assim que abriu a torneira e levou com as primeiras gotas, Chester deu um urro e saltitou dentro da cabina. – Porra! A água está a ferver! Como é que consegues tomar banho com a água tão quente? Ui, ui!


Dentro do duche atirou as mãos ao misturador, com os dedos aflitos, a tentar obter uma temperatura mais amena do líquido que se derramava numa densa cortina a seus pés. Saltitava como se fossem balas e repetia os “uis”. Mike voltou-lhe costas e reentrou no quarto. Agitou uma mão.


- Devias experimentar tomar banho com a água bem quente. Ajuda-te a relaxar e vais ter um sono melhor.


- Duvido! – gritou Chester.


- Duvidas que vais relaxar?


- Duvido que tenha um sono melhor. Nunca tive sonos bons, a não ser com ajuda.


- Vais estar comigo, Chazy.


- Não me quiseste esfregar as costas! – censurou-o parecendo amuado.


- Estás a ser demasiado exigente.


Chester acrescentou mais alguma coisa, mas Mike não o conseguiu ouvir porque falou no meio da água que lhe enchia a boca. Ouviu, isso sim, ele a cuspir ruidosamente essa mesma água. Abriu uma gaveta da cómoda, escolheu umas calças de pijama e vestiu-as. Optou por não colocar a parte de cima, já tinha uma camisola interior de manga curta e punha-se a suar se acrescentasse outra peça de roupa. Reparou que Chester espalhara as roupas que fora despindo pelo chão do quarto, na sua típica desarrumação.


Agarrou no telemóvel, desbloqueou-o. Escolheu a opção das mensagens, enviou um curto texto à mulher, Anna, dizendo que iria dormir. Desejou-lhe as boas noites, beijinhos para os meninos, um “amo-te” no final. Desligou o som do aparelho, devolveu-o à mesa de cabeceira, voltando-o com a tela para baixo. Olhou para a cama decidido a efetivamente dormir as poucas horas que ainda conseguisse. Isso dava sempre mau resultado… sempre que se queria muito dormir nunca se conseguia. Esboçou um sorriso. A merda do jet lag estava a fazer das suas… Ter dormido aquela curta soneca agarrado ao computador tinha-lhe baralhado os sonos, também.


Na casa de banho, Chester limpava-se com uma toalha. Pediu:


- Vou precisar de uns boxers.


- Claro, sem problema… E uma blusa interior também?


- Não. Durmo só de boxers.


Separou as cuecas e ainda uma blusa, não fosse ele mudar de ideias de repente, como às vezes acontecia. Normalmente Chester era bastante acalorado e dormia sempre com o mínimo de roupa possível, mas podia ter um acesso esquisito de frio ou algo assim. Deixou as peças em cima da cómoda. Abriu a coberta da cama, empurrou os travesseiros que estavam a mais, escolheu aquele que lhe pareceu mais adequado, socando-o duas vezes, para criar um espaço para a cabeça. Deitou-se de barriga para cima, ajeitando as costas ao colchão.


- Vão ficar-me largos – apontou Chester saindo da casa de banho, carregando no interruptor para apagar a luz desse espaço.


- Hum? Os boxers? – Mike deitou-se sobre o seu lado esquerdo, colocando a mão debaixo da face. – Pois, talvez irão, sim. Queres que vá ao teu quarto buscar-te uns dos teus?


- Não precisas, aceito as tuas cuecas três números acima.


- Não exageres.


- Tipo tenda de campismo. Assim fico com o material a arejar…


- Ei, não visto três números acima do teu!


Chester apanhou os boxers, enfiou-os pelas pernas. Repuxou o elástico para aconchegá-los na cintura.


- Yep, são três números de diferença, no mínimo.


- Cala-te e deita-te. – Mike fechou os olhos.


- É melhor vestir isto do que nada. Se calhar não queres que durma contigo todo nu.


- Isto é a minha roupa interior. Olha o respeitinho, meu. Não te estiques…


- Posso dormir todo nu.


- Não dormes nada. Vá, vem deitar-te.


- Tens medo que aconteça alguma coisa?


- Não estou assim tão necessitado, caramba! E tu também não.


- Estava só a testar-te.


- Estás seguro comigo, meu.


- Sempre estive, companheiro. Sempre estive, é verdade…


O colchão oscilou quando Chester literalmente mergulhou sobre ele. Mike sentiu-se a abanar como se estivesse dentro de um barco num mar de ondas revoltas. Cerrou os dentes, mas evitou abrir os olhos. O amigo remexeu-se para encontrar a melhor posição. Mesmo sem o estar a ver, ele sabia que Chester deitava-se de costas, sobre um e outro lado e, por fim, soergueu-se apoiado nos cotovelos. Mantivera a profusão de travesseiros e usava-os naquele monte caótico para arranjar uma boa posição para a noite. Podia ser o caso de mandá-los para o chão e dormir sem nenhum ou podia também usá-los todos e descansar praticamente sentado. Os seus gostos eram sempre imprevisíveis. Pelos movimentos que pressentiu, Mike percebeu o que iria acontecer e avisou:


- Chaz, larga o telemóvel. Já chega por hoje. Temos de dormir, meu. Já devem ser perto das três da manhã.


- Só vou mandar uma mensagem à Tali e depois desligo.


- Hum-hum… Faz lá isso. Eu também mandei uma à Anna…


- E é só por causa disso que me dás a folga…


- Sim, só por isso…


Alguns segundos depois, Chester debruçou-se por cima dele. Mike sentiu o braço do amigo a roçar-se no seu ombro, a proximidade do peito tatuado a cheirar a gel de banho, o queixo nos seus cabelos. Murmurou, ensonado:


- O que estás a fazer?


- A apagar o candeeiro. Deixaste-o aceso.


- Oh… Desculpa, meu… Foi para teres luz.


- Eu dava com a cama, vejo bem no escuro.


Mike balbuciou com um sorriso, a manter-se de olhos firmemente fechados:


- És cego que nem um morcego… e vês bem no escuro.


- É o que os morcegos fazem. Vivem no escuro – argumentou Chester regressando ao seu lado da cama. – Tu também és um morcego, meu amigo!


O quarto encheu-se de escuridão, igual à das cavernas dos morcegos e Mike suspirou, satisfeito. O duche quente fora uma excelente ideia. Desligava-se devagar, a começar pelas extremidades. Chester continuava a mexer-se debaixo das cobertas, mas ele já não se importava. Não era a primeira vez que dormiam juntos. Faziam-no mais amiúde nos primeiros tempos, para poupar alguns cobres no alojamento quando das suas primeiras digressões por cidades americanas, isto se não utilizassem a autocaravana, acumulando-se nos cantos do veículo. Agora a banda já não tinha esses problemas de dinheiro e reservavam pisos inteiros dos hotéis em que podiam usar quantos quartos quisessem. Havia até ocasiões em que as suas mulheres e parte da família estavam com eles.


Quando eram só uma comitiva de rapazes, como gostavam de se apelidar, chegavam a adormecer nos quartos uns dos outros, depois de longas conversas ou de jogatinas em consola que se prolongavam até altas horas da madrugada. Nem sempre dormira com o Chester, também tinha dormido com o Joe e com o Brad. O Rob era sempre o mais esquisito. O Dave gostava de lhe fazer partidas deixando porcarias na cama, como espalhar açúcar ou bolas húmidas de papel higiénico.


O calor do interior da cama era satisfatório e inebriante. Ele ronronou, esfregando a cabeça no travesseiro, deixando-se embalar pela dormência que o invadia de mansinho. Sentia-se tão bem, solto, tranquilo que sabia que em breve estaria nos braços de Morfeu e podia, enfim, satisfazer a necessidade de descanso do seu corpo e, principalmente, da sua cabeça. Os seus pensamentos misturavam-se numa papa que ia perdendo definição e cor, tornando-se em pedaços informes de plasticina cinzenta. Frases, lembranças, necessidades, obrigações e tudo se fundia num único ponto como um botão grande e saliente que ele estava prestes a carregar para desligar o aparelho.


Desligar-se, isso mesmo… Entrar em modo de suspensão de energia não era suficiente. Tinha mesmo de ir para off.


- Mike?...


Tinham chamado pelo seu nome. Muito ao longe, naquele silêncio… Respondeu automaticamente.


- O quê?


- Costumas sonhar?


Mike resmungou:


- Todas as noites nós sonhamos. É um mecanismo do cérebro para se reiniciar e estar capaz para, no dia seguinte, funcionar normalmente… Li isso, algures… numa revista científica…


- Acho que sim. Eu devo sonhar todas as noites.


Nem soube como tinha conseguido articular aquelas frases com tamanha clareza, pois ele já se via a navegar inerte no mundo imenso do sono. O repouso físico chegava e ele não o queria contrariar. Chester prosseguiu, voz delicada numa dissertação acanhada:


- Sonho, claro que sonho… Na maioria das vezes nunca me lembro do que sonho e acontece também que as minhas noites nunca são muito longas para que possa sonhar tanto e lembrar-me. Quatro horas a dormir e para mim já me parece igual à morte. Uma eternidade… Não posso ficar muito tempo deitado, aquelas ideias parvas aparecem todas e submergem-me. Tornam-se pesadas, um peso impossível de suportar que me sufoca e me prende num estado de pânico imóvel. Se fico deitado mais do que devo, não me levanto nunca. Fico sem me mexer até ganhar raízes e crostas… Bem, mas de vez em quando, muito de vez em quando, eu lembro-me do que sonho. Quando mete música é muito bom… Mas os meus melhores momentos noturnos acontecem quando estou a sonhar que consigo voar. Sabes? Basta saltar e venço a gravidade. Subo para o ar, livre e leve como um pássaro. Abro os braços e lá estou eu, a pairar sobre o mundo. Sou tão feliz a voar… Quando dou aqueles saltos enormes em palco existe sempre um pequeno instante em que julgo que vou conseguir, finalmente, no mundo real, começar a voar como nesse sonho. Porque também há música, estás a ver? Música e céu. Não seria perfeito?


Mike apanhou o braço de Chester. Apertou-o ligeiramente, fez-lhe uma carícia.


- Amigo, precisas de dormir…


- Sim…


- Está a ser difícil?


- Um pouco.


Mike rodou o corpo, ficou de barriga para cima. As pálpebras pesavam-lhe uma tonelada, mas ele tentou entreabri-las. Suspirou.


- Queres que te vá buscar um comprimido?


- Estão no meu quarto…


Chester impediu-o de se levantar.


- Não, não. Deixa. Vou tentar… vou tentar adormecer. Obrigado, meu.


Num gesto pesado e instintivo, Mike esticou a mão e tentou tocá-lo. Assegurou-lhe, com a língua a prender-se nos dentes:


- Estou aqui, amigo.


- Eu sei que sim. Eu sei. Vais sempre estar comigo.


- Nunca te vou deixar…


Chester juntou os joelhos à testa, abraçou as pernas e contraiu-se num gemido. Mike movimentou a mão, mexeu os dedos, percorreu o corpo do amigo até encontrar a cabeça. Fez-lhe segunda carícia nos cabelos, uma coisa atabalhoada e lânguida porque já não tinha total controlo dos seus gestos. Deitou-se sobre o lado direito e, então, adormeceu. Mike não pôde lutar mais, estava já derrotado e deixou-se ir sem se debater. Era o mais lógico. Apostava que seriam quase quatro da manhã… Sentiu-se sugado para a quietude circundante, para as sombras quentes, estava confortável, estava exausto e estava com o seu melhor amigo. As condições ideais.


Num tom abafado e lamentoso, Chester sussurrou:


- Pois não… Nunca me vais deixar, Mike. Quem sabe, não serei eu…?


Num quarto de hotel, num país estrangeiro. Tudo para recear e desconfiar e criavam-se bolsas protetoras que seriam pequenos lares invioláveis, simpáticos, perfeitos, a recriação de outros lugares mais reconhecíveis que os deixavam menos assustados. Ele estava seguro, ali, ao lado de Mike Shinoda, mas não evitava uma vaga de ansiedade. Engoliu em seco, dolorosamente. Tinha de dormir, tinha de dormir e não adormecia.


Chester escutou o ressonar de Mike.


Bastava seguir aquela cadência, bastava embrulhar-se naquela calma…


Bastava desejar voar outra vez. E ele haveria de voar.


Precisava tanto do amigo que chegava a doer. Depois sentia-se mal com essa carência e afastava-se, temendo estar a ser demasiado intrusivo, abusivo e incomodativo. Ninguém gosta de alguém inseguro, permanentemente a gravitar em volta de si. E ele era o mais inseguro dos homens. E, por definição, o mais aborrecido.


Nem sabia como os outros o aturavam, com todos os seus exageros e as suas incongruências. Ele não se conseguia aturar…


Bastava não se lembrar.


Acalmou-se.


Bastava despojar-se de quem ele era, a porção negra que odiava com uma energia fanática.


Expirou o ar dos pulmões.


E, então, de repente, Chester Bennington também adormeceu.

20 de Março de 2019 às 19:52 0 Denunciar Insira 123
Leia o próximo capítulo II - Manhã

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