Esposo Perfeito Seguir história

lucas-portilho1552831330 Lucas Portilho

Um marido errático tenta mudar o comportamento para reconquistar a confiança da esposa e salvar seu casamento. Dará certo?


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ESPOSO PERFEITO

“Você é péssimo, péssimo, péssimo! Se ouvisse os conselhos da mamãe, jamais teríamos nos casado”, a voz estrondosa emanava da boca de Maria Amélia, quarentona, advogada renomada e tradicional mulher do lar. Estava ela em mais uma peleja contra Ricardo Juan, seu marido perdido, descrente dum casamento sustentado relativamente bem durante três décadas longevas. As zoadas entraram no cotidiano dos vizinhos que bolavam estratagemas fugazes com antecedência. O forte ruído de porta batendo prenunciava os confrontos. Blam! Blam! Blam! Ao sinal, a vizinhança agia: janelas fechadas, algodão no ouvido, televisão em volume máximo. Nem queiram saber quando chamaram a polícia! Caos total!

Ricardo nunca foi o príncipe encantado, o poeta apaixonado ou cultivador de bodas, ainda que emulasse perfeitamente Byron, igualar-se-ia ao cúmulo impensável da cafonice. Lá nos fundos do coração, desejava ter vida normal, sem brigas, sem confusões, sem gritos...Masssssss como teria sossego diante daquela tamanha crise tensa? Maria Amélia e seus ataques histriônicos deveriam parar logo! Pior de tudo: nem sequer sabia o porquê dos delíquios da companheira. Mistério bizarro! Aqui cabe-lhe algum desconto. “Choremos ou riremos”, constatou mentalmente enquanto também pensava numa separação amigável. Não! Definitivamente não. Haveria outra saída. Concentrou esforços nisso. Matutou, matutou, matutou, matutou. Inferiu imerso em dúvidas: Ser um esposo perfeito? Essa conclusão veio feito brisa. Passou rápido.

Para alcançar-se a perfeição, passa-se pela admoestação. E isto ele soube fazer. O dito popular diz: “Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Balela! Balela! Grandeza não é transmissível, tampouco herdável. Quem dera que fosse! Vários homens têm algumas concepções errôneas, a pior delas é achar que mulheres são criaturas remediáveis. Consumimos ignóbeis receitinhas comportamentais, aprendemos toscas artimanhas. Somos o que somos. Por isso, a terapia é o purgatório da vida amorosa. Contudo, Ricardo tinha tolice bastante em acreditar na autossuficiência masculina, cujos alicerces empíricos recebem conciso repúdio dos psicólogos. Neste ponto, devo prestar apoio desavergonhado ao pobre sujeito. Gesto solidário, prezadas leitoras.

Sinto-me atemorizado pelas tradicionais metodologias psicológicas que ousam suplantar nossa posição privilegiadíssima de espectadores entendidos desse complexo mundo feminino.

Imaginou assim: “Estou sendo babaca, cem vezes babaca! Mulher nenhuma gosta de homem preguiçoso que deixa louça suja, roupa amontoada, filhos abandonados, pernas pro ar. Desprezar serviços domésticos? Erradíssimo! Erradíssimo! Homem de verdade também cuida da casa.” Pôs-se no lugar da esposa por instantes. Realmente cumpria mal o ofício de bom companheiro. Lamúrias a parte, via-se que lhe faltava muita convicção nos pensamentos. Confesso ser natural a capacidade do macho para ter hesitações. Voltem aos acontecimentos dentro do Éden e constatarão esta cabeluda fala. Homens fortes fizeram da relutância uma prática comum.

Naquele novo projeto cabiam apenas virtudes. Reparar defeitos, todavia, é tarefa mais difícil. Concebamos as coisas que os homens geralmente detestam (perdoem-me a estúpida generalização): Lavar, passar, cuidar das crianças, paciência. Frescuras, frescuras, frescuras. Nada supera o inevitável fardo da feminilidade. Mesmo nós secretando hormônios femininos: Estrógeno e TSH, os nossos continuam a acreditar piamente nesta suposta exclusividade personalística. Aqueles que permanecem enveredados neste engano merecem compaixão, tão somente compaixão. Nietzsche idealizou o super-homem. Eu apresento-lhes o “meio-homem”.

Adiante. Ricardo ensejou as mudanças, dirigiu-se a cabeleireira que repaginou suas madeixas e as deixou melhores do que as de Salomão, embora elas estivessem desprovidas da força do herói bíblico. Adquiriu um smoking preto comprado à prestação na loja de roupas masculinas, os custos da peça eram financeiramente insuportáveis, tanto que acabou salvo pelos malabarismos numéricos duma pechincha petulante. Restava-lhe uma coisa: a ação. O infeliz desconhecia os bons modos dos matrimônios. Do que adiantava vestir-se direito? Precisava estar irretocável e este estado ia além da aparência. Refletiu, refletiu, refletiu. Alguém conhecido lhe ia instruir tempo?

Achou o caminho salvador: “O Sérgio! Esse entende! Vou contatá-lo agora mesmo.”

Sérgio entendia. Poupem-me da descrição deste indivíduo. Fiquem cientes disto: o cara era mulherengo, mulherengo, mulherengo, mulherengo.... Malandrear moças inocentes talvez tenha sido o seu único ‘mérito”. Azar deles que Maria Amélia viveu suficientemente. Louvada seja a maturidade! Ambos se encontraram num bar próximo ao centro. Antes de discutirem as tratativas do assunto em questão, papearam acerca do passado. O dono do estabelecimento, irritado pela dupla estar ali sem beber ou comer algo, exigiu que olhassem o cardápio. Pediram cerveja, a contragosto.

- Parceiro, qual é o teu problema? Esposinha dando nos nervos.

- Deixa de graça, minha relação pode ir ao brejo.

- Diga quais relacionamentos estão livres de dissolução?

- Vamos brigar? Falemos sério! Ajuda-me, senão adeus.

- Identificaste a causa dos chiliques

- Sinceramente... Desconheço-a

- Esquisito, elas comumente transparecem as insatisfações

- O caso difere. A Maria Amélia andava calmíssima. De lá pra cá, foram brigas e brigas

- Hummmm. Estranho, estranho.

- Tenho comigo certo diagnóstico

- Então desembucha

- Creio que necessito aprimorar o comportamento. Ser um “esposo perfeito”

A expressão despertou umas sutis gargalhadas de Sérgio. Os risos faziam sentido. Provavelmente pensou: “Que ideia mirabolante”. Minutos em seguida, absorveu-a melhor, compreendendo-a. Situações desesperadas pedem medidas desesperadas. Houve naquela prosa alguma coisa verdadeira? Acredito que sim. Dali surgiriam juízos proveitosos? Façam o vosso julgamento.

- Ricardo, iniciaremos com as atividades domésticas, do lar. Um esposo perfeito saberia teoricamente limpar a residência, passar roupa, dar banho nas crianças, alimentar os animais e deixe-me ver.... Agir feito um empregado.

- Eu sei realizá-las

- Imagino, porém, precisas fazê-las perfeitamente

- Ok

- Passemos aos tratos diretos. A dica básica para amansar o sexo frágil chama-se: Jantar à luz de velas.

- Jantar? Nunca cozinhei

- Nunca? Fritar ovos, descascar cebolas... Nunca?

- Nunquinha

- Plano B, plano B. Vai nessa organizadora de eventos. Lá consegues umas boas dicas.

O bate-papo terminou virando aula magna. Uma mesa de bar não seria lugar apropriado. Pagaram a conta e se mandaram até a casa de Sérgio. Dispenso as pormenorizações completas desses encontros, basta saberem que ocorriam após às 15h. Maria Amélia viajara noutra semana, partindo alheia àquela conspiração. Essa viagem forneceu margem para que preparassem as surpresas. Relevem o maquiavelismo dele, afinal Ricardo destoava desses vilões malfadados, estrelas em telenovelas famosas. No fundo, no fundo, no fundo, o amor forçou-o.

Maria Amélia retornaria exatamente na semana final do mês. O circo inteiro já fora definido. Resolveu o “Dom Ricardo Juan” apanhá-la no aeroporto, fato notável, pois a senhora costumava pegar um táxi devido aos revoltantes desleixos do marido com o transporte pessoal. E notem: tratava-se de limusine prateada, zero km. Vocês, acho eu, estão a se indagar: Donde saiu o dinheiro que quitou tal despesa? Fiquei bestializado! A fonte do luxo, ficaremos a desconhecer. Aportando o portentoso veículo, Ricardo capturou atenções que o envergonharam. Manteve-se firme.

Próximo da plataforma de desembarque, aguardava-a impacientemente. Os temores em relação as reações dela superaram os dolorosos incômodos com aqueles malditos olhares fixos. Desembarcando por completo, topou diante do cônjuge, esse esboçou um largo sorriso, correspondido à altura. Ricardo vibrou internamente. “Sinal maravilhoso”, concluiu. Faltava, contudo, a manifestação verbal. A cada passo dado, o barulho dos tamancos brancos disparava-lhe os batimentos cardíacos. Olha a arritmia!

- Como é que foste sem mim?

- Be be be be bem... querida

- Estás sofrendo?! Levo-te ao hospital!

- Bobagem. É só nervosismo. Senti saudades, sabias

- Que tipo de saudades?

- Saudades de tudo

- Da comidinha?

- Principalmente

Reescrevam o script! Soou ruim aquilo. Errinho besta, concordam? Claro que sabemos o horror do sr. Ricardo ao fogão. A mulher o questionou intencionalmente e ele caiu no teste. Menos mal que a conversa prosseguiu sólida e produtiva. A cereja do bolo (limusine) adoçou o momento. Dona Maria Amélia, surpreendida optou por atender a pressa, tanto que entrou rapidamente, amparada pelo motorista que resguardou a bagagem e o próprio esposo que, demonstrando cavalheirismo barato, abriu-lhe a porta do banco dos passageiros.

- Ricardo, o que acontece?!

- Falas disto, apontou Juan para o teto

- E do que falaria?

- Surpresa, amor, surpresa!

- Palhaçada! Confessa! Donde tiraste essa limusine?

- É surpresa, entendes?

Consideraremos justíssimos os questionamentos de D. Maria Amélia. Pena que a sabatina cessou, quer dizer, foi driblada. Abarcando a chegada ao aeroporto e a volta, aconteceu tudo conforme planejado. Prossigamos. Entrando no apartamento, o cenário arrepiava: piso brilhando, quase que lambido, mofos e poeira desaparecidos, móveis arrumados milimetricamente. Roupas passadas e separadas no guarda-roupas mediante a uma organização disciplinar. Quatro buracos nas paredes, cuja complexidade solicitava a presença de um pedreiro, sumiram. Ah, lembremos do principal! Jantar à luz de velas! Era a chance de Ricardo. O relógio marcava 20h. Ocasião ideal.

Repare a cena: Mesa feita com mogno antigo, velas incandescentes de 5cm, pratos de porcelana fina, talheres novíssimos e o odor delicioso do bacalhau esquentando no forno, a aparência do caviar. O Home Theater velho entoava repertórios da música clássica e erudita. Naquela hora, tocava um curto scherzo que pertencia a nona sinfonia de Beethoven. As janelas abertas permitiram que uns ventinhos arejassem o ambiente. Ricardo puxou a cadeira à esquerda para que a esposa sentasse, dizendo-lhe nos ouvidos um educadíssimo “por favor”.

- É incrível

- Xiuuu. Não canse o maxilar, falou Diego pondo o dedo indicar sobre os lábios da amada

- Quando comeremos?

- Calma, preste atenção.

Ricardo retirou um papel amassado dos bolsos. Pediu que Maria Amália deixasse-o subir na cadeira, posicionando-se de modo a poder olhá-la fixamente e vice-versa. Abriu o manuscrito e começou a lê-lo.


Se eu fosse


Se eu fosse poeta

Far-te-ia odes

Se eu fosse futebolista

Faria de ti, um drible

Se eu fosse cantor

Ganharias todas as melodias

Se eu fosse presidente

Dominarias meu palacete

Se eu fosse rico

Minha riqueza maior seria tu

Se eu fosse radialista

Ouviria somente a tua voz

Se eu fosse humorista

O teu sorriso valer-me-ia por tudo

Como não sou nenhuma dessas coisas

Uso este poema

Te amei, te amo, te amarei eternamente



Lindo texto. O Ricardo esforçou-se na versificação. Maria Amélia ouviu? Seu pescoço inclinara-se para baixo. Ficara segundos adormecida. Assim que despertou, soltou um constrangedor “que lindo”. Jantar servido, fome saciada. O marido constatou, decepcionado e cabisbaixo, a dispersão da sua senhora que mastigava cuidadosamente aquelas postas, calculava cada dentada do inciso, do canino, dos molares inferiores e superior. Operação de dar inveja a Euler e Arquimedes. Deviam ver as caras e bocas. Ah! Ah! Ah! Formalidade? Lição passada, superada, o negócio é fingir gostar.

Na vez do caviar, piorou. Coitada de D. Maria Amélia! Deus do céu! Gororoba incomestível! Credo, credo, credo! Uma mordida bastou.

Chatice, chatice estúpida. Peçamos honrosa licença, prezados e prezados companheiros. Vencidos pela avançada fadiga, os dois “pombinhos” acharam melhor se recolher, repousar. Sono leve, diga-se de passagem. O suculento café da manhã pareceu revigorante. Inacreditável!!! Ricardo Juan e Maria Amélia beijaram-se longamente! Nem perguntem a quantas décadas atrás isto aconteceu pela última vez! Responder-lhes-ia nulidades! Não entendi bulhufas do que ocorria. Ora bolas, o jantar funcionou, digo, alcançou os objetivos estipulados. Reconciliação e paz, palavras-chave. Amabilidade custa caro. Morreram as intrigas domésticas? Saberemos... Pois as mulheres nada dizem.

Após o regressando do trabalho, a emenda saiu melhor que o soneto. Novo jantar romântico, organizado por uma cerimonialista contratada. Mesinha compacta, panos suturados a lã italiana, velas aromáticas, porcelanatos chiques, pratos, louças. Cardápio carnoso, variado: Perfil defumado, vinho tinto, guloseimas dietéticas (gelatinas, bolos, doces fabricados, brigadeiros, bombons, achocolatados, rocamboles!). Sem falar num ingrediente fundamental: Música, muita música. Tocava-se a nona sinfonia de Beethoven, Garota de Ipanema, Desafinado, Roda Viva, Sinal Fechado, Carinhoso. Altíssimo nível musical. E o clima? Agradabilíssimo! Brisas naturais abrandaram quenturas intermitentes, viabilizando ares confortáveis.

Numa dentre muitíssimas citações brilhantes, Oscar Wilde disse que “os homens se casam por fadiga, as mulheres por curiosidade; ambos se desiludem.” Geralmente, é raro essas expectativas serem atendidas. Nenhum dos homens comuns abdicaria integralmente da libido sexual, caso o queira, terá posto em contestação aquilo que lhes definiram enquanto sendo “masculinidade”, excetuando celibatários ortodoxos, cujas convicções religiosas “neutralizam’ potenciais ameaças imorais. Função idêntica ao do casório. Domar impulsos masculinos, fadigados devido ao tédio e/ou a idade.

Já as mulheres experimentam. Experimentar nestas circunstâncias particulares ganha significação empírica. Atenta, detalhista, frugal, uma mulher sábia, jovem ou madura, minimiza predileções pelos carmas carnais, mesmo eventualmente atacada por ninfomania. Tal qual fazem com roupas adquiridas nas lojas, procedem com os maridos. Analisam-vos, executam provações, ajustes, retoques. Dando-lhes aquiescência, usam-vos objetivando responder a curiosidade atrativa. Dúvida respondida ou lacunosa, relacionamento instável.

Amanhecendo, Ricardo encontrou um bilhete de Maria Amélia pregado na porta da geladeira contendo a frase: “Nos vemos às cinco da tarde.”. Todos os elementos pré-textuais e pós-textuais típicos abolidos. Só foi possível reconhecer a autora avaliando o physique du rôle da caligrafia.

Nossa querida esposa e o marido compareceram, respeitando rigorosamente o horário marcado. Pontualidade inglesa, destoante da tradição nacional dos atrasos constantes. Acomodaram-se nas cadeiras, a conversa ocorrem em tom curto e grosso.

- Quis adiar o máximo.... Juro, confessou Maria Amélia

- Adiar? Estranhou Ricardo

- Sabe Ricardo... Quando foi que me chamaste de amor?

- Isso vem ao caso?

- Deveras

- Posso ter esquecido dessa questão, mas e as outras coisas?

- Quais?

- Data de aniversário, que tal?

- Ah é, diga, sabichão, veremos se lembras?

- É..............

- 21 de janeiro

- 21 de janeiro?! É a data do seu aniversário, inútil!

- Puxa vida, desculpe...

- Viu? Ricardo, irei direto ao ponto: Terminamos!

- Terminar?!

- Correto! Ouviste o que eu desejava falar. Adeus relacionamento!

- Estás me expulsando?

- Oh anjos! Continua a não entender

- Maria Amélia.... Volte!

Desastre, desastre incontornável! Ricardo e Maria Amélia divorciaram. O litígio não demorou para ser lavrado pelo Cartório de Registro Civil, recebendo fé pública. As tratativas dos advogados resolveram pendências mobiliárias. O novo solteirão do pedação saiu em prantos da repartição. Sérgio, amigo fiel, telefonou e eles combinaram de se encontrar no clássico barzinho da esquina. Só havia uma pauta: Afogar as mágoas.

- Sérgio... Sérgio, a ideia do esposo perfeito falhou, choramingava Ricardo mordendo o copo de cerveja com os lábios

- Percebi, coisas da vida

- Fracassamos!

- Fracassamos? Tu fracassaste!

- Deste a ideia, criatura!

- Verdade. Mas quem não entende a própria mulher, entenderá uma ideia? Me poupe!

18 de Março de 2019 às 17:29 1 Denunciar Insira 2
Fim

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Jota Jota Jota Jota
No momento que o cara aparece como uma limousine, da para suspeitar que alguma coisa não vai dar certo no final...kkkk. Curti.
19 de Março de 2019 às 10:58
~