Mochileira solitária Seguir história

sweet-mary Mary

Não há pétalas de margarida formando rastros para que eu me lembre do caminho. Não há sequer um bem-me-quer. Nunca houve amor. As pessoas tão bem fingem que não lhes custa nada dissimular preocupação para tirar sarro de mim pelas costas de vez em quando.


Poesia Todo o público.

#autoconhecimento #poesia #escritora-mary #prosapoética #solidão
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Mochileira solitária

Olho para o abismo.

Venta muito forte esta tarde.

Os fios de cabelo estão todos bagunçados na cabeça, não tanto quanto do lado de dentro, mas igualmente prejudicando a visão.

Procuro por alguém.

Só tenho a mim e ninguém mais.

A mim e aos meus versos.

Meus últimos amigos são memórias esfumaçadas por aí, do que era não restou mais nada.

Peguei uma rota, queria correr o mundo como mochileira sem levar a dor na frasqueira a tiracolo.

Parece-me que vai chover, mas não sinto medo da natureza tanto quanto sinto de mim mesma.

Não sinto medo da chuva e da neve.

Receio muito mais a indiferença dos entes amados.

Ser, talvez, a mochileira, só que sem ninguém me esperando na volta, se houver um lugar onde eu me instale em definitivo, honrando ainda que sutilmente algumas convenções.

Os rastros da dor levaram embora a inocência. Sobrou a vontade de prosseguir, de modo que aqueço o verso e eu não quero que ele tenha gosto de pólvora.

Quero que pelo menos eles resguardem a doçura inexistente da minha essência.


***

Não há pétalas de margarida formando rastros para que eu me lembre do caminho. Não há sequer um bem-me-quer. Nunca houve amor. As pessoas tão bem fingem que não lhes custa nada dissimular preocupação para tirar sarro de mim pelas costas de vez em quando.

Quem ferido foi ao que era jamais retorna. O coração nunca mais é o mesmo depois de magoado. Não se surpreenda com o meu desânimo, sou apenas consequência de um mundo que destruiu meus sonhos.

Tentando ser perfeita, tudo o que consegui foi matar o pouco de bom que poderia haver em mim.

Se eu for, não pretendo regressar. Nada me prende a este mundo vazio. Minha figura não tem relevância que prediga essencialmente a ausência. Nunca fui doçura nem presença. Fui, com honestidade, mais uma. Alguém. Um pronome vago e sem impacto.

12 de Março de 2019 às 00:00 3 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Mary Sou curitibana, estudante de jornalismo, gosto de pop rock e odeio funk, nas horas vagas gosto de jogar The Sims, tenho um carinho enorme pelos anos 90, então ainda gosto de colecionar CDs dos meus artistas favoritos e assistir a vídeos antigos no Youtube. Meu maior laboratório depois da leitura e da prática propriamente dita da escrita são as pessoas, suas vivências, experiências e sentimentos.

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Beatriz Feitosa Beatriz Feitosa
Caramba!!! Senti na alma. Muito lindo!
15 de Março de 2019 às 13:25

  • Mary Mary
    Obrigada! Que honra ter você lendo outro texto meu, sério. Tenha um lindo restinho de sexta-feira. Abraços! 15 de Março de 2019 às 13:30
  • Beatriz Feitosa Beatriz Feitosa
    Que isso, por nada! Você não sabe o quanto é bom ler textos como esse! Obrigada, tenha um ótimo fim de dia também. :) 15 de Março de 2019 às 13:37
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