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kallypso morph.

"Eu quero ser uma lufada de ar puro, mas acabo por me exceder e ser tempestade."


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Vox clamantis in deserto.

Eu quero ser uma lufada de ar puro, mas acabo por me exceder e ser tempestade. Não é algo que consiga controlar. São os meus ventos. Os viajantes estão suados e desesperados por alguma água, e eu refresco-os como posso neste deserto. Eles dizem-me: Parece que estou em casa diante da ventoinha velha e barulhenta dos meus avós. Eu sorrio para eles, que, agora, seguem-me de olhos fechados procurando por mais daquela sensação. Acontece que a noite precisa de cair. Ela vai cair querendo ou não. É irreversível. O sol irá descer e enterrar-se na areia e nenhum viajante terá força suficiente para apará-lo com as próprias mãos. Pelo menos, a despedida será bonita. O horizonte será tomado por tons de laranja e rosa, como todos os pôres-do-sol comumente são. Eles surpreender-se-ão quando olharem para baixo. A areia estará brilhando em dourado, como se a parte já mergulhada do sol servisse de caldeira para transformá-la em ouro. Muitos cairão na tentação e encherão os bolsos, sequer cogitando que, quando o dia retornar, aquela areia voltará a ser comum. Na verdade, nessa manhã, eles nem pensarão muito nisso, estarão ofegantes, pasmos por terem conseguido sobreviver até àquele ponto. Veja bem, na noite, não há mais sol e se não há mais sol, não há mais calor também. Esfria. Mas eu continuo sendo vento. As baixas temperaturas fortalecem-me. Deixo de ser brisa para ser ventania. Uma ventania tão forte que a areia rodopia no ar; rápida e cortante. Os viajantes tentarão proteger-se, claro, mas as suas vestes são leves, estão preparadas para o calor. Eu castigá-los-ei tanto que a pele abrir-se-á em golpes profundos e os olhos amolgar-se-ão cegos. Com muita sorte, a areia não descerá pela garganta e a derreterá em ácido sulfúrico. Estarei por todo o lado, cantando alto demais para escutá-los gritar, focada demais nas estrelas para vê-los sangrar. Estarei por fora e por dentro deles. Será assim por horas. Até eles sucumbirem no chão sem forças nas pernas, desmaiados. Amanhecerá com eles rastejando para longe, desesperados por chão, por capim, por mar. Nunca mais areia. E aqui ficarei vendo-os partir chamando-me de traidora.

Esperarei pelos próximos.

23 de Janeiro de 2019 às 22:47 0 Denunciar Insira 2
Fim

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morph. sippin' on straight chlorine.

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