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saturnate Saturnate

Existem coisas que nem os livros podem explicar como, por exemplo, a existência de um deus dos mares que não seja Poseidon e toda a sua prole. Ser babá de um tritão nunca esteve no seu currículo, mas a culpa havia sido sua, então teria de arcar com as consequências. [Chanbaek | Longfic | Ficção]


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Dos braços de Poseidon


Aquela tarde, em especial, estava insuportavelmente quente. Poucas nuvens cobriam o céu e o mais jovem dos Byun não poderia estar mais enjoado com o balanço letárgico do barco pesqueiro da família.

Baekhyun cobriu a boca com a destra, sentindo o estômago revirar. Além do mar, haviam outros motivos para o mal estar do pequeno: as cobranças da família para continuar com os negócios, os olhares desdenhosos de Beom e o gosto ruim que inundava sua boca todas as vezes que via sangue em abundância. Era herdeiro de pescadores famosos na cidade, mas não gostava do mar, de barcos e muito menos de peixe. Odiava peixes.

Com os óculos embaçados dos respingos de água salgada e o rosto vermelho suado, afastou-se da beirada, caminhando pelo corredor extenso do grande barco e tentando organizar os pensamentos.

Os antigos costumavam dizer que monstros marinhos e criaturas místicas ainda habitavam as profundezas sombrias, mas o Byun sabia que aquilo eram apenas histórias para que os pescadores diminuíssem a intensidade das caçadas. Seja lá quem fosse o deus dos mares, não devia dar a mínima para o punhado de seres humanos estúpidos e com síndrome de criatura perfeita.

– BAEKHYUN, PARA DENTRO DO BARCO, AGORA! – não entendeu o motivo da gritaria até que volveu as orbes taciturnas para o horizonte, uma onda gigantesca iria quebrar contra o casco do barco e ele não tinha para onde correr.

Encarou o corredor, percebendo que estava longe demais da cabine e que não conseguiria chegar a tempo sem que a onda o derrubasse do barco. Apenas fechou os olhos, sentindo o barco balançar para, em um ímpeto, o mar rugir e lançar um onda forte contra si. Gritou quando o corpo foi jogado contra a parede, lhe tirando todo o ar dos pulmões pelo baque repentino, os olhos pequenos arregalando-se e a boca abrindo em um perfeito “O” para, em seguida, o atirar para o lado oposto: o gatilho do arpão. O metal gelado entrando em contato com sua pele, e os óculos dourados escorregando pelo nariz até cair no mar. Ótimo, agora não enxergava mais nada.

Um grunhido reverberou por seus ouvidos, fazendo levar as mãos até eles e protegê-los com força. O mar entrou em um repentino silêncio, a mancha de sangue se alastrando pela lateral do casco. Merda, devia ter acertado algum animal grande quando disparou o arpão. Iria acabar atraindo tubarões.

Não pensou muito antes de atirar a rede maior que jazia sob seus pés, observando-a enroscar rapidamente em seja lá o que fosse aquilo. Pôs toda a força que conseguiu nos ombros, apoiando o pé num pequeno assento de metal e girando a manivela prateada para que o animal fosse suspenso.

Baekhyun afastou-se com repulsa, os olhos caídos presenciando algo que nem seus antepassados mais espiritualizados haviam tido a oportunidade de enxergar. Ali, debatendo-se incansavelmente na rede, estava uma criatura de pouco mais de dois metros. Um tritão.

Seu coração acelerou tão rápido que achou que pudesse desmaiar a qualquer momento e ser levado pela correnteza. Algumas lágrimas uniram-se tímidas no canto dos olhos e um bolo desceu pela garganta, prendendo um grito de horror ou... Admiração. Os dedinhos trêmulos agarrando a barra da camisa com força, descontando ali todo seu espanto. Aquilo não poderia ser verdade, estórias de sereias eram ficcionais, elas não passavam da imaginação fértil de pescadores bêbados.

Encarou as águas calmas, balançando junto com elas e sentindo a cabeça pesar como se tivesse uma âncora amarrada no pescoço. Peixes grandes, sereias, sangue, muito sangue; horror, espanto, gritos, o grunhido primitivo de uma criatura ferida. Queria ser embalado pelo canto da sereia, queria que aquela loucura parasse de o atormentar.

A cauda vermelha reluzia, balançando quase sem forças pelo ferimento grave do arpão ainda transpassado; o rosto sofrido, mas com resquícios de luminosidade nas bochechas coradas e, por fim, os cabelos ruivos como pequenas chamas, grudados à testa pela água salgada que escorria. Tinha uma pequena marca no canto superior direito do ombro, o Byun não conseguiu identificar, mas parecia uma tatuagem, devia ser o símbolo de seu povo. Apesar do porte grande, não tinha muitos músculos, não o suficiente para chamar atenção.

O Byun estendeu a mão, tocando a pele quente com a ponta dos dedos. A respiração ruidosa para lembrar-lhe do quanto estava assustado. Intimidado. Os olhos do tritão reluziam em verde esmeralda, antes das pálpebras fecharem de vez.

Encarou o corredor, sabendo que Beom viria a qualquer momento atrás de si, tinha poucos minutos, pouquíssimos.

Puxou a rede para dentro do barco, amaldiçoando-se pelo baque molhado do corpo grande contra a madeira. Começou a desatar os nós de um jeito tão atrapalhado que quase, quase arrependeu-se por não prestar atenção nas instruções de seu pai.

Ok, tinha um peixe gigante em sua frente, a porta mais próxima à esquerda e uma visão ligeiramente embaçada pela falta dos óculos. Provavelmente estava tendo uma alucinação pela pancada com a cabeça no barco, mas não custava nada fazer algo, afinal, se fosse coisa de sua mente, não iria surtir efeito nenhum na realidade. Com os pensamentos focados nisso, cortou o fio de nylon da arma, para que conseguisse-a remover com mais facilidade quando encontrasse um lugar seguro.

Agarrou o corpo grande por baixo dos braços, erguendo a parte superior com cuidado e o arrastando pela madeira por pouco menos de três minutos. Porra, teria que limpar aquele sangue todo depois e já sentia o estômago dar piruetas só de visualizar o arpão cravado ali. Queria se jogar no mar e morrer afogado, porque a vida não lhe dava mesmo um descanso.

Chutou a porta, arrastando-se para dentro com o peixe e caindo de bunda no chão. Era pesado demais. Largou o corpo e ergueu-se, acendendo a lâmpada que balançava lânguida no teto, tornando a iluminação do compartimento precária. Não usavam muito aquele lugar, então só tinha entulho e redes rasgadas.

– Sereias não existem, sereias não existem...– repetia baixinho, como um mantra, encarando a cauda vermelha e ponderando uma maneira de arrancar o arpão dali sem causar uma hemorragia ou coisa do tipo. Se bem que a situação do senhor peixe já era bem ruim; a magia parecia se esvair aos pouquinhos, deixando-o pálido.

– Me desculpa, ok? – pediu, antes de apoiar a destra nas escamas escorregadias e, com a outra, apertar o cabo de metal, puxando de uma só vez.

O tritão espasmou. O sangue escorrendo em abundância pela ferida aberta precisava estancar. Um louco, isso que era, estava salvando a vida de um tritão imaginário, um tritão, merda. Essas coisas nem existem.

Puxou a camisa azul marinho para cima, retirando-a do corpo e rasgando ao meio, ergueu um pouco a cauda rubra, passando o tecido por baixo e dando um nó forte na parte de cima; repetiu o procedimento com a outra metade da camisa.

– Eu vou te deixar aqui e depois venho buscar, ok? Não morra, por favor, eu vou me sentir como eles. – pediu baixinho, engatinhando até estar próximo do rosto desacordado.

– BAEKHYUN!

Gritaram alto, provavelmente achavam que tinha caído no mar. Levantou-se rápido, correndo para a saída sem olhar para trás. Baekbeom arregalou os olhos com a aparência alheia, o mais novo se encontrava suado e sujo de sangue.

– O que aconteceu aqui? – arqueou uma sobrancelha, desconfiado com toda a bagunça no corredor do barco.

– Eu...– não sabia o que falar, nem ao menos tinha pensado em algo enquanto limpava o tritão.

– BEOM E BAEKHYUN, OS DOIS PARA DENTRO.

– Você não me escapa... – disse por fim, empurrando o mais baixo e rindo quando ele se desequilibrou.

Baekhyun grunhiu, caminhando pelo corredor sombrio. Uma nota mental de limpar aquilo antes que seu pai visse.

(...)

Era noite quando o barco atracou. Não sabia como aguentavam passar tanto tempo assim balançando de um lado para o outro e jogando rede, para depois puxar. Por vezes nem pescavam, apenas pelo prazer de serem embalados nos braços de Poseidon.

Pra falar a verdade, achava Poseidon um tolo até aquela tarde, quando presenciou com os próprios olhos o poder do deus dos mares. Se era ele, não sabia, mas alguém comandava aquele mar, e não deveria estar nem um pouco satisfeito com o sumiço de um filho. Besteira, estava delirando de novo.

Respirou fundo, encostando a cabeça na parede gelada para ver se conseguia acalmar-se. Queria mesmo abrir os olhos do nada e perceber que tudo aquilo não passava de um sonho, mas enquanto isso não acontecia, tinha de se contentar em arranjar uma maneira de trazer a criatura para seu quarto sem fazer alarde. A casa era simples, todos os cômodos eram no térreo, então não teria dificuldades por ter de arrastá-lo por escadas.

Abaixou-se para pegar uma coberta grande no guarda-roupa. Quais as chances de ser pego pela polícia enquanto carregava um corpo grande enrolado?

Jogou o amontoado de panos dentro da mochila e a pendurou nos ombros, pulando a janela baixa e saindo como se nada tivesse acontecido. Já era tarde, seus pais deviam estar no terceiro sono e Beom provavelmente havia ido para a casa da namorada, ele sempre sumia durante as noites.

Pôs o capuz, caminhando devagar até o barco atracado no cais. Seria rápido e não faria muito barulho, esse era o plano. Caso desse errado, não tinha outro, nunca foi alguém que pensava muito antes de fazer as coisas.

A casa ficava de frente para onde pretendia chegar, então não demorou mais que cinco minutos andando. Por sorte, a vizinha era composta por idosos e algumas crianças, ou seja, não tinha uma alma viva no meio da rua.

Subiu no barco, o chão rangendo sob os coturnos gastos. Parou um instante, verificando se tudo ao redor continuava em silêncio para poder continuar. Nada.

Correu pelo corredor estreito, alcançando a porta. Agarrou a maçaneta, girando com cuidado e empurrando-a, a penumbra tomando sua visão e o deixando cego por breves segundos, até que buscasse o interruptor na parede.

Fechou os olhos com força quando a luz foi acesa, tentando acostumar-se com a claridade. Quando focou a visão onde havia deixado o tritão descansando, só conseguiu vislumbrar um corpo grande e nu, duas pernas – uma delas com uma ferida aberta na parte interna da coxa – e o curativo desfeito no chão.

Ele transformara-se no curto espaço de tempo, talvez por ter secado. Não entendia muito de sereias, mas eram essas coisas que aconteciam nos desenhos animados e filmes clichês.

Andou até o ex-tritão, tocando o machucado e sentindo uma dor na boca do estômago. Recolheu o curativo, refazendo agora no tamanho da perna humana e aproximou-se do rosto adormecido, sentindo a respiração baixinha. Ainda estava vivo, por sorte, ou azar.

Puxou a mochila das costas, retirando o lençol grande e percebendo que quase não seria o suficiente para envolver a ex-criatura não tão assustadora assim. Estendeu o tecido no chão, empurrando o grandão para cima e o enrolando.

– Eu espero que você me perdoe por tudo isso, cara. Eu não machuco nem os peixes, imagina um do seu tamanho. Mas sabe, até que você não é tão estranho assim, o problema é só aquela cauda enorme e-

Interrompeu o monólogo quando um par de olhos arregalados fixou-se em si. Ali, na iluminação precária, pareciam duas esmeraldas incrivelmente assustadoras.

Jogou o corpo para trás, gritando alto e ouvindo a voz rouca e alta gritar também. O gigante fez um movimento brusco, percebendo que algo muito, muito errado havia acontecido.

Por que tinham dois gravetos no lugar de sua cauda?

21 de Janeiro de 2019 às 23:31 0 Denunciar Insira 0
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