Incognoscível Seguir história

hugo-martins1546733076 Hugo Martins

Aos 25 anos, Licurgo Ferreira vive solitário em sua fazenda. Ao voltar do campo, todo fim de tarde ele fala com alguém ao telefone. Isso parece ser a sua salvação. A floresta à noite esconde horrores que são banidos por um pó vermelho chamado diálobu. Mas tudo muda quando no meio da madrugada, um monomotor cai além da cerca, levando Licurgo a enfrentar seus medos e sair do terreno seguro da fazenda. Agora, as bestas que habitam a floresta querem a mulher que pilotava o avião, e que foi resgatada pelo fazendeiro, e perseguem Licurgo que fora envenenado no meio do caminho. Uma história permeada por medos, mistérios e circunstâncias de fazer perder o fôlego.


Suspense/Mistério Todo o público.
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Silêncio

Em uma tarde quente e abafada, a floresta se debate em calor. No meio de uma clareira, Licurgo arqueja, e gotas de suor escorrem pelas suas têmporas. Inclinando-se para frente, ele apoia nos joelhos, suas mãos calejadas de arar o campo.

Seus olhos negros como a noite, observam Gomes à sua frente.

Encostado em uma árvore, Gomes procura oxigênio, sentindo seu peito arder. A sua pele pálida, e seus olhos fundos, são de um defunto cansado.

Assim como Licurgo, Gomes também é do campo. Pertence à família dos Moreira, e são amigos de infância. Os dois têm 25 anos.

- Você não podia ceder aos caprichos deles! Não depois do que eles fizeram com a gente! – berra Gomes querendo arrancar a cabeça de Licurgo.

- Eles precisavam disso! Nós também! Eu não aguentava mais viver com esse peso. Eu tava preso ô Gomes, e precisava de ser liberto. E, você?! Olhe pra você! Está se perdendo em amargura. Você precisa ‘perdoar eles’, e seguir teu caminho adiante. – diz Licurgo tentando convencê-lo.

- Você fingia que não sabia, mas no fundo nunca esqueceu. Quem poderia esquecer? Todos deviam saber o que aconteceu nesse lugar! Isso não pode ser esquecido! – diz Gomes revoltado.

Licurgo sempre teve dificuldade em manusear facas. Quando criança seu avô lhe deu um facão e pediu pra ele cortar um pedaço de cana. O que ele recusou com medo; é claro. Mas, tudo mudou quando Gomes sentou ao seu lado, e mostrou como se cortava a cana. Licurgo ainda lembra como ele mostrava o movimento, e a necessária firmeza nas mãos para acertar o alvo.

Foi por isso que Licurgo teve medo naquela clareira, quando viu Gomes correr em sua direção apontando um canivete.

 Gomes desfere um golpe com raiva e energia. Licurgo desvia, e agarrando-o pelas costas lhe empurra contra um tronco.

Gomes reage apontando novamente o canivete, e desfere golpes no ar, sem conseguir acertar Licurgo. Os dois caem travando uma luta intensa. Gomes empurra toda sua força e ódio naquele canivete, tentando cravar a lâmina no pescoço de Licurgo que segura suas mãos.

Com muito esforço, Licurgo consegue empurrá-lo, se afastando.

- Para com isso ô louco! Achei que cê era meu amigo?! Que merda cê tá fazendo? – pergunta Licurgo.

Ainda cansado e destilando ódio, Gomes lança seu olhar de fúria para Licurgo, e diz: - É tarde pra mim! Eu não posso retornar! O sopro do inferno me invadiu e eu fiquei em chamas. Tem salvação pra mim não. E, eu nem posso ser liberto. Só dá pra fazer uma coisa – diz Gomes sem esperança.

Ele segura sua língua, e, esticando-a corta com o canivete. Como um maestro do mal, ele move sua mão de um lado para o outro, enquanto a lâmina passa pela carne como um violino afinado. Um chafariz de sangue jorra da sua boca fazendo-o vomitar.

Ele segura o pedaço de carne fresca que ainda treme em sua mão e oferece para Licurgo.

- Que merda você fez?! – diz Licurgo indignado.

Licurgo tenta se aproximar, mas antes, Gomes retira um dispositivo do bolso e o ergue para cima.

- Você não pode fazer isso Gomes! Não! – grita Licurgo.

Gomes aperta o dispositivo, e o seu corpo explode lançando carne e ossos pelos ares. Um pedaço de cérebro suculento cai no rosto de Licurgo.

 

INCOGNOSCÍVEL


O ANTES – MARÇO DE 2018

Geleia de morango; é a preferida de Licurgo. Sua textura mole e sua cor vermelha atraem seu paladar. Ele come sem parar lambuzando toda a boca.

Naquela manhã, na mesa da cozinha, Licurgo acabara de fazer sua refeição. O pão ainda estava fresco, a manteiga derretia no meio do cuscuz, e o aroma do café passeava pelo ambiente.

Ainda sentado, Licurgo olha para a xícara e o prato à sua frente, e pensa como é entediante aquela rotina de sujar, lavar e guardar a louça. Será que elas não poderiam se lavar sozinhas? Uma máquina que fizesse isso? Deve existir, ele que não tem dinheiro pra comprar. Como sempre né!

Licurgo olha para a tigela no chão e vai até a janela. Após alguns minutos tentando ver o Barulho ele desiste e volta às suas obrigações. Não se engane. Barulho é o nome do cachorro.

A fazenda dos Ferreira é terra de calma e silêncio. Naquele lugar, grilo canta baixo, galo acorda tarde – pra não incomodar -, e a vaca muge pra dentro.

Mas, o lugar é charmoso. Há terra a se perder de vista. Um milharal alto e bem verdinho. Uma cerca branca e bonita rondando a propriedade, e uma floresta além da cerca que dá arrepios.

Quando criança, Licurgo subia na cerca e ficava encarando a floresta. Ela respondia o olhar lançando sussurros e maldições. Seus galhos se debatiam expulsando o menino curioso. Cheiro de morte e perigo exalava dela.

A casa da fazenda é uma monja reclusa. Um lugar até charmoso, mas cheio de silêncios. Uma névoa paira sobre a casa, infiltrando-se em suas partes íntimas, e deixando o lugar frio.

Licurgo limpa a louça, a mesa, o jogo de copos e deixa a cozinha impecável. O campo lhe chama pedindo atenção. A manhã fria dá lugar para um dia abafado e sem nuvens. Durante o dia Licurgo ara a terra, para depois lançar os grãos nos sulcos abertos.

Neste inverno, que na verdade não é inverno, mas a quadra chuvosa no nordeste. O período ideal para o plantio é de março a abril. Passando disso o grão fica prejudicado pela falta d’água.

Uma nuvem gorda e cinzenta chega sem avisar, e paira sobre a fazenda. Licurgo ara a terra, experimentando doses salgadas de suor que beijam seus lábios. Terra e adubo lhe cobrem, entrando pelos poros. Não demora muito pra que gotas pesadas de chuva encharquem a terra e a roupa dele.

·          

Licurgo volta pra casa e vai direto para o banheiro, que o convida para um abraço, e quando ele abre os braços sentimos seu perfume.

Licurgo lança a roupa suja no cesto – sábado é dia de lavar roupa - e fica despido. Já debaixo do chuveiro, a água bate em sua cabeça percorrendo seu corpo e levando toda terra. Ele se ensaboa com fúria, como se pudesse lavar a alma. Depois, se enxuga três vezes com a toalha de algodão.

Nas horas de banho, ele sempre lembra da Vó Biza lhe ensinando a se lavar.

Após o banho, ele encara o espelho, e tira o excesso da barba. Seus olhos negros e profundos contemplam seu rosto como se pudesse desvendá-lo. Agora está tudo em ordem. Ele está limpo.

·          

Todo fim de tarde, Licurgo vai até a sala-de-estar e senta na cadeira de peroba rustica ao lado da mesinha de canto; ela tem uma madeira envernizada e um estilo europeu clássico, além do cheiro de antiguidade.

   Em cima da mesinha tem um diamante. Um tesouro precioso que ele é capaz de matar e morrer. É um telefone estilo vintage, daqueles antigos que a gente põe o indicador e gira. Lembra?

Ele aguarda durante alguns minutos, mas não aguenta e cai no sono. Um vento frio passeia pela sala e alisa o seu pescoço. Mas, Licurgo somente desperta, com o tilintar do telefone, que faz tremer a sua alma. É, visível a empolgação e a felicidade transbordando em cada palavra dita, o semblante de alegria e satisfação.

·                 

LICURGO - OUTUBRO DE 2004

- Eu lembro que naquele verão de 2004, com os meus 11 anos, a seca tomava conta da região. Mas, o calor era suportável se eu estivesse brincando com o Gomes. Eu era Ferreira e ele era Moreira, resumindo: éramos grandes amigos. Nós estávamos no banco de trás da caminhonete do meu tio Marcos, que estava com o tio do Gomes, o Ézio. Assim como nós eles também eram muito amigos.

Eu lembro que brincávamos de ver quem ficava mais sério. Eu não aguentava ficar olhando pra cara branca do Gomes por muito tempo, e me debatia em gargalhadas. Como era feio o Gomes! Depois, começamos a brincar de qual é a música. Nós ficávamos cantando pelo nariz sem abrir a boca até que o outro adivinhasse a música. Eu adorava essa brincadeira. Éramos felizes e não sabíamos. Tão desligados de tudo e cheios de inocência.

Eu me assustei quando meu tio Marcos e o Ézio saíram daquele bar. Na verdade, eu só vim descobrir que aquilo não era um bar há pouco tempo. O tio Marcos saiu segurando as calças que caiam abaixo do joelho. Enquanto que o Ézio, somente de cueca, empurrava uma mulher desdentada.

- Vagabunda! – gritava Ézio.

Eles esbofetearam-na. Ela gritava pedindo que eles parassem, mas eles não tinham misericórdia. Um murro certeiro e o resto dos dentes dela voaram longe.

- Você não fez o serviço direito e ainda por cima quer roubar da gente? Sua vadia! - gritavam eles.

Depois, um chute no estômago e a mulher caiu desmaiada. Os dois brutamontes entraram no carro e ficaram encarando a gente em silêncio. Meu tio Marcos, parecia um urso peludo, e seus dedos grandes se aproximaram, e apertaram o meu rosto.

- Vocês prometem que vão ficar de bico calado? – perguntou meu tio, ainda segurando meu rosto que começava a doer.

Claro, não tínhamos escolha - concordamos com a cabeça - Eu olhei pra Gomes e sabia que ele estava assustado, porque seus olhos estavam esbugalhados.

- Mas tio, vocês precisam ajuda-la! – Gomes tentou argumentar. Má ideia!

O tio dele, o Ézio, sacou um canivete e enfiando a mão na boca do Gomes, puxou a língua dele para fora.

- Se você falar alguma coisa sobre isso, com quem quer que seja eu juro que arranco a sua língua, seu moleque! – disse Ézio sem misericórdia.

Lembro que não consegui dormir aquela noite.

·          

Os Ferreira e os Moreira sempre foram muito próximos. Eles faziam banquetes aos domingos, regados com muita carne e bebida. Porém, nos últimos meses, as festas vinham cessando. A seca estava prejudicando a plantação, e a renda de todos estava apertada. Mesmo assim, naquele domingo, eles resolveram fazer uma comemoração. O patriarca dos Moreira, o senhor Afonso, queria anunciar uma conquista e convidou a família Ferreira para compartilhar.

Eram incríveis as demonstrações de afeto. Os muitos beijos e abraços. As mulheres trocando confidências e receitas. Os homens falando sobre os animais e sobre o clima. Uma mesa cheia de carne, cuscuz, cachaça e música. Tinha muito forró pra fazer o povo se alegrar.

A minha Vó Biza, matriarca dos Ferreira, não gostava de barulho. Ela nunca ia a essas festas, o que contradizia muito a vontade do seu esposo, o meu vô João. Mal sabíamos que dessa festa, ela fez bem em não ir.

O Sr. Afonso Moreira anunciou no meio do terreiro pra todo mundo ouvir que tinha comprado as terras do carioca. Eram terras férteis que um carioca estava pensando em vender.

O Vó João Ferreira levantou-se indignado com a notícia.

- Eu não acredito no que ouço! Isso é verdade Afonso? – perguntou o Vô João.

- E porque não seria homem? – perguntou Afonso Moreira.

- Eu lhe disse mais de mil vezes que queria comprar terras férteis, e você sabendo disso comprou os lotes do carioca! Você é um grande traíra – gritou o Vô João.

Mais foi um alvoroço só. Os Moreira arretados, não gostaram da ofensa. O Vô Jõao inconformado, xingou de mil palavrões o senhor Afonso. Mais foi uma confusão medonha. Eles começaram a sair no tapa, derrubando a mesa, espalhando cuscuz pelo terreiro e derramando cachaça no chão. Tudo isso no ritmo de muito forró pra esquentar os couros.

Tava montada a desordem. O que era amizade tornou-se em rixa. E, isso era só o começo.

·           

Apesar de toda discórdia sobre a compra do lote do carioca, o tio Marcos Ferreira continuou amigo do Ézio Moreira, o tio do Gomes. Mais uma vez nós passamos a tarde pescando com eles. Eu e o Gomes pegamos algumas piabas, enquanto eles enchiam a cara de cerveja. Sei, lá, mas eu desconfiava que tivesse mais do que bebida envolvida.

Já estávamos voltando pra casa quando meu tio resolveu dar um pulo em um barzinho escondido no mato. Eles entraram e continuaram o seu ritual. Bebiam, comiam e riam. Depois brigavam e caiam. Era perceptível a loucura no olhar. Um sorriso sem graça disfarçando uma tristeza indisfarçável. Eles exageraram naquele dia.

Meu tio foi ao banheiro. E, nesse momento, a minha tia Ângela apareceu em uma motocicleta. Acho que ela não nos viu dentro do carro.

Ela foi direto para o Ézio e lhe deu um tapa de vergonha. Ele rodopiou e caiu da cadeira.

- Seu cretino! Você sabe o que você fez com a Lucrécia? – gritava a minha tia Ângela.

- Sua louca, do que cê tá falando? – perguntou aos berros o Ézio.

- A mulher que você espancou há alguns dias. Ela é minha amiga, estava grávida e perdeu o bebê! – disse Ângela.

Ela continuou empurrando-o até que ele segurou o seu pescoço e começou a enforcá-la. Ela quebrou uma garrafa na cabeça dele, fazendo-o cair. Mas, ao levantar, o embriagado Ézio empurrou a tia Ângela contra uma janela de vidro, lançando-a para fora do bar.

Meu tio saiu do banheiro e, quando viu a cena, correu em direção a minha tia. Um pedaço de vidro rasgou a garganta dela. Era tarde pra querer salvar alguém.

Após a morte da tia Ângela, uma guerra foi declarada. Nunca mais houve paz entre Moreira e Ferreira.

JADE – MARÇO DE 2018

Jade, 28 anos, é loira e tem um sorriso marcante. Seu noivo, Lucas, é empresário e parece nerd. Eles caminham pela pista de pouso no sítio do tio de Jade, o senhor Marmoud.

Lucas gosta de declarações. Cartões dizendo “Eu te amo” e mensagens antes de dormir declarando amor eterno. Jade também gosta daquilo, mas somente por alguns minutos. Por que depois uma sombra de dor e tristeza lhe tira a alegria.

- Hoje é o dia mais especial pra mim. Como homem, eu me sinto realizado casando com você meu amor. Quero ficar pra sempre ao seu lado – diz Lucas apaixonado.

- Sim amor. Também quero ficar pra sempre com você! Só não vamos ficar tão melosos. Ainda faltam 12 horas para o casamento – lembra Jade.

O tio Marmoud é um árabe rico, e Jade fez questão de que ele fosse padrinho do seu casamento. Ele se aproxima do casal e pede pra falar a sós com Jade.

- Nervosa? – pergunta Marmoud

- Não! Mas, em pensar que irei ficar ligada a uma pessoa toda a minha vida, me assusta um pouco. É como se eu fosse um passarinho que não pudesse mais voar – diz Jade

- Você se acostuma! Eu fiquei com diarreia no dia – diz Marmoud

- Tio, em algum momento você duvidou? – pergunta Jade

- La samah Allah! Deus me livre! Isso não é possível minha pedra preciosa. Uma mulher não pode duvidar do amor do marido. – diz Marmoud.

- Mas, eu não duvido do amor dele. Mas, é do que eu sinto. – diz Jade olhando para baixo.

- Vocês já conversaram sobre isso? – pergunta Marmoud

- Não. Eu não sei como falar essas coisas – ela diz triste.

 - Vocês ocidentais. Tão estranhos. Conseguem discursar para multidões, mas não conseguem dizer o que sentem para a pessoa amada. Não entendo, não entendo.

Eles se aproximam de um hangar onde Marmoud esconde um monomotor Cesna. Um mecânico sai da cabine carregando um rádio transmissor.

- Já troquei o rádio chefe. O que eu instalei é de última geração. Ele capta até sinal de celular. Dá pra brincar de ser espião né? – diz o mecânico para Marmoud.

Marmoud agradece e olha para Jade.

- Quer dar uma volta antes de dizer o grande SIM? – pergunta Marmoud.

- Posso?

- Claro!

Jade entra no monomotor, dá partida e dirige o Cesna até a pista. Com maestria, ela acelera e decola. Ela não volta para o casamento.

·            

Aquela era uma noite decisiva. As ruas da periferia de Recife estavam molhadas da última chuva.

Jade encosta o carro há uns dez metros da casa do sujeito e fica de tocaia. A rua está deserta.

Roberval está na sala da sua casa, assistindo o jogo do Flamengo, quando sua filha, Marcela, de 08 anos, corre e fica na frente da TV.

- Papai eu quero ensaiar minha dança! – grita a menina.

- Filha, o papai quer vê o jogo! – diz Roberval.

Amanda, esposa do flamenguista, surge na sala com uma tigela de pipoca.

- Ela vai se apresentar amanhã Roberval, acho que ela precisa ensaiar e ela quer que o pai dela diga se dança está boa ou não. Você vai negar isso pra sua filha? – pergunta Amanda ajeitando seu rabo de cavalo.

Roberval ainda segura a camisa do flamengo, quando encara a filha pedindo com os olhos.

- Por favor, papai! – pede Marcela, carinhosa.

- O que é um jogo do flamengo? A dança da minha princesa é muito mais importante! – diz Roberval levantando a filha no ar e beijando sua barriga.

- Vou pegar o CD – grita Marcela, indo em direção ao quarto.

Amanda vai até a cozinha pegar o refrigerante. A campainha toca.

- Deixa que eu atendo! – grita Roberval.

Quando Roberval abre a porta, depara-se com uma jovem mulher loira.

- Oi? – ele diz

Jade mostra uma foto para ele e pergunta: - É você?

- Sim, sou eu sim – ele confirma, olhando para a foto – Por que, algum problema?

Jade aponta um revolver para ele, e derramando lágrimas, atira.

Apenas escutamos os gritos da filha: - Papai, papai acorda! A dança, a dança papai!

·           

GOMES – MARÇO DE 2018

A fazenda dos Moreira fica há uns 20 quilômetros da casa dos Ferreira. Assim como a casa de Licurgo, a casa de Gomes está vazia e silenciosa. Ele mora sozinho, agora.

 A noite, embalada pelo canto dos grilos, é banhada pela luz prata da lua.

O sono doce e suave de Gomes é interrompido, pelo som de um rosnado que vem de fora. Com sua pele branca e pálida, ele levanta, veste seu macacão de mecânico, e se prepara com seu arco-e-flecha. Com cuidado e certo receio, ele abre a porta da frente e espia a floresta adiante.

- Quem tá ai?

Silêncio.

O piso de madeira range com os passos de Gomes. Ele sai da casa e desce as escadas da varanda. Apontando o arco em direção à floresta, ele diz: - Quem tiver ai pode sair agora mesmo!

Um vento claustrofóbico passa, mexendo algumas árvores no meio do mato.

Uma sombra gigante vem correndo do meio do milharal, abrindo espaço entre as espigas. Seu arquejar é tenebroso e paralisante. Gomes não reage à aproximação da sombra. Seus olhos saltam do rosto e uma corrente de medo aperta seu pescoço deixando-o sem ar.

A sombra salta no meio do pátio, batendo com fúria suas patas no chão. Uma cortina de poeira levanta, encobrindo a figura negra e tornando-a ainda mais assustadora. Uma pata negra e escamosa com garras afiadas e sujas de sangue, segura o calcanhar de Gomes, puxando-o para dentro do milharal. Ele, em desespero, finca suas unhas na terra, mas o monstro lhe puxa, e suas unhas ficam grudadas no chão, enquanto as pontas dos seus dedos brotam sangue.

Gomes desaparece no meio do milharal.

·           

A noite já está avançada quando Licurgo entra em seu quarto. Ele certifica-se que a espingarda está carregada, escondendo-a embaixo da cama. Logo após, vai até a janela e encara a floresta sombria.

Hoje, a noite está diferente. A floresta está esquisita e uma vibração ruim vem de lá. Parece um plano macabro, uma investida maligna. Estranho, mas Licurgo sente uma aura negra se mover entre as árvores. Uma sombra percorre os troncos e se esconde nos arbustos. O mal sempre deixa o seu fedor.

Licurgo deita em sua cama, e espera o sono acomodar-se ao lado. O sono vem, mas está hiperativo. Parece assombrado ou desconfiado de algo.

Não demora pra que as paredes da casa tremam. O ronco de motor de avião percorre a fazenda. As telhas dançam com o passar da máquina. Licurgo pula assombrado, e empurra o sono pra debaixo da cama, perto da espingarda.

Com a arma em punho, ele corre para o quintal. Ao longe, é possível ver fogo e fumaça. Um avião caiu além da cerca. Ele vai até a porta da casa, coça a cabeça, volta novamente para o quintal, coça a cabeça de novo.

- Eu não posso ir!

Licurgo caminha até o limite da cerca. O avião caiu ao norte. O clarão do fogo ilumina a floresta. Ele está aflito, não sabe se vai, ou se fica. E, se tiver alguém vivo? Mas, é arriscado sair da fazenda à noite, principalmente de madrugada.

Ele olha pra espingarda. Olha para o clarão do avião. E, escolhe pular a cerca.

O vento sopra seu hálito frio, que arrepia os pelos da nuca. Licurgo olha para os lados, lançando o foco da lanterna – que treme em suas mãos - para os recantos sombrios da floresta. Ele caminha devagar para não fazer barulho. As trevas o encobrem, como um manto sujo de sangue. Seu coração se encolhe em um closet fechado. Suas mãos tremem.

Licurgo tropeça em algo, e o foco da sua lanterna desce para o chão. Somente pra revelar os restos de um cachorro. Ele retira dentre as tripas espalhadas pelo chão, uma coleira com o nome: Barulho. Ele range os dentes com raiva. Se pudesse, esmagaria o autor de tamanha barbaridade.

Seguindo até o avião, ele se depara com um monomotor parcialmente em chamas. A cabine está intacta, pois caiu nas águas de um riacho raso. Ele se aproxima da cabine, e nota uma mulher desacordada. Com algum esforço ele consegue tirar o cinto e puxá-la. Ao retirá-la da cabine um revólver calibre 38 cai do colo dela. Ele observa com receio a arma no chão, mas decide leva-la para casa.

·        

 

Um espectro está parado no meio do milharal escuro. A figura de um homem atormentado e solitário dentro da plantação. Ele observa Licurgo acordar e sair pra varanda. Voltar à porta, coçar a cabeça, e com a espingarda na mão, caminhar em direção à cerca. Ele vê que Licurgo vai no rumo do avião que acabara de cair.

O homem certifica-se de que Licurgo afastou-se e sai das sombras. A lua encoberta pelas nuvens tenta iluminar aquele demônio em forma de homem que caminha pra casa.

No rosto dele, a morte grita com feridas que expõem pus e carne viva. Ele usa um macacão de mecânico com o nome Gomes, bordado no peito.

Gomes entra na casa indo para o quarto de hóspedes. Dentro do quarto ele se agacha, e embaixo da cama, puxa uma ripa de madeira, revelando um pequeno buraco no piso. Ele retira do bolso uma bomba, escondendo-a no compartimento, para depois encaixar a ripa no lugar.

Gomes sai da casa caminhando em direção ao milharal. Em sua mão direita um dispositivo que ele alisa com o dedão.

 As coisas só tendem a piorar.

·           

Jade já está acomodada no quarto de hóspedes quando o telefone toca. Licurgo se surpreende, pois ainda são cinco horas da manhã. Ele não costumar ligar nesse horário. Deve ser algo importante.

- Alô – Licurgo atende desconfiado.

- Você precisa me escutar – a voz é fraca e cristalina. Não é possível afirmar se é masculina ou feminina.

- O que tá acontecendo? – pergunta Licurgo.

- Não há mais tempo para explicações. Você precisa deixar a fazenda! Ouça com atenção, essa mulher traz um grande perigo. Leve-a imediatamente para longe da fazenda! Você entendeu? – pergunta a voz do outro lado da linha.

- Sim, mas eu preciso que você me ajude! – diz Licurgo.

- Encontre-me ao meio-dia nos túmulos – diz a voz – leve uma pá!

Você entendeu? Encontre-me nos túmulos, sem falta!

Espero por você!

6 de Janeiro de 2019 às 04:28 2 Denunciar Insira 5
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Melqui Rodrigues Melqui Rodrigues
Morto que você colocou o ícone Incognoscível aqui haha.
11 de Janeiro de 2019 às 05:23

  • Hugo Martins Hugo Martins
    Incognoscível na área! 13 de Janeiro de 2019 às 09:23
~

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