Anoitecer, uma última vez. Seguir história

saaimee Ana Carolina

Sorrisos, discussões, aprendizados e, principalmente, amor. Era isso o que aquele lar e suas pessoas significavam para ele. No castelo, Scar podia sentir o calor o envolvendo como um abraço afastando todo o mal e prometendo um final que não podia cumprir. E agora, mais uma vez, ele andou por seus corredores. Uma última vez antes do destino o encontrar. 「Scar」 ------------------------------------ ✼ Postar esta estória em qualquer página sem a minha autorização é completamente proibido. Plágio é crime e eu tomarei providências.


Fanfiction Jogos Todo o público. © Os personagens desta estória pertencem a Otome Yuusha. Todos os direitos sobre eles são reservados à © LEVEL 5.

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Capítulo Único

Desenho que inspirou a obra.


Hoje não vai chover.

Eu sabia disso desde o momento que me levantei da cama e vi o céu opaco com as cores azuis ainda se misturando como a aquarela sendo guiada pelos movimentos suaves do pincel em uma tela branca antes do amarelo do sol o iluminar por completo. A pintura que se formava nesta manhã não possuía qualquer vestígio de branco como se quisesse que somente o azul primaveril refletisse nos olhos de quem o via. A cor única sobre minha cabeça me envolvia como em uma bolha frágil de sabão e por mais estranho que pareça ficar ali “dentro” não era tão sufocante quanto se imaginar em uma caixa de vidro fechada.

Logo que me dei conta já estava caminhando deixando para trás a claridade do céu invadindo a pequena janela do meu quarto, vazando sua luz pelo assoalho escuro. Eu ainda parei na porta observando os fragmentos de poeira dançando pelo ar, milhares delas se espalhando e se unindo, mas nunca tropeçando uma na outra. Era quase como se tivessem seu próprio espaço seguindo os passos em uma apresentação épica.

Os lençóis da cama estavam lisos sobre ela enquanto os cobertores dobrados descansavam na borda tomando o sol matinal. Havia poucos móveis nos cantos aos quais não me permiti ficar olhando, sabia que se fizesse isso iria acabar me enchendo com tantos sentimentos que não sobraria espaço para o café da manhã. E apesar da ideia de voltar e me sentar na cama terminando o poema que comecei na noite passada ser tentadora, em momento algum tive a intenção de passar o dia todo ali.

Andei pelos corredores largos de mármore onde portas de madeira fechadas e enormes janelas abertas não chamavam mais minha atenção assim como o silêncio da manhã não me incomodava quando minha mente repleta de pensamentos não se calava por um minuto. Eram obrigações inacabadas do dia anterior que deveriam encontrar sua conclusão hoje, as apresentações e boas-vindas aos novos soldados que faria após o café da manhã e os treinamentos cotidianos que deveria liderar pela tarde toda.

Não havia espaço em mim que não estivesse se preocupando com algum detalhe. Nunca fui do tipo perfeccionista ou viciado em trabalho, mas sempre me esforcei para terminar uma tarefa quando me era entregue. Muitas pessoas me diziam para ir com calma, ainda era jovem para me preocupar tanto, o próprio Rei já havia indagado inúmeras perguntas e sugerido mais opções do que fazer em meu tempo livre do que minha mãe já fez. Às vezes era constrangedor outras vezes sem sentido, mas sempre completas por compaixão.

As janelas abertas por toda a extensão do castelo ajudavam a clarear minha mente enquanto o vazio do andar me mantinha estável diante de tantas lembranças. Nem eu mesmo entendia o motivo de estar me sentindo tão nostálgico hoje. Talvez fosse o sonho que me acordou tão bruscamente que me fez o esquecer completamente deixando somente a sensação vazia em meu peito ou talvez fosse o azul acolhedor do céu que me fez pensar nos braços da minha mãe.

Demorou alguns minutos para descer a escada coberta pelo carpete vermelho abafando os sons dos meus passos e evidenciando os toques que minha armadura fazia enquanto se debatia a todo movimento. Não havia ninguém ali quando cheguei ao último degrau, entretanto consegui ouvir inúmeras vozes ecoando conversas indescritíveis pelos salões. A situação inexplicável não me assustou e menos ainda fez com que a questionasse, ao contrário, me fez ficar ali por instantes com a mão sobre o corrimão dourado ouvindo cada pequeno barulho.

Eram vozes altas, sorridentes, orgulhosas e destemidas que transmitiam calor acolhendo minha mente e meu coração sem eu nem ao menos conseguir ver seus rostos. Não sabia quem eram ou por qual motivo estavam ali, mas mesmo assim as presenças preenchiam o ambiente de uma forma familiar para mim.

A luz clara do sol vinda da janela no piso superior atingiu meu rosto como se gentilmente tentasse elevar minha face para longe da confusão embaixo. Eu não resisti ao seus toques a deixando guiar meus olhos para a vidraça de imagens coloridas por onde um pequeno arco-íris se formava com cores claras que podiam cegar momentaneamente se ficasse encarando por muito tempo. Eu conhecia o local, mas não conseguia me lembrar que imagem se escondia atrás do brilho.

Depois de tanto tempo percebi que meu corpo não se movia como se as vozes aumentando ao meu redor estivesse se agarrando aos meus pés e punhos com uma força que me implorava a ficar. Não tive medo, na verdade me senti triste. Não havia dor ali, somente fraqueza tanto em meu corpo quanto em suas súplicas indecifráveis. Eu queria poder questionar e ajuda-las, mas para quem estaria fazendo isso?

Meu coração se acelerou como se somente agora percebesse que estar preso em uma bolha poderia ser ruim. Meus lábios se abriram em meio à confusão, mas antes de falar qualquer palavra perturbada eu ouvi passos rápido ecoando pelas paredes do salão.

Desviei minha atenção por instantes sendo pego pela silhueta se aproximando cheia de energia até mim. Ele corria contente balançando sua espada de madeira exibindo o sorriso infantil que transparecia seus sonhos. Era o mais velho dos gêmeos, Laith-sama. Uma criança jovem o suficiente para ainda se preocupar com seus brinquedos e ainda mais jovem quando fingia que não era verdade.

O símbolo do Leão combinava perfeitamente com ele. Astuto, veloz e sem medo demostrar os dentes para o inimigo. Porém ele ainda era somente um filhote e o medo o assombrava mais do que sua coragem podia resistir.

— Scar, por que está parado aí? Vem! Vamos lutar e dessa vez eu vou ganhar.

— Laith-sama, por favor, tome cuidado...

Ele nem deve ter ouvido o final da minha frase quando passou tão rápido por mim como um coelho em fuga gritando como se quisesse que o mundo o olhasse.

Mesmo acostumado com isso um suspiro ainda separou meus lábios. Ele sempre foi assim, nunca ouvindo o que os outros têm a dizer enquanto queria que todos o obedecessem. Arisco dizer que o Rei tem mais culpa nisso do que o próprio Laith-sama, mas também acrescento que nunca odiei isso nele.

Eu não tinha me dado conta até esse momento que as vozes tinham me soltado e meus batimentos se acalmado. Também não tinha notado o sorriso em meu rosto quando resolvi retomar meu rumo.

Eu até dei um passo para frente, mas acabei virando para a esquerda seguindo em direção as enormes portas escancaradas do salão de festas. Quando adentrei o local senti o aglomerado de vozes me receber como se o baile real estivesse acontecendo naquele momento. O susto foi tão grande que acabei dando um passo para trás, porém assim que vi a pessoa sentada em uma poltrona no canto resolvi continuar.

Passando por entre os risos e as provocações eu procurava quase instintivamente me esgueira como se houvessem corpos ali. E novamente a situação não me parecia estranha. Ainda de longe eu vi que o único jovem no local tinha algo em mãos que provavelmente era o motivo do balançar contente das pernas e do sorriso brincalhão.

Me aproximei depois de alguns longos minutos o vendo erguer seu rosto como se surpreso por me ver e automaticamente se recompôs ajeitando a postura e acalmando as emoções como um verdadeiro príncipe faria.

— Olha, Scar. – Esticando o papel, me chamou para seu lado. — Minha mãe me entregou a receita dos cookies.

Eu não sabia se aquilo era algo bom ou não, mas ver a pura felicidade estampada em seu rosto me fez, sem querer, sorrir mais uma vez.

Diferente de Laith-sama, Musluca-sama era muito mais calmo e atencioso. Os dois eram como polos opostos dividindo o mesmo coração. Sempre me deram trabalho, mas eu nunca se quer reclamei. Talvez fosse pelo Rei e pela Rainha ou talvez porque eu os amava.

— Scar! – Atravessando as portas Laith surgiu berrando em um tom irritado de costume. Sem dúvidas tinha se cansado de me esperar.

— Laith-sama, estou aqui.

Ele olhou rápido como a presa ao ouvir o menor dos ruídos e logo se pôs a correr em nossa direção. Eu estava esperando uma bronca quando o vi parar diante de mim com o semblante fechado, entretanto seu suspiro o fez parecer cansado.

— Laith-sama?

— Já está na hora? – Musluca-sama se levantou deixando a receita sobre a poltrona. Sua voz baixa mostrava claramente que estava assustado.

— Já... – Eu vi os dois ficarem lado a lado sem entender suas ações. — Scar, abaixa aqui.

Estava começando a me preocupar, mas não quis questionar ainda e apenas fiz como ordenado me ajoelhando em silêncio.

— O pai e a mãe pediram pra te dar.

— O que?

Sem me responder os dois se inclinaram passando seus braços fortemente ao redor de mim me prendendo em um abraço desesperado. Como uma reação automática meu coração disparou alertando todos os meus sentidos sobre perigos que não conseguia compreender.

— Não precisa ter medo.

— Vai ficar tudo bem agora.

Não fazia sentido minha cabeça estar girando aterrorizada após ouvir palavras gentis. Não era certo meus olhos terem se fechado enquanto meu corpo tremia com aqueles toques cheios de amor.

Ouvi as vozes berrarem em minha cabeça como sirenes me avisando que tinha chegado a hora, me expulsando dali. Seus corpos frágeis não me soltaram em momento algum enquanto aqueciam o meu fazendo arder cada centímetro, me queimando. Toda luz estava desaparecendo me fazendo temer o que aconteceria se abrisse meus olhos, mas então senti minhas narinas doerem sufocando minha garganta com o calor. No momento seguinte meus olhos estavam finalmente abertos vendo imagens distorcidas lentamente se transformando em algo enquanto meus ouvidos zumbiam o espiral em minha mente. Demorou, mas assim que consegui distinguir os dois rostos sobre mim senti a imagem cortar todo o ar que pensei estar respirando.

Laith-sama estava ajoelhado a minha direita e parecia gritar com todo o pulmão entre lágrimas enquanto eu estava deitado sobre o que parecia ser um campo.

“— Por que?”

Senti o outro corpo pesar sobre mim debruçado com a cabeça em meu peito e os punhos batendo sem forças em minha armadura. Musluca-sama chorava como nunca o vi fazer antes.

“— Por que estão chorando?”

Eu queria chamar, queria questiona-los e até gritar, mas minha voz não saia. O cheiro queimado nos rodeou como resposta a minha pergunta me fazendo perceber o gosto de metal em minha boca. Estávamos em guerra e agora sabia que tínhamos perdido. Tudo.

“— Eu preciso levantar.”

Meu corpo não se movia não importava quantas vezes recitasse as palavras berrantes na minha cabeça.

“— Preciso salvar eles.”

Minha voz ainda ecoava os gritos raivosos em meu corpo quando senti as lágrimas de Laith caírem sobre meu rosto me despertando de uma vez para a realidade. Eu estava morrendo e eles estavam sozinhos.

A dor que senti no momento do choque fez os poucos batimentos que ainda tinha tremerem meu coração amarrado em arame farpado fazendo sangrar minha derrota pelos olhos.

Meu rosto petrificado estava sendo banhando pelo sofrimento das crianças que injustamente estavam carregando o luto pela segunda vez. Traídas pela vida e abraçadas pela morte tinham sua inocência estilhaçada bem em frente aos olhos.

Não queria olhar e nem acreditar no caminho espinhoso que arrancava de mim de mim tudo o que mais amava, que arrancava deles tudo o que tinham.

“— Por que não consigo?”

Eu ainda tentei mais uma, duas, três, quatro vezes me levantar dali. Tentei agarrar em suas mãos, tentei pedir para que fugissem e tentei, em um momento de desespero, implorar por um abraço.

O céu roxo da noite estava vermelho com as faíscas da guerra. As estrelas se escondiam atrás da neblina da fumaça cinzenta. A bolha tinha se estourado e a aquarela estava manchada pelos fragmentos carmesim da dor.

“— Me perdoa.”

Suspirei em minha mente sem mais nenhuma força para lutar os assistindo bater em meu corpo furiosos em busca de uma pequena reação.

Nesse momento parecia que toda a dor que carreguei em silêncio por trás de um rosto fechado servindo a realeza estava transbordando. Todas as vezes que vi as crianças sofrerem e os guiei em frente quando queria os confortar estava abrindo um buraco em meu peito, toda as vezes que quis desistir de tudo e me entregar ao choro quando meu soldados morreram estava me dominando agora. Tudo o que meu coração guardou em uma caixa tinha agora explodido e percorria meu corpo sem me deixar escolhas de defesa.

Meus soluços não eram ouvidos, minha súplicas foram ignoradas e meu sonho de viver tinha se destruído.

 “— Majestade...”

Suas faces brotaram em minha mente. O sorriso caloroso do Rei e os olhos compreensíveis da Rainha sempre me deram forças diante de qualquer dificuldade. Foram eles que me ensinaram a não ter medo e como lidar com as crianças. Foram eles que estiveram do meu lado quando fiquei sozinho.

Talvez todo esse tempo os dois estivessem olhando por nós três como sempre fizeram, nos protegendo e preparando para esse dia. Eu sempre os senti comigo na tentativa de me reconfortar quando via Laith-sama abaixar o machado sujo de sangue, quando Musluca-sama tremia ao segurar a receita nas mãos e quando ambos sussurravam seus nomes durante o sono.

Eu os procurava em todos os momentos engolindo a vontade de me entregar de joelhos a dor. E o mesmo acontecia quando os gêmeos vinham até mim. Assim como o Rei e a Rainha, eu era o conforto, o pedaço de casa que tinham perto.

Um pequeno sorriso deve ter se formado em meus lábios ao notar que nada do que enfrentamos foi em vão. Vivemos sonhos e pesadelos e ainda queria viver muito mais. Novos gritos ecoaram dentro de mim. Eu queria ficar mais um pouco, mais um dia. Dizer tudo o que faltou, me despedir. Qualquer coisa por eles.

Meus olhos se embaçaram em lágrimas e vultos. Eu sabia que não tinha mais tempo.

Não era essa a imagem deles que queria ver por último, na verdade, nunca tinha pensado no que veria por último. Eu pude sentir o suspiro final chegando e não tive coragem de sussurrar um adeus. Esperava que assim fosse permanecer ao seu lado mesmo depois do fim. Ainda esperava, em meu desespero, vê-los crescer e retomarem o reino novamente.

Levantei os olhos para o céu vendo a noite nos cobrindo com sua escuridão. Não tive medo. Me agarrei a esperança e desejei a eles a vida mais longa que pudessem ter. Eu estava carregado de dor, mas mantive o sorriso preso em meus lábios.

Meu joelho ralado, meus braços doloridos e minhas lágrimas seriam levadas embora assim que fechasse os olhos. Eles vão aguentar como eu aguentei, eles vão lutar e vão viver porque eles são meus príncipes.

O frio já tinha me envolvido quando fechei as pálpebras e deixei as últimas palavras serem lavadas pelas lágrimas.

 

 

“— Mãe, pai, estou voltando pra casa.”

28 de Dezembro de 2018 às 00:19 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Ana Carolina Mãe de 32 personagens originais e outros 32 adotados com muito carinho, fanfiqueira nas horas vagas e amante das palavras em período integral. Apaixonada demais e, por isso, sou tantas coisas que me perco tentando me explicar. Daí eu escrevo. ICON: TsukiAkii @ DeviantArt

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