Insuficiente Seguir história

tiatatu Tatu Albuquerque

O sol voltou a brilhar, Kakyoin, ao menos lá fora. Eu ainda sinto o mesmo, depois de tanto tempo, eu ainda sinto o mesmo e sinto a sua falta. Eu só queria que você estivesse aqui pra ouvir isso e só queria ter sido esperto o suficiente para entender que um dia você não estaria mais.


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#universo-original #angst #JojoBizarreAdventure #jojo #Jotakak
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Se o sol não voltar?

O chá já não estava quente como antes, tal como seu efeito já não funcionava. O cigarro ainda fumegava no cinzeiro onde jaziam os outros 7 que eu havia fumado ao longo de mais essa noite infernal que me insiste em lembrar de que talvez eu não tenha sido o que você merecia.

Inquieto, tamborilei os dedos na madeira da cadeira a qual agarro na tentativa de diminuir a minha agonia em não te ter por perto. Parece que o sol nunca mais vai brilhar, afinal, por mais que eu odeie todos esses clichê e tudo mais, o meu sol era você…

Olhei para onde deveria estar em repouso, algo que me nego a fazer pelo medo de mais uma vez ver seu sangue, seu corpo sem vida, com aquela expressão de quem me esperou até o último segundo e me sentir um merda por não ter chegada cedo o suficiente para te salvar como tantas vezes você fez por mim.

É… Nem recíproco eu consigo dizer que te fui o suficiente e acho que é isso que me dói mais em não te ter aqui, saber o quão insuficiente eu te fui.

Nem mesmo as inúmeras essências de cereja com as quais eu ando me cercando adiantam. É inútil e insuportável. Não é a mesma coisa, não é você, não tem você, então é só um cheiro enjoado que me deixa tonto, mas que, mesmo sendo uma tentativa porca de ter você aqui por um segundo que seja, refrescando as minhas memórias, te mantendo vivo em mim, é tudo o que eu tenho além da culpa de não ter evitado tudo isso.

×

“Digamos que amanhã eu não esteja aqui, Jotaro.”

— O que? - perguntei achando absurdo o que saiu de seus lábios entre uma e outra cereja e outra que comia.

Você riu ladino e pretensioso, com deboche nos olhos, enquanto se apoiava na beira da janela, olhando a vista do amanhecer, continuando o que, até então, eu pensei ser um mero e ousado devaneio.

“Se o sol não voltar amanhã, Jotaro…” - explicou quase impaciente, insistindo naquele absurdo.

— Yare, yare! Não acha que está muito cedo pra falar esse tipo de merda em códigos? - rebati e você me olhou com toda a descrença do mundo, logo retomando o riso provocativo, me encarando em um tom quase acusador.

“Um dia eu não vou estar mais aqui, te ouvindo de tão perto, e você vai sentir a minha falta! É isso o que eu quero dizer” - você disse um dia sem saber o quanto essas palavras me arrebentam hoje.

Elas se repetem na minha cabeça, me afetando e doendo como se fossem marretadas e eu preferia que fosse. Doeria bem menos.

Eu fui tão pretensioso em achar que você seria eterno, que me neguei até a responder aquela verdadeira sandice e hoje eu me arrependo tanto.

Eu devia ter feito mais, devia ter falado para você não continuar falando aquelas bobagens para não atrair aquilo para nós, devia ter respondido que sim, que eu sentiria a sua falta se o sol não brilhasse mais, se você não estivesse aqui.

Você estava certo quando dava a entender que eu só te daria valor o suficiente quando você já tivesse partido, pois só agora eu vejo o quão insuficiente eu fui em tudo.

A madrugada vem para me jogar na cara tudo isso que eu me neguei a ver em tempo de desfazer. Eu devia ter te amado mais, te abraçado até que seu cheiro e o meu se tornassem uma coisa só. Eu devia ter te considerado mais, eu devia ter rido mais quando você se esforçava tanto pra trazer um pouco de alegria que fosse para o meu rosto.

Eu devia ter sido melhor pra você, eu devia ter te dado todo o carinho que você merecia, eu devia ter te aproveitado mais. Eu… Eu devia ter te dito várias e várias vezes que eu te amo.

×

A paisagem que aos poucos se clareia perdeu a graça, por mais que eu ame o mar. Se antes o amanhecer me trazia a brisa fresca e o acalento dos seus braços em torno dos meus, hoje ele só me traz uma vontade avassaladora de deixar de existir.

Olhar para o quarto e não te ver dormindo ali, ao meu lado, é uma das coisas mais dolorosas. A cama devidamente arrumada e perfeita me incomoda como jamais incomodaria se estivesse caótica e desarrumada como muitas vezes você – ou nós – deixou. Até da sua bagunça eu sinto falta.

Ah, Kakyoin… Os lençóis já não têm seu cheiro e isso me afeta de uma forma inimaginável até pouco tempo atrás, quando você ainda estava aqui, próximo e palpável, em condições que eu poderia te dar o abraço que quase nunca lhe dei e que hoje me arrependo.

Se eu soubesse que quando discutimos aquele plano, você estava assinando sua sentença, eu teria feito tanta coisa diferente, a começar por apoiar sua sandice.

Eu lembro daquele olhar, daquele riso e eu me sinto o mais tolo dos homens por não imaginar que aquele seria o último olhar trocado por nós, não aquele com tom de quem depois dali sairia após mais uma noite, comemorando por estarmos vivos e juntos.

Foi desonesto da sua parte me deixar acreditar que haveria um depois de lá. Você sabia, eu sei, você também sentiu medo... Então porque? Por que você me negou a chance de me despedir?

Por que você me negou a oportunidade de dizer tudo o que agora se embola na minha garganta, me sufocando pouco a pouco com todo o sentimento que hoje sinto que nunca te repassei de forma suficiente e, por mais que você nunca tenha dito nada sobre isso, eu sei que te faltou?

Por que… Por que você me condenou a isso, Kakyoin? Por que não me deixou te dar um último abraço, um último beijo e dizer, mesmo que da minha forma porca, através dos olhares, que eu te amava… Aliás, que eu te amo.

Por que você permitiu que eu te deixasse ir? Eu não teria permitido se soubesse que aquela seria a última vez, que após aquilo o sol não brilharia pra você e que eu só te veria nas minhas lembranças que aos poucos se tornam vagas, nos meus sonhos e na minha amargura.

Talvez você tenha feito aquilo por não querer experimentar a dor de me perder, de sentir essa dor que eu sinto agora. Kakyoin... Essa foi a pior forma que você encontrou de me castigar.

Você me fez pagar por toda a minha insuficiência de uma forma mais dolorosa que o rasgar da minha carne. Por que não foi a minha carne, o meu corpo, arrebentada no lugar da sua? Por que não fui eu? Por que?

— Por que? - o sussurro que escapou por entre meus lábios foi reflexo do meu grito interno.

Desesperado, apertei mais a cadeira e, no meu desespero, a ergui e joguei contra o chão, como se, com isso, tentasse fazer o mesmo com essa saudade que pouco a pouco me devora, fazendo voar os estilhaços de madeira por todos os lados, com poucas farpas machucando minha pele no que não chega a ser 1% do que você sentiu, naquela dor que deveria ser minha e você foi forte o suficiente para suportar, mesmo que eu não merecesse.

Ah, Kakyoin… Se eu tivesse sido mais suficiente, você ainda estaria aqui do meu lado, com seu deboche, suas risadas, as enjoadas cerejas e o amor que hoje eu não sei mais se te fiz sentir recíproco?

Cambaleante, acabei caindo de joelhos, sobre as farpas e a madeira quebrada, abaixando meu chapéu e chorando contido após mais essa explosão da minha dor, sujando as roupas brancas do meu luto, que ainda são a única forma que tenho para mostrar a todos que eu ainda não superar sua partida, que eu prefiro morrer do que aceitar que você não está mais aqui.

×

Ainda consigo lembrar da textura dos seus cabelos ruivos em minhas mãos, enquanto eu segurava os que estavam na altura de sua nuca e sentia o gosto de cereja da sua boca.

Se eu soubesse que aquela seria uma das últimas vezes que o teria em meus braços, teria te apertado mais, percorrido mais vezes seu pescoço com meu nariz na tentativa de absorver mais do teu cheiro, teria te abraçado e nunca teria deixado que você saísse daqui.

Se soubesse que aquela seria uma das duas últimas risadas, talvez eu tivesse gravado para lembrar sempre do tom da sua voz, que hoje já não está tão presente na minha cabeça.

Eu não teria te deixado escapar dos mesmo dedos que usei para marcar sua pele. Teria agarrado seus quadris com mais força e olhado mais fundo nos seus olhos

Naquela noite em que desforramos juntos a cama, nos comunicando apenas com os olhos, como costumávamos fazer, eu devia ter notado que os seus diziam o quanto me amavam e se importavam comigo.

Eu devia ter dito isso com palavras também. Eu devia ter te gerado essa lembrança mais suave para a hora que você partisse. Creio que isso deixaria nós dois mais leves, mas nem para isso eu fui suficiente.

Eu devia ter deixado você descobrir mais do meu corpo e também explorado mais do seu, assim eu teria mais lembranças para amar. Devia ter te beijado mais, ter fodido e ser fodido mais, devia ter sido mais pra você além de um quarto e de olhares que só nós entendíamos.

Eu devia ter apertado mais seu corpo contra o meu enquanto nossas pernas e línguas se entrelaçavam com uma velocidade similar a da ginga de nossos corpos suados. Eu devia ter te abraçado mais, afagado seus cabelos com mais carinho, te vendo dormir enquanto eu terminava mais um cigarro e ter dito, nem que com um sussurro simples, que eu te amava, nem que fosse para causar um simples sorriso bobo em seu rosto sonolento.

Eu devia ter te amado mais, da forma que eu sei que nunca mais serei capaz de fazer por outra pessoa que não seja você, que não tenha seu cheiro, seu jeito e o abraço que hoje me faz tanta falta e que eu deveria ter valorizado.

Eu devia ter dito que, independente de quanto tempo passasse, eu ainda iria te amar, te querer, te sentir…

Ah… Eu devia ter te feito tanta coisa, Nori, mas eu fui tolo o suficiente para achar que não precisaria, que você nunca deixaria de estar aqui. Fui prepotente o suficiente para achar que te merecia ao meu lado por toda a vida, compartilhando de vitórias e derrotas, da cama e das insuportáveis cerejas, do seu corpo e do seu eu maravilhoso e que me compreendia tão bem.

Hoje me pergunto se você teria essa visão de mim, ou se também fui insuficiente para isso. Me pergunto porque se sacrificou por mim, dando mais de si que meu próprio avô apenas para me ajudar. Me perguntou o que te levou a pensar que eu valia esse esforço. Eu não sou suficiente pra valer uma vida tão preciosa quanto a sua, a quem sequer consegui retribuir tudo de uma forma decente.

Eu também me perguntou se disse que me amava antes de partir. Me dói pensar que sim e eu não estava ali para escutar e responder que também, dói pensar que tudo o que eu pude fazer foi segurar sua mão sem vida e ali chorar todo o meu arrependimento diante da minha insuficiência em te amar, Nori.

×

Meus olhos cansados fecham e abrem vagarosos e eu tento ser forte o suficiente para que a exaustão não me vença, temendo rever aquela horrorosa e ridícula cena mais uma vez. De você, só quero os sonhos bons.

Suspirei pesado, fumando o nono cigarro nesse início de dia que também vai me ser tenebroso como a madrugada, já que tudo desde que você se foi me é.

O mar que daqui vejo parece calmo como eu nunca mais serei por dentro, mesmo que minha face permaneça séria e serena como agora, enquanto eu sopro o ar do tabaco que aos poucos me aproxima mais de te encontrar de novo.

Ri quase incrédulo ao ver que a dor me deixa louco o suficiente para ver a sua imagem feita pela fumaça que eu sopro mais, com minhas mãos trêmulas e minha respiração descompassada tentando serem rápidas o suficiente para expelir mais e mais disso e continuar te vendo, com minha boca entreaberta e surpresa.

Perdido o suficiente para acreditar nas minhas próprias ilusões, eu tentei abraçá-la e foi mais doloroso ver seu dissipar que o fato de ter caído no chão, me esborrachando e ficando aqui, ao lado da madeira destruída, dos incensos de cereja queimados pela noite e das cinzas espelhadas pelo chão.

Escondi meu rosto com o chapéu e com meu braço direito, mais uma vez, gritando na tentativa de amenizar essa tempestade interna, até que, exausto, fui incapaz de me mexer, mover e qualquer outra coisa.

Não sou forte o suficiente para manter meus olhos abertos e então comecei a sucumbir o sono, sentindo os raios de sol que entram pela janela tocarem minha pele mas não sendo suficientes para aquecer a minha alma, já que só seus braços seriam capazes de fazer isso.

Sorri fraco, vendo que hoje ao menos sou merecedor de sonhar não com sua morte, mas com seu sorriso, sentindo doer por saber que nada disso é tão real quanto o amanhecer que no nervoso entreabrir do meu olhar eu vejo, suspirando pesado por não ver nele mais a beleza e a graça de quando você estava aqui.

O sol brilhou em mais uma manhã, Kakyoin, ao menos lá fora, tocando o mar e só hoje eu sou esperto o suficiente para dar as suas respostas. Eu ainda sinto o mesmo, mesmo que você daí não acredite, mesmo que tenha passado tanto tempo, eu sinto o mesmo amor e sinto tanto a sua falta... Eu só queria que você estivesse aqui pra ouvir isso.

13 de Dezembro de 2018 às 15:03 3 Denunciar Insira 4
Continua…

Conheça o autor

Tatu Albuquerque Mãe de Konohamaru, madrinha de Hanabi, adepta da Fé do Sagrado KonoHana. Você tem 5 minutos pra ouvir a palavra da minha igreja? Kaiten no cu e gritaria, kore!

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Snakebite; Chrysí Snakebite; Chrysí
BICHO, eu quase nem shippo JotaKak mas quando a gente vê uma fic de Jojo a gente vem prestigiar. Amei a escrita, adoro um angst, tem uma coisinha ou outra na pontuação que me incomodou mas 9/10, quero MAIS. Dá pra sentir o drama do Joot e tudo, ain. E eu gostei principalmente porque o Jotaro é um personagem duro e travado, e você conseguiu dar uma profundidade EMOCIONAL a ele, que né. É difícil. Parabéns mesmo pelo bom trabalho!
14 de Dezembro de 2018 às 14:13
brener Silva brener Silva
CARALHO XULIANE, FODA DEMAIS
13 de Dezembro de 2018 às 09:06

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