A culpa é do Cupido Seguir história

grimmalkin Jo Souza

Depois de derrubar café em seu atualizadíssimo artefato mágico, Cupido é obrigado a voltar às ruas e encontrar o amor verdadeiro com o próprio esforço se não quiser ter uma Vênus muito irritada no seu encalço.


Conto Todo o público.

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Conto
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ESSE CAFÉ QUE VOCÊ TÁ SEGURANDO É MEU!

Encarou o celular por tanto tempo que não sabia mais o motivo de estar fazendo aquilo, a tela lhe mostrava exatamente o que deveria querer ver: o aplicativo de namoro. Namoro dos outros, diga-se de passagem, não que estivesse cometendo um crime contra a privacidade de alguém, sua vida girava em torno de encontrar o par perfeito de cada pessoa cadastrada naquele aplicativo, mas isso estava ficando chato e cansativo. Ele estava definitivamente cansado de ficar em casa o dia todo todos os dias, cercado pelas paredes pintadas do que pareciam ser milhares de tons diferentes de rosa, não que desse muita atenção a isso já que a qualquer momento elas podiam ser tingidas com cores diferentes. Sua mãe, uma senhora de beleza estonteante e ego enorme, gostava de mudar a casa de acordo com o próprio estado de espírito sem se importar muito com o que os outros moradores desejavam.

— Ela não aprende mesmo...

Bufando de desanimo, levantou da cadeira e sentiu-se levemente tentado a olhar o mundo exterior através da janela aberta no quarto, mas se fizesse isso teria que gastar mais energia pra atravessar todo o caminho até a porta. Café, ele precisava de café, um delicioso copo cheio de café com uma pitada de néctar, só de pensar nisso seu corpo explodiu em energia suficiente para fazê-lo caminhar a passos largos. Ah, sim, conseguia sentir o cheiro daquela bebida maravilhosa que lhe daria tudo que precisava para viver, ok, não tudo que precisava para viver.

Desceu a escadaria quase trotando e quando estava prestes a entrar na cozinha ouviu vozes na sala e surgiu a duvida fatal: caminhar usando toda sua habilidade furtiva de fofoqueiro pra ouvir a conversa ou seguir adiante encontrar o amor de sua vida mais conhecido como café com néctar? É claro que a fofoca fala mais alto, pisando mais leve que um gato alcançou a parede lateral da sala sem fazer um ruído sequer, as vozes eram conhecidas. Deméter era uma velha vegana louca — não que uma coisa derive da outra — que insistia em ser chamada de Ceres, Proserpina era a filha de Deméter que passava horas cuidando do jardim e Vênus era a mãe de quem ele se orgulhava muito, aliás o nome dela era Afrodite, mas se alguém disser isso ela vai arrancar a cabeça.

— ...fugiu novamente, qual o problema dela? Como se não bastasse Mercúrio saindo por aí para fazer entregas mundanas! — sua mãe estava muito irritada e o rosa das paredes estava começando a murchar para algo não tão feliz.

— Não deveria contar a ele sobre isso? — Deméter era uma figura estranhamente bela, os cabelos louros sempre trançados com algo como trigo, alta, magra e forte devido ao movimentos constante nas fazendas, pele um pouco escurecida pelo sol, era quase austera, mas de feições tão gentis que seria impossível não gostar dela, a filha carregava beleza semelhante.

— Mamãe, a senhora não está se metendo demais nos assuntos dos outros? — se Deméter carregava toda a rigidez do trabalho árduo, Proserpina era a imagem da delicadeza das flores.

— Cupido querido, já tomou seu...

No instante em que seu nome foi mencionado ele correu para a cozinha, tentou não fazer barulho, mas isso foi impossível já que o chão de madeira não abafava passos pesados, mesmo assim quando chegou ao destino fingiu que nada estava acontecendo, só havia uma pessoa na cozinha, sua irmã Harmonia e como o próprio nome sugere...

— Cupido, decidiu sair do quarto hoje? Desculpe-me por não levar sua comida esses dias, todos concordaram que seria bom pra você sair do quarto, tomar um sol, sabe? — tentando não xingar a irmã até que toda a harmonia fosse para o abismo ele ignorou a presença dela ali, abriu a garrafa e despejou o café, com um detalhe simples.

— Cadê o meu café, Harmonia? — conseguia sentir o sangue deixando seu rosto e suas orelhas vermelhas de raiva, dirigiu o olhar para a irmã.

— Ah, desculpe, o café e o néctar acabaram... — ela passou o dedo na xícara que segurava — Esse é o ultimo pingo.

— Isso é meu! Eu fiquei TRÊS dias sem comer esperando o MEU CAFÉ CHEGAR no meu quarto e agora você me diz QUE NÃO TEM CAFÉ, HARMONIA? ESSE CAFÉ QUE VOCÊ TÁ SEGURANDO É MEU! — e foi aí que ele pulou nela, mãos estendidas como garras preparadas para despedaçá-la pelo café, só que quando os corpos se chocaram não houve garras nem mãos, os dois caíram como grandes sacos de batatas moles, magicamente a xícara e o celular voaram para o mesmo lado e no momento em que o café com néctar tocou a tela ele soube que estava completamente ferrado.

***

— Cupido, pelo amor de Júpiter, por que fez isso? — a belíssima voz de sua mãe estava deixando ele em transe.

— Harmonia não faz coisas por mal, meu bem, ela é a deusa da concórdia lembra?

— Eu lembro, mas ela é filha de Marte tamb-

Naquele momento teve certeza que sua morte estava próxima, a pele de Vênus começou a brilhar tanto que ele quase correu gritando, mas lembrou que aquilo era normal no dia a dia da mãe. Quando o brilho cessou era uma nova mulher que o encarava, uma nova mulher de pele cor de bronze que combinava — perfeitamente — com a belíssima juba de cabelos cacheados e olhos castanhos, ela bufou de frustração e lhe lançou um olhar quase fulminante.

— Cupido, meu amor, você vai pegar o arco e acertar vários mortais com suas flechas até encontrar um par perfeito, entendeu? — não era uma pergunta, havia tantoglamournaquela voz que o próprio Tártaro faria o que quer que ela mandasse, nada como o poder do amor e da beleza pra obrigar alguém a fazer alguma coisa.

— Claro mãezinha, vou fazer tudo que a senhora mandar, já disse como você tá linda hoje?

A expressão dela suavizou e a amarração ao redor da vontade dele também, bufando uma ultima vez Vênus saiu da sala com a graça de um felino, Harmonia sorriu brevemente e saiu também, assim Cupido ficou só novamente.

***

Aquele definitivamente não era seu dia de sorte, melhor ainda, não era sua semana de sorte, sem comer e sem beber seu precioso café com néctar, destruir um celular com seuappque controlava o advento do amor, atacar a própria irmã, ser enfeitiçado pela mãe e agora não estava conseguindo encontrar o objetivo de seu trabalho: juntar um par perfeito. Cupido precisava mesmo ter uma conversinha com Fortuna, a velha cega e louca deusa da sorte e outras coisinha, o problema é que a maluca sabia se esconder muito bem e ele ainda estava sob o efeito da voz da mãe, não podia parar até encontrar almas gêmeas. Sim, almas gêmeas existem, cada pessoa no mundo tem uma, não é como se a felicidade dependesse disso, ser feliz com alguém que não seja sua outra metade é muito comum, mas a energia liberada pelo encontro do amor verdadeiro é absurda e como principal anfitriã do amor(e da comemoração divina do Dia dos Namorados) Vênus precisava daquela energia para... bem, para alguma coisa. Por isso mesmo ele estava andando no meio de uma multidão de pessoas sem ser visto, esperando encontrar alguém que estivesse próximo do par perfeito.

— Olha só o que temos aqui... — uma voz tão linda quanto a de sua mãe soou e ele parou de caminhar, bem na sua frente havia uma mulher magra, alta e com um vestido vermelho tão colado no corpo que quase parecia fazer parte, os olhos iam de um lado para o outro sem parar — Alguém sem muita sorte e eu provavelmente tenho alguma coisa a ver com isso.

— Você é?

— Não me reconhece? Ah é mesmo, você se enfiou dentro de casa e nunca se interessou em conhecer de verdade outros deuses. — ela jogou os cabelos, que desciam em ondas perfeitas, para trás e sorriu estendendo a mão — Desprazer, Fortuna, mas pode me chamar de Tique, que tipo de nome é Fortuna?

— A velha cega e louca deusa da sorte? Você não parece muito com ela...

— Antiga e muito bem conservada como pode ver —jogou o cabelo novamente — Mas agora eu posso ver o motivo de estar assim tão atrasado...

Um bastão apareceu nas mãos da deusa e uma piñata no ar, Tique se abaixou um pouco e com toda força bateu na piñata que explodiu lançando milhares de moedas no ar, moedas douradas que voaram muito longe e outras que caíram no chão imediatamente. Cupido pegou uma das moedas e tentou encontrar algo excepcional, tentou se sentir excepcional, mas nada aconteceu.

— Era pra isso ser o que? — perguntou desanimado.

— Uma escolha, as pessoas andam por ai pensando em sorte e em destino como se eu pudesse controlá-los, mas não posso fazer isso! — deu de ombros e começou a caminhar — Minhas moedas concedem sorte, mas não escolho quem vai encontrá-las nem se fará bem ou mal, por isso é só uma questão de escolha e vontade própria, tchauzinho.

Assim a radiante deusa da sorte, boa ou má, sumiu no meio da multidão deixando um pensativo Cupido para trás. Se desde o inicio ele estivesse disposto a fazer seu trabalho de agente do amor, se desde o inicio tivesse admitido que precisava de ajuda, se desde o inicio tivesse seguido a voz que soava em seu próprio interior, talvez nada daquilo tivesse acontecido. Ele vivia preso por escolha própria, afastava os irmãos por escolha própria e sem nenhum motivo havia deixado de amar o dever por escolha própria, com o passar do tempo observar as pessoas havia se tornado insuportável já que ele mesmo não tinha alguém para se sentir completo.

Passou horas andando pela cidade, passeando por construções extravagantes incompletas e talvez inúteis, conhecendo e reconhecendo pessoas até perceber que nada daquilo fazia sentido, tudo e todos eram passageiros, não motivo para passar horas tentando encontrar um par perfeito, seu trabalho era completar as pessoas. Com uma ideia surgindo na cabeça, o arqueiro do amor sorriu, as pessoas não precisavamdele,as pessoas precisavamdeles.

Entrando numa cabine telefônica que, ele tinha certeza, não estava ali a alguns minutos atrás Cupido discou a combinação que abria a linha de ligações divinas e depois discou os familiares números que sempre traziam a voz da razão, sem esperar uma resposta ele simplesmente falou.

— Eu sei que fiz merda com você, mas percebi que se não tentar consertar meus erros eles não vão se resolver sozinhos, eu estava errado, não posso fazer tudo sozinho, amar sozinho não muda nada... — esperou a resposta que não veio do outro lado da linha.

— Se o amor não for correspondido não vale a pena, se não existir uma razão para amar não vale a pena, se o amor te fere... não vale a pena.

A resposta veio de trás, com o coração quase explodindo de alegria o garoto virou para encarar Anteros, senhor do amor correspondido e da razão, a parte que lhe faltava. Regidas por um instinto primordial as imponentes e poderosas asas surgiram em suas costas, de penas tão brancas e fortes que eram o exato oposto das delicadas e escuras asas de borboleta nas costas de Anteros. Ao encarar os olhos um do outro eles entenderam seus papéis, se Cupido era o amor puro e forte, Anteros era a benção da reciprocidade, eles eram completos juntos e juntos se elevaram aos céus com suas asas de volta ao lar.

***

Enquanto isso na casa de Vênus...

— Vênus, eu trouxe uma coisinha pra você! — a bengala de intrincados entalhes mantinha o equilíbrio de Vulcano, ele esperou com paciência e um sorriso enquanto a deusa do amor descia as escadas e chegava na sala.

— Um presente? Não é mais uma daquelas bugigangas tecnológicas que eu não entendo certo? — abrindo a caixa com entusiasmo ela segurou um objeto parecido com um termômetro — E o que seria isso?

Medo. Foi o que Vulcano sentiu quando os olhos de Vênus se apertaram encarando o objeto e o ar ao redor dela ondulou.

— Um medidor querida, achei que seria mais fácil e pratico se...

— Vulcano, meu bem — pela milésima vez no dia a pele dela começou a brilhar — eu já tentei explicar que isso não funciona com o amor, então por que não enfia isso no FUNDO DAQUELA FORJA SUJA E FEDORENTA ONDE VOCÊ MORA SEU RIDÍCULO!

— Eu só queria ajudar meu amor...

— JÁ FALEI QUE NÃO QUERO ESSAS COISAS NA MINHA CASA! SE VOCÊ VIER COM ISSO NOVAMENTE EU VOU TE MOSTRAR O QUE É BOM VULCANO! — a belíssima divindade estava tão irada que Vulcano achou melhor ir embora, enquanto caminhava pela rua encontrou uma moeda dourada, ele com certeza poderia usar aquilo e fazer mais um presente para o amor de sua vida, um anel... talvez um anel que medisse o amor... sim, seria perfeito.

Só mais um dia comum na cidade dos deuses...

8 de Dezembro de 2018 às 03:24 2 Denunciar Insira 2
Continua…

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Jo Souza "Tenha coragem e seja gentil..."

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Lollys Mars Lollys Mars
Eu realmente não consigo pensar no que comentar nessa história tão retardada e tão legal ao mesmo tempo. Nascida de um desafiozinho de um grupo por AÍ e agora vem endeusar o inks, mdssssss
8 de Dezembro de 2018 às 19:00

  • Jo Souza Jo Souza
    lindissima beleza, minha vida não faz sentido se não for ter preguiça de continuar essa bagaça. 12 de Dezembro de 2018 às 13:10
~