Monóxido de di-hidrogênio Seguir história

_bmoraes13_ Beatriz Moraes

- Já que és tão sabido das coisas, diga-me: qual a maneira mais eficaz para se obter a morte? - Veja bem, caro suicida, todos os métodos dos quais creio que conheças são sempre interrompidos por ajuda médica. Caso queiras realmente morrer, tú terás que ingerir uma substância química. - Uma substância química? - Retrucou o suicida. - Qual substância? Seria uma droga? - Não uma droga qualquer, mas um líquido. - Devo embebedar-me até o coma? - Não, caro suicida. Deves beber 20 quilos de monóxido de di-hidrogênio!


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Certa vez, um suicida e um cientista acabaram por se encontrar em um bar embolorado e esquecido em meio à tantas travessas encardidas, ao acaso. Após algumas doses de uma bebida verde-escura e amarga, de nome desconhecido, e muitas conversas, o suicida iniciou um diálogo, um tanto, estranho:

- Já que és tão sabido das coisas, diga-me: qual a maneira mais eficaz para se obter a morte?

- Veja bem, caro suicida, todos os métodos dos quais creio que conheças são sempre interrompidos por ajuda médica. Caso queiras realmente morrer, tú terás que ingerir uma substância química.

- Uma substância química? - Retrucou o suicida. - Qual substância? Seria uma droga?

Não uma droga qualquer, mas um líquido.

- Devo embebedar-me até o coma?

Não, caro suicida. Deves beber 20 quilos de monóxido de di-hidrogênio!

- Mas aonde encontrarei tal substância? - Exclamou em polvorosa. - Parece-me ilícito o porte deste líquido!

Ao contrário, meu caro. Teu corpo és constituído de 70% desta substância anômala.

- Como? Explique-me melhor, sou apenas um relés leigo de pouco estudo. - Informou o suicida a brincar de fazer vibrações com o dedo indicador na borda do copo.

Monóxido de di-hidrogênio, nada mais é, que a substância que lhe dás vida, mas que também podes rumá-lo para a morte.

- Que substância és esta?! - Exclamou, incrédulo.

Água, meu caro. - Tentou se explicar, o cientista. - Caso bebas a quantidade que lhe recomendei, tuas células incharão e explodirão tal qual uma bexiga de gás!

- Ora, agradeço por tua ajuda, senhor. Amanhã lerás uma matéria sobre meu suicídio no jornal, provavelmente. - Comunicou, levantando-se. Estava com pressa, tinha um suicídio a executar.

Creio que não. Pois tu não irás se matar. - Replicou antes que o outro se fosse.

- Como?! - Exclamou, desnorteado.

Deus castiga os suicidas... Teu lugar és no céu. Isto que bebeu, crendo ser absinto, és, na verdade, veneno. - Ele fez uma pausa. - Pelo que vejo, teu lugar és no paraíso, tu és uma boa pessoa. Teu assassinato irás servir de sentença definitiva para meu julgamento.

- Julgamento, o que estás a dizer?! Por que desejas tanto que tú vás ao inferno?

Pois bem, eu sou um cientista... Um inventor... - Sua língua se enrolava com dificuldade na boca para formar as palavras devido ao veneno que corria livremente em sua corrente sanguínea. - Meu jovem, já ouvistes falar das guerras mundo a fora?

- Mas com certeza! Cheguei a lutar em uma.

Conheces as armas químicas que o exército usa para matar inocentes? Pois bem... Este és meu pecado: o sangue de milhares jaz em minhas mãos por minha criação... Eu queria mudar o mundo, sabes? Mas no fim... Eu apenas o tornei ainda mais sombrio...


No outro dia, uma machete cobria toda uma página do jornal: "Bomba química mata 5 mil inocentes no Cazaquistão!".

Entretanto nenhuma notícia sobre o cientista ou sobre o suicida existia naquelas páginas repletas de escalas de cinza. O editor chefe achara a história muito promíscua para se publicar em um jornal de tamanha seriedade quanto o seu.

Soubesse ele da história completa, teria publicado um artigo quilométrico, digno de milhares de prêmios...

Infelizmente, não se pode agradar a todos.

Nem mesmo a Morte.

3 de Dezembro de 2018 às 02:25 2 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Beatriz Moraes Meus personagens sofrem com um grande sorriso no rosto, pois sabem que não há felicidade sem dor. Na verdade eles não só sofrem, como também vão até o Inferno e voltam. (De acordo com a Leeh, essa diva :v) Podem me chamar por Møry. Minhas histórias contém muito sadomasoquismo contra os leitores, junte-se ao bonde da LEMONada por sua própria conta e risco. Respondo todas os comentários, não precisa ficar recluso, não mordo (tão forte :3). Estou no Wattpad, Spirit e Nyah! Fanfiction também!

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Karimy Karimy
Olá, tudo certo? Gostei bastante do seu conto, principalmente do final. Pois não é assim mesmo que as coisas acontecem? Às vezes, coisas muito importantes são deixadas de lado simplesmente por não sabermos de todo o contexto e toda a história que sucede o fato, coisa ou pessoa. Querendo ou não, a morte dos dois também foi um outro tipo de reflexão: não valeu de nada, eles morreram, mas a vida dos outros continuam e precisa prosseguir, ao passo que eles morreram e isso também não mudou o fato de 5 mil inocentes terem morrido por conta de uma arma química; o que mostra como tudo o que eles fizeram não trouxe nada além de dor para os que os amavam. Tudo continuou, só eles que desistiram. É uma lição e tanto! Gostei do modo como as coisas foram colocadas, inclusive os personagens, de forma misteriosa (como a substancia que bebiam e não sabiam nome). Isso deixou a história com um arzinho a mais de mistério. A única coisa para qual gostaria de chamar sua atenção é sobre a pontuação na história. Existem algumas vírgulas colocadas em lugares errados, separando, inclusive, o sujeito de seu predicado e também há o fato de você usar hífen em vez de travessão. Bom, mas, como disse, sua história está ótima; resolvi citar essas observações para tentar contribuir com seu crescimento de alguma forma. O conto está ótimo; e é uma pena para o editor que não publicou a história do cientista e do suicida! rsrsrs Bjn!
8 de Dezembro de 2018 às 08:36

  • Beatriz Moraes Beatriz Moraes
    Fico muito feliz que gostou! Irei corrigir esse errinhos, não havia notado que o programa não havia mudado os hífen pelos travessões, obrigada! 9 de Dezembro de 2018 às 13:40
~