lara-one Lara One

Mulder fica curioso com uma notícia de jornal sensacionalista e vai investigar uma vidente. As pessoas afirmam que ela tem um poderoso dom de prever o futuro. Poderá ela prever o futuro de Mulder?


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S02#07 - A VIDENTE


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Apartamento de Mulder – 3:33 A.M.

[Som: Brahm – Lullaby]

Mulder, sentado numa cadeira, no quarto, olha em direção à cama. Pensativo, admirando alguma coisa. Começa a escrever em um diário.

MULDER (OFF): - Há muitos momentos na vida de cada ser humano. Momentos que nunca poderemos achar uma explicação concreta e convincente. Às vezes me parece que não temos a chamada liberdade de escolha, porque a vida sempre nos direciona no caminho que ela quer. Parece que o destino é uma coisa real. E é completamente absurdo lutar contra ele. Não podemos. Agora creio que o destino está escrito.

Mulder respira fundo, enquanto olha pra cama.

MULDER (OFF): - Mas isto não torna o destino uma coisa completamente má ou ruim. Sinto a cada dia que toda a minha busca pela verdade, que todo o tempo que perdi, nada foi em vão. E me pego agradecendo à Deus, mesmo sem muitas vezes acreditar Nele, pela dádiva que tive, pelo destino que me foi traçado. Nada, nada é em vão na vida. Sempre, num futuro próximo, nos pegaremos reconhecendo que as coisas ruins vieram por um motivo: preparar o caminho para as boas coisas acontecerem.

Mulder sorri.

MULDER (OFF): - E agora eu sei quais são as duas coisas boas na minha vida. E não me canso de fitá-las, de admirá-las. Descobri um lado em mim que nunca havia imaginado. Um lado humano, um lado forte. A responsabilidade e meu amor-próprio chegaram em minhas mãos por dois caminhos. E eu as amo por isso, por me tornarem mais humano. Por me devolverem a vida que perdi. Nada foi em vão.

Corta para a cama, onde Scully dorme ao lado da filha Victoria, com um ano de idade.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA


BLOCO 1:

Parque de Diversões Amazing Land – Alexandria – Lousiana - 10:17 P.M.

Mulder estaciona o carro. Scully olha pra ele.

SCULLY: - Mulder, antes de descermos, quer me explicar o porquê de estarmos aqui? Não acredito que viemos investigar essa mulher! Mulder, isso não é um caso para o FBI! Charlatanismo pode ser resolvido pela polícia local!

MULDER: - Scully, quero ver com meus próprios olhos.

SCULLY: - Mulder, vai dar ouvidos a publicações sensacionalistas? Por acaso vai pedir para ver seu futuro numa bola de cristal e vai esperar anos para descobrir que tudo era mentira?

Os dois descem do carro. Caminham um ao lado do outro, por entre crianças, pessoas, palhaços, pipoqueiros.

SCULLY: - Mulder, prever o futuro não é mágica. Se você pensar bem, pode prever seu destino. Você colhe o que semeia.

MULDER: - Nunca teve a curiosidade de saber o que vai acontecer daqui alguns anos, Scully?

SCULLY: - Não, Mulder, não me preocupo com isso. Deixo nas mãos de Deus. Ele é quem sabe.

MULDER: - Scully, isso é pior do que consultar uma vidente!

SCULLY: - Essa mulher é uma mentirosa, Mulder. Essa gente se aproveita da credulidade e do desespero das pessoas. Aposto que só prevê coisas boas! Porque sabe o que as pessoas querem ouvir.

Uma barraca com uma placa acima da entrada: Madame Silvia – Vidente. Mulder e Scully entram na barraca.

[Som: Believe – Lenny Kravitz]

Geral da barraca. Estrelas luminosas pelas paredes, ambiente escuro, iluminado apenas por duas tochas dispostas nas laterais. Um enorme tapete vermelho, sobre ele uma mesa, com uma bola de cristal. Há duas cadeiras. Vários amuletos de bruxa pelo lugar.

Scully olha pra Mulder.

SCULLY: - Mulder, essa gente costuma decorar o ambiente a caráter, para impressionar as pessoas. Vai olhar pra nós e, pela nossa aparência deduzirá que somos do FBI. Ela não pode ler mentes nem prever o futuro. Mulder, isso é absurdo!

Silvia sai de trás de uma cortina, vestida como cigana. É uma mulher morena, alta e bonita. Silvia olha pra Mulder. Mulder olha pra Silvia.

SILVIA: - Bem vindos, em que posso ajudar?

Mulder fecha os olhos. Abre-os. Silvia olha pra Mulder, novamente.

SILVIA: - ... Agente Fox Mulder, do FBI. Gostaria de ver o futuro ou veio até aqui para encontrar provas de que sou uma charlatã?

Scully olha assustada pra mulher. Mulder sorri.

MULDER: - Como leu os meus pensamentos?

Scully faz uma cara de poucos amigos. Silvia aproxima-se de Scully. Scully ergue as sobrancelhas, afastando-se. Silvia olha em seus olhos.

SILVIA: - Agente Scully, você é uma pessoa tão pura, mas precisa parar de temer suas crenças. Você acredita, mas tem medo de acreditar.

Scully observa-a, desconfiada. Silvia olha pra Mulder.

SILVIA: - Falarei o que quiser, mas somente pra você. Infelizmente, ela não está preparada para isso.

Scully olha pra Mulder. Os dois cochicham.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Essa gente sempre conhece os crédulos pelo cheiro!

MULDER: - Como explica que ela sabia meu nome e quem eu era? Eu me apresentei em pensamentos e ela os leu!

SCULLY: - Ora, Mulder, você está em qualquer discurso sobre Ufologia na Internet! Onde tem malucos tem o seu nome junto!

MULDER: - E como ela sabe sobre você?

SCULLY: - (IRRITADA) Isso é o que gostaria de saber, Mulder. Anda falando sobre mim pra muita gente?

Scully afasta-se. Pára. Olha pra Mulder.

SCULLY: - (COCHICHA) Otário! Ela está dando em cima de você!

Scully sai irritada e com ciúmes.

SILVIA: - Sente-se agente Mulder. Não vou chamá-lo de Fox, porque detesta seu nome. E também não estou dando em cima de você.

MULDER: - ... (SORRI)

Mulder senta-se curioso, de frente para Silvia.

SILVIA: - Sei o que veio realmente buscar. Mas deveria pensar se não fui eu quem o atraiu até aqui intencionalmente. Talvez eu precisasse ver você.

MULDER: - ... Me ver? Você nem me conhece!

SILVIA: - Sente-se confuso e curioso ao mesmo tempo.

MULDER: - Bem, você já sabe que sou do FBI e que...

SILVIA: - Sei tudo sobre você.

MULDER: - ...

SILVIA: - Só há uma maneira de lhe provar que tenho poderes como as pessoas falam. Daqui há alguns minutos, vai chover.

MULDER: - Mas o céu está estrelado...

SILVIA: - Posso lhe dizer também que morrerei ainda esta noite. Estava apenas esperando por você, que será meu último cliente.

MULDER: - Isso não é perverso demais?

SILVIA: - A morte é uma coisa natural, Mulder. Alguém vai entrar por aquela porta, fugindo da polícia. Levarei um tiro no coração. Depois disso, aguardarei até a hora em que nascerei novamente. Ninguém morre, Mulder. Ninguém.

MULDER: - ...

SILVIA: - Mas, infelizmente, não posso provar que estou certa.

Mulder fica fascinado. Silvia pega na mão dele com carinho.

SILVIA: - Quer saber seu futuro, Mulder?

MULDER: - Não, acho que não. Acredito que você tem uma capacidade fantástica de ver as pessoas como realmente são. Mas não acredito que possa prever o futuro.

SILVIA: - Bem, acreditará no dia em que as coisas que eu te disser acontecerem. Há pessoas de todo o lugar, que vêm até aqui para saber se ficarão ricas, se realizarão seus sonhos, se viverão com as pessoas que amam, quando irão morrer... Não quer arriscar? São 50 dólares.

MULDER: - Caro, não é mesmo?

SILVIA: - Não para o que vai ouvir. Mas pra você, não cobrarei nada. Você é uma pessoa especial, Mulder. Eu sabia que viria.

MULDER: - Como sabia que eu viria?

Trovoadas. Começa a chover. Mulder olha assustado pra Silvia. Ela sorri.

MULDER: - (SORRINDO) ... Tá certo. O que pode dizer sobre meu futuro?

SILVIA: - O que quiser saber.

MULDER: - Leia o meu pensamento.

SILVIA: - ... Ainda não acredita em mim, não é mesmo?

MULDER: - ...

SILVIA: - Com certeza. Ela é sua metade. Estão destinados a viverem juntos nessa vida, porque já viveram em muitas outras, algumas vezes separados, mas perto o suficiente para compensar a dor.

MULDER: - Como assim?

SILVIA: - Já foram amantes e foram iludidos pelas pessoas. Por acreditar nos outros, separaram-se. Mas sempre reencarnam próximos, como parentes... Essa é a volta, Mulder. Agora seus espíritos estão preparados para acreditarem um no outro. E será sempre assim, em todas as vidas que tiverem. Sempre voltarão como amantes. Porque espíritos iguais sempre voltam para os seus... Nem que seja por um dia apenas.

MULDER: - Isso não pode ser provado.

SILVIA: - É questão de fé, Mulder...

MULDER: - Pode me dizer se vou morrer em breve?

SILVIA: - (SORRI) Vai viver muito ainda, o bastante para ver seus filhos.

MULDER: - (RI) Filhos? Você está enganada. Ela não...

SILVIA: - Ela não pode ter filhos, mas... e aqueles óvulos?

Mulder fica boquiaberto. Silvia coloca as mãos sobre a bola de cristal. Fecha os olhos.

SILVIA: - Não sabe o que quer me perguntar, você tem medo de mim. Mas tem curiosidade... Não, ela não vai morrer cedo. Morrerá depois de você. Ela dará sua vida por alguém muito importante pra vocês dois... (RESPIRA FUNDO) Definhará o resto de seus dias até estar perto de você novamente. A dor será forte demais, estão muito ligados um ao outro. Você morrerá nos braços dela.

Mulder fica perplexo, nervoso. Silvia abre os olhos. Respira fundo, segurando as lágrimas.

SILVIA: - Mas eu não acredito que queira saber de coisas tristes. Você está num momento de crescimento interior muito grande e precisa de esperanças. De coisas boas.

MULDER: - ...

SILVIA: - Olhe para a bola de cristal, Mulder. Limpe sua mente. Verá a felicidade que aguarda você. E essa felicidade é justamente o que você mais você teme. Ainda não está pronto pra ela, mas será inevitável. Vai pedir por isso quando superar a dor de ter perdido sua família... Quando acreditar que pode ser feliz.

Mulder olha pra bola de cristal. Perde seu olhar ali.

SILVIA: - Essa será sua segunda felicidade, Mulder. E também a que marcará sua vida. Porque seu espírito foi escolhido para amar essa pessoa. Porque ela precisará de alguém como você.

Mulder continua olhando pra bola de cristal.

[Fusão]

Apartamento de Mulder – 1:36 A.M.

Mulder e Scully estão deitados na cama. Scully abraçada nele. Mulder olhando pro teto.

MULDER: - Scully... Nunca pensou em como veio parar nesse mundo?

Scully afasta-se dele. Senta-se na cama, olhando pra Mulder, intrigada.

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - Seus pais, Scully. Eles estavam prontos pra ter você ou foi um acidente de percurso?

SCULLY: - Minha mãe sempre disse que fomos planejados.

MULDER: - ... Eu sou um acidente de percurso.

SCULLY: - ...

MULDER: - ... Eu... Eu fiz uma promessa pra mim mesmo que nunca teria filhos sem planejá-los. Eu queria que fosse diferente, Scully. Queria olhar pra eles e dizer: Estão aqui por que nós te amamos e te desejamos antes mesmo de vocês nascerem. Mas quantos pais fazem isso?

SCULLY: - (PENSATIVA) Poucos.

MULDER: - É diferente, Scully. Frases como: Estou grávida e agora? Isso é tão repentino e indesejável. Você tem que se acostumar com a ideia de ter um filho. Mas se você já concebe a ideia antes de tê-lo, é muito mais sublime.

Ela sorri.

MULDER: - ... Sempre imaginei que o dia em que achasse a mulher ideal, eu olharia nos olhos dela e diria: Quero um filho seu...

SCULLY: - (TRISTE) ...

MULDER: - Sempre pensei que decidiríamos isso antes. Não teria filhos por acidente de percurso... Sei o que vai dizer, que eu deveria ter feito mais sessões de terapia. Tudo bem, Scully, é um trauma mesmo, não vou me enganar.

SCULLY: - ...

MULDER: - Agora, tudo está acabado. Todos os sonhos se foram. E não é por você não. É por mim. Quem não pode ter filhos sou eu.

SCULLY: - Como assim, Mulder?

MULDER: - Acha que sou digno de tê-los? Olha quem é meu pai, Scully! Acha que eu tenho o direito de perpetuar o gene desgraçado dele em crianças inocentes?

Scully pega as mãos dele. Mulder está triste.

SCULLY: - Mulder, acho que está se torturando. Seus filhos não serão ele. Você não é ele. Se fosse por isso, filhos de assassinos seriam assassinos. Isso não é genético, Mulder... Prometemos que nunca mais falaríamos sobre isso. Ele é pai da Samantha, entendeu? Assim é o que deve ser.

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, por que começou a falar nisso de repente?

MULDER: - ...

Mulder segura as mãos de Scully. Olha nos olhos dela.

MULDER: - Porque eu... Eu queria que você fosse a mãe dos meus filhos. Mas não acho que deva desperdiçar sua única chance comigo. Não mereço isso.

SCULLY: - Mulder, eu não estou entendendo. O que está tentando me dizer?

MULDER: - Nada, Scully. Absolutamente nada.

SCULLY: - (SORRINDO) Mulder, está tentando me dizer que quer ter um filho?

Mulder abaixa a cabeça. Scully sorri, com os olhos brilhando de felicidade.

SCULLY: - Eu não acredito no que estou ouvindo!

MULDER: - ... Estou cansado de ver você por aí, chorando cada vez que vê uma criança. E... Acho que a experiência de ter quase morrido me abriu os olhos pra ver o quanto a minha vida teria sido em vão. Você sempre fez tanto por mim, e eu te deixaria sem nada.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - E depois, talvez agora eu saiba a importância disso. Talvez eu tenha me tornado mais humano, perto de você... (DEBOCHADO) E eu queria mais réplicas suas ao redor de mim. Me sentiria mais seguro.

SCULLY: - Eu não acredito! Mulder, eu...

MULDER: - ...

Scully muda sua fisionomia de feliz para preocupada.

SCULLY: - Mulder, não podemos. Estamos sendo atacados dentro do FBI, suspeitam de nós e...

MULDER: - Eu só sei que ... que... eu queria.

Eles ficam olhando um para o outro em silêncio.

[Fusão]

Mulder olha pra Silvia, derrubando lágrimas.

MULDER: - ... Eu... Eu nunca diria isso a ela. Eu tenho medo de que ela saiba dos meus medos...

SILVIA: - Ela sabe dos seus medos, Mulder. Por que acha que ela ama você? Por que é perfeito?

MULDER: - O que quis dizer com ‘talvez eu tenha chamado você até aqui’?

SILVIA: - ... Vi você nessa bola de cristal há alguns dias atrás... Algo me dizia que você viria até mim. Porque você precisa ouvir o que tenho pra dizer. E porque eu preciso ouvir você... é como se fosse parte do meu destino ouvir você.

Silvia coloca as mãos sobre a bola de cristal. Mulder olha atentamente pra dentro.


BLOCO 2:

Apartamento de Mulder – 3:21 A.M.

Mulder não consegue dormir. Revira-se na cama.

SCULLY: - Mulder, não vai dormir?

MULDER: - Não consigo, Scully. Fico pensando nele. Está lá, sozinho, naquele laboratório...

SCULLY: - (SORRI) Mulder, em breve estará conosco.

MULDER: - ... Acha que vai dar certo?

SCULLY: - Acho.

MULDER: - Quer comemorar? Acho que devemos tomar um vinho.

SCULLY: - Mulder, não vamos comemorar antes da hora.

MULDER: - (SURPRESO) Superstições, Scully?

SCULLY: - Tá bom, Mulder. Vamos comemorar.

MULDER: - Acha que vai ser menino ou menina?

SCULLY: - Não quero apostar nada. Tem preferência?

MULDER: - Não. Nenhuma. Pode ser uma Scullyzinha, um Scullyzinho...

SCULLY: - E se for um Mulderzinho?

MULDER: - Pobre da criança, Scully! Reze pra se parecer com você... (PENSATIVO) Ah, meu Deus!

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Vou ter outra cética dentro de casa brigando comigo?

SCULLY: - Você quem pediu, Mulder. E aviso: Nada de discos voadores e marcianos de pelúcia! Quero ter um filho normal.

[Fusão]

Mulder olha pra Silvia, ainda chorando, emocionado.

SILVIA: - Vai chorar mais do que isso quando ela disser que está grávida.

MULDER: - ... Por que eu preciso saber disso tudo?

SILVIA: - Porque não foi por acaso que veio até mim.

MULDER: - Mas eu não quero filhos. Eu nunca os terei.

SILVIA: - Nunca é tempo demais, Mulder. Sua vida já está mudando, não pode evitar que os sentimentos cresçam em você. Precisa parar de sentir pena de si mesmo. Precisa ter amor próprio, Mulder. Você é uma pessoa tão sincera e verdadeira! Não destrua o que tem de mais precioso. Não jogue uma vida fora, Mulder! Cada vida é uma chance de aperfeiçoamento. Deus nunca dá uma cruz mais pesada do que podemos carregar. Sofrer é purificar-se.

Mulder olha pra bola de cristal.

[Fusão]

Arquivos X – 10:23 A.M.

Mulder exibe slides pra Scully. Ela está com uma barriga bem grande, sentada na cadeira dele.

MULDER: - Como vê, Scully, o cara foi devorado parcialmente...

Scully olha pro slide e sai correndo porta à fora. Mulder desliga o retro-projetor. Minutos depois ela volta, com a mão sobre os lábios.

SCULLY: - Mulder, não tenho mais estômago pra isso.

MULDER: - Quer ficar por aqui? Eu vou sozinho.

SCULLY: - Desculpe, Mulder. Mas acho melhor assim.


Garagem do FBI – 8:33 P.M.

Scully caminha até o carro. Um carro preto, que estava estacionado, passa por ela. Um homem atira em Scully, que cai no chão.


Hospital Trinity – 2:44 A.M.

Mulder entra no quarto, com um buquê de flores. Receoso. Scully olha pra ele.

MULDER: - Scully... Eu sou um péssimo companheiro e um pai pior ainda...

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Não, não fala. Preciso trabalhar, mas não vou deixar você sozinha. Vou pedir pro Frohike ficar aqui.

SCULLY: - ...

Mulder coloca a mão sobre a barriga de Scully. Faz carinhos.

MULDER: - (NERVOSO) Como ele está?

SCULLY: - Está bem, Mulder. Digamos que eu tenha cicatrização rápida... Mas não quero falar sobre isso.

[Fusão]

Mulder olha pra Silvia.

MULDER: - Então eu ficarei mais paranoico do que já sou?

SILVIA: - Terá motivos, Mulder. O passado nunca é enterrado.

Silvia ri. Mulder olha curioso pra bola de cristal.

[Fusão]

Hospital – 7:01 P.M.

Mulder, vestido num uniforme médico, nervoso, segura as mãos de Scully. Ela grita de dor. O médico pede pra ela forçar. Scully continua gritando. Mulder está assustado.

MÉDICO: - (GRITA) Empurra!

Scully grita. Mulder fecha os olhos. Ela segura as mãos dele com força. Mulder faz aquela cara de pânico. O médico ergue o bebê, ainda sujo. O bebê chora. Scully chora junto. Mulder começa a balançar o corpo de um lado pra outro, tonto.

MÉDICO: - É uma bela garotinha.

O médico coloca o bebê sobre a barriga de Scully. Scully a segura com as mãos. Mulder olha a cena e cai desmaiado no chão.

SCULLY: - Filhinha, seu pai é tão corajoso!

[Fusão]

Mulder começa a rir. Silvia ri com ele.

MULDER: - (FELIZ) É, eu sempre tenho atitudes estranhas mesmo... Então será uma menina.

SILVIA: - Feliz por isso?

MULDER: - Se for real...

SILVIA: - Ainda não acredita no que estou lhe revelando?

MULDER: - Não.

SILVIA: - Por quê?

MULDER: - Eu... eu não mereço a vida desse cara que você tá falando aí. Eu nunca fiz nada pra merecer algo tão bom. Nem a Scully e muito menos uma filha.

Mulder olha pra bola de cristal. Silvia olha pra ele ternamente.

[Fusão]

Apartamento de Mulder – 3:33 A.M.

[Som: Brahm – Lullaby]

Mulder, sentado numa cadeira, no quarto, olha em direção à cama. Pensativo, admirando alguma coisa. Começa a escrever em um diário.

MULDER (OFF): - Há muitos momentos na vida de cada ser humano. Momentos que nunca poderemos achar uma explicação concreta e convincente. Às vezes me parece que não temos a chamada liberdade de escolha, porque a vida sempre nos direciona no caminho que ela quer. Parece que o destino é uma coisa real. E é completamente absurdo lutar contra ele. Não podemos. Agora creio que o destino está escrito.

Mulder respira fundo, enquanto olha pra cama.

MULDER (OFF): - Mas isto não torna o destino uma coisa completamente má ou ruim. Sinto a cada dia que toda a minha busca pela verdade, que todo o tempo que perdi, nada foi em vão. E me pego agradecendo à Deus, mesmo sem muitas vezes acreditar Nele, pela dádiva que tive, pelo destino que me foi traçado. Nada, nada é em vão na vida. Sempre, num futuro próximo, nos pegaremos reconhecendo que as coisas ruins vieram por um motivo: preparar o caminho para as boas coisas acontecerem.

Mulder sorri.

MULDER (OFF): - E agora eu sei quais são as duas coisas boas na minha vida. E não me canso de fitá-las, de admirá-las. Descobri um lado em mim que nunca havia imaginado. Um lado humano, um lado forte. A responsabilidade e meu amor-próprio chegaram em minhas mãos por dois caminhos. E eu as amo por isso, por me tornarem mais humano. Por me devolverem a vida que perdi. Nada foi em vão.

Corta para a cama, onde Scully dorme ao lado da filha Victoria, com um ano de idade.


3:47 A.M.

[Som: Believe – Lenny Kravitz]

Mulder acorda Scully.

MULDER: - Scully...

SCULLY: - (SONOLENTA) Hum?

MULDER: - Precisamos ir agora para Dakota do Sul.

SCULLY: - O que aconteceu?

MULDER: - Temos um caso. Há uma série de assassinatos sem explicação. Pessoas que alegam ter visto o demônio, que veio para buscar suas almas.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Tá... Vou arrumar as coisas, Mulder. Cuida pra ela não se mexer e cair da cama.

Scully começa a juntar pertences da filha e colocá-los numa bolsa. Mulder deita-se ao lado de Victoria. Fica olhando pra ela. Scully o observa. Mulder beija a filha. Afaga os fiapinhos de cabelo dela.

MULDER: - (TRISTE) Eu estou fazendo com ela o mesmo que faço com você.

SCULLY: - Como assim, Mulder?

MULDER: - Uma criança normal ficaria dormindo a noite toda num berço. Entretanto levo minha filha às 4 da manhã para caçar demônios... Ela está participando da minha busca, não por vontade própria, mas porque eu a forço à isso.

SCULLY: - Mulder, sei que não é correto, mas o que podemos fazer? Eu posso chamar a mamãe e...

MULDER: - Não, Scully. Responsabilidade nossa. E depois, eu gosto da Meg, mas quanto mais perto da Victoria eu estiver, mais certeza terei da sua segurança. Estou a sacrificando, mas é por preocupação.


Motel River – Pierre – Dakota do Sul - 6:31 P.M.

Mulder entra no quarto com as malas. Scully traz Victoria no colo. A menina está acordada. Mulder coloca as malas sobre um sofá.

SCULLY: - Mulder, preciso de um banho. Sua filha também.

Scully coloca Victoria sobre a cama e começa a tirar a roupa dela. Victoria sacode os braços, rindo pra Scully.

SCULLY: - Ah, você gosta de água, não é filhinha? ... Que sorriso mais bonitinho tem a neném da mamãe.

Mulder liga a TV. Deita-se na cama. Pega a mão da filha. Ela continua rindo. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Como ela gosta de rir. Não puxou a mim. Eu não era uma criança simpática.

SCULLY: - Você ainda não é simpático, Mulder.

Scully começa a tirar a roupa. Pega a filha e vai pro banheiro. Mulder levanta-se.

MULDER: - Scully, vai ficar bem sozinha?

SCULLY: - Tenho uma arma, Mulder.

MULDER: - Vou até a casa dos Ferguson, interrogar a testemunha.

SCULLY: - Tá.

Mulder sai.


Residência dos Ferguson – 6:59 P.M.

Mulder, sentado numa poltrona, conversa com Ulla Ferguson, uma senhora de uns 40 anos.

ULLA: - Agente Mulder, sabe que esta é uma cidade pequena. Cidades pequenas gostam de manter segredos...

MULDER: - Segredos bizarros?

ULLA: - ... O fato de estar falando com o senhor, já me põe em risco.

MULDER: - Então sabe quem é o assassino de seu marido?

ULLA: - O senhor não entendeu. Há muitos anos atrás, o rio transbordou e a cidade ficou praticamente submersa. Perdemos nossas colheitas, nossos animais, nossos entes queridos. Então, ele apareceu.

MULDER: - Ele?

ULLA: - Um homem. Disse que poderia ajudar. Mas que um dia cobraria pela ajuda. Meu marido e alguns amigos aceitaram a proposta. O dinheiro destrói almas, agente Mulder.

MULDER: - E o que esse homem fez?

ULLA: - Misteriosamente as águas recuaram. Se meu marido estivesse vivo, poderia lhe contar em detalhes. As águas recuaram, os animais surgiram misteriosamente e a colheita foi abundante... Agora, ele veio buscar seu pagamento.

MULDER: - Como assim?

ULLA: - As almas daqueles à quem ajudou. Ele é o demônio, senhor Mulder. E ele está colhendo as almas dessas pessoas prometidas. É hora do pagamento.


Motel River – 7:11 P.M.

Mulder entra no quarto. Scully grita do banheiro.

SCULLY: - Mulder, é você?

MULDER: - Sou.

Mulder vai até o banheiro. Scully, dentro da banheira, com a filha sobre sua barriga, brincando com ela.

MULDER: - Ainda estão aí?

SCULLY: - Hum, estamos adorando. Tá um calor horrível, Mulder.

Mulder senta-se no chão, ao lado da banheira.

MULDER: - Vai ficar de cabelo em pé quando eu contar o que a senhora Ferguson disse.

SCULLY: - Mulder, pega a toalha dela.

Mulder levanta-se. Pega a toalha de bebê e enrola em Victoria. Tira-a da banheira. Vai pro quarto, com ela enrolada na toalha.

SCULLY: - (GRITA) Mulder, as roupas dela ainda estão na sacola!

Mulder pega a sacola com um braço. Com o outro segura Victoria. Senta-se na cama e começa a procurar.

MULDER: - Então, o que vamos vestir essa noite? Rosa? Amarelinho?

Victoria sorri, brincando com o nariz dele.

MULDER: - Hum, acho que esse pijaminha do Taz vai ficar deslumbrante na minha princesinha...

Scully sai do banheiro, num robe, com a toalha nos cabelos. Mulder deita Victoria na cama e começa a secá-la.

MULDER: - A senhora Ferguson disse que o assassino é o demônio, que veio cobrar as almas que pediu, em troca de uma favor há anos atrás.

SCULLY: - E você acreditou nisso, Mulder?

MULDER: - Onde estão as fraldas?

SCULLY: - Aí dentro tem um pacote.

MULDER: - Disse que o marido e alguns amigos prometeram suas almas em troca da recuperação da cidade.

SCULLY: - Vou fazer a autópsia no corpo do senhor Ferguson e do senhor Loyd.

MULDER: - Agora?

SCULLY: - Estou mais relaxada, depois desse banho.

MULDER: - Tá. Eu fico com ela.

Mulder termina de vestir Victoria. Deita-se na cama, colocando-a de bruços sobre sua barriga. Scully tira suas roupas da mala.

SCULLY: - Mulder, não vá dormir e deixá-la cair.

MULDER: - Eu não sou criança, Scully. Sei cuidar da minha filha.


11:44 P.M.

[Som: Believe – Lenny Kravitz]

Mulder conta histórias pra Victoria, que ainda está sobre sua barriga.

MULDER: - Então, foi assim que eu e sua mãe descobrimos a existência do óleo negro.

Victoria está dormindo. Mulder a coloca na cama, ao seu lado, tomando o cuidado de pôr travesseiros ao lado dela pra ela não cair da cama. Mulder vira-se na cama, cobre a filha e a observa dormindo, até cair no sono.


1:21 A.M.

Mulder acorda-se, ouvindo Victoria sorrindo. Mulder olha pra ela, curioso. Victoria olha pra cima, sorrindo, mexendo os braços. Mulder olha pra cima mas não vê nada. Fica observando a reação da filha. Victoria mexe os olhos como se observasse alguma coisa mexendo-se no ar. Mulder cerra os olhos, desconfiado.

MULDER: - Filha?... Victoria?

Victoria continua olhando pra cima. De repente vira a cabeça pra Mulder. Sorri pra ele. Mulder sorri pra ela.


BLOCO 3:

2:30 A.M.

Scully entra no quarto. Mulder e Victoria estão dormindo. Scully senta-se no sofá, tira os sapatos. Mulder acorda.

MULDER: - Então?

SCULLY: - Mulder, ambos morreram de parada cardíaca.

MULDER: - Parada cardíaca?

SCULLY: - É, mas... Não havia nada de errado com a saúde deles...

MULDER: - ... Scully, o que sabe sobre demônios?

SCULLY: - Mulder, a minha crença em demônios é um pouco menos questionável do que a sua.

MULDER: - Tá, mas os católicos acreditam no diabo.

SCULLY: - (SUSPIRA) Ah, Mulder... Eu nem sei mais no que acredito!

Scully caminha até a cama. Ajeita Victoria. Deita-se ao lado dela. Os dois ficam olhando pra filha que está entre eles.

SCULLY: - Ela é linda!

Scully dá beijos na filha.

MULDER: - (INDIGNADO) Vai acordar a criança!

SCULLY: - Vou nada. Ela tem sono pesado. Olha só, Mulder, como parece um anjo... Dorme tão tranquila... O anjinho da mamãe... Mulder, vem aqui.

MULDER: - O que é?

Scully lhe dá um beijo.

SCULLY: - Amo você.

MULDER: - Também te amo, Scully.

SCULLY: - Só queria que relaxasse mais, Mulder. Você está neurótico, dorme mal à noite. Ninguém vai tirá-la de nós.

MULDER: - Eu não sei, Scully. Tenho medo de se vingarem nela. Ela é tão frágil, indefesa.

SCULLY: - Calma, papai coruja. Ela está bem, tem dois seguranças particulares bem treinados.

Mulder sorri.

MULDER: - Scully, se eu dissesse à você que acredito... Ah, esquece.

SCULLY: - O que ia dizer, Mulder?

MULDER: - Nada, deixa pra lá. Você ia brigar comigo. Não acredita nisso.

SCULLY: - Sobre os demônios?

MULDER: - Não, sobre nossa filha.

SCULLY: - O que tem ela?

MULDER: - ... Acho que a Victoria é especial.

SCULLY: - Especial? Claro que ela é especial, Mulder... é nossa filha, é especial pra nós!

MULDER: - (MEDO) Não falo nesse sentido. Acredito que ela... que ela tem ...

SCULLY: - (QUESTIONANDO-O) Tem?

MULDER: - (MEDO) Tem... Habilidades paranormais.

SCULLY: - (INCRÉDULA) O quê? Mulder, pelo amor de Deus, não influencie a menina!


Residência dos Ferguson – 9:59 A.M.

Mulder bate à porta. Ulla atende, abrindo a porta e uma outra porta de tela. Na frente da casa, Scully está na calçada, ao lado do carro, segurando Victoria, que está acordada e irrequieta. Scully anda de um lado para o outro.

MULDER: - Bom dia, senhora Ferguson.

ULLA: - Agente Mulder, que surpresa! Pensei que não voltaria mais aqui, depois do que lhe contei ontem à noite. Deve ter pensado que eu era uma velha louca.

MULDER: - Preciso que me diga quantas pessoas ainda restam.

ULLA: - De todos... Talvez uns 6, se a memória não me engana...

Ulla olha pra Scully.

ULLA: - Sua esposa e sua filha?

Mulder olha pra elas, sorrindo.

MULDER: - Sim.

ULLA: - Ela não quer entrar?

MULDER: - Não, estamos com pressa. Preciso apenas dos nomes.

ULLA: - As duas são bonitas... Vou pedir ao meu neto para escrevê-los. Tem certeza de que não quer entrar?

MULDER: - Não, obrigado.

ULLA: - Agente Mulder, posso lhe dar um conselho?

MULDER: - Conselho?

ULLA: - Tire sua filha deste lugar. Crianças por aqui estão correndo perigo, num momento como esse.

MULDER: - Por quê? Minha filha nada tem a ver com isso...

ULLA: - Ele gosta de almas inocentes. E sua filha é muito pequena ainda.

Mulder olha intrigado pra Ulla. Ela entra na casa. Mulder fica parado na porta. Pega o celular.

Corta para Scully na calçada. Victoria brinca com a cruz de sua corrente.

SCULLY: - Você gosta disso, não é? Mamãe vai te dar uma.

Scully começa a brincar com Victoria e ela ri sem parar. Mas volta a atenção para o crucifixo e começa a brincar de novo. Scully observa Mulder. Ulla sai da casa e entrega a lista pra ele. Eles conversam. Scully fica embalando Victoria, que continua atenta com o crucifixo.

Corta para um velho que vem na direção delas. O velho observa a menina atentamente. Scully não percebe. Mulder continua conversando com Ulla, distraído. O velho aproxima-se lentamente. Pára. Scully olha pra ele.

VELHO: - (SORRINDO GENTIL) Bom dia, senhora. Desculpe, mas não pude resistir. Tem uma linda filha, sabia?

SCULLY: - (SORRINDO) Obrigado.

VELHO: - Parece um anjinho.

Victoria continua segurando o crucifixo, mas volta sua atenção para o velho. Está séria, fazendo um beiço igual ao da mãe quando fica furiosa. O velho olha pra ela. Victoria continua séria.

VELHO: - Que idade ela tem?

SCULLY: - Um ano e dois meses.

VELHO: - E como se chama esse anjinho?

SCULLY: - Victoria.

VELHO: - É um nome bonito.

Victoria agarra-se no pescoço de Scully, se escondendo nos cabelos dela. O velho afaga a cabeça de Victoria. Ela começa a chorar. Scully estranha a reação.

SCULLY: - Ah, me desculpe, eu não sei o que deu nela!

VELHO: - ...

SCULLY: - Geralmente ri pra todo mundo... Filha, que feio!

VELHO: - Ora, não se preocupe. Talvez ela não goste de velhos...

SCULLY: - Não, ela vive agarrada na avó dela... Não entendo... Victoria, se acalme, por favor!

Victoria continua chorando. Ulla entra em casa. Mulder volta sua atenção pra filha. Observa o velho. O velho percebe. Mulder vai em direção a eles.

VELHO: - Bem, senhora, vou andando. É uma bonita menina...

O velho sai caminhando. Mulder corre até Scully. Victoria chora convulsivamente. Scully tenta acalmá-la.

MULDER: - (PREOCUPADO) O que aconteceu?

SCULLY: - Nada. Sua filha está se tornando antipática como o pai.

Mulder procura o velho com os olhos. Não o vê.

MULDER: - Pra onde ele foi?

Scully vira-se e não o vê.

SCULLY: - Estranho...

Mulder pega Victoria. A embala, abraçado nela. Ela se acalma.

MULDER: - Não deixe ninguém tocar nela, Scully.

SCULLY: - Mulder, o que está acontecendo com você? Vê conspirações em tudo? Acha que era um amigo do Fumacinha?

Mulder coloca Victoria na cadeirinha pra crianças, no banco de trás do carro. Olha pra Scully.

MULDER: - Não enquanto estivermos nesse lugar.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mulder, está tentando me dizer que as pessoas daqui matam criancinhas?

Mulder segura a porta do carro pra ela entrar.

MULDER: - Vamos, Scully.

Scully entra. Mulder fecha a porta. Ainda tenta ver o velho, mas ele sumiu. Mulder dá a volta no carro e entra. Liga o motor. Dá a ré. Scully fica olhando pra ele.

SCULLY: - Mulder, você está estranho. Mais estranho do que de costume.

MULDER: - (AFLITO) Vamos pro motel. Pegue suas coisas. Vou deixá-las no aeroporto. Quero que volte com a Victoria pra Washington.

SCULLY: - Mas Mulder, estamos no meio de uma investigação!

MULDER: - (IRRITADO) Eu não quero saber! Volte com ela.

Mulder dirige. Scully fica furiosa.

SCULLY: - Quer me dizer por que está desse jeito?

MULDER: - Porque eu não sei quem era aquele velho.

SCULLY: - Ora, Mulder, por favor! Está dizendo que talvez o bom velho seja o ‘demônio’?

Mulder olha pra Scully. Scully põe as mãos na cabeça.

SCULLY: - Eu não acredito! Mulder, aquelas duas pessoas morreram de causas naturais!

MULDER: - (IRRITADO) É. E tenho mais 6 nomes que morrerão de ‘causas naturais’ também!

SCULLY: - Como pode ser tão paranoico?

MULDER: - (NERVOSO) Paranoico? Eu não sou paranoico! Eu quero proteger minha filha! Não pode me acusar de paranoico!

SCULLY: - Mulder, olho pra você e vejo o Fred Flinstone com a Pedrita!

MULDER: - (DEBOCHADO) Pelo menos você cumpriu sua promessa. Não se casou com o Barney!

SCULLY: - (IRRITADA) Eu não tenho culpa se você tem medo das pessoas! Eu não posso trancar minha filha numa redoma de vidro, Mulder!

MULDER: - Por que é tão difícil pra você acreditar no que eu digo? Scully, você já viu coisas de deixar os cabelos arrepiados e ainda reluta em acreditar nas minhas teorias?

SCULLY: - Mulder, por favor! Eu acredito que há alguma coisa aqui e acredito no diabo sim! Mas precisa ser ele o responsável pelas desgraças do mundo?

MULDER: - Agora você está sendo ignorante!

SCULLY: - Ignorante? Ora, Fox Mulder!

MULDER: - Não provoca!

SCULLY: - Fox! Fox! Fox!

Mulder fica emburrado. Uma voz vem lá de trás.

VICTORIA: - óx... (RINDO)

Mulder pára o carro. Os dois viram-se pra trás. Victoria olha pra eles rindo.

MULDER: - (ESPANTADO) Ela fala!

SCULLY: - (INDIGNADA) Claro, Mulder, que ela fala!

MULDER: - (BOQUIABERTO) Mas não falava!

SCULLY: - (RINDO) Mulder, um dia ela teria que falar, não sabia disso?

MULDER: - Ela fala!... (SUSPIRA)

Mulder olha apaixonado pra filha. Scully olha pra ele.

SCULLY: - (CIÚMES) Ela não poderia ter dito ‘ciência’ como primeira palavra? Tinha que ser o nome do imbecil do pai dela? Por que não o meu?

MULDER: - (DEBOCHADO) Com ciúmes?

SCULLY: - É, eu estou. Porque parece que não tenho filha. Ela me vê apenas como quem traz o almoço.

MULDER: - Credo, Scully! Eu não tenho culpa se ela falou Fox. É mais fácil de falar.

SCULLY: - (IRRITADA) ... Ela não é minha filha. É sua. Você fez ela todinha pra você! É a sua cópia! O mesmo gênio teimoso, a mesma atração por coisas bizarras, bagunceira e debochada!

MULDER: - Scully, ela é só uma criança! Como pode falar isso?

SCULLY: - Vocês dois me irritam!

Scully fica emburrada e cruza os braços. Mulder olha pra ela perplexo.

MULDER: - Depois eu sou a criança!

SCULLY: - Estou com ciúmes sim! E daí? Quero outro filho, Mulder, só pra mim! E esse, você não vai estragar! Eu vou educá-lo sozinho! Fique longe dele! Vai ver o que é ser coadjuvante!

Mulder começa a rir.

MULDER: - Victoria, acho melhor concentrar-se em Dana, Dana, Dana, ou eu vou apanhar!

SCULLY: - Vai, vai me irritando!


Motel River – 11:39 A.M.

Mulder entra e coloca Victoria sobre a cama. Liga a TV num canal de desenhos. Scully entra. Mulder a puxa pro banheiro. Fecha a porta.

SCULLY: - Mulder, o quê...

MULDER: - Não quero que ela escute.

SCULLY: - Eu não vou voltar pra Washington!

MULDER: - Vai, vai voltar sim.

SCULLY: - Volte você!

MULDER: - E deixar um Arquivo X nas suas mãos céticas?

SCULLY: - (FURIOSA) Mulder, você está insuportável! Não tem o direito de me ofender!

Os dois ficam brigando, mas aos sussurros.

Corta pra Victoria que está rindo, olhando pro nada. Mulder escuta. Abre a porta e espia.

MULDER: - Tá vendo? Olhe com seus próprios olhos!

Scully sai do banheiro. Mulder também.

SCULLY: - (ERGUENDO AS SOBRANCELHAS) Ela está rindo do Frajola! Mulder, crianças costumam rir de desenhos animados!

MULDER: - Ela não está olhando pra TV!

SCULLY: - Claro que está!

Mulder puxa Scully pela mão. Os dois agacham-se na frente da TV, observando a filha. Victoria olha pro outro lado, rindo.

MULDER: - (PREOCUPADO) Tá vendo?

Scully tenta ver do que Victoria ri, mas muda sua fisionomia ao perceber que a filha olha pra parede vazia. Scully senta-se no chão, catatônica. Põe as mãos no rosto.

SCULLY: - Eu não acredito! Ela é louca como o pai!

MULDER: - (NERVOSO) Ela não é louca! Ela é paranormal! Ela é uma vidente, Scully! E sinto por ela, porque de todos os dons, o de ver coisas é o pior deles!

SCULLY: - Mulder, acho que você está influenciando a menina com essas suas histórias!

MULDER: - E como eu vou influenciar uma criança com pouco mais de um ano?

SCULLY: - Mulder, seja o que for, vou levá-la ao médico!

MULDER: - Ela não está doente, Scully!

SCULLY: - Pode ser estrabismo, ou...

MULDER: - (INDIGNADO) Pelo amor de Deus!

Mulder levanta-se, furioso. Encara Scully.

MULDER: - Não se preocupe, Scully. Vai passar. Ela tem uma mãe altamente científica para poder desenvolver dons. Mas com o tempo, eles voltam. E daí, você não vai poder ajudá-la.

Scully observa a filha, preocupada. O celular de Mulder toca. Ele atende.

MULDER: - Mulder..... (OLHA PRA SCULLY)... Quando encontraram o corpo?

Scully olha pra ele.

MULDER: - Já estamos indo.

Mulder desliga. Olha pra Scully.

MULDER: - Procure Albert Damon naquela lista. Aposto que vai encontrar.


9:57 P.M.

Mulder tira a mamadeira da boca de Victoria. Ela já está dormindo. Mulder a embala, caminhando de um lado pra outro no quarto, observando a parede vazia que Victoria olhava.


11:17 P.M.

Scully entra no quarto. Victoria dorme na cama. Scully aproxima-se e dá um beijo nela. Vai pro banheiro. Mulder está mergulhado na banheira, olhar ao longe. Scully encosta-se na porta e cruza os braços.

SCULLY: - (DEBOCHADA) O que está ‘vendo’, Mulder?

MULDER: - Nada. Estou pensando no quanto admiro a paranormalidade. Mas apesar disso, eu não queria que acontecesse com a minha filha. Poderia ser qualquer outro dom, até o de escutar coisas. Mas não a visão, Scully... Isso é horrível!

SCULLY: - ...

MULDER: - ...Também estava pensando no que vai me dizer sobre a autópsia.

Scully abaixa a cabeça. Mulder olha pra ela, debochado.

MULDER: - Parada cardíaca?

SCULLY: - ...

MULDER: - Scully, numa cidade de pouco mais de 700 habitantes, é bastante estranho tantos ataques cardíacos. Ou eles comem carne demais e têm altas taxas de colesterol ou há algo por aqui que sua ciência não explica.

SCULLY: - Desculpe.

MULDER: - ... Não me peças desculpas, é sua função me questionar. É assim que as coisas funcionam. Preciso da sua visão racional pra não quebrar a minha cara.

SCULLY: - Misturei trabalho com nossa vida particular.

MULDER: - Como se ambos não estivessem ligados!

SCULLY: - ... Se eu entrar nessa banheira vou ser perdoada?

MULDER: - (DEBOCHADO) Está tentando conseguir complacência através da sedução?

SCULLY: - (PERVERSA) ... Vou?

MULDER: - ... Scully, sabe que vai. Eu não tenho caráter mesmo.

Scully sorri.

SCULLY: - Vinho?

MULDER: - Uau! Teremos uma festinha por aqui?

SCULLY: - Tudo bem, se você não quiser...

MULDER: - Scully, entre já nessa banheira! E se comporte.

SCULLY: - Mulder, sabe que não consigo me comportar.

MULDER: - Nada de barulhos.

SCULLY: - Tá, nada de ‘barulhos’.


BLOCO 4:

11:48 P.M.

Victoria acorda-se. Balança os bracinhos, olhando pra TV. Acompanha com os olhos. O Tom corre atrás do Jerry. Ela dá um sorriso. Olha pra cima e continua sorrindo. Dá um sorriso bem alto. Acompanha alguma coisa com os olhos.

Corta para o alto da cama, onde, abaixo do teto, um anjo de branco, totalmente translúcido, flutua. Victoria sorri. O anjo sorri pra ela. Estende sua mão brincando com a menina.

Mas as atenções de Victoria voltam-se pra porta. Ela franze a testa, ameaçando um choro. O velho entra e pára ao lado da cama. Coloca a mão sobre o peito de Victoria. Ela começa a sentir falta de ar. Mulder sai do banheiro e olha pra filha, mas não vê o velho.

MULDER: - Victoria, o que está...

Victoria está ofegante. Mulder arregala os olhos.

MULDER: - (GRITA) Scully, pelo amor de Deus, alguma coisa está errada com a Victoria!

Scully sai correndo do banheiro, vestida num robe. Aproxima-se da cama e pega a filha.

SCULLY: - Victoria?

Victoria continua respirando com dificuldades.

SCULLY: - (DESESPERADA) Mulder, chame uma ambulância! Ela não está respirando!

Mulder corre pro telefone. O anjo aproxima-se por trás de Scully e coloca a mão sobre o peito de Victoria. Ela volta a respirar. O velho sai do quarto, mas eles não o vêem.


9:31 A.M.

Scully e Mulder, ainda acordados, observam a filha dormir. Mulder está triste. Scully preocupada.

SCULLY: - Eu não entendo... O médico não constatou nada de errado...

MULDER: - Nem haveria como.

SCULLY: - ... Mulder, quer me explicar o que aconteceu?

MULDER: - Você sabe o que aconteceu.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Vou pra Washington com ela.

MULDER: - Tarde demais, Scully.

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - Ele tocou na Victoria e te seguirá onde quer que for com ela.

SCULLY: - Mulder, está me assustando...

MULDER: - Precisamos parar com isso.

SCULLY: - E o quê você sugere?

Mulder levanta-se.

MULDER: - Cuide dela, preciso sair.

Mulder sai. Scully faz carinhos na filha. Começa a chorar.


Igreja São Martin – 11:54 A.M.

Scully entra com Victoria. Há um padre, preparando o altar. Scully aproxima-se dele. O padre olha pra Scully e percebe que ela está chorando.

SCULLY: - (DESESPERADA) Precisa ajudar minha filha.

O padre vai até ela. Victoria está inconsciente nos braços de Scully. O corpo amolecido e pálido.


1:18 P.M.

Mulder entra na igreja, apressado. Scully está ajoelhada, rezando com a filha inconsciente nos braços. Mulder quando vê o estado de Victoria, pára. Não consegue se mover. Começa a chorar. O padre vai até ele.

PADRE: - Levaram a menina ao hospital?

Mulder olha pra ele com raiva.

MULDER: - Sabe por que não acredito em vocês?

PADRE: - ...

MULDER: - Porque são mais céticos do que os cientistas!

PADRE: - Filho, não estou...

MULDER: - Não sou seu filho.

Mulder caminha até Scully.

MULDER: - Vamos embora, Scully. Não vai achar solução alguma nesse lugar.

Scully levanta-se. Olha pra Mulder, em desespero.

SCULLY: - Se não achar aqui, Mulder, acharei aonde?

MULDER: - Vamos embora.

Scully continua parada. Olha pra ele com raiva.

SCULLY: - Poderia acreditar em Deus por um minuto?

MULDER: - (RI) Deus? Que Deus Scully? (APONTA PRO PADRE) O Deus desse janota de saias cético?

SCULLY: - Não, Mulder... O meu Deus!

Mulder olha pra filha. Chora. Pega-a nos braços.

MULDER: - Seu Deus, Scully, não existe. Porque mata criancinhas. Porque é covarde!

O padre vai até Mulder.

PADRE: - Não admito blasfêmias aqui dentro!

MULDER: - E admite que uma criança morra porque não pode fazer nada? Ora, meu amigo, sua fé é menor do que a minha!

Mulder sai da igreja com a filha nos braços. Scully olha pra imagem de Maria com Cristo nos braços e ajoelha-se chorando.

SCULLY: - Não tire a minha filha de mim, por favor! ... Por favor, a senhora sabe a dor de perder um filho!

O padre entra na sacristia, indiferente. Scully continua rezando e chorando.

[Som: Believe – Lenny Kravitz]

Corta pra Mulder, do lado de fora da igreja. Ele chora, andando de um lado pra outro, com Victoria nos braços. Uma mulher, de feições belas, passa por ele, entrando na igreja. Mulder olha pra ela.

MULDER: - (ÓDIO) Desista. Não há nada aí dentro.

A mulher pára. Volta até Mulder.

MULHER: - Como?

MULDER: - Não existe nada aí dentro. Só ilusão!

A mulher olha pra Victoria.

MULHER: - O que aconteceu com a menina?

MULDER: - Simplesmente apagou e nada a traz de volta. Nem médicos e nem esse idiota aí dentro.

MULHER: - Não julgue o todo pelas partes. Cada pessoa tem sua fé. Deus não tem culpa se padres e igrejas são omissos.

MULDER: - Então tenta explicar isso pra um pai desesperado!

MULHER: - Não posso explicar. Você não quer entender. Entendo que não acredite em padres e religiões. Mas tem fé. Acredita em algo superior a isso tudo.

Mulder afasta-se. Vai até o carro. A mulher o segue.

MULHER: - Vai pra onde, pai?

MULDER: - Pra qualquer lugar fora daqui, tentar trazer minha filha de volta. Vou tentar com os Kardecistas, os Umbandistas, Budistas ou com os Protestantes! Não me importa com quem, desde que minha filha fique viva!

A mulher olha pra Mulder, com piedade. Aproxima-se dele. Olha pra Victoria. Afaga seus fiapinhos de cabelo.

MULHER: - Vai, pai. Mas se não tiver fé, nada vai acontecer.

MULDER: - Ora, não me amole, senhora. Vá rezar pro seu Papa! Eu preciso levar minha filha pra um hospital.

MULHER: - ... Desculpe, só queria ajudar. Foi a Dana quem me chamou.

MULDER: - É médica? (RI) Não acredito em medicina, minha senhora, não depois de tudo que vi.

MULHER: - Acho que acredita muito mais na ciência do que sua mulher, sabia? Porque ela está rezando, enquanto você tenta pensar pra qual hospital deve levar sua filha.

A mulher afasta-se e entra na igreja. Mulder deita a filha no banco de trás do carro e olha pra ela, aos prantos.

MULDER: - Deus, a culpa disso é minha! Eu sacrifico você na minha busca! Você é só uma criança e eu não tenho um pingo de juízo ao envolver você nisso tudo!

Mulder chora. Scully aproxima-se do carro.

SCULLY: - Mulder, vamos levá-la embora daqui.

Mulder abraça-se em Scully.

MULDER: - A culpa é minha, Scully! Só minha! Deus, eu sou um pai bem pior do que o meu!

Victoria se acorda. Eles não percebem.

SCULLY: - Mulder, sou tão culpada quanto você. Eu sou a mãe, eu deveria estar com ela em casa e abandonar tudo isso!

Victoria sorri. Eles olham pra filha. Mulder a toma nos braços. Scully abraça-se nele e os dois choram olhando pra Victoria.


Motel River – 12:37 A.M.

Mulder entra no quarto. Scully está abraçada na filha, enquanto brinca com ela. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Como ela está?

SCULLY: - Está bem.

MULDER: - Por que ainda não foi embora?

SCULLY: - Onde esteve a tarde toda?

MULDER: - Recolhendo cadáveres... Scully, vigiamos todas as casas e mesmo assim... Dois homens da lista sofreram parada cardíaca. Não chegaram nem ao hospital... Eu quero que pegue suas coisas e volte pra Washington.

SCULLY: - Não sem você.

MULDER: - Me esqueça, Scully! A prioridade aqui é Victoria!

SCULLY: - Vocês dois são a minha prioridade, Mulder.

MULDER: - Scully, sabe que não posso sair daqui e não é porque não queira! Por mim, deixaria esse caso, mas preciso trabalhar!

Mulder senta-se na cama. Coloca as mãos no rosto, nervoso. Scully aproxima-se dele, segurando Victoria e o abraça.

SCULLY: - Eu volto. Mas saiba, Mulder, que ainda resta uma pessoa, e não há nada que você possa fazer pra impedir.

MULDER: - Eu te amo. Desista disso. Saia do FBI, cuida da nossa filha...

SCULLY: - Nunca.

MULDER: - Teimosa.

SCULLY: - Eu sou. Mulder, correr atrás disso tudo é minha vida! Não posso desistir. Estou tentando conciliar tudo, mas eu... (CHORA)

Mulder a abraça.

MULDER: - Vamos segurar essa juntos, tá legal? Só dessa vez você volta. (DEBOCHADO) Eu voltaria, mas confesso que não sei fazer sopa pra Victoria.

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Ela odeia a minha comida, Scully!

Victoria agarra o nariz dele. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Até minha filha sabe que sou narigudo.

SCULLY: - Ela faz isso porque ama esse pai doido.

MULDER: - Ela merecia um pai melhor.

SCULLY: - Não há pai melhor, Mulder. Você é o último exemplar da espécie.

MULDER: - O amor é cego.

SCULLY: - Surdo e burro também.

Os dois trocam um beijo. Mulder pega a filha nos braços.

MULDER: - Que tal um café?

SCULLY: - Hum... Que tal alguma coisa pra jantar?

MULDER: - Não jantou ainda?

SCULLY: - Não. Estava te esperando.

MULDER: - Sou um péssimo... Como define alguém que vive com você, tem uma filha com você e que não é casado com você?

SCULLY: - Não defino. Apenas amo.

MULDER: - Não quer se casar, Scully?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mulder, impressão minha ou quer ter um papel que prove que te pertenço?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não gosta de provar tudo?

SCULLY: - Não sou sua propriedade, Mulder! ... E depois eu não quero ter seu sobrenome. Vai ficar muito confuso pra minha cabeça. E confesse, não combina com Scully! São duas pessoas diferentes.

MULDER: - E se me chamar de Fox?

SCULLY: - (RI) Depois de tanto tempo? Não, eu não conheço nenhum Fox.

MULDER: - Tudo bem, também não conheço nenhuma Dana.


Restaurante do Motel River – 1:13 A.M.

Mulder toma um café. Victoria está no colo dele, brincando com sua gravata. Scully come um sanduíche.

SCULLY: - Acho que estou saindo de forma, sabia?

MULDER: - O que diz de mim, Scully? Tratado a mousse de maracujá?

SCULLY: - (RI) Mulder, eu jamais, mas nem sequer por um momento, poderia imaginar essa cena que está acontecendo hoje aqui! Eu e você juntos? Com uma filha?

MULDER: - Se arrependeu, né? Confessa, Scully.

SCULLY: - Nunca, Mulder. A maneira como nos conhecemos... Ainda bem que optei pelo FBI. Acho que... acredito no destino, sabia? Tomamos decisões na vida sem saber o porquê e depois disso... percebemos que era o caminho a ser tomado.

Um homem entra no restaurante. Aproxima-se do balcão e pede um café. Victoria olha pra ele, por sobre o braço de Mulder. Mulder e Scully continuam conversando. Victoria olha pra Scully. Olha pra Mulder. Puxa a gravata dele.

MULDER: - Ai, filha, quer me degolar agora? Sei que mereço, mas...

Mulder percebe que Victoria franze a testa, ameaçando chorar. Mulder olha pra ela. Ela vira-se olhando séria pro homem. Mulder vira-se e olha pro homem. Levanta-se. Mulder entrega a filha pra Scully, que fica olhando pra ele sem entender. Mulder aproxima-se do homem.

MULDER: - Então, desgraçado, achou um novo disfarce?

O homem olha pra ele.

HOMEM: - Não o conheço. O que quer?

MULDER: - Não pense que vou perguntar o mesmo.

Mulder puxa as algemas e algema o homem.

HOMEM: - Ei, o que está fazendo?

Scully levanta-se e vai até Mulder.

SCULLY: - Mulder, o quê...

Victoria começa a chorar, desesperada.

MULDER: - (GRITA) Tira ela daqui, Scully!

Scully vai até a porta. Mas a porta fecha-se. As janelas também. Mulder olha pro homem. Os olhos do homem ficam vermelhos, com a retina como se fosse um olho de gato. Mulder se afasta dele. O chão começa a tremer. O homem solta-se das algemas e urra, um som infernal. Scully encosta-se na parede, agarrando Victoria e protegendo-a.

HOMEM: - Vou levar o que me pertence! E levarei sua filha porque preciso dela. Ela é especial.

MULDER: - ...

HOMEM: - Seria melhor que a entregasse pra mim. Poderia lhe dar as verdades que procura.

MULDER: - Não existe preço pra ela! Nem todas as verdades que possam existir!

HOMEM: - Você pode fazer isso. Sei que quer fazer isso. Quer a verdade. E você também me pertence porque acredita em mim!

MULDER: - Eu não acredito em você!

O homem lança um olhar fulminante em Mulder. Mulder põe a mão sobre o peito, ficando sem ar. Scully está assustada.

SCULLY: - (GRITA) Mulder!

Mulder sinaliza pra Scully ficar ali.

HOMEM: - Me dê a menina!

MULDER: - Pode me levar, seu desgraçado, mas nunca levará a minha filha!

Um vento forte começa a soprar dentro do restaurante, atirando as mesas contra a parede e Mulder com elas. Mulder cai no chão. Uma das mesas cai sobre ele. O homem vira-se pra Scully e caminha em direção a ela. Scully protege a filha com o corpo, fecha os olhos e começa a rezar. Victoria chora desesperada. Mulder levanta-se e corre até ele. É arremessado contra a parede novamente. Mulder luta contra a força que tenta segurá-lo. Mas continua contra a parede. O homem aproxima-se de Scully e Victoria. Mulder olha pra elas e o desespero em defendê-las é maior. Ele consegue se desvencilhar.

MULDER: - Deixe a minha família em paz!

O homem vira-se pra ele. Olha-o. Mulder evita olhar pra ele.

HOMEM: - Conheço sua alma, conheço você. Já olhou em meus olhos uma vez. Você daria tudo pra continuar na vida que levava! Você não as quer. Nunca quis! Elas atrapalham sua busca!

MULDER: - Mentira!

HOMEM: - Você sabe que é verdade.

SCULLY: - Mulder, não dê ouvidos à ele! Quer iludir você, vai se aproveitar das suas fraquezas!

HOMEM: - Você é um covarde, destruiu a vida de sua mulher e destrói a vida de sua filha! Você as colocou nisso.

SCULLY: - Mulder, não dê ouvidos!

MULDER: - Volte pro lugar de onde nunca deveria ter saído!

HOMEM: - Eu sou uma legião e levarei você comigo.

MULDER: - Você não vai levar nada.

HOMEM: - Não acredita que exista um Deus que possa te salvar. Mas acredita em mim e sabe que eu levo aqueles que me pertencem.

Mulder olha nos olhos dele.

MULDER: - Só acredito numa coisa: no amor que tenho por elas.

O homem olha pra Mulder. Começa a arder em chamas e desaparece. A porta abre-se, as janelas também. Scully olha pra Mulder, em prantos e assustada. Mulder vai até ela.

MULDER: - Vamos embora daqui, Scully. Deixe que os mortos enterrem seus mortos.

Eles saem do restaurante abraçados.


Estrada Interestadual – 3:48 A.M.

Mulder dirige. Victoria dorme no banco de trás. Scully olha pra Mulder.

SCULLY: - Como vamos explicar isso?

MULDER: - Não vamos.

SCULLY: - ... Ele matou a última pessoa da lista...

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - Scully, quando falar com aquela médica que chamou, peça desculpas a ela pelo que lhe disse.

SCULLY: - Que médica?

MULDER: - Aquela mulher que foi até a igreja falar com você. Ela disse que você a chamou.

SCULLY: - Que mulher, Mulder? Eu não chamei ninguém!

Mulder olha pra ela, assustado.

[Fusão]

Mulder olhando para a bola de cristal. Ergue os olhos e olha pra Silvia.

MULDER: - (SORRI) Muito bonita a sua história. Conto interessante.

SILVIA: - Não é um conto. É seu futuro.

Mulder levanta-se.

MULDER: - Sinto muito, mas não acredito no futuro.

Silvia vai até ele. Olha em seus olhos, segurando as lágrimas. Beija-o na testa.

SILVIA: - Pena não ter conhecido você antes, Mulder. Mas é assim que a vida funciona. Só nos revela o que quer e quando quer.

Silvia passa as mãos no rosto dele. Olha-o com ternura.

SILVIA: - Você é mais bonito do que imagina. Foi um prazer conhecer você. Pena que as coisas que lhe disse hoje, serão esquecidas. Não vai se lembrar delas amanhã pela manhã. Nunca vai provar que estive certa, porque não vai se lembrar mais de mim... Mas um dia nos veremos novamente, Mulder. E nem eu me lembrarei de você e dessa noite. Mas nossas almas sempre se lembrarão, em cada gesto que tivermos um com o outro. Porque não é de agora que nos amamos. É de muito, muito tempo. Um amor forte demais. Sou parte de sua alma e parte de uma alma que te ama.

Mulder olha pra Silvia sem compreender nada. Sai da barraca.

[Som: Believe – Lenny Kravitz]

Scully está do lado de fora.

SCULLY: - Então, Mulder? Descobriu o seu futuro?

MULDER: - Você tinha razão, Scully. Ela é uma farsante.

Os dois caminham até o carro.

SCULLY: - O que o fez mudar de ideia, Mulder?

MULDER: - O que ela disse.

SCULLY: - E o que ela disse?

MULDER: - ... Que eu tenho conserto, Scully.

Os dois entram no carro. Mulder está sério e abatido.

[Som: Believe – Lenny Kravitz]

Silvia os observa partindo. Ela chora. Entra na barraca e senta-se em sua cadeira. Serve um chá. Olha aflita para a porta.

Um homem entra correndo, segurando uma arma. A polícia entra atirando.

A bala acerta em Silvia. Ela cai no chão, ensanguentada. Põe a mão sobre o peito e fecha os olhos.

SILVIA: - (MURMURA) ... Verei você de novo algum dia, papai.

Fade out.


29/01/2000

30 de Novembro de 2018 às 20:11 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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