O Relógio de Cordão Seguir história

kamysouza Kamy Souza

Bethany recebeu uma grande herança de sua última familiar, a avó de quem se afastou há anos por sua esquisitice, mas no segundo dia de estadia na casa herdada, ela percebe que as manias de sua avó não eram tão sem fundamento, ao mesmo tempo em que o relógio de bolso que ela sempre levava em um cordão preso ao pescoço começa a girar suas engrenagens. - História também postada no Nyah! Fanfiction e Wattpad com o mesmo nome de usuário - DESAFIO O SENHOR DAS AMPULHETAS • GRUPO CANETA TINTEIRO


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#romance #fantasia #drama #época #viagem-no-tempo #século-XVIII #romance-de-época
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Capítulo Único


O casarão era exatamente o mesmo que me lembrava de muitos anos atrás. Não tinha dúvidas de que ele já havia tido seus dias de glória, mas agora, não passava de uma carcaça velha e mofada, com sua fachada em madeira apodrecida, vidraçarias sujas e pintura gasta. Em seu interior, o cheiro também permaneceu o mesmo, de velas, chá e livros empoeirados, o último, bastava um olhar para o lado, logo na porta de entrada, para ver de onde vinha.

A sala era o único lugar em que ainda se mantinha uma certa “majestade”, com suas prateleiras altas, do chão ao teto, repletas de exemplares colecionáveis dos mais variados gêneros textuais. Em seu centro, uma poltrona confortável em couro bronze e uma mesinha, pareciam solitários em meio ao grande cômodo.

Me aproximei, encontrando sobre a mesa o relógio de bolso preso ao cordão de prata que ela tinha a todo momento guardado com cuidado em volta de seu pescoço, e que vezes ou outra, olhava com tanto apreço que poderia se pensar passar de uma velharia. Mas era apenas isso, um relógio de bolso antigo e enferrujado, com engrenagens a mostra e estranhos ponteiros.

Vovó nunca me deixava tocá-lo, e agora estava ali, junto com o resto dos pertences que acumulou por toda a vida, deixado para mim, sua única parente viva. Era estranho vê-lo ali, assim como aquela sala e aquela casa, sem a presença dela. Se algo me surpreende, é que ela não o tenha levado ao túmulo consigo.

Um trovão soou lá fora e seu clarão refletiu nas janelas embaçadas, iluminando o céu de fim de tarde. Uma tempestade parecia vir. Nada mais digno que os céus chorarem por ela, sem dúvida, combinava com sua personalidade. Deixei o relógio de lado e segui para a cozinha, para me preparar um chá. Previa que passaria alguns dias ali, mais do que havia pensado inicialmente, e isso não me agradava nem um pouco.

Cada cantinho do lugar me trazia lembranças de minha infância. Foi entre as paredes daquele casarão decrépito que fui criada desde criancinha, após meus pais falecerem, em meio as manias e maluquices de minha avó, tantas essas, incluindo aquele relógio velho, que eu não hesitei em ir embora quando surgiu a oportunidade de estudar em um colégio interno, e após, em entrar para uma faculdade ainda mais distante. Me mudei para a cidade grande e nunca mais voltei, nunca mais olhei para trás, para ela, e agora, eu tinha perdido a única família que me restara, e me tornado apenas mais uma convidada de seu velório. Não havia dúvidas de que não havia sido uma boa neta, e continuava não sendo, já que tudo o que podia pensar, era em acabar com aquilo de uma vez, e voltar para a minha vida.

Deixei seus pertences de lado e decidi ir dormir, já estava tarde e o cansaço pesava sobre meus ombros, estava longe de acabar minha visita e não faria bem algum perder mais uma noite de sono. No refúgio de meu antigo quarto, exatamente como eu o havia deixado ao partir, chorei pela primeira vez desde que havia recebido a notícia de sua morte, até adormecer, envolvida no cheiro de chá, velas e poeira.

Infelizmente, a manhã chegou mais rápida que o descanso em meu corpo. Parecia que mal havia fechado meus olhos, inchados pelo choro, e já os abria novamente, com a luz do sol entrando pela janela do quarto e o meio do dia já passando.

Após o café da manhã, não tardei a voltar para minha tarefa, me dedicando por vez a biblioteca. Tinha alguns livros raros ali, herdados de pais para filhos, e agora, por mim. Rodei a sala com um caderninho e caneta em mãos, anotando os nomes dos exemplares empoeirados, por muito tempo não lidos, até me cansar de subir e descer a escadinha para ver as prateleiras mais altas, e me sentar na poltrona gasta, mas ainda assim, confortável.

Voltei a encontrar o relógio, que havia me esquecido por completo, sobre a mesinha. Quando criança, tudo o que queria era colocar minhas mãos nele, saber porque era tão especial, agora, era só uma velharia que não me prendia atenção.

O segurei, sentindo seu peso em minha palma, o material de ferro gelado e pesado, e observando seu exterior, sem grandes adornos a sua volta, o tom prateado envelhecido e arranhado. Mexi os ponteiros, eles não marcavam horas, minutos ou segundos como os relógios comuns, sua lógica me parecia confusa, assim como seu propósito.

Bufei, irritada com um objeto e estava a ponto de largá-lo solitário de volta à mesa quando notei os ponteiros que a pouco havia alterado, de repente, se moverem sozinhos, girando e girando, como se tivesse dado corda, mas nada havia sido feito. Com mais surpresa ainda, olhando em volta com os olhos arregalados e a mente imparável, observei a sala acompanhar seu movimento.

A observei em seu constante movimento acelerado, com vultos circulando de um lado a outro, em uma neblina brilhante que me ofuscava a vista. Mal podia compreender o que se passava diante de meus olhos, o que estava acontecendo a minha volta.

Os móveis se movimentaram pela sala, como se eu visse um filme passar diante de mim, em que ela fosse constantemente modificada, com apenas as estantes permanecendo no mesmo lugar de origem. Eu mesma não havia ficado intacta, minhas roupas deram lugar a um vestido azulado, tão apertado que quase me prendia a respiração. Luvas brancas com comprimento acima de meu cotovelo surgiram em minhas mãos e senti meus cabelos se prenderem magicamente, deixando meu pescoço e ombros expostos.

Quando tudo parou, me levantei e olhei ao redor. Era definitivamente o mesmo lugar, mas outros móveis mobiliavam a sala, como um par de poltronas esculpidas com forro creme, cortinas pálidas pesadas adornando a janela com vista para um extenso gramado do lado de fora, e arranjos de flores sobre a mesa de centro e próxima as duas portas que levavam a outros cômodos. Além disso, o lugar parecia muito mais limpo do que o que eu havia acabado de estar, além de estar muito mais bem cuidado e conservado, como se fosse uma melhor versão da que eu conhecia, ou outro momento dela.

Minha mente vagou, buscando por explicação, a imagem das engrenagens girando me remetendo a sensação que havia acabado de passar. Era como se enquanto os ponteiros giravam, a sala tivesse feito o mesmo… Retrocedendo no tempo.

— Oh, oi.

Me assustei com a voz que surgiu as minhas costas, quase tão surpresa quanto seu tom. Girei sobre os calcanhares para me encontrar com o dono dele, parado ainda sob o batente da porta, um homem aparentando estar em seus vinte e poucos anos, com cabelos negros e olhos azuis, me olhava com o cenho franzido e um sorriso maroto.

— Já nos conhecemos? — perguntou me circundando, os olhos felinos correndo de meus pés a cabeça.

— Acredito que não. — Engoli em seco, ainda tão afetada com toda a situação, sem compreender o que havia acabado de me acontecer, que não tinha nem espaço para me sentir constrangido sob o seu olhar, como normalmente aconteceria.

— Você tem razão, eu me lembraria. Claramente, não é uma garota fácil de esquecer. — Parou a minha frente, vestia calças claras com botas marrom escuras que terminavam abaixo de seu joelho, colete de mesma cor e casaco negro por cima. — Deixe-me me apresentar. — Estendeu a mão a minha frente, curvando ligeiramente o corpo, estendi a minha relutante, tendo minha mão enluvada segurada delicadamente pela sua. — Sou Connor Davies.

Davies? Eu sou uma Davies. Estaria eu falando com um de meus antepassados? Como raios aquele reloginho poderia ter feito algo tão incrível? A ficha estava caindo, mas talvez eu tivesse tido um surto psicótico, quem sabe.

O observei admirada, enquanto se abaixava ainda mais para dar um beijo no dorso de minha… luva.

— Você me dará o prazer de saber o seu nome? — perguntou, após me notar permanecer calada.

Abri minha boca para respondê-lo, mas fomos cortados por um segundo garoto, que entrou na sala apressado, apenas para parar bruscamente ao encontrar nós dois no centro dela. Loiro de olhos azuis, pouco mais baixo que Connor, e vestindo roupas semelhantes, em tons de preto e cinza, se aproximou com um sorriso cordial.

— Olá. Eu sou Anthony Johnson. — cumprimentou hesitante. — Não sabia que estávamos recebendo visita. Perdoe-me, senhorita…?

— Bethany Davies. — cumprimentei de volta com um sorriso afetado.

— Hun. — Connor exclamou surpreso. — Somos parentes? Primos, talvez. Distantes, espero.

O flerte em seu tom, palavras e gestos era claro, Connor não estava preocupado em despistá-lo, muito pelo contrário, e eu começava a me contagiar por ele, sorrindo de volta.

— Perdoe meu primo, ele nunca aprendeu a se comportar na presença de damas. — Anthony se desculpou, mandando um olhar enviesado ao outro. Lhe sorri. — Se me permite perguntar, — Anthony continuou, com uma expressão confusa. — Como veio parar aqui sem que ao menos soubéssemos de sua presença? Estava com Connor, então não teria como ele recebê-la, e se tivéssemos visita, teríamos sido informados.

— Oh. Ah, sim. — Pense. — A porta estava aberta, então… eu entrei e esperei que alguém aparecesse, e aqui estão vocês! — Inventei uma desculpa, percebendo o quão absurdo eram as palavras assim que deixavam minha boca.

— Esses garotos. — Uma mulher surgiu as suas costas, adentrando a sala junto a nós. — Já os falei para tomarem cuidado com a porta, mas não escutam. — Com os mesmos olhos e cabelos que Connor, imagino que seja sua mãe. — Desculpe, querida, mas quem é você?

— Olá, senhora, Johnson, perdão a intromissão, eu sou Bethany Davies.

Uma viajante do tempo que aparentemente tem algum grau de parentesco com a senhora. Será que pode me receber em sua casa até que eu descubra como voltar para a época em que ela é minha?

— Bethany? — Apoiou a mão no queixo pensativa, erguendo os olhos para o teto. Ela era uma mulher roliça e muito elegante, vestida com um vestido de rendas e seda salmão, o rosto, bem maquiado, gentil. — Meu primo John, tinha uma Bethany! Oh, querida, sinto muito por sua perda! — Prendi o ar. Santo primo John! — Achei que você iria com a pobrezinha de sua mãe e irmãs ao convento. — acrescentou, com o olhar cheio de pesar e dúvida.

— Ainda bem que não foi. Uma beleza dessas não deveria ficar escondida atrás de um hábito. — Connor comentou, levando uma cotovelada de Antony e cara feia da Sra. Johnson, me fazendo prender o riso.

— Vejo que já conheceu meus meninos, Bethany. Anthony, meu filho, e Connor, meu sobrinho inadequado que está conosco por uma temporada. Por favor, não os dê atenção e me diga a que devemos sua visita. — insistiu em tom polido.

— Eu pensei que não teria problema visitá-los por um tempo, tia. Eu realmente não gostaria de ir para o convento. — me expliquei, com mais mentiras, esperando que ela engolisse.

— Ah, mas não há problema algum! — Ela se aproximou, passando o braço ao redor de meus ombros. — Já entendi. Vou te arrumar um bom marido rapidinho, será bem mais fácil do que com esses rapazes! — Arregalei os olhos para as palavras ditas alegremente.

— Não é bem isso que tinha em mente. — Me desvencilhei, tentando me livrar da situação, uma risada nervosa me escapando.

— Como não? Com quanto anos a mocinha está? Imagino que já não esteja mais na flor da idade com os seus 16. Não queremos esperar até que não seja mais interessante para os rapazes. — sussurrou a última parte, não tão discreta quanto provavelmente pensou estar sendo.

Dei uma olhada para os dois garotos ainda na sala, concentrados em nossa conversa, enquanto minhas bochechas ardiam.

— Na verdade, eu tenho 22, mas ainda assim, preferia não ter que fazer isso agora. Tudo o que preciso é de um pouco de paz e calmaria. Pela morte de meu pai. — acrescentei rapidamente.

Quanta blasfêmia, meu Deus! Estava usando o pai morto de outra garota para me dar bem ali, sem dúvidas agora não tinha mais retorno para mim, estava condenada.

— Besteira, se quisesse mesmo paz e calmaria, teria ficado no convento com a viúva. Agora vamos que eu lhe mostrarei seu quarto. Onde estão suas malas? — Olhou em volta às procurando pela sala, assim como os outros dois.

Como se uma lâmpada se acendesse sobre minha cabeça, como nos desenhos animados, mais uma ideia surgiu para contornar toda a minha situação. Mais uma mentira, é claro.

— Fui roubada no trajeto. Perdi tudo o que tinha. — Fiz minha melhor cara de tristeza. Eu não seria uma boa atriz, mas agora desejava ter tido essa vontade e melhorado minhas habilidades de mentirosa.

— Não tudo, pelo visto.

Me virei para olhar Connor próximo a mesinha que outrora estava sentada. Ele tinha erguido a sua frente, pelo cordão, o relógio de bolso velho que tinha me levado aquela maravilhosa confusão, e o olhava com curiosidade.

— Que curioso, mamãe tem um relógio de bolso idêntico ao seu, mas em bem melhores condições. Pena que não vai conhecê-la, saiu em uma viagem pelo mundo, acredita? Mas me diga, onde o conseguiu? — questionou, minha tia.

Talvez aquele em tão boas condições fosse o meu mesmo de anos atrás, certo?

— Minha avó me deu em meu aniversário. — respondi com naturalidade, torcendo para que não achassem o assunto interessante e o deixassem de lado.

— Isso não me surpreende, afinal, elas foram criadas juntas nessa casa, por que não dividiriam a loucura? Só nessa família para achar que uma garota gostaria de um relógio velho de presente. — resmungou tomando a dianteira do caminho. — Vamos, pobrezinha.

Pobrezinha, coitadinha, ou sinônimos, não era algo que eu normalmente aceitava muito bem em receber como adjetivos, mas dessa vez, baixei a cabeça e a segui, até uma exclamação me chamar a atenção de volta.

— Ei, se serve de algo, não acho que você tenha nenhum atrativo a menos que uma garota de 16 anos, muito pelo contrário. — Connor afirmou, enquanto Anthony rolava os olhos às suas costas.

Lhe sorri em resposta, e honestamente, poderia ficar ali, sendo alvo de seus flertes e frases desconcertantes por muito mais tempo, se não fosse pela senhora Johnson me chamando corredor a frente.

~’~

Eu fui levada zero por cento, a sério. Em minha primeira noite, passei ótimos momentos com aquela família, momentos que eu nunca havia tido em minha vida por sermos só eu e minha avó, e não um grupo como aquele, com o Sr. e Sra. Johnson, Anthony e sua irmã e Connor. Durante a manhã seguinte me divertir correndo com os dois rapazes pelo gramado, fazendo brincadeiras e sendo repreendida pela Sra. Johnson. Já em minha segunda noite, fui surpreendida com uma “pequena reunião” para a qual deveria me aprontar com um vestido emprestado da Srta. “Boneca de Porcelana” Johnson, e como havia passado durante aquele tempo, mantive o relógio preso em volta de meu pescoço, tomando cuidado para não perdê-lo de vista ou mexer em seus ponteiros novamente.

Se a Sra. Johnson tivesse sido honesta, como Antony foi em me explicar o que estava acontecendo, ela diria ter me preparado uma reunião de apresentação aos homens da redondeza que valiam a pena ser apresentada. Ela estava tentando me casar, mesmo após eu ter dito que não era o que queria.

Não que eu pudesse realmente conseguir o que queria ali. Depois de algumas avaliações, com meu básico recurso histórico, e embasamento em livros e filmes, cheguei a conclusão de que havia ido parar dentro de uma obra de Jane Austen.

Tive minha mão beijada por uma dezena de homens, alguns com barbas e bigodes bem ásperos que roçaram contra minha pele através da luva fina de renda, me causando arrepios de repulsa. Fui apresentada a velhos ricos e a jovens herdeiros e tentei manter conversas, mesmo que não estivesse no meu século de costume.

Meus pés doíam naqueles sapatos duros, mal conseguia comer com o espartilho, minhas costelas ardiam, não era possível respirar e eu só queria voltar pra droga daquela casa quando estava velha e caída, sem música, buffet e pessoas sendo simpáticas de um jeito muito esquisito, até Connor se aproximar as minhas costas, com aquele seu charme insuportavelmente galante e seu sorriso maroto.

— Você está morrendo? Porque parece que está com muita dor agora. — perguntou próximo ao meu ouvido.

— Talvez eu esteja. — Entrei em sua brincadeira, como o fiz desde o início daquele dia. — Está aqui para tentar me salvar?

— Achei que não precisasse ser salva, não disse ser uma mulher independente?

Sim, eu havia dito. Não estava acostumada as fragilidades impostas ao sexo feminino daquela época, e nem queria.

— Por isso eu disse tentar.

Com um sorriso de canto, me contornou parando a minha frente. Estava elegante com seu traje de festa e o cabelo bem penteado para trás, mas eu ainda gostava mais de como ele parecia em seu dia a dia, com um toque desleixado. Havia observado por toda a noite as garotas atrás dele, rindo de suas piadas, caindo em seu flerte incessante, completamente envolvidas em seu charme. Não me parecia que seria difícil lhe arranjar casamento, quando já tinha tantas pretendentes o cercando, como a Sra. Johnson havia dito, mas logo percebi, não eram as garotas o problema, era ele, que estava muito menos interessado em compromisso do que em conquistas.

— Anthony disse que eu deveria parar, que estou te incomodando, é verdade?

— Parar? Parar o que? — me fiz de boba com tom inocente.

— Você sabe do que estou falando. — Se aproximou, olhando intensamente em meus olhos. — Você é diferente das outras garotas, nunca conheci alguém como você. É como… se você tivesse vindo de um lugar completamente diferente, e estou fascinado por isso. Então, se você quiser que eu pare, precisa me dizer agora, antes que seja tarde demais para mim.

Se já não estivesse sufocando, teria perdido minha respiração sob aquele olhar atento. Controlei minha expressão, ou ao menos tentei, para não deixar transparecer como ele conseguiu me afetar.

— Bem… você não precisa parar.

~’~

Me sentia exausta, do tipo em que poderia fechar meus olhos e dormir por vários dias sentada em uma sala barulhenta. Quem diria que ter um bebê poderia ser tão cansativo?

Mesmo com toda a ajuda da Sra. Johnson, Anthony e com o Connor, que mais atrapalhava do que ajudava, para falar a verdade, já que assim que nossa filha ficava quieta ele a agitava novamente com sua palhaçada, meu dia parecia se consumir em um piscar de olhos, assim como minha energia. Connor também não estava aquém de seus efeitos. Entrei em nosso quarto e o encontrei dormindo como se o mundo tivesse acabado e tudo o que sobrara foi aquela cama. Escondido sob os lençóis, podia ver parte de seus ombros desnudos, seu cabelo negro emaranhado e o rosto adormecido, com a pele dourada de sol desbotada pelo tempo que, ultimamente, passamos dentro de casa.

Me deitei ao seu lado, sentindo todo meu corpo se afundando no colchão macio e meus membros finalmente relaxando. Ainda não era tarde, não passavam das nove da noite, mas qualquer momento que Poppy dormisse, era um bom momento para também dormirmos.

Nem mesmo troquei minhas roupas, me limitei a retirar os sapatos e aproveitar cada segundinho. Pelo menos, não teria um espartilho me apartando durante o sono, bendita hora que me rebelei contra ele poucos meses após minha chegada neste lugar.

Achei que não aguentaria ficar aqui por muito tempo, que logo precisaria urgentemente achar uma maneira de ir embora para meu século, mas ele mudou tudo isso.

Me virei para olhar Connor dormindo ao meu lado, com um sorriso bobo e muito irritante tomando meus lábios. Era inevitável, desde que ele começou a aparecer quando eu pensava nele ou o via, foi um caminho sem volta, ele nunca mais deixou de surgir. Na maior parte do tempo, isso é inofensivo, só um sorriso, mas ele me causou uns probleminhas também, como um grande escândalo ao engravidar fora de um casamento, contraceptivos não são tão comuns, populares ou funcionais no século XVIII. E por fim, me ver obrigada, ou não tanto por obrigação assim, a me casar com um homem muito charmoso.

Nada daquilo era o que eu tinha planejado para minha vida, mas eu não reclamaria, não podia imaginar nada de outra forma. Me inclinei em sua direção e beijei a pele macia do canto de sua boca, o sentido respirar profundamente contra meu rosto e se remexer no lugar quando voltei a me recostar.

Levei a mão ao peito, buscando pelo relógio preso no cordão em volta de meu pescoço. Ele havia se tornado meu maior companheiro durante aquele ano e meio que se passou, de modo que nem sentia mais seu peso pendendo sobre meu peito, ou o gelado de seu material contra minha pele, por isso, foi uma grande surpresa não encontrá-lo em seu devido lugar.

Frustrada por ter que me levantar, cogitei deixá-lo onde quer que estivesse e procurá-lo mais tarde, quando sabia que teria que levantar para olhar Poppy no quarto ao lado, berrando e perturbando a casa inteira, se não, a vizinhança, mas a falta de saber que ele não estava ali foi maior.

Joguei as pernas pela lateral da cama e me levantei, foi uma ideia melhor do que imaginei não retirar o vestido, afinal. Deixei o quarto tomando o cuidado para não fazer barulho e acordar Connor e fechei a porta do mesmo modo.

— Não consegue dormir? — Saltei no lugar, me assustando com a pergunta inesperada.

Anthony saia de seu quarto, de frente ao nosso, ao mesmo tempo que eu e não mediu o quão assustadiça posso ser, mesmo já tendo demonstrado algumas vezes que é bastante.

— Eu só esqueci algo no quarto da Poppy. — Dei de ombros, dando menos importância do que realmente tinha, se não, era óbvio que não me levantaria.

— Seu relógio? — A pergunta, que tinha mais haver com sua observação que com os poderes de adivinhação me chamou a atenção para minha mão que parecia ainda procurar o cordão no lugar de sempre. Confirmei. — Eu posso pegar pra você, se quiser. Vá descansar, parece que está precisando. — brincou em tom de chacota.

Além de Connor, ele era a pessoa que mais havia me aproximado ali, de modo bem diferente, mas tão profundamente quanto. Anthony havia se tornado mais que um bom amigo, mas família, que às vezes implicava comigo, assim como eu com ele, mas com quem divido grande carinho e proteção.

— Ah, obrigada. Você é realmente um bom amigo, Anthony, mas eu posso pegar, não se preocupe comigo. — Me juntei a sua brincadeira, seguindo para o quarto ao lado.

— Tudo bem, mas depois vá se deitar. Tenho certeza que meu amigo sente mais sua falta do que esse relógio velho.

— Eu posso aceitar o seu conselho. — Dei de ombros, lhe sorrindo por sobre ele antes de entrar no cômodo.

Cor de rosa e coelhinhos estavam por todo lado, me chocando um pouquinho, como sempre fazia, ao passar dos cômodos austeros da casa para aquele, com um berço branco no centro, onde Poppy, com os meus cabelos loiros e os olhos azuis de Connor, traços comuns aos Davies, dormia como um anjinho, diferente do pequeno monstro de quando estava acordada, sob um um móbile de nuvens delicadas. Um banco longo ocupava o espaço sob a janela, completando com uma cadeira de ninar em uma ponta e uma casa de bonecas grande na outra, dado por sua tia.

Me aproximei de Poppy com cuidado para não acordá-la e deslizei um dedo por sua bochecha fofinha. Era tão gorduchinha que dava vontade de morder e apertar, e tão encantadora que eu não queria desviar meus olhos nem por um instante. Era perfeita, de modo que eu mal podia acreditar ser minha.

Debruçada sobre o berço, olhando para o rostinho tão sereno quanto do próprio pai, quase me esqueci do que fui fazer ali, até perceber pendurado em uma das barras o relógio de bolso.

— Aqui está você.

Era estranho que eu sentisse a necessidade de agradecer um objeto por ter mudado minha vida? Muito. Mas de qualquer forma, ele era o principal responsável por toda a felicidade que eu sentia naquele momento. Nada daquilo seria possível sem ele, essa velharia que minha avó havia me deixado parecia uma vida atrás.

Esfreguei sua parte de trás, tentando dar uma polida para que melhorasse sua aparência e o virei de um palma para a outra voltando a observá-lo de frente, para suas engrenagens expostas e os ponteiros emaranhados que… senti meu corpo gelar, olhando fixamente para o objeto em minhas mãos, parecia que tudo a minha volta desmoronava. Não. Os ponteiros não podiam estar se mexendo! Eu não havia feito nada! Nem os tocado dessa vez, e ali estavam eles, se movendo sozinhos como dá vez que me levaram até ali. Isso nunca havia acontecido antes, por que o fariam agora?

Me agarrei ao berço de Poppy olhando para seu rosto que se turvava, não sei se pelas lágrimas que surgiam em meus olhos, ou pelo borrão que começava a minha volta.

— Poppy, não! — chamei por ela, a despertando e assustando.

Me pergunto como foi para ela, ver sua mãe desaparecendo a sua frente, sei que para mim, vê-la desaparecer foi a sensação mais aterrorizante de todas. Ela chorava, o rostinho se avermelhando, quando tudo se moveu, e eu novamente, estava viajando no tempo. Quando ela por fim desapareceu por completo, corri para fora do quarto, pelos corredores que eu me familiarizei em duas diferentes vidas. Adentrando em nosso quarto procurando por Connor, e em seguida, por Anthony, mas não encontrei nenhum dos dois, ou ninguém, além de vultos passageiros.

Tropeçando em meus próprios pés, agarrada ao relógio e desejando que aquela geringonça voltasse a funcionar direito, voltei para o começo de tudo, para a biblioteca, nos momentos finais de sua transformação. E então, tudo parou.

Eu não parecia ter voltado para o momento de início, apesar de vestir as mesmas roupas dele, a biblioteca não estava gasta e empoeirada como outrora, mas também não era a que havia me acostumado nos últimos quase dois anos. Poltronas novas estava no lugar da surrada poltrona bronze de minha avó, e das antigas da família Johnson.

Me apoiei contra as costas de uma delas, meu corpo inteiro tremendo, meu olhos molhados e a respiração falha. Não importava onde eu estava, só que eu precisava voltar.

— Bethany? Está tudo bem?

Levei um instante para reconhecer a voz e o tom. Estava diferente, não porque minha memória não se lembrava corretamente, ou porque havia a alterado com o tempo, ela soava como nunca soou antes.

Me endireitei e olhei para a porta, na direção de onde vinha sua voz. Parada sobre a luz artificial branca parecia pequena, mas muito bem, saudável e jovial, com os cabelos brancos amarrados em um rabo de cavalo, usando um vestido florido bonito e com um olhar indagador nos olhos azuis.

— Oi, vovó. Como…?

Meu braço pesou e o soltei ao lado do corpo, sem forças para manter o relógio próximo a mim. Seus olhos acompanharam o movimento, se arregalando ao perceber o que eu tinha em mãos.

— O que faz com isso? — perguntou severa, o tomando de mim.

— Você me deu, após morrer. — expliquei querendo me encolher em um canto e chorar, mas tentando me manter ereta sob seu olhar.

— O que está dizendo?

— Estou dizendo que você morreu, vovó, e me deixou de herança essa casa e tudo o que tinha nela, e eu fui parar em esse outro momento do tempo, e fiquei lá por mais de um ano, e construí uma família, acredite ou não. — Ri de nervoso, enquanto as lágrimas corriam soltas pelo meu rosto. — E de repente, sem aviso algum, as engrenagens começaram a girar e os ponteiros a andar, e eu os perdi. — Me aproximei vacilante, erguendo os braços para tocá-la e os trazendo de volta ao peito. — Por favor, me diga que vai me ajudar a voltar. Eu não mexi os ponteiros, não deveria ter voltado.

Era incrível ela estar ali, viva e bem de um jeito que nunca esteve, mas eu não podia sentir a surpresa ou felicidade, tudo o que sentia era uma tristeza terrível. Ela me observou por um instante, pensativa.

— Seu tempo deve ter acabado, não poderia, ou deveria, viver em outro tempo que não o seu. Em que ano eu morri?

— Como? — Levei um momento para processar sua pergunta, minha mente girando com confusão. — 2018, é claro, por quê?

— É 2020, Bethany, estamos perto de comemorar o Natal, por isso a família está toda reunida aqui.

— A família? — De repente me senti alerta, deixando de lado a malemolência anterior. — Minha família está aqui?

Ela havia dito que um ano e meio havia se passado ali, como no século XVIII, mas não era com aquilo que eu estava preocupada e sim em ver novamente o rostinho de Poppy e o sorriso maroto de Connor.

— Sim, é claro, seus pais e irmãos estão aqui. Estão na sala de jantar nos esperando para comer.

Soltei um muxoxo terrível, me sentindo voltar a pesar. Minha família, não aquela que havia deixado, mas a que nunca havia tido. Eu tinha irmãos agora.

— O que? Isso mudou também? — Acenei concordando.

— Você morreu em 2018, eles morreram quando eu era pequena. Nunca tive irmãos. O que está acontecendo? — supliquei por respostas.

— Quando você alterou o passado, o presente se alterou junto.

— Tudo bem, isso é bom. Está todo mundo vivo agora. — Sorri, tentando me animar. Aquelas eram boas notícias, afinal. — Agora, como você vai me mandar de volta?

— Eu nunca deveria ter deixado esse relógio com você sem antes explicar quão especial ele era. Sinto muito, Bethany. Você não passa de uma criança, não merecia esse peso.

— Tudo bem, vovó. Essa foi a melhor coisa que me aconteceu, não precisa se desculpar. Só me mande de volta!

Ela circundou a sala, olhando para baixo e para o relógio em suas mãos. Percebi que ela pensava, mas o que havia para pensar? Ela só tinha que arranjar um jeito de me mandar de volta!

— Não posso.

— O que?

— Sinto muito, Bethany. Quem sabe o que isso vai alterar? Não posso correr esse risco. — Ela se aproximou com olhar eloquente. — Pense, estávamos todos mortos, seus irmãos nem existiam, e agora estamos todos aqui, juntos. — Vovó me olhava sorrindo, enquanto eu a olhava pasma. — Nossa família é a guardiã desse relógio, não para usá-lo, mas garantir que fique em segurança e o tempo intacto. Essa mudança foi para melhor, mas poderia não ter sido. Ele nunca mais deve ser usado novamente.

— Mas… eu preciso voltar! Connor e Poppy estão me esperando, e Anthony e a família Johnson… eles vão me procurar.

A observei se aproximar de um espaço entre as estantes que também não estava ali antes, um pequeno móvel com várias gavetas, e colocar o cordão dentro de uma delas, a selando com uma chave.

— Sei que é difícil, mas você vai superar, e agora eu vejo. Um dia, você será a guardiã desse relógio, e será a melhor que ele já teve. — Seu olhar e sorriso doces e tranquilos não condiziam com a situação, não quando eu estava prestes a me desfazer em agonia. — Agora vamos, melhore essa cara. Você tem que conhecer a sua família.

Sequei minhas lágrimas e coloquei um sorriso no rosto, da melhor maneira possível, enquanto ela me guiava com um braço sobre meus ombros para a sala de jantar. Sabia que não haveria conversa, ela estava decidida, e eu também. Iria embora dali, voltaria para minha família, ela querendo ou não, mesmo que eu tivesse que mentir por toda aquela noite ou o ano seguinte, havia me tornado uma especialista nisso.

Durante toda a noite mantive meus olhos baixos e os ouvidos tampados. Não queria saber nada sobre aquela família, não quando em breve os deixaria, não era ali que eu pertencia, nunca foi. Aquela sequer era minha linha do tempo, muito menos do que o século XVIII. Não queria me apegar, imaginar como seria fazer parte dali, ou os amar. Queria só que aqueles momentos acabassem e que eu pudesse partir. E assim me mantive, enquanto o tempo passou. Horas, dias, semanas e então, um mês se foram, e eu podia sentir em meu interior uma sensação crescer, como a morte.

Mantive as bochechas rosadas e as mãozinhas fofinhas em minha mente, seu cheiro doce e o sorriso gostoso; os flertes nada sutis, abraços quentes em noites frias e o sorriso que fez com que me apaixonasse. A proteção, carinho e cumplicidade com sorrisos aconchegantes; a maternidade dura, os conselhos cuidadosos e os abraços amorosos; a delicadeza da porcelana em uma boneca montada até os mínimos detalhes; e o singelo carinho nos pequenos gestos. Aquela era a família a qual eu pertencia.

Até que, tempos depois, no fim de um sábado, reunida com aquela família na casa de minha avó, a oportunidade surgiu à minha frente. Por todo aquele tempo, tentando ganhar a confiança de minha avó, eu nunca achei que conseguiria colocar minhas mãos sobre o relógio por um descuido, mas ali estava, a gaveta deixada aberta por um lapso cotidiano ao deixar a sala apressada.

Meu coração saltou em meu peito, acelerado e não evitei um olhar ao redor, constatando estar completamente sozinha. Havia chegado a hora. Me levantei com um salto, dando passadas largas até a gaveta aberta à minha frente.

— Bethany. — Minha avó apareceu de surpresa na porta, os olhos arregalado em minha direção. — Por favor, não faça isso. — pediu, ao mesmo tempo em que me lançava um olhar de reprovação. — Seu tempo não é com eles, ele se esgotou. — Olhei mais uma vez para o objeto ao meu alcance. — Não se brinca com o tempo, menina. Não faça isso.

— Você me deu, pode ter sido em uma outra vida, mas agora ele me pertence e é minha a decisão do que fazer com ele.

Estendi a mão, pegando o relógio dentro da gaveta sem hesitação, girando os ponteiros guiada por minha intuição enquanto ela se apressava em minha direção, mas era tarde demais e eu estava envolta no borrão.

Fechei os olhos, voltando a respirar com alívio, e não os abri novamente. Tinha medo de o fazer e descobrir que não estava onde mais queria, nesse único momento, em todo o tempo e espaço, no qual eu desejava. E se eu tivesse enganada, e acabasse no lugar errado? Ou se não encontrasse as coisas como havia deixado?

O aviso de minha avó não parecia sério até aquele momento. Tudo o que importava era chegar ali, agora, eu temia que as coisas tivessem se modificado. Quão bobo era aquilo? O que poderia ter sido mudado? Sorri, ainda na escuridão dos meus olhos fechados. Quão boba eu sou.

— Bethany? O que está fazendo aqui no escuro?

Uma luz, como a de velas, tremulou por trás de minhas pálpebras e as abri apenas uma frestinha para olhar a minha volta. Anthony me olhava segurando um sorriso, com um castiçal aceso ao seu lado, próximo a porta, e eu lhe abri um grande sorriso em resposta, me precipitando em sua direção e o abraçando apertado, com um gritinho deixando minha garganta.

— Está tentando acordar a casa inteira, senhorita?

— Não, mas eu poderia. — O soltei, colocando o cordão em segurança em volta de meu pescoço. — Vou subir para ver a Poppy.

— Só tente não acordá-la com toda essa animação. — avisou, enquanto já subia as escadas, de dois em dois degraus, segurando a barra de meu vestido.

Não havia luzes em meu caminho. Já havia passado da meia noite e no completo silêncio, apenas se ouvia o som de meus passos contra o assoalho. Adentrei o berçário sem reverência, por pouco não acordando a pequena que dormia tranquila em seu berço. A peguei em meus braços, sentindo sua pele macio e o cheiro suave, ainda com cuidado para não acordá-la, havia outro lugar que passaria após ali, mas precisava ter meu bebê nos braços antes, para ter certeza de que aquilo realmente estava acontecendo, que ela era real.

Quando a coloquei de volta no berço, ainda adormecida, suspirei aliviada com um sorriso no rosto. Eu estava presa por sua visão e foi muito difícil deixá-la, mas me contentei sabendo que a veria novamente muito em breve. Deixei seu quarto indo procurar Connor no nosso, mas não o encontrei.

— O que está fazendo? — Anthony surgiu no fim do corredor.

— Procurando por Connor, mas ele não está aqui. — respondi em um tom decepcionado fora de meu controle.

— Ainda bem que não está. — rebateu sorrindo, me fazendo franzir o cenho. — Ou ele ficaria bastante irritado por perturbar seu sono, ou você o pegaria em uma situação no mínimo desagradável.

— Desculpe?

— Venha, está tarde. Qualquer coisa que tenha para tratar com Connor pode ser deixado para amanhã. Além disso, ele deve estar com alguma garota qualquer sabe-se lá onde.

Anthony me segurou pela mão e guiou até a porta do outro lado do corredor até que eu freasse o caminho, parando de me mover as suas costas.

— O que foi, amor?

Sentindo minha face esquentar, olhei de um lado a outro, confusa e esquisita. Connor estava sabe-se lá onde com uma garota qualquer e Anthony me chamava de amor? Como era possível que mudanças tão drásticas tivessem acontecido? Estavam me pregando uma peça? Meu Deus! Poppy era…?

— Poppy…? — as palavras se engasgaram em minha garganta, talvez para melhor.

— Aconteceu alguma coisa com ela? Está tudo bem? — Seu tom preocupado me fez acenar, o tranquilizando. — Se está tudo bem, você pode conversar amanhã com Connor sobre ela, não tem pressa, certo?

Segurei o relógio. Não era possível controlar minha expressão em uma situação dessas, e minha indignação começava a preocupá-lo, podia ver isso em seu olhar. Mas de modo algum, eu poderia seguir a maré em um momento desses, não podia entrar naquele quarto com Anthony e dormir ao lado dele. Deus! Só de pensar que alguma vez eu tenha dormido com ele já nem sei como reagir. Eu não deveria dormir com Anthony, deveria dormir com Connor! Pelo menos, sabia que o pai de minha filha continuava o mesmo. Mas como as coisas haviam mudado dessa forma? Como eu havia acabado com o garoto errado?

— Poppy está um pouco quente, nada para se preocupar, mas prefiro passar essa noite com ela. — menti descaradamente.

— Não quer trazer ela para o nosso quarto?

— Uhn, — soltei um som nervoso, balançando a cabeça freneticamente. —  melhor não.

— Tudo bem, nos vemos de manhã.

Anthony se inclinou, com um sorriso doce, em direção aos meus lábios, me fazendo desviar para o lado e o deixar com a expressão confusa.

— Boa noite. — respondi, lhe virando as costas para de volta ao berçário e me retirando rápido de uma das situações mais constrangedoras em que já estive em minha vida.

Observando Poppy, sentada no grande banco abaixo da janela, e enrolada em uma manta, eu roia as unhas, hábito que havia largado na pré-adolescência, enquanto pensava no que fazer para arrumar aquela situação. Talvez voltar um pouquinho mais o relógio? Mas eu poderia acabar ainda pior do que estava. Resolver a situação a moda antiga do século XXI, terminado com o atual e voltando com o ex? Será que ainda sou casada com o Connor, nos separamos, ou isso nunca aconteceu e, caso a correta seja alguma dessas duas últimas opções, eu sou casada com o Anthony?

Minha mente girava a mil quando a porta do quarto foi aberta e envolto pela luz de um castiçal alguém entrou.

— Connor! — exclamei ao reconhecê-lo, indo por impulso em sua direção, ansiosa para abraçá-lo, até recordar do que Anthony havia dito sobre ir ao quarto dele. Ele provavelmente não receberia bem o gesto, e sem saber das circunstâncias sobre nosso rompimento, não poderia culpá-lo, apesar de saber que não teria como ser culpa minha.

— Eu só vim ver a Poppy antes de me deitar.

Ele mal me olhou, se aproximando do berço e olhando com ternura para nossa filha, estendendo a mão para tocá-la. Mordi os lábios, sem saber como lidar com sua insignificância, não estava acostumada a ocupar esse lugar. Era tão errado!

Voltei a me aproximar, parando ao seu lado e o sentindo recuar. Ótimo, ele não queria nem estar próximo a mim. Podia sentir o cheiro de álcool exalando de seu corpo, bem mais forte do que o odor de um copo ou dois deixaria, o cabelo escuro desgrenhado de um jeito, que eu odeio admitir, de quando se esteve em uma cama, e as roupas… desde quando ele usava coisas tão soturnas?

— Então… onde você esteve? — iniciei o diálogo, esperando que ele parece de agir comigo daquela forma.

— Não é da sua conta.

Pá! Senti aquilo como um tapa bem na minha cara, mas tudo o que fiz foi dar um riso nasalado nervoso e levar a unha de volta a boca antes perceber e baixá-la.

— Uau, eu realmente não precisava dessa.

— E o que você precisa, Bethany? Anthony já está dormindo, não deveria estar com ele ao invés de aqui, me azucrinando? — seu tom foi feroz, tão cheio de raiva que me encolhi.

Não entendia o que estava acontecendo, e ainda assim, tinha que passar por aquela situação. O que a outra Bethany fez? Porque obviamente, ela não era eu, e já a odeio tanto por fazer o homem que amo me tratar assim.

— Só queria falar com você. — murmurei.

— Sobre?

— Sobre… como… porque… — O nível de tensão só se fazia crescer dentro de mim. — Sobre nós, — Meus olhos piscaram nervosamente. — e porque não estamos juntos.

Ele sorriu, parecendo que ia gargalhar, mas se contendo. Se moveu de um jeito estranho, se virando para mim e para o outro lado, sem conseguir manter o olhar sobre meu rosto por muito tempo.

— Está brincando? Porque não existe ninguém melhor para responder isso do que você. — Eu sabia que aquela idiota havia feito algo! Ficou em silêncio, finalmente conseguindo sustentar meu olhar, como se esperasse que dissesse algo, o que não fiz. — Você não me ama, Bethany. É simples, você ama o Anthony, e me trocou por ele. O que? — Voltou a sorrir. — Você sente prazer em me fazer reviver isso? Qual o seu problema? — Me olhou com completa repulsa. — Não é o suficiente me ver destruído todos os dias? Ter me trocado por meu primo, meu melhor amigo? Tudo o que pedi foi que me deixasse em paz, e nem isso você pode fazer.

Ele se virou, caminhando em direção a porta enquanto eu lutava com todas as forças para não deixar as lágrimas caírem, até se voltar novamente para mim, sem saber o que fazer com as mãos, às levantando e baixando, virando os olhos para qualquer ponto a minha volta para não voltar a me encarar.

— Eu não sei o que passa pela sua cabeça, mas eu não mereço isso, e muito menos o Anthony. Se isso é algum tipo de brincadeira, é melhor parar agora. Você disse que o ama, e ele ama você, está tudo resolvido, só… me deixe em paz. — Trocou o peso de uma perna para a outra, inquieto, antes de se virar saindo. — Eu preciso de uma bebida.

Eu queria dizer que o amava, que não havia sido eu a fazer isso, mas só o olhei partir, com metade de seu coração partido, e levando metade do meu, me encolhendo em um canto enquanto as lágrimas quentes escorriam por meu rosto.

Precisava corrigir aquilo, resolver as burrada que aparentemente havia feito, as decisões que não havia nem me dado conta. Eu realmente amava Anthony, mas esse nunca foi um amor romântico e nunca deveria ter sido, mas Connor estava certo, também não poderia magoá-lo. O que eu faria para resolver aquela situação? O que quer que fosse, eu precisava fazer logo, antes que alguém mais se machucasse, antes que se torna-se impossível não colar meu coração quebrado ao de Connor e dizer a ele como havíamos acabado naquele situação. Mas talvez… só talvez… aquela não seria a melhor opção?

30 de Novembro de 2018 às 04:28 0 Denunciar Insira 1
Fim

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