A metade da raposa Seguir história

nathymaki Nathy Maki

Todo animal possuía sua metade humana. Eu estava fadada a procurar a minha.


Conto Todo o público.

#happy-end #fluffy #drama #raposa #conto #matades-de-alma #original
Conto
5
4577 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

A raposa e sua metade

Notas iniciais: História escrita para a Ayzu  Saki que devia ter saído há mais tempo, mas como eu nuuuunca dou presentes de aniversário na data certa, já estou acostumada. Espero que perdoe o atraso e goste da história <3

****

O nascimento foi fácil, suave como uma brisa a carregar as folhas. A vida, cansativa, arrancava com unhas e dentes tudo que tinha para oferecer e ainda exigia mais. A morte, uma dádiva, como é para alguns. Mas dessa dádiva eu estava privada, condenada a vagar pelos recantos do mundo sempre a buscar e nunca a encontrar. 

Ah, perdoem-me, não devem estar cientes do que está acontecendo. Permitam-me explicar. Essa que vos fala não passa de um animal. Mas não um animal qualquer, e sim um animal esperto, com grande percepção e pouca interação, que sabia ser silencioso e discreto; eu era, orgulhosamente, uma raposa. Devem me conhecer bem, sou muito retratada em desenhos como a destruidora de vilas ou em contos e fábulas como a vilã, aquela que sofre durante a história e está fadada a aprender uma lição. No momento, eu me encontrava em uma situação parecida, sofrendo com a vida enquanto buscava a metade que faltava em mim. 

Todo animal tinha a sua metade humana, seu corpo material no qual o espírito se fixava para descansar e aconselhar. Estavam costurados por alma, destinados a serem metades de um todo harmônico. E, quando tudo ao fim chegava, esses espíritos estavam fadados a vagar sempre a espera, em busca da próxima vida que sua metade teria na terra. 

Um dia eu tive alguém. Era parte de um corpo, metade de um todo que se completava. Não lembro-me com precisão a face da minha metade, mas lembro do som de suas perguntas tímidas e da voz gostosa do embalo de uma mãe, das risadas dadas junto aos irmãos e do abraço caloroso e seguro de um pai. 

O que aconteceu a ela? Não sei dizer. Não morreu se é isso que me pergunta. Muito pelo contrário, eu sabia que sua vida ainda seria longa e duradoura. As coisas ao seu redor simplesmente aconteciam, não havia explicação, mas eu já aprendera a aceitar e apenar continuar seguindo adiante. O que mais havia de ser feito? Ela era metade do meu ser e eu metade dela. Uma harmonia perfeita. Uma sincronia ideal. 

Então aconteceu, em um momento eu estava tranquila assistindo aos seus sonhos que lhe rendiam tantas ideias, mas que, por vezes, eram a grande causa de seus medos e a esses eu me atentava, procurando sempre espantá-los; no outro eu havia sido arrancado para fora do seu corpo, forçada a abandoná-la contra a minha vontade. Não havia explicação, se fora ela que me expulsara de forma inconsciente ou se havia um motivo mais profundo por trás de tal ato, eu não saberia dizer. Mas de uma coisa estava certa, eu precisava retornar para ela.

E assim, eu vaguei sem ter noção de onde me encontrava, por imensos campos gramados, por folhas tão laranjas quanto meu pelo que faziam seu caminho do topo das árvores até o chão. Assisti vilas e cidades inteiras pegarem fogo, em conflitos que os humanos insistiam em causar. Atravessei rios e vi os mesmo se reduzirem a meros fantasmas do que haviam sido. Nadei ao mais profundo oceano e encontrei criaturas e civilizações nunca vistas antes; assisti a uma supernova por meio de um enorme telescópio; briguei com lobos em defesa de uma humana e ouvi as mais belas músicas que poderiam ser tocadas. Naquele tempo eu não sabia, mas minhas visões lhe transmitiam sonhos que logo eram transformados em palavras as quais preenchiam as páginas em branco. Eu a inspirava, como sua existência inspirava a mim encontrá-la.

Nesse meio tempo, esbarrei com a figura da morte algumas vezes. Nossos caminhos se cruzavam e ela sempre parecia me sorrir, como se soubesse de algum segredo e lhe divertisse ver a minha luta e minha jornada sem direção definida. Eu não retribuia o sorriso, pelo contrário, entristecia-me vê-la colher as almas humanas e cortar o vínculo com o animal pertencente a ela que era abandonado e começava a jornada a espera do próximo renascimento de sua metade. Ao mesmo tempo que a tristeza me abatia, raiva também tomava conta do meu ser. Afinal, esses animais haviam passado a vida toda grudados a metade que lhes pertenciam, e quanto a mim? Eu cuja metade andava pelo mundo sem a minha companhia ao fazê-lo. Nesses dias eu procurava um local escuro e enrolava-me em uma bola, implorando que a encontrasse em breve.

Era solitário vagar sem rumo definido nem nada que garantisse que a espera seria recompensada. Por vezes, tinha a impressão de que, durante o sono, eu podia sentir cheiro de café e do som das teclas sendo apertadas. E nesses havia também um cacto. Definitivamente havia um cacto. Este era silencioso, observador, e, em certos momentos, eu podia até mesmo sentir seu olhar de censura sobre a minha metade como se estivesse presente lá, assistindo a tudo. Gostava desses sonhos, serviam como uma lembrança da ligação que existia entre nós, compelindo-me a prosseguir e nunca desistir de minha busca. 

Embora, em certos dias, sentia falta da sensação de completude, do calor do abraço, do embalo, das risadas e dos sorrisos. Eram nesses dias que eu corria para os parques e permitia que os demais humanos me tocassem. Estes ficavam encantados, mas eu podia sentir a insatisfação de suas metades animais e logo me afastava. Tentava falar-lhes, mas tudo que chegava aos seus ouvidos eram ganidos implorativos aos quais eles respondiam me estendendo biscoitos. Não queria biscoitos! Queria que me entendessem! Queria que me levassem ao lugar o qual eu pertencia! Eu sabia o motivo da falha de comunicação entre nós, é claro, somente a metade destinada a si poderia ouvir o que realmente era dito. E para mim, estava claro que a minha não se encontrava ali.

Até que um dia, senti aquele instinto de correr até a cidade mais próxima, o impulso irresistível que me levava a atravessar as ruas e seguir até o mar. Foi como se eu sempre soubesse que a encontraria lá, sob as estrelas, apreciando o universo. Aproximei-me sem medo, não havia motivos para tal e parei aos seus pés, a areia fofa sob as patas e o som das ondas quebrando ao fundo.

 Eu finalmente te achei. - E era natural que ela me entendesse.  Procurei por muito tempo, sabia? Onde esteve?

 Eu me perdi. - Ela desviou os olhos das constelações, cabelos ao vento, óculos no rosto e o sorriso envergonhado que causou arrepios no meu pelo. Aquilo sim estava certo, era aquilo que eu buscava.  Mas agora estou aqui. Pronta para ir?

 Sempre estive.

Pulei em seus braços e os corpos se juntaram em um giro harmonioso.

As duas metades, enfim, reunidas.

29 de Novembro de 2018 às 02:24 2 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Nathy Maki Leitora voraz desde que tenho idade para segurar um livro em mãos. Sagitariana e um poço de emoção e muuita indecisão. Amo um clichê bem escrito e um suspense que te prende, mas fantasias e ligações são especialidade. Sou fã daqueles finais inusitados. Até mesmo os tristes! Lema: Colecionar sonhos, ideias e magia e depois transformá-los em palavras é o que torna bela a vida.

Comentar algo

Publique!
Ayzu Saki Ayzu Saki
É minha <3 <3 Que coisa mais linda, me senti o capitão América pegando as referências hahahaha Obrigada Nathy, me emocionando como sempre.
29 de Novembro de 2018 às 07:33

  • Nathy Maki Nathy Maki
    Sua sim <3 Perdoe a demora, mas meu relógio interno é um horror >•< Eu adorei escrever isso, ainda mais sabendo que podia retribuir um pouco de como me sinto lendo suas histórias e colocar as referências eu fiz rindo, sabia que ia pegar todas, Capitão América ícone <3 29 de Novembro de 2018 às 12:12
~