Fantasma a Bordo Seguir história

teffychan Steffanie Pinheiro

O que era para ser uma viagem de férias em família acaba se tornando um trabalho. Como o habilidoso exorcista que era, Sasuke não podia ignorar a presença sobrenatural que vinha da sala de música do navio onde estava. Só não poderia imaginar que aquela poderia ser a tarefa mais difícil de sua vida. Se não se lembrasse de tomar as precauções necessárias, poderia ser a última.



Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas. © O mangá/anime Naruto pertence a Masashi Kishimoto.

#songfic #universoalternativo #shounenai #drama #tragédia #death-fic #angst #naruto #sasuke #narusasu #SasuSasu #uchiha #uzumaki #fandom #ship #FNSdoRock #yaoi #oneshot #shounen-ai
Conto
5
4485 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Canção do Passado

Era para ser uma viagem em família. Já fazia tanto tempo que não se reuniam que nem se lembrava de qual foi a última vez em que viu seus parentes. Mas o trabalho o chamava quando menos se espera.

Sasuke era conhecido por sua grande habilidade em exorcismo. Ele realizou incontáveis trabalhos nos últimos meses no Japão. O pagamento era gratificante, mas a tarefa o deixava exausto. Decidiu então tirar férias, sem dizer para ninguém aonde iria, enquanto viajava apenas com seus pais e irmão mais velho em um navio rumo à Inglaterra.

Mas aquele não era um navio comum. Havia um cômodo, mais precisamente a sala de música, que todos os passageiros evitavam. Nem sequer se atreviam a se aproximar da sala. Todos cochichavam sobre sentirem um mal-estar quando passavam pelo corredor onde ficava a sala de música, sentirem um ar gélido… as pessoas mais frágeis chegavam até a sentir tonturas e desmaiar. Era óbvio para Sasuke o que estava acontecendo naquela sala. Havia um fantasma a bordo.

 A passos decididos, ele rumou para a sala que todos evitavam. Nenhum passageiro sequer se atrevia a olhar para ele, provavelmente se perguntando como ele tinha coragem se de aproximar daquele lugar tenebroso. Respirando fundo, Sasuke abriu a porta, que se fechou sozinha com um ruído assim que ele adentrou a sala.

À primeira vista tudo parecia normal. Não havia nenhum cheiro de podridão, o que indicava que o corpo não estava mais lá. Talvez tivesse sido retirado por algum funcionário do navio antes de o fantasma se manifestar, ou talvez recebeu um destino pior. E então os sinais com os quais já estava acostumado começaram a se manifestar. O ar ficou mais pesado, um frio anormal se espalhou pela sala, que mudou levemente de aspecto. Antes parecia uma sala de música comum, bem arrumada, como os demais aposentos do navio. Agora, os violinos que estavam apoiados nas paredes estavam espalhados pelo chão; A harpa, antes dourada e brilhante, estava coberta de poeira e com algumas cordas arrebentadas; E, no centro da sala, o único objeto intacto era um enorme piano. Havia um rapaz sentado em cima dele, com cabelos loiros rebeldes e olhos azuis tristes, que o encarava fixamente. Sasuke aproximou-se a passos lentos, não por medo, mas a fim de conquistar sua confiança. O rapaz não emanava nenhuma energia negativa, então era possível que não fosse perigoso. Mas devia haver alguma razão para seu espírito permanecer ali.

Ele parou de frente para o rapaz, examinando-o melhor. Suas roupas não eram da mesma época que a dele, o que indicava que estava ali já tinha um bom tempo. Era verdade que Sasuke não se vestia como as outras pessoas devido ao seu trabalho. Suas roupas eram de tonalidades escuras, quase sempre negras, mas sempre trajava um casaco acolchoado e comprido como uma capa. O rapaz trajava usava uma calça azul-escuro de um tecido que ele não conhecia (nunca entendeu muito de moda), usava uma gravata torta e uma camisa amarela manchada de sangue em uma das mangas, como se ele a tivesse usado para limpar algo. Também havia sangue no canto de sua boca, que escorria pelo pescoço até o peito, como se ele tivesse vomitado.

— Olá — Sasuke cumprimentou, encarando o desconhecido — Pode me dizer o seu nome?

— Uzumaki Naruto — ele murmurou — Por que está nesta sala?

— Lhe pergunto o mesmo — Sasuke respondeu — Estamos em um navio, você sabia? — perguntou e o rapaz assentiu — Bem, os passageiros estão assustados. Não conseguem se aproximar desta sala. Por que você esta nela?

— Tem uma coisa que eu preciso fazer.

— E o que é? Eu posso te ajudar? — Sasuke perguntou, mantendo o contato visual. Como pensou aquele fantasma realmente não emanava nenhuma energia negativa. Mas tinha algum assunto pendente que o mantinha preso àquele navio. E era o dever de Sasuke ajudá-lo a resolver este assunto para libertar aquela pobre alma.

— Não posso dizer — o rapaz inclinou-se para trás, como se tentasse se afastar dele — Eu nem sei quem você é.

— Sou Uchiha Sasuke. Prazer em conhecê-lo, Naruto — ele deu um leve sorriso e o rapaz continuou com os olhos fixos nele. Não estava mais receoso, mas também não parecia disposto a conversar. Aquele ia dar trabalho — Eu venho te visitar de novo amanhã, tudo bem? — ele perguntou e Naruto acenou com a cabeça. Sasuke caminhou até a porta, que não estava mais trancada. Pelo jeito a viagem com sua família teria que esperar mais um pouco.


 

O mundo está se fechando

O futuro está no ar

Eu posso sentir isso em todos os lugares

Soprando com o vento da mudança

 


  ~~~~~X~~~~~X~~~~~

 

 

Assim como prometeu, Sasuke voltou até a sala de música no dia seguinte, a qual todos continuavam evitando. A porta se fechou sozinha novamente assim que ele entrou.

— Você voltou mesmo — Naruto deu um leve sorriso.

— Eu disse que voltaria — Sasuke aproximou-se devagar do piano sobre o qual ele continuava sentado — Você ficou aqui a noite toda?

— Eu fiquei no navio — ele respondeu. Sasuke estava se referindo especificamente à sala de música, e não sabia se Naruto estava se fazendo de desentendido, mas achou melhor não insistir.

— Entendo. Há quanto tempo você está nesse navio?

— Eu… na verdade não me lembro — Naruto franziu as sobrancelhas, forçando a memória — Mas não posso ir embora ainda.

— Você tinha dito ontem que precisava fazer uma coisa, não era? — Sasuke recordou, avançando mais alguns passos na direção do rapaz — Você pode me contar o que é?

— Eu preciso encontrar uma pessoa — Naruto inclinou-se para frente, passando o dedo pelas teclas do piano.

— Posso te ajudar a procurar essa pessoa se quiser — Sasuke ofereceu. Talvez fosse algum passageiro do navio. Se fosse, essa pessoa em particular estaria em piores condições físicas do que os demais passageiros. Mas, se fosse alguém que já tinha falecido, as coisas ficariam mais complicadas de resolver — É alguém da sua família?

— E a sua família, onde está, Sasuke? — Naruto devolveu a pergunta, surpreendendo-o.

— Está viajando.

— Sua família está nesse navio? — Naruto perguntou — Por que você está aqui comigo ao invés de ficar com eles?

Aquilo era mal… Sasuke sabia como podia ser perigoso responder às perguntas dos mortos, por isso mesmo sempre trabalhava longe de sua família. Para não colocá-la em perigo. Mas, se aquele rapaz estava colocando sua família em perigo… Sasuke precisava exorcizá-lo o mais depressa possível. Naruto não apresentava nenhuma aura negativa, mas ele não podia arriscar.

— Eu estou onde preciso estar — Sasuke respondeu simplesmente — Por que você decidiu ficar na sala de música, Naruto? Você sabe tocar algum instrumento?

— Sou muito desajeitado para isso — Naruto riu — Mas não posso sair daqui até encontrar a pessoa que procuro. Não posso deixar o navio.

— E você não pode mesmo me contar quem é essa pessoa? — Sasuke insistiu uma última vez. Se não obtivesse sucesso, iria embora e tentaria novamente no dia seguinte. Naruto o encarou durante um bom tempo com aqueles olhos azuis e penetrantes.

— Toque para mim, Sasuke.

— O que?

— Você sabe tocar piano, não sabe? Pelo menos tem cara de quem sabe — Naruto falou — Você parece ser um daqueles caras que as pessoas consideram um prodígio porque sabem fazer todo o tipo de coisas diferentes. Acertei?

— Não sou um prodígio. Mas sei tocar piano — ele sentou-se no banco diante do instrumento e começou a tocar a primeira música que lhe veio à mente. Para sua surpresa, o piano ainda estava funcionando. Naruto fechou os olhos e ficou se balançando de um lado para o outro em silêncio durante alguns segundos.

— Essa música é bonita. Como se chama?

— Für Elise, de Beethoven — Sasuke respondeu enquanto tocava — Não conhece?

— Nunca tinha ouvido falar no nome dessa música! Parece que você gosta de canções antigas, Sasuke — Naruto riu, o que o deixou um pouco ofendido.

— Não é tão antiga assim. Faz apenas algumas décadas desde que Beethoven faleceu — Sasuke informou. Pelo jeito aquele era o fantasma de um camponês ou algo assim — Ele era alemão, talvez por isso você não o conheça…

— Faz… algumas décadas? — Naruto parou de rir abruptamente, ficando em silêncio outra vez.

Sasuke ficou se perguntando há quanto tempo ele estava ali. Talvez tivesse morrido na época em que Beethoven ainda estava vivo, por isso tinha ficado tão chocado com a informação.

Quando terminou de tocar a música, voltou a encarar Naruto.

— Quer ouvir outra música?

— Não… não quero ouvir mais nada.

Aquele era um claro sinal de que ele também não queria mais conversar. Sasuke suspirou e caminhou em direção à porta, que estava destrancada novamente.

— Sasuke — Naruto chamou antes que ele saísse — Venha tocar para mim de novo amanhã.

— É claro — ele concordou, deixando a sala de música.


 

Leve-me à magia do momento

Na noite de glória

Onde as crianças de amanhã sonham

No vento da mudança


~~~~~X~~~~~X~~~~~


 

Durante os dias que se seguiram Sasuke passava cada vez menos tempo com sua família e mais tempo com Naruto. Na verdade seus pais e irmão mal olhavam para ele quando se cruzavam nos corredores do navio, certamente magoados por Sasuke, mais uma vez, dar prioridade ao trabalho do que à própria família. O rapaz mal os reconhecia, provavelmente por estar afastado deles há tanto tempo. Precisaria compensá-los por sua ausência quando tudo isso acabasse. Até mesmo alguns passageiros passaram a evitá-lo, mas isso acontecia às vezes; Quando Sasuke realizava um exorcismo mais demorado, ou as pessoas o encorajavam e lhe desejavam boa sorte, ou se afastavam dele, com medo de serem possuídas por um espírito ou coisa parecida. Geralmente era a segunda opção.

Naquela tarde, Sasuke foi mais uma vez até a sala de música, onde Naruto o aguardava sentado em cima do piano, como se estivesse colado ali.

— Olá — Sasuke o cumprimentou como se Naruto fosse um velho amigo. Ele fechou a porta ao entrar, pois ela já não se trancava mais sozinha agora que Naruto tinha se acostumado com sua presença — Trouxe uma música nova para você hoje.

— Uma música diferente? Mas por quê? — Naruto pareceu decepcionado — Eu gosto daquela que você estava tocando!

— Mas essa também é de Beethoven…

— Não interessa! Eu gosto da outra! — Naruto começou a gritar como uma criança fazendo birra. Sasuke sabia muito bem como era importante manter os espíritos calmos e acatou o pedido do rapaz. Ele sentou-se diante do piano e, antes que começasse a tocar, encarou Naruto.

— Vamos combinar uma coisa? Eu toco Für Elise para você se me contar quem você está procurando.

— Toque primeiro — Naruto falou depois de um longo silêncio. Sasuke suspirou e começou a tocar.

Ele precisava arranjar um jeito de resolver isso de uma vez por todas. Logo chegaria à Inglaterra e, uma vez que deixasse o navio, não poderia mais ajudar Naruto. Precisava cumprir sua função, ajudá-lo a resolver seus assuntos pendentes para poder passar algum tempo com sua família. Esse era o objetivo inicial da viagem. E, uma vez que cumprisse esse objetivo, diria adeus para Naruto. Seria uma pena… ele até que era um fantasma amigável. Alguém divertido e agradável de se ter por perto. Talvez Sasuke sentisse um pouco de falta dele.

— Quem você está procurando, Naruto? — ele perguntou mais uma vez quando a música estava chegando ao fim. Precisava deixar esses pensamentos sentimentais de lado e se concentrar no que realmente importava.

— Uchiha Sasuke.

— O que? — ele parou de tocar e encarou Naruto, um tanto atordoado — Eu sou Uchiha Sasuke.

— Eu sei. Estava procurando você — Naruto respondeu. O ar brincalhão de antes o tinha abandonado por completo. O rapaz exibia um semblante mais sério e maduro que não combinava com ele — Eu não sabia como te contar. Na verdade ainda não sei. Acho que não existe uma forma delicada de falar isso, então vou apenas dizer… você está morto, Sasuke.

Sasuke ficou encarando o rapaz durante longos segundos com a boca ligeiramente aberta, se perguntando se tinha ouvido direito. Quando concluiu que não tinha entendido errado, pensou em como deveria reagir àquilo.

— Não… você está enganado, Naruto. Eu estou vivo. Sou exorcista. Fui contratado para te ajudar a resolver seus assuntos pendentes e partir.

— E quem te contratou?

— Foi… — Sasuke forçou a memória. Pensando bem, nenhum funcionário ou passageiro do navio havia contratado ele — Na verdade decidi realizar a tarefa por conta própria, mas isso não importa. Naruto, você é um fantasma. Diga-me quem você está procurando para que eu possa te ajudar.

— Já disse que é você — ele respondeu — Nunca notou como minhas roupas são diferentes das suas?

— É claro que sim. O que indica que já deve fazer algumas décadas desde a sua morte.

— Não, Sasuke. Já faz algumas décadas desde a sua morte — Naruto corrigiu — Mais de cem anos, na verdade. Isso que estou vestindo é uma calça jeans. Acho que não existia na sua época. E não faz apenas algumas décadas desde que Beethoven faleceu. Tem mais de um século.

Sasuke processava as informações com dificuldade. Não conseguia acreditar que o fantasma que ele estava tentando exorcizar estava lhe dizendo que na verdade era ele quem estava morto! Mas, se era verdade… há quanto tempo ele estava vagando no mundo dos vivos? E por que ele não se lembrava de ter morrido?

— Eu… morri? — Sasuke sussurrou, levantando do banco e afastando-se alguns passos de Naruto. Forçou a memória, mas não conseguia se lembrar de nada que indicasse isso — Você está mentindo. Isso nunca aconteceu. Eu… eu estou viajando com meus pais e meu irmão para a Inglaterra. Nós estamos de férias…

— Há quanto tempo você não fala com eles, Sasuke? — Naruto perguntou suavemente.

Sasuke forçou a memória outra vez. Não se lembrava. Suas únicas memórias eram sobre as vezes em que entrou na sala de música e conversou com Naruto, em que tocou piano para ele e tentou interrogá-lo. E agora ele é quem estava sendo interrogado. Não se lembrava da última vez em que tinha falado com seus pais ou com seu irmão. Na verdade mal se lembrava dos rostos deles.

— Não lembro… não me lembro deles… — Sasuke levou as mãos à cabeça, bagunçando os cabelos negros — Passei por eles várias vezes nos corredores do navio enquanto vinha para sala de música, eu sei que passei! Então por que não consigo me lembrar? — ele exclamou, encarando Naruto em desespero — Eles estavam evitando chegar perto da sala de música, todos os passageiros estavam… meus pais e meu irmão devem ter ficado zangados comigo porque preferi vir para cá ao invés de ficar com minha família, mas eu não podia evitar, nenhum dos passageiros conseguia se aproximar da sala de música! Eles estavam com medo de você, por isso vim aqui tentar te ajudar…

— Eles não estavam com medo de mim, Sasuke. Estavam com medo de você — Naruto falou o mais gentilmente que conseguiu — Não percebeu que todas as pessoas no navio estão te ignorando, como se você não existisse? Até mesmo sua família? É porque elas não podem te ver. Mas ainda assim a sua presença neste navio afeta as pessoas ao seu redor, causando mal-estar aos passageiros. Você foi um exorcista excelente quando estava vivo, deve saber como isso funciona — ele explicou enquanto o rapaz o encarava perplexo — As pessoas que você disse que são sua família não são seus pais e… você disse que tinha um irmão, certo? Bem, também não é ele. Provavelmente são os bisnetos ou trinetos dos seus pais — o rapaz prosseguiu no mesmo tom afável, embora isso não adiantasse muita coisa — Há mais de cem anos atrás, a família Uchiha estava viajando em um navio, mas ele sofreu um naufrágio. Todos se salvaram, exceto pelo membro mais novo da família, um jovem exorcista. O rapaz ficou preso na sala de música do navio. Parece que a porta ficou emperrada e ele não conseguiu sair, então acabou afundando junto com o navio.

Fragmentos de memórias começavam a brotar na mente de Sasuke conforme Naruto ia falando. Ele tocando piano sozinho. Pessoas gritando repentinamente. O navio enchendo de água. A porta que não queria abrir.

 — A família Uchiha sofreu durante anos com a sua morte. Sempre tiveram a sensação de que a sua alma não conseguia descansar em paz. E então, quando souberam que parte do navio que afundou há mais de um século atrás foi recuperada e restaurada, eles decidiram fazer uma nova viagem do Japão para a Inglaterra e me contrataram para te encontrar e te libertar — Naruto explicou — É por isso que eu só podia te encontrar na sala de música. Porque foi aqui que você morreu.

— Mas você está morto, Naruto — Sasuke deu uma risada fraca e apontou para a camisa ensanguentada dele — Como pretende me ajudar?

— Ah, sim — Naruto olhou para a própria camisa e riu sem graça — Eu realmente morri alguns dias atrás. Eu me lembro de ter vomitado muito sangue, por isso minha camisa ficou assim. Na verdade os Uchiha me conheceram aqui no navio, e ficaram muito felizes quando souberam que eu era exorcista. O objetivo inicial da minha viagem para a Inglaterra era para realizar um tratamento médico. Eu tenho um problema no coração… quero dizer, tinha… bom, parece que não preciso mais de um médico — Naruto riu sem graça. Sasuke perguntou-se como ele conseguia fazer piada com a própria morte — Suponho que sua família esteja desesperada atrás de outro exorcista, mas você acabou se tornando o meu assunto pendente. Não posso partir enquanto não conseguir te ajudar. Eu não queria ter te contado isso tão abruptamente, mas hoje é o último dia. O navio chegará à Inglaterra essa noite, e provavelmente os Uchiha irão procurar um exorcista diferente para lidar com a situação que talvez use métodos mais rudes, se é que você me entende. Se isso acontecer, eu não vou mais poder te ajudar. Você conseguiu se lembrar do que realmente aconteceu, Sasuke?

 Ele não estava mais ouvindo. Os fragmentos de memórias começavam a se juntar mais e mais, até começarem a fazer sentido. Até que ele conseguisse se lembrar do momento da própria morte, e da sensação de como era morrer. Sentir aquela sala tomada por água salgada do mar preenchendo seus pulmões que buscavam desesperadamente por oxigênio em vão…

— Sasuke, não precisa reviver tudo isso — Naruto alertou, mas de nada adiantou.

O rapaz estava preso nas próprias memórias. Naruto tinha ido longe demais. Se Sasuke sofresse tudo aquilo de novo poderia começar a nutrir rancor pelas pessoas que escaparam do navio e o deixaram para trás. Poderia começar a odiar as pessoas que o abandonou naquele navio e o deixaram sozinho para morrer. Se isso acontecesse, ele se tornaria um espírito vingativo e não teria mais salvação.

— Sasuke, já chega! — pela primeira vez desde que se conheceram Naruto saltou do piano e cobriu a distância que o separava de Sasuke. Naruto segurou o rapaz pelo rosto com uma das mãos e, trazendo Sasuke para perto de si, selou seus lábios nos dele, começando a soprar ar para dentro de seus pulmões que já não produziam mais oxigênio. Naruto sentiu lágrimas quentes molharem pelos seus dedos, resultado de mais de um século de sofrimento solitário que havia retornado na memória de Sasuke de uma só vez. Desceu uma das mãos até o peito do rapaz e o pressionou onde ficava o coração, que também já não batia mais.

Aquela respiração artificial de nada adiantava, Naruto não podia ressuscitar pessoas, até porque ele mesmo já estava morto. Mas conseguiu acalmar o desespero de Sasuke por reviver as lembranças de morrer afogado ao lhe dar uma lembrança de ter alguém que tentou lhe salvar do afogamento, ainda que isso não o trouxesse de volta a vida.

 


Andando pela rua

Distantes memórias

Estão enterradas no passado, para sempre

Escutando o vento da mudança


 

Quando os dois abriram os olhos, não estavam mais na sala de música. Estavam deitados em uma espécie de  jardim, cercados de todo o tipo de flores até onde a vista alcançava. E, a poucos metros dali estava o piano da sala de música do navio.

— Onde estamos?        

— Sei lá. No Paraíso? — Naruto arriscou.

— Não era assim que eu imaginava o Paraíso — Sasuke comentou e Naruto deu risada — Obrigado, Naruto. Por me salvar — ele virou-se para encarar o rapaz, ainda deitado no meio das flores — Eu estava preso naquele navio há tanto tempo… não me lembrava de nada sobre o naufrágio. Se não fosse por você, eu poderia ter passado a eternidade lá.

— Fico feliz em ter ajudado — Naruto também virou o rosto para encará-lo — É uma pena que iremos nos separar depois de tudo isso.

— O que você acha que acontece agora?

— Não sei… o que te ensinaram quando você se tornou exorcista?

— Que, dependendo de como foi a vida da pessoa, ela irá para o Paraíso ou para o Mundo Inferior — Sasuke respondeu — Em alguns casos especiais ela pode ir para o Purgatório.

— É, foi isso que eu aprendi também — Naruto falou — Você acredita em reencarnação, Sasuke?

— Não sei… nunca parei para pensar nisso.

— Eu acredito — Naruto disse com convicção — Apesar de terem me ensinado que as almas vão para o Paraíso ou para o Mundo Inferior, eu pessoalmente acredito em reencarnação. E, se isso realmente existe, também acredito que um dia iremos nos encontrar novamente. E você vai tocar Für Elise para mim de novo! Promete?

Sasuke não respondeu. Sua alma não estava mais ali. Se ele foi para o Paraíso, Purgatório ou Mundo Inferior, Naruto jamais saberia. Mas a última expressão que Naruto viu no rosto dele foi um belo sorriso.

— Seu idiota… você não me prometeu.


 

O vento da mudança sopra direto

No rosto do tempo

Como o tornado que irá voar

O sino da liberdade para a paz de espírito 

 


~~~~~X~~~~~X~~~~~


 

Vários anos depois…

 

 

Era o primeiro dia de aula, então acabou chegando cedo demais. Ainda não sabia por que continuava fazendo aquilo. Desde pequeno participou do Clube de Música da escola primária, depois do ginásio, do colegial… e agora tinha se matriculado em um curso especializado em música.

Ele nem gostava tanto assim de música. Mas a vida toda teve a sensação de que estava procurando alguma coisa. Que sua vida estava incompleta sem o que quer que estivesse procurando. E tinha um forte pressentimento de que encontraria a resposta se continuasse tocando música.

Sentou-se diante do piano e começou a tocar a primeira música que lhe veio à mente, tentando afastar esses pensamentos. Mas até a música que tocava lhe dava a sensação de que precisava encontrar algo… alguma coisa importante… mas o que era?

— Puxa, você toca bem! — uma garota de cabelos rosados aproximou-se dele, sobressaltando-o — É o aluno novo, não é?

— Ah… sim, eu mesmo.

— Como você consegue tocar tão bem sendo um novato? Pode me ensinar? — a garota inclinou-se um pouco na direção dele.

— Desculpe, não sou tão bom assim para ensinar outras pessoas. E eu estou esperando alguém — respondeu o mais educadamente que pôde. Já tinha passado por aquela situação tantas vezes que a essa altura tinha aprendido muito bem como lidar com ela.

— Ah, entendo. Desculpa — a garota afastou-se, ligeiramente desapontada — Bom, você vai gostar do nosso professor. Ele é muito talentoso… embora tenha o péssimo hábito de sempre chegar atrasado — ela retornou para seu lugar no fundo da sala, desviando por pouco de outro aluno que entrou correndo, provavelmente atrasado — Ei, tome cuidado! Você quase me derrubou!

— Desculpa, foi sem querer! — o rapaz exclamou — É que eu ouvi uma música familiar… — ele interrompeu-se quando seus olhos encontraram-se com os do aluno novo.

Ele sentiu alguma coisa estalar dentro de sua mente. Como naquelas ocasiões em que você sabe que teve um sonho muito interessante do qual não consegue se lembrar.

— Você é novo na turma, não é? — aproximou-se do outro rapaz. Com um salto repentino, sentou-se em cima da tampa do piano, a fim de observá-lo melhor — Era você quem estava tocando aquela música de antes? Pode tocar para mim?

O novato achou aquilo pouco arrogante. Sequer conhecia aquele cara e ele já começava a lhe pedir favores. Mas, ao mesmo tempo, soou estranhamente familiar. Bem, não custava nada tocar um pouco de piano, não é? Decidiu acatar o pedido e voltou a tocar.

— Eu conheço essa música — o rapaz sentado no piano falou quando a canção já estava na metade. O que era estranho, pois ele nunca decorava os nomes das músicas. Mal conseguia tocar algum instrumento, só entrou no curso de música porque estava procurando alguém, mesmo sem saber quem era exatamente — O nome dela era… era…

— Für Elise — o novato completou a frase para ele.

— Isso mesmo! Do Beethoven, não é? — falou e o novato assentiu — Que estranho. Sabe, às vezes eu sonho que estou em um navio e tem um rapaz de cabelos negros tocando essa música…

—… com um cara loiro sentado em cima do piano observando — o outro completou a frase.

Era o mesmo sonho. Não… a mesma lembrança. Um fragmento de memória que apenas os dois compartilhavam. Não era “alguma coisa” que eles estavam procurando. Era “alguém”. Eles procuraram um ao outro por anos, durante vidas diferentes… e, depois de tanto tempo, finalmente a busca acabou.

 — Naruto? — Sasuke chamou, uma parte dele ainda receando que tudo fosse apenas sua imaginação lhe pregando uma peça.

— Sasuke — Naruto abriu um largo sorriso e segurou a mão dele — Eu estava te procurando. Há muito, muito tempo…

— Eu também — Sasuke retribuiu o sorriso, entrelaçando os dedos com os do rapaz. Uma mistura estranha de sentimentos tomou conta de seu peito. Alívio, felicidade, e alguma outra coisa que ele não sabia definir. Mas isso não importava. Queria apenas ficar ao lado de Naruto.

No fim das contas, Naruto tinha razão. Nenhum dos dois se lembrava disso, mas ele estava certo. Reencarnações existem. Agora eles tinham uma nova vida pela frente. Sasuke cumpriu a promessa não feita sobre tocar piano para Naruto mais uma vez. E Naruto continuou ao seu lado, dessa vez por muitos e muitos anos.

 

 

Leve-me à magia do momento

Em uma noite de glória

Onde as crianças de amanhã compartilham seus sonhos

Contigo e comigo


___________________________________________________


Notas Finais:


Explicando a linha temporal: Sasuke morreu em meados do século XIX e permaneceu no navio sem se lembrar de que estava morto. Naruto o encontrou no século XX, quando aconteceu sua morte. Os dois se reencontraram no século XXI no final da história.


História postada também no Nyah! Fanfiction

História criada para o desafio de Songfic da página Fanfics Naruto Shippers

Página: https://www.facebook.com/FanficsNS/posts/768928646782079?__tn__=K-R

Grupo: https://www.facebook.com/groups/122359598449326/

Música escolhida: Wind Of Change - Scorpions

Eu gostaria de ter colocado o Sasuke tocando ela ao piano, mas infelizmente ela não é música de época, então não deu. 

Espero que vocês tenham gostado! 

Comentem por favor e façam uma autora feliz!








28 de Novembro de 2018 às 17:41 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~