Rede Aberta Seguir história

hunterprirosen HunterPri Rosen

Uma rede de internet sem senha. Um chamado perigoso para o desconhecido.


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#Violência- #tortura #paranormal #terror
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Capítulo Único


Este caso aconteceu há algum tempo. Na tentativa de evitar que se repita no futuro, decidi contar essa história. Foi numa grande metrópole, mas poderia ocorrer em qualquer lugar. Basta uma rede de conexão aberta, a decisão pelo clique — muitas vezes, ao acaso — e a coisa pode estar lá. À espreita. Esperando apenas uma chance de transpor as barreiras que separam esse mundo do outro mundo, alcançar você e tragá-lo para a escuridão de uma realidade incerta e desconhecida. 

O personagem do estranho evento que vou narrar se encontra internado hoje. Dizem que perdeu completamente o juízo, tem alucinações constantes e nutre verdadeiro pavor por qualquer dispositivo tecnológico.  

Celulares, tablets, computadores em geral, tudo é mantido a distância do perturbado paciente. Nada disso entra em seu quarto, na clínica psiquiátrica onde está enclausurado desde que enlouqueceu. Familiares e amigos entram apenas com a roupa do corpo ao visitá-lo. 

Ele, eu e você sabemos muito bem como é raro encontrar uma rede de internet livre de senha e confiável. O que você ainda não sabe é que é melhor assim. Precisamos de proteção. No sentido mais primitivo que a palavra carrega. Há muito mais do que vírus e insegurança numa conexão aberta. Hoje, graças a esse rapaz, sei disso. 

Coloque o ceticismo de lado por um momento, bem como suas crenças pessoais, e reflita sobre os relatos sobrenaturais que a ciência não conseguiu explicar ao longo dos anos. Lembre-se de Shakespeare e de sua tese sobre haver mais coisas entre o céu e a terra do que podemos supor com nossa vã filosofia. Considere a evolução tecnológica apenas das últimas décadas. Agora, pergunte-se se somos os únicos evoluindo por aqui.  

Temo revelar que a resposta é não. Porque algo, além do mundo que conhecemos, além do que sabemos e ainda mais além do que tememos, se revelou para aquele rapaz.  

Eu fui uma das pessoas que lhe socorreu num primeiro momento, quando ele vociferou ter escapado do tormento em que se encontrava preso antes. A princípio, não cogitei que dizia a verdade, mas ouvi a sua história com atenção mesmo assim.  

Banhado em sangue e suor, o jovem estava transtornado quando irrompemos pela sua casa. Os vizinhos haviam ficado assustados com seus gritos animalescos e logo fomos acionados. Uma multidão de olhares curiosos se formou no entorno da residência. Ninguém entendia o que estava acontecendo.  

Para ser bem sincera, até hoje eu não sei elucidar com exatidão. Sei apenas o que ouvi, o que senti e o que vi. O resto fica por conta da sua imaginação. Preciso somente contar o que testemunhei, para que minha consciência não pese caso você decida não acreditar em mim. O que é um direito seu, claro. 

Esse jovem, cujo nome não revelarei, estudante esforçado e funcionário exemplar, uma pessoa comum do tipo que você encontra em toda a parte, bradou palavras perturbadoras que até hoje me causam um arrepio gélido na espinha. O mesmo temor que espero despertar em você a fim de que entenda a estranheza e gravidade desse assunto.  

Numa confusão de gritos intercalada por lamúrias cheias de pavor, ele disse ter perdido a noção do tempo e me perguntou data e horário incontáveis vezes. Custou a acreditar quando respondi, visto que alegou ter certeza de que pelo menos um século havia se passado desde que estivera em sua casa pela última vez. 

Perguntei-lhe então qual a última coisa de que ele se recordava antes do tempo transcorrido ter lhe dado essa impressão errônea e infundada. 

Convicto, o rapaz afirmou que a lembrança era de estar voltando para casa depois do trabalho. Disse ter pegado o metrô, como de costume, e que ficou absorto numa distração habitual enquanto manuseava o celular e seguia sua viagem. Entediado e um pouco irritado com a oscilação de sinal, que costuma ocorrer em ambientes sob nossos pés, procurou, no fundo sem qualquer pretensão, por uma rede WiFi aberta. Para sua surpresa, uma se revelou na tela do aparelho: Croatoan. 

Ele conhecia a lenda, riu e julgou se tratar de uma piada qualquer. Conectou-se sem pestanejar atraído pela possibilidade de navegar sem travas na internet. E foi então que o mundo se transformou diante dos seus olhos.  

Esse jovem alega ter tido sua alma roubada — chame de mente ou consciência, se preferir —, arrancada de seu corpo por garras lancinantes e transportada de forma abrupta, imediata e ainda mais dolorosa para um universo paralelo ao nosso. Muito semelhante ao mundo que vemos todos os dias, porém sobrenaturalmente maligno,  mergulhado numa densa bruma vermelha e onde pairava a todo momento um odor ácido nauseante. 

Ele me jurou, de pé junto, ter sido torturado das piores e mais inimagináveis maneiras, durante um tempo que se arrastava, por criaturas negras e medonhas que exalavam sadismo e atrocidade num mundo coberto de trevas sufocantes. 

Alegou ainda ter visto pessoas conhecidas do outro lado, sofrendo, assim como ele, com as mais cruéis tribulações. E que agora acreditava que seus corpos continuavam vivendo no mundo real, vazios de alma, assim como o seu próprio devia ter retornado para casa depois da experiência determinante nas profundezas do metrô. 

Posteriormente, confirmei que o rapaz e as pessoas que ele informou ter visto no outro lado continuavam morando, estudando e trabalhando nos mesmos lugares. Não houve qualquer registro de desaparecimento ou violência. E fora o fato de que estavam cada vez mais dependentes de dispositivos como celulares, beirando o conceito de zumbis modernos por não enxergarem mais o mundo ao redor como antes, não havia nada de suspeito com elas.  

Quando, mesmo sem acreditar nele, questionei como havia escapado daquele pseudo inferno, o rapaz me encarou com um olhar ainda mais transtornado, vidrado, repleto de terror. Aos berros, disse ter conseguido roubar a lâmina de uma das criaturas depois de um século inteiro de tentativas frustradas, que a atacou pelas costas, fazendo-a sangrar afinal, e, numa fuga longa e angustiante, finalmente encontrou uma saída, um atalho entre o real e o sobrenatural. De repente, viu-se em sua cama, dormindo. Sua alma foi atraída como um ímã para o corpo. O rapaz acordou ali mesmo, em seu quarto, na sua casa, tinha retornado ao mundo dos vivos. No entanto, marcado pela experiência bizarra que amargou no universo desconhecido, havia trazido parte dela com ele — sangue e uma estranha arma. 

Até aqui, pensei estar diante de um surto psicótico. Mas quando não localizei ferimentos em seu corpo ou uma vítima na casa que justificassem a quantidade de sangue sobre ele, estranhei. Quando os laudos não chegaram a qualquer conclusão sobre o material afiado e indestrutível que compunha a lâmina encontrada em seu quarto, oscilei mais um pouco. Quando outros exames indicaram a presença de DNA desconhecido nas roupas inexplicavelmente ensanguentadas, meu ceticismo foi abalado. E quando eu mesma procurei por uma conexão aberta, dias depois, reconheci a palavra Croatoan na tela do smartphone e ouvi — juro a você que ouvi — gemidos de agonia e sussurros clamando por socorro em algum lugar em volta de mim, acreditei de vez na história que ele me contou.  

Pouco tempo após esse incidente, me debrucei numa pesquisa sobre a lenda de Croatoan. Pessoas desapareceram, evaporaram no ar, nunca mais foram vistas, ninguém conseguiu explicar de fato o que houve com a colônia Roanoke.  

Sei que em comparação com o tormento vivido por esse rapaz, uma coisa soa um tanto diferente da outra, já que ele e seus conhecidos continuaram presentes nesse mundo, mesmo que suas almas ou mentes não.  

Mas por qual outro motivo a rede carregaria o nome Croatoan se não houvesse uma ligação? Teriam os moradores de Roanoke sido arrastados, séculos atrás, para a mesma dimensão que aquele rapaz? Pelas mesmas entidades monstruosas? Visando os mesmos fins bizarros e vis? Não só suas almas naquele tempo, mas seus corpos também? Quantas pessoas permanecem presas nesse mundo apavorante hoje? Quantas mais serão arrastadas para sua profundeza paralela amanhã? 

Mantenha o ceticismo distante por mais um momento e reflita sobre esses dois acontecimentos sobrenaturais, de épocas tão distintas, e que ninguém conseguiu explicar satisfatoriamente. Lembre-se de Shakespeare. Da sua tese sobre haver mais coisas entre o céu e a terra do que podemos supor. Considere a evolução tecnológica apenas das últimas décadas. E, agora, pergunte-se mais uma vez... Somos os únicos evoluindo por aqui? 

Temo supor que a resposta ainda seja não.  

A tecnologia progrediu. Vem se aprimorando dia a dia. Por que o mal não iria progredir junto? Por que não iria aprimorar a forma de nos alcançar também? Por que não iria se valer da presença tecnológica em nossas vidas para nos aterrorizar até o fim dos tempos? 

Por fim, um último conselho. Não se prenda apenas ao nome Croatoan. Desconfie de toda e qualquer rede aberta. Lembre-se que o mal é ardiloso e está em constante evolução. Nunca, sob hipótese alguma, conecte-se ao desconhecido.


Notas Finais: 

Eitcha lelê! Que tenso, hein? Fica a dica, chuchus... Cuidado com redes sem senhas...

A saber, me inspirei na narrativa de H.P. Lovecraft (Grandes Contos é meu livro de cabeceira ♥), na lenda de Croatoan e até um pouco em Black Mirror, Stranger Things, Silent Hill etc.

Esse conto também foi publicado no Nyah e no Spirit. 

Espero que tenham gostado e comentários são bem-vindos ♥


27 de Novembro de 2018 às 17:47 2 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

HunterPri Rosen You know who I am. Oi? Caçula de três irmãs, apaixonada por dogs, lufana. Sou Hunter, Whovian, Grimmster, fã de Friends e de mais uma pá de séries. Adoro filmes de suspense, terror sobrenatural e clássicos de ação. AMO livros e fan(fictions) de vários gêneros.

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Adryelle Albuquerque Adryelle Albuquerque
queria mais :c muito bom mesmo
30 de Março de 2019 às 07:50

  • HunterPri Rosen HunterPri Rosen
    Não sabe como fico feliz que gostou *------------* Muitas gracias mesmo, viu? Bjs! 1 de Abril de 2019 às 14:32
~