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penduluns Penduluns

Não abra os olhos até que o frio na espinha vá embora. Não espie entre as frestas. A escuridão te mantém seguro. Obedecer te mantém são. Quando as luzes apagarem, esconda-se. [ JIKOOK ]



Fanfiction Bandas/Cantores Para maiores de 18 apenas.

#medo #alucinação #assombração #fantasmas #terror #jeon-jungkook #park-jimin #jikook
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Caçador de Corpos

“Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, de que me serve isso

se os mortos não ressuscitam?”

— 1 Coríntios

Tragou fundo mais uma vez o cigarro de filtro branco, observando o escritório quase completamente escuro, com iluminação apenas acima das mesas. O ar condicionado deixava o ambiente gelado e confortável, o zumbido dele sendo o único som do ambiente e provocando um eco estranho que fazia a nuca de Jungkook arrepiar. Parecia o fim de um grito desesperado, se você parasse para ouvir melhor.

Mesmo com seus vinte e quatro anos,  Jungkook não gostava de ficar sozinho. Ficar sozinho fazia-o lembrar de coisas que ele não queria lembrar, fazia-o lembrar de seu pai e de como aquela noite fria de Dezembro tinha tudo para terminar bem, mas o que quer que comandasse o mundo ou o destino das pessoas modificou as coisas por ser um sádico de merda.

Seu pai morreu.

E seu pai morreu na sua frente.

Jungkook nunca ia esquecer o olhar apavorado do pai quando o homem estranho foi em sua direção com a faca pequena pingando o sangue quase negro, o olhar de impotência e de medo por não conseguir fazer nada, porque os golpes em seu pescoço e peito foram fundos demais, tão fundos que a vida esvaía-se por eles com facilidade.

E ele não poderia proteger Jungkook.

“Corra, filho!”

Tragou mais uma vez, fechando os olhos com a sensação gostosa. Era proibido fumar no escritório, mas ele já estava cansado e queria ir para casa, a hora já passava das 19 e o seu expediente encerrava-se às 17. No entanto, o chefe pediu para que ele fizesse uma planilha de última hora para o outro dia.

— Finalmente, porra — murmurou sorridente enquanto preenchia a última célula no Excel. Salvou a pasta e desligou o computador, levantando-se com pressa e puxando o casaco da cadeira para que finalmente pudesse ir embora.

Quando estava prestes a puxar a maçaneta e sair do escritório, todas as luzes tremeram e ele olhou para trás confuso, observando o cômodo cair no escuro e levantar na luz com poucos segundos de diferença.

Franziu o cenho, a mão fechou-se com mais força na bola de metal, seus olhos varreram o ambiente e o coração disparou quando as luzes caíram de novo, dessa vez demorando mais do que poucos segundos para acender.

Segurou com mais força a pasta que carregava e virou-se para a porta, puxando-a e saindo do escritório. Jungkook apenas girou a chave e andou para longe dali, inspirando e expirando com calma conforme lembrava-se de contar até dez como foi instruído pela psicóloga infantil.

— É só seu psicológico, Jungkook — disse para si mesmo quando entrou no elevador e pressionou o botão do primeiro andar. — Foram as lembranças, apenas isso. Você está seguro.

[...]

As moscas negras giravam no peitoril da janela, tremelicando com o veneno entorpecendo seus corpos. A lâmpada amarela que cobria toda a pequena varanda estava quase no fim, lutando para continuar exercendo a sua única função e, mesmo que estivesse praticamente morta, alguns insetos ainda a rodeavam de forma faminta e desesperada.

Dentro da casa, na sala iluminada somente pela luz da televisão de tubo, estava Jeon Jungkook acomodado em seu sofá azul e desgastado pelo tempo. As pernas confortavelmente ajeitadas nas almofadas fofas e o corpo praticamente nu, com exceção de uma bermuda folgada e meias coloridas que se arrastavam até o meio de suas canelas russas.

Ele devorava um pote de salgadinhos sabor tomate enquanto os olhos continuavam vidrados no filme de terror que o canal transmitia e seu ouvido escutava atentamente os gritos histéricos do seu melhor amigo do outro lado da linha do telefone, achando graça no escândalo desnecessário e infantil.

Jungkook, estou dizendo, eu vi uma garota na janela!

— Claro que viu, Taehyung, você é maluco. Vou pedir para a senhora Kim te internar — respondeu divertido enquanto jogava mais alguns salgadinhos dentro da boca. O grito irritado de Taehyung o fez sorrir de canto.

É tão difícil assim acreditar em mim?! — Jungkook revirou os olhos e apanhou o controle cheio de gordura para desligar a televisão,  já estava entediado de assistir aquele filme que poderia ser considerado o mais sem graça do planeta.

— Um pouco. Olha, você deve ter se-

Parou quando a luz da sala tremelicou um pouco. Olhou confuso para a lâmpada.

— se assustado com aquela lenda meio ridícula que o Namjoon contou hoje na hora do almoço. Ele fez aquilo pra te assustar só porque é sexta-feira 13.

Não foi alucinação, eu sei o que é real e o que não é.

— Claro, sabe mesmo — respondeu com tédio e sentou no sofá, esticando os braços.

Sei! — A luz tremelicou novamente e Jungkook afastou um pouco o telefone da orelha para observar a lâmpada que não parava de piscar. — E você deveria entender o seu melhor amigo, eu acho que…

Jungkook parou de prestar atenção no que ele falava quando a casa inteira ficou escura de repente e depois iluminou outra vez. Apertou os olhos e levantou, encarando o teto, porque parecia que alguma coisa estava andando no sótão. Ele não estava ficando maluco, conseguia escutar alguns passos e sua primeira hipótese foi um gato, mas a segunda arrepiou sua espinha.

A luz apagou outra vez, ele escutou passos na cozinha.

A luz acendeu e ele olhou rapidamente para a direção dela, com o coração no peito, mas não havia nada lá.

A luz apagou, os passos se tornaram próximos.

A luz acendeu, não havia ninguém em nenhum lugar.

— Taehyung? — Agarrou o telefone e perguntou trêmulo, escutando apenas o zumbido de linha muda. — Taehyung?!

A luz apagou, uma risadinha ecoou na escuridão.

A luz acendeu, Jungkook suspirou assustado.

A luz apagou, uma respiração bateu contra a sua nuca.

A luz acendeu, ninguém ali.

— Taehyung! — gritou desesperado, os dedos escorregando por conta do suor e da gordura.

A luz apagou. Acendeu. Apagou. Acendeu.

Jungkook olhou para todos os lados, a respiração pesando no pulmão. Sua visão encontrava-se turva por conta das lágrimas acumuladas no canto dos olhos e, com o lábio entre os dentes, ele sentia que estava prestes a desmaiar.

A luz apagou.

Vamos brincar de pique-esconde?

Um grito desesperado e todas as luzes apagaram imediatamente em um estrondo forte e poderoso vindo do lado de fora.

Jungkook agarrou o telefone e tentou sair correndo, mas acabou tropeçando na mesinha de centro e o rosto raspou no carpete áspero, provocando um chiado de dor e surpresa.

Seu tornozelo foi agarrado por dedos gelados e grossos, mas ele conseguiu chutar a mão intrusa e levantar, enchendo o pulmão de ar e gritando com todas as forças que possuía para que Deus o ajudasse e não o deixasse morrer.

Passou pulando pela sala e empurrou qualquer coisa que estivesse na sua frente, a fim de atrasar quem quer que fosse atrás de si. Um abajur espatifou e uma mesinha rodou perto dos seus calcanhares, mas nada pareceu funcionar porque, rápido como um raio, seus cabelos foram agarrados e ele tombou para trás, atingindo o piso gelado com a cabeça.

Um zumbido preencheu seus ouvidos e ele fechou os olhos com a dor forte nas têmporas, ameaçando chorar. Não sabia o que era aquilo e também não sabia como havia entrado na sua casa visto que não escutou a porta abrindo e fechando.

— Você vai me ajudar, Jungkookie. Vou pedir apenas um vez, eu acho bom que não corra. — A voz melodiosa e baixinha soou bem próxima de sua orelha, tão próxima que sua bochecha sentiu o hálito quente.

Jungkook passou a respirar rápido demais, o peito emitindo chiados estranhos e desconexos. Ele queria falar, queria gritar que entendeu tudo e que faria o possível para manter-se vivo, mas suas palavras resumiram-se a resmungos ininteligíveis e uma gagueira irritante.

— Q-Quem… quem é você? — desembuchou depois de um longo tempo e olhou para frente tentando reconhecer a sombra acima de si, a sombra distorcida e assustadora.

Uma risada fraca e melancólica foi o começo da resposta, mas Jungkook não sentiu-se confortável com aquilo, não mesmo. Ele ficou arrepiado e a vontade de sair correndo só aumentou.

Uma luz fraquinha iluminou a frente de seus olhos e ele fez um esforço para não fechá-los com a claridade. A lanterna pareceu passar de uma mão para a outra e, quando movimentou-se mais para trás, Jungkook conseguiu ver um rosto.

Um garoto. Um garoto bonito, com uma aparência angelical. Mas seus olhos… seus olhos eram duas bolas negras sem brilho algum, sem uma alma carregando-os e sem vida. Opacos.

— Park Jimin. Me chamo Park Jimin.

[...]

A dor de cabeça forte o fez abrir os olhos quase de imediato. Sua respiração estava acelerada e o sangue bombeando no ouvido era rápido, parecia querer avisá-lo de que algo estava para acontecer ou ainda pior: Que algo havia acontecido.

Com esse pensamento, Jungkook levantou apressado e olhou em volta.

Tudo parecia na mais perfeita ordem; sem mesas jogadas e lâmpadas quebradas. Além disso, seu corpo dolorido era um indício de que ele havia passado a noite inteira dormindo no sofá, não demonstrava nada de anormal ou de assustador e, por mais que sua mente ainda estivesse em alerta, decidiu simplesmente ignorar.

— Que sonho maluco… — sussurrou para si mesmo. — Vou parar de conversar com o Taehyung sobre assombrações antes de dormir.

Levantou-se com dificuldade e foi aprontar-se para a faculdade mesmo que estivesse parecendo um zumbi; com olheiras negras e uma cara de bosta.

Ao trancar a porta de casa e sair caminhando calmamente até o campus, Jeon Jungkook não percebeu a pequena mancha de água negra no tapete de boas-vindas.

[...]

— Estou dizendo para vocês, não era humano. — Taehyung continuava a tagarelar sobre sua experiência com espíritos. — Eu sei o que é humano e o que não é.

— Cala a boca, Taehyung. Espíritos não existem. — Namjoon gargalhou alto enquanto tomava mais um gole de seu refrigerante. Taehyung olhou-o irritado.

— Você que devia calar a boca, foi sua culpa. Se não tivesse inventado de contar aquelas histórias ridículas ontem, ele não estaria com tanto medo — Yoongi rebateu passando o braço pelos ombros de Taehyung e puxando-o para perto. — Sabe que Taehyung é sensível.

— Seu cu, Yoongi! Eu não sou sensível!

Jungkook continuava alheio, os olhos concentrados no próprio lanche e o lábio sendo massacrado pelos dentes. Escutava a conversa dos amigos, mas a vontade de participar era mínima. Queria apenas ir para casa e de preferência acompanhado. Estava quase pedindo para que Taehyung fosse dormir consigo, mas precisava bolar um plano para que não parecesse que estava morrendo de medo de ficar sozinho no escuro.

Acontece que Jungkook já tinha praticamente esquecido o que havia acontecido na noite anterior, mas tudo veio à tona quando, durante a aula de química, as luzes tremelicaram tanto que uma das lâmpadas explodiu bem em cima da cabeça de um dos alunos, provocando um corte não muito fundo em sua testa.

O sangue escorrendo vagarosamente e pingando no chão estalou as lembranças em sua mente e, antes que pudesse simplesmente sair da sala e correr até o banheiro para recobrar o ar, mãos quentes apertaram seus ombros e o pulo que deu na cadeira atraiu os olhares, mas ele não estava preocupado com isso.

Quando virou para trás, a carteira sempre vazia continuava vazia, com exceção de uma pocinha de água escura e suja bem no centro da mesa. Jungkook sentiu o sangue gelar, os olhos arregalados denunciando todo o pavor que estava sentindo e, mesmo com o coração na garganta, segurou o grito preso e voltou a observar o aluno ferido caminhando vagarosamente até a enfermaria. O sangue escorrendo continuava preso em sua mente.

Quente.

Viscoso.

Denso.

“Corre, filho! Corre!”

“Pai?! Está sangrando!”

“Corre, Jungkook. Sem olhar para trás.”

— Jungkook, você está bem? — A voz de Taehyung cortou seus pensamentos. Não percebeu que estava suando.

Quando finalmente levantou a cabeça, percebeu que todos os amigos estavam olhando com expressões confusas. Percebeu também como parecia abalado com aquela respiração pesada, os lábios secos e machucados por conta das mordidas. Não quis explicar o real motivo.

— Ah, eu só… acho que levei bomba em química, só isso. Tae, quer ir estudar comigo hoje? Você pode dormir lá.

Taehyung franziu as sobrancelhas, soltando-se levemente dos braços de Yoongi, encarando-o como se estivesse tentando descobrir alguma coisa, algum segredo. Jungkook sabia muito bem o quão inteligente era e o quão estranho estava soando pedir ajuda tão desesperadamente para a pessoa que mais ia mal em química do grupo.

Taehyung era de humanas.

— Você sabe que eu não estudo química faz bastante tempo, não sabe?

— Só me ajuda, Taehyung.

Com essa frase final, Taehyung pareceu entender que não era de química que Jungkook estava falando. Apenas acenou positivamente e voltou a conversar com os outros, esquecendo-se rapidamente do incidente. Jungkook agradecia.

[...]

— Jungkook, isso é difícil e eu sei que você não está precisando de ajuda em química. - Taehyung jogou os livros no chão e sentou de pernas cruzadas na cama, observando Jungkook de forma curiosa e desconfiada. — Desembucha.

Jungkook mordeu os lábios e desviou os olhos para os próprios dedos que arrancavam fiozinhos da capa do travesseiro. Ele não queria encarar Taehyung e dizer que havia sido agarrado por um garoto todo molhado que desapareceu misteriosamente segundos depois.

Era estranho.

— Tae, eu acho que… — Olhou para Taehyung, que continuava inquisitivo. Suas bochechas queimaram. — Eu… — Ele precisava inventar uma desculpa o mais rápido possível e quanto mais Taehyung inclinava a cabeça para frente em indagação, mais Jungkook ficava nervoso e tentado a responder uma bobeira.

E aí aconteceu.

— Acha o que, Jungkook?!

— Voltei a pensar no meu pai.

Taehyung piscou, recuou e aí voltou para frente de novo, franzindo as sobrancelhas. Jungkook soltou o ar preso e voltou a olhar para o travesseiro, completamente preocupado com o que Taehyung diria a seguir. Taehyung era extremamente preocupado, ele acompanhou todos os seus pequenos e grandes surtos que teve após a morte do pai. Ele sabia que voltar a pensar no incidente era um problema gigante para Jungkook.

— Com qual frequência, Jungkook?

— Começou ontem. Eu fiquei sozinho no escritório e só… Não sei, comecei a pensar demais.

— Você voltou a fumar, Jungkook? — Taehyung encarou-o tão intensamente que ele precisou desviar o rosto mais uma vez.

— Eu… eu fiquei nervoso, precisei do cigarro.

— Não, você não precisou dele. Você sabe que essas coisas são um gatilho para suas lembranças, não sabe? Gukkie, você não teve culpa do que aconteceu. Você era uma criança, não poderia ter feito nada.

— Eu poderia ter ajudado, eu não deveria ter corrido, eu-

— Não! — A voz grossa de Taehyung o fez fechar a boca imediatamente. — Não ouse se culpar outra vez, sabe como isso quase te destruiu no passado.

— Desculpe, hyung. — Abaixou a cabeça, constrangido.

— Não se desculpe, Jungkook. E as visões? Você teve alguma?

Jungkook levantou a cabeça e encarou-o com olhos arregalados. Não sabia o que dizer, não queria dizer o que aconteceu. Sabia que se dissesse, Taehyung o obrigaria a ver mais um psicólogo, o trataria como se ele fosse um vaso estúpido de cerâmica que quebra com facilidade. Ele só não queria voltar a ser o pirado da turma, o garoto que vê fantasmas.

Eram apenas culpa do trauma, não eram?

Claro que eram.

Pensando nisso, ele respirou bem fundo e disse:

— Não, Taehyung. Eu não tive nenhuma visão.

Mas Jungkook se sentiu mais perdido do que nunca enquanto observava uma mancha negra cobrir completamente o espelho atrás de Taehyung.

[...]

Jungkook estava suando. O corpo revirava na cama enquanto os olhos não conseguiam simplesmente fechar para que ele pudesse dormir, as risadas que atravessam seus ouvidos nunca cessavam.

Taehyung, deitado no colchão no chão, dormia profundamente e sem saber o que estava acontecendo. Os barulhos perturbadores e intensos eram somente produzidos na cabeça de Jungkook, o que estava sendo capaz de deixá-lo com uma sensação de insanidade.

Levantou-se com dificuldade e tentou secar a testa ensopada com as mãos, mas elas pareciam ainda piores e com um cheiro estranho. Desceu os braços e olhou para Taehyung deitado. Sentiu vontade de contar, mas algo dentro de si não queria permitir. Nada saía de sua boca. Era como se ele estivesse sendo controlado por alguma força que o impedia de pedir ajuda.

Passou por Taehyung em um pulo e correu rapidamente para fora do quarto, descendo as escadas com as mãos firmes nos corrimões e com a respiração chiando. Os pés descalços provocavam uma mudança de temperatura torturante, o gelado retorcendo o quente e provocando uma ânsia tão forte que ele viu-se obrigado a fechar os olhos e grunhir para manter-se de pé.

As vozes ainda rodeavam sua cabeça e as risadas pareciam mais altas conforme ele aproximava-se cambaleante da sala. A visão borrada deslizava como se fosse tinta em tela, uma viagem alucinógena causada pelo medo e não por drogas.

Jungkook chorou. Ajoelhou-se no tapete escuro e deixou que as lágrimas rolassem, a respiração sendo puxada para dentro do peito em pausas curtas. Ainda estava trêmulo, a cabeça não parava de girar e as risadas não paravam de ecoar, era doentio e perturbador.

— O que você quer? — perguntou em um fiasco de voz, a saliva escorrendo pelo canto da boca. — Que porra você quer comigo?

— Vai me ajudar, Jungkook? — A voz saiu arrastada e próxima de sua orelha. — Vai me ajudar?

— O que você quer? — Repetiu com a voz trêmula. — Minha alma?

Outra risada, dessa vez o hálito soprou contra seu nariz, mas não havia nada ali. Jungkook estava com dificuldades para enxergar, mas não estava cego. E definitivamente não havia um garoto na sua frente.

Então, onde ele estava?

— Preciso achar uma coisa, mas não consigo fazer isso sozinho.

Sua cabeça ameaçou tombar para trás, mas mãos cuidadosas seguraram em seus cabelos e a puxaram para frente outra vez, os dedos passando para suas bochechas em uma carícia estranha e afetuosa demais.

Engoliu em seco e arregalou levemente os olhos quando o mesmo garoto da noite anterior começou a aparecer aos poucos na sua frente. Ele esboçava um sorriso amargo e os olhos negros pareciam brilhar dessa vez, mas Jungkook não teve certeza disso, porque parecia muito grogue e fora de si. Talvez fosse só uma impressão.

— Achar? Achar o que? — perguntou. O garoto sentou-se na sua frente em posição de índio e mordeu os lábios, encarando-o profundamente.

— O meu corpo.

[...]

Jungkook não conseguia tirar os olhos do chão, ele esperava ter um lapso branco e de repente sua casa adquiriria novamente a coloração e o calor alaranjado. Mas tudo o que ele conseguiu depois de ter praticamente comido a própria língua, foi o silêncio e a presença mais forte de Jimin.

Jungkook podia sentir Jimin respirar. E ele sabia que pelo sangue quase roxo, Jimin estava morto.

Morto.

Mas falava e respirava e queria que ele achasse um corpo.

O seu corpo. E porquê?

Os pensamentos de Jungkook não foram longe quando Jimin chegou mais perto. Ele ouviu os passos e viu os pés se aproximarem.

Jimin repetiu.

— O meu corpo.

Jungkook levou as mãos aos ouvidos e o som da voz fantasmagórica de Jimin atravessou seus dedos e vibrou para dentro de seus ossos. Jungkook queimou no sons que Jimin soltava e ele sentiu os dedos de Jimin atravessarem sua garganta. Mas ele não sentiu falta de ar, porque Jimin não tinha feito nada. Suas mãos estavam paradas, a mente de Jungkook já começava a pregar suas peças.

Estava enlouquecendo?

Deveria se jogar? Acabaria? Era um sonho? Se cavasse alguma cova, acordaria na sua cama e então Jimin não passaria de uma lembrança ruim?

— O meu-

— O seu corpo — Jungkook o cortou, mas soou como um cordeiro prestes a morrer asfixiado. — Eu tenho… tenho que...

E começou a sentir o pulmão doer.

Jimin não disse mais nada. Jungkook ainda não podia olhar seu rosto. Ele ficava na mesma linha, porque tinha medo de olhar e nunca mais esquecer.

Jimin parou na porta. Ele variava entre o virar de cabeça para a direção de Jungkook e o apontar para a saída.

Jungkook soube que teria que segui-lo.

Mas Jimin poderia estar o levando para a cova e Jungkook só saberia quando fosse tarde e não pudesse mais ser ouvido por nada e nem ninguém.

Mas ele o seguiu, mesmo assim.

Tudo porque tinha a certeza que, de qualquer forma, acabaria morto no final da noite.

Quando Jungkook viu, já estava trazendo o carro para fora da garagem. Jimin tinha sumido por segundos, mas o viu parado do lado de fora da casa e a porta estalou, o banco de trás afundou e o vidro congelou até Jungkook poder ver a própria respiração. Ele engoliu e sabia que teria que voltar a fazer contato com Jimin para saber o próximo passo. Jungkook levantou os olhos até o retrovisor e Jimin olhava para janela. Seu perfil era delicado, mas Jungkook podia ver a morte saindo pelos poros e toda a calma repentina tornou-se dor. Jimin estava morto. Jungkook morreria logo e ele não sabia mais o que fazer para manter-se na própria cabeça. Fechou os olhos. Abriu. Jimin levou os dedos até a boca e de lá tirou um pedaço de feno. Jungkook fechou os olhos e Jimin tinha mais feno espalhado pelo corpo. Jimin não dizia nada. Jimin não respirava mais. Jungkook fechou os olhos. Jungkook abriu os olhos e Jimin o olhava. O choque fez com que Jungkook fritasse e colasse no banco. Jungkook não podia desviar o olhar e tudo a volta começou a pegar fogo. O banco derreteu e suas pernas borbulhavam. Jimin tinha duas bolas pretas. Não. Eram brancas. Vermelhas. Elas refletiam Jungkook e todo o seu medo. Jimin desviou o olhar.

E Jungkook soltou a respiração.

O banco estava gelado e sua perna não borbulhava, tremia. E Jungkook colocou a mão no volante.

O som do motor fez com que Jimin o olhasse de novo, mas Jungkook não encarou, focou nos próprios joelhos e no chaveiro de trevo que tinha pendurado na chave do carro. O vento atravessou o carro e trouxe para Jungkook o cheiro de ossos e fazenda. E para seu joelho, aquele mesmo pedaço de feno.

— A fazenda no final da estrada.

Jungkook ouviu de novo a respiração de Jimin soar em seu ouvido e todo o seu corpo pulou com o som que saiu dos lábios de Jimin.

Era como se Jimin estivesse iluminando-se.

O pneu deu a primeira volta e logo marcava a rua, tudo porque suas mãos tremiam e o carro morreu e quase capotou mais de 10 vezes.

O caminho foi horrível e a chegada a fazenda foi pior. Se existisse algo pior que o inferno, era aquela fazenda. Era aquele celeiro e tudo ao redor roendo até o limbo. O espírito de Jimin tremeu e ficou mais forte. Palpável. Jimin andou e Jungkook sentiu calor saindo da pele dele. Jimin correu até lá e Jungkook andou com medo e com a vida escorrendo entre os dedos.

As portas eram enormes e um ser humano normal não seria capaz de abrir sozinho. O problema era o buraco que tinha entre elas, como se tivessem destruído a madeira para fugir.

Fugir do que?

Jungkook pisou para dentro e quase arrancou as próprias tripas para fora. Tinham restos de animais e o corpo de um garoto, em cima do feno, em decomposição.  

Era a pura podridão.

Jungkook não aguentou e curvou-se, colocou para fora tudo que tinha comido nos últimos tempos e buscou o olhar de Jimin com súplica.

Jimin olhava para o corpo do garoto.

E chorava.

Jungkook ouviu e viu as lágrimas de Jimin escorrerem. Jimin tinha tornado-se indefeso e pequeno. Jungkook sentiu a própria garganta fechar.

— O que aconteceu? Quem fez isso?! — As palavras saíram gritando e a mente de Jungkook nublou. Levou as mãos até a cabeça e o cheiro do vômito ficou forte, sons desconexos e dor.

Muita dor.

Além de tudo, a voz de Jimin cortou o ar e Jungkook apagou sabendo que

— Eu confiei nele.

Jimin tinha confiado em um assassino.

[...]

A televisão chiou e Jungkook franziu a testa. O chiado entrou em seu cérebro e causou uma dor de cabeça muito grande. Jungkook levou a mão para o rosto e sentiu um cheiro azedo saindo dela. Porra. Deixou o braço cair para fora da cama.

— Essa merda de televisão! Não funciona! Aquele desgraçado da loja me enganou! Se ele acha que eu não vou-

O chiado parou, a voz robótica da mulher do noticiário matinal soou breve e única. Jungkook abriu os olhos. Sua mãe estava na sala, olhando para as notícias.

— Que tragédia — ela disse e Jungkook aguçou a audição.

“Nessa madrugada, nossos oficiais locais encontraram o corpo de Park Jimin, o menino que desapareceu meses atrás. Tudo indica que o corpo esteve escondido por muito tempo e só agora a família decidiu vasculhar o celeiro que era uma antiga herança. Após a descoberta, a polícia local começou a trabalhar duro na busca por respostas e por um suspeito.”

— Quantas horas eu dormi? — Jungkook perguntou confuso.

— Já são quatro da tarde, filho.

Jungkook levantou rapidamente do sofá e sua cabeça tonteou, mas ainda sim ele pode sentir sua roupa suja.

Suja de feno e terra.

22 de Novembro de 2018 às 00:56 3 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Penduluns Escritora ainda em treinamento, faço do terror meu verdadeiro lar. Sou uma amante da noite.

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Sir_Jeon Sir_Jeon
Omg, sem condições!!!
7 de Junho de 2019 às 21:30
Hey Wedding Hey Wedding
Mano, eu vou passar mal, foi muito bom! Sério, você sabe escrever suspense muito bem <3
22 de Dezembro de 2018 às 07:05

  • Penduluns Penduluns
    OH, MUITO OBRIGADA! Fico muito feliz que tenha gostado, é sempre bom saber a opinião das pessoas e eu tô emotiva agora :( <3<3<3 22 de Dezembro de 2018 às 12:53
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