Vida de Cão Seguir história

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Toben, um cachorrinho apaixonado por batata-frita e mais esperto que muita gente por aí, narra um pouco de sua vida ao lado de "Chano" e como o ajudou a encontrar o amor num cara com cabelo de algodão-doce. Betado por: Dulce Veiga


Fanfiction Bandas/Cantores Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#oneshot #Catioros #fluffy #kaisoo #chanbaek #baekhyun #chanyeol #exo
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ChanoBacon

Eu juro.

 

Juro pelo deus dos cachorrinhos.

 

(Que eu não sei se é o mesmo deus das pessoinhas, mas acho que sim.)

 

Meu Chano é burro.

 

Não um burro de verdade, daqueles que as pessoas criam nas fazendas. Inclusive, esses eu nunca vi de verdade, só naqueles programas de televisão que o Chano sempre assiste, cheio de bichinhos.

 

Ele só é muito, muito estúpido. E eu vou explicar o porquê.


 

------ U・ᴥ・U ------


 

Eu o conheci quando ainda era um bebê, há uns meses. Parece pouco, mas como um cachorrinho no alto de sua maturidade com um pouco mais de um ano de vida, posso dizer que já passei por muita coisa.

 

Eu sou o último de uma ninhada de oito, o menor e mais frágil, e fui colocado à venda numa loja junto dos meus irmãos, quando não tinha sequer desmamado. Não me lembro mais deles, nem da minha mamãe, mas também não passamos tempo suficiente juntos para que eu criasse memórias.

 

Estava tudo indo bem (porque, né? eu só mamava e dormia bastante), até que fomos parar naquela vitrine. Ali, começamos a nos separar. Dia após dia eu via meus irmãos, mais bonitos e comportadinhos que eu, sendo tirados daquela caixa transparente por estranhos, enquanto eu mordia suas patinhas na esperança que eles ficassem. Eu nunca gostei de ficar sozinho, sempre fui um cãozinho espevitado, e talvez tenha sido isso o que me aproximou do Chano.

 

Os dias se passavam tediosos enquanto eu observava as pessoinhas circulando para lá e para cá do outro lado do janelão de vidro, e eu gostava de deitar com as minhas patas embaixo da cabeça e ficar pensando o que existia além daquela loja com cheiro forte de ração e cheia de brinquedinhos que eu nunca podia usar. Às vezes, gostava de fingir que ainda tinha filhotinhos para brincar e corria e latia agudo, mas os moços da loja não gostavam e sempre me davam bronca, reclamando que eu só estava ali para dar trabalho, já que ninguém me levava para casa. Nessas horas, eu ficava triste, mas não chorava, porque sou muito corajoso. Aos poucos fui notando que o sol aparecia e sumia toda hora e ninguém mais pedia para ver o cachorrinho da vitrine, ou seja, eu. Talvez fosse porque a vizinhança já estava cheia de filhotinhos recém-comprados e ninguém queria um cachorro parecido com todos os outros. Eu já perdia as esperanças de conseguir um humaninho, e tinha muito, muito medo dos donos da loja me jogarem num lugar qualquer ou fazerem coisa pior. Aí, sim, eu chorava baixinho de madrugada, quando não tinha ninguém por perto para brigar comigo.

 

Foi quando ele apareceu.

 

De início, achei que ele podia ser um dos meus irmãos, porque temos cabelos parecidos, escuros e enrolados. Mas aí percebi que ele era grande demais pra ser um cachorrinho. Na verdade, ele é grande demais até pra ser uma pessoa, e na época, como eu era muito pequenininho, o achei um gigante.

 

(Ele ainda diz que eu sou pequeno, porém discordo.)

 

Ele colocou as mãos no vidro que nos separava, fazendo caretas estranhas. Eu não podia ouvir o que ele dizia, e apesar de mostrar todos os dentes pra mim, não parecia com raiva, mas feliz. Eu estava dormindo, então me assustei um pouco quando ele aproximou mais o rosto do vidro e dei um bote na direção dele, o xingando de mil nomes impróprios para um filhote. Não sei porque, mas ele mostrou ainda mais os dentes, todo alegre. Gritei mais, pedindo para ele sair dali e me deixar em paz, porque eu nunca ia conseguir tirar meu décimo segundo cochilo diário se ele ficasse com a carona ali na minha frente, mas nada era capaz de afastar o gigante. Lati tão alto que o dono da loja logo apareceu muito bravo, me pegando sem muito cuidado pela pele do pescoço como a mamãe fazia, só que com ele machucava, e o humano do outro lado da vitrine fechou a cara. O malvado levou para fora, até onde estava o grandalhão, que agora me encarava com uma cara de triste. Na mesma hora percebi que aquele era o gigante mais fofo do mundo e não me faria mal algum.

 

— Vai ficar aí olhando ou quer levar ele? — o dono da loja rosnou.

 

O humano bonzinho olhou rapidamente para o meu preço na vitrine. Já tinha sido riscado uma porção de vezes para dar espaço para um valor ainda mais barato que o anterior, e ele fez uma cara ainda mais chateada, unindo as sobrancelhas e fazendo um bico. Parecia que iria chorar a qualquer momento.

 

— Eu... é... não tenho esse dinheiro aqui...

 

— Quanto você pode pagar?

 

— Eu... hm... espera.

 

E começou a mexer na própria roupa, procurando alguma coisa. Achou uma bolsinha dentro da mochila e começou a tirar um monte de papel de lá de dentro. A princípio, pensei que fosse dinheiro, mas na verdade era um monte de recibos e listas de compras. O humano não tinha como pagar. Quase fiquei com mais dó dele do que de mim.

 

— Eu tenho.. hm... — Ele anunciou bem tímido, contando alguns papéis que agora sim eram dinheiro. Mas ainda não era muito. — Cem mil won. É tudo o que eu tenho do salário dessa semana... Desculpe... — Ele disse me olhando, e eu entendi que as desculpas eram só para mim.

 

— Aqui, leva. — O dono da loja esticou o braço e eu fiquei balançando no ar por um momento até o gigante notar que era para me segurar.

 

Ele estendeu as duas mãos e me pegou quando o homem malvado me soltou, e ele tinha mãos tão quentinhas e enormes que eu quase sumi dentro delas, mas gostei porque ele era todo cuidadoso.

 

O outro homem pegou o dinheiro e foi para dentro da loja sem dizer mais nada, batendo a porta atrás de si. E o humano e eu ficamos ali parados olhando um para o outro enquanto ele me segurava em frente aos seus olhos.

 

— Olá, pequeno — ele disse, sorrindo meio tímido. — Sou o Chanyeol.


 

------ U・ᴥ・U ------


 

— Que nome vamos te dar, pequeno? — Ele me chamou pelo apelido enquanto entrávamos em sua casa depois de andarmos por um tempo, eu aninhado no colo dele o tempo todo.

 

Me assustei quando ele finalmente me colocou no chão. Vejam bem, eu era apenas um bebê e nunca tinha conhecido nada que não fosse aquela caixa de vidro na loja e a rua em frente a ela. Nunca tinha visto a toca de um humano e me pareceu assustadora à primeira vista. Tinha livros jogados por todos os cantos, um monte de papel e uns instrumentos musicais, além de um cheiro forte de café. Eu não sabia que dava para empilhar tanta coisa num lugar apertado daqueles, e me senti cercado de prédios altíssimos.

 

— É, acho que vamos ter que arrumar isso agora. — Disse o Chano, lendo meus pensamentos e jogando sua mochila em cima de uma daquelas pilhas, deixando-a ainda mais alta e fazendo um barulhão que me fez dar um pulo para o lado, ansioso. — Calma, pequeno, você está em casa agora, não precisa ter medo. — Me pegou no colo e começou a me fazer carinho enquanto sentava num sofá tão vagabundo que quase o engoliu de tão mole que era a espuma.

 

(Disso eu não posso reclamar, o Chano é ótimo fazendo carinho.)

 

Estendeu o braço, pegando dentro da mochila um aparelho retangular desses que brilham e depois o Chano fala dentro dele. Nunca entendi direito como isso funciona e desde então tenho uma teoria de que o meu humano tem superpoderes e essa é a varinha mágica, porque não sai da mão dele e ele consegue fazer muitas coisas só usando isso. Mas o Chano chama de celular, então é assim que eu chamo também. Cada mágico sabe como deve chamar seus apetrechos, né?

 

Pois bem, o Chano pegou o tal celular e colocou em cima da orelha (que é enorme, por sinal) e logo uma outra voz de humano saiu de dentro dele. Soube que era um humano macho porque meus ouvidinhos de cachorro escutaram o tom que era grave, mesmo que não fosse tanto quanto o do Chano.

 

— O que foi agora? — disse a voz do outro lado.

 

— Poxa, Jongin, isso é jeito de atender o telefone?

 

— É. Porque com certeza você deve ter feito alguma mer-

 

— Eu peguei um cachorro! — Chano praticamente gritou.

 

— O QUÊ? — o moço chamado Jongin gritou ainda mais alto e eu me encolhi no colo do Chano.

 

— Ele é lindo, você vai amar, mas não tenho mais dinheiro, então traga ração para filhotes e uma coleira, tchau! — Disse isso muito rápido e depois jogou o celular longe, deixando escapar um suspiro aliviado. — Vai ficar tudo bem, pequeno, o Jongin costumava ter cachorros quando morava com os pais, e ele com certeza vai te mimar mais do que eu. Só vamos dar um tempo pra ele, ok?

 

Ele abriu de novo aquela boca enorme e me mostrou as fileiras de dentes brancos e alinhados, mas eu não tive medo. Foi a primeira vez que entendi o que era um sorriso.


 

------ U・ᴥ・U ------


 

Jongin chegou em casa algumas horas depois e me encontrou ainda sentado no colo do Chano enquanto víamos na televisão mais um daqueles programas com um monte de animais que eu comentei lá no começo. Ele parou na porta cheio de sacolas nas mãos e uma bolsa enorme nas costas e respirou fundo. Acho que estava tentando parecer bravo, mas não deu certo, porque eu percebi o cantinho dos lábios dele se curvando pra cima um pouco quando me viu.

 

(Além de lindo, sou muito observador.)

 

— Puta que pariu, hein, Chanyeol?

 

— Jongin, eu posso explicar...

 

— Cala a boca e pega aqui esses negócios — ele disse, apontando para as sacolas. — Eu trouxe comida.

 

— Oba! — Chano exclamou todo contente.

 

— Não pra você, idiota, pro cachorro. — "Oba!", pensei. Chano fez uma carinha triste como aquela que eu tinha visto na loja e Jongin bufou de novo. — Mas trouxe pra você também, já sei que vou ter que te sustentar até o seu salário da semana que vem.

 

— Nini, você é o melhor colega de quarto de todos os tempos!

 

— E...? — ameaçou, dando um tapa na mão do Chano que tinha ido direto para uma das sacolas.

 

— E eu vou fazer hora extra e te recompensar em dobro por toda a sua benevolência e grandiosidade de espírito. — Não tenho certeza ainda, mas acho que ele estava sendo debochado.

 

— Senhor. — Jongin completou. — "...pela sua grandiosidade de espírito, senhor."

 

— Tá abusando demais. — Chano estreitou os olhos.

 

— Ok, desculpa. — riu, se dando por satisfeito e se afastando com aquela bolsa enorme ainda nas costas, enquanto Chano vasculhava nas sacolas o que tinha sido comprado. Jongin olhou ao redor para a casa toda bagunçada. — Você vai precisar arrumar isso aqui também.

 

— Aham, vamos sim, no fim de semana. — Chano respondeu com a boca cheia de batata-frita, ignorando o "você vai arrumar". — Amanhã vou levá-lo à universidade e eu mesmo vou fazer um check-up, vacinar, essas coisas... Certeza de que aquele cara não cuidava nada do pequeno.

 

— O cachorrinho deu muita sorte de você ter entrado em uma rua diferente justamente hoje.

 

— Ou eu que dei sorte. — Sorriu, enchendo uma vasilha com umas bolinhas marrons com cheiro de carne que eu descobri ser ração logo depois.

 

(Mas as batatas-fritas sempre foram minha comida preferida desde então, apesar do Chano dizer que fazem mal e brigar comigo quando eu roubo do prato dele.)

 

— Olha que bonitinho esse arrombadinho... — disse Jongin, deixando a bolsa enorme num canto e colocando as mãos na cintura. — Me lembrou Monggu, Jjangah e Jjanggu. O que me lembra a casa dos meus pais. O que me lembra o frango frito da mamãe. Ah... eu só queria voltar pra casa por uns dias! — passou as mãos nos cabelos e se jogou no sofá, afundando igualzinho ao Chano.

 

— Dia difícil no Conservatório? — perguntou ao mesmo tempo em que analisava uns brinquedos que Jongin tinha comprado. Muito interessado fiquei. Um olho na comida, outro na bolinha, já dizia o sábio.

 

— Terrível. Perdi o ônibus que deixava bem na porta e tive que atravessar o campus com o violoncelo nas costas — reclamou, apontando para aquela bolsa grandona no canto da sala. — Cheguei suado, exausto e com dor nas costas, mal conseguia segurar o troço. Ainda passei vergonha na frente do crush, esbarrei feio com ele quando cruzei pelo prédio de Veterinária.

 

— Ainda com essa paixonite pelo Do, Jongin? O cara já não te deu negativa tipo umas trezentas vezes? — Chano riu, dividindo as batatas em dois pratos ao lado de hambúrgueres que estavam tão cheirosos que eu até me distraí da minha própria comida, e fui correndo pra arranhar aquelas canelas finas do humano. Fui ignorado sumariamente.

 

— Ei, qual é! Desse jeito você me faz parecer um stalker ou algo assim! Eu só o chamei pra sair a segunda vez porque na primeira ele me disse que estava muito ocupado com as provas finais ou algo assim.

 

— A faculdade de Veterinária é realmente bem puxada, eu que o diga. Você deve ter pego ele num momento complicado. Talvez ele realmente esteja super ocupado. — Fez uma pausa, olhando por cima do ombro — Ou...

 

— Ou...?

 

— Talvez seja um jeito delicado de dizer não.

 

— Será? — Jongin fez um bico ainda maior que o que o Chano conseguia fazer e se enterrou mais ainda no sofá. Por um segundo eu achei que ele tinha desaparecido de verdade e lati um pouco. — Quer dizer... eu nunca tive motivos pra achar que ele não tem interesse nenhum em mim. Quando eu passo distraído pelo campus, ele sempre fica me olhando assim, meio de baixo, piscando os cílios... é tão lindo...

 

— Achei que já tinha te avisado que ele tem um problema de visão, Jongin.

 

— Vai-te pra porra, Chanyeol! Me deixa sonhar, inferno!

 

— Calma, calma, toma aqui — disse o Chano, sentando ao lado do amigo com um prato cheio no colo e estendendo outro para Jongin. Com alguns pulinhos eu consegui ver que ele tinha até desenhado uma carinha feliz com ketchup em cima do pão do hambúrguer. Fiquei com inveja. — Vamos mudar pra um papo mais leve, você já está muito estressado. Me ajuda a bolar um nome pro pequeno aqui?

 

— Nenhuma ideia ainda? — perguntou e deu uma mordida enorme no sanduíche. Voltei triste pra minha tigelinha de ração. Melhor que nada, né?

 

— Não sou muito criativo com essas coisas.

 

— Acho que podia ser algum nome relacionado a música, já que sem mim a pobre criatura estaria até agora sem comida. E o cachorrinho também.

 

Chano deu um soco no braço de Jongin, mas foi meio como as mordidas que eu dava nos meus irmãozinhos quando estávamos juntos, de brincadeira.

 

— Vá lá. Manda as sugestões.

 

— Hm... — Jongin ficou me encarando sério, mas eu fingi que não vi e continuei comendo. — Wolfgang? Sabe... em homenagem ao Mozart?

 

— Jongin, olha pro tamanhico desse cachorro. — apontou para mim — Vê se um nome imponente desses combina?

 

— É verdade. Então... Vivaldi? Schubert? Chopin?

 

— Só música clássica, Jongin? Como você é velho de espírito!

 

— Taemin?

 

— Tá louco?

 

— Ué, você não é fã do SHINee?

 

— O que isso tem a ver?

 

— Ele é meu bias, ué! — e lá estava o bico de novo.

 

— E porque eu daria o nome do seu bias pro meu cachorro? Se eu fosse assim daria o nome do meu Jonghyun lindo e precioso.

 

— Seu chato.

 

— Não tem nenhum músico clássico com um nome menos... sei lá, alemão?

 

— Não, é dos que eu falei pra baixo. Dos famosos já falei quase todos. — Jongin começou a contar nos dedos sujos de sal e ketchup. — Tem Bach, mas parece uma pessoa tossindo. Wagner parece um senhor de meia-idade. Puccini parece... deixa pra lá. Beethoven...

 

— Eita, caraca! — Chano deu um pulo no próprio lugar. — Não tinha um filme de um cachorro com esse nome?

 

— Beethoven? Tinha, mas no caso era um São Bernardo, um cão enorme.

 

— Mas a gente pode adaptar pra algo um pouco mais fofo.

 

Chano e Jongin viraram-se para mim e eu fiquei ali, olhando os dois de volta sem saber o que fazer.

 

— Beet? — Jongin testou — Beetho? Thoven?

 

— Toben! — Chano gritou, me chamando com os braços. — Vem, Toben! Vem aqui, pequeno! — E eu fui, porque era um bebê e achei que ele fosse me dar aquela bolinha que estava na sacola depois que comi toda a ração, mas acho que ele se emocionou. — Ai, ele gostou! Ah, Toben... você vai ser muito feliz aqui...


 

------ U・ᴥ・U ------


 

Isso nos leva para a segunda parte dessa história, alguns meses depois, eu já quase um cachorro feito. Estávamos nós dois, o Chano e eu, correndo a caminho do novo parque para cachorros que tinha sido inaugurado no bairro. Quer dizer, eu corria e o Chano só tentava me seguir, me puxando pela coleira como se ele fosse o alfa da matilha.

 

(Nós dois sabemos que é o Jongin.)

 

— Toben, pelo amor de Deus, sossega! — Ele gritava enquanto eu brincava de enrolar as duas pernas dele com a guia enquanto esperávamos o homenzinho verde avisar que já podíamos atravessar a rua.

 

Estava tão distraído tentando se desembolar que nem percebeu quando outro cachorrinho parou ao nosso lado, junto de seu dono. Era muito comportadinho e tinha perninhas curtas demais pro resto do corpo, então na hora não fui muito com a cara dele, mas isso logo iria mudar.

 

O sinal abriu e saí correndo, ansioso, puxando o Chano atrás de mim, e também nem notei quando um carro passou pelo sinal fechado, vindo justamente pra cima da gente. Nesse momento, eu preciso admitir que todos nós falhamos, inclusive um cão sagaz como eu.

 

Mas até no erro eu consigo acertar, porque foi naquela hora que tudo começou.

 

— Cuidado! —  uma pessoa gritou. O cachorro das pernas curtas latiu alto, o que me fez dar meia volta, e o dono dele puxou o Chano pela barra da camisa, e assim fomos salvos por aquele par de desconhecidos, provando que nem todo herói usa capa.

 

— CARALHO! — Chano xingou, colocando uma mão no coração e a outra ainda mais enrolada na guia para se certificar que eu estava pertinho dele.

 

Ele estava ofegando mais do que aqueles cachorros cheios de pelanquinhas que vivem respirando forte e babam muito. E foi por pouco que o Chano não babou também ao olhar para que havia nos salvado.

 

— Cuidado por onde anda, Park, seu maluco! — o menino-herói disse com um sorriso simpático. — Você ainda está muito jovem pra morrer!

 

— B-Byun Baekhyun?

 

Sim, pessoinhas.

 

(Ou eventuais cachorrinhos.)

 

Aquele era o famoso Bacon, cujo nome eu ouvia toda hora em casa, mas nunca tive a oportunidade de conhecer. Acho que o Chano também nunca tinha conversado com ele antes, mas às vezes falava dele pro Jongin, então eu sabia de uma coisa ou outra.

 

Sabia que ele era um aluno novo de Veterinária, muito quieto e um pouco sozinho. Não sozinho como o Chano, que não gostava de fazer muitos amigos humanos de qualquer forma, mas do tipo que as pessoas fingem que não existe. Não sei como isso seria possível, porque o tal Bacon era bastante apresentável para um humano, e tinha um cabelo rosa que parecia algodão-doce. Eu nem era humano e já queria ser amigo dele por ter o sorriso bonito, por ser herói e porque eu adoro algodão-doce.

 

(Chano também nunca me deixou comer um desses.)

 

— Estão indo para o parque de cães novo? —  Bacon perguntou, olhando de mim para o Chano, e completando sem dar tempo dele responder. – Podemos ir juntos, se você não se importar.

 

– Sim... Eu estou... Nós... – Chano não conseguia falar sem engasgar e eu até agora não entendi porque. – Não me importo, não.

 

— Ótimo! — ele falou todo animado, puxando o cãozinho pela coleira assim que o homenzinho verde apareceu de novo. — Tá vendo, Mongryong? O que você acha de ter um amiguinho pra brincar no parque? — ele perguntou para o das perninhas.

 

O cachorro olhou para mim todo desconfiado e eu fiz a mesma coisa. Nenhuma amizade seria selada ali até um cheirar o bumbum do outro. É assim que cachorros funcionam. Mas, pelo bem de todos, fingimos que já estávamos íntimos.

 

— Eu... nunca vi você, sabe... por essas bandas. — Chano disse ainda engasgando as palavras e eu quase fiquei preocupado que o dano fosse permanente.

 

— A gente nunca se vê fora do campus, Park.

 

— Ah... é... certo...

 

— A gente quase nunca se vê até mesmo dentro do campus, né? — ele ainda sorria, mas achei que parecia triste.

 

— Desculpa... É que eu sou bem tímido pra puxar assunto com desconhecidos. — Chano estava falando a verdade e acho que o Bacon acreditou também.

 

— Ah, tudo bem — deu de ombros. — Confesso que também não sou a pessoa mais acessível do mundo. A maioria das pessoas nosso período são idiotas que falam de mim pelas costas e acho que, pra me afastar delas, acabei me fechando pra todo mundo de uma vez.

 

— Nossa... – Chano pigarreou, e eu já sabia que ele estava sem graça. — Falam?

 

Bacon estreitou os olhos e virou a cabeça um pouco para o lado, todo esperto.

 

— Não precisa ser complacente comigo, Park.

 

Eu realmente gostei daquele cara.

 

— Ah, desculpa... — coçou o cabelinho enrolado, se parecendo ainda mais comigo. — É que, realmente... eu às vezes escuto as pessoas comentando, mas nunca presto muita atenção. Sou ocupado demais pra tomar conta da vida dos outros.

 

— Ótimo. — Bacon abriu outro sorriso grande. — Existe muito preconceito em torno de mim porque... bom, você sabe... eles dizem que não levo o curso a sério por causa da cor do meu cabelo.

 

— Mentira? — Chano se espantou. — Essas pessoas vivem em que século? XVIII?

 

Tive que concordar com o Chano, achei um absurdo. Bacon com aquele cabelo era muito legal, me lembrava um daqueles pássaros cor-de-rosa, os flamingos, já viu? Com a diferença que o Bacon não tem pernas tortas, finas e compridas como eles. Se fosse assim, seria só o Chano todo vestido de rosa mesmo.

 

— Pois é. Também rola um papo de que trapaceei por ter começado a cursar Biologia e depois pedido transferência de curso. Dizem que me aproveitei entrando em um curso menos concorrido pra facilitar.

 

— Nossa, que pessoas desnecessárias — balançou a cabeça, desapontado. — Acho que, no fim, fizemos bem não conversando com ninguém da classe.

 

Chano abriu o portão de ferro do parquinho para entrarmos. O espaço era todo coberto de grama verdinha e estava cheio de cachorrinhos de tipos e tamanhos diferentes, o que me deixou empolgado porque não via tantos bichinhos como eu juntos desde quando era um recém-nascido. Chano e Bacon se abaixaram ao mesmo tempo para soltar nossas coleiras, e eu e o cachorro das penas curtas tiramos um tempo para cheirarmos nossos bumbuns.

 

— Bom... nós estamos conversando agora. — Bacon concluiu com um sorriso grande que fez seus olhos ficarem pequenininhos.

 

Chano, feliz, balançou a cabeça — porque, infelizmente, não tinha rabinho para balançar — e ficou rosado até as orelhas.

 

— Seu humano parece um flamingo — Moong comentou comigo.

 

— Não é? — respondi, correndo para longe com ele.

 

Era o início de uma bela amizade.


 

------ U・ᴥ・U ------


 

No dia seguinte, aconteceu uma coisa engraçada.

 

— Alô, Chanyeol! — Jongin falou de dentro daquele celular mágico.

 

— Diga aí, criança.

 

— Cara... — ele bufou, parecendo irritado, e eu levantei mais as orelhas para escutar melhor. — Tô aqui na porta daquele pet shop onde você encontrou o Toben, puto das calças. Tem uns seis ou sete filhotinhos expostos na vitrine, em condições inaceitáveis que eu prefiro nem te contar. Já tentei conversar com o dono da loja, mas ele fechou a porta na minha cara e trancou tudo. Foi embora pelos fundos e nem tirou os cachorrinhos daqui.

 

— Desgraçado! — Chano rosnou, batendo a faca que usava para cortar uns pedaços de carne para o jantar na bancada da cozinha. Eu estava perto, doido pra filar um pedaço, mas até me afastei um pouco, assustado. — Será que esse infeliz tem alvará? Tenho certeza de que ele está todo na ilegalidade com essa loja.

 

— Pois é, foi o que eu pensei. Já dei uma ligada pro Sehun, aquele meu amigo que faz Direito, e ele está mexendo uns pauzinhos pra conseguir essa informação com certeza. Só que eu não quero deixar esses cachorrinhos aqui. — Jongin agora tinha uma voz de choro e eu já sabia que estava fazendo biquinho de novo. — Você tem que ver eles, Chanyeol, parecem o Toben, só que um de cada cor.

 

— Ai, meu deus, tadinhos... quer que eu vá praí te ajudar a pensar em alguma coisa?

 

— Querer eu até quero, mas acho que vamos precisar de mais gente. Como eu te disse, tá tudo trancado. Você não conhece um ninja de alguma ONG que tenha experiência nessas coisas?

 

— Na verdade... conheço sim. — Chano deu uma risadinha meio maligna, colocando a mão na frente da boca para o Jongin não escutar o som. O cara sabia ser mais travesso do que um filhote quando queria.

 

— Quem?

 

— Não sei se você vai gostar... Pode ser uma situação meio constrangedora...

 

— Fala logo!

 

— Do Kyungsoo faz parte de uma ONG que resgata animais. Sei que não parece, mas ele é bem hardcore quando precisa.

 

Jongin ficou quieto lá do outro lado e o Chano do lado de cá, e eu lati porque fiquei nervoso com todo aquele silêncio.

 

— Liga pra ele. — Jongin falou e depois a voz dele desapareceu de vez.


 

------ U・ᴥ・U ------


 

Já era muito tarde quando Jongin e Chanyeol voltaram para casa, dessa vez junto do Bacon e um outro humano que eu nunca tinha visto. Ele era o mais baixinho de todos (com o que me identifiquei muito) e tinha um jeito de olhar esquisito, mas da forma que ele ficava segurando o pulso do Jongin toda hora, logo vi que era uma criatura amiga. Além do que, cheirei um pouco o pé dele dele quando entrou em casa e senti cheiro de ração de carne e pessoa limpinha, então simpatizei logo de cara.

 

(No geral, sou um cachorro fácil de agradar, como podem reparar.)

 

— Minha nossa, que loucura, gente... — disse o Jongin, abrindo umas garrafas geladas e entregando uma para cada um. Farejei de leve a do cara novo enquanto ele fazia um carinho gostoso atrás da minha orelha, mas o cheiro da bebida era horrível, parecia azedo. Humanos tinham umas manias estranhas mesmo. — Tô me sentindo meio Tom Cruise em Missão Impossível depois de hoje. Um Tom Cruise coreano.

 

— Que coisa de hétero, Jongin! Prefiro dizer que me senti no clipe de Get the Treasure, do SHINee. — Bacon disse, antes de dar um gole no líquido fedorento.

 

— Lindíssimo, falou tudo! — Chano exclamou, batendo uma mão no ar contra a do Bacon. Ele era realmente fã desse grupo, nossa casa era cheia de coisas deles espalhadas.

 

— E ao invés de diamantes, nossa missão era resgatar cachorrinhos indefesos — falou o garoto novo, rindo com aquela boca engraçadinha em formato de coração. Não sei porque, mas fiquei com vontade de lamber as bochechas dele. Fui lá e lambi. Ele deixou. — Tá vendo isso? — ele apontou para mim. — Se engana quem acha que é mais fácil do que trabalhar para a CIA, a parte mais difícil do trabalho é deixar os bichinhos no abrigo depois.

 

Jongin se sentou bem do nosso lado e apoiou o queixo em uma das mãos, olhando para o garoto como eu olho para batata-frita.

 

— Não fique assim, Kyungsoo, você vai poder vê-los sempre por lá.

 

— Espero que não. Quero que sejam adotados logo por famílias que cuidem bem deles. Como vocês cuidam do Tobennie aqui. Não é, Toben? — me pegou no colo e eu lambi mais a cara dele só porque era um cara muito legal salvador de cãezinhos.

 

Ele riu e esfregou o nariz no meu antes de me colocar no chão, e eu tive que fingir que não reparei quando ele colocou uma mão na perna do Jongin. E também fingi que não vi quando Jongin segurou aquela mesma mãozinha. E quando Kyungsoo chegou mais perto dele e começou a conversar com ele tão baixinho que nem minha audição aguçada conseguia entender. Pareciam um casal de namorados e eu fiquei super feliz pelo Jongin.

 

Por outro lado, fiquei super desanimado pelo Chano, que não percebia que Baekhyun também queria ficar que nem namoradinho com ele.

 

(Chegou a parte em que ele começa a ser muito, muito burro.)

 

Sentados na outra ponta do sofá, Bacon e Chano não paravam de matraquear um segundo sequer. Ficaram uma eternidade falando daquele grupo de k-pop que eles gostavam e Bacon contou que sabia tocar violão. E o Chano contou como tinha conseguido pegar todos os troféus num jogo de videogame que já estava jogando há meses. E Bacon contou que pretendia pintar o cabelo de vermelho em breve. E Chano contou como me encontrou naquela loja de animais. E Bacon contou que achava o Chano era a melhor pessoa da universidade toda. E o Chano falou que, não, que esse era o Bacon. E Kyungsoo e Jongin começaram a lamber a boca um do outro em algum momento, e Chano e Bacon ficaram muito vermelhos, não sei porque.

 

Quer dizer, agora eu meio que sei que essa coisa de lamber entre humanos não é a mesma coisa que entre cachorros. Mas mesmo assim, o Bacon não precisava ter se apressado tanto para ir embora, nem o Chano para se trancar no próprio quarto. Até porque pouco depois o Kyungsoo acabou indo para o quarto do Jongin, então tudo bem.

 

Eu fiquei na sala mesmo e dormi, e essas coisas todas que eu contei eu só sei que aconteceram porque deitei com uma das minhas orelhas para cima.


 

------ U・ᴥ・U ------


 

Depois desse dia, aqueles dois não saíam mais de casa.

 

Kyungsoo ia mais vezes e em muitas delas me levava um petisco ou brinquedo. A gente brincava bastante, ele gostava de morder minha barriguinha e eu gostava de lamber a bochecha dele, e depois que eu cansava um pouco ele ia pro quarto do Jongin fazer sei lá o que.

 

Bacon também passou a aparecer mais, e trazia o Moong pra brincar comigo de vez em quando. Ele e o Chano gostavam de jogar videogames e ver clipes de música que já tinham assistido um milhão de vezes antes juntos. Às vezes, Bacon trazia um monte de livros pesados e ele e o Chano passavam a tarde quietinhos lendo aquelas coisas, e só paravam quando um precisava perguntar alguma coisa importante para o outro. Ou quando estavam com muita fome, e aí um deles levantava para pedir pizza ou fazer um lámen instantâneo. Ou quando eu fazia cocozinho e alguém tinha que ir limpar antes que o cheiro se espalhasse pela casa.

 

E quanto mais eu convivia com o Bacon, mais eu percebia que ele gostava do Chano. Não do jeito que eu gostava, ou do jeito que o Jongin gostava, mas do jeito que o Kyungsoo e o Jongin gostavam um do outro.

 

Mas o Chano não percebia de jeito nenhum.

 

Nem quando o Bacon fingia que ia ler algo no livro do Chano e aproveitava para pôr as cadeiras juntinhas. Ou quando colocava mais carne do lámen no prato do Chano. Ou quando o Chano estava jogando todo concentrado e o Bacon olhava mais para ele do que para a televisão.

 

E aquilo já estava me deixando tão nervoso que às vezes eu precisava só comer uns chinelos para descontar a raiva. Sempre brigavam comigo quando eu fazia isso, mas todo mundo precisa de uma válvula de escape.

 

Um belo dia, quando fomos no parquinho, reparei que o Bacon estava muito nervoso. Estava sorrindo bem menos que de costume e fazia umas trapalhadas que me lembravam até o jeito estabanado do Chano (que, para variar, não estava notando nada de diferente).

 

— Baekhyun quer se declarar para o seu humaninho hoje. — Moong me falou, enquanto brincávamos de quem conseguia cavar o buraco mais fundo.

 

— O que é se declarar? — perguntei eu, a inocência em pessoa. Opa, em cachorro.

 

— Ele contou pro menino Kyungsoo que gosta muito do Chanyeol. Se declarar é quando uma pessoa conta pra outra isso.

 

— E precisa contar? Dá pra saber pelo cheiro, não?

 

— Acho que humanos não conseguem saber desse jeito. Tudo eles precisam falar, falar, falar. Eita! — Moong se assustou quando sem querer joguei um monte de terra no nariz dele. Pedi desculpas e ficou tudo bem. Acontece.

 

— Então eu espero que ele fale logo, porque o Chano é meio avoado. Acho que vai demorar um tempo até ele entender.

 

Estávamos começando a chegar no fundo do buraco que cavamos, do outro lado do mundo (eu sempre quis conhecer o Brasil), quando os humanos nos chamaram. Fiquei irritado porque claramente não tinham se passado nem dois minutos de brincadeira.

 

— Toben, vamos embora, vocês já estão cavando aí há uma hora e meia! — Chano gritou.

 

Carrasco.

 

Quis me rebelar, mas, ao contrário de mim, Moong tinha o alfa como dono, então assim que Bacon assoviou ele saiu correndo em direção aos cabelos rosados, e eu o segui para encontrar o Chano sentado no banquinho perto da grade.

 

— Ei, Chanyeol... — Bacon chamou enquanto colocava a coleira no Moong. Era toda decorada com uns desenhos de Star Wars e fiquei com um pouco de inveja.

 

— Hm?

 

— Quer sair comigo amanhã? A gente podia beber ou algo assim.

 

— Ah, claro!

 

Nossa, aquela foi rápida. Olhei para o Moong esperançoso, mas felicidade de cachorro dura pouco.

 

— Quero dizer tipo um encontro.

 

Chano estava colocando a coleira no meu pescoço também, mas se levantou tão rápido que bateu a canela no banquinho. Era bom demais para ser verdade.

 

— O... o quê?

 

— Um encontro, ué. — Bacon deu de ombros como se não estivesse ligando muito, mas notei que não olhava nos olhos do Chano como de costume.

 

— Ah... é que... eu... — Chano tinha sorte que eu estava com pena e não me movi de onde estava, porque ele não sabia onde colocar as mãos e eu poderia apenas ter voltado a correr pelo parquinho que ele nem iria notar. — Acho que nunca pensei em nós... sabe... dessa forma.

 

Anúbis do céu... Tem que ser muito tapado.

 

— Ah. Ok. — O olhar do Bacon ficou triste de repente e eu e o Moong ganimos baixinho porque era horrível vê-lo daquele jeito. Não parecia um humor apropriado para um algodão-doce.

 

— Você não tá chateado comigo, né?

 

— Não... Não, tá tudo bem — claramente não estava. — Eu só esperava que fosse algo recíproco, que a gente tivesse uma conexão, sei lá.

 

— E nós temos! Só que n-

 

— Tá tudo bem mesmo, Chanyeol, não precisa explicar. — Bacon tentou sorrir, mas não convenceu nenhum de nós. — A gente se vê por aí. Vamos, Mongryong — concluiu, se afastando com Moong, e eu tive um mau presságio que acabou se mostrando real nos dias seguintes.

 

A gente nunca mais se viu.

 

Até agora não sei como o Bacon fez para se esconder do Chano (e eu tenho que lembrar de perguntar ao Moong depois como ele faz isso, preciso de dicas para esconder melhor meus petiscos), mas sei que ficamos uns bons dias sem vê-lo. Ele nunca mais foi lá em casa com seus livros gigantes e nunca mais o encontramos no parquinho de cães. E a cada dia que se passava, Chano ia ficando mais e mais triste e quieto.

 

Fiquei pensando se ele era daquele jeito antes de me conhecer. Sentia falta dos meus amigos, mas sentia ainda mais falta do meu Chano. Ele podia ser bobalhão, mas era um humano muito legal e eu o amava.

 

------ U・ᴥ・U ------

 

Foi num sábado bem tarde da noite quando apertaram a campainha da nossa casa. Eu estava sonhando que escalava uma montanha de batatas-fritas montado num flamingo gigante e me assustei, começando a latir enquanto corria até a porta, pois um beta precisa proteger o lar quando o alfa está fora.

 

(No caso, Jongin, que foi passar a noite na casa do Kyungsoo.)

 

Acho que o Chano também se assustou, porque estava lendo um livro de terror e deu um pulo lá de dentro das profundezas do sofá ao ouvir o barulho, colocando as duas mãos no coração.

 

— Caraca, e eu achando que ia passar uma noite tranquila sem os dois pombinhos fazendo barulho a madrugada toda.

 

Eu acho que ele pensou que Jongin e Kyungsoo estavam de volta para passar a noite em casa.

 

Mas não. Quando abriu a porta, nós dois demos de cara com o Bacon. Ele não tinha mais cabelos cor de rosa e sim vermelhos, mas eu o reconheci mesmo assim, pois sou um ótimo observador, como já mencionei. Por isso mesmo, logo notei que ele estava triste, e muito. Os bracinhos magros estavam fechados ao redor do corpo enquanto ele soluçava e saía água dos seus olhos, que pingava no chão próximo à porta. Eu provei, era salgado.

 

— Baek... o que aconteceu? Por onde você andou? — Chano mais alerta do que eu perto de um gato.

 

— Eu... O Mong-Mongryong... Ele quebrou a patinha pulando da cama pro chão...

 

— Ah, meu Deus! Quer que eu leve vocês em uma clínica? Eu posso... — Chano olhava ao redor afobado, já pegando as chaves de casa e eu fui correndo no quarto dele buscar minha coleira, pronto para ir junto. — Posso ligar para o Kyungsoo nos buscar de carro e-

 

— Não precisa! — Bacon interrompeu, fazendo um gesto com a mão para impedi-lo de pegar o celular. — Ele já está sob observação e vai operar amanhã.

 

— Ah... entendi. Sinto muito, Baek. Ele vai ficar bem.

 

— Sim, eu sei. O deixei na clínica de uma amiga, ela me garantiu que vai dar tudo certo.

 

— Hm... uma... uma amiga? — E lá vamos nós com o chove-e-não-molha.

 

— Sim, a Prof.ª Kwon, da Universidade. — Bacon explicou pausadamente (porque, com o Chano, só assim mesmo). — O que você tinha entendido?

 

— N-nada, nada... — Chano coçou os cabelos e desviou o olhar, todo sem jeito.

 

Eu já estava acostumado e achei fofo, mas Bacon ficou irritado. Eu vi quando a testa dele se enrugou toda bem entre as sobrancelhas.

 

— Eu nem sei porque vim até aqui, sinceramente — passou as mãos pelos cabelos de fogo. — Eu só queria te avisar, já que se apegou ao Mongryong. É isso. A gente se vê — e acenou todo robótico antes de ir embora.

 

— Ok... Me dê notícias... — Chano colocou metade do corpo para fora de casa e acenou de volta, só que parecendo uma maria-mole ao invés de um robô.

 

— Claro, pode deixar — Bacon garantiu enquanto apertava o botão de chamar o elevador. Lati, só pra deixar claro que estava de olho se ele ia dar notícias mesmo. Acho que deu certo, porque ele me notou. — Seu amiguinho logo vai ficar bom, ok, Toben? — Ele tentou sorrir para mim uma última vez antes de sumir dentro da caixa de ferro ao me ver ainda com a coleira na boca.

 

Chano ficou olhando o mesmo lugar por uns cinco minutos.

 

(Mas pode ter sido treze horas e meia pela contagem dos humanos, não sei de mais nada.)

 

Finalmente, soltou o ar todo dos pulmões e fechou a porta, voltando a se soterrar naquele sofá velho. E começou a chorar também. Encolheu as pernas compridas perto do corpo e apoiou a cabeça nos braços, soluçando baixinho.

 

Mas, gente, humano é um troço esquisito mesmo.

 

E eu, como um ser mais evoluído emocionalmente, tinha que fazer alguma coisa.

 

Larguei a minha coleira no chão e subi no sofá devagar, colocando minha vida em risco ao entrar naquele vale de estofado e podendo ser engolido para sempre. Em silêncio, deitei ao lado dele e apoiei minha cabeça naqueles pés gigantes, molhando a pele com a aguinha gelada do meu nariz. Chano ergueu a cabeça, fungando, e vi que a ponta do seu nariz também estava molhada, mas de lágrimas. Tadinho.

 

— O que eu faço, pequeno? — ele me perguntou, fazendo carinho na minha cabeça. — Acho que estraguei tudo... Mas não sabia que gostava dele desse jeito. Ninguém nunca me chamou pra sair antes. Acho que eu não sabia nem que gostava de garotos! Ou de pessoas num geral!

 

E, de certa forma, eu o entendi. Eu também não sabia que gostava de humanos até encontrar um realmente especial que me tratava como um amigo, não como um produto na vitrine de uma loja, ou como um ser inferior e sem sentimentos. O Chano disse que deu sorte em ter me encontrado, mas acho que todos nós escolhemos as pessoas com quem queremos brincar de bolinha ou dar uma lambida no rosto. Eu, Chano, Jongin, Kyungsoo, Bacon, Mongryong... todos nós escolhemos marcar território nas vidas uns dos outros. Estava na hora do Chano deixar o Bacon marcar o seu também.

 

Lambi a ponta do nariz dele algumas vezes antes de me levantar e pegar de novo minha coleira, jogando-a no colo dele. Chano olhou da correia para mim e depois para a correia de novo e eu quase podia ver um hamster correndo em uma rodinha dentro da cabeça dele.

 

— Você está certo, Toben! Ainda dá tempo! — Isso! — Se o Baek gosta de mim e eu gosto dele... Ai, minha nossa, eu gosto dele mesmo... — Ele riu que nem o bobão que era. — Se eu gosto dele, então ainda tem como a gente se acertar, né? Ai, Tobennie, você é um gênio!

 

Eu falei que nem todo herói usa capa, né?

 

Rapidamente, Chano colocou a coleira em mim e já íamos correndo quando Chano abriu a porta e deu de cara com o Bacon parado ali de novo, como se estivesse pronto para apertar a campainha.

 

Ué?

 

— Chanyeol, eu... Você estava de saída? — o ruivo perguntou. — Eu posso voltar outra hora e-

 

— Não! Eu não estava de saída... quer dizer... estava, sim... — Ah, não, ele estava dando defeito de novo. — Não. Calma. — Ele respirou fundo e fechou os olhos, tomando coragem para o que iria dizer. — Eu estava indo atrás de você.

 

— De mim?

 

— Sim. Porque a gente precisa conversar sobre algumas coisas.

 

— Chanyeol, você não precisa me explic-

 

— Eu gosto de você, Baekhyun — ele falou de uma vez só, ainda de olhos fechados, e eu sentei minha bundinha no chão bem preparado para o discurso. — Gosto demais, mas eu não sabia porque nunca gostei de ninguém antes desse jeito. É difícil pra mim saber a diferença, mas agora eu sei. Esses dias sem te ver foram os piores de todos os tempos, e isso inclui todos os dias em que estudei sozinho, joguei sozinho, comi sozinho antes de te conhecer. Eu não sabia que precisava de... cor? Você é o pedacinho mais doce da minha vida. — Ele sorriu, ainda de olhos fechados. Particularmente o achei meio maluco, mas acho que o Bacon estava gostando. — É, é isso. Você é colorido e doce igual um algodão-doce.

 

A-hááá!!!! Eu sempre disse isso!

 

— Chanyeol... — Bacon chamou baixinho, e eu conseguia ouvir a respiração forte dos dois, eles deviam estar bem nervosos. — Abra os olhos.

 

— Nope. — Chano respondeu, soltando um barulho estalado no final da palavra e balançando a cabeça de um lado para o outro.

 

— Tudo bem, então...

 

Com um sorrisinho de lado, Bacon deu um passo à frente e segurou as bochechas do Chano com as duas mãos. Sabe, se eu fosse uma pessoa, talvez essa fosse a primeira coisa que eu faria também, porque o Chano tem bochechas enormes e branquinhas com uma covinha que era igual quando alguém apertava um mochi com um dedo e fazia um buraco na massa. Parecia bem macio, só não era doce. Eu provei também. Um cão tem que fazer bom uso do paladar, gente, somos curiosos.

 

E acho que Baekhyun também ficou com curiosidade, porque começou com aquela coisa que humanos fazem de esfregar as bocas uma na outra. Jongin e Kyungsoo faziam isso o tempo inteiro e eu até agora não entendo o propósito, e acho que nem quero saber. Só sei que eles estavam felizes, então eu resolvi lamber a perna deles também para mostrar que me sentia igual. Eles começaram a rir, mesmo sem se desgrudar, e eu comecei a pular e correr, enrolando a guia ao redor deles enquanto o Bacon se esforçava para entrar em casa sem tropeçar.

 

— Toben! Senta! — Bacon falou firme, olhando bem fundo nos meus olhos, e eu fui obrigado a me sentar porque, né? Um cãozinho de respeito sabe obedecer um alfa.

 

— Que mágica é essa? — perguntou o Chano, espantado.

 

— Cães funcionam como em uma matilha de lobos. Você tem que mostrar que é o dominante, não o dominado.

 

— 'Cê tá brincando? Eu não sou o alfa da casa, é isso? — ele me olhava de boca aberta, parecendo ofendidíssimo. Surpresa!

 

Bacon gentilmente pegou a guia da mão do Chano e soltou minha coleira.

 

— Toben, fica!

 

E eu fiquei paradinho no mesmo lugar. Bacon segurou as mãos do Chano e continuou levando-o para o quarto enquanto ele ainda me encarava.

 

— Como você faz isso?

 

— Vem cá que eu te ensino — ele disse com um sorriso travesso e um olhar todo diferente pra cima do Chano.

 

Eles sumiram até o dia seguinte e eu voltei a sonhar com a minhas batatas-fritas.

 

Tudo estava perfeito.


 

------ U・ᴥ・U ------


 

Ou quase, porque faltava Moong ficar bom de novo. O que não demorou muito, porque deu tudo certo no hospital de cãezinhos e logo ele estava em casa com o Bacon. Chano não me deixou ver ele por um tempo, até que ele ficasse totalmente sarado, alegando que eu comeria os curativos e lamberia os remédios, o que eu achei um absurdo porque de coisas não comestíveis eu só gostava de chinelo mesmo. Mas sabia que Chano e Kyungsoo estavam ajudando a cuidar dele, principalmente o mais baixinho, porque era de um período mais avançado na faculdade, então me tranquilizei. Em poucas semanas, ele já estava curado e saudável, e nós pudemos passear no parquinho pela primeira vez.

 

— Moong! Que bom te ver de novo! — Cumprimentei, pulando ao redor dele e cheirando o pelo castanho para ter certeza de que estava tudo bem mesmo. O melhor médico de um cachorro é outro cachorro, já diria o bulldog velho que também estava sempre ali pelo parquinho. Ele não corria com a gente, mas gostava de sentar embaixo do sol e ver os outros cachorros brincando e sempre tinha uma coisa esperta desse tipo pra dizer.

 

— Olá, Toben, tudo bom?

 

— Já soube das novidades? Chano e Bacon parece que se resolveram mesmo. Já tem um mês, mais ou menos.

 

— Bem que eu reparei que eles não param mais de se lamber o dia todo — comentou, olhando para os dois sentados no banquinho de mãos dadas e cochichando sorridentes. — O legal é que a gente vai poder brincar mais agora, né?

 

— É, mas a missão ainda não acabou.

 

— Por que?

 

— Meu plano é fazer com que todo mundo more junto, nós quatro.

 

— Ah, Toben... Não acho bom a gente ficar se metendo em assunto de humanos... A vida de cão já é muito difícil, todo dia uma bolinha pra pegar...

 

— Eu sei, mas... — cheguei mais perto para contar o segredo para o Moong, me esquecendo que os humanos não entendiam era nada do que a gente falava. — Chano sempre deixa o prato com batata-frita na beirada da bancada da cozinha, sabe...

 

— Hm... — Moong e eu olhamos na direção dos dois de novo, entretidos demais um com o outro para ver que estávamos em uma reunião super secreta. — Conte-me mais sobre isso...

21 de Novembro de 2018 às 00:41 1 Denunciar Insira 3
Fim

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rosicarl A little birdie in a big old tree • Eri • ChanBaek uttd • Chingu Line Enthusiast • All-EXO biased • NCTzen & Orbit

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CChan Nism CChan Nism
Ok, essa foi a fanfic mais linda e amorzinho que eu li até agora. Não tô me aguentando de amor, tá de parabéns por essa fanfic maravilhosa E que escrita gostosa de ler, hein! Tá de parabéns mesmo. Se pudesse avaliar, eu colocaria 5 estrelas sem dúvida <3
24 de Novembro de 2018 às 22:49
~