Rainy Day Seguir história

noveluas Taynara C

Alguns dias amanhecem cheios de nuvens cinzas e, gotas pesadas não param de cair; assim como o dia, Paula sentia seu peito nublado, cheio de algo que chegara sem anúncio e Luiza via gotas pesadas escorrerem de seus olhos um tanto cansados e enevoados. Palavras não ditas são como o anúncio de chuva e toques sinceros, podem ser o primeiro sinal de que a tempestade vai passar. |Postada como fanfic 'moonsun' no Spirit|


LGBT+ Todo o público.

#romance #wlw #lésbica #lgbt
Conto
0
4535 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Talk To Me

O dia amanhecera escuro, gelado e as gotas de chuva não paravam de cair; no pequeno apartamento, duas garotas estavam se sentindo parte daquele clima, estavam frias e dentro delas também chovia. Luiza repousava no sofá da sala, sem mover um só músculo, encarando o teto, sem realmente vê-lo; Paula estava sentada na poltrona do quarto, observando as gotinhas que batiam na janela e escorriam, as pernas encolhidas e os olhos marejados.

Não se falavam há dias, mesmo que dormissem juntas e passassem horas no apartamento entre um compromisso e outro, mesmo assim, não trocavam um olhar sequer; o motivo, nenhuma das duas saberia dizer. Talvez a mais velha diria que a mais nova anda distante, mas não só fisicamente, apenas não parecia estar ali; e Luiza diria que não sente que pode ser o que a menor realmente precisa, que tenta ser mais e mais, mas acaba se sentindo fracassada.

Coisas pequenas rondam os casais, vez ou outra; um olhar um pouco distante, uma resposta atravessada, uma ideia ignorada, coisas realmente pequenas. Talvez todos tenham que passar por alguns dias de chuva, ou uma temporada chuvosa; as duas ainda parecem estar apenas em seus dias chuvosos, podem não chegar à uma temporada, mas isso depende delas. Depende de quanto tempo podem segurar o que lhes aflige o peito, quanto tempo pretendem segurar as lágrimas em frente uma da outra e do quanto aguentam a falta de proximidade.

                                                           ¨¨

As horas foram passando e o volume de água que o céu derramava aumentava, o dia escurecera mais e os trovões podiam ser ouvidos, mesmo que distantes. Nenhuma delas saiu do cômodo em que estavam, apenas mudavam de posição e fixavam os olhos em outra parte do ambiente. Nenhum barulho se fazia presente, além das gotas se chocando contra as janelas; Paula pegou o celular, iluminou a tela e viu a foto que estampava o fundo, as duas de rostos colados e sorrisos estampados; com isso se lembrou, de como aquele dia fora bom e tranquilo, apenas riram o dia todo, tiraram fotos e se embolaram na cama grande.

Eram quase 17h e a mais velha não aguentava mais o silêncio, a monotonia e a falta da real presença da namorada; não sabia o que dizer, não tinha exatamente pelo quê pedir desculpas ou cobrar alguma explicação. Queria apenas se aproximar de novo, sentir-se parte da mais nova, como sempre fora; tinha vontade de dizer “eu te amo” mil vezes, mesmo com medo de não ser mais correspondida.

Na sala, Luiza estava com os olhos vermelhos, chorava tão silenciosamente, que sua garganta doía; se perguntava, em que ponto se perderam, qual teria sido o momento exato em que os caminhos se desencontraram. Queria gritar, chamar o nome de Paula e pedir encarecidamente que não a deixasse; sentia tanto medo, que estava paralisada, não conseguia pensar racionalmente e, para si, tudo já estava acabado e tudo só pioraria.

Antes que o apartamento ficasse ainda mais escuro, Paula acendeu seu abajur cor de pêssego, dando à casa o primeiro sinal de vida; uma ansiedade se apossou da mais nova, quando viu a luz vindo do quarto. A mais velha encarou um pouco o quadro na parede, com a foto das duas em um dia de sol e depois respirou fundo; saiu do quarto a passos lentos, mas não foi muito além, parou o corpo no lado de fora da porta, se escorando ali. Encarou o corpo de Luiza encolhido no sofá, tentando a todo custo não emitir som algum com o choro; não conseguia vê-la daquela maneira.

Não se importou com muita coisa naquele momento, muito menos com os pensamentos que teve mais cedo, apenas se agachou em frente ao sofá e se debruçou sobre o corpo da mais nova. O choro agora era alto, a garganta pôde enfim respirar direito, recebendo uma quantidade de ar além de sua capacidade, ficando ainda mais dolorida; em poucos segundos, a casa que estava até então contando apenas com as gotas de chuva, agora se inundava com o som do choro das duas. Não é possível saber, em que momento exatamente as duas se deitaram no sofá, agarradas como se suas vidas dependessem daquilo; não falaram nada, apenas se abraçaram, por um longo tempo.

Assim como a chuva, o choro de ambas foi diminuindo, a única fonte de luz do local, ainda era a do abajur; os rostos úmidos de água salgada, vermelhos e grudados um no outro. Ainda não sabiam o que dizer ou o que perguntar, o medo ainda estava entre elas; Luiza foi a primeira a se mexer, levando uma das mãos ao rosto de bochechas fofas da mais velha, passou o indicador sobre elas, como se traçasse um caminho e pela primeira vez em dias, sorriu.

— Paula... — disse, com a voz rouca e baixa, recebendo um murmuro em resposta. — O que aconteceu? — A pergunta era vaga, sem ponto específico. Paula apenas chacoalhou o rosto em negativa e abaixou o olhar, deixando de encarar a maior.

— Você sentiu que precisava se afastar de mim, Luiza? — questionou, quase choramingando.

— Não..., não exatamente, só — Não sabia bem o que expressar, dizer que se sentia insuficiente parecia errado, mesmo que fosse a verdade. —, achei que talvez, eu não seja a melhor escolha pra você. — Recebeu um olhar espantado, como se tivesse dito o maior dos absurdos.

— Você é a única escolha! — disse, se alterando e sentindo a necessidade de se aproximar ainda mais.

— Paula... — Fechou os olhos, e encostou a testa na da outra. — Desculpa, eu sou muito insegura...

— Tudo bem, tudo bem — interrompeu, apertando o abraço. —, eu também erro, também me deixo levar por coisas que só estão na minha cabeça e, talvez por elas, tenhamos passado por esse momento estranho..., não se culpe Luiza.

A conversa era aberta, era sobre tudo e sobre nada; chegaram em algum lugar com ela, mas não sabiam exatamente qual, se perdoaram por serem humanas, que às vezes, sentem demais e acham coisas demais e, que confirmam de menos. As lágrimas da mais nova voltaram a descer, mas dessa vez Paula apenas tentou contê-las com um beijo suave, nas pálpebras cansadas; se estava tudo resolvido, não podemos saber, mas o silêncio entre ela teve fim, assim como a chuva. Nunca conseguiriam resolver todas as questões de uma só vez, nem ao menos podiam saber quais eram elas; amar não é fácil, conviver também não, há estações, assim como na natureza. Dias quentes acontecem, assim com dias frios, o céu pode ser de um azul infinito, assim como escuro e choroso, mas tudo é cíclico e um dia ou outro, uma nova estação começa; não se pode cobrar mais do que a vida pode dar e, deve-se aceitar que alguns dias precisam ser vividos, exatamente como a vida os oferece.

19 de Novembro de 2018 às 17:05 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Taynara C Tata, 24y

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~