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Raul, os vermes do prédio estão ligando pra dizer Raul

Raul na frente dum prédio. Acho que um dos prédios mais espelho que já vimos. Ele tem um verme na barriga. Raul não sabe disso, nem eu. É o prédio. Sabe, o prédio sabe, o prédio observa a andança, a pernoitada, o caminho trajeto que Raul faz. Raul não sacou os olhos de olhar o prédio, então desentende: o verme. O Raul e o prédio jogam cartas cegas. Um pisa a calçada, e o outro ri. Raul tem um verme na barriga, e observo de longinho, dentro do pensamento dele, até que, num momento de aflição, eu me venho, exponho minha sapiência, do objeto verme, que Raul tem no dentro da barriga. Eu não sei, mas quando souber, está aí... O verme. E estou dizendo, o prédio sabe, mas Raul anda pra fora da vista do prédio - o prédio é alto. Eu sou o verme, dentro da barriga de Raul. Eu sou o Raul, dentro de si, que ignora o verme. Eu sou o prédio sabedor. Eu, frente dum prédio, eu. Raul tem pra si que estou na barriga dele, dentro do prédio e fora de sua cuca? A verdade, sempre um passo a mais, longe distante do prédio: o prédio é alto e mentiroso, pois não sabe do verme na barriga do Raul. Aí, decide uma fome. É do verme, é minha a fome. Dá pra ver que a fome cresce, estirada, culta, no prédio mais espelho que jamais foi visto. Raul caminha pelas ruas, rápido. Parece um prédio que anda. E o prédio é um verme ridículo que corre. O verme come com a pele. Eu mato a fome, sem matar o Raul. Eu mato a mim mesmo. Não mato nada. Raul é um corredor desesperado. Sabia. Não sabe mais de patanada. Pé no colo da rua, que chora, meninos, chora, meninas, chora, Raul, pra fora da rua, e veias grossas do verme, verme gordo, que mata a fome. E o Raul vai morrendo pouco, morrendo mais, morrendo menos, sem ver, mas correndo sempre. Corre, corre, Raul, o verme, de frente pro espelho. Eu vejo o Raul, esse zé ruela, vermoso, esfomeado. O prédio sabe tanto, que sabe também do meu verme Raul, sobrenomeado com o meu nome, na minha pança cheia de água e mijo duro. Raul corre com os joelhos, pois nem pés ele tem - ele é um verme mesmo, verme enjoelhado. O prédio tá cansado. Raul olha pro prédio, com a nuca, e não vê que tem um verme na barriga. Que ódio. Um rastro de Raul nas ruas já é maior que o verme da barriga, e as autoridades ousam preocupação, resolvem ir bater um papo com o prédio. Mas o prédio nem está lá, o prédio corre, desespero, baixinho, sussurro puro, pra não acordar o Raul do seu verme. Merda. Acho que o verme é um cara eloquente. Raul foge milhado, agora nem joelho, só o cilindro lombriga. Parado aí, verme imbecil. Passa pra cá a carta, os documentos. É Raul mesmo, a pronúncia? Pode seguir, pra sempre, até o fim. Chegou no fim, para. Pode seguir, seu Raul. Pera lá, alcoolizado, seu Raul? Paradinho. Não se mova. Mão na cabeça, duas vezes. Fuga do verme. Eu não aguento mais, é um negócio isso aí. Estou cheio do negócio. Estanquei de frente pro prédio, meti a testa na vidraria pura, testa com testa. Que palhaçada, Raul na frente dum prédio. Eu sei lá. Pode chamar a galera do hospício pra esse aqui.

17 de Novembro de 2018 às 20:36 1 Denunciar Insira 1
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Karimy Karimy
Conto incrível, muito bem desenvolvido.
24 de Novembro de 2018 às 17:04
~