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larihexney Lari Hexney

Lucca Vasconcellos é um atípico aristocrata da cidade de Tiradentes. Barão de alto renome, não se sente à vontade com as burocracias da elite mineira e almeja novos negócios com o cultivo de suas terras. Casado com a rica dama Ana Clara, tudo parece ser mais interessante aos olhos do jovem barão, exceto sua vida afetiva. Em uma viagem de cunho profissional, Lucca conhece Thomas, um adolescente camponês que o intriga desde o primeiro contato visual. Thomas é astuto, inteligente, jovem e dono de uma ousadia que passa a perturbar Lucca sem que este tome conhecimento dos motivos. À medida que ambos passam a se conhecer, uma ligação extremamente perigosa nasce. Uma simples intriga toma uma proporção maior dada a necessidade de convivência de homens tão distintos. Uma faísca de atração que parece meramente carnal alastra-se até incendiar a alma, os ideais, as crenças, as certezas e pôr em risco a vida dos dois rapazes por conta de um sentimento tão proibido quanto em escassez na cidade mineira de 1890: o amor.


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Dia de São José

Tiradentes, Minas Gerais, Brasil. 

Março de 1890. 

 

Tiradentes estava se modernizando. Desde a Proclamação da República no ano anterior e a promulgação da Lei Áurea em 1888, a cidade parecia ter tomado um novo fôlego. Isto era perceptível pela quantidade de prédios novos com arquitetura barroca ainda presente, pelos inúmeros eventos que ocorriam aos finais de semana e pela disputa, agora maior que nunca, entre os rebeldes e os aristocratas. A inconstância no governo fazia com que as famílias de maior renome na cidade reivindicassem para si o poder político da agora antiga Vila de São José del Rei, o que revoltava os mais carentes de recursos econômicos, impulsionados pela onda de desejo de liberdade que foi incitado desde a Inconfidência Mineira e perdurava quase um século depois, mais vivo do que nunca. Era como se as disputas de classes acendessem a chama da revolução, refletindo assim, no clima da cidade.  

Era uma terça-feira, dia de São José e a Rua da Câmara já estava repleta de fiéis e devotos rumo a Igreja Matriz de Santo Antônio, para a missa das 07h30min. No dia anterior, houveram protestos quanto ao horário da missa, muito tarde para quem precisava voltar para o campo para trabalhar. No entanto, o bispo da cidade não pareceu preocupado em ouvir o clamor de um grupo de camponeses, o que aumentou o burburinho quanto a uma possível aliança do administrador da diocese municipal com o atual prefeito aristocrata.  

Tudo em Tiradentes envolvia política e todos estavam envolvidos. Em meio a manifestação barroca, isso atingia diretamente a Igreja Católica. A cegueira religiosa não existia mais, haviam aparências. Todos estavam à mercê de julgamento caso perdessem a postura. Se tratava de um jogo de disfarces e eu também estava inserido nele. Querendo ou não, pois não havia outra escolha. Não para mim. 

— Barão Lucca Bellini Vasconcellos, não posso crer em meus olhos! Que grande honra te ver. – Ouvi meu nome ser pronunciado e me virei de imediato, arrependendo-me em seguida. Era o duque de Prados, cidade vizinha a Tiradentes. Era um homem velho com a idade na casa dos 50, possuía uma cabeleira branca fina e um sorriso de um charlatão, sempre pronto para negócios, assuntos os quais eu não estava disposto naquele momento. 

— Duque César de Medeiros, por favor, nos poupe desses títulos. – Eu disse, forçando um sorriso amigável ao encarar o homem e lhe fazer uma pequena reverência. — Igual honra ao te ver. Também veio para a missa?  

— Sim, sr. Vasconcellos. Mas não vim a Tiradentes apenas para isto. – Disse e alargou aquele sorriso desgraçado que era possível ver moedas reluzentes de ouro no lugar de dentes. A vontade de sumir apareceu em meu interior. — Estou aqui com minha esposa e meu filho por cinco dias, sendo este o terceiro. Vim fazer novos negócios e tenho um que creio que se interessará. Que tal se eu passar em sua residência às 19h para um jantar agradável com sua belíssima esposa, seu tio e sua sogra?  

Além de tudo, era intruso.  

— Oh, sr. Medeiros, eu adoraria. – Menti. — Mas lamento não estar interessado em novas terras no momento.  

— Ah, bom Lucca, não duvide de meu faro para negócios. – Ele disse, sorrindo e andando rumo a igreja junto comigo. — Sei que o senhor não quer terras no momento. 

— Sabe? – Questionei, incrédulo. 

— Sei sim, por isso minha oferta é mão de obra. Uma parceria irrecusável que terei o prazer de explicar-lhe no aconchego de sua casa. – Disse, dando mais um passo e cruzando a entrada da igreja, indo em busca de um banco vazio em meio a lotação do local. — Às 19h, não é? – Perguntou e sorriu, não se dando o trabalho de ouvir minha confirmação.  

Maldito.  

Apressadamente fiz o sinal da cruz, me ajoelhei diante do Cristo e adentrei a igreja, tentando espantar a todo custo os negócios da minha mente. E de fato consegui durante a lenta e enfadonha missa. Aproveitei o tempo em pé – em razão da lotação – para encarar a representação de Cristo e conversar com Ele, em busca de paciência. E eu precisava de muita.  

Ao fim da missa, saí depressa pela ladeira da Rua da Câmara, indo pelo caminho mais longo até o Centro. A caminhada me fazia espairecer e eu adorava ver os novos prédios sendo erguidos, principalmente naquele canto da cidade. Conhecia Tiradentes como a palma da minha mão e os ladrilhos no chão eram amigos dos meus pés. Era caminhando que eu conseguia esquecer os negócios. 

Eu também era um aristocrata, entretanto, não era por opção. Meu pai possuía algumas terras nos arredores da cidade, além de uma fazenda na qual eu morava. Com a morte dele e posteriormente a da minha mãe, a herança coube a mim, inicialmente administrada pelo meu tio por dois anos, até que eu completasse dezoito e estivesse pronto para exercer um cargo público. Quando atingi a maioridade, comecei a estudar Administração e passei a cultivar nas minhas terras, o que gerou interesse de muitos arrendatários próximos. Então eu cultivava, comprava terras, lucrava e fazia constantes alianças econômicas, o que me dava status, tornando minha família uma das mais renomadas da cidade.  

Apesar de tudo isso, eu não me sentia bem junto aos demais nobres. Não compartilhava dos mesmos ideais conservadores, não concordava com suas ações e tampouco gostaria de tê-los como amigos. Por isso, eu estava querendo investir agora na agricultura cafeeira, o que me afastaria de negócios com os nobres por um tempo, me aproximando mais dos comerciantes que, diga-se de passagem, eram melhores nos negócios que os velhos nobres como o sr. Medeiros. Toda a burocracia aristocrática me entediava e me cansava consideravelmente. 

Na minha família, porém, a vida nobre deleitava minha esposa e sogra. A senhora minha esposa, Ana Clara Vasconcellos, era uma jovem estonteante de 29 anos de idade, astuta e rica. Ainda mais rica quando se casou comigo, um acordo muito bem arranjado da senhora Rita Helena Salgueiro – sua mãe – e o senhor Martim Vasconcellos, meu tio o e responsável por mim após a morte de meus pais. Desde aquela época, eu sabia que Martim era ambicioso, seu olhar atento sabia exatamente o que gerava lucro e o que devia ser facilmente descartado. Seu discurso, na segunda metade do ano passado, era de que um homem como eu, no auge dos 32 anos de idade, deveria arrumar logo uma esposa para formar uma família e multiplicar seus bens. Disse que eu não deveria me importar com essa baboseira de amor, que isso poderia ser construído com a senhorita Salgueiro. Eu aceitei. 

Me casei com Ana Clara por jogo de interesses, mas me afeiçoei por minha mulher. Ela era uma esposa dedicada e atenciosa e eu me sentia feliz ao seu lado, ainda que não pensasse que a amava como eu esperava um dia amar alguém. Eu sentia que havia mais de mim que ela não conseguia tirar, mas não deixava isso transparecer. Ou ao menos achava que não. Não muito distante, faria um mês que não conseguíamos ter relações. Uma briga havia ocorrido, por um motivo supérfluo, e toda a minha vontade sexual sumiu. Ultimamente, a ideia de me auto satisfazer parecia mais agradável do que a ideia de tocar minha esposa.  

Respirei fundo ao notar o caminho que meus pensamentos estavam seguindo e parei de andar, avistando a poucos quilômetros o Palácio Administrativo Governamental, local onde eu possuía um escritório pessoal para interesses administrativos meus e do próprio governo. Ideia do meu tio.  

Entrei, subi as escadas, cumprimentei meus colegas de trabalho e fui até a minha sala. Meses atrás, seria possível que na minha mesa houvesse uma montanha de papéis, mas hoje estava tudo muito bem organizado. Essa era mais uma das vantagens de parar de negociar com nobres, ainda que momentaneamente. 

Sentei-me em frente à mesa e me pus a elaborar a logística de meus negócios. Foi impossível não pensar no sr. Medeiros. Mesmo não gostando do sujeito, o duque tinha propostas irrecusáveis, o que atiçava minha curiosidade. Eu já estava ansioso para o jantar. Só precisava ir até a minha residência no horário de almoço, avisar que teríamos um convidado para o jantar e aguardar até a hora marcada. 

As horas passaram com paciência suficiente para que eu concluísse minhas tarefas no escritório. Peguei meu chapéu e meu paletó no suporte para roupas, na lateral da entrada da sala e parti a pé rumo a minha casa. O caminho era um pouco longo, levaria aproximadamente 35 minutos até que eu chegasse, mas eu não me incomodava com isso. Meu tio que sempre insistia para que eu comprasse um carro, mas eu achava luxuoso demais para mim, um homem que nem apreciava a classe social na qual estava inserido. 

Enquanto caminhei, desci duas ladeiras e subi uma, passei por bares, igrejas e casas de prostituição. Nunca tinha ido em nenhuma dessas casas. Para mim, era cômico observar como a cidade era dividida entre a suposta santidade e as coisas mundanas. Era inoportuno alertar o ar repleto de hipocrisia, quiçá, até mesmo perda de tempo. 

Prossegui caminhando e mais a frente avistei o caminho de terra. Imediatamente senti o ar mais puro, o cheiro de mato e dos dejetos dos bois e vacas que pastavam aos arredores. De onde eu estava até minha casa não levaria pouco mais de 10 minutos. Descansei um pouco, observando o nada e tomando fôlego. Admirava a paisagem natural, o sossego daquela área que eu imaginava futuramente cheia de camponeses para a preparação da terra para o cultivo de café. Era algo que gerava muito trabalho e renda para quem necessitava, além de, claro, lucro para a família Vasconcellos. 

Eu já estava dentro de minha propriedade quando senti meu pé doer. Sentia que não tinha mais o pique de um garoto, mas não me achava um ancião. Meu porte físico era de um homem maduro, másculo e forte o bastante para ser temível em uma briga. Minha barba era rala e da mesma cor que meus cabelos castanhos claros com as pontas que formavam lisos caracóis loiros, que se esvaíam facilmente com um desembaraçar de dedos. Ninguém me dava a idade que eu tinha, se não me conhecesse. Os nobres que eu negociava me diziam que eu era muito discreto, cauteloso e reservado como um homem de 50. Nunca me importei com o que diziam e seguia com essa decisão. Meus olhos azuis sempre ficavam impassíveis diante dessas observações carregadas de crítica disfarçada de conversa amigável. Não conseguia ter paciência. Talvez ela já estivesse ido embora com o meu brilho juvenil. 

Pus meus pés na sala de casa no mesmo momento em que minha sogra apareceu no fim do corredor que ligava a sala aos quartos. Era um imenso desgosto vê-la sempre ali, me regrando com o olhar pelos atrasos para o almoço. No entanto, eu fui educado ao cumprimentá-la com uma boa tarde. 

— Sua esposa está faminta e ainda assim insiste em te esperar para o almoço. – A sra. Salgueiro disse, ignorando minha educação e decidida a tirar a escassa delicadeza que eu tinha. — Imagino que um carro de fato lhe seria útil para evitar novos e recorrentes atrasos. Dinheiro o senhor possui.  

— E o gasto da maneira que bem entender. – Falei, fazendo-a arregalar os olhos, ainda que eu estivesse sorrindo (com a mais pura falsidade). — Onde está sua adorável filha, sra. Salgueiro? 

Ela ia abrir a boca para falar, mas balançou as mãos suavemente com uma expressão de tédio no rosto ao ver Ana Clara chegar às pressas ao meu lado e me envolver em um abraço. Retribuí o ato afetuoso e as convoquei para a sala de refeições, onde o almoço já estava sobre a mesa. Somente após a primeira garfada que coloquei na boca que o silêncio se desfez. 

— Esse pato está uma maravilha! Eu mal comi e já quero mais! – Clara comentou com louvor. 

— Modos, menina. Desse jeito parece que nunca comeu um pato em sua vida. – Reclamou Rita, áspera e cortante. Senti o sangue ferver. 

— Não vejo mal algum no fato de minha esposa apreciar a refeição que está comendo. Que eu saiba, ela é livre para fazer comentários do que quiser da maneira que quiser, afinal, é a senhora desta casa. – Falei tentando soar o menos rude possível, ainda que meu instinto não quisesse isso. Rita se calou e Clara me fitou com afeição. 

Ela tinha se apaixonado por mim logo nos nossos primeiros dias de casados. Eu pude notar a forma como seu olhar mudou depois de nossas primeiras relações íntimas. Tinha se tornado um olhar mais carinhoso, desejoso e repleto de admiração. Me doía não sentir o mesmo, mas com o passar do tempo o carinho e admiração foram sendo criados e logo pude sentir mais prazer em nossas relações e em nossa convivência. Ela era, antes de esposa, uma mulher admirável e decidida a me agradar. 

— Receberemos uma visita hoje. O duque César de Medeiros jantará conosco, às 19h. – Quebrei o gelo que o silêncio tinha formado.  

— Um duque? Sem aviso prévio? – Indagou minha sogra.  

— Sim. Questões de negócios. – Respondi curto, soando indiferente. 

— Seu tio sabe? – Clara perguntou, seus olhos atentos em mim. 

— Não. – Suavizei meu tom. — Meu tio não precisa se envolver mais nos meus assuntos. É um ancião e deve aproveitar a boa vida que o fruto de seu trabalho gerou. – Sorri sarcasticamente, pois sabia que meu tio sempre viveu às custas de meu pai e de mim. Ana Clara me acompanhou no sorriso, mas sua mãe possuía uma carranca enorme. Franzi o cenho, desentendido.  

— Realmente, seu tio foi um nobre trabalhador. Cuidar de uma criança que não é sua, sem ter uma mulher do lado, é algo que honra qualquer homem. – Rita disse e então minha mente clareou. Ela defendia meu tio com unhas e dentes, afinal, eles articularam meu casamento juntos e era de grande interesse da mulher enrugada que meus negócios estivessem vantajosos. Ela dependia de meu dinheiro para aumentar sua renda, assim como meu tio, mas confiava muito mais nele para que isso lhe fosse assegurado do que em mim. Tive vontade de rir com minha constatação tardia, já que não era a primeira vez que ela me alfinetava, mas segurei a vontade. 

— Me encanta sua noção de honra, sogra. Sempre pensei que o trabalho honrasse um homem, mesmo que este já possuísse título de nobre, e não cuidar do filho adolescente de 16 anos de um irmão por dois anos. Mas, já que sua visão é de suma importância em minha vida, eu passarei a reconsiderar essa minha equivocada concepção. – Falei e a ironia foi tão evidente que mais ninguém se pronunciou até o fim da refeição. 

Pedi licença as duas senhoras, dei um beijo suave na testa da minha esposa e fui até meu escritório na casa. Lá passei toda a tarde, lendo um livro de literatura, afastando por fim tudo que me incomodava: os acordos com os nobres, a minha sogra, a minha falta de paciência com tudo e a enorme vontade de me esquivar da minha rotina sufocante. 

9 de Novembro de 2018 às 16:49 5 Denunciar Insira 9
Leia o próximo capítulo Ele é um menino.

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Jade B. Sand Jade B. Sand
Estou gostando.

  • Lari Hexney Lari Hexney
    Oi, Jade! Bem-vinda! Muito obrigada, de verdade! Espero que continue gostando! Sinta-se à vontade para comentar sempre, irei adorar. Beijos! 5 days ago
Leticia Beatriz Leticia Beatriz
15 de Janeiro de 2019 às 17:10
snowy here snowy here
Adorei sua escrita, sério, e a história me prende cada vez mais aaaaaa
14 de Janeiro de 2019 às 19:52

  • Lari Hexney Lari Hexney
    Que honraaaaa! Muito, muito obrigada! Isso me alegra um TANTO! Sinta-se à vontade para opinar sempre! Um beijo! 16 de Janeiro de 2019 às 11:03
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