rayy Raytoni

No instante em que a confirmação vem à tona, um poder que antes era impercebível invade a vida da jovem Coriane Pierce. Mudando não só a sua vida, como a de todos ao seu redor. Vivendo em uma Instituição onde só há mulheres e sendo reconhecida por um número, Coriane encontra-se em um estado difícil. Pensando apenas na sua fuga e na sua família. Mas o que ela não imagina é que uma repentina mudança faz a sua rotina se transformar em uma verdadeira tortura, fazendo-a correr contra o tempo para encontrar uma saída e sair viva dessa prisão. Uma guerra que luta para se formar, pessoas como Coriane são a arma principal. Denominados H, eles só querem o que lhe fora roubado de volta - uma vida normal.


Fantasia Épico Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#romance #fantasy #fantasia #magia #poderes #prisão #feminino
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I

058


RETIRO-ME DA ALA HOSPITALAR EM PASSOS LENTOS devido as dores espalhadas pela parte de baixo do meu corpo. Não sei o que fizeram comigo desta vez, mas sinto como se estivesse sido destroçada novamente. Um pouco mais forte e insuportável dês do último exame na enfermaria.

Tenho que suportar.

Não apenas por mim, mas pela minha família. As ameaças diárias vindas da direção do instituto me deixam avisada sobre o que eles são capazes e o quanto possuem a família de cada pessoa deste lugar na palma da mão. Às vezes penso em gritar, mas sei que será em vão. Não que eu não tenha o feito, eu fiz. Mas me arrependi uns minutos depois. Sou tão ridícula quando ajo sem pensar. Quando aprenderei?

Cruzo o último corredor onde a minha câmara está entre várias outras. Não dou atenção para os homens uniformizados de vigia a cada quadrado. Eles me olham com desprezo e, talvez, um pouco de medo. Eles já devem ter visto o que pessoas como eu são capazes de fazer. Ou, já ouviram os boatos sobre as “mulheres sobrenaturais”. Que praticam bruxaria, como murmuram constantemente. Algumas são corajosas o suficiente para bater nas pessoas que estão do outro lado — o lado inimigo, que trabalha contra nós e a favor de quem lá esteja no comando. Ninguém nunca apareceu dizendo que mandava em tudo. Aguardo por este dia. Quem sabe eu não acabo com todo esse lugar de uma só vez.

Adentro a Câmara G, ignorando como de costume as minhas companheiras de “dormitório”. Divido o quarto com mais três, totalizando quatro sexos femininos no mesmo lugar. É incrível como nenhuma de nós ainda não se atracou com a outra no meio de tanta pressão. Estamos indo muito bem desde que o quarteto se formou.

Os meses passam rápido por aqui, impossibilitando uma boa visão dos dias da semana. Não faço a mínima ideia do dia de hoje, apenas a quantidade desde que cheguei. Não temos muitos privilégios, o máximo é um pouco de comida ruim e uma cama para descansar os músculos depois de exames pesados.

Eles nos dopam com algo muito forte, muito forte mesmo, nos deixando tão atordoadas que chego a perder os sentidos e o que é e não real. Não tenho certeza, mas gosto de pensar que já estou morta e pagando apenas por todas as besteiras que fiz durante meus dezessete anos.

Jogo todo o meu corpo em cima do colchão que cheira a mofo e levanta poeira. Poupo-me do trabalho de retirar o vestido cinza do corpo. Apenas largo a touca da cabeça no canto da parede e aconchego-me no pequeno espaço abaixo da cama de cima do beliche. Todo o meu cabelo que teve um bom crescimento dês da minha chegada cai por cima, me impedindo de ver qualquer coisa. Meu desespero tradicional desperta e me arranca alguns vislumbres do rosto dos meus irmãos e dos meus pais. Algo curto e vago, devido ao tempo que já não os vejo. Dessa mesma forma, adormeço com as dores ainda presentes, mas quase inexistentes a cada segundo.

Em certo momento na escuridão da Câmara G, um grito agudo e cortado soa dos meus lábios quando desperto de um pesadelo voltado novamente para o funeral do meu pai. A cerimônia que nunca pude assistir e que não sei se foi realizada depois que Coriane Pierce perdeu sua vida e a 058 ascendeu ao trono quebrado. O espanto me fez cair da cama, machucando o braço com a ação súbita.

Confiro se não acordei as minhas colegas de quarto pela pouca iluminação que a borda da porta do banheiro me dá e tenho a mais simples confirmação: tudo continua anormal como de costume. Uso a madeira do beliche como apoio para levantar-me e volto para minha cama. A intenção de dormir hesita com o medo pairando na minha cabeça com outro sonho medonho. Ainda estou me adaptando a eles.

Relembro o meu ritual e vasculho entre as ripas de madeira abaixo do meu colchão pelo meu objeto sagrado. Aquele que consegui socando as paredes do banheiro, que não resistiram e fragmentaram-se brevemente. Eu encontro a pequena pedra no chão e estico o braço para pegá-la. Quando tenho-a em meu punho dolorido, risco com força a parede para formar um simples traço — mais um de duzentos e treze riscos feitos.

Me aconchego dentre as circunstâncias e forço os olhos a envolverem-se na escuridão. Levo mais tempo que gostaria para adormecer novamente.

:(:

— 056, acorde! — desperto com a voz de uma das garotas.

— É 058, Andressa. — a corrijo enquanto me levanto da cama aborrecida. Caminho descalça até o cabideiro da câmara.

— Por favor, não use nomes aqui dentro. Você sabe que não é permitido.— diz a mais velha chamada Lily, mas também conhecida por mim como corretivo.

— Não preciso de suas repreensões, “016”. — contraponho e dessa vez ela não retruca, mas expõe a sua melhor expressão emburrada. Não era isso que ela queria?

Dou de ombros. Dirijo-me para o banheiro e faço tudo rapidamente, depois visto-me com o vestido característico das prisioneiras. Um cinza-escuro, longo e de saia plissada, que alcança meus pulsos e cobre quase todo meu colo. Eu encontro uma outra touca para esconder o cabelo preto no armário de madeira no banheiro e, acompanhada das outras três moradoras da Câmara G, vou para o refeitório. Não precisamos caminhar muito para alcançar o salão branco.

Todos os dias de minha vida eu passo por esses corredores e sempre sinto a mesma coisa: ânsia de tudo que é ruim. Eu odeio esse lugar e faria de tudo para sair daqui, mas não tem saída. Venho tentando sair desse ridículo “Instituto de Restauração” há tempo e até a data presente não encontrei uma solução para o meu problema. Entrei aqui junto com mais três e fui jogada na Câmara G, me afastando delas. Não as conhecia, mas eram os únicos rostos familiares,e agora tudo que tenho são as mulheres que dividem o quarto comigo.

Entramos e logo nos sentamos na nossa mesa, próxima a um refrigerador de porta transparente. Nossos pratos plásticos já estão postos em seus lugares como sempre. Temos a obrigação de comer ou corremos o risco de ser punidas. É assim que as coisas funcionam. Eu não conheço todas as regras e nunca me preocupei em saber, apenas as necessárias e básicas como “não tentar fugir”.

— Boa refeição, H’s. — Andressa, ou 030, profere.

A palavra usada por ela não se limita apenas as jovens desta mesa. Se expande tanto que é capaz de alcançar todas as áreas do instituto. É estranho ser chamada por uma letra, mas já me adaptei. Todas já se adaptaram, assim como os números recebidos quando chegamos.

Chega a ser assustador saber que uma simples letra pode causar uma sensação tão ruim nas pessoas do lado de fora. Somos iguais, mas, ao mesmo tempo, diferentes. Vai muito além de aparência, é algo que nos torna monstros. Terríveis monstros pela capacidade sobrenatural de fazer coisas que humanos comuns não conseguiriam. Uma pessoa comum, um não-H, sei lá.

— Obrigada. — agradece um segundo antes de devorar seu prato, a cientista.

Eu certamente deveria parar de colocar apelidos em todas as pessoas que conheço, mas é inevitável! Esse mesmo é para a jovem cabeluda Kellisha cientista. Para ser sincera, eu não faço a mínima do significado dessa palavra. A ouvi sussurrar enquanto dormia e resolvi adotá-lo para ela. Resta a mesma descobrir.

De uma hora para outra, de uma forma que não consigo acompanhar, duas mulheres do outro lado do salão discutem feio. Rapidamente, tudo se transforma em uma discussão que acaba envolvendo outras pessoas. Não consigo ouvir com clareza, pois saem mais gritos do que palavras, mas identifico reclamações voltadas para um relacionamento desenvolvido sob segredos. Traição.

Todos viram na mesma direção com os estalos que cortam os sons restantes quando uma delas joga o prato em direção a outra. A força bruta no punho é suficiente para partir o objeto ao meio, deixando-me boquiaberta com a cena. Logo, portas que eu não sabia que existiam na parede da extremidade oposta que estou se abrem e três homens uniformizados invadem o cômodo e vão em direção as afrontosas.

— Deveríamos partir.— ouço Andressa comentar.

— Logo agora que as coisas estão esquentando? — Kellisha pergunta já com uma resposta pronta. Um sorriso de canto se forma em meus lábios involuntariamente.

— 044, por favor. — Lily gesticula com as mãos para Kellisha se silenciar.

Por que ela sempre dita as regras e manda em todas?

Kellisha abaixa a cabeça, mas logo volta a olhar a confusão. Olho também.

Identifico as duas mulheres que estão com os dias contados: uma tem cabelo cor de fogo e a outra fios negros. Consigo perceber a raiva presente nos olhos da morena. Em um período de tempo tão pequeno elas partem para o contato físico, trocando agressivos e poderosos socos uma contra a outra. Os sons do choque de corpos abafam os murmúrios de todas do salão. Torço para tudo isso acabar de olhos fechados.

— Minhas cores! — Kellisha deixa escapar no instante seguinte que pratos começam a voar pelo refeitório. Olho um único segundo para o lado, notando a mão de Andressa depositada em sua boca como demonstração de seu espanto.

Seguro a sua outra mão que está sobre a mesa, agarrada a um copo. Deixo que os meus olhos digam por mim e ela compreende. Assentindo com a cabeça, nós duas nos levantamos, mas paramos ao mesmo tempo. Meus olhos se arregalam e sou obrigada a tampar meus ouvidos com as duas mãos, fechando os olhos com força.

Eu não tinha medo das pessoas até entrar aqui. Depois que descobri sobre os H meu medo aumentou cem por cento e depois de hoje, mais cem. Eu não conheço o passado das mulheres que vivem aqui, por isso fico assustada só em pensar no que podem fazer. Pisco com força eme agacho, na tentativa de fugir de outro disparo da arma pontuda nos punhos de um dos três homens. Ele mira em várias pessoas, além das responsáveis pela bagunça. Noto sorrisos de prazer no rosto de seus companheiros apenas por ouvirem nossos gritos de medo. A expressão que revela o quanto eles zombam de nós me deixa brava, o suficiente para cobiçar pelos meus punhos contra seus corpos, mas eu me contenho inspirando fundo e correndo para fora do cômodo — como muitas outras fazem.

Ao pisar no corredor de entrada do refeitório, esbarro-me com uma patrulha de vigilantes segurando uma seringa preenchida por um líquido, que se dirige para as minhas veias com fervor. Eu desvio da primeira tentativa de um homem mais velho que já vi anteriormente na vigilância, mas perco a concentração quando visualizo ao meu lado dois homens contendo Andressa com tapas e apertos. Eles injetam o veneno em seu antebraço e os olhos dela fecham-se lentamente. Como eles sempre fazem quando algo sai do controle.A agulha penetra em minha pele tão rapidamente que quando noto meu corpo está prestes a cair.

Tudo escurece e eu permaneço incapaz de abrir os olhos durante muitas horas. Confirmo quando desperto em minha câmara acompanhada de todas as minhas colegas de quarto. Faço uma careta quando sinto a mistura das refeições ainda presente no meu paladar. Por quanto tempo dormi?

Caminho de ponta de pé e, aos poucos, alcanço o cartão que desbloqueia a porta de açodo nosso cômodo em uma mesinha redonda e baixinha. Estendo o objeto para o identificador instalado na parede para abrir a porta que me leva aos corredores. Olho para os beliches onde as três H’s adormecem antes de sair. Sinto-me como se o oxigênio da Câmara G não bastasse para suprir meus pulmões, por isso apresso os passos pelos corredores sem nenhum outro propósito.

Não há muito o que fazer durante a caminhada, curta e nebulosa nos corredores que revelam apenas os círculos vermelhos das câmeras no alto das paredes. Com a iluminação limitada, esforço-me para ver à distância algum vigilante, mas não encontro indícios. Meu caminho segue na direção do Segundo Corredor, onde ficam as últimas câmaras. Paro quando escuto vozes vindas da Câmara I — bem no início do corredor. Vozes femininas que disputam pelo maior tom. De repente, um terrível silêncio toma conta do meio. Minhas mãos gelam, mais do que o meu poder indecifrável.

Respire fundo, Coriane.

O som da porta sendo desbloqueada me dá impulso para correr, mas alguém é mais rápido. Está escuro, então as câmeras não captarão muita coisa.

Nada além de fios loiros surgem à frente dos meus olhos e o responsável me puxa para dentro da câmara tão velozmente que fico incapacitada de reagir. Olho ao redor do ambiente iluminado e conto quatro H’s sentadas no chão mais a loira ao meu lado. Seus olhos azuis me hipnotizam por alguns instantes. A voz de uma delas me traz de volta.

— O que você quer? — questiona-me rispidamente uma mulher de cabelo castanho-escuro, trançado e ressecado. As olheiras me examinam com uma profundeza única, causando-me arrepios eletrizantes.

— E-eu não quero nada. — me certifico de deixar claro o mais rápido que consigo. Minha cabeça ainda dá voltas no cômodo, mas consigo focar em uma das H’s sentada atrás das três mais próximas. Tem cabelo enrolado e volumoso nas laterais, alcançando os ombros. — Foram vocês que me trouxeram para dentro! — afirmo, determinada. Tento, de alguma maneira, intimidá-las.

— Não foi exatamente isso que estávamos querendo saber. Peço perdão por todas nós. Sol se expressou mal. — explica uma terceira prisioneira, de olhos verdes e traços jovens no rosto oliva que me fazem crer que possuímos idade semelhante. — Por que estava vagando sozinha nos corredores neste horário? — ela me pergunta.

Chega a ser interessante o corte de cabelo radical, rente a cabeça, estando na mesma garota que possui uma voz suave e angelical. Tão feminina, estranho como pode ter um penteado tão inapropriado. Eu nunca vi algo assim no meu vilarejo e, creio que, em toda Torlan. Ela certamente não vem do mesmo lugar, mas isso não chega a ser uma surpresa. Desde que cheguei, descobri que existem mulheres de diferentes países aqui. Só é estranho como isso se permitiu ocorrer. Viagens externas são raríssimas.

— É melhor deixá-la partir, Iza. Pode ser perigosa. — expressa a jovem de cabelo volumoso, que chamou minha atenção inesperadamente.Não foco em sua frase, mas em uma palavra específica. A forma como se dirige a colega é exatamente como faço e alguém sequer faz uma careta. Quebram as regras e não enxergam problema nisso.

— Eu… — cesso minhas palavras quando noto um objeto incomum em cima de umas das camas do beliche da esquerda. Uma delas nota minha atenção e se coloca na frente do objeto. — Onde conseguiram isto?

— Não é da sua conta, H! — a mulher trançada vocifera, erguendo-se diante de mim.

— Isso é uma câmera! — afirmo quando vejo com clareza. — Vocês roubaram.

— Não roubamos, só…

A loira ao meu lado me segura pelo ombro e me obriga a virar para sua frente. Ela me encara com os olhos azuis de forma intrigante. Me observa atentamente durante um bom tempo sem dizer nada. Sua ação me intimida tanto que sinto todo meu corpo encolher. Detesto essa reação, mas não consigo realizar qualquer outro ato.

— Se não guardar segredo, vou atrás de você até do outro lado do continente. No reino que desapareceu se for preciso. — ameaça-me sem quebrar o contato. Acho que curtas risadas escapam do canto do cômodo, mas não tenho certeza. Ela me deixa imóvel sem necessitar de palavras, depois dessas, eu não tenho forças para sair. Em pensar no que ela é capaz de fazer comigo, meu corpo automaticamente promete.

— Muito bom. Nos vemos amanhã…?

— Coriane… quero dizer, 05…

— Coriane está ótimo — ela garante com um sorriso amarelo. Se não fosse pela frieza dos olhos azuis no rosto rígido, diria que um pouco da beleza perdida havia dado sinais de vida.

Um som agudo e ensurdecedor percorre as paredes do instituto rapidamente e nos faz saltar de surpresa. O alarme nos alerta sobre o fim da liberdade de circulação, como se pudéssemos fazer algo durante a noite. Assim como as H’s que não pertencem a esta câmara, acelero os passos para fora do cômodo após o transe. Quase corro pelos corredores de nervosismo e o motivo resume-se nos castigos resultantes. Depois do disparo do alarme, temos um minuto para adentrarmos em nossos dormitórios ou ficamos de fora. As câmaras são bloqueadas para nós, sem funcionar mesmo com o nosso cartão recebido.

Ficar de fora certamente é algo que eu não desejo.

Tenho a impressão de ver a mulher de olhos azuis entrando na Câmara E, porém é difícil ter uma confirmação. Localizo minha pequena residência alguns metros depois. Entro no cômodo em um só movimento.

Após deitar-me e fechar os olhos, a presença do vigilante acompanhado de sua lanterna de sempre surge e se concretiza quando o mesmo inicia a chamada da semana. Aguardo minha vez imóvel, levantando-me apenas para a verificação básica e para receber o comprimido semanal. Aperto os olhos quando faço esforço para descê-lo.

Sinto-me um pouco aliviada quando ouço o som da porta bloqueada, confirmando que o homem partiu. Ele já deve estar distante e agora eu posso dormir. O dia completará suas vinte e quatro horas em pouco tempo, mas, ainda assim, parece que durou apenas alguns minutos.

Torço para que o dia seguinte seja totalmente diferente do de hoje.

5 de Novembro de 2018 às 02:03 0 Denunciar Insira Seguir história
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