Rainha Seguir história

zephirat Andre Tornado

Num castelo medieval acontece uma cerimónia de coroação inusitada... Uma Rainha e um Rei, morte e loucura, amor eterno.


Conto Para maiores de 18 apenas. © História de minha autoria

#amor #lenda #rainha #portugal #DoçurasouTravessuras #Pedro-e-Inês
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Capítulo Único


O cheiro nauseabundo da pestilência inundava o grande Salão Real, mas ninguém ousava proferir um queixume ou uma censura. O Rei estava louco, contava-se e assim lhes parecia, quando se voltavam para o trono e o espiavam, temerosos e piedosos. Ali estava a majestade, de olhos congestionados, mãos enclavinhadas na nobre cadeira imponente, respiração pesada, dentes a ranger, suado e desgrenhado.


Obedeciam-lhe porque ele era o soberano e porque tinham, sobretudo, medo.


Um terror horrível que lhes arrepanhava a alma e em segredo, não fosse o monarca descobrir-lhes a fraqueza, benziam-se para afastar de si a ira de Deus que estava a ver aquilo desde os Altos Céus e se estaria a indignar. Castigos viriam em breve, todos acreditavam. Penas inomináveis que causariam grande mortandade.


Aquela cerimónia não era natural, não era cristã, não era digna.


O beija-mão prosseguia. Os cortesãos desfilavam pelo segundo trono e deixavam a sua bênção à Rainha imóvel. Seguravam-lhe na ponta dos dedos, com desvelo, chegavam os lábios ao anel que pendia frouxo entre as falanges, deixavam um ósculo tímido, um mero roçar da boca trémula na joia. Não se atreviam a fingir. Inclinavam-se e beijavam efetivamente a mão da Rainha. Porque o Rei, ao lado, os observava entre a fúria e a ânsia, rosnando em aprovação sempre que um nobre terminava a cortesia.


A carne já se desprendia putrefacta dos ossos, as larvas esgueiravam-se pelos buracos abertos. E o fedor… o fedor era insuportável. Mesmo enrolado num vestido do mais fino brocado, mesmo enfeitado com pedras preciosas e a ditosa fronte ornada com uma bela coroa, o cadáver de Dona Inês de Castro, desenterrada do seu túmulo, perturbada no seu sono eterno, restos mortais profanados, era motivo de piedade e de escárnio no seu papel de Rainha de Portugal.


Rainha depois de morta!


Mas quem ousava contrariar o grande amor do Rei Dom Pedro I? Um amor que o levara àquela insanidade de proclamar a sua amante como Rainha para legitimar os filhos bastardos que tivera com a dama galega? Um amor que a designara Rainha desde a sepultura?


Esse amor já tinha provado como podia ser tétrico, perigoso e mortífero. O que tinha feito o Rei com os assassinos de Dona Inês? Contava-se que apanhara dois deles e que os fizera provar da dor do seu coração partido. Mandara-os executar enquanto se banqueteava, oh!, supremo dos horrores. Ao primeiro, dissera ao carrasco que lhe arrancasse o coração pela frente. Ao segundo, dissera ao mesmo carrasco que o fizesse pelas costas.


Então, quem ousaria levantar voz contra aquele beija mão infernal?


Se o Rei investira a Rainha depois da sua morte, se o Rei ordenara que fossem prestar homenagem à Rainha cujo cadáver sentara no trono, os nobres obedeciam.


E faziam-no, um atrás do outro, vergados num cortejo mudo e impressionado.


Veneravam relutantes o corpo estragado pela decadência que fora belo em vida.


Aceitavam a mulher que Dom Pedro jurara amara por toda a eternidade – mesmo depois da morte! – mostrando ao Rei que também eles a amavam. Pois que de outra forma dispensavam beijos tão abnegados à morta?

4 de Novembro de 2018 às 17:00 2 Denunciar Insira 6
Fim

Conheça o autor

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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Lyse Darcy Lyse Darcy
Adoro as lendas do Além Mar E vc André as conta lindamente Beijos!
8 de Novembro de 2018 às 08:23

  • Andre Tornado Andre Tornado
    Oi Lyse! Em Portugal temos muitas lendas, basta haver uma rocha com um formato diferente e já se cria uma história... Muito obrigado pelo teu comentário e pelo teu carinho. Beijo! 8 de Novembro de 2018 às 10:25
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