Bom Garoto Seguir história

nathymaki Nathy Maki

- Você vai ficar bem, Jake. É o meu bom garoto. Lati uma última vez e lambi seu rosto, livrando-o da água salgada que escorria por suas bochechas. Meus olhos se fecharam e eu o senti deitar a cabeça contra o meu pelo. - Você vai ficar bem, eu prometo... - ele repetia. E porque aquele era o meu menino, eu acreditei.


Conto Todo o público. © Créditos da imagem: Jakub Rozalski

#halloween #angst #fluffy #vida-de-cão #original #hallowink
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Bom garoto


Notas iniciais: História original escrita para o desafio Hallowink do grupo do Inkspired do Facebook com base na imagem abaixo. Créditos da imagem: Jakub Rozalski (https://thecreepersasylum.tumblr.com.br/post/175472459430/by-jakub-rozalski)

 

***___***

Um dia apenas me ocorreu que as formas amotinadas ao meu lado eram meus irmãos. Embora minha visão não estivesse suficientemente evoluída, sabia que aquela língua, que me lambia com carinho, pertencia à minha mãe e que o leite que saía de suas tetas era o alimento mais delicioso que eu podia querer.

Com o passar do tempo, minha visão se tornou mais nítida e eu comecei a enxergar o mundo em sua totalidade. O que era bastante coisa, uma vez que morávamos em um pequeno córrego abandonado embaixo de uma ponte. Eu e meus outros três irmãos passávamos o dia brincando e explorando a redondeza. Um deles possuía uma grande mancha branca no focinho e tal característica me fez chamá-lo de Manchado, o outro mamava com tanta gula, que isso lhe rendeu o apelido de Esfomeado e a única fêmea entre nós vivia a pular sobre mim e morder minhas orelhas quando eu a ignorava, Irritante lhe fazia jus ao nome.

Não havia outros cachorros por perto, então tratávamos de marcar nosso território nas pedras e troncos abandonados que víamos pelo caminho. Nossa mãe, uma grande cadela de pelos escuros, latia para nos impedir de nos aproximarmos do rio, e nós a obedecíamos, pois o cheiro que saía de lá não era dos mais atrativos. A hora da comida era uma competição acirrada, felizmente eu tinha pernas mais longas, o que me dava uma vantagem durante a corrida, de modo que eu conseguia chegar antes que Esfomeado se apossasse de seu lugar, sugando com tanta voracidade, que eu temia o esgotamento do leite antes da minha fome ser saciada.

A vida era tranquila, os dias perdidos em brincadeiras, nós quatro nos atracando e rolando pela grama, correndo para a nossa mãe quando a fome apertava, brincando de farejar com objetos que ocasionalmente caíam do céu, mas nunca nos afastando muito do olhar vigilante da nossa mãe, que rosnava ao captar a menor intenção nossa de sair daquela área. Eram tempos felizes.

Então, um dia, tudo mudou.

Primeiro foi um barulho alto e rítmico seguido de buzinas e vozes exaltadas. Pus a cabeça para fora do local onde dormia junto aos outros e meus olhos se depararam com uma cena que nunca pude esquecer. Enormes máquinas avançavam, lançando nuvens negras no céu. Humanos as seguiam, carregando objetos que emitiam um brilho metálico, suas vozes se misturando ao demais ruídos.

Minha mãe se pôs de pé e rosnou, um som profundo e cheio de raiva que nos fez encolher e nos juntarmos mais, em busca de conforto. Ela sempre havia evitado que tivéssemos contato com os humanos, cada vez que algum era avistado naquela área, ela nos arrastava para o nosso esconderijo na base da ponte e não nos permitia sair até que a ameaça houvesse passado. Naquele instante, eu já imaginava a chateação que seria passar o resto do dia ali escondido, apenas ouvindo Manchado ganir por querer correr, e Irritante a fazer o que ela fazia de melhor, me perturbar; quanto a Esfomeado, ele apenas permanecia em seu lugar, pouco interessado em qualquer coisa que não envolvesse uma refeição.

Porém o som alto que ecoou no local foi o bastante para um latido de alerta ser emitido por nossa mãe, que nos empurrou para fora bruscamente. Aquilo era novidade, correr ao invés de se esconder. Meus olhos arderam com a substância que cobria o ar, e o cheiro que ela emitia era forte o suficiente para que o meu focinho se torcesse. Meus irmãos pararam ao meu lado, tão abobalhados pela situação quanto eu próprio estava. Nossa mãe nos cutucou e latiu, se afastando dali. Percebi, naquele momento, que ela desejava que a seguíssemos, e, como mais rápido dentre todos, a alcancei primeiro. Ao que tudo indicava, aquele já não mais podia ser o nosso lar. Mas estava tudo bem em ter um novo, a ansiedade me atingia ao imaginar os novos cheiros que poderia encontrar. Foi então, com um grande estouro, que tudo começou a dar errado.

Não sei o que aconteceu, mas a ponte tremeu e seus pedaços rachados começaram a cair. As orelhas erguidas de minha mãe anteciparam o acontecimento e, quando notei, ela já havia corrido em direção aos meus irmãos, que vinham mais atrás. Abocanhou Esfomeado e o trouxe para junto de mim e de Irritante, que me seguia antes de voltar novamente para os outros. Foi então que um bloco despencou da ponte e rolou em sua exata direção. Dela, tudo que ouvi foi um ganido de dor e logo em seguida o silêncio.

Os humanos se aproximaram para ver a origem do ganido e nos cercaram. Recuei, intimidado, a cena ainda fresca na mente. Minha mãe desaparecera por entre os blocos junto ao meu irmão e a culpa era toda deles e de suas máquinas barulhentas.

— Pobrezinhos, devem ter sido pegos no meio da confusão. – As palavras ditas se misturaram ao caos ao redor.

Mãos avançaram em minha direção, mas eu desviei. Vi Irritante sendo pega e latindo desesperada para se soltar, mas sabia que se corresse para ela, teria o mesmo destino. Forjei minha passagem por entre seus pés, descobrindo naquele momento que meus dentes podiam machucar, e ouvi o som de Esfomeado me seguindo, tendo aproveitado a abertura que eu causara.

— Não adianta, José, deixe eles irem.

A tentativa de nos seguir se findou e eu corri, aproveitando-me da minha vantagem e colocando o máximo de distância entre nós. Quanto a Irritante, nunca mais a vi.

***

A mudança da vida no córrego para as ruas não foi fácil. A comida era uma dificuldade e os humanos que ali moravam gostavam de jogar coisas nos cachorros que se aproximavam de suas portas, atraídos pelo cheiro delicioso que saía das janelas abertas. Esfomeado ainda estava comigo, ganindo toda vez que a fome se tornava insuportável. Era perceptível a sua mudança, antes tão cheio e rechonchudo, agora estava flácido e de passo lento, quase se arrastando atrás de mim.

Seguindo o exemplo dos demais cachorros, caçávamos as latas e os sacos localizados na frente das casas, mordíamos e os sacudíamos até que rasgassem, para então devorávamos os pedaços comestíveis que caíam com pressa e fugir logo em seguida. As primeiras vezes dessa prática foram um horror, toda a comida fora vomitada de volta, e minha barriga pesava e doía como nunca. Porém, agora, eu já havia me acostumado, mas não podia dizer o mesmo de Esfomeado. Ele parecia definhar a cada dia que passava, até que por fim, deitou-se na caixa que usávamos de esconderijo e não mais se moveu. O cheiro que seu corpo emitia me repelia, e mesmo que eu o cutucasse, ele não mais me seguia. Foi naquele dia que eu compreendi o que significava a morte.

Agora sozinho, vaguei pelas ruas me alimentando quando e onde conseguia, sempre me mantendo longe dos humanos que por ali vagavam os quais não cheiravam tão bem quanto aquele que viviam nas casas, e, por vezes, me metendo em brigas com outros cachorros que tinham seus territórios demarcados que eu invadia em uma tentativa de sobreviver e conseguir comida. Fugir era difícil, mas eu era rápido e conseguia escapar sem muitos machucados. Tendo escapado por pouco dessa vez, tratei de encontrar uma caixa seca e de aparência confortável e me enrosquei lá dentro para passar a noite.

Acordei com o som de palavras sendo ditas e uma mão tocando minha cabeça entre as orelhas. Reagi e fechei os dentes na pele, uma defesa que já era quase automática, e a mão recuou rapidamente. Avancei para fora da caixa e lati, mostrando os dentes em aviso. A essa altura, tanto tempo vivendo na rua, eu já sabia que os humanos se dividiam em adultos e meninos. Aquele cuja mão eu mordera era um adulto, eu podia dizer isso pela postura desinteressada e a estatura elevada. Já o que me estendia a mão era um menino. Podia ver nos seus olhos estranhamente apagados um resquício de interesse. Ele estendia a mão na minha direção, ignorando o que quer que o adulto ao seu lado falasse, como se a espera de algo.

— Tem certeza que não quer outro? Esse parece muito doente.

O menino negou, sua mão se aproximou da minha cabeça e eu hesitei, confuso pelo tom que ele usara. Não parecia uma ameaça como as que eu costumava ouvir. Ele tentou se aproximar, mas eu rosnei.

— Está tudo bem agora, garoto, não vou te machucar. – Seus olhos se fixaram nos meus e não me deixaram. — Os olhos dele são solitários como os meus.

Não entendia as palavras, mas o tom de sua voz me tranquilizou. Eu avancei, encostei o focinho e lambi seus dedos. Um sorriso brotou em seus lábios enquanto sua mão descia pelas minhas costas e barriga em um carinho gostoso. Lati, e o menino riu.

—  Hum, se é assim. Mas saiba que você vai ficar responsável por ele. – O adulto ao seu lado parecia reclamar, mas ele apenas assentiu.

— Pode deixar, vovô! Eu prometo! – Seu sorriso voltou, e a animação que há muito eu não sentia, me atingiu. Pulei nos braços estendidos do menino e lambi o seu rosto, adorando receber seus carinhos.

— David, vamos embora.

— Você vai ficar bem agora, Jake. É um bom garoto.

Lati animado ao ser posto em seu colo no interior do veículo. O barulho do motor me assustou e eu rosnei para o vazio. Porém, ele logo diminuiu e eu girei a cabeça farejando em volta, já havia visto outros cachorros naquela mesma posição. Coloquei o focinho para fora, desconfiado, e logo fui atingido pelos inúmeros odores que assaltaram meu olfato. Logo, já tinha a cabeça para fora da janela e latia animado para todos que passavam. Aquilo era incrível! Agora eu entendia a expressão de satisfação e superioridade que via nos outros cachorros.

O passeio durou bastante e a paisagem da cidade foi aos poucos sendo substituída pelos campos verdejantes. Os aromas do rio e de grama fresca ficaram mais fortes. O tempo todo o menino acariciava minhas costas como se quisesse garantir que tudo ficaria bem. O veículo parou com um chiado alto, e o garoto desceu me segurando bem firme junto ao peito.

— É aqui que nós moramos, a fazenda do meu Vô. Bem-vindo ao seu novo lar, Jake!

Ele me pôs no chão, e eu corri para farejar todos os novos cheiros que aquela terra possuía. A risada atrás de mim me dizia que o menino me seguia. Naquele momento, como há muito tempo, eu senti novamente aquela sensação de tranquilidade. O menino me alcançou e me abraçou, e eu decidi que ali seria o meu novo lar.

***

A Fazenda era um lar muito melhor que o córrego no qual eu nascera e certamente uma mudança bem-vinda se comparada ao meu período nas ruas. Lá eu tinha espaço, água e comida quando queria, possuí agora uma coleira com um pingente que tilintava quando eu corria e, acima de tudo, tinha a companhia do menino que atendia por David. Ele insistia em chamar minha atenção usando o nome Jake, então acabei por adotar esse nome como meu.

— Vem cá, Jake! Pega o graveto! – Ele gritava, jogando o pedaço de madeira o mais longe que podia. Pobre menino, mal sabia ele que eu era o mais veloz dentre os meus irmãos. Corri para pegar o graveto e o trouxe de volta. Gostava daquele jogo, pois sempre que eu fazia tal ação, ganhava muitos afagos e uma bela coçadinha na barriga. — Bom garoto, Jake! Bom garoto! – Lati e o lambi no rosto. Pelo seu sorriso e o som de sua risada, eu tinha certeza de que aquelas palavras significavam algo bom. Então eu pegaria o graveto quantas vezes ele quisesse apenas para ser o seu "bom garoto".

A vida era boa. Durante o dia, eu e o menino seguíamos aquele a quem ele chamava de Vô e o ajudávamos em várias tarefas. Enquanto ele martelava, ajudando o Vô a construir um novo galinheiro, eu perseguia uma borboleta em uma tentativa de alegrá-lo. À tarde, nos escondíamos na cozinha enquanto aquela que ele chamava de Vó cozinhava deliciosos biscoitos.

— Shiii! – O menino fazia para mim no segundo antes de saltar do esconderijo e encher as mãos de biscoitos.

— David! Volte aqui, seu menino levado! – A Vó reclamava, e, a essa altura, eu sabia que “menino levado” era algo ruim, era a mesma expressão que eu ouvia ao chegar na casa após ter perseguido um gambá que eu pensara ser um gato. Apesar da expressão de raiva, ela sempre ria e me estendia a mão, oferecendo os biscoitos. — Vá atrás dele, Jake!

E eu obedecia, afinal, cuidar do meu menino era o que eu fazia de melhor.

***

Uma noite, quando a lua atingia seu pino no céu, eu quase podia farejar a tensão que se erguia no ar. David se agarrava ao meu pelo, os dedos tremendo de forma nervosa, enquanto seus olhos seguiam o Vô e a Vó, que andavam de um lado para o outro, discutindo em altas vozes.

— É Halloween, época da festa da colheita. Temos que preparar os sacrifícios adequados dessa vez para que o espírito do grande lobo fique satisfeito. Não podemos deixar que a tragédia volte a se repetir, Janete.

— Robert! – A Vó se voltou contra ele com a mesma expressão decepcionada de quando ela encontrava minhas pegadas enlameadas no sofá. Ela veio até o menino e o abraçou. Seus dedos se agarraram mais ao meu pelo. Lambi seu rosto, sentindo o gosto salgado da água que corria por seus olhos. David fungou e esfregou o rosto no meu corpo.

— Ele é meu neto também. Eu já perdi o meu filho e nossa nora, não vou deixar que aconteça novamente.

— Vai ficar tudo bem, Robert. Ele vai aceitar as oferendas. As abóboras cresceram bem este ano.

— Eu espero que sim, Janete, eu espero.

Naquela noite, o garoto não dormiu bem. Subi em sua cama e fiquei junto ao seu corpo, aquecendo-o com o calor proveniente dos meus espessos pelos, o tempo todo com as orelhas alertas. Quando os uivos cortaram a noite, eu me levantei da minha posição e me pus a latir para janela. David acordou e correu para me abraçar, me puxando para a cama e me impedindo de perseguir o ruído, murmurando de forma tranquilizadora o tempo todo.

Ao sair no dia seguinte, havia um cheiro estranho no ar, de modo que precisei marcar novamente todas as pedras que me pertenciam. A rotina voltou ao de sempre, embora eu tenha visto o Vô e alguns outros dos vizinhos circundando uma árvore na qual havia um profundo arranhão. Me aproximei para cheirar, e o odor de ódio puro e concentrado me fez rosnar.

— Calma, garoto. – O Vô me afastou do local, puxando minha coleira. — Estou dizendo a vocês, a oferenda desse ano foi pouca, o espírito do lobo vai exigir mais e mais a cada ano. Pode chegar um em que não tenhamos o suficiente.

— E o que sugere, Robert?

— Ir embora. O que mais podemos fazer? Não vou perder mais ninguém por uma tradição que já não quero mais seguir.

— Que escolha nós temos? Nossas raízes estão aqui, nossas famílias, tiramos o sustento dessa terra e das abóboras que só crescem aqui, sem isso o que nos resta?

— Lamento, Robert. – O círculo foi se dispersando, e eu lati, porém permaneci onde estava, observando o olhar triste que o Vô dirigia aos amigos.

— Vamos, Jake, David está nos esperando.

Minhas orelhas se ergueram ao ouvir o som do nome do meu menino. Me pus de pé e o segui de volta a casa.

***

David agora passava muito tempo do lado de dentro da casa, com o rosto enfiado em velhos livros empoeirados que encontrara no sótão. Eu observava a grama do lado de fora e gania ao puxar a barra de sua roupa, trazendo gravetos para ele e esperando que tal atitude o convencesse a sair e jogar novamente. Vendo minha inquietação, ele decidiu que esse era o momento para começar o que chamava de escola para cachorros.

 Às vezes, quando o Vô conseguia ser enfático o suficiente para retirar David do seu isolamento, íamos vistoriar as ovelhas que comiam tranquilas nos campos. Foi em um desses passeios que aprendi minha primeira ordem.

— Proteger, Jake. – O menino disse, coçando entre minhas orelhas. — Você tem que proteger as ovelhas.

Minha cauda sacudia de um lado para o outro, apreciando o carinho, mas pelo tom de sua voz, deduzi que aquela brincadeira não seria tão divertida quanto a de pegar o graveto. Foi apenas o primeiro passo, mais comandos vieram em seguida. “Deita” e “rola” eram os meus preferidos, pois sempre me rendiam biscoitos deliciosos preparados pela Vó. “Fica” me irritava, esse me impedia de correr junto a David e eu ficava obrigado a apenas assisti-lo se afastar. “Finge de morto” era outro que não me agradava. Evocava as lembranças do meu irmão faminto que havia sido o primeiro que eu vira nesse estado. David percebeu que esse não me animava e logo parou de chamar por ele. Embora mesmo com tantos comandos aprendidos, “Proteger” ainda causava no menino uma expressão de frustração.

Depois desse dia, voltávamos ao pasto para o que o Vô chamava de treinamento e que consistia em um dos vizinhos amigos se esconder na mata e pular de lá tentando me surpreender. Descobri que se não o perseguisse, ele pegava uma das ovelhas e corria para longe. Mas isso eu não podia permitir! Aquelas eram as ovelhas do meu menino. Foi então que entendi o que “Proteger” queria dizer, eu tinha que manter as ovelhas a salvo e impedir que alguém as pegasse. Dessa forma, passei a perseguir o vizinho, tratando de sempre devolver ao rebanho a ovelha que ele teimava em levar. Por essa ação, David corria ao meu encontro erguendo as mãos em uma brincadeira de pegar que eu adorava, e então eu sabia que tinha feito um bom trabalho.

- Quem é o bom garoto? É você, não é, Jake?

E eu latia em concordância.

***

No dia em que a garota entrou em nossas vidas, estávamos mais uma vez com as ovelhas, treinando o comando proteger. O homem que roubava as ovelhas e o Vô estavam ocupados, colhendo as abóboras maduras, de modo que David era quem tentava roubá-las. O que não estava dando muito certo segundo sua expressão.

— Não, Jake, pegue o ladrão e não o encha de baba! Cachorro boboca! – Ele brigava, tentando me tirar de cima de sua barriga onde eu pulei para lambê-lo mais uma vez. Porém sua risada me dizia que aquilo que falava não era sério, fato que me fez continuar com as lambidas. Ao menos até sentir o cheiro delicioso de biscoitos, exatamente como os que a Vó cozinhava e me passava pedacinhos por baixo da mesa sem que o Vô visse.

Saí de cima de David e corri pelo campo, me deixando levar pelo aroma. Pulei o cercado das ovelhas e caí em cima de uma garota que se aproximava. Ela gritou, surpresa, mas logo sua risada se tornou um riso de prazer, e eu lati ao sentir suas mãos acariciarem meus pelos. Virei a cabeça para a cesta que ela trazia, da qual vinha o cheiro delicioso, e deitei a cabeça em seu colo me perguntando se pegar um graveto seria o suficiente para que ela me desse um deles.

— Jake! Volte aqui, seu cachorro boboca! – Lati ao ouvir meu nome e me virei para David, que se aproximava correndo. Não me mexi de onde estava, afinal, a garota tinha biscoitos! E eu queria ganhá-los. — Oh, olá. Desculpe por isso, ele às vezes fica muito animado. – Ele me puxou para longe pela coleira e estendeu a mão para ela, que aceitou a ajuda oferecida.

— Não foi nada. – Ela riu. — Aposto que ele sentiu o cheiro dos biscoitos, não foi? – Ela pegou um da cesta e me mostrou. Não pude evitar o balançar da cauda. — Pode comer, Jake, é todo seu.

Agarrei o biscoito jogado no ar, e os dois riram com isso.

— Como sabe o nome dele?

— Ah, você gritou quando veio correndo. Além disso, meu pai tem ajudado com os treinos de proteger e me falou que ele era um cachorro muito bonzinho. – Lati para ela, animado. Eu estava começando a gostar bastante dessa garota. Ela me estendeu outro biscoito que eu aceitei com prazer.

— Ah, e isso tudo é para ele? – David coçou a cabeça envergonhado.

— Não, eu trouxe para os dois. Papai está ocupado com a colheita, e eu me ofereci para vir fazer companhia. A propósito, meu nome é Melie.

— David. – Ele aceitou um dos biscoitos da cesta que ela estendia, e eu acabei por pular em cima dele, o derrubei e roubei o biscoito antes que ele tivesse a chance de prová-lo. — Jake, volte já aqui!

Ele se levantou e correu atrás de mim, rindo e sendo seguido pela garota que, a partir desse dia, passou a ser uma companhia constante nossa.

***

— Vamos lá, Jake, precisamos aproveitar que eles saíram. – David coçou minhas orelhas e foi até o armário que o Vô mantinha trancado e o abriu com facilidade. Puxou de lá uma coisa metálica com um cheiro forte de queimado e se dirigiu ao quintal. O segui de perto enquanto ele enfileirava várias latinhas e garrafas e caminhava até uma boa distância.

— Você vai ouvir um estouro, mas não precisa ter medo, não vai te machucar. - Lati ao vê-lo se aprontar. — Bom garoto, Jake. Fica.

Obedeci ao comando e me sentei sobre as patas traseiras para observar. Ele ergueu o objeto de metal, e dele veio um barulho alto. Baixei a cabeça e cobri as orelhas com as patas, ganindo e incomodado. Quando ergui a cabeça, vi a fumaça que saía do objeto e, mais à frente, a forma derrubada da garrafa. Mais na frente eu viria a descobrir que aquilo se chamava arma e que o som que eu ouvi foi um tiro. David voltaria a pegá-la nos dias que o Vô e a Vó não se encontravam em casa, logo passei a não temer mais o barulho.

***

Embora meu menino fosse uma pessoa tranquila, havia um período em que sua expressão assustava até mesmo a mim. E esse período sempre antecedia o nascer da lua cheia e a época em que as abóboras cheiravam tão bem que só podiam estar maduras. Os adultos trabalhavam dia e noite para construir uma espécie de base onde enfileiravam várias das melhores abóboras, juntamente com uma das ovelhas amarradas de modo que esta não escapasse. Aquilo me fazia latir e tentar recuperar o animal levado, afinal proteger era a minha função.

Durante esses preparativos, David se trancava no quarto com os livros e, por vezes, permitia que Melie se juntasse a ele. Eles passavam horas discutindo e as vezes me jogavam pedacinhos de biscoitos, rindo ao me ver pegá-los em pleno ar.

— Entendo, então o deus-lobo também atacou o seu avô.

— David... – Melie entrelaçou os dedos nos dele, deixando de lado o carinho que fazia entre as minhas orelhas.

— Não é justo, Melie. Isso não é justo. Meus pais não deviam ter morrido, não devíamos ter que fazer sacrifícios tão grandes todos os anos. Eu vou mudar isso, você vai ver!

— E eu vou ajudá-lo. Prometo a você. Vamos conseguir juntos.

E com isso, ela jogava outro biscoito para mim, dessa vez bem longe, e tudo que eu podia ver ao olhar para trás era a junção dos rostos.

***

Os preparativos para que o que o Vô chamava de Halloween continuaram a ser feitos. Naquele dia, Melie permaneceu conosco, dando voltas ao redor de David como se tentasse convencê-lo de algo.

— David, não sei se isso ainda é uma boa ideia.

— O que você quer dizer? Não vai mais me ajudar? – Melie mordeu o lábio, e eu pude sentir sua tristeza.

— Eu não quero que você se machuque e isso está ficando perigoso demais.

— Então você não quer mais vingança pelo que aquela coisa fez com seu avô?

— Foi há muito tempo. – As mãos dela pararam de me acariciar e passaram a torcer a barra do vestido. - Eu andei pensando e talvez fosse melhor esquecermos tudo isso. Próximo ano você fará 18 e nós podemos sair daqui e ir vivem em qualquer outro lugar.

— Eu não posso esquecer simplesmente. Aquela coisa matou meus pais. Se não fosse por ela, eu... – Seu tom me deixou assustado, eu nunca o tinha ouvido falar assim. Melie parecia também ter percebido, então me abraçou, acariciando meu pelo, e lançou um olhar reprovador para David. Me soltei dos seus braços e caminhei até o meu menino. O cheiro era o mesmo com o qual eu estava acostumado, mas o toque foi mais hesitante. Quase como se ele estivesse à deriva, perdido. — Você está com medo. Não precisa vir comigo, eu dou conta sozinho – disse por fim.

— Ah, David – A garota sussurrou. — Não tem mesmo nada que eu possa fazer para te impedir? – Ela lhe lançou um último olhar, vendo a resolução em seus olhos, e saiu pela porta escondendo o rosto. Segui seus passos, mas parei quando a madeira bateu entre nós. Lati para o vazio, mas ela não se moveu e nem se abriu para mostrar Melie voltando e rindo com seus biscoitos. Voltei para junto do meu menino e ganhei um carinho na cabeça.

— Não se preocupe com ela, Jake. Você e eu somos uma bela dupla, não é? Quem é o bom menino? – Lati animado enquanto ele mexia as mãos e eu tentava abocanhá-las. Quando se cansou do jogo, permitiu que eu descesse de suas pernas e voltou a mexer na mochila, guardando um pesado livro antigo. — Hoje à noite nós dois acabaremos com aquele monstro.

***

O uivo que cortou a noite era tão cheio de ódio, que me fez colar as orelhas contra a cabeça e recuar para junto do meu menino. Ele, por outro lado, cerrou as mãos e ergueu a cabeça, o brilho determinado que eu via em seus olhos ao folhear os livros se fazia presente. David agarrou a mochila e a passou pelos ombros, pegou também a lanterna e a ligou.

— Vamos, Jake. Temos trabalho a fazer.

Animado ao vê-lo sair e chamar meu nome, o segui. Há dias que ele e Melie vinham trancados naquele quarto, e eu sentia falta das brincadeiras. Imaginei que fosse isso que ele queria dizer com trabalho e, mesmo desconfiado com o barulho estranho, fui atrás dele. A essa hora, eu podia ouvir os roncos suaves do Vô e da Vó no andar de cima. David foi até o armário que ainda era mantido trancado e pegou uma das armas e enfiou rapidamente na bolsa. Fechou o armário com cuidado e correu para a porta. Lati animado ao vê-lo abri-la, crente que estávamos prestes a brincar mais uma vez do jogo do graveto.

— Quieto, Jake. Seja um bom menino e fique em silêncio. – A coçadinha nas minhas orelhas foi rápida e insatisfatória. Mas eu queria que ele me dissesse que eu era um bom menino outra vez e por isso sentei, tentando não balançar a cauda enquanto o assistia destrancar a porta, seus olhos sempre correndo para o andar de cima onde o Vô e a Vó ainda dormiam. A última chave fez seu trabalho e a porta se abriu para a noite. A lua brilhava a pino no céu, e eu lati empolgado ao sentir o cheiro de grama fresca trazido pela brisa. Corri para fora enquanto ele ficava para trás e fechava a porta. As abóboras cortadas pela Vó como enfeites brilhavam com a luz da vela que fora posta em seu interior.

Aguardei que ele me alcançasse já com um gaveto entre os dentes e fiquei decepcionado ao vê-lo passar direto por mim sem ao menos tentar pegá-lo da minha posse. O segui pela grama alta e foi nesse momento, em que ele ligava sua lanterna, que eu ouvi um som rascante vindo do pasto das ovelhas. Minhas orelhas se ergueram e meu pelo se eriçou. “Proteger” disse a voz na minha cabeça.

Disparei para o local, latindo alto como alerta. Mesmo que fosse apenas o vizinho a se esconder mais uma vez, aquela era minha função, eu tinha que proteger as ovelhas. Desci a pequena encosta no momento em que a lua era encoberta por uma nuvem, pude ouvir a voz de David atrás de mim a me chamar, mas não lhe dei ouvidos. Afinal, foi ele quem me incumbiu da tarefa de proteger e era isso que eu estava fazendo agora.

A nuvem ajudou a me camuflar, pulei o cercado e caí sem fazer ruído na grama do pasto. Quanto mais eu me aproximava, mais a sensação de urgência que vinha sentindo desde o início da noite se intensificava. Cheguei a enorme macieira sob a qual as ovelhas costumavam dormir e as vi encolhidas juntas, emitindo sons assustados. Me voltei para ver o que tanto as amedrontava e qual seria a ameaça que eu teria que enfrentar para protegê-las.

A forma se ergueu e sua sombra se alongou conforme a lua saía de seu temporário esconderijo. Percebi de imediato que não se tratava do fazendeiro e muito menos de qualquer um amigo humano do Vô. Não. Aquela criatura alta e de pelos selvagens que mostrava as garras e presas afiadas não podia ser um humano. Baba escorria pelo canto da boca e os olhos tinham um brilho maldoso. Rosnei alto em aviso, determinado a cumprir meu trabalho e proteger as ovelhas. O barulho feito em troca pareceu fazer o chão tremer, e eu me agachei protetoramente em frente às ovelhas encolhidas, os dentes expostos.

— Jake! – Nessa hora, David me alcançou e recuou ao ver a figura que eu enfrentava. — Mas o quê...?

A coisa atirou a cabeça para trás e reproduziu o som que eu ouvi mais cedo, agora mais sedento do que antes. Suas garras pingavam o sumo e eu reconheci pelo cheiro serem as abóboras que o Vô e os demais fazendeiros haviam empilhado na estrada. Seus olhos brilharam e a cabeça se voltou para David ao ouvi-lo exclamar. Percebi as patas se retesarem e antevi o movimento em direção ao meu menino. O garoto tinha a mão enfiada na bolsa, procurando algo desesperadamente, mas sua atenção estava no lugar errado. A criatura se jogou em sua direção, as garras esticadas prontas para retalhar o que viesse pela frente. Comecei uma corrida e pulei entre a coisa e o menino, tentando, com meu tamanho e peso, empurrá-lo para longe. Mordi cada parte que meus dentes alcançavam enquanto ouvia os passos de David se afastarem.

— Jake! Vem garoto!

Ele corria para a estrada, onde as abóboras empilhadas estavam completamente destruídas. As garras desceram e o som rascante retornou. O golpe me atingiu antes que pudesse me afastar, e eu senti a ardência na lateral do corpo. Lutei contra a dor e segui o meu menino, que se encontrava agachado na estrada em meio aos restos das abóboras como se a procura de algo. Podia ouvir o barulho da fera nos seguindo e puxei a roupa de David com mais urgência, tentando puxá-lo para longe dali.

— Calma, Jake! Eu preciso achar... Ah, aqui está! – Em meio ao que havia sobrado das abóboras, ele puxou uma pequena estatueta de madeira com o mesmo formato da criatura que nos seguia. Era tarde demais para fugir. A garra cortou à sua frente, e eu me lancei para a fera para afastá-la de David enquanto criava uma chance para ele fugir. Mas não foi isso que aconteceu.

David puxou a arma que pegara do armário do Vô e disparou. O som não me incomodou, acostumado como estava em vê-lo treinar, porém não se podia dizer o mesmo da criatura. Seu uivo saiu mais alto e, se possível, ainda mais irritado. O local onde o tiro havia acertado vertia sangue negro, ensopando os pelos.

— David! – Lati ao ouvir a voz de Melie e, pelo som dos passos, eu podia dizer que ela não estava sozinha. Ela se abaixou ao lado do menino, ajudando-o a levantar.

— O que faz aqui? É perigoso!

— Logo você vem me dizer isso? Seu idiota! O que estava pensando? Lutar contra isso sozinho? – Ela apontava para a fera, que tinha os dentes e garras expostos, me interpus entre eles, latindo em aviso. Não permitiria que ela os machucassem. Mesmo que não fossem ovelhas, ainda era o meu dever proteger o menino e, agora, Melie também.

— O que você fez?

— Chamei ajuda, claro. – E com isso, os passos enfim nos alcançaram e as vozes se ergueram.

— Ei, deus-lobo estúpido, afaste-se deles!

Mais tiros foram disparados e a criatura rugiu em fúria. Uma de suas garras se voltou contra mim e me acertou.

— Jake! – David correu para onde eu havia caído e me puxou para o seu colo. — Vai ficar tudo bem, Jake. Você lutou muito bem. Melie, me ajude! – Ela se aproximou, rasgando tiras do vestido e prendendo ao redor da minha pata, que doía absurdamente. — Tenho que terminar o ritual, ou o deus-lobo nunca irá embora. Fique com o Jake, não deixe ele sair daqui!

Com isso, ele correu de volta para a confusão onde a fera segurava um dos fazendeiros pelo pescoço, as garras cortando a pele e o sangue escorrendo e pingando no chão. David se jogou e passou por baixo do monstro, mergulhando a estatueta no sumo das abóboras destruídas e puxando uma caixa de fósforos da bolsa.

— Isso acaba agora, monstro. Vai pagar por ter matado os meus pais.

Dizendo isso, riscou o fósforo e o jogou na base de madeira, que rugiu ao pegar fogo. As chamas tremularam, ameaçando avançar, mas David não se moveu. Deu as costas para a fera e começou a cantar

— A proteção a ti pedida, agora já não é necessária...

O fogo chamou a atenção da criatura, que largou o fazendeiro, agora morto, e avançou para o menino. Me remexi nos braços de Melie.

— Os frutos nascidos da terra por tua benção agora já não mais crescerão aqui...

Os olhos de David estavam fechados, ele não via a fera se aproximar com a sede de sangue gritando nos olhos. Meu menino estava em perigo e mesmo assim a garota não me deixava ir.

— Os sacrifícios a ti dedicados, a partir de agora estão encerrados...

Mordi o braço de Melie sem muita força ela me soltou, surpresa pela minha ação. Corri para o meu menino, ignorando a dor na pata que pulsava a cada passo. Naquela hora agradeci por ter nascido com patas compridas e por ser veloz em corridas.

— A tua presença nesta terra não será mais tolerada...

Saltei sobre David, empurrando-o para fora do caminho, e fui apanhado pelas garras do monstro em seu lugar.

— Deus-lobo protetor, sua presença está exilada!

Um raio desceu do céu e acertou a fera, e, apesar de estar preso em suas garras, não senti o choque, apenas o tremular dos seus músculos com a potência que o raio possuía. O corpo se iluminou por um instante e se desfez em fumaça. A noite se tornou silenciosa, cortada apenas pelo ofegar dos presentes, pelo crepitar da madeira que queimava e pelos meus latidos. Aos poucos, o choque se dissipou, e David se ergueu com dificuldade, vindo até mim e me abraçando com força. Gani de dor ao senti-lo encostar na minha pata. Os cortes causados pelas garras sangravam e eu sentia meu corpo fraco. As patas já não sustentavam o meu peso e eu desabei no colo do meu menino. Melie se aproximou, soluços saíam de sua boca e ela me apertou junto a David.

— Você vai ficar bem, Jake. É o meu bom garoto.

Lati uma última vez e lambi seu rosto, livrando-o da água salgada que escorria por suas bochechas. Meus olhos se fecharam e eu o senti deitar a cabeça contra o meu pelo.

— Você vai ficar bem, eu prometo... – ele repetia.

E porque aquele era o meu menino, eu acreditei.

***

— Isso aconteceu de verdade, papai? – A linda garotinha de cabelos loiros presos em tranças perguntou, os olhos arregalados. O pai se voltou para a esposa e eles trocaram um sorriso.

— Sim, querida. Aconteceu mesmo. Depois disso, a terra nunca mais deu abóboras, mas se tornou possível plantar outros tipos de alimentos. O festival para homenagear o deus-lobo se tornou uma feira em homenagem a bravo cachorro que lutou contra a fera.

— Mas o que aconteceu com ele? – A mãe segurou a mão da garotinha e a guiou pela multidão que seguia em direção ao centro da praça.

— Ele viveu por muitos anos ainda. E embora tenha perdido uma pata durante a luta, isso nunca o impediu de cuidar do seu menino.

— Incrível! Que cachorrinho mais valente! – O homem riu, bagunçando o cabelo da filha com os dedos.

— Você tem razão, ele era muito valente.

— Veja, mamãe! A estátua do Jake! Podemos ir até lá?

— Sim, meu amor, é para lá que estamos indo. – A garotinha se mexeu nos braços da mãe e logo foi posta no chão, correndo em direção à estátua e parando para observá-la de boca aberta. — Diga olá para o Jake, querida. – Ela piscou, repentinamente envergonhada, mas não demorou em abrir um largo sorriso.

— Oi, Jake. – Seus dedinhos tocaram a única pata dianteira na base da estátua. – Meu papai disse que você foi um cachorro muito valente e expulsou o deus-lobo da vila. Então, muito obrigada! Eu gosto muito de você! – E abraçou a estátua sentindo o metal frio contra a pele.

— Venha, Jackie, vamos procurar um presente para colocar na estátua. – A garotinha sorriu e seguiu a mãe, que se demorou um instante para lançar um olhar ao marido que lhe dizia ser sua vez.

— Você sempre sabe o que fazer, Melie. – Ele sorriu e se aproximou a passos lentos. — Já faz muito tempo, velho amigo. Vejo que continua um cachorro muito bonzinho e vem ganhando muitos biscoitos também. – O homem riu, observando os presentes deixados aos pés da estátua. — Quero que saiba que eu nunca o esqueci, mesmo fazendo 25 anos desde o dia que nos vimos pela última vez. – As lembranças do consultório e das últimas lambidas que ganhou no rosto o invadiram, trazendo lágrimas aos seus olhos. —. Foi por sua causa que eu pude suportar a morte dos meus pais tão cedo. Sei que tinha olhos solitários na época, como você, meu amigo, mas agora já não estou mais sozinho. Devo a você a vida e a família que tenho hoje. – Pigarreou para limpar a voz, que teimava em ficar presa na garganta, e ergueu os olhos, fitando os orbes metálicos da estátua como se fossem reais e ouvindo o latido ecoar em seus ouvidos. — E eu não sei se disse o suficiente, mas você sempre será o meu bom garoto.

— Papai! Papai! – A garotinha voltou correndo, as mãos segurando com firmeza várias flores coloridas e perfumadas. — A mamãe e eu pegamos flores para o Jake. Acha que ele vai gostar?

— Vai, sim, querida. Ele adora cheirar as flores e perseguir borboletas.

Enquanto a garotinha arrumava as flores ao lado dos biscoitos, o casal deu as mãos e juntos observaram a estátua, vendo muito além dela. O céu de fim da tarde refletia um tempo regado de brincadeiras e risadas ao qual eles eram muito gratos, mas que agora já não mais voltaria.

29 de Outubro de 2018 às 16:37 21 Denunciar Insira 15
Fim

Conheça o autor

Nathy Maki Leitora voraz desde que tenho idade para segurar um livro em mãos. Sagitariana e um poço de emoção e muuita indecisão. Amo um clichê bem escrito e um suspense que te prende, mas fantasias e ligações são especialidade. Sou fã daqueles finais inusitados. Até mesmo os tristes! Lema: Colecionar sonhos, ideias e magia e depois transformá-los em palavras é o que torna bela a vida.

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá! Conta pra gente como foi participar desse Hallowink! Estamos aqui com lágrimas nos olhos, muito emocionados com essa história de cortar o coração. É um misto de tristeza e felicidade e não conseguimos definir qual domina mais. A sua escrita foi maravilhosa e o uso da imagem não poderia ter sido melhor. Você foi exatamente no ponto pedido: deu uma história para a imagem designada e fez isso com grande destreza e habilidade. Uma história linda e comovente, que nos leva a uma imersão total na narrativa. Uma leitura tão leve que quando nos damos conta, já chegamos ao fim. Em quesito ortografia foi okay. Parabéns pela história!
27 de Dezembro de 2018 às 18:54
Saah AG Saah AG
Miga, acho q vc andou assistindo mta hora de aventura pra colocar o nome do doguinho de Jake kkk Vei, quase chorei (pq no dia q vc me mandou o rascunho eu tava na aula) com o começo em que o doguinho sofria e perdia toda a família dele. Fiquei pensando no Drauzinho da mamãe e em todos os meus bichinhos resgatados :c Que doguinho mais fiel 😢 sempre que ele dizia "meu garoto" eu ficava aaaaaaaaaa eu quero esse DOGUINHOOOO, TÃO LINDO PROTEGENDO AS OVELINHAAAAS. Eu jurava que vc ia matar o dog, mas ainda bem q n. Olha, as minhas impressões iniciais era de que, sei la, o David fosse o próprio monstrengo e n soubesse (tipo maldição de família) daí depois q essa minha teoria furou, criei outra e fiquei pensando "MEU DEUS, E SE O JAKE VIRAR LOBISOMEM? PODE ISSO, PRODUÇÃO????". Nossa, que aflição vc me fez passar com essa obra. Eu adorei essa, vei. Ta entre as minhas favoritas, agora u.u E vc virou uma máquina esse mês. Fez uma belezura dessas e ainda fez um crossover de Sherlock com Sobrenatural. Bicha, a senhora é destruidora mesmo. Só meus elogios a vc ♡ parabéns pelo trabalho lacrador.
12 de Novembro de 2018 às 19:44

  • Nathy Maki Nathy Maki
    Miiiigaaaaa eu juro que nem reparei! Foi totalmente inconsciente! Quem nem a referência do final com a estátua do Balto! EU amava esse filme e nem reparei - se não fosse o comentário lá embaixo - que acabou igual! Ai ai ai, falar dos seus bichinhos doeu, os olhos chega encheram de lágrimas de novo T.T Eu ainda tinha coração! Não ia matar o doguinho assim - sem falar nas ameaças de morte caso eu fizesse isso cof cof - Tu também pensou isso?! Dava uma ideia do caramba, mas nem me passou pelo sentido! AAA mas vou escrever algo com isso ainda, só me aguarde! kkkkkk máquina nada, as provas atrapalharam tudo! huehehhe Em vez de ogarem mísseis nos países, basta me chamar pra destruir tudo só com palavras então :v Mas a senhora não fica pra trás, né mocinhas? :3 Um bio e obrigada por aumentar minha autoestima! Te amo <3 15 de Novembro de 2018 às 11:57
Sparkoll M Sparkoll M
O enredo é mto envolvente, os pontos de vista bem colocados, como tudo se desenvolve, tudo combina perfeitamente ❤️❤️ É muito bom, e vc tem mto talento, parabéns ❤️
12 de Novembro de 2018 às 18:39

  • Nathy Maki Nathy Maki
    Oláaa! Muito obrigada por ter lido e por esse comentário super amoroso! Me faz muito feliz que tenha gostado e os sentimentos tenham sido passados! Obrigada de novo e um beijo <3 15 de Novembro de 2018 às 11:30
Zen Jacob Zen Jacob
Gostei da forma como você desenvolveu a história a partir do ponto de vista do Jake, mas não se focou apenas na vida do David. Apesar de o garoto ter tanta importância para o cachorro na história, foi legal ter visto o começo dele com a família original e como lidava com a convivência com os humanos. Também foi interessante ver como você tratou os sentidos do cachorro e procurou retratar isso da forma mais fiel possível, tipo não usar cores para descrever as coisas, já que cães não enxergam colorido. O único momento que ele usa uma cor para descrever algo foi quando o deus-lobo é atingido e começa a sangrar, e mesmo assim foi a cor preta, o que não prejudica essa lógica que você criou na narrativa. (Não era pra escrever tanto sobre isso, mas eu realmente gostei disso na história :v) Gostei do detalhe de o deus-lobo comer abóboras, achei bem original, tanto por remeter a simbologia do Halloween quanto por escapar daquele lugar-comum de "sacrifício de sangue" que o pessoal costuma usar à exaustão. No final o Jake ser homenageado com uma estátua por ter defendido as pessoas me pareceu muito justo, já que foi basicamente ele quem fez o trabalho duro enquanto o pessoal só ficou olhando o bicho se desfazer no ar. :v Parabéns pela história, gostaria de poder ver outras como essa do ponto de vista de outros animais, acho que você trabalharia muito bem essa temática, já que é tão cuidadosa com os detalhes. =)
12 de Novembro de 2018 às 17:58

  • Nathy Maki Nathy Maki
    Olá! Minha nossa, dois deuses da escrita que eu super admiro comentaram aqui! Eu vou ficar um nojo por semanas :3 Eu tentei manter o mais próximo possível do que imaginei ser a vida de um cachorro e tudo sempre começa com a família, logo é usto mostrar esse contato inicial, é como nós aprendemos com o mundo e a conviver nele. As cores foram um desafio - ainda escorreguei nesse negro, escapuliu kkkkk - principalmente porque eu amo cenário bem descritos e cores exuberantes, tive que ficar me policiando o tempo toda com uma notinha de "Não escreva cores!" Tirei o lobisomem de uma lenda que li nas pesquisas sobre haloween sobre deuses da fertilidade e casei isso com a imagem, que bom que funcionou :3 Tem mesmo que homenagear o doguinho! Ele perdeu uma pata lutando! Muito obrigada pelo comentário, eu tive um sorto grande felicidade ao ler! Pode apostar que vão haver outras, espero te ver por lá! Um beijo e um abraço <3 15 de Novembro de 2018 às 12:16
Ellie Blue Ellie Blue
Eu to rindo, to chorando, to achando fofo, to tudo. Que mistura de sentimentos, hein, Nathy? Sua escrita tá a coisa mais linda, como sempre. E DE ONDE TU TIRA ESSES ENREDOS LINDOS E MARAVILHOSOS QUE EU AMO TANTO? Guria, tu só me mata com essas histórias. Jake a coisa mais linda que existe, gsas. aaaaaH
10 de Novembro de 2018 às 17:28

  • Nathy Maki Nathy Maki
    AAAA OLÁ! Olha que lindeza de comentário! *atack de fofura* Adoooro fazer uma bagunça nos sentimentos do leitor *muahahahah* mas com esses elogios cê me deixa rosa de vergonha! Muito obrigada <3 E os enredos vem de muita viagem na maionese misturada com leitura e sonhos malucos kkkkk recomendo :3 Mas num morre não! Tem muito mais vindo por aí! Jake muito amorzinho <3 Muito obrigada mesmo pelo carinho e um beijão <3 15 de Novembro de 2018 às 11:38
Nathalia Souza Nathalia Souza
Não sei se choro, se rio, se te mando um abraço virtual, acho que vou fazer tudo ao mesmo tempo! Que escrita, que lindo! Emocionante de um jeitinho especial, daquele jeito que a gente gosta. Parabéns pelo ótimo conto! Beijos!
3 de Novembro de 2018 às 09:16

  • Nathy Maki Nathy Maki
    Oláa! Ownt que amor! Pode vir que eu aceito tudo: o riso, as lágrimas e principalmente os abraços! Devolvo tudo com muito amor! Muito obrigada pelos elogios! Me deixa nas nuvens saber que a escrita agradou! Um beijo e um abraço apertado - mesmo que virtual - e te vejo por aí <3 15 de Novembro de 2018 às 11:32
Di Angelo Di Angelo
Uma estória linda e cativante do começo ao fim e com um final de destruir corações.
3 de Novembro de 2018 às 07:00

  • Nathy Maki Nathy Maki
    Uau muito feliz que tenha passado tanto sentimento e perdão por destruir o coração! Garanto que o meu foi junto T.T E aaaaaa muitíssimo obrigada pelo review! Eu saí dançando pela casa de alegria quando vi! Um beijo muito especial e obrigada de novo <3 15 de Novembro de 2018 às 11:28
Vany-chan 734 Vany-chan 734
AI QUE DESGRAÇA EU TO CHORANDO! Pode morrer todo mundo que eu não ligo, MAS NAO MATA O DOGUINHO. QUE INJUSTO, ESTOU SAD
2 de Novembro de 2018 às 15:16

  • Nathy Maki Nathy Maki
    AAAAa eu to sofrendo por isso tambem! Em todo canto que eu entro, tá cheio de fotos de cachorrinhos pra pesar minha consciência T.T Foi a primeira história na vida que eu chorei escrevendo, então perdão pelas lágrimas! Mas obrigado pelo comentário <3 15 de Novembro de 2018 às 11:21
Ayzu Saki Ayzu Saki
QUE ESTÓRIA INCRÍVEL. Eu adorei que escreveu sob o ponto de vista dele, adoro estórias assim. E você passou tão bem os sentimentos dele, os instintos, que não consegui parar de ler. E o enredo? Gostei demais, e com certeza vou recomentar <3 <3
2 de Novembro de 2018 às 14:25

  • Nathy Maki Nathy Maki
    AAAAA Eu tive um surto enorme quando li esse comentário! Aquele momento que a deusa visita suas histórias e você não sabe como reagir. Muito obrigada pelo review, foi um dos primeiros que ganhei aqui no site! E fico muito feliz que tenha gostado e eu tenha acertado os instintos, tive que dar uma pesquisada :3 Obrigada <3 15 de Novembro de 2018 às 11:20
Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
Eu achei peculiar você descrever a história do ponto de vista do Jake que é um cachorro. Curioso e audacioso! É complicado pensar e refletir como os animais; eles são mais instintivos, eles veem as coisas de maneira mais crua, reagem de forma diferente. Mas eu achei muito bom, isso foge à perspectiva corriqueira. Eu acho que faltei com empatia, talvez por ser mais uma cat person, mas todos os sentimentos foram muito bem colocados do Jake para com o David. Eu só senti que, talvez, algumas descrições que eram mais precisas (como o Jake saber o que era um "humano" já tão novo) ficaram meio... fora? Digo, eu esperava que ele levasse um tempo para entender o que era o quê. Mas nada que comprometa de fato a história, somente um gosto particular meu nesse sentido. Gostei bastante do ritual para afastar a fera e jurei, por um momento, que ela era um cachorro que anteriormente tentou proteger seu dono e foi amaldiçoado - e que o Jake se tornaria o próximo deus-lobo. Mas não foi isso. Não estou decepcionada, achei que ficou muito bom. O final me lembrou demais do filme Balto (é uma animação muito boa e eu amo muito ela). Foi uma excelente história, cativante e interessante. Parabéns por toda a construção! Foi fenomenal!
1 de Novembro de 2018 às 00:36

  • Nathy Maki Nathy Maki
    Olá! Uau olha o tamanho desse comentário! A culpa dessa história foi um livro que eu estava lendo com essa narração e quando peguei a imagem era tudo que eu conseguia pensar; escrever pelo ponto de vista dele. E realmente foi difícil, porque eles não eram humanos e eu tinha que ter cuidado pra não exagerar nos sentimentos, no entendimento e nao colorir nada; foi uma barra, porque isso é o que eu mais gosto de fazer kkkk E parece que ainda escorreguei em umas partes. Noosssa, eu nem mesmo cheguei a pensar nisso! Nunca me passou pela cabeça que a fera poderia ser um cachorro, acho que porque criei ela com base umas tradições antigas que li sobre os deuses que abençoam as plantações. E sim! Eu sabia que esse final tinha vindo de algum lugar bem esquecido na minha mente, e agora eu sei! Foi do Balto! Eu amo muito eses filme! Muito obrigado por ter lido e por esse comentário maravilhoso que me ajuda a crescer demais! Um beijo <3 15 de Novembro de 2018 às 11:26
Karimy Karimy
A história está muito boa. Desde o comecinho dá para perceber o laço de lealdade entre Jake e David e acredito que isso tenha se intensificado por conta das memórias da mãe e irmãos do cachorro. Foi bem interessante a forma como o conflito foi se revelando, mostrado através de conversas que o Jake ouvia até se solidificar e se tornar essa batalha. O final também ficou muito bem-feito, mostrar o que aconteceu depois de tudo só acrescentou ao enredo.
31 de Outubro de 2018 às 19:22

  • Nathy Maki Nathy Maki
    Olá! Primeiro muito obrigada por ter revisado o texto! Mesmo, cê foi uma salvadora <3 Fico muito feliz que tenha fica bom, depois de ler vários livros de cachorrinhos e me acabar de chorar, e tentar fazer algo que ficasse tão bom quanto. Muito obrigada pelo carinhos! Beijos <3 15 de Novembro de 2018 às 11:16
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