O pica-pau Seguir história

bruno-kajiwara1529813209 Bruno Kajiwara

"Pra fora, é bom dizer, só muita árvore, quase de quantidade quase de gente. É cão pra todo lado no longe, bem de longe mesmo, em que tudo parecido com tudo é, como escreveu uma minha amiga de sabência."


Conto Todo o público.

#conto
Conto
0
4479 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

O pica-pau

Passemos ao ponto de estória, que as ventas já me estão de mais pra acesas que um próprio sol. Vamos ao meu lugar, de onde bate primeiro o meu peito, toda a manhã nascente, e cresce o cabelo do cão cachorro, bonito velho cão, dentro das paredes altas quartando o espaço em dimensões de dança: é o Alface, meu cão cachorro. E depois duns campos, descritos no de trás duns muros, o bairro estúpido de gente quebra o céu e há, por muito, num queixo de antiquado bosque, de já virar chão, e chamar Vista Verde, esses paranhos sem final, que é só salto, e estamos pra fora. É dum caso, pra frente, que quero contar algos.

Aí, chegamos, por bonde ou pretensão, no destinho de partida. Em depois, devo dizer, não existe nada. Levantei. A nuca da frente da cabeça abre, por sempre, forte despertada, de vidros olhos de espírito. Deitei olho no quarto branco, cruzei pro vaso de mijo, a volta, na sala ampla, cruzamento: porta afora. Alface já na manhãzinha, comendo o sol com os cabelos de beagle, e o calor. Por vez, penso, é que a consciência boa é como a de Alface, por sobre o quintal, de sair por aí quando quiser - que ele sai total, e anda nos portões do bairro, que são o vale todo, só de espreita nos cantos de mijo, numa presentação sobranceira de todos os valores de cão cachorro, que existem e desmontam, só pra um foco qual de ser o Alface. Alface é pra ter no fundo do vale, como o vale fundo dum saco de recheio ardente de esfregar nos braços, na cara, e gritar estouros pra ruela, endiabrar. Ele, já presenciei, tira onda, os cães imbecis cachorros partem a latir, pras grades, portões pintados de fraqueza. Alface dança como o Alface.

Pra fora, é bom dizer, só muita árvore, quase de quantidade quase de gente. É cão pra todo lado no longe, bem de longe mesmo, em que tudo parecido com tudo é, como escreveu uma minha amiga de sabência.

Depois da rua esticada, parecida, quase prima de rio, é depois que tem os cadês da estória, porque aqui, por mais sol que rache umas cabeças e rabos, nada devia de acontecer. Mas por tanto, por mal é que viemos de em toas? Nananinanão, jeito nenhum: é pra cá os começos: comecemos, de depois da rua esticada, que deu um pica-pau insinuado, dentro do pau meio morto das muitas vistas verdes que aqui rola, em sobre uma praçaca. Estava eu comigo, com fogo nas canelas, quando parei no pensamento de ser um pica-pau dentro da morte do pau-picado, no buraco dondo e entrável, bem pica-pau mesmo, como são os filhotes de todos os existidos. Mas. Depois. Quis eu mesmo entrar de vontade em toda, só eu e só ele, naquele pau morto de arvore, que tava alto muito, alto todo. E entrei, no pensar em entrar, que eu nunca que jamais eu podia entrar naquele entrável em corpo; cheio assim, não podia. Dos repentes, veio uma noite que só podia ter sido mesmo desplanejada, asna, sentida, pois que, num arquitetar de planos, pra ser aquele dentro do pau morto, fiquei um dia inteiro, nem sentei, só ali, no pensamento bom e, por vez, na dança silenciosa de quem visse o meu corpo, sem a minha música tocando nos buracos naturais de suas cabeças.

Fogo! Que tinha no pau e no filhote ave, de depois da escuridão, mas, como a noite noiteceu, e eu não tive percebência, era um fogo real de chamas, que surgiu, e gritos de caralho, no meio daquela noite de inventos! Era pra ter uma força acesa, mas que veio outros acendimentos, e o pau morto, por sobre a praça, imitava umas formas daquele pica-pau de cuca vermelha. Era um feio pra população que deu pra ver o encenado. Teve até uma senhora, moradora, na persignância, até em exausta, vista da janela alta, casa alta, que meava ares com a pracinha do Vista Verde.

Poxa, desasnei, sem pânico, e atasquei aquele pau já meio no carvão, fui, e peguei o bicho pela asa do rabo, num arremesso muito, que deu no primeiro voo da criança. Depois, nem tempou de me tostar, vieram umas gritarias, carro de autoridades, merda que desenrola, e fiquei preso, num banco de plástico da traseira. Danei, me levaram, e era um de pensar que, só agora, no passeio forçado, surgiu: o pica-pau tinha dado espaço e desculpa feita bem feita, pra eu subir por lá, na árvore.

27 de Outubro de 2018 às 18:47 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~