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Até o fim dos tempos...

Notas iniciais: Olá pessoas do outro lado da telinha! Quem foi a criatura que matou 2 desafios com uma história só? Isso mesmo, fui eu! Hueheheh Ainda não acredito que isso deu certo!

* Baseada na música End of time da Beyoncé (https://www.youtube.com/watch?v=OJBfv9CHlcw) * Participando do Desafio Kayler Fanfics (link do grupo: https://www.facebook.com/groups/841537875996273/) * Blog que dará o prêmio: (http://insideeditions-ie.blogspot.com) * Música pertencente ao conjunto 21. *Participando do Desafio Queenbee da maravilhosa Celi Luna <3

***___***

E lá estava Ochako mais uma vez, envolvendo o corpo forte dele em seus braços e sentindo o cheiro doce que sua pele exalava. O calor trocado entre os corpos a fazia tremer, agora se a causa eram seus sentimentos que ameaçavam explodir ou os soluços que rasgavam o peito dele, não sabia. Acariciou os cabelos verdes cheios e o apertou mais contra si. Ele fungou e tentou reclamar, mas ela sabia que o fazia por obrigação, por se importar e achar que estava incomodando-a com seus problemas. Não entrava em sua cabeça que apoiá-lo era um papel que ela desejava, que segurar sua mão e impedi-lo de desabar fosse algo com o qual ela sonhava. Amava-o. Apenas isso. E amaria até o fim dos tempos. A voz rouca desculpava-se pelas manchas molhadas que suas lágrimas deixavam na camiseta azul que usava, mas ela não ligava. Não quando tinha Deku em seus braços com um olhar tão destruído quanto o que ele ostentava agora.

― Shhhh... – sussurrou. ― Está tudo bem. Tudo bem. Apenas ponha para fora e chore o quanto precisar.

Os lábios tremeram enquanto ele lhe sussurrava palavras de agradecimentos. As lágrimas escorriam pelas bochechas, deixando rastros nas sardas que ela tanto amava. Ela queria beijá-las, uma por uma, todas as noites, e ouvir o som delicioso da risada tímida que ele daria até adormecer. Mas o primeiro passo era o mais difícil.

Sabia o que ele fazia ali. Não acompanhara de perto as notícias – passara a última semana em uma missão diferente do outro lado do país – mas o falatório sobre a explosão do metrô causada por vilões se espalhara rapidamente entre os cidadãos. Midoriya havia estado presente. O pânico gerado e o número de vítimas havia sido um choque a todos que acreditavam nessa sociedade de heróis e em como o número de feridos diminuía gradativamente com suas ações. Agora, havia medo, insegurança e desconfiança. Se os heróis não mantinham as pessoas a salvo, para que existiam?

Agora, após a escola, ambos atuavam como profissionais e escalavam os degraus em seu caminho para o topo. Mas, ver aquilo, pessoas se machucando longe do alcance de suas mãos sempre lhe cortava o coração. E, nesses dias, quase que sem pensar, os pés dele encontravam o caminho para a casa de Uraraka e ele terminava a noite no conforto de seus braços onde não precisava temer que as lágrimas o tornassem mais fraco. Ela era seu porto seguro, sempre firme e com a mão pronta para erguê-lo até a superfície. Um soluço cortou o ar.

― Todas aquelas pessoas... eu não pude fazer nada... – Ele se lamentava, os olhos cerrados fitando a cicatriz em sua mão direita. ― De que adianta ter o poder se não pude salvar ninguém? – O coração de Uraraka pesava. Não foi sua culpa! Queria gritar. Você fez tudo que podia. Mas sabia ser inútil. Enquanto houvesse alguém a ser salvo, Deku prometera estar ali para fazê-lo. E agora, essa promessa fora quebrada.

Sabia o quanto ele se esforçara para conter as lágrimas. Chorão como era no início, agora conseguia manter a expressão sob controle durante alguns momentos. E, quando isso acontecia, Ochako sabia que o veria em seu quarto horas mais tarde. Quando todos estivessem dormindo, quando não houvessem mais olhares julgadores, quando a dor no peito ficasse tão forte que ele não mais conseguiria aguentar. E correria para os seus braços.

― Eu não mereço uma amiga como você. – A voz rouca pelo choro sempre lhe dizia. E ela negava com veemência, sem deixar ele perceber o quanto aquelas palavras acabavam com si, o quanto elas prensavam seu coração espremendo-o em um órgão sem esperança. Amiga. Até mesmo a palavra tinha um gosto amargo em seus lábios.

Guardara seus sentimentos por tempo demais, silenciando-os em seu peito, prometendo a si mesma mantê-los sob controle até que seus objetivos fossem cumpridos e sua força houvesse se desenvolvido. Acontecera. E agora, mesmo agora, ela continuava a afogá-los dentro de si. Como poderia sequer mencionar o assunto quando era o único conforto que ele tinha, a única em quem confiava para ver suas lágrimas e seu momento de fragilidade? Não. Não poderia fazer isso com ele, mesmo que significasse mais angústia em seu peito, um peso a mais em seu coração. Aguentaria.

― Não seja bobo. – Os dedos correram pelos cabelos macios em uma carícia involuntária. ― Eu prometi que sempre estaria lá para você. – As mãos se moveram para as bochechas, limpando as lágrimas que por ali escorriam. ― Vai ficar tudo bem. Sabe por quê?

― Por que eu estou aqui. – Ele completou, um início de sorriso surgindo no rosto.

― Exatamente. Agora enxugue essas lágrimas e coloque um sorriso no rosto porque amanhã você irá fazer todo o possível para lidar com essa situação. – Hesitou quando o viu se levantar. – E, Deku? Não precisa fazer tudo sozinho.

― Eu sei. – Os olhos verdes derreteram, como se as cores da floresta ali se condensassem. Ela não enxergava naquele olhar toda a gratidão, admiração e carinho que ele tinha por si. Não sabia os sentimentos dele tanto quanto ele não conhecia os seus. Mas uma coisa era certa: ― Eu tenho você ao meu lado afinal. – Ela assentiu e observou enquanto ele se dirigia ao banheiro para lavar o rosto e as provas daquela noite de fraqueza. ― Tudo bem se eu dormir aqui com você hoje?

― Claro. – Tentou, mas não pôde evitar que a cor lhe subisse as bochechas. Cor essa que também se espalhava no rosto dele. Achava uma graça aquela inocência que ele ainda conservava. Se ele soubesse as coisas que sonhava em fazer consigo, era capaz de ter um derrame. Deitou-se na cama e se apertou no canto junto à parede. ― Venha logo, já está tarde e nós dois temos trabalho pela manhã. – Não se passaram muitos segundos até que ela sentisse o calor do corpo dele tocar o seu.

Curvou mais a cabeça contra o peito e o sentiu se aproximar como se necessitasse do calor reconfortante que ela fornecia, as costas se tocando, os pés entrelaçados e as respirações tranquilas não denunciavam o rubor das faces. Aos poucos este foi se desvanecendo e a situação se tornou pacata. Tudo parecia estar em seu devido lugar, os corpos encaixados como peças de quebra-cabeça. Então, embalados pelo suave som de suas respirações, eles dormiram.

***

Uraraka tentava controlar o medo que lhe assolava. Seu comunicador apitara, avisando-a da chegada de uma mensagem, uma que trazia apenas a localização de Deku. Sabia muito bem o que aquilo queria dizer, era um pedido de socorro. Após repassar as coordenadas para os heróis profissionais mais próximos, largou todo o trabalho que tinha na agência e correu para encontrá-lo. Usava sua individualidade para flutuar de prédio em prédio, saltando de um para o outro e assim evitando o trânsito que se acumulava nas ruas abaixo. O fluxo caótico lhe fazia ter a certeza de que algum incidente havia acontecido, isso e a coluna de fumaça que se estendia no horizonte. Apressou o passo e agradeceu pelo desing aerodinâmico de seu uniforme que lhe permitia maior flexibilidade nos movimentos e um impacto mais suave contra o solo.

Chegou ao local, ofegante, mas com o enjoo ainda sob controle, e se escondeu em um canto para observar a situação. O incêndio no prédio à direita parecia controlado e o rombo na parede a fez deduzir que a fuga teria ocorrido por lá, levando a luta para o beco adjacente. Haviam dois vilões de estaturas diferentes. O mais baixo era franzino e parecia ter algum tique nervoso que o compelia a esfregar as mãos continuamente, a expressão era de concentração e os longos cabelos negros caiam soltos as costas. O mais alto era careca, tinha uma estatura forte, pele azulada e uma boca desproporcional ao corpo. Sua língua de cor roxa, duas ou três vezes maior que o normal, se encontrava para fora e prendia uma garotinha, pingando continuamente um líquido incolor que ela não se arriscava em definir.

Deku se encontrava a frente de ambos, bloqueando o acesso dos dois à rua principal onde as demais pessoas fugiam da luta seguindo os profissionais que organizavam a evacuação. Tinha o punho cerrado, o poder trespassando todo o seu corpo enquanto os olhos se mantinham fixos na garotinha que chorava.

― Vai ficar tudo bem. – Ele disse, mantendo a voz tranquilizadora. A garotinha retribuiu o olhar por entre as lágrimas com tanta confiança que Ochako sentiu a garganta apertar com o súbito medo de algo dar errado.

― Saia da frente, projeto de herói, não vai querer levar um choque, não é? – Só então Uraraka percebeu que a fricção das mãos do mais baixo tinha o intuito de gerar fagulhas que, aos poucos, percorriam todo o seu corpo.

Midoriya não obedeceu, como sabia que ele faria. Ela se preparou para entrar na situação o mais silenciosamente possível, mas então reparou na mão que o Izuku mexia as costas, longe da vista dos vilões, os gestos familiares que todos da classe haviam treinado juntos. “Dê a volta por cima. ” A mensagem dizia. Então ele a havia percebido ali e montara um plano de ação no qual ela participava. Não esperava menos dele.

― Soltem essa garotinha agora! – Ele gritou atraindo a atenção dos vilões toda para si e dando margem para Ochako se içar até o topo do prédio e de lá observar o criminoso envolto em faíscas avançar para o ataque. Focou sua mente em resgatar a garota, confiando que Deku ficaria bem. Prendeu a respiração e, tão leve quanto o ar, pulou da borda, caindo as costas do vilão maior que demorou um segundo a mais para percebê-la ali. Tempo suficiente para que ela tocasse a língua que servia de prisão e esta se desenroscasse da garota, puxando o corpo ao qual pertencia para o ar, tal qual um balão de hélio.

Uraraka saltou e segurou a garotinha nos braços antes que ela atingisse o chão.

― Você vai ficar bem agora – Assegurou. Afastou-se com ela agarrada ao seu corpo e liberou a individualidade antes que ficasse enjoada demais para prosseguir. Deku a viu correndo e pulou sobre o vilão que enfrentava, desferindo um poderoso chute que gerou uma forte onda de ar, atirando o vilão das faíscas contra o outro que havia caído e tentava desenroscar a língua embolada. Recebeu um sorriso e um sentimento bom a preencheu. Haviam conseguido, a garotinha estava salva.

― Aqui, leve ela para uma ambulância. – Se dirigiu a uma profissional que com suas enormes mãos flutuantes, terminava de carregar as últimas pessoas para longe. ― Ela foi capturada por um dos vilões, mas o resgate foi efetuado com sucesso, porém, o combate está prestes a se iniciar.

A mulher de capa vermelha assentiu e estendeu os braços para acolher a garota que se demorou, agarrando-se a Uraraka pelo tempo necessário para um abraço forte e um sussurrado: “Obrigada!” que a fez sorrir. Vendo-a se afastar a salvo agora, sua atenção se voltou para o beco onde Deku ainda combatia os vilões. Refez o caminho até lá e parou em choque ao ver que todo o local estava coberto pela baba do criminoso de língua comprida. Midoriya saltava pelas paredes, tentando confundi-los e quase teve êxito em seu ataque por trás se não fosse a língua veloz que se enroscou em sua perna e o atirou contra a parede, quebrando-a com a força do impacto. Parte do telhado desabou, forçando-o a se desviar dos escombros.

Não sabia o que havia acontecido, mas, de repente, enxergava as ações do vilão como se estas se passassem em câmera lenta. A fricção das mãos, a faísca elétrica gerada por esse contato e a queda gradual desta em direção à gosma derretida no chão. Sua mente ligou os pontos e imediatamente soube do que se tratava aquela gosma. Porém, percebera tarde demais. Não havia tempo para mais nada a não ser tocar o próprio corpo e o sentir ficar mais leve, antes de pular em direção a um Deku que permanecia na linha de fogo ocupado em imobilizar o segundo vilão que saltara sobre ele em uma tentativa de prendê-lo. O vilão recuou ao ver o que o companheiro fazia, empurrando Midoriya que tombou para frente. O estouro acompanhou o pulo de Uraraka e as chamas se levantaram as suas costas. Sentiu o corpo bater contra o dele e o empurrar para longe de encontro a parede, no pequeno espaço seco protegido pela parte que despencara do telhado, ao mesmo tempo que uma dor lancinante subia por sua coluna e se alastrava por sua pele. Ignorou, mantendo os olhos fixos naquele verde brilhante que sempre a acalmava, mas que agora estavam repletos de horror e desespero.

Sentiu as mãos dele lhe puxarem e deixou-se ir sem resistência. Mal sentiu o abraço protetor no qual ele a envolvia e muito menos o choque contra o chão. A dormência que se espalhava por seus músculos a deixava letárgica, mas não podia simplesmente adormecer e deixá-lo ali com aquele olhar desolado. Não queria ser fitada assim. Com esforço, apoiou as mãos em suas bochechas e desceu a testa de encontro a dele. O sangue de suas feridas pingava, manchando o rosto dele com o vermelho, mas ela nada sentia.

― Não faça isso comigo, Uraraka! Devia ter fugido!

― Eu não podia te deixar. Somos heróis. – Conseguiu emitir uma risada rouca e dolorida. Podia sentir a escuridão a puxando, mas lutou como pôde contra ela ao ver as lágrimas se formarem no canto dos olhos dele.

― Por quê? Por que fez isso? – A mente dela estava embaçada, as palavras e seus significados mal sendo processados.

― Se não for por amor, por que mais seria?

O choque tomou os olhos verdes e a última coisa que Uraraka sentiu foram as mãos macias se enrolarem em seu cabelo, apoiando sua cabeça que pendia, e a voz implorando para que se mantivesse acordada.

***

No limite da consciência, Uraraka sabia que estava em meio a algo muito importante e que precisava acordar logo. Deku precisava de ajuda. Ela tinha de ajudá-lo. A lembrança dos olhos marejados e a súplica por se manter acordada lhe voltaram a memória e ela lutou contra o peso que parecia esmagar seu corpo. Precisava voltar. Forçou as pálpebras a se abrirem e pensou ter captado o vislumbre do céu azul, manchado pela fumaça ascendente. Gritos de fúria ecoaram em seus ouvidos, e ela tremeu com a angústia que eles traziam. Não conseguia se mexer, seus braços estavam largados nas laterais de seu corpo, inúteis. Piscou, ao menos pensou ter piscado, e, de repente, sua visão estava tomada pelo branco. Os membros estavam novamente sob seu controle e ela podia mexer os dedos dos pés e das mãos, porém, toda vez que forçava o corpo para tentar se levantar, uma mão quente a impedia e ela se deixava levar pela sensação de conforto que esta trazia, voltando a enfiar a cabeça nos travesseiros.

Quando, por fim, os efeitos do sedativo passaram e ela pôde pensar com mais clareza, entendeu que não estava mais no meio da luta, e sim em uma cama de hospital, recebendo cuidados periódicos da Recovery Girl. Cada sessão esgotava sua energia, mas era um mal necessário. Grande parte da sua pele havia sido queimada e recuperá-la por completo era impossível. O mínimo que estavam fazendo era reconstituir o tecido, e mesmo isso a deixaria com uma feia cicatriz. Uraraka não se importava. Havia aprendido o valor delas com Deku.

Perguntava-se constantemente como teria terminado o combate e se ele estava bem. E se estava, por que não a visitava? Nessas horas lembrava do que dissera antes de desmaiar. Confessara-se no pior momento possível, e talvez fosse essa a maneira dele lhe dizer que não estava interessado. Não. Rechaçou essa hipótese de imediato. Isso não combinava com a personalidade dele e certamente não seria algo do seu feitio.

Quase como se ouvisse seus pensamentos e preocupações, batidas soaram na porta e Midoriya passou por ela. O rosto pálido e as feições cansadas lhe diziam que ele não vinha dormindo direito. O cabelo antes cheio, agora tinha um corte mais curto nas laterais deixando-o, se possível, ainda mais bonito. Como reflexo, tocou os próprios cabelos, queimados e cortados de forma irregular, tomando consciência do quanto sua aparência devia estar horrenda.

― Oi. – Ele hesitou, como se esperasse dela uma rejeição.

― Olá. – Ela sorriu, a despeito de todas as preocupações, agora o tinha ali, vivo e bem. Seu ato desesperado havia tido êxito. Ele fechou a porta e adentrou o quarto a passos lentos.

― Isso está muito errado. Geralmente sou eu quem me machuco e você fica com a tarefa de visitar. – Os cantos dos lábios dele se ergueram em um sorriso triste, os olhos preocupados esquadrinhando o seu rosto. Alívio jorrava pelo seu corpo ao vê-la ali, sentada e falando consigo novamente. Os dias que passara longe dela haviam sido os mais longos até então e, mesmo no trabalho, encontrava-se com dificuldades para se concentrar, a culpa e a preocupação duelando em seu interior.

― É a parte mais difícil, não é? Escolher o que comprar. – Ochako apontou para a embalagem que ele trazia, alheia aos pensamentos que corriam em sua mente.

― Exatamente. Passei horas para decidir que tipo de guloseima ia te trazer. Espero que goste de mochi.

― Adoro.

O silêncio se instaurou no local, nenhum dos dois querendo tocar no assunto delicado que se seguiria. Midoriya puxou um banquinho e sentou-se ao lado da cama, depositando os doces na mesa de cabeceira. Mordia o lábio, pensativo, e Uraraka não pôde parar de imaginar, com um sorriso de canto, que ele estava tentando conter os murmúrios que corriam em seus pensamentos.

― Posso ver a cicatriz? – Perguntou, a voz tão baixa que ela pensou ter imaginado as palavras. Assentiu e afastou-se dos travesseiros, contendo a risada ao reparar no rosto repentinamente vermelho dele ao vê-la retirar a blusa. Virou de costas e segurou a barra da camiseta enquanto ouvia a respiração dele mudar.

Os dedos logo tocaram sua pele, o contraste gelado contra a ardência que a cicatriz deixara era quase um alívio, Ochako ainda sentia como se o local estivesse em chamas. O toque era suave, as mãos provando a textura da pele, acariciando-a com carinho como se desejassem reverter a situação. Ele não se desculpou. Por ter suas próprias cicatrizes, sabia o valor delas e o significado que carregavam. Não ia desmerecer Uraraka assim, lamentando pelo ato que havia feito. Mesmo que a culpa por seu descuido estivesse entalhada em seu corpo, consumindo suas noites em claro.

― Agora combinamos. – Ela sorriu, baixando a camiseta e voltando a se recostar na cabeceira da cama. Midoriya riu, sem humor.

― Eu realmente não mereço uma amiga como você. – Observou a pontada de decepção que surgiu nos olhos dela e sentiu o próprio coração acelerar, esperançoso. Era agora. ― Antes de me salvar, você disse que tinha feito aquilo por amor. – Olhos baixos, lábios apertados. O rubor que cobria as bochechas dela era lindo.

― Então você ouviu. – Murmurou apenas.

― Vai me dizer que estava delirando? – O sorriso dele ria de si, a deixando com mais vergonha. Respirou fundo e jogou todas as amarras pela janela. Se continuasse a guardar o que sentia, nunca receberia uma resposta e nunca estaria livre para seguir em frente. O salvamento dele lhe dera forças para arriscar, lhe ensinara que, por certas pessoas, valia a pena despir-se totalmente e deixar ser vista como era, sem quaisquer escudos ou defesas. Retribuiu o olhar com firmeza.

― Não, não vou dizer. Não quando já falei a verdade. Não quando já disse que te amo. – Os olhos verdes lhe fitavam, brilhantes, esperançosos, e ela se sentiu compelida a continuar. Agora que começara, precisava desabafar todos os sentimentos, esgotar todas as palavras até que, enfim, tudo que tinha entalado fosse dito. O coração não ajudava, estava acelerado, quase ameaçando pular em sua garganta e lançar-se para fora a procura da rota de fuga mais rápida do seu peito. ― Eu serei sua amiga, tem razão, porém, eu desejo mais que isso. Se me permitir, eu te amarei profundamente, vou ser a primeira a beijá-lo durante a noite, a enxugar suas lágrimas de tristeza e comemorar os arroubos de alegria, as conquistas bem-sucedidas e os passos em direção ao topo que der. Eu só quero estar com você, viver com você e nunca vou deixá-lo ir, estarei ao seu lado para o que der e vier.

― Uau, você ensaiou esse discurso, não foi? – Midoriya sorria, as sardas se destacando nas bochechas coradas. Ele se aproximou e tomou as mãos dela nas suas.

― Não. – Uraraka riu, envergonhada. Havia falado demais! ― Acho que o que eu quero dizer é: Eu te amo e você?

― Você não precisava nem mesmo perguntar. – As mãos se encontraram e os rostos se aproximaram. Uraraka sentiu o hálito quente tocar sua face e seu estômago se contorceu com a percepção. Estava mesmo acontecendo. ― Mas talvez eu não tenha deixado muito claro que eu também amo você, toda e completamente você.


E, quando os lábios se tocaram, Ochako pensou que tudo, até aquele momento, havia valido a pena.

Sua saída do hospital coincidiu com o dia do festival de Hanabi. Usava um vestido de alcinhas e os cabelos estavam com um corte mais reto, e, mesmo que disse o contrário, ainda se sentia incomodada com a aparência. Desceu a rua em direção a ponte na qual havia combinado de se encontrar com Deku, mal conseguindo conter a felicidade por seus desejos estarem mesmo se realizando após tanto tempo reprimindo-os.

Aproximou-se do local onde ele observava os fogos estourarem e o abraçou pelas costas grata por sentir seu calor reconfortante. Sentiu o suspiro escapar dos lábios dele antes da mão cobrir a sua com carinho. O rosto vermelho voltou-se para ela e as testas se tocaram, grudando os olhares.

― Você está linda. – O sorriso lhe dizia que tudo o que ele enxergava era ela.

― E você está precisando de óculos. – Eles riram e se aconchegaram juntos, entrelaçando as mãos e apreciando a proximidade. Observaram as formas coloridas ganharem vida no céu noturno e desaparecerem com igual velocidade.

― Eu nunca vou te deixar ir. – Ele se pronunciou de repente, assustando-a com a firmeza das palavras. ― Estaremos juntos até o fim dos tempos. – Jurou. Ochako sentiu a risada borbulhar em seu peito.

― Roubando minhas palavras? Nada original – Levantou a mão e o acariciou na bochecha. ― Diga de novo que nunca me deixará ir.

Sorrindo, ele fez ainda melhor. Os lábios se encontraram em uma troca silenciosa de promessas. E, enquanto os fogos estouravam no céu e as pessoas comemoravam a sua volta, Midoriya a segurou pela cintura e os dois giraram em uma dança descoordenada e risonha, de forma que ela não conseguisse imaginar momento mais perfeito que aquele para pôr em prática a promessa de até o fim dos tempos.

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9 de Outubro de 2018 às 16:10 0 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Nathy Maki Leitora voraz desde que tenho idade para segurar um livro em mãos. Sagitariana e um poço de emoção e muuita indecisão. Amo um clichê bem escrito e um suspense que te prende, mas fantasias e ligações são especialidade. Sou fã daqueles finais inusitados. Até mesmo os tristes! Lema: Colecionar sonhos, ideias e magia e depois transformá-los em palavras é o que torna bela a vida.

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