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monachopsis Amanda Figueiredo

Sua cama estava vermelha. Havia vermelho por toda parte. Foi ali que Jimin soube que ele o achara. Mais uma vez. Jikook | Suspense | Stalker | +18


Fanfiction Para maiores de 21 anos apenas (adultos). © Todos os direitos reservados

#obsessão #stalker #bts #k-pop #kookmin #jikook
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Capítulo Único

Capítulo Único – Loving him was red

Apartamento 13, Busan

Quando abri a porta do apartamento eu senti que algo estava errado. Era uma pequena formigação atrás da orelha, uma impressão, como quando você acha que viu algo, mas não tem a chance de checar para ver se viu corretamente. Veio e passou rápido, eu estava cansado e só queria um bom banho depois de um dia cansativo me adaptando no novo trabalho. Ainda havia algumas caixas espalhadas pela casa, eu estava levando a mudança de forma bem lenta e preguiçosa, admito, mas como morava sozinho, a culpa de ver desarrumado recaia apenas sobre mim e já aprendi a não ficar tão chateado assim. Para a minha defesa ainda estava acostumando com o novo trabalho numa editora pequena ali, em Busan, que apesar de ser menor que Seul, ainda tinha suas correrias e desafios.

Então foi natural largar minha bolsa-carteiro em algum lugar no sofá e rumar esgotado para o quarto, pensando apenas em duas horas seguidas na banheira e depois uma taça de vinho deitado no sofá enquanto assistia algum dorama qualquer. Minhas intuições eram péssimas, sempre achei aquilo meio ridículo, mas agora eu lamentava não possuí-la aflorada, pois teria dado atenção àquela formigação boba.

O meu quarto estava com a porta fechada, meio incomum, mas não me atentei para aquilo, logo abrindo a porta e revelando o que estava ali.

Vermelho. Tudo o que eu via era vermelho. Tudo o que eu via era ele. Paralisei na entrada, observando aquilo e sentindo minhas pernas perderam as forças. Freneticamente observei meu quarto por inteiro e a cor vermelha feria minhas pupilas, as lágrimas surgiram ao mesmo tempo que as memórias me acertaram com força e ao mesmo tempo, eu não sabia como reagir. O pânico começou a crescer em mim, chegando em minha garganta e prendendo suas garras ali, estava difícil respirar e pronunciar alguma coisa. Minha cama estava cheia de pétalas vermelhas de rosas, centenas, infinitas, despejando pelo chão, pelo tapete, deixando um rastro até a entrada do quarto. O cheiro adocicado de flores preencheu minhas narinas, me deixando enauseado. Foi automático pensar nele. Quem mais poderia ser? Quem mais?

Ele me achara. Ele esteve ali em Busan. Ele entrara em meu apartamento, em meu quarto, e fizera aquilo. Um presente. Mais um deles.

“Minnie: Sabe o que eu gostaria? Chegar em casa e encontrar algo bem romântico me esperando.

Jiwoon: Algo como pétalas de rosas em sua cama? Eu posso fazer isso, meu amor.”

***

Delegacia de XXX, Busan

Minhas mãos conseguiram levar o copo com água até meus lábios secos sem tremerem dessa vez. Eu mal acreditava que tudo estava acontecendo novamente, como aquilo era possível? Eu tinha tomado cuidado, tinha buscado fazer perfeitamente o que me orientaram. Só de pensar em tudo piorava minha dor de cabeça infernal que se instalara logo depois que eu saíra do meu apartamento, vomitado nas escadas e corrido desenfreadamente até a delegacia mais próxima. Precisara pedir orientações para uma senhora na rua, pois não fazia a mínima ideia de onde ir, acho que ela pensou que eu estava em drogas ou algo do tipo. Não dava a mínima, o que importava é que o pesadelo se iniciava mais uma vez.

Há 2 anos e meio eu entrei em um site de relacionamento de brincadeira, apenas por insistência de Taehyung. Foi ali que o conheci. Jiwon era agradável, sabia as coisas certas a se dizer, sabia manter uma conversa divertida e leve e também era homossexual, o que diabos eu poderia pedir a mais? Era para ser uma brincadeira, depois um rolo e por fim eu me vi preso. Perdi o completo controle daquilo à medida que foi ficando mais intenso. Quem poderia me avisar que eu estava entrando nas garras de um sociopata bizarro que ficou viciado em mim? Eu odiava pensar no quanto aquilo me mudou, Jiwon me manipulava de tal forma que eu sequer percebia, Taehyung que martelava no meu ouvido sobre o quanto aquilo era estranho e eu brigava com o mesmo, jurando que nos amávamos e que ficaríamos juntos. Jiwoon me fez largar amigos, parentes, uma vida para ficar disponível apenas para si, em função de si. Eu revelava meu rosto, meus desejos, meu eu por inteiro, ele me dava apenas partes de si e fotos que poderiam muito bem ser falsas.

E eram, logo depois que criei coragem de terminar tudo e tentar me livrar dele, Jiwon passou a me perseguir de forma anônima nas ruas. Ele sabia onde eu morava, minha rotina, tudo o que eu fazia, cada desejo, gosto e preocupações, cada passo meu. A polícia descobriu que as fotos que ele enviara de si eram fakes e não conseguiram rastrear o seu ip. Quem na verdade era Jung Jiwoon – se esse fosse seu nome real? Como conseguir uma medida de restrição contra alguém que eu sequer sabia quem era na realidade? O medo e paranóias me consumiram de tal forma que acabei mudando, indo para o outro lado da cidade e até trocando de emprego para tentar me livrar dele. Três semanas depois eu recebi no correio uma carta digitada por ele, falando que eu continuava lindo mesmo tendo mudado a cor do cabelo e perguntando por que eu fora para tão longe dele, se sempre me encontraria?

Eu estava esgotado quando me mudei de Seul. Foram meses de angústia até para sair de casa e comprar comida, eu checava as trancas da minha casa várias vezes ao dia. Taehyung que sugeriu que eu voltasse para a cidade natal de meus pais, bem distante dali, ele não contaria aquilo para ninguém. De qualquer forma o único amigo que me restava era Tae, que nunca teve contato com Jiwoon. Era minha chance de apenas sumir do mapa e encontrar alguma paz. Mas meu amigo não sabia que eu não tinha paz nem em meus sonhos, e essa era a pior parte. Algum lado doente meu sussurrava eternamente que Jiwon era a única pessoa que gostara de mim, que me aceitara, que me quisera, que me amava. Aceitar-me e assumir como homossexual, destruir minha relação com meus pais, destruir minha vida, me deixou sequelas interiores que eu tinha noção de serem cicatrizes que levaria comigo pelo resto da vida, mas como eu conseguiria lidar sozinho com aquela paranóia que me acompanhava? Como aguentar aquela baixa auto-estima que me consumia, me fazendo me esconder através de cabelos com cores fortes, uma personalidade fria, distante e aparentemente inabalável, coisas que apenas escondiam o quanto eu era fraco por dentro?

Às vezes eu era apenas um lixo atraindo outro lixo – Jiwon.

Meus sonhos eram nublados, escuros e me deixavam em um torpor silencioso, que era quebrado apenas por ele. O homem sem rosto decifrável sempre se aproximava de mim e transávamos de uma forma que me deixava constrangido ao acordar, mas a pior parte é que era como se o ato sugasse alguma parte de mim e me deixasse incapaz de me mover, frágil e vulnerável em suas mãos. Era sempre a mesma coisa, eu me abandonava em seu corpo, não conseguia evitar a tamanha entrega que me submetia e não conseguia sair de seus braços, era viciante e inebriante. Eu odiava e amava estar ali. Ele sempre sussurrava que cuidaria de mim e eu acabava acordando suado, com o coração à mil e com rastros de lágrimas em meu rosto. Eu estava quebrado, cada vez mais quebrado e agora me quebrava mais uma vez ao tentar fugir, falhamente, do meu passado.

- Hey, tudo bem? – uma voz mais grave me tirou dos meus pensamentos amargos e levantei o olhar para ver um policial jovem, fardado e com um olhar sinceramente preocupado. Minha visão estava embaçada então pisquei fortemente para limpa-la.

- Ah, mais ou menos. – consegui dizer, com a voz rouca.

- Você está chorando. – ele esticou uma caixa de lenços de papel que estava em sua mão e eu nem tinha percebido. Foi aí que me toquei que a visão borrada era pelas lágrimas que agora escorriam livremente pelas minhas bochechas

- Oh, me desculpe. – puxei um lenço, limpando os rastros molhados.

- Não precisa se desculpar, você não tem culpa. – ele deu um meio sorriso. Ele era bem bonito, qualquer um perceberia. – Park Jimin? – questionou.

- Sim. – fiquei confuso.

- É para assinar seu depoimento e completar o B.O. – ele explicou.

- Sim, sim, tudo bem. – me levantei com dificuldade, o corpo já cansado pelo dia e ainda por todo o estresse anterior.

A papelada já me era familiar, não foram poucas as vezes que eu fora assediado por Jiwon em Seul. Fotos minhas, cartas longas falando sobre meus hábitos, sobre minhas características, até presentes como roupas e flores, eu jogava tudo no lixo. As últimas vezes eu simplesmente taquei fogo. Tudo eu fiz questão de alimentar um longo histórico na polícia de Seul, os policiais até me conheciam mais do que eu mesmo e aposto que estavam esgotados de verem minha cara ali. Bem, se conseguissem rastrear Jiwon e fazê-lo parar todos nós poderíamos ter algum sossego. Enfiei minha raiva e frustração em meu baú de emoções dolorosas demais para serem sentidas na hora e assinei tudo o que deveria. Até conversei com o delegado e ele me assegurou que iriam pegar informações com a sede em Seul e acompanhar o caso, eu poderia ficar tranquilo. Tranquilo.

Jiwon invadiu meu apartamento enquanto eu estava fora e eu deveria ficar tranquilo. Eu me mudara fazia um mês e meu ex-namorado psicótico me encontrara, entrara em meu apartamento, deixara pétalas de rosa em cima da minha cama e eu deveria ficar fodidamente tranquilo. Minha vida era um ciclo de punições e situações ridículas, eu já não sabia o que sentir e como sentir, então apenas concordei e fui até a saída do prédio. Não sei quanto tempo passei ali de fora, observando as pessoas passarem, essas verdadeiramente tranquilas, com a mente em branco. Às vezes, se eu fechasse bem os olhos e me afastasse do mundo por alguns instantes, conseguia imaginar uma vida melhor, a vida que Jimin, o filho único dos queridos Parks, deveria ter levado.

Eu estava tão esgotado de todas as formas, minha mente já entrara em um branco automático após cada pico de estresse como aquele, como se pedisse socorro. Eu queria poder dar esse socorro a ela, mas não fazia ideia como mais. Engoli o choro que subia novamente e me abracei, sentindo vento gelado do outono penetrar na minha camiseta de manga longa. Eu saíra tão rápido do apartamento que esquecera o casaco, pontos para Park Jimin. Mesmo cansado da auto-piedade, permiti um enxurrada da mesma naquele momento.

- Com licença, Park Jimin? – a mesma voz de antes me chamou, o policial jovem vestido com uma jaqueta e parecendo pronto para sair. – Hm, você está sozinho? Digo, precisa de uma carona? – ele corou violentamente. – Aish, eu só queria dizer que vou sair pra minha ronda e ela fica na área onde você mora. Desculpa, eu olhei sua ficha. Isso soou péssimo, não é mesmo? – ele estava tão desajeitado e engraçado que me fez esquecer por um instante da minha maldição. Até coçar os cabelos por debaixo do quepe ele fez, parecendo um garoto constrangido chamando alguém para sair.

- Eu gostaria. – concordei em um suspiro, me esforçando para sorrir e provavelmente fazendo uma careta esquisita. Isso acarretou em um sorriso aberto dele, ocasionando pequenas ruguinhas ao redor de seus olhos e mostrando um par de incisivos centrais proeminentes, como um coelho. Foi bem simpático.

Ele indicou o caminho, ainda meio desajeitado e atarantado, entrando na viatura e logo escondendo os pacotes de rosquinhas e copos antigos de café. Entrei do outro lado, me entretendo em observá-lo preocupado com a bagunça ali dentro.

- Desculpa, policiais não ligam muito pra deixar o carro limpinho, normalmente carregamos apenas bandidos e nossas bundas gordas... Oh, droga, desculpa de novo. – ele resmungou, sendo sincero e desastrado.

- Tudo bem, eu não ligo para formalidades. – acalmei-o. Ele chega errou uma vez o buraco da chave na ignição e engasguei uma risada. – Como já olhou minha ficha, já deve saber bastante sobre mim, enquanto eu não sei nada sobre você. – instiguei para disfarçar e não matar o garoto de constrangimento.

- Oh, claro, é mesmo. – ele deu partida, logo caindo nas ruas noturnas de Busan. – Meu nome é Jeon Jungkook, sou policial faz um mês. – ele abriu um largo e orgulhoso sorriso.

- Quantos anos tem? Se não for deselegante perguntar. – fiquei curioso, ele parecia bem jovem.

- Vinte e dois. E você? – ele tentava encobrir a animação e fiquei surpreso, parecia mais novo. Talvez pelo sorriso juvenil e a afobação. Consegui deixar um leve sorriso transparecer.

- Vinte e quatro. – e meu assunto morreu. Eu realmente não estava no melhor ânimo para manter uma conversa descontraída, mas por sorte Jungkook tinha entusiasmo o suficiente para dois.

- Que legal, você é meu hyung, hyung. – consegui segurar a risada daquela vez, mas fiz um barulho estranho. – Desculpa, eu estou te chateando? – ele soou preocupado, olhando para a rua.

- Não, pelo contrário. O dia apenas foi difícil. – suspirei.

- Eu li sua ficha, foi curiosidade, desculpa...

- Jungkook. – chamei-o.

- Sim? – afligiu-se.

- Não precisa se desculpar o tempo todo. Fica tranquilo. – franzi a testa, eu soei como o delegado pedindo para eu ficar tranquilo. Bem, eram situações diferentes, pelo menos.

- Tudo bem. – ele respirou aliviado. – Então, eu li sua ficha e vi o que aconteceu, sinto muito por ter passado por isso. – eu realmente gostava do quanto ele parecia sincero no que dizia, eu sinta tanta falta daquilo, sinceridade para comigo.

- Obrigado. Eu estou apenas cansado mesmo. – o silêncio durou por um minuto até ele quebrá-lo.

- Aceita um café? A polícia tem desconto. – ele aproveitou estar parado no sinal e se virou para me dar um sorriso compreensivo.

Ok, aquilo realmente rendeu uma risada minha, não tentei segura-la e foi uma surpresa ela ter sido natural.

Jungkook acabou comprando dois espressos e contando tudo sobre si. Ou tudo que cabia no percurso de quinze minutos até meu prédio, o que me fez ficar surpreso, pois correra aquilo tudo banhado no desespero e nem percebera. Não é à toa que na delegacia me deram vários copos de água antes de me pedirem para falar. E, bem, o trajeto durou um pouco mais por termos parado para comprar café e ele aproveitou para falar o tempo todo. Aquilo me distraiu um pouco de tudo o que acontecera e descobri que Jungkook era uma companhia engraçada. O fato dele não ser muito gracioso e empolgado para não deixar o papo morrer eram até charmosos e me peguei rindo outras vezes de si.

O clima até quebrou quando ele parou em frente ao meu prédio, falando sobre como era ser policial e como estudou com afinco para estar ali, sobre seus sonhos infantis de proteger as pessoas e tudo mais. Ele quem claramente mais proferiu ali, mas foi bom, o que eu estava precisando.

- Obrigado pela carona. – agradeci. – E pelo café, claro. – acenei com o copo ainda pela metade.

- Tudo bem, hyung. Eu estou sempre fazendo rondas por aqui, se precisar de qualquer coisa ligue. Não que eu quero que você precise, deus, não, só ligue se precisar. Mas não precise. – ele se confundiu todo e outra risada foi inevitável.

- Obrigado também pela companhia, Jungkook. Ligarei. Se for preciso. – complementei e ele concordou com um aceno, sério. Pareceu ter entrado no personagem de policial responsável e trabalhador. – Tchau. – fechei a porta do carro.

- Tchau, Jimin. – ele respondeu antes que a porta fechasse por completo.

Creio que não me olhando frente a frente ele criara coragem para me chamar pelo nome, o que me fez sorrir. Mas logo lembrei o que me esperava lá em cima e meu estômago gelou, me fazendo jogar o resto do café fora e me jogando de cara na minha realidade.

***

Apartamento 13, Busan

Tae ficou preocupado, me mandando diversas mensagens todos os dias ao longo de duas semanas para checar se eu estava bem. Foi difícil entrar no meu quarto e limpar toda aquela bagunça de pétalas, foram dois sacos pretos cheios e perfumados, o cheiro de rosas permaneceu por mais dois dias e me vi incapaz de dormir no meu próprio quarto nesse tempo. Vermelho me lembrava Jiwon, me lembrava do quanto eu o amara, de forma doentia e quase tão obcecada quanto ele, me lembrava de tudo aquilo. Ele sempre falara que eu ficava bonito de vermelho, quando usei a cor no meu cabelo fiquei em êxtase com o quanto ele pareceu ter ficado encantado. Foi um tempo delicioso de declarações e elogios e amores. Vermelho era a cor de Jiwon, era a cor de nosso amor, era cor da dor, do sofrimento, da angústia e medo que se seguiram depois. Eu joguei tudo que possuía de vermelho no guarda roupa fora, queria me livrar de tudo que me fizesse lembrá-lo. E o mesmo apenas me mandava presentes com aquela cor, uma brincadeira maldosa, para nunca me esquecer.

Acabei puxando cobertas e dormindo no sofá na sala, tendo sonos leves e acordando a cada pequeno barulho. Eu não fazia ideia se ele já entrara onde eu morara alguma vez, então chegar em um apartamento novo, uma cidade nova, e ver aquilo... Me deixou em pânico. Não apenas sabia onde eu estava como tinha acesso ao lugar como bem quisesse. Era aterrador. Minhas noites de sono tranquilas – pelo menos as que eu não era assombrado pelos sonhos eróticos sufocantes – foram por água abaixo. Instalei mais duas fechaduras na porta e encomendara uma abertura por digital. Demoraria a chegar e ser instalada, mas pelo menos me daria mais segurança junto de um alarme. Pelo menos ficar a salvo dentro de meu próprio apartamento era o mínimo.

Não foi uma surpresa real abrir a caixinha de correio um dia e achar um pacote vermelho dentro da mesma. Engoli em seco, sentindo a saliva descer com dificuldade. Chequei bem a entrada do prédio e estava sozinho, o portão elegante fechado. Não significava nada, claro, Jiwon provara aquilo há duas semanas, mas pelo menos eu estava com as chaves na mão e era uma saída para mim. O pacote era pequeno, uma caixa de um vermelho profundo que lembrava sangue, as pétalas e a antiga cor do meu cabelo. Rasguei o embrulho com rapidez, querendo acabar logo com tudo aquilo. Havia uma carta e um colar de prata fino e delicado, mal prestei atenção nele e parti para a carta.

“Oi, meu amor, creio que não seja surpresa eu ter te achado novamente – eu disse que sempre lhe acharia, Minnie. Somos almas gêmeas, meu anjo, não podemos ficar separados. A nossa ligação é mais forte que isso até, as pessoas nunca entenderão. Temo que você ainda não entenda, ou que entendeu e ficou com medo, mas saiba que eu nunca te machucaria, Minnie. Eu te amo tanto que chega dói, dói ver você fugindo de mim. Eu tento te entender, sempre tentei, mas às vezes fica difícil... Enfim, o que importa é que estamos perto um do outro mais uma vez. E te farei entender que temos que ficar juntos, que iremos ficar juntos. Você me pertence, assim como eu a ti, e é assim que acabará nossa história.

Espero que goste do presente. Eu penso em você todos os dias e todas as horas e mal vejo a oportunidade de te reencontrar. Você sabe o que eu sonho.

J.”

O papel caiu da minha mão que tremia, meus olhos focando no pingente de prata que havia dentro da caixinha. Meu coração seguiu o mesmo destino da carta.

***

Prédio XXX, Busan

- Jimin hyung? – Jungkook me chamou, descendo apressado da viatura e correndo até a entrada do pequeno prédio, onde eu me encontrava, sentado e infeliz. – Onde ele está? – perguntou, com a testa franzida e olhando ao redor, procurando algum ex-namorado psicótico meu.

- Desculpa, eu menti. – falei baixinho, abraçado a mim mesmo, tentando ter algum calor corporal que eu perdera há 20 minutos.

- O que? – ele ficou confuso e perdido.

- Ele não está aqui. Na verdade, uma parte dele sim. Mas ele não está. – eu me sentia culpado por ter ligado para a polícia num ímpeto, mentido que suspeitava que Jiwon estava ali e pedido para uma viatura checar o meu apartamento.

- O que aconteceu? – ele pareceu acalmar, sentando ao meu lado nos degraus da entrada.

- Eu recebi mais uma de suas cartas, mais um presente. – minha voz estava sem vida, representava bem como eu me sentia. – Deve ter sido o milionésimo ou algo assim.

- Onde está? – apontei para a caixinha vermelha perto de nós dois, o pingente ainda ali dentro, bem como a carta que eu recuperei. Ele foi tentar pegar o objeto com cuidado e eu identifiquei o procedimento, me sentindo terrivelmente cansado.

- Já tentaram colher digitais, fio de cabelo, essas coisas, dos presentes anteriores. Ele simplesmente não deixa rastro. O filho da puta é esperto. – minha risada foi amarga. – Pode olhar e jogar no fogo, no mar, no esgoto, não importa.

Ele ficou alguns segundos me olhando, tenso, e finalmente olhou a carta e o presente dentro da caixa. Presente. Jiwon os chamava de presente, eu chamava de caixinhas de Pandora que liberavam toda a maldição do meu passado com ele e que não me deixavam escapar ou esquecer. Uma vez ele dissera que usaríamos colares porque anéis eram tão fora de moda, com pingentes iguais escrito “eterno”. Um voto, uma promessa, que ele cumprira. E ainda adicionara uma pequena e delicada pedrinha vermelha, um pingente extra, como se jogasse na minha cara o quanto vermelho era minha cor e que eu deveria usar sempre.

- Deus, como eu me arrependo. Eu me odeio por ter entrado naquele site, por ter alimentado minhas inseguranças, por ter ido atrás disso... – iniciei, sufocado de frustração e angústia dentro de mim e precisando liberar aquilo de alguma forma. Eu estava prestes a colabar, mais uma vez. Cravei as unhas em meus braços e desejei sumir, só assim para conseguir alguma paz. Sumindo ele nunca mais me encontraria e eu seria livre. – Eu apenas queria ser livre...

- Hyung... – Jungkook não soube o que dizer e pareceu pensar por algum tempo até tomar a decisão de me abraçar.

Ele possuía o calor que me faltava naquele momento e eu me permiti relaxar o suficiente para me sentir confortável ali. Os soluços foram dolorosos, me deixavam com mais falta de ar do que a supriam, e finalmente chorei após receber mais aquele presente. Como eu queria que tudo fosse normal. Se iniciando naquela maldita infância, sem pais repressores. Uma adolescência sem medos e confusões, sem ódios por mim mesmo, sem sofrer com uma homossexualidade recém descoberta e tão fora do normal. Eu nascera errado e meus pais não conseguiram consertar aquilo, eu não conseguira, nada mais conseguiria. E quando eu finalmente me livrei dos meus pais, quando tentei buscar ar livre para respirar e paz de espírito, eu consegui Jiwoon. A ironia era desgraçada. Busquei ser amado e encontrei aquilo. Quanto mais eu tentava achar onde havia errado, mais possíveis erros encontrava e a bola de neve se formava. A culpa era toda minha e não havia outra explicação. Era simples.

A dor me matava por dentro e eu estava tão alquebrado. Foi complicado pegar aquela bagunça que eu estava sentindo mais uma vez e enfiá-la dentro do baú de sentimentos que não podem ser sentidos naquela hora. Eu não sabia a capacidade dele, mas todo dia temia estar alcançando o máximo. Eu guardava tudo que não sabia lidar ali e temia que quando lotasse, acabasse me afogando em mim mesmo e tudo que tentei não sentir.

Jungkook continuou me abraçando fortemente, me fazendo apoiar o rosto em seu peito e molhar toda a camisa de sua farda com minhas lágrimas. Era admirável a paciência dele com um desconhecido destruído e me senti tocado por aquilo. Passamos minutos, horas, dias ali, não fiz questão de mensurar o tempo. A única coisa que preocupei foi em despejar todo o meu sofrimento para fora em forma de lágrimas, agarrando a jaqueta dele e me deixando ficar ali. Custou um pouco parar, mas finalmente senti secar a fonte e voltei a me sentir vazio.

Quando me afastei de si, Jungkook deu um sorriso pequeno e triste, tentando me confortar.

- Quer um café?

***

Loja XXX, Busan

Eu mal conseguia acreditar no quanto Jungkook me fizera bem. Seu jeito atrapalhado me fazia rir e me divertir, sem contar seus flertes inocentes e feitos com uma coragem sobrenatural. Era esquisito ter alguém se interessando por mim. Eu ouvia seus elogios desengonçados e o observava coçar a cabeça, a imagem era adorável, mas não deixava de me sentir estranho. Eu pensava em Jiwoon, aquela vozinha sussurrava que eu não era merecedor daquilo, que apenas Jiwoon me amaria e gostaria de mim, mas eu tentava a todo custo enfiá-la no baú. Na verdade eu nunca conseguira, mas continuava tentando. Por enquanto eu a abafava o máximo e tentava me distrair novamente, dando corda aos flertes de Jungkook.

No fundo eu estava desesperado por algum tipo de carinho, algum tipo de interesse real. Que alguém se preocupasse comigo. Aquela carência que me sufocava desde sempre e que agora crescera até o ponto de doer fisicamente. Eu queria a atenção de Jungkook em mim. Eu gostava de recebê-la. Sentia-me bem péssimo por instigá-lo, não sabia se conseguiria devolvê-la, mas eu não consegui parar de sorrir para si a cada galanteio torto e fazer questão de encará-lo atentamente enquanto o mesmo me contava algo. Era tão errado, mas eu não pude parar e era mais um arrependimento para o futuro, eu sabia. Apenas era um deleite saber que ainda era possível alguém ter um interesse por mim.

Ele chegou a me dar mais caronas ao longo das semanas, falando bastante sobre preço especial de gasolina para a polícia, e naquele tempo Jiwoon ficou em silêncio. Eu rezava silenciosamente para que ele tivesse desistido, embora soubesse que isso era impossível, mas ele poderia ter cansado. Talvez me ver com Jungkook, a presença de um policial, de forma mais frequente, o tivesse desestimulado. Eu apenas rezava para qualquer alternativa se provar correta e aproveitei aquelas semanas de paz.

E naquele momento aceitava a carona de Jungkook em um dia chuvoso, em que eu estava cheio de sacolas de utensílios para o apartamento – finalmente terminara a mudança e agora conseguira arranjar interesse em decorar o mesmo. Ele literalmente rodava o bairro inteiro naquela viatura que vivia cheia de doces e café. Era um maníaco por cafeína enquanto eu era por chocolate. Mas enfim, deveria ser a quarta ou quinta vez que Jungkook me oferecia uma carona para casa, falando que aquele bairro era muito calmo e ele nunca era chamado, me levar até meu prédio era uma distração. Eu sabia que ele mentia em partes, pois sempre parecia entusiasmado e limpando o suor das mãos nas calças, empolgado por estar perto de mim. Mas eu era uma pessoa horrível e o estimulava cada vez mais.

- Espera, eu devo ter aqui... Uma capa! – ele puxou do banco traseiro uma capa de chuva amassada preta, provavelmente uma parte do uniforme policial.

- Não vamos caber os dois aí. – brinquei, vendo-o ficar desajeitado do jeito que eu queria.

- Hm, eu levo antes suas sacolas. – se ofereceu.

Observei Jungkook correr pela chuva com a capa, tentando a todo custo proteger as sacolas e quase se molhando por completo, um sorriso em meu rosto o tempo inteiro. Ele deixou as sacolas na marquise da entrada e veio até o carro para me buscar. Sabia que ele colocara a maior parte da capa sobre mim de propósito, acabando mais encharcado pela chuva forte, mas eu apenas apreciei o gesto. Eu era um lixo péssimo.

- Quer entrar? Você está muito molhado. – sugeri como se não fosse nada demais. Jungkook apenas corou e olhou para os próprios pés.

- Obrigado, hyung. – sua voz saiu baixa, mas eu pude notar um tom de excitação.

Eu era horrível e Jungkook merecia alguém melhor. Alguém que não fosse completamente fodido por dentro e com a vida uma bagunça digna de Hollywood. Alguém que pudesse corresponder plenamente seus sentimentos, que o levasse para passear após o expediente e que gastassem um tempo no sofá, juntos, assistindo algum filme bobo como desculpa para se agarrarem depois. Alguém que fosse divertido como ele, que fosse bonito como ele, que fosse gentil como ele. Park Jimin estava bastante longe daquela definição.

Eu gostava bastante dele, o carinho era real. Mas eu sabia que ele esperava mais e eu não sabia se era capaz de corresponder. Talvez a minha sina fosse ficar eternamente preso emocionalmente a Jiwoon, como uma punição por tudo que eu fizera em minha vida. Aquilo me deixava em pânico, um pânico que eu custava a silenciar dentro de mim.

Subimos pelo elevador até o terceiro andar, o prédio era pequeno e antigo, o preço era ótimo para alguém sozinho como eu e que não ganhava tanto. Sem contar os vizinhos de meia idade calmos e silenciosos. Fomos sem intercorrências até o apartamento, com Jungkook segurando a maioria das sacolas por insistência própria.Demorei um pouco para abrir as trancas a mais, com uma piada sem graça sobre ex-namorados psicóticos invadindo propriedades, mas consegui.

- Pode deixar tudo ali. – apontei para bancada da cozinha americana pequena, também colocando minhas sacolas ali e me dirigindo ao meu quarto apenas para deixar uma sacola com duas camisetas sob a cama.

Parei no meio do caminho ao ver a porta do quarto fechada. Flashbacks do dia das pétalas me invadiram e eu comecei a suar um pouco. Eu nunca deixava a porta fechada e temia descobrir o que estava ali. Um soluço escapou de mim, o que atraiu Jungkook para perto.

- Hyung? – questionou, observando a porta e a mim alternadamente.

- O quarto... – consegui dizer numa voz baixinha. A sacola com roupas caiu da minha mão.

O policial não demorou a fechar o rosto e ir com determinação abrir a porta do quarto, a mão direita indo para o coldre com a arma. O quarto estava vazio e normal, a janela aberta e as cortinas esvoaçando pelo vento que entrava e algumas gotas de chuva escapavam. Havia um cachecol vermelho rubro sobre minha cama cercado de fotos e um envelope. Ele entrara ali mais uma vez, enquanto eu estava fora. Fechaduras a mais provaram ser uma brincadeira para Jiwoon, ele transpassara facilmente como bem queria e novamente maculara o único lugar que eu poderia considerar como refúgio.

Me agachei, me abraçando e encolhendo o corpo ao máximo para tentar sumir dali e tentando não chorar firmemente, mas as lágrimas embaçavam minha visão de Jungkook pegando as coisas em cima da cama. Ele olhou em torno, procurando alguém além de nós dois, checou o apartamento inteiro, até se dar por vencido e analisar o que pegara. Eu nem precisava observar de perto para saber que eram polaroids minhas, eu estava em todas, distraído, apenas vivendo minha vida – ou tentando – enquanto Jiwoon me perseguia e tirava as fotos. Ele estava em Busan sim. Ficara quieto aquele tempo apenas para me perseguir e tirar aquelas fotos. Novamente destruindo minha sensação de segurança ilusória que tinha criado.

- Jimin... – Jungkook estava ao meu lado, parado, analisando as fotos com uma expressão preocupada. Até esquecera de usar o hyung, incomum para si.

- Eu não quero ver. – as palavras saíram com dificuldade, eu estava apertado em uma bolinha no chão, tentando não surtar.

Aquilo fez ele acordar e se agachar ao meu lado, me pegando em seu colo e me levando até o sofá. Não permiti que ele se afastasse, buscando algum tipo de proteção em si. Minha consciência se calou sobre usar pessoas e era totalmente justificado eu tentar usar sua presença para buscar alguma sensação de segurança. Eu precisava me agarrar a algo para não afundar.

- Eu nunca estarei a salvo, não é? – minha voz estava embargada, sofrida. Eu me sentia com mil anos ao invés de 24, tendo vivido uma vida inteira em questão de anos desde a entrada de Jiwoon nela.

- Eu vou te manter a salvo, hyung. Eu juro. – ele foi firme, me apertando em seus braços e nem consegui achar aquilo ruim, eu precisava tanto de algum carinho e conforto que me deixei embalar suavemente em seus braços por um bom tempo.

O cheiro de Jungkook era gostoso e masculino, seu calor me entorpecia e eu poderia ficar ali para sempre. Meu rosto se encaixou bem na curva de seu pescoço e minha respiração batia em sua pele. Ela parecia tão macia. Foi inconsciente me aproximar e aconchegar mais, buscando o contato com ela. Meus lábios encostaram e comprovaram a maciez e seu calor. O corpo contra mim enrijeceu um pouco, mas aquilo passou batido pela minha mente. Deslizei a boca por seu pescoço, alcançando o osso da mandíbula e despejando mais um beijo ali.

Deixei a cabeça pender para trás para poder observar seu rosto e encontrei uma expressão que ainda não conhecia. Jungkook estava sério, me observando com tanta intensidade que eu tive que engolir em seco com o quão fundo ele chegou dentro de mim. Um pequeno formigamento, uma coceirinha, surgiu na minha orelha esquerda e sumiu tão rápido quanto apareceu. Eu nunca tinha reparado o quanto os olhos de Jungkook eram negros e bonitos, o quanto ele mudava completamente ao permanecer sério e sem sorrir. Os lábios eram finos e bem delineados pareciam ter sido feitos apenas para serem apreciados e degustados. Minha respiração seguia o mesmo ritmo da sua, pesada e alterada, e repeti mentalmente como um mantra para que ele tomasse uma ação. Venha até mim, venha até mim, me beije...

Apesar de tudo ainda foi súbito sentir sua boca contra a minha, numa voracidade tão estonteante quanto seu olhar. Eu nunca fora beijado assim e foi uma experiência surreal. Ele parecia apreciar com tanto desejo o toque, com tanta vontade reprimida que eu julguei que sufocaria sem ar ali mesmo. Mas recuperei os sentidos ao respirar pelo nariz, tentando acompanhar aquele ritmo desenfreado e tão esfomeado que ele impôs. Minha boca se abriu automaticamente para a sua, com sua língua se enfiando e dominando o espaço sem oposição. O gosto leve de cafeína de sua boca e algo a mais me fez gemer baixo, ofegante, adorando aquela combinação. Jungkook parecia querer me esmagar contra si e eu não reclamaria um segundo.

Eu fiquei tão entregue ao beijo e a si que foi um baque ter seu corpo afastado inesperadamente do meu, me fazendo soluçar pela sensação ruim de vazio que me dominou. Ele se levantou e permaneceu de costas para mim, a respiração tão desregulada que suas costas se moviam potência. Fiquei sentado, abalado e atordoado com aquele que deveria ter sido o melhor beijo que já tive. Levei os dedos aos meus lábios que formigavam, sentindo-os úmidos e mais quentes que o normal. Quase doía ter sido privado de mais contato e eu estava em choque com aquilo. Eu esperava tudo menos aquilo.

- Me desculpa, hyung, eu não sei o que aconteceu... – ele pareceu recobrar um pouco a calma, mas eu via em seus olhos o quanto ficara perturbado. Eu não fora o único ali, meu coração se acalentou com o alívio.

- Na verdade sabemos sim. – sussurrei, ainda tocando meus lábios que latejavam pelo beijo tão violento.

- Eu... – ele pareceu pensar por um segundo, o rosto nublado de confusão, para então seguir rapidamente até a entrada do apartamento.

Jungkook me deixou sentado em uma confusão e dilema internos mais desconcertantes que já senti.

***

Apartamento 13, Busan

Depois daquele evento impactante, consegui recobrar a consciência para agir. Foi difícil me levantar do sofá e arrumar a bagunça com as sacolas, mas me distraiu o suficiente do que me esperava na sala. Eu via de longe as fotos, o envelope o cachecol berrante na sala. Abri um novo saco preto para jogar tudo aquilo fora e tive que segurar a ânsia de vômito que me assolou quando vi as fotos. Eu estava no metrô, caminhando pela rua, entrando no prédio, sorrindo, parecendo uma pessoa normal em seu dia a dia. Mas o que mais me adoeceu foi uma foto única de mim, dormindo em minha cama, em uma noite. Eu amassei e rasguei a foto num impulso nervoso, tremendo tanto.

Meu cérebro custava a assimilar que ele esteve ali, o filho da puta esteve ali, comigo, enquanto eu estava dormindo. Eu nunca me senti tão violado em minha vida e doía, como doía. Qualquer tipo de sanidade e segurança que eu poderia ter tido desvaneceu bem ali, junto com aquela foto. O cachecol seguiu o mesmo destino e pela primeira vez não li o envelope.

Foi uma pequena a única vitória pessoal contra Jiwoon. Eu sempre lia o que ele me dizia, eu sempre acompanhava as suas obsessões por mim e daquela vez eu escolhi não fazer isso. A instalação do sistema de digital seria feita naquele final de semana, eu poderia estar livre de uma vez por todas dele. Pelo menos ali eu ficaria livre. Eu não iria mais tentar fugir, me esconder pelos cantos, acuado e temeroso da minha própria sombra. Aquela quinta feira foi um marco importante para mim. Eu fora ferido, mas estava mais disposto ainda a reagir.

Então foi com culpa que liguei para Jungkook naquela noite de sexta, o convidando para me fazer companhia. Era errado, mas eu não conseguia esquecer aquele beijo e o quanto ele me fizera sentir em questão de segundos. Ele se desculpara longamente pelo telefone e eu aceitei com calma, por dentro ignorando suas palavras e apenas desejando mais. Combinamos uma amizade e cordialidade que sabíamos que não seria cumprida. Ainda pedi que ele abrisse um pedido de escolta para mim a partir de segunda feira, para que eu pudesse ter uma segurança fora de casa, algo que ele se prontificou a atender rapidamente. Meus dedos tremeram ao desligar a chamada e precisei respirar fundo. Era uma outra forma de lutar, me permitir seguir em frente, me permitir apagar Jiwoon de meu sistema.

Abri a porta, com o sistema de digital recém instalado, após a campainha ter tocado duas vezes. A parte sã do meu cérebro gritava que ainda não era tarde demais, que eu poderia evitar aquilo, que eu poderia afastar Jungkook e dar uma chance de ele ser feliz. De ter alguém que o merecia de verdade. Mas eu era egoísta e queria me dar aquela chance. Porque não ele? Quando eu possuiria outra chance como aquela, com alguém que demonstrasse se importar comigo e me desejar? Talvez tenha sido o destino colocando o garoto de sorriso simpático de coelho no meu caminho, sinalizando mudanças em minha vida. Como eu estava ansiando por uma mudança.

Jungkook estava com sua típica farda, dois copos de café e um sorriso no rosto. Uma formigação em minha orelha me fez levar a mão para coçar ali, mas antes mesmo que eu a alcançasse, havia sumido. Ignorei e foquei no que estava a minha frente. Devolvi o sorriso e peguei o copo que ele me oferecera, sentindo o cheiro de café com chantilly, o meu preferido.

Eu gostaria de dizer que gastamos um tempo conversando amenidades, com ele me distraindo e fazendo companhia, enquanto eu bebericava a bebida que eu nem era realmente fã. Por sorte o adocicado do chantilly a deixava mais afim para meu paladar. O mais novo conversou sobre a ronda que fizera aquela semana, um pouco sem jeito por eu estar lhe encarando tão atentamente. Ele sabia bem porque eu ligara para si usando seu número pessoal e não o da polícia. O moreno poderia ser jovem e um pouco desastrado, mas eu sabia que ele não era bobo. Ele sabia que as desculpas e formalidades eram uma fachada. Tentei não me sentir tão caçador observando a presa, mas era até divertido vê-lo engolir em seco. Eu ligara para si desejando que ele aceitasse meu convite e ele estar ali significava que sim, aceitara.

Não era difícil sorrir para si. Ele comentou sobre o sistema novo e falara que era segurança de topo, elogiando e falando que aquilo de ontem nunca mais ocorreria. Ficou um pouco sem graça por ter tocado no assunto, mas eu deixei passar. Jungkook estava mais falante que o normal, nervoso, falando que pedira para fazer a escolta para mim e que se prontificara de cara para ser ele a fazer isso. Ele mexia as mãos de forma nervosa quando larguei meu copo vazio na mesinha de centro, ao lado do seu que estava praticamente intocado, e me levantei até onde ele estava sentado no sofá.

Levei a mão esquerda até seu queixo, levantando seu rosto para que pudesse enxergá-lo melhor. Sua expressão mostrava seu nervosismo e ansiedade e decidi não prolongar aquilo mais, empurrando suavemente seu corpo até encostar no sofá por completo. Sentei em seu colo, uma perna de cada lado, segurando seu olhar um pouco arregalado.

- Hyung...

- Esquece o hyung por hoje, Jungkook. – comentei suave, não perdendo tempo em levar suas mãos até minha cintura.

O beijei, buscando aquele desejo de antes e o torpor que ele me causara. As mãos de Jungkook ganharam vida e apertaram minha cintura com força, me empurrando contra seu colo. Ele não buscou lutar, devolvendo o beijo que revelara tamanha e absurda química entre nós dois.

Jungkook me levantou em seu colo e me prendi a si enquanto ele caminhava até meu quarto cegamente, mas com confiança, sem interromper o beijo. Baguncei seus cabelos em meus dedos, impedindo-o de se afastar mesmo sem querer.

As coisas foram um borrão quando ele me jogou na cama, as roupas apenas atrapalhavam e ansiávamos pelo contato de pele com pele. Jungkook era faminto por minha boca e meu corpo de uma forma não esperada e me entreguei a si com sofreguidão. Era insano como ele me tocava com tanta confiança, como se houvesse se metamorfoseado, sabendo cada ponto e local certo para se dedicar, atento a cada gemido e implorar meu. Nunca me senti tão submisso na cama e arrebatado como ele conseguia me deixar.

O suor escorria pelos nossos corpos e gotejava, a nébula quente de puro tesão que nos envolvia e me deixava mais sem fôlego ainda. Imagens estranhas dos meus sonhos invadiram meus pensamentos e eu não pude deixar de comparar com os mais vívidos que tive, em que o sexo era tão grosseiro quanto aquele. O brilho da correntinha de Jungkook que eu nunca percebera que ele tinha me distraiu por um segundo daquele torpor que me sugava rapidamente. Seus cabelos molhados e sua expressão de pleno prazer sobre mim intensificaram mais o que eu sentia e levei minha mão esquerda de suas costas, onde arranhava com desejo, até seu rosto contraído.

Quando Jungkook abriu os olhos o orgasmo foi tão arrebatador que despejei meu sêmen em nós dois, sentindo os músculos do corpo inteiro se contraindo e o prazer me fazendo parar de respirar por alguns segundos. O apertei tão forte que não soube como ele não reclamou pelo aperto intenso. Fiquei preso em seu olhar enquanto ele ainda me penetrava, continuando os estímulos até o ponto de doer e eu sentir meu corpo tremer pela pane no sistema nervoso. Não demorou até ele soltar um gemido grave e se despejar dentro de mim, me preenchendo com mais calor.

Meu coração estava tão fora do ritmo e compasso que eu julguei estar tendo uma parada ali mesmo. Seus olhos eram tão, tão negros, que finalmente entendi a associação de olhar para um abismo. Eu não conseguia desviar o olhar deles. O torpor do orgasmo continuava indefinidamente e demorei a perceber que algo estava errado. Ele não saiu de dentro de mim ou mudou de expressão e o pânico me acertou tão forte que não consegui engolir a saliva da minha boca.

O pingente de sua corrente escorregou da nuca, brilhando tão forte que parecia me cegar. Era um único pingente, um círculo com uma palavra escrita. Minha mão escorregou de seu rosto e caiu imóvel sobre a cama, meus músculos não respondiam mais. Uma lágrima escorreu em meu rosto. Os olhos de Jungkook eram tão negros que eu não conseguia ver a pupila, tão negros que eu não conseguia ver nada ali, nenhum sinal de calor ou de conforto. O abismo sugava minha consciência e eu não pude fazer nada, incapaz. Meus sonhos se tornavam realidade.

Consegui sentir ele limpar minhas lágrimas antes de finalmente apagar em seus braços.

***

Apartamento 13, Busan

Jiwoon/Jungkook/Jeongguk

Jimin relaxou em meus braços e eu observei com fascínio sua expressão calma, os olhos fechados, os lábios carnudos avermelhados pelos beijos de antes, o nariz pequeno e delicado, as bochechas coradas... Ele era tão lindo. Eu ficava desnorteado só de pensar que uma pessoa tão maravilhosa quanto ele me amava, era meu, assim como eu era dele. E era assim que sempre seria.

Como descrever quando conheci Jimin? Foi o auge da minha vida, havia largado a faculdade e praticamente desistido de viver o mundo lá fora. Era apenas doente, podre e miserável e a pior parte eram as pessoas. Eu não fazia questão de me interessar por elas e foi algum tipo de força maior que me fez entrar em um site de relacionamentos para brincar com alguém. Eu já havia feito aquilo outras vezes, sabia como me precaver para não ser rastreado e encontrado, brincar com as pessoas me ajudava a sair do tédio que me consumia desde sempre. Era uma coisa boba e ridícula que eu praticava e que não trazia consequências, era um passatempo interessante. Então quando vi a foto de Jimin e seu status de solteiro, pensei em fazê-lo de minha próxima vítima. O problema se iniciou quando eu me envolvi em nossas conversas e Jeongguk passou a ser Jiwoon, quando me mesclei ao meu próprio personagem e me vi incapaz de brincar com aquele homem. Foi um choque descobrir que eu o amava. Eu amava alguém. Pela primeira vez eu sentia essa emoção. E era a pessoa mais doce e adorável que eu já conhecera. Ele era perfeito. A perfeição existia e era soletrada como P-A-R-K J-I-M-I-N.

Desde cada fio de cabelo até seus dedinhos do pé, a forma como ele sorria e seus olhos sumiam, a sua mania de pintar o cabelo de diversas cores, suas piadas questionáveis e fora de hora, seu charme inerente que ele sequer percebia. Park Jimin era a única pessoa naquele mundo que conseguiu prender minha atenção de forma apaixonada e devota. Eu me dediquei a fazê-lo se apaixonar por mim da mesma forma como ele fizera comigo, foi minha única meta em meses. Eu queria Park Jimin. Eu queria tanto que chegava a me dar calafrios à noite, toda vez que me tocava pensando em si, no quanto ansiava que ele estivesse ali comigo.

Não foi difícil descobrir tudo sobre ele, suas inseguranças e medos, toda pessoa as possui, e as usei para mantê-lo a mim. Cada dia que passava eu me encantava mais, mesmo quando ele ficava desesperado, agressivo, estranho, mesmo quando estava infeliz e vinha até mim – mesmo eu sendo a causa daquela infelicidade, era a mim que ele vinha e buscava proteção. E eu o protegeria. O fiz se livrar daquele mundo podre que ele vivia e infelizmente foi bem aí que tudo deu errado. Jimin ouviu demais o que aquele amigo imbecil dele dizia e terminou tudo comigo. Mas eu não podia deixar aquilo acabar ali. Jimin me conquistara, eu era dele e o fizera meu também, isso não era algo que podia ser desfeito assim.

Eu achara um motivo para viver, um motivo para não desistir da humanidade, e não abriria mão dele.

Foi tanto tempo tentando me manter invisível em sua vida que, quando planejei me revelar, fiquei dois dias sem dormir de tanta ansiedade. Cada detalhe foi repassado, como Jimin iria reagir, como fazê-lo se atrair por mim, o meu verdadeiro eu. Ou o molde de Jungkook que eu criara. O policial novato desajeitado e bobo, inofensivo, perfeito para ter sua confiança. Havia algum motivo para desconfiar? Não. Mas agora eu finalmente poderia ser Jeongguk, apenas eu, sem mais fachadas de Jiwoon ou Jungkook. Foi preciso tanto autocontrole para não meter os pés pelas mãos, atropelar as etapas. Para não simplesmente largar tudo e beijá-lo e fazê-lo meu. Quando ele estava deliciosamente vulnerável em meus braços naquele dia e me surpreendeu ao beijar meu pescoço, eu me senti perto de destruir a fachada. Nunca havia chegado tão perto de perder o controle quanto naquele dia. Sentir seus lábios pela primeira vez foi tão absurdo e meu pau ficou duro numa velocidade tão impressionante que precisei empurrá-lo e me afastara para não por tudo a perder. Quase destruí o plano de um mês em poucos segundos, apenas sentindo o quão saboroso eram seus lábios.

Chega senti ódio de Jungkook, o policial imbecil. Era Jungkook quem arrancava os sorrisos lindos de Park Jimin com uma facilidade surpreendente. Era Jungkook o nome que saia de sua boca, era Jungkook quem ele julgava estar ali. O autocontrole também fora de extrema importância ali. Como eu queria que Jimin me visse, quem eu realmente era. Mas não era possível, não ainda. Custou muito, mas agora Jimin era meu.

Eu sequer acreditava em deus, mas poderia clamar seu nome só de tê-lo em meus braços, sob meu corpo. A pele era tão macia, o cheiro doce dele era delicioso, melhor do que eu imaginara em sonhos. O cabelo loiro combinara com ele, mas nada superaria o vermelho. Esperava que ele pudesse voltar para aquela cor um dia, afinal, ele ficava mais perfeito ainda nela. Mesmo os chupões e marcas maculando sua pele tornavam a obra de arte mais apreciável. Beija-lo, finalmente penetrá-lo, me despejar dentro dele, possuí-lo... Eu estava em um êxtase inacreditável. Me sentia uma criança ganhando um presente ambicionado por um longo tempo. Eu me deliciara ao finalmente tê-lo e fora além do que eu poderia ter sequer imaginado. Era irreal eu ter achado a perfeição naquele mundo e queria tê-la para mim para sempre. Mas eu precisava pensar e agir.

Levantei da cama com rapidez e vesti minhas roupas, não ligando de ser uma farda de policial. Eu até arranjara emprego como um para ter a chance de ficar perto de Jimin, aquilo arrancou uma risadinha de mim. Aquele plano de me aproximar dele tinha algumas partes ridículas, mas que foram necessárias. Calcei as luvas de couro, úteis para serem usadas no frio e para não deixar marcas para trás, e ajeitei o seu quarto o máximo possível, não esquecendo de puxar o lençol sobre seu corpo maravilhoso, para esquentá-lo. Quase fiquei de pau duro novamente só de observá-lo, mas precisava manter a cabeça fria. Trouxera um saco preto comigo, onde joguei os copos de isopor de café, o dele onde coloquei a droga e o meu ainda intacto. Eu tinha algum tempo para ajeitar tudo antes de finalmente irmos.

Devo ter tido uma infeliz demora limpando onde quer que poderia ter resquícios de meu DNA e finalmente parti para o quarto. Eu tive que acelerar um pouco aquele desfecho do plano, meu amor conseguira uma forma de me bloquear de entrar em seu apartamento e pedira por escolta. Claro que eu não avisara aquilo à polícia, havia até me demitido hoje mesmo, alegando não ser o futuro que eu queria. Mal conseguia acreditar, mas meu pequeno estava realmente determinado a me manter longe de si. Aquilo me deixou com uma raiva fria, mas felizmente passou rápido. Eu precisava agir, ele estava apenas nervoso e estressado, não raciocinando bem. Eu prometi fazê-lo entender que ficaríamos juntos, que nosso lugar era um do lado do outro, e cumpriria aquilo.

Jimin ainda estava onde eu havia deixado, áureo e idílico, uma imagem quase divina que eu gravaria na mente a fogo. Isso me lembrou de puxar o colar que lhe dera semanas atrás do bolso, colocando em seu pescoço. O pingente escrito “eterno”, fazendo par com o meu, junto com a pedrinha vermelha me fez sorrir. Finalmente possuiríamos a nossa eternidade.

O lençol encontrou seu lugar junto do saco preto e vesti Jimin com uma roupa quente e confortável. Felizmente eu havia lembrado de um detalhe, o cachecol vermelho sangue que surrupiei do saco preto que ele tentara se livrar antes, enrolei em seu pescoço para deixá-lo protegido. Eu jurara protegê-lo e o faria.

O seu corpo era tão leve de ser carregado, fiz uma anotação mental de alimentá-lo bem, não era saudável ele perder peso assim. O trajeto até o carro foi feito em silêncio, o meu real estava estacionado fora do prédio, em uma viela. A madrugada estava escura e fria, não havia ninguém presente para suspeitar de algo. O saco preto fora jogado no porta malas e coloquei delicadamente seu corpo ao meu lado, na frente, prendendo o cinto. Lembrara até de pegar seus documentos, caso alguma intercorrência. Qualquer coisa Jimin estava dormindo pelo cansaço.

Não consegui evitar de analisar longamente sua figura macia e bonita no banco, os cabelos caídos de qualquer jeito sobre sua testa, a serenidade em seu rosto. Eu amava quando ele sorria, mas vê-lo calmo era melhor ainda, desfazia aquele vinco de suas sobrancelhas.

Finalmente. O caminho fora longo, mas o finalmente, finalmente chegara.

- Eu te amo, meu amor. Sempre cuidarei de você. – sussurrei antes de beijar os lábios suaves e quentes e dar partida no carro, rumo a nossa eternidade. 

5 de Outubro de 2018 às 19:54 1 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Amanda Figueiredo monachopsis: o sutil, mas persistente sentimento de estar fora de lugar. Jimin bottom e gravidinho squad🐣

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Kauany Souza Cabral Kauany Souza Cabral
29 de Novembro de 2018 às 00:23
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